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Delito de Opinião

Poitier e Bogdanovich: olhar e ver

Pedro Correia, 08.01.22

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                    Sidney Poitier (1927-2022)                                     Peter Bogdanovich (1939-2022)

 

Morreram dois gigantes do cinema. Um actor (também cineasta) e um realizador (também intérprete) que sempre considerei "muito cá de casa", para pedir emprestada uma expressão que João Bénard da Costa imortalizou nos seus magníficos ensaios sobre a Sétima Arte.

 

Sidney Poitier, falecido anteontem aos 94 anos, foi pioneiro ao quebrar as barreiras raciais numa América ainda segregada. Primeiro actor negro a receber o Óscar para melhor intérprete masculino em Hollywood - por Lírios do Campo, em 1963. Só 40 anos depois houve outro a conseguir o mesmo: Denzel Washington, galardoado pela sua actuação em Dia de Treino

Vi Poitier em vários filmes icónicos. Incluindo Sementes de Violência (Richard Brooks, 1955), ainda no início de uma carreira que se prolongou por meio século, No Calor da Noite (Norman Jewison, 1967) e Adivinha Quem Vem Jantar (Stanley Kramer, 1967), neste contracenando com dois nomes quase lendários da tela: Katharine Hepburn e Spencer Tracy. Sempre com a sua figura austera e elegante, exibindo serenidade.

 

Peter Bogdanovich, que morreu também quinta-feira, aos 82 anos, chegou a ser um dos meus realizadores favoritos. Por filmes como A Última Sessão (1971) e Lua de Papel (1973). Pertencia à geração de George Lucas, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que sacudiu a poeira acumulada nos velhos estúdios da Califórnia, refrescando e revitalizando o cinema. Logo no seu filme de estreia, Alvos (1968), infelizmente pouco visto nos dias que correm.

Devo-lhe muito não apenas como espectador mas também como leitor. Porque alguns dos melhores textos sobre a Sétima Arte que conheço são dele, reunidos num excelente livro intitulado Pieces of Time, entre nós publicado na década de 80 sob o título Nacos de Tempo, reunindo crónicas e ensaios inseridos originalmente na revista EsquireÉ uma das obras que mais vezes reli. 

 

Nestes tempos destituídos de memória, cheios de celebridades instantâneas que se sucedem à cadência das estações do ano, muita gente não faz a menor ideia quem foram Poitier e Bogdanovich. Ainda em vida, já tinham sido arrumados no sótão das antiguidades. E os filmes a que estão associados tornaram-se em larga medida invisíveis por expiarem um pecado contemporâneo: pertencem a um século que já passou. Não são blockbusters, não induzem ao consumo de pipocas.

Bogdanovich, sobretudo, ensinou-me a diferença entre olhar e ver quando se trata de cinema. Ao recordar, naquela colectânea, cenas dos seus filmes favoritos - que também se tornaram meus.

Por exemplo, em Rio Bravo (Howard Hawks, 1959). John Wayne desce as escadas do gabinete do xerife e dirige-se a uns homens que o procuram. O actor é filmado de trás naquele seu característico jeito de andar, lento e oscilante, enquanto a imagem se suspende por instantes para melhor nos envolver no que ali se passa. Quase sem percebermos, tornamo-nos cúmplices de Wayne, «figura familiar, clássica - inconfundível seja qual for o ângulo - que se move num mundo de ilusão que conquistou em absoluto».

 

É isto o cinema, tão sério como a vida. Por ser indissociável dela.

 

Edward O. Wilson

jpt, 28.12.21

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(Edward O. Wilson na Gorongosa, fotografia de Piotr Naskrecki)

Morreu agora nos seus 92 anos o grande Edward. O. Wilson, biólogo que foi um autor crucial nas últimas décadas. O qual - desde a sua primeira visita a África decorrida há cerca de uma década, já ele octogenário - se tornou paladino da preservação do Parque da Gorongosa, que tomou como causa pois considerando-o exemplo máximo de biodiversidade. E sobre o qual publicou o  "Uma Janela Para a Eternidade".

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Dessa investigação, e seus efeitos, a National Geographic publicou uma reportagem, com uma esplêndida recolha fotográfica (de Joel Sartore), que aqui exemplifico, para atrair atenções de hipotéticos interessados:

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Deixo um pequeno filme sobre Wilson naquele terreno.

