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Delito de Opinião

De moto para a eternidade

Pedro Correia, 03.06.21

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Carlos Santos Pereira (1950-2021)

 

Há uma fotografia de que gosto muito e tenho em destaque na divisão da casa a que chamo escritório. Estamos ambos à entrada de Vila Viçosa, empoleirados num muro, com a placa indicativa da bela povoação alentejana mesmo ao lado. Eu olho de frente para a objectiva. Ele, como de costume, olha noutra direcção. Como se, estando ali, já quisesse demandar outras paragens.

Foi assim que o conheci sempre, ao Carlos Santos Pereira, durante 40 anos de camaradagem jornalística: primeiro no Tempo, onde ele era correspondente em Moscovo até as autoridades soviéticas lhe darem guia de marcha, fartas da sua irreverência; depois no Público, onde foi o primeiro editor da secção Internacional; finalmente no Diário de Notícias, onde colaborava regularmente, especializando-se em temas relacionados com os Balcãs - uma das suas paixões mais duradouras, apenas superada pelo culto das motos de grande cilindrada.

 

Esta camaradagem perdurou muito para além das bancas de jornais. Ele era um dos manos mais velhos que tive o privilégio de manter nesta profissão de gente tão instável, tão irascível, tão desligada de afectos - como o Fernando Sousa, como o António Ribeiro Ferreira, como o saudoso João Carvalho noutras paragens. Éramos muito diferentes, mas estabelecemos uma relação de cumplicidade que ultrapassava o espaço físico concreto em que nos fomos cruzando, às vezes com anos de intervalo.

Almoçávamos por aí, jantávamos em ruidosas patuscadas nos mais diversos trilhos do País. Ele colaborou num suplemento literário que dirigi num jornal regional, era visita lá de casa, alinhava nas partidas de futebol organizadas por mim com amigos e simples conhecidos das mais diversas proveniências. Durante anos jogámos regularmente voleibol, duas noites por semana, na Escola Alemã de Lisboa. Quando vivi em Macau, recebi-o como hóspede numa inesperada visita dele em temporada de tufões.

O Carlos foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.

 

Tenho incontáveis histórias dele - várias impublicáveis, atendendo à linguagem de carroceiro que cultivava como imagem de marca, para escândalo de gente com tímpanos mais sensíveis. Quem o conhecia superficialmente nem supunha que era um indivíduo culto como poucos e leitor voraz, sobretudo de livros de História, sua especialidade académica. De tal maneira que de vez em quando, estava ele em Lisboa e eu no Oriente, pedia-me de lá livros que aqui não existiam, na era pré-Amazon. 

Uma dessas histórias aconteceu em 1982, na primeira visita de João Paulo II a Portugal. Aguardávamos como repórteres a chegada do Papa ao alto do Parque Eduardo VII, onde se concentravam dezenas de milhares de pessoas: mal chegou a viatura aberta com o pontífice em pé acenando à multidão vibrante, ele desata a aplaudi-lo com entusiasmo, ali a meu lado. Momentos antes blasfemava, proclamando-se ateu militante e furioso anticlerical.

Nunca esquecerei esse momento. Nem as cenas de nervosismo que causava ao debitar palavrões em russo ou ler ostensivamente o Pravda na redacção do Tempo, povoada de fervorosos anticomunistas. Desdobrava o jornal, em grande formato, e ali ficava a exibi-lo, só para irritação desses colegas mais exacerbados.

Iconoclasta, uma vez e outra. Se havia governo, ele era contra. Fosse na Cortina de Ferro, fosse no "degenerado mundo ocidental", a que aludia com desdém.

 

Devo-lhe muitas provas de amizade - desde logo, ter integrado a equipa inicial do Público, como primeiro correspondente em Macau, a convite dele. Esta amizade não esmorecia mesmo quando estávamos longos períodos sem conviver - incluindo nos tempos mais recentes, em que ele se fixou em Ourém, seu concelho de origem, e pôde desenvolver o gosto pela silvicultura na propriedade herdada dos pais, trocando a efémera escrita jornalística pela elaboração de livros. Deixou-nos pelo menos três: Da Jugoslávia à Jugoslávia (1999), Os Novos Muros da Europa (2001) e Guerras da Informação (2007). Terá deixado outros, ainda inéditos.

