Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Jorge Sampaio em Moçambique

jpt, 11.09.21

maria ines.jpg

[Fotografia de Jorge Brilhante]

Votei três vezes em Jorge Sampaio, uma para presidente de Lisboa e duas para presidente de Portugal. E pude assistir à sua visita a Moçambique em Abril de 1997, e aqui o recordo nessa época, muito justificadamente condecorando a tão saudosa Maria Inês Nogueira da Costa, excepcional directora do Arquivo Histórico de Moçambique, na presença do embaixador Ruy Brito e Cunha (encoberto) e do então jovem Mia Couto, ladeando pinturas de Malangatana e Noel Langa.
 
Essa visita foi um verdadeiro sucesso, promovendo um efectivo "degelo" nas relações entre os dois países. Algo que, como é evidente, correspondeu à postura de Chissano. Mas também muito se deveu a ele próprio, pelo empenho e cuidada afabilidade e também pela excelente equipa de assessores que organizara em Belém, a qual muito bem soube gizar o que então era fundamental. Sampaio voltaria a Maputo em 2001, então para uma cimeira da CPLP, um cenário multilateral que lhe dava uma agenda menos pressionante sendo então óbvio que ali se sentia imensamente bem, num afectivo "em casa".
 
Morreu ontem, aos 81 anos. Quaisquer críticas a algumas das suas decisões políticas suspendem-se agora. Que é o curial quando morre um homem probo.
 

Jorge Sampaio (18/09/1939 –10/09/2021)

Sérgio de Almeida Correia, 10.09.21

22155608_VwJcj.jpeg

(créditos: José Sena Goulão/LUSA)

 

No momento em que recebo a triste notícia do seu passamento, limitar-me-ei a deixar aqui aquilo que há alguns anos escrevi a seu respeito a propósito da atribuição do Prémio Nelson Mandela.

Pese embora as divergências, e foram muitas, a começar por Macau, e o modo como muitas vezes olhei para a sua  desconcertante acção política, não tenho mais nada a acrescentar, até porque defeitos todos temos, e com maior ou menor esforço procuramos combatê-los e melhorar.

As qualidades na medida certa é que ninguém as tem, mas alguns esforçam-se muito por tê-las nessa medida. E ele foi um deles.

Portugal tem imensa falta de cidadãos de corpo inteiro. Sentirei a sua ausência num mundo cada vez mais materialista e desprovido de valores.

 

"Entendo, por isso mesmo, que aquilo que deve ser valorizado na atribuição a Jorge Sampaio do Prémio Nelson Mandela 2015 é o que desde sempre o caracterizou e valorizou a sua acção aos olhos de todos: falo do seu empenho na afirmação dos valores da civilização – democracia, direitos humanos, cultura, educação, paz – através de uma cidadania activa. E é isto aquilo que também o aproxima do exemplo e da herança do homenageado que deu nome ao prémio.

A coragem na luta pela afirmação da justiça, a defesa dos direitos políticos, que são também e acima de tudo direitos de cidadania, a entrega pro bono do seu saber e da sua acção aos injustiçados desta vida, a procura da decência na pós-modernidade e na sociedade do risco de que Ülrich Becker falava, o desapego aos valores materiais, tudo isso faz parte das suas marcas. Jorge Sampaio é e sempre foi um institucionalista, como o foram à sua maneira Gunnar Myrdal, John K. Galbraith ou Jean Monnet, no sentido de atribuir valor ao papel desempenhado pelas instituições, por quem as serve nos cargos e nas interacções que por uns e outros podem ser geradas na construção de sociedades equilibradas. Mas sendo-o, ao contrário de muitos outros cuja acção também será meritória, sempre desvalorizou o penacho institucional, a mordomia parola, a pose afectada. Porque nenhum de nós, nenhuma nação, nenhum homem está sozinho neste mundo. E os homens servem as nações e as suas instituições para interagirem, para se entenderem, para afirmação colectiva e bem-estar dos povos, não para deleite egocêntrico ou puro exercício diletante.

