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Insultar Marega vale 714 euros

por Pedro Correia, em 11.03.20

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Lembram-se da comoção nacional gerada pelo chamado caso Marega, quando este jogador do FC Porto, logo após ter marcado um golo ao Vitória de Guimarães, sua antiga equipa, abandonou o estádio D. Afonso Henriques em protesto contra insultos racistas que lhe dirigiram das bancadas? O país reagiu quase em uníssono: o Presidente da República apressou-se a mostrar indignação; o primeiro-ministro não quis ficar atrás; a coordenadora do Bloco de Esquerda proclamou-se «adepta  de Marega» mesmo sem ir em futebóis; o Observador noticiou o sucedido num título com 20 palavras, inovando na técnica jornalística.

Não faltou até quem bradasse «Somos todos Marega», com aquela habitual ponta de exagero que há cinco anos levou muitos a gritar «Somos todos Charlie» - incluindo aqueles que hoje se mostram prontos a aplaudir restrições ao direito à crítica e à liberdade de expressão, desde que ocorram num campo político ou ideológico adverso ao seu. E logo despontaram historiadores e sociólogos de pacotilha a sustentar que «somos um país de racistas».

 

Moussa Marega decidiu abandonar o campo a 16 de Fevereiro - faz hoje 24 dias. Como sucede nestes surtos de indignação, pontuados pelo frenesim das redes sociais, foi tudo muito intenso e ficou logo esquecido. Parece ter ocorrido há uma eternidade. 

Ninguém quis sequer saber como é que aquele coro de grunhidos racistas acabou punido pela chamada "justiça desportiva" deste doce país. Mas eu anotei: a Secção Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, numa deliberação de 3 de Março, decidiu multar o Vitória Sport Clube (de Guimarães) em 714 euros - repito,  por extenso: setecentos e catorze euros - pelo comportamento de parte dos seus adeptos naquele jogo, tendo até o cuidado de esclarecer que este irrisório montante em nenhum momento se relacionou com insultos racistas.

Siga para bingo. A indignação do momento agora é outra, seja qual for.

Onde andam os indignadinhos?

por Pedro Correia, em 07.03.20

Onde andam os indignadinhos que no tempo da prisão preventiva do antigo primeiro-ministro José Sócrates ferviam de comoção contra esta suposta indignidade e derramavam protestos diários em lençóis nos periódicos e uivavam jeremíadas nas pantalhas? Que horror, o "abuso da prisão preventiva". Que mancha na justiça. Que vergastada no sistema democrático.

Acontece que um jovem chamado Rui Pinto foi detido em 17 de Janeiro de 2019 e está sujeito desde 23 de Março a prisão preventiva. Há mais de um ano que se encontra encarcerado, portanto. Como é possível que alegados crimes de intromissão e violação de correspondência electrónica originem medidas preventivas tão duras?

É chocante e revoltante. No entanto, com raras e honrosas excepções, a gritaria de outrora deu lugar ao pesado silêncio actual. Os tais que dantes bradavam e rasgavam vestes devem ter esgotado toda a indignação na defesa de Sócrates: para Rui Pinto não sobrou nada.

Indignações

por José Navarro de Andrade, em 16.11.13

Daniel Albrigo, "sem título", 2009 

 

Sempre que alguém se declara indignado (indignadíssimo, zangado, quase revoltado, etc…), de quem me lembro irremediavelmente é de Dona Maria I, a Louca. Ninguém mais do que ela se terá indignado e com justa razão.

Enquanto pela Europa começavam a bruxulear as Luzes, em Lisboa Maria de Portugal não conseguia dormir, porque mal fechava as pálpebras via seu augusto pai lambido pelas labaredas do inferno, onde fora sem dúvida parar por conivência com as impiedades do Pombal, esse pé-de-cabra e cúmplice dos pedreiros. Como se não fosse punição que bastasse, durante o seu reinado Maria I padeceu o terramoto, soube da decapitação de Luís XVI de França pela turbamulta tricolor e morreram-lhe nos braços, em menos de um par de anos, seu marido (o apagadíssimo Pedro III, que além de real consorte era não menos real tio da Rainha), seu primogénito, José como o avô, sua filha e genro, todos levados pelas bexigas doidas. Que também lhe usurparam Frei Inácio de São Caetano, confessor privado da Rainha e a luminária que lhe fizera ver quão grandes seriam os pecados dos Braganças para que tantas desgraças amaldiçoassem o reino que lhes fora confiado pela natureza divina das coisas.

Isto sim é que é de pôr alguém louco de indignação.

Nesta era, provavelmente menos feroz, em que vivemos, ainda há, todavia, quem se indigne imensíssimo, mas em vez de rojar-se em penitências descabeladas como Dona Maria I, reclama estranhamente uns quaisquer diretos conexos por via da superioridade moral inerente à indignação. É confuso mas é mesmo assim. Tenho cá as minhas dúvidas que não seria para impedir que se indignassem que a pide espancava democratas, porque naqueles calabouços e em tais aflições sabia-se que a indignação é um mero estado de espírito intangível às sevícias, logo, quem lá fosse parar alguma coisa de útil haveria de ter praticado.

Mas hoje em dia, dir-se-ia que é suficiente para ter ar de justo que um se indigne e continue de camisa abotoada nos punhos, sem fazer nada por si nem pela vida. Talvez por isso – há-de ser defeito meu – me pareçam os indignados contemporâneos assim a dar para o reaccionário.

Os verdadeiros sonhadores, segundo Zizek

por Fernando Sousa, em 16.10.11

Slavoj Zizek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar aos indignados do movimento Occupy Wall Street. "Não se apaixonem por vocês próprios, nem pelo momento agradável que estamos a ter aqui. Os Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como a nossa vida normal e quotidiana será modificada", avisou. “Dirão que estão a sonhar, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar tal como estão por um tempo indefinido, como acontece com as mudanças cosméticas”. Deixo-vos com as palavras do filósofo esloveno, publicadas no Verso Books. No fim, talvez vos pareça também que enquanto uns ainda semeiam em terra cansada, outros lavram ao lado.


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