Passou na vida como personagem de romance. Com gavetas que persistia em manter fechadas - incluindo a sua experiência, que adivinho traumática, como militar na Guiné, durante a guerra. Arranquei-lhe muitas confidências, mas nesse domínio reservado nunca entrei: era pessoal e intransmissível. 

Já não nos reuníamos em jantaradas ou futeboladas, as animadas partidas de vólei tinham ficado para trás. Mas a corrente da amizade nunca se quebrou. Como era visível a cada reencontro, que começava com uma pergunta inevitável dele: «Então como vai a puta da vida?»

 

Perdi há dias este meu mano. Imagino-o a montar de moto para mais uma viagem - desta vez rumo à eternidade. E a acenar-me de lá, entre duas pragas sarcásticas. Em russo, só para chatear a tribo dos "amaricanos".

Do svidânia, Carlos. 

O meu encontro com Julião Sarmento

Pedro Correia, 05.05.21

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Um quadro de Julião Sarmento (1948-2021)

 

De poucas coisas na vida me arrependo. Alguma excepção, confirmando a regra, está sempre relacionada não com o que fiz mas com aquilo que deixei por fazer. Talvez nenhuma tão grande como naquele dia, na primeira metade da década de 80, em que entrevistei o pintor Julião Sarmento - então ainda longe de ser um dos nomes mais sonantes das artes plásticas portuguesas. Essa conversa, para um semanário que deixou há muito de publicar-se, correu bem apesar da timidez do pintor. De tal maneira que, à despedida, ele disse que gostaria de oferecer-me uma pintura. «Passe pelo meu atelier e leve uma à sua escolha», disse-me, generosamente.

Era uma espécie de regra de cortesia, corrente à época. Outros pintores que entrevistei na mesma altura - recordo Stella de Brito, Martins Gomes e Maria Fernanda Amado, por exemplo - ofereceram-me quadros que tinham ali disponíveis, na sequência imediata de entrevistas. 

Agradeci a Julião, mas acabei por não passar por lá. Por falta de tempo, falta de paciência, falta de motivação, falta de interesse ou outro motivo que não recordo. Coisas que se fazem (ou não fazem) aos vinte e poucos. À época, jamais pensei no possível valor não apenas estimativo mas monetário daquela pintura que poderia ter sido minha. Só reflecti nisso demasiado tarde, ao saber que obras suas foram vendidas em leilão por 30 mil euros. Ou 37 mil. Longe dos 250 mil euros que vale um quadro de Vieira da Silva. Ou até dos 90 mil euros em que foi avaliada uma obra do magnífico Júlio Pomar. Mesmo assim, uma quantia muito apreciável. Que podia ser potencialmente minha. Mas nunca foi.

Veio-me isto à memória ao saber ontem a triste notícia da sua morte - ainda prematura, aos 72 anos. Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil.

De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura. 

Um homem que amava a vida

Pedro Correia, 08.04.21

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Foto: Nuno Ferreira Santos / Público

 

Conhecia Jorge Coelho desde 1988. Travámos amizade em Macau, onde ele era membro do Executivo e enfrentou corajosamente uma enorme manifestação de polícias no território que ameaçavam invadir o palácio do Governo, numa noite tempestuosa em que a administração portuguesa se arriscava a cair na rua. Empunhando um megafone, com a eloquência que o País mais tarde lhe reconheceria noutros palcos, ele apaziguou os exaltados, indiferente à chuva que caía, e solucionou o problema recorrendo ao poder da palavra. Convicto de ter a razão do seu lado.

Reencontrei-o em Lisboa, sempre como jornalista, quando ele exerceu várias funções governativas (foi ministro da Presidência, da Administração Interna e do Equipamento Social), como braço direito de António Guterres e efectivo comandante-em-chefe do Partido Socialista. Com a tenacidade de sempre. Era um orador temível para as fileiras da oposição. Que o digam Marcelo Rebelo de Sousa, à época presidente do PSD, ou Marques Mendes, líder da bancada parlamentar laranja.

Mas era, ao mesmo tempo, alguém capaz de estabelecer laços com gente das mais diversas filiações partidárias, convicções ideológicas e simpatias clubísticas. Um agregador de talentos dispersos e um mobilizador de vontades individuais, muito para além do que o caderno de encargos oficial lhe exigia. 