O papel de Jorge Sampaio na afirmação universal das regras do jogo democrático, casos da Turquia e de Timor-Leste, bem como a sua intervenção nos debates e problemas que interessam e que afectam as sociedades contemporâneas – HIV-AIDS, combate à corrupção, reformas para combater o flagelo das drogas e do seu tráfico, defesa dos direitos das crianças e dos mais carenciados, luta contra a tuberculose, apoio aos estudantes sírios refugiados para poderem prosseguir os seus estudos –, sempre na procura de soluções inclusivas, foi incontornável, granjeando-lhe prestígio, estima e reconhecimento por parte da comunidade internacional. Como portugueses, só temos que nos sentir honrados com o seu trabalho." (in Ponto Final, 24/07/2015)

A morte de Carvalho

jpt, 26.07.21

guine_paigc_nino_cabral.lgv1_.jpg

(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Estamos, é óbvio, no "grau zero".

 

Polémico e contraditório até ao fim

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Pedro Correia, 26.07.21

mw-320.jpg

 

Poucas personalidades foram mais contraditórias, no último meio século em Portugal, do que o comandante das operações militares do 25 de Abril de 1974. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, hoje falecido, tinha 37 anos nesse dia que derrubou o Estado Novo e viria a pôr fim à guerra que Portugal travava em três frentes africanas.

Com duas comissões cumpridas em Angola e uma terceira na Guiné, Otelo Saraiva de Carvalho não era militar de vocação. Sonhara ser actor e chegou a pisar os palcos em peças amadoras na sua cidade natal, Lourenço Marques, como então se denominava a capital de Moçambique, ainda sob domínio português.

Estes dotes histriónicos acompanharam-no sempre, dando-lhe um carisma que incendiou plateias nos anos de brasa da revolução, culminados na eleição presidencial de 1976, em que foi o segundo candidato mais votado. Com 16,5%, correspondendo a quase 800 mil votos entrados nas urnas, acabou derrotado por Ramalho Eanes. Que também o venceria nas eleições seguintes, em 1980. Neste ano, Otelo só recolheu 1,5% dos boletins. O seu tempo passara. O país que ele ajudara a abrir ao mundo, reconquistando a liberdade, não o acompanhou nas suas teses de «democracia popular» contra a democracia representativa.

(...)

À frente do Copcon, Otelo deu início à «revolução a todo o vapor», para usar um slogan muito popular na época. Enviava militares a apoiar ocupação de casas e terras, em nome do «poder popular». Convenceu-se de que podia ser o «Fidel Castro da Europa», como ele próprio confessou após uma visita a Havana, em que foi recebido com passadeira vermelha pelo ditador cubano.

Outras frases lhe ficaram associadas naquele Verão quente de 1975, em que este país de brandos costumes esteve a um passo da guerra civil. Disse de si próprio que estava pronto a «tomar o cavalo do poder» e quando os confrontos começaram nas ruas – de Rio Maior até ao Alto Minho as forças anticomunistas destruíam sedes dos partidos da esquerda radical – admitiu a hipótese de enviar «contra-revolucionários para o Campo Pequeno».

Quase meio século depois, neste país hoje membro da União Europeia, é difícil imaginar esses tempos para quem não os viveu. Havia um Governo provisório que não governava, uma economia paralisada por greves e «saneamentos de patrões», mandados de captura em branco que conduziam centenas de pessoas ao estabelecimento prisional de Caxias ao abrigo da chamada «legitimidade revolucionária». Portugal era então capa nas grandes revistas internacionais por se ter tornado num «manicómio em autogestão». (...)

A célebre frase de Ortega y Gasset sobre o homem ser produto das circunstâncias aplica-se como uma luva a Saraiva de Carvalho, que durante a ditadura chegou a ser instrutor da Legião Portuguesa e não possuía qualquer formação política. Nos meses que antecederam a preparação do golpe militar, entre Setembro de 1973 e Março de 1974, ele viria a emergir como o líder das operações. Bem-sucedidas, ao ponto de não terem causado derramamento de sangue entre militares das facções em confronto – velhos conhecidos das missões de guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

No quartel-general dos revoltosos, instalado na Pontinha, ele teve o momento de glória máxima – que os camaradas de armas sempre lhe reconheceram, atribuindo qualidades de estratego militar ao então major Saraiva de Carvalho. Todo este processo, que pôs fim a uma das mais velhas ditaduras da Europa, vem relatado no seu livro Alvorada em Abril, obra escrita na primeira pessoa e publicada em 1977. Indispensável como testemunho histórico.

