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Vicente Jorge Silva (1945-2020)

por Pedro Correia, em 08.09.20

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Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora. 

Amar ou odiar, ou tudo ou nada

por Pedro Correia, em 27.07.20

 

"Uma pequena história narrada numa escala épica." A definição é de Barry Norman, um dos mais prestigiados críticos de cinema britânicos, e parece a que melhor capta a essência deste filme desmesurado, que transcende todos os padrões do cinema conhecido no final da década de 30, e de algum modo antecipou tendências: E Tudo o Vento Levou funciona como raiz ancestral de todas as ficções telenovelescas que se tornaram uma maçadora banalidade dos nossos dias. A receita não voltou a pegar. Reveja-se O Gigante (George Stevens, 1956), por exemplo: não há comparação possível.

A diferença reside no carácter pioneiro desta ficção que pretende celebrar os "valores" sulistas dos EUA totalmente ao arrepio da torrente da história na América progressista de Franklin Roosevelt: há um certo charme neste assumido anacronismo. E é também uma questão de escala: tudo foi concebido em grande pelo produtor do filme, David O. Selznick -- megalómano, ególatra, dotado de uma tenacidade quase lendária, produtor ímpar da era de ouro do cinema norte-americano.

 

Selznick só sabia mesmo pensar em grande. Para ele, mais era sempre sinónimo de melhor: nunca se contentou em ficar a meio caminho. Reuniu a maior equipa técnica, o maior naipe de figurantes, o maior número de estrelas. Conseguiu o maior número de nomeações (onze, obtendo um total de oito estatuetas) para os Óscares de Hollywood. E sobretudo alcançou a maior receita de bilheteira: se actualizarmos o valor da inflação, E Tudo o Vento Levou foi provavelmente o maior campeão de bilheteira de todos os tempos.

O génio empresarial de Selznick ficou logo patente nessa brilhante jogada publicitária que foi a escolha do elenco para o filme, estreado no cinema Fox, em Atlanta, a 15 de Dezembro de 1939. Todas as actrizes conceituadas da época e muitas aspirantes ao estrelato, de uma forma ou outra, manifestaram interesse em conseguir o papel principal, o de Scarlett O' Hara.

A lista, para não variar neste empreendimento, era quilométrica: Bette Davis, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Paulette Goddard, Joan Bennett, Greer Garson, Norma Shearer, Loretta Young, Lana Turner, Irene Dunne, Ida Lupino, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Miriam Hopkins, Talluah Bankhead, Carole Lombard, Anita Louise, Ann Sheridan, Claudette Colbert, Susan Hayward, Margaret Sullavan, Frances Dee, Catherine Campbell. Um megaconcurso de testes cinematográficos que acabou por servir de rampa de lançamento para a fama de uma britânica de 25 anos, em início de carreira. Chamava-se Vivien Leigh.

 

Sem ela, E Tudo o Vento Levou não seria o que foi. Não seria o que é. Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória. Com a sua força de carácter, a sua vivacidade, o seu apego tenaz aos valores familiares, à herança do sangue, aos vínculos afectivos à terra-mãe. Numa das cenas mais marcantes do filme, o pai de Scarlett, Gerald O' Hara (grande interpretação de Thomas Mitchell, um dos secundários mais talentosos de Hollywood), diz-lhe: "A terra é a única coisa do mundo por que vale a pena lutar ou morrer."

Ela faz desta frase um lema de vida. E remete tudo o resto a um plano inferior, fiel ao juramento que fará mais tarde: "Deus é testemunha que não deixarei ninguém derrotar-me." Indiferente aos ventos da história, que sopram implacáveis contra o orgulhoso Sul tão bem descrito pelo capitão Rhett Butler (Clark Gable) em vésperas da eclosão da guerra civil norte-americana: os sulistas, sublinha ele, "só têm palavras, escravos e arrogância".

 

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Olivia de Havilland (1916-2020)

 

Guerra e amor, os dois maiores condimentos do cinema clássico, estão presentes em Gone With the Wind. Mas o que mais prende a atenção do espectador, num filme que tem largas dezenas de personagens, é o destino de um quarteto: Scarlett, Rhett, Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley. Personagens convictas, cada qual a seu modo, de que aquela guerra significaria "o fim do nosso mundo", como um angustiado Ashley (Leslie Howard) diz à sua apaixonada Scarlett em vésperas da mobilização geral no Sul.

Ironias do destino: no momento em que o filme estreou, também na vida real se travava uma guerra que mudaria para sempre a face do mundo. E o britânico Leslie Howard estaria envolvido nela, como agente de Churchill, acabando por ser abatido em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol, pela aviação nazi.

 

Selznick, um homem que gostava de mulheres, estava certo: sem o fabuloso desempenho de Vivien Leigh, E Tudo o Vento Levou seria quase uma ficção banal. A belíssima britânica faz toda a diferença em cada cena da longa-metragem, transmitindo-lhe uma autenticidade quase inigualável na história do cinema. Não foi por acaso que recebeu o Óscar, suplantando os colegas do sexo masculino: Howard parece sempre um pouco deslocado neste filme e Gable limita-se a fazer o papel de... Gable.

Vivien só encontra aqui duas competidoras à altura do seu talento. Ambas negras, ambas vítimas do racismo sulista que não as deixou brilhar na memorável estreia de Atlanta: Hattie McDaniel, no papel de Mammy, e Butterfly McQueen, no papel de Prissy (que gozaria enfim de um merecido destaque nas celebrações das bodas de ouro do filme, em Dezembro de 1989).

 

E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O' Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais -- os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?

Qual o segredo de Selznick para que este filme de 1939 parecesse muito à frente da sua época e ainda hoje permaneça no imaginário dos espectadores? O segredo de sempre: soube rodear-se dos melhores. Entre a equipa de argumentistas, por exemplo, figurou um tal Scott Fitzgerald. Capaz, como outros, de reduzir as 1037 páginas do romance de Margaret Mitchell, galardoada com o Pulitzer, para cerca de um terço. Por uma vez sem exemplo, less was more.

 

Comecei por falar em Selznick, acabo o texto também a invocá-lo. Porque nenhum outro grande protagonista do cinema como ele perturbou tanto a "política de autores" teorizada na década de 50 por alguns críticos franceses, que centravam as suas análises no realizador, apontando-o como o verdadeiro autor de um filme.

Selznick era uma carta fora do baralho: é dele que se fala ainda hoje, quando se fala de Gone With the Wind. O filme chegou a ter quatro realizadores: Victor Fleming, único que figurou nos créditos finais, George Cukor (responsável por algumas cenas marcantes, como a da discussão inicial entre Scarlett e Mammy), Sam Wood e o fotógrafo William Cameron Menzies. Mas é um filme de Selznick, sem sombra de dúvida. Num tempo em que o produtor concebia a obra de arte e o realizador era apenas o seu artífice. Outros tempos, outros costumes. Numa cena capital, Rhett diz para Scarlett: "É um momento histórico. Pode dizer aos seus netos como viu o Sul desaparecer numa noite."