 

O País deve-lhe um dos mais raros gestos de desprendimento político de que temos memória, na noite trágica em que caiu a ponte de Entre-os Rios, fez há pouco 20 anos.

Desde o primeiro momento, Jorge Coelho sentiu que não poderia permanecer em funções no Governo: cabia-lhe a pasta das obras públicas e, embora sem qualquer responsabilidade efectiva no sucedido, quis dar este louvável exemplo de cidadania.

«A culpa não pode morrer solteira», declarou já de madrugada, a 5 de Março de 2001, numa conferência de imprensa onde era visível a comoção dos próprios jornalistas perante aquele drama que enlutou o País. «Não ficaria bem com a minha consciência se continuasse», rematou. Os portugueses, em estado de choque, compreenderam bem o que este gesto e estas palavras significavam. 

 

Amigo dos seus inúmeros amigos, louvado por adversários, até respeitado pelos escassos inimigos. Era um beirão de Mangualde, produtor de queijos na sua Beira Alta, militante de uma causa que tarda em ser assumida como prioridade política: a do combate à desertificação e à pobreza do interior do País. 

Era também um sportinguista convicto, sócio há 34 anos do clube de Alvalade, que serviu como membro do Conselho Leonino, enquanto resistia às recorrentes pressões para se candidatar à presidência. Dotado de invulgar intuição, percebeu que aquele não era um desafio para ele. Tal como soube retirar-se da ribalta política no momento certo. E viria a afastar-se também da participação regular em programas de comentário televisivo, onde não deixava de fazer a pedagogia da moderação - virtude infelizmente em perda acelerada num cenário infestado de velhas e novas trincheiras onde o ódio funciona como ignição e chamariz.

 

Vencera um cancro há década e meia, quando chegou a supor-se condenado. A partir daí, abrandou o ritmo e passou a apreciar ainda mais a preciosa dádiva da vida. E a cultivar ainda com mais apreço as amizades.

Era um homem de bem. Deixou-nos há umas horas, cedo de mais, vítima de morte súbita. Ainda incrédulo, presto sentida e comovida homenagem à sua memória.

Dez anos sem Artur Agostinho

Pedro Correia, 23.03.21

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Fez ontem dez anos, morria em Lisboa um dos mais carismáticos comunicadores de sempre em Portugal - o grande Artur Agostinho, figura popularíssima do desporto, do cinema, da rádio e da televisão. Além de se distinguir na imprensa desportiva: durante mais de uma década, entre 1963 e 1974, dirigiu o jornal Record. Também esteve à frente do jornal do Sporting. Que era o clube dele. Leão de gema, com o coração verde e branco.

Muitos de nós recordaremos para sempre os seus vibrantes relatos radiofónicos em tardes de futebol e os programas em que deu a cara anos a fio na RTP - concursos, festivais da canção, séries, telenovelas e a apresentação do saudoso Domingo Desportivo, onde se falava da modalidade que mais nos apaixona mas sem insultos nem gritos. Ao contrário do que hoje sucede, serão após serão, em canais nada recomendáveis.

No papel mais memorável de todos quantos protagonizou durante uma carreira profissional que se prolongou por sete décadas na informação e no espectáculo, fazia de motorista. Contribuindo para o êxito d' O Leão da Estrela original, realizado em 1947 por Arthur Duarte. Nesse filme, cheio de cenas hilariantes, há um diálogo delicioso entre António Silva, que fingia ser seu patrão, e Artur Agostinho, que fingia ser chofer do outro. 

Discutem. Às tantas, o primeiro agarra-lhe no casaco e descobre um emblema do Sporting. E logo a discórdia dá lugar a um abraço cúmplice. Com o genial António Silva (também sportinguista na vida real) a rematar assim: 

«Se é Leão, é um homem de bem!»

 E era mesmo.

 

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

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Carmen Dolores 1924-2021

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da lingua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

Imagem do Google

A propósito de Marcelino da Mata

jpt, 16.02.21

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

Bye Bye, Claxon

Maria Dulce Fernandes, 31.01.21

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Sábado à noite, era noite de Claxon.