Otelo ficou a meio da rota da liberdade. Esteve no 25 de Abril, mas faltou à chamada no 25 de Novembro. Ao contrário de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Jaime Neves, Pires Veloso e tantos outros. (...) Vencedor em Abril, figurou entre os vencidos de Novembro. Não deixou, no entanto, de ser um ícone revolucionário. (...)

Saraiva de Carvalho festejou 40 anos, em Agosto de 1976, já com o melhor da sua biografia atrás de si. Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela «democracia burguesa», como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.

 

210725_il-otelo-14-04-02-144-1600x1070.jpg

Foto: Inácio Ludgero / Visão

 

O pior veio depois, já na década de 80. Figura cimeira da Força de Unidade Popular, que o apoiou com manifesto insucesso na segunda corrida a Belém, acabou por patrocinar as chamadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista de extrema-esquerda que entre 1983 e 1987 assassinou 17 pessoas – incluindo o director-geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo-Branco. Em plena democracia, sem sequer o álibi do combate à ditadura. A alusão ao 25 de Abril, pervertendo esta data, tornava tudo ainda mais inaceitável.

Foi detido, sob a acusação de ser o cérebro da organização, e viria a ser condenado em tribunal. Cumpriu cinco anos de prisão por estes crimes cuja autoria sempre recusou, dizendo-se vítima de uma armadilha forjada pelo braço judicial do PCP. Acabou indultado e amnistiado em 2004, com outros membros daquela organização, culminando um processo que causou enorme celeuma.

(...)

Em Abril de 2011 afirmou em entrevista ao Jornal de Negócios que Portugal precisava novamente de «um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar». Nesse mesmo ano, noutra entrevista, confessou: «Se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução.» Em 2012, noutra das suas bravatas, considerou que estavam a ser «atingidos limites» que poderiam justificar uma intervenção das forças armadas para «derrubar o Governo» de Passos Coelho.

Era assim o cérebro da revolução dos cravos, agora falecido com 85 anos incompletos: herói para uns, vilão para outros. Polémico do princípio ao fim.

 

Versão abreviada de um texto que ontem publiquei na edição digital do semanário Novo

Dez anos sem Maria José

Pedro Correia, 06.07.21

8758292_GGGCN.jpeg

 

Fui repórter parlamentar durante cinco anos. Nessa qualidade, em representação do Diário de Notícias, tive o privilégio de conhecer excelentes deputados - em todas as bancadas. Uma das pessoas que mais me impressionaram, desde os meus dias iniciais na Assembleia da República, foi Maria José Nogueira Pinto. Quis o acaso que tivesse sido ela a primeira representante parlamentar com quem falei para redigir a minha notícia número um no DN, em Janeiro de 1997.

Entrevistei-a várias vezes depois disso, nomeadamente quando se tornou a primeira mulher a liderar uma bancada parlamentar em São Bento, eleita pelo CDS. Numa dessas ocasiões, concedeu-me a entrevista na fascinante mansão familiar do Campo Grande, repleta de livros, memórias e múltiplas marcas de discreto requinte.

Era frontal, enérgica, culta, determinada, profundamente empenhada na vida pública e com elevados padrões de ética pessoal que fazia questão de transpor para a política. Era uma mulher de convicções firmes e dotada de um carácter muito forte, mas que sabia dialogar com quem se situava nos quadrantes ideológicos mais diversos. Tinha um talento inato para a escrita (tal como o marido, Jaime Nogueira Pinto), interesses que iam muito para além da esfera política (foi ela quem me recomendou que lesse as obras de Nélida Piñon, por exemplo) e uma paciência limitada para a mediocridade reinante nos estados-maiores partidários.

Mantive um gosto enorme em conversar com ela, mesmo quando abandonei o Parlamento. Porque havia sempre alguma coisa a aprender com Maria José Nogueira Pinto. E houve, até ao fim: a extraordinária coragem física e a dignidade de que deu provas enfrentando a terrível doença que acabou por vitimá-la constituiu admirável - embora doloroso - exemplo para todos nós.