(The Guide: a bioblitz in Gorongosa, no sítio do Howard Hughes Medical Institute)

Como é óbvio a importância do trabalho do biólogo e do seu impacto em várias outras disciplinas muito ultrapassa a sua recente atenção sobre a ecologia em Moçambique. De um autor com tamanha e tão influente obra, mais do que botar algumas impressões pessoais sobre o seu impacto importa escutar e ler as suas palavras ou quem as conheça com intensidade, é essa a forma adequada de homenagem. Por isso deixo ligação para página com vários filmes de intervenções - todas de enorme interesse - de Edward O. Wilson. E ao seu obituário, escrito por Carl Zimmer, ontem publicado pelo New York Times.

O único poder dos jornalistas

Pedro Correia, 20.12.21

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9 de Novembro de 1989: a histórica conferência de imprensa em Berlim-Leste

 

Morreu há dias, com 92 anos, um jornalista que protagonizou um acontecimento capital do século XX. Riccardo Ehrman, italiano de origem polaca, trabalhava em 1989 como correspondente da Ansa em Berlim-Leste. No dia 9 de Novembro, numa conferência de imprensa, o porta-voz do então governo comunista, Günter Schabowski, anunciou a iminente publicação de uma lei destinada a facilitar a circulação rumo à metade ocidental da cidade. Ehrman fez então a pergunta que se impunha: «Quando entram em vigor as novas normas?» A resposta, algo atabalhoada do funcionário governamental, acelerou os acontecimentos: «Pelo que sei... entram já.» Foi quanto bastou para derrubar o Muro da Vergonha, erguido 28 anos antes

O jornalista rumou de imediato à sede da delegação da agência noticiosa italiana e escreveu num telex com prioridade máxima: «O Muro caiu.»

Fazia-se História. Com agá maiúsculo. 

 

Sabe-se hoje que o porta-voz, involuntariamente, induziu os jornalistas em erro. Não havia ordem formal para abrir a fronteira e permitir enfim a livre circulação entre os habitantes da Alemanha ocupada pelos soviéticos e a parte da cidade que havia ficado sob tutela militar norte-americana, francesa e britânica em 1945. Mas a pressão dos berlinenses cansados de décadas de opressão que logo acorreram em massa aos postos fronteiriços fez ruir na prática uma barreira que ainda não havia sido derrubada por decisão política. 

Ehrman trocou em 1991 Berlim por Madrid, onde chefiou a delegação da agência até se aposentar e ali se radicou até ao fim da vida. Certamente orgulhoso de ter cumprido a sua obrigação profissional naquele dia inesquecível. Assumindo o único verdadeiro poder de um jornalista: o de fazer perguntas.

Esqueçam as tretas do "quarto poder": não existe nenhum outro.

Efemérides Sangrentas

jpt, 19.10.21

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais de Facebook - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpetrado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia aqui no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...

 

Jorge Sampaio em Moçambique

jpt, 11.09.21

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[Fotografia de Jorge Brilhante]

Votei três vezes em Jorge Sampaio, uma para presidente de Lisboa e duas para presidente de Portugal. E pude assistir à sua visita a Moçambique em Abril de 1997, e aqui o recordo nessa época, muito justificadamente condecorando a tão saudosa Maria Inês Nogueira da Costa, excepcional directora do Arquivo Histórico de Moçambique, na presença do embaixador Ruy Brito e Cunha (encoberto) e do então jovem Mia Couto, ladeando pinturas de Malangatana e Noel Langa.
 
Essa visita foi um verdadeiro sucesso, promovendo um efectivo "degelo" nas relações entre os dois países. Algo que, como é evidente, correspondeu à postura de Chissano. Mas também muito se deveu a ele próprio, pelo empenho e cuidada afabilidade e também pela excelente equipa de assessores que organizara em Belém, a qual muito bem soube gizar o que então era fundamental. Sampaio voltaria a Maputo em 2001, então para uma cimeira da CPLP, um cenário multilateral que lhe dava uma agenda menos pressionante sendo então óbvio que ali se sentia imensamente bem, num afectivo "em casa".
 
Morreu ontem, aos 81 anos. Quaisquer críticas a algumas das suas decisões políticas suspendem-se agora. Que é o curial quando morre um homem probo.
 