Crime, mistério, sexo, muita acção, violência e um sem-número de alusões à nona arte da nossa juventude, esta fantástica série foi gravada em 35mm com pós-produção cinematográfica, provavelmente a pensar no grande ecrã, quando se ficou por 13 fantásticos episódios televisionados.

O país em 1991 ainda não estava preparado para este tipo de seriado dito de antologia.

António Cordeiro protagonizou o anti-herói Claxon, um detective desorganizado que se movimentava nas sombras da noite e nos meandros do submundo do crime na cidade corrupta. Nas suas quase sempre emocionais investigações, contava com a ajuda inestimável da sua secretária Ruby Tuesday (Margarida Reis) e do enciclopédico repórter Rick Planeta (Ricardo Carriço) que o traziam informado e focado nas averiguações.

Com dezenas de participações especiais, Claxon foi uma série fora de série e considerada uma das melhores ficções nacionais de todos os tempos.

António Cordeiro deixou-nos ontem, vítima de doença prolongada.

Até sempre, Claxon

 

Foto retirada do Google

Carlos do Carmo, sílaba a sílaba

Pedro Correia, 04.01.21

 

O ano começou da pior maneira, logo no primeiro dia, com a notícia do falecimento de Carlos do Carmo, aos 81 anos.

Retirado dos palcos desde Novembro de 2019, o intérprete de Estrela da Tarde cantou Lisboa como ninguém. Como testemunham os inúmeros registos gravados da sua voz de timbre inconfundível, onde cada palavra se entendia na perfeição e cada sílaba soava de forma imaculada.

Ele não comia vogais. Nem mutilava consoantes.

 

 

«É um grande privilégio cantar a língua portuguesa», declarou o intérprete de Duas Lágrimas de Orvalho numa entrevista de 2016 à RTP conduzida por Fátima Campos Ferreira e em boa hora reposta em antena no canal público por estes dias. 

 

 

Neste dia triste de luto nacional em que lhe dizemos "até sempre", esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O' Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la. 

Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.

Maradona

jpt, 29.11.20

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Há alguns séculos no leste do Mediterrâneo contavam-se inúmeras histórias populares. Para fixar e preservar essa oratura, ou folclore como também foi chamado, foi constituído o primeiro Centro de Estudos Etnográficos e Filológicos da história. Ficou conhecido como HOMERO (um acrónimo, ao que julgo saber).
 
Uma das histórias que esses etnógrafos recolheram foi a do herói - ou seja, bastardo de deus - Aquiles. Um tipo fora a casa de outro e fugira com a "mulher do dono". Há quem diga que foi um "rapto de mulher", qual sabina, outros - mais românticos - acreditam que foi coisa d'amor, pouco importa. Os amigos do dono juntaram-se e, em bando, foram recuperá-la. Não foi um coisa tipo KKK, pois apesar do atrevido viver na Ásia não era cigano. Nem preto. Foi muito mais uma cena de "padrinhos", que um chefe não rouba a mulher do outro, é isso a honra ...
 
Quando lá chegaram houve zanga, e grave: Aquiles era o nº 1 do ranking, o MVP da equipa, e por isso carregava a nº 10. Mas ainda assim o treinador, pois o "capo del tutti capi", Agamemnon de seu nome, roubou-lhe a escrava que ele usava sexualmente (nem o dr. Ba nem a Comissão da Condição Feminina têm abordado a situação com a atenção devida ...). Indignado, Aquiles amuou e recusou-se a ir a jogo. Cumpriram-se várias jornadas da competição e o torneio estava a correr mal aos forasteiros, desprovidos do seu astro. Então promoveram um sub-23, prometedor, deram-lhe a tal camisola 10 e a titularidade. Correu mal. Ao saber daquilo, do junior desgraçado, Aquiles caiu em fúria excessiva - logo tablóides aventaram, e ainda aventam pois sempre em busca de escândalos, que ambos eram LGBT, e isso apesar de toda a bronca devida à escrava sexual. Mas tablóide é tablóide.
 
Enfim, tão irado ficou o campeão que saiu à liça, teve uma entrada assassina sobre o capitão adversário, devastando-o de tal modo, completamente "à margem das leis", que o treinador adversário, condoído, entrou em campo a pedir calma.
 