Custa-me a crer, mas já passaram dez anos. Há pessoas que deixam um vazio impossível de preencher. Foi o caso dela. Pensei isso na altura e continuo a pensar assim.

De moto para a eternidade

Pedro Correia, 03.06.21

1588157.jpg

Carlos Santos Pereira (1950-2021)

 

Há uma fotografia de que gosto muito e tenho em destaque na divisão da casa a que chamo escritório. Estamos ambos à entrada de Vila Viçosa, empoleirados num muro, com a placa indicativa da bela povoação alentejana mesmo ao lado. Eu olho de frente para a objectiva. Ele, como de costume, olha noutra direcção. Como se, estando ali, já quisesse demandar outras paragens.

Foi assim que o conheci sempre, ao Carlos Santos Pereira, durante 40 anos de camaradagem jornalística: primeiro no Tempo, onde ele era correspondente em Moscovo até as autoridades soviéticas lhe darem guia de marcha, fartas da sua irreverência; depois no Público, onde foi o primeiro editor da secção Internacional; finalmente no Diário de Notícias, onde colaborava regularmente, especializando-se em temas relacionados com os Balcãs - uma das suas paixões mais duradouras, apenas superada pelo culto das motos de grande cilindrada.

 

Esta camaradagem perdurou muito para além das bancas de jornais. Ele era um dos manos mais velhos que tive o privilégio de manter nesta profissão de gente tão instável, tão irascível, tão desligada de afectos - como o Fernando Sousa, como o António Ribeiro Ferreira, como o saudoso João Carvalho noutras paragens. Éramos muito diferentes, mas estabelecemos uma relação de cumplicidade que ultrapassava o espaço físico concreto em que nos fomos cruzando, às vezes com anos de intervalo.

Almoçávamos por aí, jantávamos em ruidosas patuscadas nos mais diversos trilhos do País. Ele colaborou num suplemento literário que dirigi num jornal regional, era visita lá de casa, alinhava nas partidas de futebol organizadas por mim com amigos e simples conhecidos das mais diversas proveniências. Durante anos jogámos regularmente voleibol, duas noites por semana, na Escola Alemã de Lisboa. Quando vivi em Macau, recebi-o como hóspede numa inesperada visita dele em temporada de tufões.

O Carlos foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.

 

Tenho incontáveis histórias dele - várias impublicáveis, atendendo à linguagem de carroceiro que cultivava como imagem de marca, para escândalo de gente com tímpanos mais sensíveis. Quem o conhecia superficialmente nem supunha que era um indivíduo culto como poucos e leitor voraz, sobretudo de livros de História, sua especialidade académica. De tal maneira que de vez em quando, estava ele em Lisboa e eu no Oriente, pedia-me de lá livros que aqui não existiam, na era pré-Amazon. 

Uma dessas histórias aconteceu em 1982, na primeira visita de João Paulo II a Portugal. Aguardávamos como repórteres a chegada do Papa ao alto do Parque Eduardo VII, onde se concentravam dezenas de milhares de pessoas: mal chegou a viatura aberta com o pontífice em pé acenando à multidão vibrante, ele desata a aplaudi-lo com entusiasmo, ali a meu lado. Momentos antes blasfemava, proclamando-se ateu militante e furioso anticlerical.

Nunca esquecerei esse momento. Nem as cenas de nervosismo que causava ao debitar palavrões em russo ou ler ostensivamente o Pravda na redacção do Tempo, povoada de fervorosos anticomunistas. Desdobrava o jornal, em grande formato, e ali ficava a exibi-lo, só para irritação desses colegas mais exacerbados.

Iconoclasta, uma vez e outra. Se havia governo, ele era contra. Fosse na Cortina de Ferro, fosse no "degenerado mundo ocidental", a que aludia com desdém.