Jorge Sampaio (18/09/1939 –10/09/2021)

Sérgio de Almeida Correia, 10.09.21

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(créditos: José Sena Goulão/LUSA)

 

No momento em que recebo a triste notícia do seu passamento, limitar-me-ei a deixar aqui aquilo que há alguns anos escrevi a seu respeito a propósito da atribuição do Prémio Nelson Mandela.

Pese embora as divergências, e foram muitas, a começar por Macau, e o modo como muitas vezes olhei para a sua  desconcertante acção política, não tenho mais nada a acrescentar, até porque defeitos todos temos, e com maior ou menor esforço procuramos combatê-los e melhorar.

As qualidades na medida certa é que ninguém as tem, mas alguns esforçam-se muito por tê-las nessa medida. E ele foi um deles.

Portugal tem imensa falta de cidadãos de corpo inteiro. Sentirei a sua ausência num mundo cada vez mais materialista e desprovido de valores.

 

"Entendo, por isso mesmo, que aquilo que deve ser valorizado na atribuição a Jorge Sampaio do Prémio Nelson Mandela 2015 é o que desde sempre o caracterizou e valorizou a sua acção aos olhos de todos: falo do seu empenho na afirmação dos valores da civilização – democracia, direitos humanos, cultura, educação, paz – através de uma cidadania activa. E é isto aquilo que também o aproxima do exemplo e da herança do homenageado que deu nome ao prémio.

A coragem na luta pela afirmação da justiça, a defesa dos direitos políticos, que são também e acima de tudo direitos de cidadania, a entrega pro bono do seu saber e da sua acção aos injustiçados desta vida, a procura da decência na pós-modernidade e na sociedade do risco de que Ülrich Becker falava, o desapego aos valores materiais, tudo isso faz parte das suas marcas. Jorge Sampaio é e sempre foi um institucionalista, como o foram à sua maneira Gunnar Myrdal, John K. Galbraith ou Jean Monnet, no sentido de atribuir valor ao papel desempenhado pelas instituições, por quem as serve nos cargos e nas interacções que por uns e outros podem ser geradas na construção de sociedades equilibradas. Mas sendo-o, ao contrário de muitos outros cuja acção também será meritória, sempre desvalorizou o penacho institucional, a mordomia parola, a pose afectada. Porque nenhum de nós, nenhuma nação, nenhum homem está sozinho neste mundo. E os homens servem as nações e as suas instituições para interagirem, para se entenderem, para afirmação colectiva e bem-estar dos povos, não para deleite egocêntrico ou puro exercício diletante.

O papel de Jorge Sampaio na afirmação universal das regras do jogo democrático, casos da Turquia e de Timor-Leste, bem como a sua intervenção nos debates e problemas que interessam e que afectam as sociedades contemporâneas – HIV-AIDS, combate à corrupção, reformas para combater o flagelo das drogas e do seu tráfico, defesa dos direitos das crianças e dos mais carenciados, luta contra a tuberculose, apoio aos estudantes sírios refugiados para poderem prosseguir os seus estudos –, sempre na procura de soluções inclusivas, foi incontornável, granjeando-lhe prestígio, estima e reconhecimento por parte da comunidade internacional. Como portugueses, só temos que nos sentir honrados com o seu trabalho." (in Ponto Final, 24/07/2015)

A morte de Carvalho

jpt, 26.07.21

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(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Estamos, é óbvio, no "grau zero".

 

Polémico e contraditório até ao fim

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Pedro Correia, 26.07.21

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Poucas personalidades foram mais contraditórias, no último meio século em Portugal, do que o comandante das operações militares do 25 de Abril de 1974. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, hoje falecido, tinha 37 anos nesse dia que derrubou o Estado Novo e viria a pôr fim à guerra que Portugal travava em três frentes africanas.

Com duas comissões cumpridas em Angola e uma terceira na Guiné, Otelo Saraiva de Carvalho não era militar de vocação. Sonhara ser actor e chegou a pisar os palcos em peças amadoras na sua cidade natal, Lourenço Marques, como então se denominava a capital de Moçambique, ainda sob domínio português.