(É certo que depois as coisas não vieram a correr bem a Aquiles. Pois num torneio posterior um tal de Erínea, ou terá sido o Nemésis, não sei bem, fez-lhe uma entrada venenosa ao calcanhar, tão grave que lhe acabou a carreira, de modo precoce).
 
A história ficou. E este é o modelo de herói que seguimos, e tanto amamos, há muito tempo. Nós os pérfidos "ocidentais", netos daquela Grécia. E muitos outros (atrevidos na "apropriação cultural" que desavergonhadamente fazem). Herói pois caprichoso, abusador, furioso, glorioso. Excessivo! E interrompido, breve, pois derrotado após um (in)findável ciclo de vitórias. Nisso tudo Semi-Deus. Frágil nisso, para além da Ética.
 
A ele regresso sempre. Mais agora quando vejo tanto rato de sacristia resmungar contra o nada-exemplar Maradona, pois nada molde de bom pai de família, de honesto pároco ou de recto professor. Pobre gente que nada percebe. Dos homens. E, mais do que tudo, dos deuses e seus bastardos ...
 
Aqui deixo Maradona no Argentina-Bélgica no campeonato do Mundo de 1986. Há quem perceba ... E quem não possa perceber.

Pintores sem prazo de validade

Pedro Correia, 24.11.20

cruzeiro-seixas-arte-pintura-obras-moty-gq-portugaO Rapto ou o Tão Amável Intruso, óleo de Cruzeiro Seixas (1972) no Museu Gulbenkian

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Júlio Pomar (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Manuel Cargaleiro (93 anos), João Abel Manta (92 anos), Arnulf Rainer (91 anos), Jasper Johns (90 anos) e Frank Auerbach (89 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Cruzeiro Seixas se despediu de nós a 8 de Novembro, a menos de um mês de completar 100 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Le ciel de Paris ne sera plus jamais le même

Sérgio de Almeida Correia, 25.09.20

"Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est l'âge dur
Ce n'est pas le meilleur des temps
Je sais, je l'ai vécu
J'ai dansé sur quelques volcans
Troué quelques souliers
Avec mes rêves et mes tourments
J'ai fait mes oreillers
Et je dis encore aujourd'hui :
Je suis comme je suis

Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est tout petit
Moi, je n'ai jamais eu le temps
D'avoir peur de la nuit
Ma maison est un soleil noir
Au centre de ma tête
J'y fais l'amour avec l'espoir
Et l'âme des poètes
Les poètes sont des enfants
Des enfants importants

Oui, je me souviens des jours
Quand les jours s'en allaient
Comme un rêve à l'envers
Oui, je me souviens des nuits
Quand les oiseaux parlaient
Sous la plume à Prévert

Moi, Monsieur, quand j'avais vingt ans
J'étais déjà perdue
Perdue, la rage entre les dents
Superbement perdue !
Moi, je dansais avec des morts
Plus vifs que les vivants
Et nous inventions l'âge d'or
Au seuil des matins blancs
J'ai toujours, chevillé au corps
Le même soleil levant

Non, Monsieur, je n'ai pas vingt ans!"

(paroles de Henri Gougaud, musique de Gérard Jouannest)

Vicente Jorge Silva (1945-2020)

Pedro Correia, 08.09.20

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Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora. 

Amar ou odiar, ou tudo ou nada

Pedro Correia, 27.07.20

 

"Uma pequena história narrada numa escala épica." A definição é de Barry Norman, um dos mais prestigiados críticos de cinema britânicos, e parece a que melhor capta a essência deste filme desmesurado, que transcende todos os padrões do cinema conhecido no final da década de 30, e de algum modo antecipou tendências: E Tudo o Vento Levou funciona como raiz ancestral de todas as ficções telenovelescas que se tornaram uma maçadora banalidade dos nossos dias. A receita não voltou a pegar. Reveja-se O Gigante (George Stevens, 1956), por exemplo: não há comparação possível.

A diferença reside no carácter pioneiro desta ficção que pretende celebrar os "valores" sulistas dos EUA totalmente ao arrepio da torrente da história na América progressista de Franklin Roosevelt: há um certo charme neste assumido anacronismo. E é também uma questão de escala: tudo foi concebido em grande pelo produtor do filme, David O. Selznick -- megalómano, ególatra, dotado de uma tenacidade quase lendária, produtor ímpar da era de ouro do cinema norte-americano.

 

Selznick só sabia mesmo pensar em grande. Para ele, mais era sempre sinónimo de melhor: nunca se contentou em ficar a meio caminho. Reuniu a maior equipa técnica, o maior naipe de figurantes, o maior número de estrelas. Conseguiu o maior número de nomeações (onze, obtendo um total de oito estatuetas) para os Óscares de Hollywood. E sobretudo alcançou a maior receita de bilheteira: se actualizarmos o valor da inflação, E Tudo o Vento Levou foi provavelmente o maior campeão de bilheteira de todos os tempos.

O génio empresarial de Selznick ficou logo patente nessa brilhante jogada publicitária que foi a escolha do elenco para o filme, estreado no cinema Fox, em Atlanta, a 15 de Dezembro de 1939. Todas as actrizes conceituadas da época e muitas aspirantes ao estrelato, de uma forma ou outra, manifestaram interesse em conseguir o papel principal, o de Scarlett O' Hara.

A lista, para não variar neste empreendimento, era quilométrica: Bette Davis, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Paulette Goddard, Joan Bennett, Greer Garson, Norma Shearer, Loretta Young, Lana Turner, Irene Dunne, Ida Lupino, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Miriam Hopkins, Talluah Bankhead, Carole Lombard, Anita Louise, Ann Sheridan, Claudette Colbert, Susan Hayward, Margaret Sullavan, Frances Dee, Catherine Campbell. Um megaconcurso de testes cinematográficos que acabou por servir de rampa de lançamento para a fama de uma britânica de 25 anos, em início de carreira. Chamava-se Vivien Leigh.

 

Sem ela, E Tudo o Vento Levou não seria o que foi. Não seria o que é. Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória. Com a sua força de carácter, a sua vivacidade, o seu apego tenaz aos valores familiares, à herança do sangue, aos vínculos afectivos à terra-mãe. Numa das cenas mais marcantes do filme, o pai de Scarlett, Gerald O' Hara (grande interpretação de Thomas Mitchell, um dos secundários mais talentosos de Hollywood), diz-lhe: "A terra é a única coisa do mundo por que vale a pena lutar ou morrer."

Ela faz desta frase um lema de vida. E remete tudo o resto a um plano inferior, fiel ao juramento que fará mais tarde: "Deus é testemunha que não deixarei ninguém derrotar-me." Indiferente aos ventos da história, que sopram implacáveis contra o orgulhoso Sul tão bem descrito pelo capitão Rhett Butler (Clark Gable) em vésperas da eclosão da guerra civil norte-americana: os sulistas, sublinha ele, "só têm palavras, escravos e arrogância".

 

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Olivia de Havilland (1916-2020)

 

Guerra e amor, os dois maiores condimentos do cinema clássico, estão presentes em Gone With the Wind. Mas o que mais prende a atenção do espectador, num filme que tem largas dezenas de personagens, é o destino de um quarteto: Scarlett, Rhett, Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley. Personagens convictas, cada qual a seu modo, de que aquela guerra significaria "o fim do nosso mundo", como um angustiado Ashley (Leslie Howard) diz à sua apaixonada Scarlett em vésperas da mobilização geral no Sul.

Ironias do destino: no momento em que o filme estreou, também na vida real se travava uma guerra que mudaria para sempre a face do mundo. E o britânico Leslie Howard estaria envolvido nela, como agente de Churchill, acabando por ser abatido em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol, pela aviação nazi.

 

Selznick, um homem que gostava de mulheres, estava certo: sem o fabuloso desempenho de Vivien Leigh, E Tudo o Vento Levou seria quase uma ficção banal. A belíssima britânica faz toda a diferença em cada cena da longa-metragem, transmitindo-lhe uma autenticidade quase inigualável na história do cinema. Não foi por acaso que recebeu o Óscar, suplantando os colegas do sexo masculino: Howard parece sempre um pouco deslocado neste filme e Gable limita-se a fazer o papel de... Gable.

Vivien só encontra aqui duas competidoras à altura do seu talento. Ambas negras, ambas vítimas do racismo sulista que não as deixou brilhar na memorável estreia de Atlanta: Hattie McDaniel, no papel de Mammy, e Butterfly McQueen, no papel de Prissy (que gozaria enfim de um merecido destaque nas celebrações das bodas de ouro do filme, em Dezembro de 1989).