 

Devo-lhe muitas provas de amizade - desde logo, ter integrado a equipa inicial do Público, como primeiro correspondente em Macau, a convite dele. Esta amizade não esmorecia mesmo quando estávamos longos períodos sem conviver - incluindo nos tempos mais recentes, em que ele se fixou em Ourém, seu concelho de origem, e pôde desenvolver o gosto pela silvicultura na propriedade herdada dos pais, trocando a efémera escrita jornalística pela elaboração de livros. Deixou-nos pelo menos três: Da Jugoslávia à Jugoslávia (1999), Os Novos Muros da Europa (2001) e Guerras da Informação (2007). Terá deixado outros, ainda inéditos.

Passou na vida como personagem de romance. Com gavetas que persistia em manter fechadas - incluindo a sua experiência, que adivinho traumática, como militar na Guiné, durante a guerra. Arranquei-lhe muitas confidências, mas nesse domínio reservado nunca entrei: era pessoal e intransmissível. 

Já não nos reuníamos em jantaradas ou futeboladas, as animadas partidas de vólei tinham ficado para trás. Mas a corrente da amizade nunca se quebrou. Como era visível a cada reencontro, que começava com uma pergunta inevitável dele: «Então como vai a puta da vida?»

 

Perdi há dias este meu mano. Imagino-o a montar de moto para mais uma viagem - desta vez rumo à eternidade. E a acenar-me de lá, entre duas pragas sarcásticas. Em russo, só para chatear a tribo dos "amaricanos".

Do svidânia, Carlos. 

O meu encontro com Julião Sarmento

Pedro Correia, 05.05.21

juliao-1024x798.png

Um quadro de Julião Sarmento (1948-2021)

 

De poucas coisas na vida me arrependo. Alguma excepção, confirmando a regra, está sempre relacionada não com o que fiz mas com aquilo que deixei por fazer. Talvez nenhuma tão grande como naquele dia, na primeira metade da década de 80, em que entrevistei o pintor Julião Sarmento - então ainda longe de ser um dos nomes mais sonantes das artes plásticas portuguesas. Essa conversa, para um semanário que deixou há muito de publicar-se, correu bem apesar da timidez do pintor. De tal maneira que, à despedida, ele disse que gostaria de oferecer-me uma pintura. «Passe pelo meu atelier e leve uma à sua escolha», disse-me, generosamente.

Era uma espécie de regra de cortesia, corrente à época. Outros pintores que entrevistei na mesma altura - recordo Stella de Brito, Martins Gomes e Maria Fernanda Amado, por exemplo - ofereceram-me quadros que tinham ali disponíveis, na sequência imediata de entrevistas. 

Agradeci a Julião, mas acabei por não passar por lá. Por falta de tempo, falta de paciência, falta de motivação, falta de interesse ou outro motivo que não recordo. Coisas que se fazem (ou não fazem) aos vinte e poucos. À época, jamais pensei no possível valor não apenas estimativo mas monetário daquela pintura que poderia ter sido minha. Só reflecti nisso demasiado tarde, ao saber que obras suas foram vendidas em leilão por 30 mil euros. Ou 37 mil. Longe dos 250 mil euros que vale um quadro de Vieira da Silva. Ou até dos 90 mil euros em que foi avaliada uma obra do magnífico Júlio Pomar. Mesmo assim, uma quantia muito apreciável. Que podia ser potencialmente minha. Mas nunca foi.

Veio-me isto à memória ao saber ontem a triste notícia da sua morte - ainda prematura, aos 72 anos. Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil.

De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura. 

Um homem que amava a vida

Pedro Correia, 08.04.21

743427.gif

Foto: Nuno Ferreira Santos / Público

 

Conhecia Jorge Coelho desde 1988. Travámos amizade em Macau, onde ele era membro do Executivo e enfrentou corajosamente uma enorme manifestação de polícias no território que ameaçavam invadir o palácio do Governo, numa noite tempestuosa em que a administração portuguesa se arriscava a cair na rua. Empunhando um megafone, com a eloquência que o País mais tarde lhe reconheceria noutros palcos, ele apaziguou os exaltados, indiferente à chuva que caía, e solucionou o problema recorrendo ao poder da palavra. Convicto de ter a razão do seu lado.