A última frase do filme, proferida por uma Vivien Leigh em estado de graça, é uma das mais célebres de sempre na Sétima Arte: "Amanhã será outro dia." Verdade histórica, verdade cinematográfica. O facto é que o cinema não voltaria a ser o mesmo.

 

Gone with the Wind. Ou na versão portuguesa, que sempre preferi, E Tudo o Vento Levou. Já que estamos mergulhados num melodrama, carreguemos nas tintas melodramáticas. Como escreveu o poeta Fausto Guedes Teixeira, num poema que certamente Scarlett apreciaria: "Amar ou odiar / Ou tudo ou nada: / O meio termo é que não pode ser / (...) Amemos muito como odiamos já! / A verdade está sempre nos extremos / Pois é no sentimento que ela está."

Às vezes convém trair a letra para permanecer fiel ao espírito. É o caso.

 

Texto reeditado em memória de Olivia de Havilland, agora falecida, aos 104 anos.

Património nacional

por Pedro Correia, em 23.07.20

 

Amália Rodrigues (1920-2020)

Ennio Morricone

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.07.20

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O mundo foi hoje surpreendido com o falecimento de Ennio Morricone, vítima de uma queda com uma idade (91 anos) em que devia ser proibido cair.

O aclamado compositor e maestro italiano, vencedor de dois Óscares (2007, pela carreira, e 2016, pela banda sonora de “The Hateful Eight”), foi autor de algumas das mais inesquecíveis melodias para o cinema, tendo trabalhado com inúmeros realizadores.

Primeiro com Sergio Leone, de quem foi colega de escola, a partir da década de 60 do século passado, nos chamados Western Spaghetti, depois com quase todos os grandes nomes da realização. Bertolluci, John Carpenter, Brian de Palma, Giuseppe Tornatore (no inesquecível “Malèna”), Barry Levinson ou Quentin Tarantino foram apenas alguns.

De “Por um punhado de dólares” a “Cinema Paraíso”, de “O bom, o mau e o feio”, a “Era uma vez na América”, de “Frantic” a “Os homens do presidente”, sem esquecer “Sacco & Vanzetti”, a “Missão” ou “Kill Bill”, foram mais de quinhentas composições e bandas sonoras para o cinema.

Estudou na Academia de Santa Cecília, em Roma, onde se diplomou em trompete. Reconhecido em todo o mundo pela excelência do seu trabalho, a banda irlandesa U2 dedicar-lhe-ia uma música (Magnificent).

Em Outubro de 2007 fez uma incursão pela política italiana, integrando a lista de Walter Veltroni. Participou nas primárias e acabou eleito para a então Assembleia Constituinte do Partido Democrático.

Parte o homem que, como alguém disse, não era apenas um compositor de música para filmes, mas um grande compositor.

Ficará a saudade, e  uma obra monumental que continuará a ser ouvida até ao fim dos tempos

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

Lição de arte, lição de vida

por Pedro Correia, em 17.04.20

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Um contraste gritante. Com horas de intervalo morreram dois grandes escritores, Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. O primeiro foi praticamente ignorado enquanto o segundo era merecidamente enaltecido. Uma chocante disparidade de tratamento jornalístico. Desmentindo aquela frase batida acerca da equivalência universal imposta pela morte. Existe uma hierarquia nos obituários que por vezes não entendo.

É certo que a morte de Sepúlveda veio embrulhada no registo monotemático do coronavírus. Tivesse Rubem falecido de Covid-19, e não de um banal enfarte aos 94 anos, certamente merecia mais espaço e maiores loas. Sem desprimor para Sepúlveda, que cheguei a conhecer numa Feira do Livro de Lisboa e me comoveu com o seu O Velho que Lia Romances de Amor, o autor de A Grande Arte teria merecido no mínimo igual destaque. Para mim, admirador confesso da sua escrita, inconfundível como poucas, este mineiro de nascimento e carioca de adopção era o maior contista vivo do nosso idioma.

Sepúlveda, sem dúvida, tinha uma relação afectiva com Portugal. E foi cá, infelizmente, que terá sido infectado, embora as dúvidas persistam pois nenhum dos outros participantes nas Correntes d' Escrita acusou positivo no teste ao vírus, que o malogrado escritor chileno poderia ter contraído antes. Mas o autor d' O Caso Morel trazia Portugal não apenas no coração mas também no sangue: era filho de imigrantes transmontanos e as alusões à pátria de origem abundavam na sua obra. Uma das maiores alegrias que recebeu foi a merecida consagração com o Prémio Camões, em 2003. Podia e devia ter recebido outros, de diferentes latitudes, pois o seu talento tinha expressão universal.

«Parecendo amoral, encerra uma profunda nostalgia por uma moralidade perdida ou por reencontrar», como justamente observou Jaime Nogueira Pinto.

 

Devo a Rubem Fonseca algumas das mais proveitosas horas que tenho vivido como leitor. Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas e raras vezes se deixava fotografar. O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado.

Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado. Fruto da inspiração? Não: produto de muito trabalho, invisível e persistente. «Escreva todo dia. Se estiver com preguiça, senta e escreve qualquer coisa, nem que seja uma vírgula», recomendava Rubem, agora invocado por Jô Soares.

Lição de arte, lição de vida.

 

Leitura complementar:

Um mar de lama. Sobre Agosto, romance de Rubem Fonseca.

Grandes contos (11). Sobre Passeio Nocturno, conto de Rubem Fonseca.

Luís Sepúlveda (1949-2020).

por Luís Menezes Leitão, em 16.04.20

Tenho imensa pena pelo falecimento do escritor Luís Sepúlveda, do qual li a maioria dos seus livros. Era um escritor que adorava Portugal, o que lhe ficou do facto de, ao contrário do que habitualmente lhe sucedia, não ter sido controlado na nossa fronteira, tendo antes o guarda do aeroporto lhe perguntado se não era o autor do livro O velho que lia romances de amor, e perante a resposta afirmativa, tê-lo mandado imediatamente passar.

A sua morte é um aviso para os que querem minimizar os riscos da doença Covid-19. A pessoa infectada pode adquirir uma insuficiência respiratória que, nos casos mais graves, o obriga a estar entubado com um ventilador durante semanas. Os doentes só conseguem suportar esse tratamento se forem colocados em coma induzido. Depois se vê quem recupera e quem infelizmente não sobrevive a esse inimigo insidioso e traiçoeiro.

Luís Sepúlveda perdeu infelizmente essa batalha. Ficamos com os seus livros para recordar a sua passagem pelo mundo.