Estes dotes histriónicos acompanharam-no sempre, dando-lhe um carisma que incendiou plateias nos anos de brasa da revolução, culminados na eleição presidencial de 1976, em que foi o segundo candidato mais votado. Com 16,5%, correspondendo a quase 800 mil votos entrados nas urnas, acabou derrotado por Ramalho Eanes. Que também o venceria nas eleições seguintes, em 1980. Neste ano, Otelo só recolheu 1,5% dos boletins. O seu tempo passara. O país que ele ajudara a abrir ao mundo, reconquistando a liberdade, não o acompanhou nas suas teses de «democracia popular» contra a democracia representativa.

(...)

À frente do Copcon, Otelo deu início à «revolução a todo o vapor», para usar um slogan muito popular na época. Enviava militares a apoiar ocupação de casas e terras, em nome do «poder popular». Convenceu-se de que podia ser o «Fidel Castro da Europa», como ele próprio confessou após uma visita a Havana, em que foi recebido com passadeira vermelha pelo ditador cubano.

Outras frases lhe ficaram associadas naquele Verão quente de 1975, em que este país de brandos costumes esteve a um passo da guerra civil. Disse de si próprio que estava pronto a «tomar o cavalo do poder» e quando os confrontos começaram nas ruas – de Rio Maior até ao Alto Minho as forças anticomunistas destruíam sedes dos partidos da esquerda radical – admitiu a hipótese de enviar «contra-revolucionários para o Campo Pequeno».

Quase meio século depois, neste país hoje membro da União Europeia, é difícil imaginar esses tempos para quem não os viveu. Havia um Governo provisório que não governava, uma economia paralisada por greves e «saneamentos de patrões», mandados de captura em branco que conduziam centenas de pessoas ao estabelecimento prisional de Caxias ao abrigo da chamada «legitimidade revolucionária». Portugal era então capa nas grandes revistas internacionais por se ter tornado num «manicómio em autogestão». (...)

A célebre frase de Ortega y Gasset sobre o homem ser produto das circunstâncias aplica-se como uma luva a Saraiva de Carvalho, que durante a ditadura chegou a ser instrutor da Legião Portuguesa e não possuía qualquer formação política. Nos meses que antecederam a preparação do golpe militar, entre Setembro de 1973 e Março de 1974, ele viria a emergir como o líder das operações. Bem-sucedidas, ao ponto de não terem causado derramamento de sangue entre militares das facções em confronto – velhos conhecidos das missões de guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

No quartel-general dos revoltosos, instalado na Pontinha, ele teve o momento de glória máxima – que os camaradas de armas sempre lhe reconheceram, atribuindo qualidades de estratego militar ao então major Saraiva de Carvalho. Todo este processo, que pôs fim a uma das mais velhas ditaduras da Europa, vem relatado no seu livro Alvorada em Abril, obra escrita na primeira pessoa e publicada em 1977. Indispensável como testemunho histórico.

Otelo ficou a meio da rota da liberdade. Esteve no 25 de Abril, mas faltou à chamada no 25 de Novembro. Ao contrário de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Jaime Neves, Pires Veloso e tantos outros. (...) Vencedor em Abril, figurou entre os vencidos de Novembro. Não deixou, no entanto, de ser um ícone revolucionário. (...)

Saraiva de Carvalho festejou 40 anos, em Agosto de 1976, já com o melhor da sua biografia atrás de si. Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela «democracia burguesa», como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.

 

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Foto: Inácio Ludgero / Visão

 

O pior veio depois, já na década de 80. Figura cimeira da Força de Unidade Popular, que o apoiou com manifesto insucesso na segunda corrida a Belém, acabou por patrocinar as chamadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista de extrema-esquerda que entre 1983 e 1987 assassinou 17 pessoas – incluindo o director-geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo-Branco. Em plena democracia, sem sequer o álibi do combate à ditadura. A alusão ao 25 de Abril, pervertendo esta data, tornava tudo ainda mais inaceitável.

Foi detido, sob a acusação de ser o cérebro da organização, e viria a ser condenado em tribunal. Cumpriu cinco anos de prisão por estes crimes cuja autoria sempre recusou, dizendo-se vítima de uma armadilha forjada pelo braço judicial do PCP. Acabou indultado e amnistiado em 2004, com outros membros daquela organização, culminando um processo que causou enorme celeuma.

(...)

Em Abril de 2011 afirmou em entrevista ao Jornal de Negócios que Portugal precisava novamente de «um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar». Nesse mesmo ano, noutra entrevista, confessou: «Se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução.» Em 2012, noutra das suas bravatas, considerou que estavam a ser «atingidos limites» que poderiam justificar uma intervenção das forças armadas para «derrubar o Governo» de Passos Coelho.

Era assim o cérebro da revolução dos cravos, agora falecido com 85 anos incompletos: herói para uns, vilão para outros. Polémico do princípio ao fim.

 

Versão abreviada de um texto que ontem publiquei na edição digital do semanário Novo

Dez anos sem Maria José

Pedro Correia, 06.07.21

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Fui repórter parlamentar durante cinco anos. Nessa qualidade, em representação do Diário de Notícias, tive o privilégio de conhecer excelentes deputados - em todas as bancadas. Uma das pessoas que mais me impressionaram, desde os meus dias iniciais na Assembleia da República, foi Maria José Nogueira Pinto. Quis o acaso que tivesse sido ela a primeira representante parlamentar com quem falei para redigir a minha notícia número um no DN, em Janeiro de 1997.

Entrevistei-a várias vezes depois disso, nomeadamente quando se tornou a primeira mulher a liderar uma bancada parlamentar em São Bento, eleita pelo CDS. Numa dessas ocasiões, concedeu-me a entrevista na fascinante mansão familiar do Campo Grande, repleta de livros, memórias e múltiplas marcas de discreto requinte.

Era frontal, enérgica, culta, determinada, profundamente empenhada na vida pública e com elevados padrões de ética pessoal que fazia questão de transpor para a política. Era uma mulher de convicções firmes e dotada de um carácter muito forte, mas que sabia dialogar com quem se situava nos quadrantes ideológicos mais diversos. Tinha um talento inato para a escrita (tal como o marido, Jaime Nogueira Pinto), interesses que iam muito para além da esfera política (foi ela quem me recomendou que lesse as obras de Nélida Piñon, por exemplo) e uma paciência limitada para a mediocridade reinante nos estados-maiores partidários.

Mantive um gosto enorme em conversar com ela, mesmo quando abandonei o Parlamento. Porque havia sempre alguma coisa a aprender com Maria José Nogueira Pinto. E houve, até ao fim: a extraordinária coragem física e a dignidade de que deu provas enfrentando a terrível doença que acabou por vitimá-la constituiu admirável - embora doloroso - exemplo para todos nós.

Custa-me a crer, mas já passaram dez anos. Há pessoas que deixam um vazio impossível de preencher. Foi o caso dela. Pensei isso na altura e continuo a pensar assim.

De moto para a eternidade

Pedro Correia, 03.06.21

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Carlos Santos Pereira (1950-2021)

 

Há uma fotografia de que gosto muito e tenho em destaque na divisão da casa a que chamo escritório. Estamos ambos à entrada de Vila Viçosa, empoleirados num muro, com a placa indicativa da bela povoação alentejana mesmo ao lado. Eu olho de frente para a objectiva. Ele, como de costume, olha noutra direcção. Como se, estando ali, já quisesse demandar outras paragens.

Foi assim que o conheci sempre, ao Carlos Santos Pereira, durante 40 anos de camaradagem jornalística: primeiro no Tempo, onde ele era correspondente em Moscovo até as autoridades soviéticas lhe darem guia de marcha, fartas da sua irreverência; depois no Público, onde foi o primeiro editor da secção Internacional; finalmente no Diário de Notícias, onde colaborava regularmente, especializando-se em temas relacionados com os Balcãs - uma das suas paixões mais duradouras, apenas superada pelo culto das motos de grande cilindrada.

 

Esta camaradagem perdurou muito para além das bancas de jornais. Ele era um dos manos mais velhos que tive o privilégio de manter nesta profissão de gente tão instável, tão irascível, tão desligada de afectos - como o Fernando Sousa, como o António Ribeiro Ferreira, como o saudoso João Carvalho noutras paragens. Éramos muito diferentes, mas estabelecemos uma relação de cumplicidade que ultrapassava o espaço físico concreto em que nos fomos cruzando, às vezes com anos de intervalo.