Reencontrei-o em Lisboa, sempre como jornalista, quando ele exerceu várias funções governativas (foi ministro da Presidência, da Administração Interna e do Equipamento Social), como braço direito de António Guterres e efectivo comandante-em-chefe do Partido Socialista. Com a tenacidade de sempre. Era um orador temível para as fileiras da oposição. Que o digam Marcelo Rebelo de Sousa, à época presidente do PSD, ou Marques Mendes, líder da bancada parlamentar laranja.

Mas era, ao mesmo tempo, alguém capaz de estabelecer laços com gente das mais diversas filiações partidárias, convicções ideológicas e simpatias clubísticas. Um agregador de talentos dispersos e um mobilizador de vontades individuais, muito para além do que o caderno de encargos oficial lhe exigia. 

 

O País deve-lhe um dos mais raros gestos de desprendimento político de que temos memória, na noite trágica em que caiu a ponte de Entre-os Rios, fez há pouco 20 anos.

Desde o primeiro momento, Jorge Coelho sentiu que não poderia permanecer em funções no Governo: cabia-lhe a pasta das obras públicas e, embora sem qualquer responsabilidade efectiva no sucedido, quis dar este louvável exemplo de cidadania.

«A culpa não pode morrer solteira», declarou já de madrugada, a 5 de Março de 2001, numa conferência de imprensa onde era visível a comoção dos próprios jornalistas perante aquele drama que enlutou o País. «Não ficaria bem com a minha consciência se continuasse», rematou. Os portugueses, em estado de choque, compreenderam bem o que este gesto e estas palavras significavam. 

 

Amigo dos seus inúmeros amigos, louvado por adversários, até respeitado pelos escassos inimigos. Era um beirão de Mangualde, produtor de queijos na sua Beira Alta, militante de uma causa que tarda em ser assumida como prioridade política: a do combate à desertificação e à pobreza do interior do País. 

Era também um sportinguista convicto, sócio há 34 anos do clube de Alvalade, que serviu como membro do Conselho Leonino, enquanto resistia às recorrentes pressões para se candidatar à presidência. Dotado de invulgar intuição, percebeu que aquele não era um desafio para ele. Tal como soube retirar-se da ribalta política no momento certo. E viria a afastar-se também da participação regular em programas de comentário televisivo, onde não deixava de fazer a pedagogia da moderação - virtude infelizmente em perda acelerada num cenário infestado de velhas e novas trincheiras onde o ódio funciona como ignição e chamariz.

 

Vencera um cancro há década e meia, quando chegou a supor-se condenado. A partir daí, abrandou o ritmo e passou a apreciar ainda mais a preciosa dádiva da vida. E a cultivar ainda com mais apreço as amizades.

Era um homem de bem. Deixou-nos há umas horas, cedo de mais, vítima de morte súbita. Ainda incrédulo, presto sentida e comovida homenagem à sua memória.

Dez anos sem Artur Agostinho

Pedro Correia, 23.03.21

22046911_Qceuj.jpeg

 

Fez ontem dez anos, morria em Lisboa um dos mais carismáticos comunicadores de sempre em Portugal - o grande Artur Agostinho, figura popularíssima do desporto, do cinema, da rádio e da televisão. Além de se distinguir na imprensa desportiva: durante mais de uma década, entre 1963 e 1974, dirigiu o jornal Record. Também esteve à frente do jornal do Sporting. Que era o clube dele. Leão de gema, com o coração verde e branco.

Muitos de nós recordaremos para sempre os seus vibrantes relatos radiofónicos em tardes de futebol e os programas em que deu a cara anos a fio na RTP - concursos, festivais da canção, séries, telenovelas e a apresentação do saudoso Domingo Desportivo, onde se falava da modalidade que mais nos apaixona mas sem insultos nem gritos. Ao contrário do que hoje sucede, serão após serão, em canais nada recomendáveis.

No papel mais memorável de todos quantos protagonizou durante uma carreira profissional que se prolongou por sete décadas na informação e no espectáculo, fazia de motorista. Contribuindo para o êxito d' O Leão da Estrela original, realizado em 1947 por Arthur Duarte. Nesse filme, cheio de cenas hilariantes, há um diálogo delicioso entre António Silva, que fingia ser seu patrão, e Artur Agostinho, que fingia ser chofer do outro. 