 

In memoriam

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.20

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Museo Nazionale di Capodimonte, Napoli, Italia, The Flagellation of Christ, c.1607,  Michelangelo Merisi da Caravaggio)

 

Não me recordo de quando o conheci porque me lembro dele desde que tenho memória de mim.

Quando nasci, ele ainda vivia em Gondola, onde era médico. Passara antes pelo Vale do Limpopo, que percorreu de lés a lés, com sol, chuva ou calor, qualquer que fosse o nível de humidade.

Filho de um empresário desafogado ligado à fundação e aos tempos de ouro do Hotel Avenida Palace, a sua família tinha raízes em Ovar. Ele já nasceu em Lisboa, em S. Jorge de Arroios, de onde voltaria a partir, ainda miúdo, para frequentar o Colégio dos Carvalhos.

Falou-me desses tempos duros por que passou, longe da família e comendo rancho quase diariamente, sem, no entanto, deixar de sublinhar a excelência da educação que lhe foi ministrada. Talvez tenha sido aí que adquiriu apreço pelo rigor, pela arrumação, pela organização, pelo cumprimento de horários. E também pela liberdade.

Ainda jovem, perdeu o pai a assistir a um jogo de futebol, no velho Estádio da Luz, para cuja construção também contribuíra, creio que pouco depois da sua inauguração. Contou-me que estavam a preparar-se para o início da partida, com a bola ao centro, quando de repente, a seu lado, o pai tombou inanimado, no momento em que se preparava para acender um charuto.

Mais tarde dir-me-ia que o seu destino ficara marcado por esse fatídico momento.

Acabaria por se licenciar pela Faculdade de Medicina de Lisboa, ainda no Campo de Santana. De vez em quando contava-me episódios curiosos desses tempos em que não havia computadores, faxes ou Internet e o céu de Lisboa seria mais azul.

Os primeiros anos de exercício da profissão seguir-se-iam no Curry Cabral, mas depois do seu envolvimento com a oposição democrática e com o MUD juvenil, e a assinatura das listas de apoio aos candidatos presidenciais que defendiam a mudança de regime, Norton de Matos e, mais tarde, Humberto Delgado, percebeu que profissionalmente ficara com as pernas cortadas nos Hospitais Civis. Uma chamada à António Maria Cardoso, porque, dizia ele, queriam perguntar-lhe o nome, e ficou despachado o seu futuro na Metrópole. Daí até Moçambique foi um pequeno salto.

Para lá partiu sem saber o que iria encontrar. A ele se juntariam, anos mais tarde, a mãe viúva e a única irmã. Desta última, de quem ouvi que seria mulher de grande classe e elegância, havia lá em casa uma belíssima natureza-morta. Quando chegou a Moçambique, a Maria Luísa, assim se chamava, tornou-se amiga da Mélita, minha Mãe, mas acabaria por morrer prematuramente com um cancro, pelo que não me lembro sequer de a ter conhecido.

Eu nasci em 1962, dando-se a circunstância de termos chegado ao mundo no mesmo dia de calendário. E como já conhecia a família toda, sempre com a paciência de a muitos cuidar das maleitas, tornar-se-ia no meu padrinho. No Padrinho, porque a partir daí, com excepção de alguns sobrinhos “emprestados”, como ele dizia, que por vezes o tratavam por tio, passou a ser o Padrinho. O meu e de todos os outros, incluindo os de circunstância.

As minhas primeiras memórias dele são, pois, de meados dos anos sessenta do século passado, na Beira, mas igualmente de Lourenço Marques, onde me recordo de termos estado, num tempo em que ele ainda passara por umas curtas experiências no karting, e de me terem levado a passear.

Como médico dos Caminhos de Ferro, primeiro de Moçambique, a seguir na Beira, onde se distinguiu pela forma como a todos tratava, dos mais pobres aos mais abonados, num múnus que exercia sem horário durante todas as horas do dia e sempre disponível, fosse para receber os queixosos na inconfundível Estação dos Caminhos de Ferro, ou visitar quem dele precisava, em casa ou na palhota, tinha tudo para vir a ser feliz longe da capital do império.

Ao lado da mulher que amava, e que o amou até à morte, com um grupo de amigos absolutamente único, com os quais se dedicava à leitura, ao cinema, ao ensaio e à crítica literária, onde primavam alguns colegas, amigos escritores e poetas, entre os quais recordo o Gouveia Lemos, o Craveirinha e o Rui Knopfli, chegou a colaborar, episodicamente, no suplemento literário de “A Tribuna”, que nos anos 60 marcou uma época na história da literatura portuguesa de raízes africanistas — e onde se terá dado a “abrilada moçambicana”, dizia ele —; e sei que ganhou um prémio num concurso de contos, com um texto belíssimo que acabaria por ver publicado numa colectânea.

Em 1968, com 48 anos, numa visita ao oftalmologista, diagnosticaram-lhe um problema de cataratas. Como na Beira não existissem meios adequados, nem especialistas aptos à realização de uma operação dessa natureza, tratou de marcar a intervenção para ser feita na África do Sul. Já em Lourenço Marques, quando tratava dos preparativos da viagem, um colega que aí exercia disse-lhe que era um disparate viajar para o país vizinho para realizar uma operação tão simples, porque ele próprio estava habituadíssimo a fazê-lo, e que podia operá-lo logo no dia seguinte, ali mesmo. Acreditando no que lhe era dito, confiando na competência do colega, que pensou ser como ele, cancelou a cirurgia que iria fazer a Joanesburgo e entregou-se às mãos que de uma assentada, e tão expeditamente quanto se revelou possível, o operaram aos dois olhos.

Passados alguns dias, quando lhe foi dada alta e o mandaram para casa, recordo-me de ter ido visitá-lo. Ainda estava com os olhos tapados e de óculos escuros. Na semana seguinte, ouvi dizerem que não havia evolução, porque embora o Padrinho conseguisse distinguir algumas cores nas molas da roupa, estava progressivamente a ver tudo acinzentado.

O que se seguiu foi um longo e doloroso calvário.

Perdeu progressivamente o pouco que ainda via, e as sombras tornaram-se cada vez mais escuras, até serem breu. Em Setembro desse ano foi de novo operado, já em Lisboa, no Hospital da Cruz Vermelha, ficando instalado num quarto paredes-meias com “o Botas”, que caíra da cadeira na mesma ocasião. Visitei-o ali, no dia em que ambos fazíamos anos. E creio que terá sido essa a primeira vez em que senti de facto a tristeza.

Nos anos seguintes, não tendo havido sucesso na intervenção realizada em Lisboa, o Padrinho foi então à África do Sul, a que se seguiu uma visita a Barcelona, onde o primeiro e o mais famoso dos Barraquer lhe disse que o problema só se resolveria com um enxerto das córneas, mas que ele nunca o tinha feito e que se ele quisesse ser operado seria como uma lotaria. Se corresse bem, o Padrinho recuperaria a visão e ficariam ambos famosos. Ganhariam o El Gordo. Se corresse mal, ele regressaria a Lisboa e nas Ramblas a vida seguiria igual.