Almoçávamos por aí, jantávamos em ruidosas patuscadas nos mais diversos trilhos do País. Ele colaborou num suplemento literário que dirigi num jornal regional, era visita lá de casa, alinhava nas partidas de futebol organizadas por mim com amigos e simples conhecidos das mais diversas proveniências. Durante anos jogámos regularmente voleibol, duas noites por semana, na Escola Alemã de Lisboa. Quando vivi em Macau, recebi-o como hóspede numa inesperada visita dele em temporada de tufões.

O Carlos foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.

 

Tenho incontáveis histórias dele - várias impublicáveis, atendendo à linguagem de carroceiro que cultivava como imagem de marca, para escândalo de gente com tímpanos mais sensíveis. Quem o conhecia superficialmente nem supunha que era um indivíduo culto como poucos e leitor voraz, sobretudo de livros de História, sua especialidade académica. De tal maneira que de vez em quando, estava ele em Lisboa e eu no Oriente, pedia-me de lá livros que aqui não existiam, na era pré-Amazon. 

Uma dessas histórias aconteceu em 1982, na primeira visita de João Paulo II a Portugal. Aguardávamos como repórteres a chegada do Papa ao alto do Parque Eduardo VII, onde se concentravam dezenas de milhares de pessoas: mal chegou a viatura aberta com o pontífice em pé acenando à multidão vibrante, ele desata a aplaudi-lo com entusiasmo, ali a meu lado. Momentos antes blasfemava, proclamando-se ateu militante e furioso anticlerical.

Nunca esquecerei esse momento. Nem as cenas de nervosismo que causava ao debitar palavrões em russo ou ler ostensivamente o Pravda na redacção do Tempo, povoada de fervorosos anticomunistas. Desdobrava o jornal, em grande formato, e ali ficava a exibi-lo, só para irritação desses colegas mais exacerbados.

Iconoclasta, uma vez e outra. Se havia governo, ele era contra. Fosse na Cortina de Ferro, fosse no "degenerado mundo ocidental", a que aludia com desdém.

 

Devo-lhe muitas provas de amizade - desde logo, ter integrado a equipa inicial do Público, como primeiro correspondente em Macau, a convite dele. Esta amizade não esmorecia mesmo quando estávamos longos períodos sem conviver - incluindo nos tempos mais recentes, em que ele se fixou em Ourém, seu concelho de origem, e pôde desenvolver o gosto pela silvicultura na propriedade herdada dos pais, trocando a efémera escrita jornalística pela elaboração de livros. Deixou-nos pelo menos três: Da Jugoslávia à Jugoslávia (1999), Os Novos Muros da Europa (2001) e Guerras da Informação (2007). Terá deixado outros, ainda inéditos.

Passou na vida como personagem de romance. Com gavetas que persistia em manter fechadas - incluindo a sua experiência, que adivinho traumática, como militar na Guiné, durante a guerra. Arranquei-lhe muitas confidências, mas nesse domínio reservado nunca entrei: era pessoal e intransmissível. 

Já não nos reuníamos em jantaradas ou futeboladas, as animadas partidas de vólei tinham ficado para trás. Mas a corrente da amizade nunca se quebrou. Como era visível a cada reencontro, que começava com uma pergunta inevitável dele: «Então como vai a puta da vida?»

 

Perdi há dias este meu mano. Imagino-o a montar de moto para mais uma viagem - desta vez rumo à eternidade. E a acenar-me de lá, entre duas pragas sarcásticas. Em russo, só para chatear a tribo dos "amaricanos".

Do svidânia, Carlos. 

O meu encontro com Julião Sarmento

Pedro Correia, 05.05.21

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Um quadro de Julião Sarmento (1948-2021)

 

De poucas coisas na vida me arrependo. Alguma excepção, confirmando a regra, está sempre relacionada não com o que fiz mas com aquilo que deixei por fazer. Talvez nenhuma tão grande como naquele dia, na primeira metade da década de 80, em que entrevistei o pintor Julião Sarmento - então ainda longe de ser um dos nomes mais sonantes das artes plásticas portuguesas. Essa conversa, para um semanário que deixou há muito de publicar-se, correu bem apesar da timidez do pintor. De tal maneira que, à despedida, ele disse que gostaria de oferecer-me uma pintura. «Passe pelo meu atelier e leve uma à sua escolha», disse-me, generosamente.