Discutem. Às tantas, o primeiro agarra-lhe no casaco e descobre um emblema do Sporting. E logo a discórdia dá lugar a um abraço cúmplice. Com o genial António Silva (também sportinguista na vida real) a rematar assim: 

«Se é Leão, é um homem de bem!»

 E era mesmo.

 

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

1554433.jpeg.jpg

Carmen Dolores 1924-2021

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da lingua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

Imagem do Google

A propósito de Marcelino da Mata

jpt, 16.02.21

marcelino da mata.jpg

"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

Bye Bye, Claxon

Maria Dulce Fernandes, 31.01.21

22006769_b4JeJ.jpeg

 

Sábado à noite, era noite de Claxon.

Crime, mistério, sexo, muita acção, violência e um sem-número de alusões à nona arte da nossa juventude, esta fantástica série foi gravada em 35mm com pós-produção cinematográfica, provavelmente a pensar no grande ecrã, quando se ficou por 13 fantásticos episódios televisionados.

O país em 1991 ainda não estava preparado para este tipo de seriado dito de antologia.

António Cordeiro protagonizou o anti-herói Claxon, um detective desorganizado que se movimentava nas sombras da noite e nos meandros do submundo do crime na cidade corrupta. Nas suas quase sempre emocionais investigações, contava com a ajuda inestimável da sua secretária Ruby Tuesday (Margarida Reis) e do enciclopédico repórter Rick Planeta (Ricardo Carriço) que o traziam informado e focado nas averiguações.

Com dezenas de participações especiais, Claxon foi uma série fora de série e considerada uma das melhores ficções nacionais de todos os tempos.

António Cordeiro deixou-nos ontem, vítima de doença prolongada.

Até sempre, Claxon

 

Foto retirada do Google

Carlos do Carmo, sílaba a sílaba

Pedro Correia, 04.01.21

 

O ano começou da pior maneira, logo no primeiro dia, com a notícia do falecimento de Carlos do Carmo, aos 81 anos.

Retirado dos palcos desde Novembro de 2019, o intérprete de Estrela da Tarde cantou Lisboa como ninguém. Como testemunham os inúmeros registos gravados da sua voz de timbre inconfundível, onde cada palavra se entendia na perfeição e cada sílaba soava de forma imaculada.

Ele não comia vogais. Nem mutilava consoantes.

 

 

«É um grande privilégio cantar a língua portuguesa», declarou o intérprete de Duas Lágrimas de Orvalho numa entrevista de 2016 à RTP conduzida por Fátima Campos Ferreira e em boa hora reposta em antena no canal público por estes dias. 

 

 

Neste dia triste de luto nacional em que lhe dizemos "até sempre", esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O' Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la. 

Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.

Maradona

jpt, 29.11.20

maradona.jpg

Há alguns séculos no leste do Mediterrâneo contavam-se inúmeras histórias populares. Para fixar e preservar essa oratura, ou folclore como também foi chamado, foi constituído o primeiro Centro de Estudos Etnográficos e Filológicos da história. Ficou conhecido como HOMERO (um acrónimo, ao que julgo saber).
 
Uma das histórias que esses etnógrafos recolheram foi a do herói - ou seja, bastardo de deus - Aquiles. Um tipo fora a casa de outro e fugira com a "mulher do dono". Há quem diga que foi um "rapto de mulher", qual sabina, outros - mais românticos - acreditam que foi coisa d'amor, pouco importa. Os amigos do dono juntaram-se e, em bando, foram recuperá-la. Não foi um coisa tipo KKK, pois apesar do atrevido viver na Ásia não era cigano. Nem preto. Foi muito mais uma cena de "padrinhos", que um chefe não rouba a mulher do outro, é isso a honra ...
 