Perante o que lhe foi dito, sem querer voltar a confiar na sorte que há tanto lhe fugia, rumou a Inglaterra onde, com o apoio da Maria Isabel, seria operado no Queen Elizabeth pelo que era ao tempo o oftalmologista da Casa Real. Tinha tudo para correr bem, voltou a correr mal.

Em Londres retiraram-lhe uns drenos minúsculos que o sapateiro encartado que o operara em Lourenço Marques, e que depois veio exercer para Lisboa, deixara lá ficar, e que até aí ninguém incrivelmente vira. O talhante esquecera-se de os remover quando lhe tirou os pontos. E aqueles deram-lhe cabo dos olhos durante três ou quatro anos. Quando analisaram o fio que tinha sido utilizado para o suturarem na primeira intervenção, disseram-lhe que naquela altura, em Londres, aquele tipo e espessura de linha só servia para “coser barrigas”.

Em tratamento ambulatório permanente, a etapa que se seguiu levá-lo-ia a Lyon, ao Prof. Charleur. Cirurgia no dia do levantamento das Caldas, em 1974, e fizeram-lhe dois enxertos nas córneas. Ainda em convalescença, na clínica onde ficou durante alguns dias, disseram-lhe de uma tentativa de golpe em Portugal, coisa em que também já pouco acreditava.

A operação correu bem e duas semanas depois estava de regresso a Lisboa.

Não obstante as circunstâncias em que era obrigado a deslocar-se ao exterior, nunca deixava de me trazer qualquer coisa. De Londres viera uma réplica da Apolo 11, a pilhas, que levantava e pousava, fazendo as minhas delícias. De Lyon chegaram as minhas primeiras chuteiras “com pitões”. Da Adidas. Um luxo nesses tempos. E com as chuteiras veio também a recomendação de que não poderia constipar-se. E, mais importante, não podia espirrar. O regresso ficaria marcado para meados de Abril para lhe retirarem os pontos. 

O golpe de 25 de Abril obrigou ao adiamento da deslocação, que acabaria por só ter lugar em Maio. E também me recordo de acordar nesse dia da revolução e de me dizerem que não poderia ir à escola, o que para mim seria uma grande chatice. O Padrinho passou o dia com os ouvidos colados ao rádio-móvel da Schaub-Lorenz. Nesse dia não me deixaram fazer o percurso entre a Augusto Gil e a Avenida de Madrid.

Quando o Padrinho voltou a Lyon já era demasiado tarde. Pelo caminho constipara-se, espirrou repetidas vezes, os pontos rebentaram. Mais um desastre que ofuscou a sua alegria, momentânea, pelo 25 de Abril.

Em Lisboa, primeiro, em especial com o Prof. Ferraz de Oliveira, a quem muito estimava e que ainda conhecera em Moçambique, do tempo em que aquele por lá passou para cumprir o serviço militar, e muito anos volvidos, talvez uns vinte, em Coimbra, outros tentaram fazer os impossíveis para lhe restituírem a visão. Sem sucesso.

Ano após ano percorreu as calçadas que lhe estavam reservadas, recusando-se a aceitar o seu destino, rejeitando bengalas e processos de aprendizagem próprios de quem está na sua condição, com excepção do braile, de que ainda chegou a fazer uso para “ler” algumas obras, como Kundera, que já não era do seu tempo saudável e de quem ouvira falar.

Ao longo da minha vida, mesmo depois de me tornar adulto, em virtude da estupenda memória que tinha, deu-me a conhecer inúmeros livros. Era senhor de uma fantástica biblioteca que aos poucos me foi passando. Ao meu irmão, que foi para Santa Maria, cabiam os livros de medicina.

À medida que eu crescia e evoluía, por vezes em razão das descobertas que fazia e das interrogações que suscitava depois de passar umas horas na Livraria Barata, onde chegou a haver um banquinho colocado pelo dono para que eu, e outros curiosos como eu pudessem ler sem estorvar ninguém, recordava-me o que havia na biblioteca lá de casa, a que se seguia, invariavelmente, um “depois leva esses livros, eles hão-de ser todos para a ti, a mim já não me servem para nada e o C.J. não precisa deles”.

Foi assim que recebi algumas primeiras edições do Eça e do Pessoa, Fernando como ele, como S. António, por quem tinha alguma admiração, já que a devoção nunca fora o seu forte e há muito a perdera perante a cruz que carregava.

Com o Padrinho cheguei a Rimbaud, Stendhal, Hugo, Schopenhauer, Kierkegaard, Rousseau, Proust, Maupassant, Gide, Camus, Sartre, Beauvoir; aos brasileiros, também a Unamuno, Lorca, Machado; ao Sena, à Sophia, a Brecht, ao Santareno, ao Gomes Ferreira, sei lá, a uma infinidade de gente que sabia sentir, escrever e pensar, e que nos ajudava a pensar, e a olhar para o mundo e para nós, os mortais, com olhos de ver, da literatura à pintura, da música à canção francesa e italiana, e do jazz até à "senhora D. Amália", que eu jamais conheceria e apreciaria sem a sua ajuda.

Os últimos anos, com os sucessivos impasses e os desastres político-governativos em que o país se foi imolando, e que lhe cortaram a pequena reforma, aumentou a sua descrença em relação aos políticos e aos partidos que nos saíram na rifa. "Gente medíocre, gente que não presta, e os que prestam não querem saber de nós".

Contudo, queria sempre saber o que eu andava a fazer, a ler ou a investigar, e a que conclusões chegava, sem que jamais o ouvisse criticar as minhas áreas de estudo, ou, em dado momento, a minha esporádica intervenção política enquadrada, acompanhando-a mesmo com algum interesse.

Uma das últimas vezes em que o recordo bem disposto foi no dia do meu casamento. Disse-me várias vezes o quanto gostava da minha mulher. E num dos últimos Natais em minha casa, quando ainda vivia em Portugal, guloso com a canja de perdiz e o bacalhau espiritual ou elogiando a macieza do cabrito assado, logo ele que detestava "carne da testa", voltou a elogiar-lhe os dotes e a paciência.

A distância e as dificuldades da vida roubaram-nos infindáveis horas de conversa, que sempre o distraíam, por vezes de leitura em voz alta, fossem artigos de jornal ou trechos de livros que eu lera e apreciara, e depois levava para lhe ler quando passava lá por casa.

Lembro-me de todas as suas interrogações quando numa tarde lhe li umas quantas passagens de um ensaio da Maria Filomena Mónica sobre a morte. E dos comentários que fez sobre trechos das memórias do Almeida Santos, que propositadamente levei para ouvir os seus comentários, de um tempo colonial em que ambos, tal como o meu Pai, foram participantes. Limitou-se a dizer-me que ele sabia escrever com propriedade. E de como apreciou o “Cão como Nós”, e outros escritos do Alegre, de quem não gostava como político, e que "se fosse tão bom político como escritor talvez nos safássemos". A esquerda, a política, há muito que morrera para ele.

Acompanhava os relatos de futebol, gostava de ouvir as notícias da Renascença e a Bola Branca (seria este o nome do programa?), e tinha tanta confiança nos últimos presidentes do Benfica que ao fim de mais de sete décadas de associado desistiu de ser sócio. O que me ele disse, cego, por exemplo, de Vale e Azevedo ou de Vieira, só de os ouvir arengar, é irreproduzível. Apesar disso, quando soube que eu iria participar, com muitos milhares mais, no financiamento do novo Estádio, perguntou-me se não queria uma pequena ajuda. Quando a SAD se formou, como quem não quer a coisa, perguntou-se se estava a pensar comprar algumas acções. Dizendo-lhe que sim, entendeu reforçar o parco pecúlio que eu destinara para esse efeito e esclareceu logo que as acções ficariam em meu nome. Assim se fez.    

Dizia-me que estava velho. E com a amargura e a rudeza de quem sente a aproximação ao fim, acrescentava que só não queria que o lixassem mais. Na reforma. Eu compreendia-o e não dizia nada. Sabia que tinha carradas de razão.

Numa das últimas cartas que me enviou, quando a Mélita ainda podia escrever o que ele ditava, lembrou-se de me falar do poema “Amputação”, que o Rui Knopfli lhe dedicou (Algo, em mim, está morto./ O lado direito inerte, ausente,/ de mim está alheio./ Do lado esquerdo o fito,/como se a um outro/ olhasse./ Metade de mim persiste,/ vive,/ e contempla algo, ardendo,/ estiolando,/ que em mim está morto./ Um perfil que apodrece/ e eu vivendo/ e vendo ausentar-se de mim/ algo que em mim está morto/ definitivamente.) na edição do seu primeiro livro, referindo-me que ao fim destes anos todos aquele texto fora premonitório.

Escreveu-me então que “do texto, em si, já não me recordo, mas o título ficou como um sinal de presságio. Não sei se ele tinha os olhos perfurantes e longos dos videntes”. Tinha sim.

E a propósito do que por aí ia, e ainda vou, escrevendo, aqui e ali, e do que alguém lhe lia quando por lá passava, com a sua sabedoria e a infinita amizade que sempre nos uniu, transmitiu-me que já uma vez me tinha mandado dizer, “de forma arredondada”, aquilo que pensava. E acrescentou algo que jamais esquecerei:

Tenho para mim que não é quixotismo denunciar toda e qualquer forma de injustiça, mas é minha convicção também que os valores e interesses instalados, seja qual for o poder que os suporte, são como moinhos de vento, contra os quais quase sempre é inútil arremeter.

De quanto me foi possível deduzir, as barricadas parisienses de Maio de 68 foram erguidas contra alguns desses interesses e valores — só que o foram pelas mãos de um revolucionarismo inconsequente —, por romântico, por demagógico e por outras razões mais que eu não sei.

Passadas três décadas, os “moinhos” lá continuam no seu afã e, varridas as ruas do entulho revolucionário, já nada deve restar nos vazadouros municipais.

A velha máxima latina “primum vivere deinde philosophare” podia servir de epitáfio (ideia minha) para certos acontecimentos e situações.

Sem dúvida, viver está sempre primeiro!

Longe de mim, com estas palavras, pretender desviar-te do que sintas como imperativo.

Penso que conheces minimamente o chão que pisas e o meio que te rodeia.

Assim sendo, “sem te queimares” aproveita o teu “Sol de Primavera”, porquanto, como tantas outras coisas nesta vida, também "o sonho é fugidio”.

Pegando nesse “sem te queimares” veio-me à lembrança o diálogo havido nas vésperas de Alcácer, entre D. Sebastião e um velho fidalgo que desaprovava a sua empresa africana.

Ao reticente conselheiro terá o Rei perguntado qual era a cor do medo. A resposta terá sido mais ou menos esta: “Senhor, o medo, por vezes, tem a cor da prudência”.

No final da missiva recordava-me que não queria que eu fosse medroso. Ele, que nem sempre o fora, não podia vangloriar-se de o não ter sido porque pagara sempre um alto preço pelos seus erros maiores.

Quando o Rui faleceu, em 2017, em termos tão súbitos, incompreensíveis e por erros sucessivos de outros colegas, acompanhou-me na dor, no desnorte, preocupado com o que eu iria fazer a seguir. E como concluiria o doutoramento.

O falecimento da Mélita foi a machadada que faltava no seu desgosto. Sempre pensara que por ser mais velho iria primeiro. Não quiseram assim os deuses. Voltaram a lixá-lo.

Repetia na sua solidão, implorava até à exaustão, da sua lucidez cansada e desesperada, que o levassem, que não estava cá a fazer nada. Que já chegava, temendo que a longevidade do seu lado materno o fizesse continuar por mais tempo no martírio em que vivia, na escuridão permanente entre chagas e trambolhões, enquanto o corpo mirrava e dobrado se ia vergando ao peso de mais de um século, recriminando quem com carinho e ternura, embora houvesse sempre quem com pouco jeito, o procurava auxiliar no seu infortúnio.

A mim escutou-me sempre. E chegou a pedir-me desculpa pelo que dissera a um ou outro, gente de quem ele sempre gostara e que dele gostava, como se fosse o facto de ser eu a referi-lo, quando com ele falava no desagradável episódio ocorrido, que desse autenticidade ao sucedido e o fizesse descer à terra.

Um dia, já em democracia, quando um alto dirigente africano conhecedor da sua vida, como outros que o conheciam e por vezes apareciam, fez questão de o visitar, e de nos acompanhar numa refeição em sua casa, estando já ele cego há muitos anos, aquele referiu-lhe, não obstante toda a hospitalidade, amizade e confiança, que aqueles aposentos eram “curtos” para acomodar toda a gente. Não éramos mais que seis ou sete pessoas à volta da mesa, mas aquilo caiu mal, e dessa vez a resposta saiu sem diplomacias, certeira e fulminante: “Pois são, tem razão, mas sabe que este colono só trouxe de África a roupa e os livros, e nem a cama onde se deita foi por ele comprada”. Fez-se silêncio. A seguir voltou tudo à normalidade, e jantou-se como sempre.

Preocupava-se, preocupou-se sempre, com a felicidade dos outros. Que os queria felizes, que tinham esse direito, sem jamais perceber a razão da sua própria infelicidade, do seu purgatório, da solidão e do abandono em que Deus, de cuja existência cada vez mais duvidava, o deixara. Nem Santo António o escutava.

Estou seguro que a sua infelicidade se foi tornando maior à medida que sentia o tempo fechar-se à sua volta, sem solução, e que alguns dos que lhe eram mais próximos o foram vendo afastar-se cada vez mais amargurado, rude e agreste no trato.

Pediu que no dia em que morresse o levassem para o Alto de S. João. Se possível que fosse tocada a sinfonia do destino, como que me recordando as infindáveis tardes e noites em que ouvíamos os discos que eu descobria e de que ele gostava. Podia ser Brel, um Requiem ou a Maria João Pires. E queria que o seu diploma o acompanhasse na hora da despedida. A medicina fora a sua paixão maior e a causa da sua tragédia e do seu desencanto. Deixara-o naquele estado amputado, sem poder ler como uma pessoa normal. Não servira para nada, não obstante o brilhantismo da forma como todos os colegas se referiam ao seu saber e ao modo como sempre exerceu a profissão, se dedicou aos seus doentes e transmitiu os seus valores a quem seguiu os seus passos.

A parte do diploma eu não disse a ninguém. Ficam a sabê-lo agora. Guardei-a para mim. Como guardei muitas outras coisas que me disse e que morrerão comigo. O juramento de Hipócrates era para ele mais sagrado que o Santo Sudário. E levara-o a interrogar-se, como médico, muitas vezes, sobre a justeza da consagração legal da eutanásia. Apesar de estar na situação em que estava. Nunca o esquecerei.

Longe, com as fronteiras fechadas, sem aviões, confinado à vista da minha varanda, nesta húmida, inquietante e recortada solidão em que também sobrevivo, deram-me a notícia de que finalmente lhe fora feita a vontade. Do outro lado da linha, disseram-me que o seu sofrimento terminara. Que não fora por causa de nenhum vírus, e que o tinham levado na Quinta-feira de Paixão. A sua via sacra de 101 longos e sofridos anos terminava ali. Solitariamente.

Foi cremado no dia seguinte, Sexta-feira Santa. Não houve velório, não houve missa. Ele não gostava de foguetórios. Só duas ou três pessoas que dele cuidaram até ao fim o acompanharam nessa viagem. Ouviu-se Beethoven.

E sabe-se que não ressuscitará ao terceiro dia. Dizem que isso está reservado ao filho de Deus. Não ao Padrinho.

Por isso resolvi escrever estas linhas. Eles que me desculpem.

O Banquete Final

por jpt, em 25.03.20

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Este maldito vírus quebra-nos a vida, angustia-nos presente e até futuro. A morte de Uderzo, ainda que tão natural aos seus 92 anos, e felizmente ocorrida na placidez do sono, sem qualquer ligação a esta pandemia, encontra-nos confinados. Trazendo isto de nem podermos fazer o requerido banquete final, exigível ao final deste episódio, o uderziano. Majestoso.

Que o seu legado, e não só Astérix, nos acompanhe agora, até avivado na memória pela sua morte. No seu humor e beleza servindo mesmo de estratégia da necessária mitigação. Banqueteemo-nos com os livros. E com as memórias das anteriores leituras.

Deixo aqui ligação a um bom e muito informativo texto sobre a obra do autor: Uderzo (na Comiclopédia). Bem recomendável.

 

Órfãos

por jpt, em 24.03.20

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Estamos órfãos (Albert morreu agora, ataque cardíaco aos 92 anos). O luto não convoca o alardear conhecimentos, nem obituários. Apenas ler. Lê-lo, com desvelo. Forma única de o carpir.

 

Vai fazer-nos muita falta

por Pedro Correia, em 22.02.20

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Vasco Pulido Valente era o melhor. Em quase tudo. Também na capacidade de inspirar epígonos que ia influenciando por geração espontânea e foram irrompendo como cogumelos - todos com menos talento que ele.
 
Era bom a pensar, a escrever, a polemizar.
Nunca lhe faltou a coragem para dar expressão pública ao pensamento. Nem vocação para escolher sempre as palavras mais adequadas à elegância formal que jamais cessou de procurar.
Sem atender a conivências nem a conveniências, criticou quase tudo e quase todos. Por vezes com um desassombro que alguns confundiam com arrogância ou cinismo. Por vezes com incoerências, naturais num percurso tão vasto, que se espraiou por seis décadas: era o comentador político português que exercia o ofício há mais tempo em permanência.
Vinha do pioneiro Almanaque, remontava ao antigo O Tempo e o Modo - publicações que hoje já quase ninguém sabe o que significaram na estreita sociedade portuguesa daquele tempo em que a censura estava inscrita no quotidiano mental das elites bem-pensantes.
Nem sempre fez os juízos certos sobre todas as figuras públicas que foi visando com a sua pena cáustica, pontualmente repassada de sarcasmo. Mas acertou na maior parte das vezes - em quase tudo quanto era essencial no catálogo de ideias que professava e foi sedimentando desde que estudou em Oxford, na primeira metade dos anos 70. A necessidade imperiosa de aproximar Portugal dos padrões de civilidade europeia, por exemplo.

Faltou-lhe escrever um romance. Ensaiou essa peça de ficção durante décadas, em versões diversas, mas era tão exigente com ele próprio que acabou por nunca publicar nenhuma.
Tentou uma aproximação ao género, com Glória, mas saiu-lhe afinal um ensaio histórico, aliás não destituído de brilhantismo. Com duas características essenciais: devolveu aos leitores o prazer do reencontro com a escrita narrativa, reaproximando a História da Literatura, e recuperou a biografia como peça fundamental da investigação histórica numa altura em que os cânones académicos menosprezavam o género.
No campo da historiografia, o título imbatível do seu legado foi o primeiro: O Poder e o Povo, que derrubou para sempre vários mitos beatíficos sobre a I República. Pena também esta investigação ter ficado incompleta, pois só abarca um período circunscrito deste ciclo histórico que antes dele era descrito com inúmeras omissões factuais.
 
Sentiu-se por duas vezes atraído pela política activa, nas décadas de 70 e 90, mas depressa concluiu que não era aquele o seu mundo e soube retirar-se muito a tempo. Também a comunicação radiofónica e televisiva estava longe de constituir o seu domínio de eleição, que era o da escrita.
O Henrique Raposo descreve-o muito bem neste parágrafo: «Na imprensa dos anos 70, antes (Cinéfilo) e depois (Diário de Notícias e Expresso) do 25 de Abril, as colunas de VPV eram especiais porque ele era o único grande cronista sem qualquer rasto do linguajar marxista. Foi ele que abriu espaço a uma linguagem política clássica, republicana e, sim, liberal (leia-se “liberal” no sentido de “democracia liberal”, por oposição a “democracia popular”). Quem acredita na liberdade deve muito ao colunismo político de VPV desta época.»
 
Tinha este dom - e soube exercê-lo. Graças a ele, ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo.
Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias, que lhe roubava tempo e paciência para outros projectos, mais adequados ao seu engenho.
Eis o fardo insustentável de um comentador - mesmo o melhor de todos, como VPV. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.

Pedro Baptista (1948-2020)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.20

image-14-1-678x381.jpeg(Miguel Marques/Global Images via Expediente Sínico)

Não convivi muito com o Pedro Baptista, mas estivemos juntos vezes suficientes para perceber a sua estirpe.

Conheci-o há uns anos em casa de amigos comuns, e não obstante a divergência clubística, rapidamente ganhei admiração pelo tipo.

Até então tinha dele, o que era compreensível atenta a diferença de idades, apenas as referências públicas à sua luta política no tempo da outra senhora, ao papel desempenhado na fundação da OCMLP, ao seu trabalho como deputado na Assembleia da República, pelo PS, e como ensaísta e escritor. 

Quando lhe perguntei, na altura em que estava a iniciar o trabalho de campo da minha tese de doutoramento, se estava disponível para que o entrevistasse, logo se disponibilizou para o efeito, dando largas à sua generosidade.

Confesso que devo ter tido com ele algumas das mais interessantes e estimulantes conversas sobre a vida política portuguesa, a democracia, os partidos e a militância partidária, da qual ele havia sido um dos expoentes máximos em Portugal, antes e depois da revolução.

Quando, como era habitual com todos os entrevistados, depois de ter transcrito a entrevista lhe remeti o texto para que eventualmente corrigisse alguma expressão mais forte, fruto do calor da exposição, da sua tradicional irreverência na forma como verbalizava e abordava as questões, das mais complexas às mais simples, logo me respondeu que não havia nada a corrigir. Era o que lá estava e os visados se quisessem que se queixassem. Porque era tudo verdade. E era, pelo que foi assim que passou ao anexo da minha tese.  

Depois disso encontrámo-nos algumas vezes, uma delas após as eleições presidenciais "estado-unidenses", e não norte-americanas, como ele gostava de sublinhar, num debate na Fundação Rui Cunha para o qual sugeri à organizadora a sua presença.

Pelava-se por uma boa discussão, gostava de política a sério e nos últimos anos tinha uma profunda tristeza e desdém pela nossa classe política. E se ele a conhecia; em especial a da sua cidade. Das golpadas nos partidos às moscambilhas nos negócios, nada lhe escapava.

Por vezes, via nele alguma ingenuidade na forma como acreditava em certas pessoas quando ainda não as conhecia bem, mas isso decorria da sua natural bondade. Não constituía defeito. Até aos vigaristas e aldrabões profissionais da política dava o benefício da dúvida. Depois, quando lhes tirava as medidas, é que eram elas. Punham-se rapidamente a léguas, que o Pedro não se poupava nas palavras, sempre certeiras. 

Ontem, ao final da noite, recebi estupefacto a notícia do seu falecimento, logo no dia em que se preparava para ser inaugurada no museu da sua cidade a exposição "1820, Revolução Liberal do Porto" em que tanto se empenhara, ao mesmo tempo que preparava o seu livro sobre a China que nos últimos anos estudou e percorreu. 

Os livros e os textos que foi publicando ao longo dos anos estão aí para quem se quiser cultivar e aprender alguma coisa com quem conheceu a vida e os partidos políticos por dentro e por fora. 

O Pedro Baptista vai fazer muita falta ao Porto, à cidadania, à nossa democracia. Espero que a sua cidade lhe preste as honras que merece por tudo quanto por ela fez.

E pese embora estas linhas surjam num momento triste, mais do que uma recordação do homem culto, do professor, do filósofo, do político, do amigo, do combatente pela liberdade a quem ainda esperavam algumas batalhas, quero que aqui fiquem como uma homenagem ao espírito livre, irreverente e crítico, em especial à sua integridade de carácter, à sua frontalidade e à nobreza com que sempre se bateu por aquilo em que acreditava.

Espécimes destes são cada vez mais raros. O Pedro Baptista era um exemplar único.

Que descanse em paz.  

Steiner e a barbárie

por jpt, em 04.02.20

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(Ilustração de Pablo Garcia - que retirei do La Opinión de Málaga)

Sobre Steiner um belo texto de Thomas Meaney, nada encomiástico, no Times Literary Supplement. Aqui estão acessíveis vários dos seus livros.

Dele muito se dirá. Agora que morreu decerto que mais elogios. E se exagerarão as leituras próprias (cada um reclamando "o meu Steiner"). Li-o, acima de tudo, quando começou a ser muito publicado em Portugal, no final dos meus vintes. E continuei a lê-lo. Foi-me importante, um sinal de perenidade. Assim como que um elevada barricada. Daqui a umas décadas será lido, apreendido. Muitos outros, agora fervilhantes, não o serão.

Um dia escreveu sobre bárbaros e a barbárie. Li-o, há quase trinta anos. E logo guardei o trecho. Anda sempre comigo, é o tal "meu Steiner", aquele que me cabe:

A própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pós-voltairiano” (...) “Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa ou, no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde a um modelo spengleriano de um apocalipse racional -, ora que só poderá ressuscitar através da transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo.” (…) Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente …”

(George Steiner, No Castelo do Barba Azul: Algumas Notas Para a Definição da Cultura. Relógio d'Água: 73, 70).

George Steiner no "O Belo e a Consolação".

Para o José N.

por Pedro Correia, em 08.01.20

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Solo la Muerte

 

Hay cementerios solos,
tumbas llenas de huesos sin sonido,
el corazón pasando un túnel
oscuro, oscuro, oscuro,
como un naufragio hacia adentro nos morimos,
como ahogarnos en el corazón,
como irnos cayendo desde la piel al alma.

 

Hay cadáveres,
hay pies de pegajosa losa fría,
hay la muerte en los huesos,
como un sonido puro,
como un ladrido sin perro,
saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,
creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.

 

Yo veo, solo, a veces,
ataúdes a vela
zarpar con difuntos pálidos, con mujeres de trenzas muertas,
con panaderos blancos como ángeles,
con niñas pensativas casadas con notarios,
ataúdes subiendo el río vertical de los muertos,
el río morado,
hacia arriba, con las velas hinchadas por el sonido
de la muerte,
hinchadas por el sonido silencioso de la muerte.

 

A lo sonoro llega la muerte
como un zapato sin pie, como un traje sin hombre,
llega a golpear con un anillo sin piedras y sin dedo,
llega a gritar sin boca, sin lengua,
sin garganta.
Sin embargo sus pasos suenan
y su vestido suena, callado como un árbol.

 

Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,
pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,
de violetas acostumbradas a la tierra,
porque la cara de la muerte es verde,
y la mirada de la muerte es verde,
con la aguda humedad de una hoja de violeta
y su grave color de invierno exasperado.

 

Pero la muerte va también por el mundo vestida de escoba,
lame el suelo buscando difuntos,
la muerte está en la escoba,
es la lengua de la muerte buscando muertos,
es la aguja de la muerte buscando hilo.

 

La muerte está en los catres:
en los colchones lentos, en las frazadas negras
vive tendida, y de repente sopla:
sopla un sonido oscuro que hincha sábanas,
y hay camas navegando a un puerto
en donde está esperando, vestida de almirante.

 

Pablo Neruda, Residencia en la Tierra (1933)

Fernando Farelo Lopes

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.01.20

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Natural do Cercal (Alentejo), passou uma boa parte da vida fora do seu país.

Licenciado e Mestre em Sociologia pela Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), com diploma de Estudos Aprofundados da Universidade de Paris VIII, doutorou-se em 1988 com uma tese que tinha por título "I república portuguesa: questão eleitoral e deslegitimação". Leccionou em Portugal e no estrangeiro e foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Ciência Política.

No início deste século, foi ele quem me introduziu nas questões do clientelismo e do caciquismo, mas creio que os seus trabalhos sobre os partidos políticos são o melhor que nos lega. Deu-me a conhecer Panebianco, ajudou-me a melhor compreender Michels, Ostrogorsky, Pareto, Mosca e tantos outros.

Mais tarde viria a ser meu orientador durante o mestrado, tendo-me chegado a propor, com o vasto material que eu na altura possuía, que prosseguisse logo para o doutoramento, o que por razões profissionais e económicas não pude fazer.

Aqui há uns anos, já reformado, estando eu então a fazer o prometido doutoramento, ainda tive o privilégio de o reencontrar, de participar e de o ver conduzir um pequeno seminário na Universidade Nova de Lisboa. De novo sobre os partidos políticos.

Na minha memória, para além das aulas que me deu e de tudo aquilo que me ensinou e deu a ler, ficam as manhãs passadas à mesa da Frolic, no Estoril, quando eu ia do Algarve para com ele me encontrar, aos sábados de manhã, e entre dois cafés me lia as notas que tinha deixado à margem dos meus textos e discutíamos as questões relacionadas com as elites e a minha dissertação. Não me esquecerei do seu sorriso e do abraço que me deu quando os Professores Costa Pinto e Tavares de Almeida anunciaram o resultado da sua paciência.

E também da satisfação que lhe deu a orientação do meu trabalho nessa fase inicial, bem como os resultados que entretanto obtive, mas já não irei a tempo de lhe dizer que também hoje dou aulas numa universidade, do outro lado do mundo, fazendo uso e transmitindo aos outros, o melhor que posso e sei, o que com toda a bondade deste mundo me ensinou.

Soube esta manhã da sua partida por uma curta e sentida nota do Prof. André Freire, também este seu discípulo e colega, a quem daqui envio um abraço solidário, extensivo aos seus familiares, colegas e amigos.

Se 2019 terminou triste, 2020 não podia começar pior. Mas espero que ao Professor Fernando Farelo Lopes, lá por onde agora andará, não lhe faltem os livros, nem o sorriso de sempre, nem a disposição para continuar a ver o que por cá vamos fazendo. Pelo meu lado, grato como sempre estou aos meus mestres, continuarei a divulgar a sua obra, onde quer que esteja.

E que descanse em paz.

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José Mário Branco

por Marta Spínola, em 19.11.19

Por me chamar Marta, cantavam-me muitas vezes o Casa Comigo Marta. Eu achava graça àquela Marta refilona e teimosa, que não se deixava deslumbrar pelo doutor dom Gaspar até ao fim da canção.

Haverá palavras mais bonitas e eu até conheço mais de José Mário Branco, mas a obra fica para que se ouça e fale sobre ela sempre. Ou não, cada um faz como entender.

Da minha parte, hoje dei uma trégua (e a mão) a Dr. Dom Gaspar.

Para o Sérgio

por Pedro Correia, em 06.11.19

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PARA SEMPRE

 

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

 

 

Carlos Drummond de Andrade, Lição de Coisas

Mélita

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.11.19

For Mamma "La Mamma" 

She said, "My son I beg of you
I have a wish, that must come true
The last thng you can do
For yo' mama

Please promise me that you will stay
And take my place, while I'm away
And give the children love each day"

I had to cry, what could I say?

I tried so hard to find a word
I prayed she would not see me cry
So much to say, that should be heard
But ony time to say "Good-bye"
To my mama

They say in time, you will forget
Yet still today, my eyes are wet
And still I try to smile
For my mama

Now soon there'll be another Spring
And I will start remembering
The way she used to love to hear us sing
Her favorite song, "Ave Maria"
Ave Maria

Then I will feel, the deepest joy
Yes, for my mama

And I will feel, so proud that I
Made the wish come true
All for my mama

The family's left, I feel so numb
I should've known this day would come
And still I try to smile
For my Mama

It hurts so much to see them go
They have their lives to lead, I know
Now I can watch their children grow
And hear, again, "Ave Maria"
Ave Maria

And I feel
The deepest joy
Yes, I'll kiss them all
For my Mama

And I will feel
So proud that I
Made the wish come true
All for my Mama

Still, this seems
So small
For all
She done
For me
On my my, Oh my my my, Oh Mama

Faço minhas

por Pedro Correia, em 12.06.19

 

As palavras do Eduardo Louro, a propósito da morte de Ruben de Carvalho.

 

Niki

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.05.19

nikilauda-l-1309306da133f2ff.jpg

Aos 70 anos travou o seu último combate, a derradeira corrida de uma vida plena de sacrifícios, glória, coragem, dor e intransigente respeito pela sua condição de homem e de piloto.

Espalhou classe e desportivismo pelas pistas de todo o mundo, numa época em que a Fórmula Um se fazia com cavalheiros, com homens e não com meninos.

Deu dois títulos mundiais à Ferrari (1975/1977), um terceiro à McLaren (1984), mas se me perguntarem o que de mais vivo tenho na memória, talvez fruto da minha condição de Alfista, foram as vitórias em Anderstop, no Grande Prémio da Suécia (1978), com o Brabham-Alfa Romeo BT 46-B com efeito de solo, e em Monza, no mesmo ano.

A primeira constituiu um duelo entre o motor Cosworth DFV do Lotus 79 de Mario Andretti, que viria a ser nesse ano o campeão do mundo, e o fabuloso motor de 12 cilindros da Alfa Romeo, que conduzido pela lenda austríaca esmagou toda a concorrência. A segunda foi uma corrida atípica, com muitos acidentes e interrupções, num fim-de-semana aziago em virtude do falecimento de Ronnie Peterson.

Lauda deixará mais um espaço por preencher na galeria dos notáveis que nos deixaram muito cedo. Que tenha o merecido descanso.

JRinqqA.jpg(foto daqui)


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