 

E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O' Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais -- os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?

Qual o segredo de Selznick para que este filme de 1939 parecesse muito à frente da sua época e ainda hoje permaneça no imaginário dos espectadores? O segredo de sempre: soube rodear-se dos melhores. Entre a equipa de argumentistas, por exemplo, figurou um tal Scott Fitzgerald. Capaz, como outros, de reduzir as 1037 páginas do romance de Margaret Mitchell, galardoada com o Pulitzer, para cerca de um terço. Por uma vez sem exemplo, less was more.

 

Comecei por falar em Selznick, acabo o texto também a invocá-lo. Porque nenhum outro grande protagonista do cinema como ele perturbou tanto a "política de autores" teorizada na década de 50 por alguns críticos franceses, que centravam as suas análises no realizador, apontando-o como o verdadeiro autor de um filme.

Selznick era uma carta fora do baralho: é dele que se fala ainda hoje, quando se fala de Gone With the Wind. O filme chegou a ter quatro realizadores: Victor Fleming, único que figurou nos créditos finais, George Cukor (responsável por algumas cenas marcantes, como a da discussão inicial entre Scarlett e Mammy), Sam Wood e o fotógrafo William Cameron Menzies. Mas é um filme de Selznick, sem sombra de dúvida. Num tempo em que o produtor concebia a obra de arte e o realizador era apenas o seu artífice. Outros tempos, outros costumes. Numa cena capital, Rhett diz para Scarlett: "É um momento histórico. Pode dizer aos seus netos como viu o Sul desaparecer numa noite."

A última frase do filme, proferida por uma Vivien Leigh em estado de graça, é uma das mais célebres de sempre na Sétima Arte: "Amanhã será outro dia." Verdade histórica, verdade cinematográfica. O facto é que o cinema não voltaria a ser o mesmo.

 

Gone with the Wind. Ou na versão portuguesa, que sempre preferi, E Tudo o Vento Levou. Já que estamos mergulhados num melodrama, carreguemos nas tintas melodramáticas. Como escreveu o poeta Fausto Guedes Teixeira, num poema que certamente Scarlett apreciaria: "Amar ou odiar / Ou tudo ou nada: / O meio termo é que não pode ser / (...) Amemos muito como odiamos já! / A verdade está sempre nos extremos / Pois é no sentimento que ela está."

Às vezes convém trair a letra para permanecer fiel ao espírito. É o caso.

 

Texto reeditado em memória de Olivia de Havilland, agora falecida, aos 104 anos.

Ennio Morricone

Sérgio de Almeida Correia, 06.07.20

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O mundo foi hoje surpreendido com o falecimento de Ennio Morricone, vítima de uma queda com uma idade (91 anos) em que devia ser proibido cair.

O aclamado compositor e maestro italiano, vencedor de dois Óscares (2007, pela carreira, e 2016, pela banda sonora de “The Hateful Eight”), foi autor de algumas das mais inesquecíveis melodias para o cinema, tendo trabalhado com inúmeros realizadores.

Primeiro com Sergio Leone, de quem foi colega de escola, a partir da década de 60 do século passado, nos chamados Western Spaghetti, depois com quase todos os grandes nomes da realização. Bertolluci, John Carpenter, Brian de Palma, Giuseppe Tornatore (no inesquecível “Malèna”), Barry Levinson ou Quentin Tarantino foram apenas alguns.

De “Por um punhado de dólares” a “Cinema Paraíso”, de “O bom, o mau e o feio”, a “Era uma vez na América”, de “Frantic” a “Os homens do presidente”, sem esquecer “Sacco & Vanzetti”, a “Missão” ou “Kill Bill”, foram mais de quinhentas composições e bandas sonoras para o cinema.

Estudou na Academia de Santa Cecília, em Roma, onde se diplomou em trompete. Reconhecido em todo o mundo pela excelência do seu trabalho, a banda irlandesa U2 dedicar-lhe-ia uma música (Magnificent).

Em Outubro de 2007 fez uma incursão pela política italiana, integrando a lista de Walter Veltroni. Participou nas primárias e acabou eleito para a então Assembleia Constituinte do Partido Democrático.

Parte o homem que, como alguém disse, não era apenas um compositor de música para filmes, mas um grande compositor.

Ficará a saudade, e  uma obra monumental que continuará a ser ouvida até ao fim dos tempos

Saramago e o Portugal de sempre

Pedro Correia, 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

Lição de arte, lição de vida

Pedro Correia, 17.04.20

           Rubem Fonseca - 1 - 1987 - LÚCIA MCCARTNEY.jpg Luis+Sepulveda+Discussing+New+Book+La+Lampara+PFWQ

 

Um contraste gritante. Com horas de intervalo morreram dois grandes escritores, Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. O primeiro foi praticamente ignorado enquanto o segundo era merecidamente enaltecido. Uma chocante disparidade de tratamento jornalístico. Desmentindo aquela frase batida acerca da equivalência universal imposta pela morte. Existe uma hierarquia nos obituários que por vezes não entendo.

É certo que a morte de Sepúlveda veio embrulhada no registo monotemático do coronavírus. Tivesse Rubem falecido de Covid-19, e não de um banal enfarte aos 94 anos, certamente merecia mais espaço e maiores loas. Sem desprimor para Sepúlveda, que cheguei a conhecer numa Feira do Livro de Lisboa e me comoveu com o seu O Velho que Lia Romances de Amor, o autor de A Grande Arte teria merecido no mínimo igual destaque. Para mim, admirador confesso da sua escrita, inconfundível como poucas, este mineiro de nascimento e carioca de adopção era o maior contista vivo do nosso idioma.

Sepúlveda, sem dúvida, tinha uma relação afectiva com Portugal. E foi cá, infelizmente, que terá sido infectado, embora as dúvidas persistam pois nenhum dos outros participantes nas Correntes d' Escrita acusou positivo no teste ao vírus, que o malogrado escritor chileno poderia ter contraído antes. Mas o autor d' O Caso Morel trazia Portugal não apenas no coração mas também no sangue: era filho de imigrantes transmontanos e as alusões à pátria de origem abundavam na sua obra. Uma das maiores alegrias que recebeu foi a merecida consagração com o Prémio Camões, em 2003. Podia e devia ter recebido outros, de diferentes latitudes, pois o seu talento tinha expressão universal.

«Parecendo amoral, encerra uma profunda nostalgia por uma moralidade perdida ou por reencontrar», como justamente observou Jaime Nogueira Pinto.

 

Devo a Rubem Fonseca algumas das mais proveitosas horas que tenho vivido como leitor. Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas e raras vezes se deixava fotografar. O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado.

Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado. Fruto da inspiração? Não: produto de muito trabalho, invisível e persistente. «Escreva todo dia. Se estiver com preguiça, senta e escreve qualquer coisa, nem que seja uma vírgula», recomendava Rubem, agora invocado por Jô Soares.

Lição de arte, lição de vida.

 

Leitura complementar:

Um mar de lama. Sobre Agosto, romance de Rubem Fonseca.

Grandes contos (11). Sobre Passeio Nocturno, conto de Rubem Fonseca.

Luís Sepúlveda (1949-2020).

Luís Menezes Leitão, 16.04.20

Tenho imensa pena pelo falecimento do escritor Luís Sepúlveda, do qual li a maioria dos seus livros. Era um escritor que adorava Portugal, o que lhe ficou do facto de, ao contrário do que habitualmente lhe sucedia, não ter sido controlado na nossa fronteira, tendo antes o guarda do aeroporto lhe perguntado se não era o autor do livro O velho que lia romances de amor, e perante a resposta afirmativa, tê-lo mandado imediatamente passar.

A sua morte é um aviso para os que querem minimizar os riscos da doença Covid-19. A pessoa infectada pode adquirir uma insuficiência respiratória que, nos casos mais graves, o obriga a estar entubado com um ventilador durante semanas. Os doentes só conseguem suportar esse tratamento se forem colocados em coma induzido. Depois se vê quem recupera e quem infelizmente não sobrevive a esse inimigo insidioso e traiçoeiro.

Luís Sepúlveda perdeu infelizmente essa batalha. Ficamos com os seus livros para recordar a sua passagem pelo mundo.