Era uma espécie de regra de cortesia, corrente à época. Outros pintores que entrevistei na mesma altura - recordo Stella de Brito, Martins Gomes e Maria Fernanda Amado, por exemplo - ofereceram-me quadros que tinham ali disponíveis, na sequência imediata de entrevistas. 

Agradeci a Julião, mas acabei por não passar por lá. Por falta de tempo, falta de paciência, falta de motivação, falta de interesse ou outro motivo que não recordo. Coisas que se fazem (ou não fazem) aos vinte e poucos. À época, jamais pensei no possível valor não apenas estimativo mas monetário daquela pintura que poderia ter sido minha. Só reflecti nisso demasiado tarde, ao saber que obras suas foram vendidas em leilão por 30 mil euros. Ou 37 mil. Longe dos 250 mil euros que vale um quadro de Vieira da Silva. Ou até dos 90 mil euros em que foi avaliada uma obra do magnífico Júlio Pomar. Mesmo assim, uma quantia muito apreciável. Que podia ser potencialmente minha. Mas nunca foi.

Veio-me isto à memória ao saber ontem a triste notícia da sua morte - ainda prematura, aos 72 anos. Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil.

De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura. 

Um homem que amava a vida

Pedro Correia, 08.04.21

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Foto: Nuno Ferreira Santos / Público

 

Conhecia Jorge Coelho desde 1988. Travámos amizade em Macau, onde ele era membro do Executivo e enfrentou corajosamente uma enorme manifestação de polícias no território que ameaçavam invadir o palácio do Governo, numa noite tempestuosa em que a administração portuguesa se arriscava a cair na rua. Empunhando um megafone, com a eloquência que o País mais tarde lhe reconheceria noutros palcos, ele apaziguou os exaltados, indiferente à chuva que caía, e solucionou o problema recorrendo ao poder da palavra. Convicto de ter a razão do seu lado.

Reencontrei-o em Lisboa, sempre como jornalista, quando ele exerceu várias funções governativas (foi ministro da Presidência, da Administração Interna e do Equipamento Social), como braço direito de António Guterres e efectivo comandante-em-chefe do Partido Socialista. Com a tenacidade de sempre. Era um orador temível para as fileiras da oposição. Que o digam Marcelo Rebelo de Sousa, à época presidente do PSD, ou Marques Mendes, líder da bancada parlamentar laranja.

Mas era, ao mesmo tempo, alguém capaz de estabelecer laços com gente das mais diversas filiações partidárias, convicções ideológicas e simpatias clubísticas. Um agregador de talentos dispersos e um mobilizador de vontades individuais, muito para além do que o caderno de encargos oficial lhe exigia. 

 

O País deve-lhe um dos mais raros gestos de desprendimento político de que temos memória, na noite trágica em que caiu a ponte de Entre-os Rios, fez há pouco 20 anos.

Desde o primeiro momento, Jorge Coelho sentiu que não poderia permanecer em funções no Governo: cabia-lhe a pasta das obras públicas e, embora sem qualquer responsabilidade efectiva no sucedido, quis dar este louvável exemplo de cidadania.

«A culpa não pode morrer solteira», declarou já de madrugada, a 5 de Março de 2001, numa conferência de imprensa onde era visível a comoção dos próprios jornalistas perante aquele drama que enlutou o País. «Não ficaria bem com a minha consciência se continuasse», rematou. Os portugueses, em estado de choque, compreenderam bem o que este gesto e estas palavras significavam. 

 

Amigo dos seus inúmeros amigos, louvado por adversários, até respeitado pelos escassos inimigos. Era um beirão de Mangualde, produtor de queijos na sua Beira Alta, militante de uma causa que tarda em ser assumida como prioridade política: a do combate à desertificação e à pobreza do interior do País. 

Era também um sportinguista convicto, sócio há 34 anos do clube de Alvalade, que serviu como membro do Conselho Leonino, enquanto resistia às recorrentes pressões para se candidatar à presidência. Dotado de invulgar intuição, percebeu que aquele não era um desafio para ele. Tal como soube retirar-se da ribalta política no momento certo. E viria a afastar-se também da participação regular em programas de comentário televisivo, onde não deixava de fazer a pedagogia da moderação - virtude infelizmente em perda acelerada num cenário infestado de velhas e novas trincheiras onde o ódio funciona como ignição e chamariz.

 

Vencera um cancro há década e meia, quando chegou a supor-se condenado. A partir daí, abrandou o ritmo e passou a apreciar ainda mais a preciosa dádiva da vida. E a cultivar ainda com mais apreço as amizades.

Era um homem de bem. Deixou-nos há umas horas, cedo de mais, vítima de morte súbita. Ainda incrédulo, presto sentida e comovida homenagem à sua memória.

Dez anos sem Artur Agostinho

Pedro Correia, 23.03.21

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Fez ontem dez anos, morria em Lisboa um dos mais carismáticos comunicadores de sempre em Portugal - o grande Artur Agostinho, figura popularíssima do desporto, do cinema, da rádio e da televisão. Além de se distinguir na imprensa desportiva: durante mais de uma década, entre 1963 e 1974, dirigiu o jornal Record. Também esteve à frente do jornal do Sporting. Que era o clube dele. Leão de gema, com o coração verde e branco.

Muitos de nós recordaremos para sempre os seus vibrantes relatos radiofónicos em tardes de futebol e os programas em que deu a cara anos a fio na RTP - concursos, festivais da canção, séries, telenovelas e a apresentação do saudoso Domingo Desportivo, onde se falava da modalidade que mais nos apaixona mas sem insultos nem gritos. Ao contrário do que hoje sucede, serão após serão, em canais nada recomendáveis.

No papel mais memorável de todos quantos protagonizou durante uma carreira profissional que se prolongou por sete décadas na informação e no espectáculo, fazia de motorista. Contribuindo para o êxito d' O Leão da Estrela original, realizado em 1947 por Arthur Duarte. Nesse filme, cheio de cenas hilariantes, há um diálogo delicioso entre António Silva, que fingia ser seu patrão, e Artur Agostinho, que fingia ser chofer do outro. 

Discutem. Às tantas, o primeiro agarra-lhe no casaco e descobre um emblema do Sporting. E logo a discórdia dá lugar a um abraço cúmplice. Com o genial António Silva (também sportinguista na vida real) a rematar assim: 

«Se é Leão, é um homem de bem!»

 E era mesmo.

 

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

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Carmen Dolores 1924-2021

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da lingua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

Imagem do Google

A propósito de Marcelino da Mata

jpt, 16.02.21

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

Bye Bye, Claxon

Maria Dulce Fernandes, 31.01.21

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Sábado à noite, era noite de Claxon.

Crime, mistério, sexo, muita acção, violência e um sem-número de alusões à nona arte da nossa juventude, esta fantástica série foi gravada em 35mm com pós-produção cinematográfica, provavelmente a pensar no grande ecrã, quando se ficou por 13 fantásticos episódios televisionados.

O país em 1991 ainda não estava preparado para este tipo de seriado dito de antologia.

António Cordeiro protagonizou o anti-herói Claxon, um detective desorganizado que se movimentava nas sombras da noite e nos meandros do submundo do crime na cidade corrupta. Nas suas quase sempre emocionais investigações, contava com a ajuda inestimável da sua secretária Ruby Tuesday (Margarida Reis) e do enciclopédico repórter Rick Planeta (Ricardo Carriço) que o traziam informado e focado nas averiguações.

Com dezenas de participações especiais, Claxon foi uma série fora de série e considerada uma das melhores ficções nacionais de todos os tempos.

António Cordeiro deixou-nos ontem, vítima de doença prolongada.

Até sempre, Claxon

 

Foto retirada do Google

Carlos do Carmo, sílaba a sílaba

Pedro Correia, 04.01.21

 

O ano começou da pior maneira, logo no primeiro dia, com a notícia do falecimento de Carlos do Carmo, aos 81 anos.

Retirado dos palcos desde Novembro de 2019, o intérprete de Estrela da Tarde cantou Lisboa como ninguém. Como testemunham os inúmeros registos gravados da sua voz de timbre inconfundível, onde cada palavra se entendia na perfeição e cada sílaba soava de forma imaculada.

Ele não comia vogais. Nem mutilava consoantes.

 

 

«É um grande privilégio cantar a língua portuguesa», declarou o intérprete de Duas Lágrimas de Orvalho numa entrevista de 2016 à RTP conduzida por Fátima Campos Ferreira e em boa hora reposta em antena no canal público por estes dias. 

 

 

Neste dia triste de luto nacional em que lhe dizemos "até sempre", esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O' Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la. 

Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.