Quando lá chegaram houve zanga, e grave: Aquiles era o nº 1 do ranking, o MVP da equipa, e por isso carregava a nº 10. Mas ainda assim o treinador, pois o "capo del tutti capi", Agamemnon de seu nome, roubou-lhe a escrava que ele usava sexualmente (nem o dr. Ba nem a Comissão da Condição Feminina têm abordado a situação com a atenção devida ...). Indignado, Aquiles amuou e recusou-se a ir a jogo. Cumpriram-se várias jornadas da competição e o torneio estava a correr mal aos forasteiros, desprovidos do seu astro. Então promoveram um sub-23, prometedor, deram-lhe a tal camisola 10 e a titularidade. Correu mal. Ao saber daquilo, do junior desgraçado, Aquiles caiu em fúria excessiva - logo tablóides aventaram, e ainda aventam pois sempre em busca de escândalos, que ambos eram LGBT, e isso apesar de toda a bronca devida à escrava sexual. Mas tablóide é tablóide.
 
Enfim, tão irado ficou o campeão que saiu à liça, teve uma entrada assassina sobre o capitão adversário, devastando-o de tal modo, completamente "à margem das leis", que o treinador adversário, condoído, entrou em campo a pedir calma.
 
(É certo que depois as coisas não vieram a correr bem a Aquiles. Pois num torneio posterior um tal de Erínea, ou terá sido o Nemésis, não sei bem, fez-lhe uma entrada venenosa ao calcanhar, tão grave que lhe acabou a carreira, de modo precoce).
 
A história ficou. E este é o modelo de herói que seguimos, e tanto amamos, há muito tempo. Nós os pérfidos "ocidentais", netos daquela Grécia. E muitos outros (atrevidos na "apropriação cultural" que desavergonhadamente fazem). Herói pois caprichoso, abusador, furioso, glorioso. Excessivo! E interrompido, breve, pois derrotado após um (in)findável ciclo de vitórias. Nisso tudo Semi-Deus. Frágil nisso, para além da Ética.
 
A ele regresso sempre. Mais agora quando vejo tanto rato de sacristia resmungar contra o nada-exemplar Maradona, pois nada molde de bom pai de família, de honesto pároco ou de recto professor. Pobre gente que nada percebe. Dos homens. E, mais do que tudo, dos deuses e seus bastardos ...
 
Aqui deixo Maradona no Argentina-Bélgica no campeonato do Mundo de 1986. Há quem perceba ... E quem não possa perceber.

Pintores sem prazo de validade

Pedro Correia, 24.11.20

cruzeiro-seixas-arte-pintura-obras-moty-gq-portugaO Rapto ou o Tão Amável Intruso, óleo de Cruzeiro Seixas (1972) no Museu Gulbenkian

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Júlio Pomar (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Manuel Cargaleiro (93 anos), João Abel Manta (92 anos), Arnulf Rainer (91 anos), Jasper Johns (90 anos) e Frank Auerbach (89 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Cruzeiro Seixas se despediu de nós a 8 de Novembro, a menos de um mês de completar 100 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Le ciel de Paris ne sera plus jamais le même

Sérgio de Almeida Correia, 25.09.20

"Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est l'âge dur
Ce n'est pas le meilleur des temps
Je sais, je l'ai vécu
J'ai dansé sur quelques volcans
Troué quelques souliers
Avec mes rêves et mes tourments
J'ai fait mes oreillers
Et je dis encore aujourd'hui :
Je suis comme je suis

Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est tout petit
Moi, je n'ai jamais eu le temps
D'avoir peur de la nuit
Ma maison est un soleil noir
Au centre de ma tête
J'y fais l'amour avec l'espoir
Et l'âme des poètes
Les poètes sont des enfants
Des enfants importants

Oui, je me souviens des jours
Quand les jours s'en allaient
Comme un rêve à l'envers
Oui, je me souviens des nuits
Quand les oiseaux parlaient
Sous la plume à Prévert

Moi, Monsieur, quand j'avais vingt ans
J'étais déjà perdue
Perdue, la rage entre les dents
Superbement perdue !
Moi, je dansais avec des morts
Plus vifs que les vivants
Et nous inventions l'âge d'or
Au seuil des matins blancs
J'ai toujours, chevillé au corps
Le même soleil levant

Non, Monsieur, je n'ai pas vingt ans!"

(paroles de Henri Gougaud, musique de Gérard Jouannest)

Vicente Jorge Silva (1945-2020)

Pedro Correia, 08.09.20

mw-860.jpg

Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora.