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Delito de Opinião

Vamos continuar a lê-lo

Eugénio Lisboa (1930-2024)

Pedro Correia, 10.04.24

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«Escrever é, para mim, usar a escrita com um máximo de prazer para explorar, interminavelmente, os meus próprios assombros.» Raras vezes lemos uma frase destas proferida por um escritor português. Até nisto Eugénio Lisboa se distinguia de muitos dos seus pares: não gostava de alardear uma pose sofrida e angustiada, como se carregasse todos os pecados do mundo.

Cultivava uma prosa densa e límpida ao mesmo tempo. Era um erudito quase sem reparar: interessava-lhe comunicar com o leitor, tanto em prosa como em poesia, no ensaio como na crónica. Proeza alcançada sobretudo na sua monumental obra memorialística, espalhada em seis volumes sob o título genérico Acta est Fabula. Recorda marcos da sua vida em dois continentes - de Lourenço Marques, sua cidade natal, a Lisboa, passando por Joanesburgo, Paris, Estocolmo e Londres.

Leitor omnívoro, apaixonado na primeira adolescência pel'O Vermelho e o Negro, de Stendhal, foi também crítico mordaz e um divulgador de mérito: gostava de partilhar os seus gostos literários com gente de várias gerações. Assim fez em Vamos Ler!, ensaio ainda pujante de vida, publicado quando já dobrara os 90 anos.

«O gosto de ler nunca mais se perde», ensinava nessa obra em que expressava admiração sem limites por autores como Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham, Ernest Hemingway ou Georges Simenon. Sem esquecer os compatriotas José Régio e Jorge de Sena, a quem dedicou boa parte do seu labor ensaístico.

 

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Eugénio Lisboa em Moçambique: uma vida longa, intensa e muito preenchida

 

Africano de pele clara, laurentino de berço, português de raiz, com aquele toque universalista que caracterizava os compatriotas da era das navegações. Foi conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Londres e presidiu à Comissão Nacional da UNESCO, entre outras funções que desempenhou na esfera pública e em empresas privadas. Sempre inconformado com a «total anestesia das antenas sociais». Pronunciou-se sem rodeios contra o famigerado "acordo ortográfico", como oportunamente anotei aqui. E fustigava alguns bonzos sem mérito da casta intelectual, convicto de que «a mediocridade ressentida é um perigo público».

Em 2020 regressou à poesia publicando Poemas em Tempo de Peste. Motivo? «Apeteceu-me de alguma forma ajudar a animar os espíritos vergados pela hipocondria. Foi uma espécie de desafio e de dever cívico», confessou numa entrevista

Assim se manteve até ao cair do pano, ontem, a pouco mais de um mês de completar 94 anos. Vida cheia, intensa, preenchida, estimulante. De algum modo prenunciada num dos seus ensaios mais marcantes, publicado em 1963 no semanário Voz de Moçambique. «Morrer de Velho», assim se chamava. 

A melhor forma de homenagear um escritor é lê-lo. Vamos continuar a ler Eugénio Lisboa.

Saudades de José Medeiros Ferreira

Pedro Correia, 17.03.24

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Medeiros Ferreira (1942-2014), em 1976, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros

 

Foi um dos políticos mais inteligentes e cultos que tive o privilégio de conhecer. Era um prazer conversar com José Medeiros Ferreira, tanto na Assembleia da República (foi deputado em três ciclos diferentes, o último dos quais pelo Partido Socialista) como em sua casa, na Calçada Eng.º Miguel Pais, ao Príncipe Real. Com aquela inconfundível pronúncia micaelense e uma ironia muito própria, que costumamos associar aos britânicos. Nada a ver com o corrosivo sarcasmo lusitano.

Após ter sido dirigente associativo durante a corajosa rebelião universitária de 1962, viveu seis anos exilado na Suíça, onde se licenciou em História pela Universidade de Genebra. Regressado a Portugal com o 25 de Abril, em 1976 tornou-se o nosso mais jovem ministro dos Negócios Estrangeiros. Com apenas 34 anos.

Sempre o comparei a um xadrezista ao ouvi-lo discorrer sobre estratégia política, tema que o apaixonava. Intuiu, antes de qualquer outra personalidade da oposição ao Estado Novo, que o "levantamento nacional e popular" contra a ditadura salazarista-caetanista era um mito propalado pelo PCP. O regime, que foi implantado pelas forças armadas a 28 de Maio de 1926, só cairia por acção militar - e havia que trabalhar nesse sentido a partir da oposição. Esta tese viria a ser precursora do 25 de Abril de 1974: ele anteviu tudo com inegável lucidez.

Teve um papel determinante na aproximação institucional de Portugal à Europa como alternativa aos bloqueios pós-revolucionários. Devemos-lhe isso - e também a caução que deu a Sá Carneiro, no biénio 1979-80, num momento decisivo que culminou com a inédita ascensão ao poder da direita por via eleitoral. 

O tempo é vertiginoso: às vezes imagino que passaram poucos meses desde a nossa última conversa sobre um dos múltiplos temas que lhe suscitavam interesse - da política ao jornalismo, passando pelo futebol. Mas a areia vai-se depositando, inexorável, no fundo da ampulheta: Medeiros Ferreira morreu aos 72 anos, cumpre-se já uma década amanhã. Sei que estou muito longe de ser o único a sentir saudades dele.

Amava a arte porque amava a vida

António-Pedro Vasconcelos (1939-2024)

Pedro Correia, 10.03.24

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Devo a António-Pedro Vasconcelos - e disse-lhe isto, de viva voz - três bens inestimáveis. Ele, sem fazer a menor ideia, ajudou-me a crescer enquanto leitor, ajudou-me a distinguir a  boa da má escrita e ajudou-me a ver cinema com outros olhos. 

Li-o durante décadas. Já não na mítica revista Cinéfilo, que o ajudou a catapultar para a fama com a sua verve crítica e o apuro formal da sua prosa, mas em publicações diversas, desde a revista Grande Reportagem, há muito desaparecida, até ao semanário Sol antes da recente deriva que até o nome lhe alterou. Sem esquecer O Independente, onde publicou alguns dos seus melhores textos. Fazia parte daquela geração - com Vasco Pulido Valente, António Barreto e alguns outros - que nos ensinou a escrever. Prosa enxuta, direita ao assunto, sem adjectivos nem advérbios que pesam como chumbo. Contundente, mas com elegância e estilo. 

Com o decorrer dos anos, habituei-me a seguir com proveito as suas recomendações literárias. Recordo várias, desde A Cartuxa de Parma até A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Oscar Wao, de Junot Díaz. Passando por A Consciência de Zeno, de Italo Svevo - por coincidência um dos livros que tenho de momento à cabeceira. Obras que me fizeram amadurecer, não apenas como leitor mas também na escrita.

Escolher quem nos inspira é essencial neste percurso.

 

Mas é como cinéfilo militante que mais lhe devo. Na década de 70, a RTP 2 dedicava parte importante da sua programação a clássicos da Sétima Arte. Fui espectador devoto desse magnífico desfile de filmes, sob a designação Cineclube. Antes da projecção ele falava-nos durante breves minutos sobre cada um, educando-nos o olhar com palavras simples, sem prosápia didáctica nem pompa académica. Aprendi muito com ele sobre John Ford e Otto Preminger, por exemplo.

A sombra de Preminger perpassa naquele que seria o seu filme mais emblemático: O Lugar do Morto, surgido em 1984 - film noir que tão bem reflecte a atmosfera daquele Portugal pós-revolucionário, com Ana Zanatti e Pedro Oliveira nos principais papéis, saltando com sucesso dos ecrãs da RTP para a tela grande do cinema.

Foi o maior êxito de bilheteira na produção nacional daquela década. E também um marco na reconciliação entre o público e a arte cinematográfica falada em português, causa em que António-Pedro militou com a paixão que o caracterizava em tantos outros temas, da política ao futebol. Ele e José Fonseca e Costa - autor de Kilas, o Mau da Fita e Sem Sombra de Pecado - advogaram sempre um cinema feito para o público, não contra ele. E sem o Estado a impor "políticas de gosto" a troco de subsídios. Nunca escondeu o desprezo por aqueles que arruinaram a indústria cinematográfica europeia reduzindo o cinema a obscuro ritual de seita, distanciado do mundo, divorciado da história.

Ao contrário dele. Era um homem que apreciava uma boa conversa, uma boa refeição, um bom jogo de futebol. Homem multifacetado, por vezes contraditório, com amigos de todas as idades e convicções. Homem que não escondia aquilo de que gostava nem o que detestava, sem se refugiar em meias-palavras e recusando precauções sonsas, tão frequentes em Portugal. Homem que amava a arte porque amava a vida. Como bem demonstrou em vários dos seus filmes: basta mencionar Jaime (1999), Os Imortais (2003) ou Os Gatos Não Têm Vertigens (2014).

 

Era eu aprendiz de crítico de cinema quando em 1984 acolhi com vibrante aplauso O Lugar do Morto no jornal onde escrevia. Cada geração tem os seus filmes de culto, adoptei logo este entre os meus. Pouco depois entrevistei-o no seu apartamento, num quinto andar da Rua do Quelhas, na zona de São Bento. Mal lá entrei contemplei, fascinado, uma estante cheia de marcas amarelas: eram as lombadas da revista Cahiers du Cinéma: colecção completa. Não admirava que ele fosse uma enciclopédia do cinema naquele tempo muito anterior à Internet, quando palavras como Google e Wikipédia ainda não tinham sido inventadas.

Foi uma das entrevistas que mais gostei de fazer como jornalista profissional. Quase vinte anos depois reencontrei-o à mesa do Pap'açorda original, no Bairro Alto. Ele era o convidado de uma rubrica que mantive durante bastante tempo no Diário de Notícias em que conversava com figuras da política ou da cultura apenas sobre temas gastronómicos. Também nisso era enciclopédico. Demarcando-se daquela ridícula pose de alguns vultos que se mostram distantes dos prazeres mundanos. 

 

Reencontrei-o por acaso há cerca de nove meses. Na esplanada do Matriciano, um dos meus restaurantes italianos favoritos de Lisboa. Ele sentara-se na mesa ao lado: houve tempo para lhe recordar aqueles nossos encontros que tão grata memória me deixaram. Depois lá foi, de passada larga, chapéu borsalino na cabeça, naquele inconfundível andar que tanto me recordava o Senhor Hulot, genial criação de Jacques Tati. Ninguém lhe daria 84 anos: sempre pareceu mais jovem.

Ia apresentar uma petição na Assembleia da República - contra a privatização da TAP, uma das últimas grandes causas em que se envolveu. Entre tantas outras, ao longo de muitos anos, da oposição a Luís Filipe Vieira no Benfica à luta contra o famigerado "acordo ortográfico". Sem esquecer a campanha presidencial de Mário Soares, em 1985-1986: foi um dos raros que estiveram com ele sem desfalecimentos, do princípio ao fim. Manteve o entusiasmo mesmo quando tudo parecia perdido. Eram as causas de que mais gostava: as causas perdidas. Como um herói romântico do século XIX.

O cinema imita a vida, a vida imita o cinema. Marcado desde o Verão passado por uma tragédia pessoal (a morte inesperada de Diogo, o filho mais novo), António-Pedro foi-se apagando como vela ao vento. Aquele perene sorriso extinguiu-se: chegara o momento do pôr-do-sol. Desapareceu dias antes do 85.º aniversário, que nunca iria festejar. 

 

«O meu ofício é contar histórias através de imagens e de sons. Serão o público e a posteridade a decidir se os meus filmes têm algumas condições para ficar na memória das pessoas. Se são arte, não me cabe a mim definir. Não gosto de rotular à partida se sou artista ou não: sou profissional, gosto mais do termo profissional.» Era assim, falando de si próprio sem prosápia de espécie alguma. Em nítido contraste com tantos medíocres que pululam por aí.

É de Stendhal a extraordinária frase que lhe serviu de lema: «Deseja tudo, espera pouco, não peças nada.» Também isto lhe devo: esta divisa (agora com vénia eterna para ele) tornou-se minha também.

Por um triz

Teresa Ribeiro, 08.03.24

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As mensagens ainda não arrefeceram no meu telemóvel. Trocámos várias nos últimos tempos. Queria entrevistá-lo para um trabalho que ando a fazer, ele fugia-me. Marcámos e desmarcámos várias vezes. Desculpava-se, muito cortês. É que andava assoberbado. E eu sorria, condescendente, porque achava bonito. Tanta vida, apesar dos 84 anos, pensava. Que se conserve assim por muito tempo.

Depois aconteceu aquela desgraça e já não foi possível. Mesmo assim houve avanços e recuos, mas no dia aprazado faltava-lhe o ânimo, desmarcava. Deixou-me suspensa das palavras que não me disse e eu sabia serem importantes. Porque ele não era pessoa para dizer banalidades. Tão boa tinha sido aquela conversa que um dia tivemos, no seu apartamento na Rua do Quelhas, que queria repetir. Ter só mais um bocadinho de António-Pedro Vasconcelos só para mim, mas escapou-me por um triz. E a sensação que me fica é a de desperdício. Tinha ainda tanto para fazer e para dizer. E de impotência. Vontade de pôr o pé na porta e de insistir, só mais uma vez: "Gostava mesmo muito de falar consigo."

In Memoriams

João Pedro Pimenta, 11.01.24

2024 começou como 2023 tinha terminado: frio, húmido e com numerosas mortes. Para além de algumas não públicas, mas nem assim menos dolorosas, registaram-se vários desaparecimentos entre o fim do ano que passou e o início deste.

Mesmo a terminar, e no mesmo dia, morreram Odete Santos, a inesquecível deputada do PCP, relembrada aqui pelo Pedro Correia, pelas suas tiradas e porque seguiu o sonho de uma carreira teatral (recordo-me de numa entrevista ter dito que os seus autores favoritos eram norte-americanos, acrescentando "eu gosto da cultura, não gosto é de quem lá manda"), Wolfgang Schäuble, o austero ministro das finanças alemão, talvez pelo atentado que o obrigou a mover-se numa cadeira de rodas para o resto da vida; e, sobretudo, Jacques Delors, o maior construtor europeu das últimas décadas, Presidente da Comissão entre 1985 e 1995, precisamente quando Portugal entrou na CEE (e a ele também o deve) e o verdadeiro fundador da UE e do Euro e de coisas hoje em dia normais, como o programa Erasmus. No fim do mandato europeu teve oportunidade de se tornar presidente de França, sucedendo a Mitterand, quando todas as sondagens lhe atribuíam a vitória, mas declinou numa entrevista em directo, abrindo caminho a outro Jacques, Chirac. Socialista católico, coisa pouco usual na França actual, teve direito a uma homenagem nacional, nos Invalides, à qual não faltou Marcelo Rebelo de Sousa.

Já em 2024 desapareceram, com 3 dias de diferença, Mário Lobo Zagallo e o Kaiser Franz Beckembauer. Eram dois dos três únicos homens que tinham sido campeões do Mundo de futebol por seleções tanto como jogadores como treinadores. O outro é Didiers Deschamps, que se queda assim como única pessoa viva com tal estatuto.

E no início desta semana, fui surpreendido pela notícia da morte de Arnaldo Trindade. tinha 89 anos e era bisavô, mas era daquelas pessoas que achava que viveria até aos cem. Tinha uma carreira de mais de sessenta anos que começou como normal empresário do negócio de família, uma loja de electrodomésticos no centro do Porto, mas quis ir mais além. Criou a editora Orfeu, gravando os autores declamando as suas próprias obras. Com alguns, como Miguel Torga, cujo desagrado em ler-se em voz alta era conhecido, teve enormes dificuldades, mas lá conseguiu. Seria ele a lançar e a editar os futuros músicos de intervenção, com Zeca Afonso à cabeça, seguindo-se Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Sérgio Godinho ou Jorge Palma. Com engenho e a aura de respeitável comerciante do Porto, recusando músicas demasiado "panfletárias", conseguia ludibriar a PIDE e a Censura. Projectou muitos outros músicos emergentes e de estilos diferentes, como José Cid (que escreveu algumas das suas mais conhecidas letras na sua casa), ou o Conjunto António Mafra, e quando Zeca lhe pediu um bom tocador de concertina para um disco de música popular, apresentou-lhe um jovem Quim Barreiros. Cantigas de intervenção, rock progressivo, música popular: Arnaldo Trindade lançou vários estilos que ficaram para a história musical portuguesa do Século XX.

A Orfeu, como editora, acabou nos anos oitenta, mas Arnaldo Trindade manteve o projecto que reúne a sua discografia. Dedicou-se ele próprio à poesia, tinha editado alguns livros de poesia e todos os dias escrevia um poema que publicava na sua página de Facebook. Era um conversador nato e uma prodigiosa memória da vida cultural portuense e portuguesa das últimas sete décadas, ele que estivera no centro de alguns dos projectos mais arrojados. Não deixava de recordar a viva impressão que tinha tido ao visitar pela primeira vez os Estados Unidos, antes dos vinte anos, para onde viajou de navio e que lhe pareceram tão diferentes e tão mais grandiosos e avançados do que o Portugal dos anos 50. Ouvi-o em encontros passados referir isso e muito mais (algumas coisas podem ser comprovadas aqui) e testemunhei a sua forma serena e nada histriónica de declamar poesia. Era convidado frequente de lançamentos, programas de televisão ou rádio e entrevistas. Julgava sinceramente que ainda o veríamos por uns bons anos e que voltaria a encontrá-lo. Nada é eterno, e mesmo aqueles que parece que vão estar aqui permanente e intemporalmente acabam por ir.

 

Na morte de Odete Santos

Pedro Correia, 28.12.23

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Foto: Global Imagens

 

Quando Odete Santos abandonou por vontade própria a Assembleia da República, em 2007, deputados de todas as bancadas tributaram-lhe uma calorosa ovação em plenário. Acompanhei esse momento e questiono-me se aquela rara unanimidade voltaria a ser hoje possível, fosse quem fosse a figura em causa. Sinto-me inclinado a supor que não: os hábitos políticos mudaram muito, a crispação acentuou-se, as trincheiras foram-se aprofundando.

Odete estava há muito retirada dos palcos mediáticos. Depois do Parlamento, chegou a fazer teatro em Setúbal, cidade adoptiva desta jurista natural da Guarda. Era pessoa de verbo fácil e gargalhada espontânea. Não escondia o que pensava nem temia ser inconveniente, por vezes face ao próprio cânone do PCP, que representou durante 27 anos no hemiciclo de São Bento. «Calma, Odete» era a frase-bordão que lhe dizia o secretário-geral Carlos Carvalhas, ambos caricaturados nos bonecos da divertida e saudosa Contra-Informação da RTP.

Isso ficou patente, aliás, na entrevista que lhe fiz para o Diário de Notícias, a última que concedeu enquanto deputada. 

Quando lhe perguntei se devia haver «mais mulheres» na cúpula dirigente dos comunistas, ela não hesitou um segundo na resposta: «Sim. Deveria haver mais mulheres. Não tenho dúvidas nenhumas.»

 

Sempre simpatizei com ela. Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético «camarada Álvaro» que a levou à militância no pós-25 de Abril.

No entanto, na rua Soeiro Pereira Gomes nem todos lhe apreciavam o estilo algo dissonante e a popularidade que granjeou fora das paredes partidárias. Odete nunca fez parte dos organismos executivos (Secretariado, Comissão Política), nunca foi líder parlamentar, nunca foi candidata presidencial - ao contrário dos cinzentos e sensaborões António Abreu, Francisco Lopes e Edgar Silva, funcionários diligentes mas totalmente desprovidos de carisma.

Apreciava teatro, cinema, literatura. Era vibrante declamadora de poesia. Gostava de acampar. Nunca fugia a um debate, mesmo com quem estivesse nos antípodas do seu pensamento: permanece na memória de muitos a sua vigorosa defesa de Cunhal, na RTP, como "maior português de sempre" num simulacro de concurso em que emergiu como vencedor Salazar, enaltecido por Jaime Nogueira Pinto. Nem D. Afonso Henriques, nem D. Dinis, nem D. João II, nem Vasco da Gama, nem Camões. A memória histórica é curta, os extremos exercem sobre muitos uma atracção irresistível. 

 

Nessa entrevista que lhe fiz em Abril de 2007, confessava abandonar o parlamento com «uma sensação de alívio». Saudades, só as «do futuro» - parafraseando o "poeta militante" José Gomes Ferreira. Deixando no entanto antever alguma mágoa: sentia que devia ter sido mais bem aproveitada pelo partido que nunca renegou. «Tenho pena de não ter criado condições para fazer trabalho de organização, que é importante.» Por uma vez, ficou-se pelas entrelinhas - aliás facilmente entendíveis.

Lembrei-me de várias ocasiões em que privei com ela - nomeadamente em campanhas eleitorais - ao saber ontem a triste notícia do seu falecimento, aos 82 anos. Era de um tempo em que vultos de diversos partidos se cruzavam nos corredores parlamentares sem confundirem divergência com ódio ou insulto ao adversário. Parece uma era já remota, nestes dias em que abunda o carreirismo político, cada um fala quase só para a sua bolha e as personalidades com voz própria e autonomia profissional estão cada vez mais distantes da vida parlamentar.

Não tenho a menor dúvida: a democracia portuguesa perde com isso.

Brilhante estratego, fraco profeta

Henry Alfred Kissinger (1923-2023)

Pedro Correia, 30.11.23

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Teve uma vida cheia - e lúcida e activa até ao fim. Morreu ontem, tranquilamente, na sua casa do Connecticut. Já centenário, há quatro meses fez uma última visita a Pequim, onde foi recebido por Xi Jinping, que o enalteceu como amigo perpétuo da China.

Catedrático emérito da Universidade de Columbia, talvez o maior especialista em política internacional nos escalões dirigentes norte-americanos da última metade do século XX, Henry Alfred Kissinger, nascido em Maio de 1923 na Alemanha e radicado na América desde 1938, levou uma perspectiva europeia ao Departamento de Estado. Antecipando o que mais tarde, na viragem do milénio, sucederia com Madeleine Albright durante a administração Clinton.

Como conselheiro especial do presidente Richard Nixon, de quem se tornou braço direito para a política internacional, com prolongamento para a administração Ford, subiu tão alto quanto lhe era possível em Washington. Foi o primeiro judeu a desempenhar as funções de secretário de Estado - terceiro posto na hierarquia do Executivo. Faltou-lhe apenas ter sido candidato à presidência, o que lhe estava constitucionalmente vedado por não ter nascido com a nacionalidade norte-americana.

 

Este europeu transposto para o Novo Mundo era herdeiro directo dos "realistas" que retalharam o mapa mundi ao longo de um século -- da Convenção de Viena, em 1815, à cimeira de Versalhes, em 1919. Com duas convicções básicas: nenhum país tem aliados permanentes, só interesses permanentes; e não haverá vencedores em guerras na era atómica. Assim promoveu o degelo nas relações entre Washington e a China comunista primeiro e com a União Soviética logo a seguir. As duas mais espectaculares acções norte-americanas das últimas décadas na política externa.

Legou-nos detalhadas memórias em três volumes e várias obras ensaísticas dissecadas nos circuitos universitários e nas chancelarias internacionais, além de conquistarem leitores fiéis entre os cidadãos comuns. Diplomacia, por exemplo, é um trabalho académico de grande fôlego, confirmando o autor num patamar de erudição muito superior ao da média entre a elite política no seu país adoptivo.

 

A originalidade de Kissinger, nos salões e gabinetes de Washington, radicou-se na sua visão da política externa americana inspirada nos cem anos anteriores dos meandros da diplomacia europeia. Também influenciado, naturalmente, por circunstâncias da sua biografia pessoal: ter nascido numa família hebraica entre as duas guerras mundiais e conhecer a experiência totalitária não em abstracto mas no concreto. O regresso à Alemanha devastada pela guerra, enquanto cumpria o serviço militar já como cidadão norte-americano e exerceu funções de tradutor nas forças armadas, levou-o a perceber como são débeis os pilares daquilo a que chamamos civilização e como se havia tornado irrisória a influência europeia nos destinos mundiais.

A sua tão propalada realpolitik limitou-se, no fundo, a seguir os trilhos abertos por Ialta, na cimeira que dividiu o globo em esferas de influência. O planeta multipolar dos nossos dias, com emergentes potências de âmbito regional, baralhou toda a lógica anterior, que a geração de Kissinger preferia, pois a política de blocos, ideologicamente antagónicos mas perfeitamente identificáveis, assegurou meio século de relativa paz em diversas regiões do globo.

Consumado xadrezista, Kissinger valorizava na política externa as linhas de continuidade estratégica em função das quais as alianças entre nações assumiam uma geometria variável ditada por conveniências tácticas. A aproximação simultânea de Washington a Moscovo e Pequim, sob o seu comando, aconteceu como via de exploração das divergências entre russos e chineses que à época fracturavam o mundo socialista e acabaram por disputar as boas graças dos EUA.

Neste aspecto foi hábil sucessor dos mestres da diplomacia oitocentista na Europa, desde logo Metternich, e opositor da visão messiânica dos Estados Unidos na promoção das boas práticas democráticas à escala planetária.

 

Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, Kissinger adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível - para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.

Há que lembrar, de qualquer modo, que se revelou fraco profeta em relação a Portugal, ao vaticinar em 1975 que o nosso país sucumbiria a uma "ditadura comunista" capaz de funcionar como "vacina" para o conjunto da Europa. E não esqueço o aval, directo ou indirecto, que deu aos generais indonésios para invadirem Timor.

Era uma figura compreensível no contexto da Guerra Fria - e sobretudo à luz desse contexto merece ser valorizada. Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, teste em que provavelmente muitos dos seus antecessores e alguns dos seus sucessores falhavam.

Henry A. Kissinger (1923/2023)

Sérgio de Almeida Correia, 30.11.23

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Nos bons e nos maus momentos esteve com todos e contra todos, com inteligência, ignorância e muito cinismo.

Uma vez convidaram-me para estar presente num dos seus doutoramentos honoris causa. Até hoje não estou certo se acreditava numa palavra do que pensava, do que dizia e do que escreveu.

Mas o seu legado é incontornável. Outros o julgarão. Não faltarão entendidos a dissertarem nos próximos dias, em todos os canais de rádio e de televisão, em tons laudatórios, sobre as suas múltiplas qualidades. Eu limito-me a certificar o óbito do século XX. E olhando à minha volta, para o que se passa no mundo, também não sei se isso será bom.

Ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Ele também não o teve, e por várias vezes tentou interromper o curso da história, treslendo e ignorando os sinais.

Apesar disso foi capaz de escrever muitos sumários. Alguns péssimos. Em Timor não deixará saudades. Outros, felizmente, como no caso português, não se concretizaram. Não ficámos entre Santiago e Havana. Voltámos a ser europeus. De corpo inteiro. E não lhe devemos isso.

Que descanse em paz.

Salif Keita

jpt, 03.09.23

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Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época - e hoje seria uma macro-estrela global... - que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se - pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) - para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de "tridente" (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso "Manel" (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão - o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha - tal como Jordão - por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas - ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à "posse de bola" e às "coberturas"?... Era o Maior!

Eduardo Pitta

jpt, 26.07.23

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Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da "blogosfera" e Pitta manteve-o activo até recentemente - infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência - lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio "Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea". E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país - não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo - principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o "estado da nação" e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas - a qual raiava o absurdo na "blogosfera" -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa - estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve "Persona" é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique - e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o "Persona" está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

Jane Birkin

jpt, 17.07.23

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Morreu a Jane Birkin. Sempre miúda apesar de já tardo-septuagenária. A partir de difusa altura a vida passa a ser isto, o quotidiano desaparecimento das referências, relevantes ou paisagísticas.
 
A Birkin foi-me mais do que paisagística. Soube-a na era do lendário "Quando o Telefone Toca", quando o mariola lhe cantava "je vais et je viens entre tes reins" sem que eu percebesse bem o que aquilo dizia. Mas nela intuí o fundamental, a beleza das mulheres não habita no par de mamas, muito menos no avantajado da sua apresentação.
 
Mas para que não me digam lúbrico em momento de luto aponto para outro lado: quando em 2023 um recente ministro dos Negócios Estrangeiros tem o desplante de ir à sua prelecção semanal televisiva rejubilar com mais um cardeal português (como se fosse o ranking do futebol europeu) enquanto afirmava que a Virgem Maria apareceu em Portugal (Fátima).- nisso opondo-se à própria hierarquia cardinalícia, que já nega a aparição, remetendo o "acontecimento" para uma visão das (esfomeadas, analfabetas e manipuláveis) crianças - convirá recordar a estuporada reacção da tropa eclesiástica ao "Je t'aime..." (consta que até se excomungou gente).

 

Mattoso

jpt, 09.07.23

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Na morte de José Mattoso recuei para quando li o seu magnífico "Identificação de Um País", leitura escolar em disciplina de "Etnografia Portuguesa", em meados dos 1980s. Naquela época os professores tinham uma concepção messiânica da docência universitária - era essa, decerto, a razão de impingirem vários trabalhos para serem feitos durante as férias natalícias, assim concorrenciais à quadra (verdadeiramente) festiva. Nesse ano para essa disciplina (entre várias outras, sublinho) o trabalho poderia nem ser desmesurado, uma (espécie) de "recensão" sobre um livro que abordasse a diversidade portuguesa, um guia gastronómico, um roteiro de viagens, um catálogo mais abrangente de arte popular, etc. - seria um treino para os alunos olharem essa nossa diversidade, teoricamente a sua futura matéria-prima quando obtivessem a licença profissional. 

Voluntarista insano decidi conjugar o trepidante ritmo festivo que se avizinhava com a leitura, atenta e produtiva, dos dois volumes da "Identificação de um País" de Mattoso, então celebrizado. O trabalho deveria ser entregue no primeiro dia de aulas. Claro que nesse dia estava eu ainda dactilografando o texto - naquela exaustiva metodologia de escrever e reescrever, amachucar páginas e deitá-los ao lixo, e depois passar a recortar algumas linhas já mais certeiras e colá-las junto a outras anteriores, esperando outras que viriam. De directa em directa. O professor da disciplina, Joaquim Pais de Brito - que depois viria a ser director do Museu de Etnologia durante longa época, e que eu ainda viria a encontrar em Moçambique - tinha a enorme fama e o imenso proveito de ser inflexível com os prazos de entrega dos trabalhos. (Tendo eu depois passado duas décadas a leccionar ainda hoje me pergunto para que serve essa inflexibilidade, típica em imensos professores...). Ou seja, nem fui à aula, a da entrega dos trabalhos, continuando a maratona para completar a tal "recensão", e após umas centenas de cigarros e inúmeros cafés lá o dactilografei, recortei, colei e... fotocopiei, já terminado. Mas ouvira ecos da furibunda reacção do docente aos incautos que haviam incorrido a implorar mais uns dias para o trabalhito... E julguei melhor não tentar entregar o trabalho, desistir da cadeira, fazê-la em ano subsequente, escolhendo rumos menos laboriosos. "Porquê?" perguntaram-me, "depois de tanta trabalheira!", insistiam. "Se o gajo me falar assim não respondo por mim..." ripostava eu.

Ou seja, formalmente ler o "Identificação de um País" foi-me, afinal, não só inútil mas também me lesou..., tivesse eu escrito sobre um qualquer "açordas do Minho ao Algarve". Mas foi das coisas mais importantes da minha vida, ali aos 21 anos a mergulhar no monumental tratado sobre o que é a história e sobre o que é escrever a História, um "paradigma da História democrática" botei eu então, pomposo de juvenil, aquilo de como as diferenças são constitutivas sem vir (como então quase sempre vinha) embrulhado na bacoca dialéctica marxizante, legitimada por rodapés (ou introduções) (pós-)hegelianas. Ninguém pode ter o "Identificação de um País" como livro de cabeceira. Mas imagina-se (sonha-se) diferente depois de o ter lido.

(Uns meses depois o Pais de Brito apanhou-me num corredor, "Então, homem, que lhe aconteceu? Desistiu?" e eu expliquei-me que me atrasara, aquilo da intensidade, densidade, magnitude, "maravilhosidade" do Mattoso... "Entregue lá isso. E depois no fim vá fazer um exame, que é para não parecer que fez em avaliação contínua". Que a tal inflexibilidade, afinal, era mais resmungona do que real...).

A partir daí fiquei sempre atento ao que o Historiador produzia. Muitos anos depois o meu amigo Paulo Dentinho, que havia conhecido em Moçambique, partiu para Timor-Leste como correspondente da RTP. Passado uns tempos fez uma reportagem, que me encantou: lá tinha ele ido para as montanhas, vasculhar os velhos esconderijos dos líderes da guerrilha, em busca dos arquivos. E nessas duras andanças acompanhado pelo já septuagenário Mattoso. Incrível! A reportagem (meros 6, 28 minutos) está aqui. Imperdível. Uma excêntrica memória de um gigante intelectual.

D. Luísa

José Meireles Graça, 26.06.23

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Não é que seja viciado em necrológios, é que com o adiantar dos anos as clareiras da saudade e da gratidão vão ficando mais amplas.

Era uma pessoa bem-disposta, tanto que há muitos anos, num filme dos irmãos Marx (Um Dia nas Corridas), teve acessos de riso incontrolável tão fortes que a plateia toda ria com ela.

As cóleras, inevitáveis no afã da administração das vidas do marido, do filho, da filha e da casa, que lhe faziam a voz aguda, nem eram frequentes nem duravam mais de 10 minutos.

Fora na juventude uma beldade, que se conservou até tarde. E dedicou a vida ao amor de caixão à cova que a ligou a um artista completo com um extenso rol de peculiaridades, que integrou sem esforço numa inalterável rotina doméstica. Cozinheira superlativa, e formadora avant la lettre de quanta criada (ainda se pode dizer assim?) lhe passou pelas mãos, o passadio era a inveja das visitas. Foi, durante muito tempo, gente das Artes, e um ou outro amigo ocasional que se interessasse por música (jazz, que a outra o pater familias não ligava pevas) ou, por exemplo, Camilo, o escritor que, numa casa de agnósticos, tinha altar posto nos interesses e nas conversas.

Um amigo do filho passou a páginas tantas a ser visita assídua. E discretamente, como se estivesse na ordem natural das coisas, também ele passou a ter direito às sextas-feiras, que era quando chegava para o fim de semana, ao mimo que nada fazia por merecer e que era, por exemplo, umas costeletas de porco das quais, com ofensa das boas maneiras, até a película do osso comia. Assim como a resposta que tinha para dar a modestos mas indevidos e frequentes pedidos de empréstimos foi sempre a mesma: chega?

O tal amigo, que era este vosso criado, foi substituído na hierarquia das atenções pela neta, dado que casou com a prata (no caso, ouro) da casa, e passado o tempo regulamentar o enlace frutificou. E logo do outro lado da diarquia filial outra neta veio, e as duas reinaram inocentemente até que veio a segunda série de netos, três rapazes, a que mais tarde se juntaram duas bisnetas, turba que tomou conta da cidadela a tal ponto que em alguns momentos se poderia julgar, no almoço dominical, que o serviço era à lista.

Morreu ontem, aos 90 anos, serenamente, não tendo tido nunca noção perfeita, porque acamada há mais de dois anos, de que o marido já cá não estava. Decerto o provedor destas coisas lá no assento etéreo não quis que quem dedicou a vida aos outros como se não tivesse qualidades de inteligência e vontade para brilhar por si tivesse ainda de pagar um preço pela passagem.

A quase extinção do homem analógico

João Pedro Pimenta, 22.06.23

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Confesso: apesar de o meu Pai me garantir que era (até há dias, evidentemente) o maior escritor americano vivo, nunca li um livro de Cormac McCarthy e tanto quanto sei só vi um filme adaptado de uma obra dele - o famigerado No Country for Old Men. Este artigo de in memoriam de Paulo Faria (excelente tradutor, já agora), que em "leitura aberta" para não assinantes só se consegue ler o início, revela-nos um escritor que não só cresceu em viva comunhão com a natureza mas que acima de tudo NUNCA usou a net para absolutamente nada, recorrendo sempre, até morrer, à sua máquina de escrever.
 
Isto é absolutamente extraordinário, e traz-nos à memória antigos correspondentes de jornais, de mangas arregaçadas, por vezes fumando copiosamente, teclando furiosamente as suas Remingtons, para deixar pronto a tempo o artigo do dia seguinte com o melhor tratamento possível da língua. Não sei se seria o caso de McCarthy, mas não posso deixar de pensar em todas as discussões, críticas e debates exclusivamente na net sobre a sua obra e as respectivas adaptações que ele nunca viu nem imaginou. Era, pois, um ser em vias de extinção: uma pessoa absolutamente analógica. Isto escrevo eu, no meu computador, na net, da qual dependo imensamente, como a maioria das pessoas, com um tudo de nada de inveja e muita admiração.

Tina Turner

jpt, 24.05.23

 Tina Turner durante apresentação na O2 Arena, em Londres, em março de 2009 — Foto:  REUTERS/Stefan Wermuth/Arquivo

 

Vi a Tina Turner em 1991, talvez, depois dos Stones e do Bowie, antes do Santana, lá no José de Alvalade, então sede lisboeta do rock... - aquilo dava-nos cabo do relvado mas valia bem a pena, pelas receitas para dissipar pelo clube e pelos grandes espectáculos. Lá cheguei um bom bocado antes do concerto, como sempre dirigi-me ao nosso "ponto de encontro" - "onde nos encontramos?", perguntavam os neófitos mais ansiosos. "No sítio onde o Oceano joga", respondia, veterano, para desnorte alheio, logo acabrunhados num "isso é onde?" para acolherem um ríspido e rústico "em qualquer lugar do lugar do relvado!!", tão omnipresente era o nosso grande Oceano, que eles decerto desconheciam. Ou seja, ia lá para o rock e não para o convívio.

Enfim, lá aportei, aproximei-me da velha Bancada Central. Estava apinhada. A Tina original, a Turner, havia ressurgido há anos, estava no topo dos topos, o grande Mad Max também ajudara. Lembro bem que ao lusco-fusco do crepúsculo, ainda ao som de música gravada, o público já dançava exultante. Mas mais do que isso, estava pejado de Tinas - negras, mulatas, até brancas. E de Tinos também, que não Ikes. Tudo dançando. Depois encheu o relvado. Sim, ela reaparecera anos antes neste pop-rock até manso, mais do que tudo sexy, um embrulho abrangente que a tantos agradava - será que os miúdos de hoje poderão perceber o impacto daquilo? E nisso a quantidade de noites bamboleando nestas cançãozinhas que ela tornava um "must"? Um caldo comum?

Não tenho qualquer vinil ou cd dela. Mas ficou a memória dessas imensas danças. E de um grande concerto, esfuziante. E de como - perceba quem quiser - este embrulho amalgamado, produtor de amálgamas, era virtuoso. Por isso aqui deixo esta versão ao vivo. Com ela cantando e dançando de calças - porque era muito mais do que umas "hot legs".

Nabeiro em Bruxelas

jpt, 20.03.23

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(Rui Nabeiro, fotografia presumo que da autoria de Ricardo Palma Veiga)

Há pouco tempo passei um ano em Bruxelas. Na vizinhança arranjei dois poisos refúgios da intempérie solidão que me acometera: em Etterbeeck o "Etcetera", um barzito de bairro algo "bobo" (como se dizia, não sei se ainda) - ufano do Depardieu por lá ter passado - e com uma simpática clientela, imensamente acolhedora deste excêntrico português, pois cinquentão nem eurocrata nem nas "obras" e que, talvez mesmo mais por isso, sabia bastante de banda desenhada. E em Schaerbeek o "Ponto de Encontro", reduto português mas aberto a quem viesse por bem - lá decorriam encontros do campeonato nacional de dardos, por exemplo -, um simpatícissimo casal proprietário e um gentil núcleo de fregueses. Entre os quais também eu era excêntrico, notado pois não só o único homem que não trabalhava nas "obras" como, gabavam-me, era o único sportinguista que aparecia após as (então) habituais derrotas. Para me encaixarem foi decidido que eu era "jornalista" - coisa que não levei a mal pois percebi ser a forma de não me resumirem ao naúfrago que ali estava. E pareceria.
 
 
 

In Memoriam

Maria Dulce Fernandes, 19.03.23

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Manuel Rui Azinhais Nabeiro

(Campo Maior, 28 de Março de 1931 - Lisboa, 19 de Março 2023)

Quem é bom, nunca morre. Viverá para sempre no coração de quem o amava como o homem de bem que sempre foi. 

Foi um bom homem e um homem bom. Fez bem a muita gente.

Partiremos todos um dia, os maus e os bons. Se há vida para além destes momentos fugazes, deveria haver por lá guardado um lugar especial para homens como o Comendador Rui Nabeiro.

Adeus, Senhor Comendador, até sempre.