Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Dois homens que deixaram obra e lastro

António Borges Coelho (1927-2025) e Álvaro Laborinho Lúcio (1941-2025)

Pedro Correia, 12.11.25

Morreram muito recentemente duas figuras que admirei, por motivos diversos mas que justificam louvor póstumo em simultâneo: António Borges Coelho e Álvaro Laborinho Lúcio.

 

antonio-borges-coelho.webp

O primeiro distinguiu-se como ensaísta e cronista de mérito, mas sobretudo como historiador. Autor de uma História de Portugal em vários volumes, em que sobressai a sua análise do interregno filipino que durou 60 anos mas continua a ser um dos períodos menos bem conhecidos dos compatriotas.

Tive ocasião de sublinhar aqui o mérito dessa obra quando a li, há oito anos.

«António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.» Palavras que hoje reitero.

Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos. Incluindo Crónicas e Discursos, um livro-testamento editado em 2024 que também destaquei aqui.

«Alegra-me quando as pessoas acham que fiz alguma coisa de útil», afirmou numa entrevista à Lusa, em 2018. Bastava-lhe isso. E cumpriu o desígnio.

Morreu a 17 de Outubro, com 97 anos. Nunca o conheci. Mas sou-lhe grato enquanto leitor.

 

ALL_APAV_v2.webp

O segundo, magistrado de profissão e escritor por vocação, foi competente ministro da Justiça durante uma legislatura, no terceiro executivo de Cavaco Silva (1991-1995), e mais tarde (2003-2006) ministro da República para os Açores, por nomeação de Jorge Sampaio. Tive o gosto de conhecê-lo ao fazer-lhe uma extensa entrevista jornalística em 2020, na Fundação Gulbenkian. 

Cinco anos antes tinha-o incluído numa série de textos polvilhados de alusões irónicas no DELITO DE OPINIÃO sob o título "Presidenciáveis" - e que originou um livro homónimo. Na altura ofereci-lhe um exemplar da obra e ele sorriu, com louvável fair play, quando leu que «os complexos desafios de Belém exigem trabalho árduo e não apenas Laborinho». Em anos mais recentes, já aposentado, este social-democrata de sólidos princípios humanistas dedicou-se sobretudo à escrita de ficção: tive igualmente ocasião de salientar três desses títulos aqui: O Chamador (2014), O Homem que Escrevia Azulejos (2016) e O Beco da Liberdade (2019).

«A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis», declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.

Morreu a 23 de Outubro, com 83 anos. Deixou excelente memória em muitos portugueses, até de vários que nunca votaram no PSD.

Pioneiro na democracia e no jornalismo

Na morte de Francisco Pinto Balsemão (1937-2025)

Pedro Correia, 23.10.25

balsas.webp

 

Francisco Pinto Balsemão, falecido na noite de anteontem com 88 anos, era um dos escassos sobreviventes daquele tempo pioneiro em que se instaurou a democracia em Portugal. A democracia genuína, não o regime censitário da monarquia constitucional nem a caótica década e meia da ilusória "aurora republicana" de 1910. Como fundador do PSD - então crismado Partido Popular Democrático - de que era militante n.º 1, integrou o núcleo de protagonistas daquela irrepetível era iniciada com a Revolução dos Cravos e que teve como marco essencial a Constituição, prestes a completar meio século de existência.

A importância de Balsemão começara ainda antes do 25 de Abril como administrador de jornais, sendo ele próprio jornalista. Ao transformar o Diário Popular num periódico ousado e de grande audiência no crepúsculo do salazarismo e sobretudo a partir de 1972, ao preparar a fundação do Expresso, cujo primeiro número surgiu em 6 de Janeiro de 1973, prenunciando a derrocada do Estado Novo e a instauração do liberalismo político que aqui chegou com décadas de atraso. 

Hoje, aos olhos de muitos, parece ter sido um percurso linear. Nada mais equívoco. Balsemão acreditou nas promessas liberalizantes de Marcello Caetano, que fora seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa, e aceitou integrar - como independente - as listas da União Nacional em 1969. Mas o jogo estava viciado - desde a escassa dimensão do universo eleitoral até à impossibilidade de fiscalização real dos votos pela oposição, passando pelas fortes restrições à liberdade de associação e reunião. Sem esquecer o papel castrador da censura à imprensa.

A Primavera virou Inverno. Balsemão e os restantes membros da Ala Liberal nesse falso parlamento que integrava 100 por cento de eleitos pela UN (Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, José Pinto Leite, Mota Amaral, Raquel Ribeiro, Correia da Cunha, Pinto Machado e alguns outros) distanciaram-se do sucessor de Salazar, que se limitara a introduzir medidas de cosmética - a PIDE passou a designar-se Direcção-Geral de Segurança, a Censura derivou para Exame Prémio, a anacrónica UN deu lugar à Acção Nacional Popular - produto igual com rótulo novo.

A guerra sem solução política à vista nos três palcos africanos paralisava o regime e condenou-o à extinção.

 

Seguiram-se outros desafios, com novas frentes de combate. Balsemão resistiu quando, no frenesim revolucionário, o Expresso chegou a ser rotulado de «voz do fascismo»: foi essencial a luta que travou pela liberdade de imprensa recorrendo até aos seus numerosos contactos internacionais. Como também marcou o País pela legislação que regulou o sector da informação - e que, no essencial, subsiste nos dias de hoje.

Sem esquecer a sua acção como deputado constituinte, eleito naquela gloriosa jornada libertadora de Abril de 1975 em que pela primeira vez todos os portugueses maiores de 21 anos puderam ir a votos. Foi vice-presidente da Assembleia Constituinte. Manteve sólida parceria com Francisco Sá Carneiro no partido e mais tarde, naquele efémero Governo que durou de 3 de Janeiro a 4 de Dezembro de 1980. 

Num país em choque pelo desaparecimento simultâneo do primeiro-ministro e do ministro da Defesa, Amaro da Costa, na queda da fatídica avioneta em Camarate, foi Balsemão quem pegou no leme: era o sucessor natural de Sá Carneiro no PSD e no Executivo. O Expresso ficara confiado a Marcelo Rebelo de Sousa: nenhum outro jornal criticou então tanto o Governo.

Era um teste decisivo ao fair play democrático do seu fundador. Superado com distinção.

 

Permaneceu cerca de dois anos e meio à frente do Executivo - até Junho de 1983. Tempo suficiente para ficar ligado a dois marcos essenciais: a revisão constitucional de 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução, último resquício de tutela militar num regime que só a partir daí adoptou a matriz civilista integral das democracias ocidentais. Nascia o Tribunal Constitucional, consolidava-se a divisão de poderes no Estado, deram-se passos decisivos rumo à economia de mercado que a revisão de 1989 iria acentuar.

Foi também um período decisivo para a futura adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia graças à acção de ministros como o titular dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira, e o da Integração Europeia, Álvaro Barreto.

Com Balsemão a liderar o processo.

Era um senador da república. Chegou a alimentar ambições presidenciais, mas Cavaco Silva cortou-lhe duas vezes o passo: primeiro em 1996 (quando perdeu para Jorge Sampaio), depois em 2006 (quando derrotou Manuel Alegre e Mário Soares).

Ocupava há 20 anos um merecido assento no Conselho de Estado.

 

Mas foi mesmo no jornalismo que a sua acção se revelou fundamental. Após ter fundado o primeiro semanário português com figurino internacional, voltou a ser pioneiro ao lançar o primeiro canal privado de televisão a nível nacional: a SIC, cuja emissão inaugural ocorreu a 6 de Outubro de 1992. Em Janeiro de 2002 iniciaram-se as emissões regulares da SIC Notícias, primeiro canal televisivo noticioso a transmitir 24 horas. 

«Tinha a elegância do risco», como acertadamente observou Rui Moreira em reacção ao seu falecimento. Também nisto protagonizou tempos irrepetíveis. Tempos em que os grupos informativos se algutinavam em torno de um clã familiar e mantinham como líder de referência alguém com manifesta paixão pelo jornalismo. 

Com a morte de Balsemão, também isto desaparece: na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. 

Tanta coisa se perdeu pelo caminho - desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão.

Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.

 

Leitura complementar: A arte de resistir à sedução do poder (16 de Setembro de 2021)

Supertramp

jpt, 09.09.25

(School, Supertramp, Live in Paris, 1979)
 
 
Morreu Rick Davies, um dos tipos dos Supertramp. A gente dançava esta School - e a Give a Little Bit e mais uma ou outra - nas festinhas e nas matinées dançantes no Beat, no Browns, Porão da Nau e similares, bebendo cubas livres e esfumaçando SGs, Filtros, Gigante ou Ventil ansiando pelos slows... Mas era um banda refutada, fatela por assim dizer. Exactamente por causa isso não os fui ver quando cá vieram neste 1979. E lembro-me de ter lido com total concordância (apesar de não os ter visto, claro) a crítica desaprovadora do António Macedo no então influente "Sete" - está reproduzida em blog, basta engrandecer as imagens que se lê muito bem.
 
Mas, deixando-me de coisas, tenho saudades dos Supertramp. E do Beat...

Luís Fernando Veríssimo já foi

Pedro Correia, 01.09.25

Verissimo-Div.webp

 

Foi com tristeza que recebi ontem a notícia da morte de Luís Fernando Veríssimo, cultor do aforismo, da crónica, da narrativa em formato curto. Com um sentido de humor amável e quase terno, sem confundir sentido crítico com grosseria ou vulgaridade. 

Há 20 anos lia com imenso gosto os seus textos e comprei até vários livros que publicou, como Sexo na Cabeça Comédias para se ler na escola. Tal como 20 anos antes tinha sido leitor compulsivo dos romances do seu pai, o grande Érico Veríssimo. Mestres da língua portuguesa, cada qual no seu registo. 

Posso estar enganado, mas creio que ambos andam hoje esquecidos. A literatura vive muito de vagas, está sujeita a flutuações de gosto ao sabor das modas de ocasião. Talvez este tempo seja pouco propício ao tal humor afável e polido de Luís Fernando, em contraste absoluto com o extremismo sem a menor graça que nos invade o quotidiano.

A triste notícia deu-me vontade de revisitar os livros dele. Hei-de evocá-los aqui: devo-lhe isso, como leitor antigo. E devo-o a mim mesmo, em memória melancólica de um tempo que já passou.

 

Nada melhor, como despedida, do que recordar aqui algumas das suas frases mais argutas e marcantes:

«Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.»

«Resignemo-nos à ignorância, que é a forma mais cómoda de sabedoria.»

«Conhece-te a ti mesmo, mas não fiques íntimo.»

«O mundo não é ruim, só está mal frequentado.»

«Não sei para onde caminha a humanidade. Mas, quando souber, vou para o outro lado.»

«O futuro era muito melhor antigamente.»

«Você só sabe até onde pode ir quando já foi.»

Na Morte de Eduardo Gageiro

jpt, 07.06.25

Na morte de Eduardo Gageiro convido quem me leia a visitar o mural de Facebook do Miguel Valle de Figueiredo. Pois agora ele recolocou um magnífico retrato (verdadeira homenagem) que de Gageiro fez, em plenas comemorações do 25 de Abril, em 2024.

Gageiro foi muito (muitíssimo) mais do que o “fotógrafo de Abril” - e, entre tanto trabalho, fez um espantoso manancial de fotografias que não sendo “etnográficas” deliciam qualquer antropólogo. Mas noto que dele só tenho este livro-catálogo de uma sua exposição comemorativa, “25 Textos de Autores Portugueses Sobre Fotos de Abril” (Festa do Avante, 1999) - herdei-o do meu pai, que enquanto pôde não falhou uma Festa.

(Nem gosto muito do livro. Pois se aprecio um ensaio sobre uma fotografia, já torço o nariz a esta tendência, recorrente, de fazer ombrear imagem com um texto alusivo. Ou seja, as boas fotografias desnecessitam de serem atravancadas com palavreado, aceitam - no máximo - uma legenda significativa. Mas entendo o propósito, então o da celebração dos 25 anos da revolução, congregando algumas das mais conhecidas fotografias da época e dizeres e sentimentos de autores “camaradas e amigos” do fotógrafo.)   

E uso a morte de Gageiro e as suas fotografias para falar do (meu) quotidiano. Há poucos dias, em roda alargada de esplanada, uma amiga recente, mais-nova, de súbito perguntou-me em quem voto eu. Resmunguei mudo “raisparta, ando eu a blogar sobre o assunto e nem os amigos me lêem…”. E respondi-lhe. Aduzindo um assim legítimo porque recíproco “e tu, votas em quem?”. Para ser surpreendido - pelo parco saber que do seu contexto tenho e, ainda mais, por ser ela uma mais-nova - pelo seu “voto PCP”. Devo ter esbugalhado os olhos pois ela quis justificar a opção. Cortei-a cerce, “hei, o meu pai era o Camarada Pimentel, foi-o até à morte…”. Ou seja, avancei, “votas PC? Ok, discordamos. Eu salto na cadeira é com os do BE - e não por razões ideológicas, morais ou racionais, é mesmo fisiológico…”.

Nisso o seu namorado, também meu mais-novo, simpático que eu mal conheço, avançou “eu votei no CHEGA”. E eu aí devo ter arqueado a sobrancelha, até pela surpresa da disparidade entre eles. E como tal também ele se quis justificar num “votei como protesto contra isto, contra estes tipos”. Tudo bem, cada um como cada qual, inflecti, para que não nos puséssemos ali a discutir política. Pediram-se mais umas cervejas e fomos para outros temas.

Mas fiquei com o episódio, a matutar. Por um lado, porque demonstra a superficialidade destas “identidades políticas” que as minorias sobre-politizadas continuam a brandir. Pois duas pessoas seguem imunes ao histrionismo dos comentadeiros, às arengas militantes, e nisso vão-se amando - ou, pelo menos, gostando - tendo planos conjuntos, de curto, médio ou longo prazo, isso é lá com eles, divertem-se, carnal e socialmente, partilham-se. E, entretanto, cada um vota no oposto do outro. Sem qualquer problema. Magnífico.

Por outro lado, foi-me o episódio comprovativo. O voto no CHEGA é muito isto, não ideológico ou “preconceituoso” ou “intolerante”. É o protesto contra “o estado a que isto chegou”, para glosar o capitão de Abril.

Mas o problema - e foi isso o que eu me eximi de resmungar com o mais-novo, e escrevo-o agora, talvez ele me venha a ler o postal - é que esse voto de protesto alimenta um partido cujos dirigentes e muitos militantes abominam estas fotografias. E tudo o que significam.

São os que se dizem “deputados da Nação”, chorosos do Estado Novo. Irados contra o apear da imagem de Salazar (magnífico momento de Gageiro, se encenado ou não pouco importa), pois ao ditador apondo virtudes. Revanchistas contra as liberdades individuais - de facto crentes na necessidade de amordaçar, alguns que sejam, até algemar se possível. Saudosistas do colonialismo, vendo traição na justeza histórica. E que votando nesta gente, por protesto contra estes trastes que entretanto vão mandando, mais eco lhes é dado. Mais capacidade de influenciarem outros, de lhes inculcarem as suas abjectas ideias.

Que assim se vão disseminando. É agora notório que no país democrático do grande Rui Manuel Trindade Jordão, de Shéu Han, de Gil, de Oceano, de Éder, de tantos outros, vitoriosos ou não, célebres talentosos, esquecidos medianos, desconhecidos medíocres, surgem agora - como nunca antes - nas catacumbas da internet bramidos contra “negros” nas selecções desportivas nacionais. Pois, para essa escumalha, antes menor e menos ruidosa, o “preto” não é digno de nos representar. Há que os esconder, pelo menos, a esses tais. Ou até escorraçar. E o voto “de protesto” anima, alimenta, esta cáfila asquerosa.

E - mesmo sendo hoje - não nos chega a arte do Nuno Mendes para opor a tal gente. Ou a garra dos putos Sub-17. Pelo contrário, ira-os ver “pretos” com sucesso.

Será para isso adequado voltar às fotografias de Gageiro. Que nos mostrou como “povo” daquelas maneiras. E também como “povo” querendo paz (contra os malvados do “Império”) e liberdade (contra os melifluos da “Nação”). E nisso virar costas a esta gentinha. Que é verdadeiro “Lixo Branco”, como dizem lá nos EUA.

Franciscus

Pedro Correia, 27.04.25

SMM.jpg

Interior da Basílica de Santa Maria Maior, última morada terrena do Papa

 

Vimo-lo pela última vez faz hoje uma semana, Domingo de Páscoa. Debilitado, enfraquecido, mas com vontade indómita de pronunciar uma última mensagem urbi et orbi, tão inspiradora como a primeira que nos transmitiu mal fora eleito Papa, a 13 de Março de 2013. «Boa noite», afirmara então, mal assomou nesse instante inicial como Pontífice ao balcão da Basílica de São Pedro antes de pedir aos 1400 milhões de católicos que rezassem por ele.

«Boa Páscoa», disse neste dia 20, em cadeira de rodas, à multidão de fiéis que o escutava. Já tão próximo do seu limite físico, pronunciou a palavra que - mais do que qualquer outra - significa a transição da morte para a vida.

 

Repousa desde ontem na Basílica de Santa Maria Maior, no chão de uma nave lateral. Tendo inscrito apenas o seu nome em latim no mármore oriundo da Ligúria, região natal dos seus avós.

«Franciscus».

Ei-lo ali, humilde até ao fim, no termo da sua peregrinação terrena, após os grandes do planeta se despedirem dele numa soalheira manhã em Roma e cerca de meio milhão de pessoas comuns terem acompanhado a urna ao longo do cortejo de seis quilómetros. 

 

Pedra tumular rasa, sem luxo nem ornamentos, para aquele que foi sem dúvida um príncipe da Igreja Católica neste primeiro quartel do século XXI. Quem lhe suceder no trono de Pedro tem um encargo muito pesado: permanecer à altura do legado de Jorge Mario Bergoglio, o bom pastor que veio dos confins do planeta com a missão de unir o mundo. Cumprindo a Parábola dos Talentos, uma das estimulantes lições de vida que podemos colher dos Evangelhos.

Os seus restos mortais moram agora na laje do templo mariano onde nenhum pontífice era sepultado desde Clemente IX, em 1669. O último chefe da Igreja antes dele a escolher como derradeira morada terrena um cenário alternativo à Basílica de São Pedro havia sido o grande Papa Leão XIII, sepultado há 122 anos em São João de Latrão.

 

Ninguém deve invejar a tarefa de quem irá seguir-se, por eleição dos seus pares, no conclave dos cardeais. Terá de prosseguir, sem desfalecimentos, a marcha contra a globalização da indiferença. Por uma igreja sem muralhas, onde «todos possam entrar», na senda deste belo lema que Francisco nos transmitiu.

Acusam-no alguns de se ter desviado da rota. Gente de pouca fé: esta mensagem está inscrita desde o início, na Parábola do Bom Samaritano (Lucas X, 25-37). Pronunciada de viva voz por Jesus no seu apelo de amor ao próximo que nos leva a socorrer os mais necessitados, venham de onde vierem, por imperativo moral. 

«Amarás o teu próximo como a ti mesmo.» Dois mil anos depois, nenhum estribilho ideológico conseguiu ser mais inspirador e luminoso do que este mandamento, pedra angular da civilização. 

«Sou apenas um passo»

Pedro Correia, 21.04.25

francesco.webp

 

Ainda ontem, no balcão de São Pedro, o ouvimos desejar «boa Páscoa» aos fiéis da cidade de Roma e ao mundo. Já com a voz muito enfraquecida mas mantendo o ar bondoso que lhe conhecemos desde que, ali mesmo, pronunciou há 12 anos as primeiras palavras como pastor universal da Igreja Católica.

A um marco histórico - a primeira renúncia de um Pontífice máximo em mais de meio milénio - sucedia outro: o primeiro não-europeu em 1200 anos, o primeiro oriundo do continente americano, filho de imigrantes italianos radicados na Argentina. Cardeal de Buenos Aires, vivia num modesto apartamento, deslocava-se em transportes públicos, cozinhava as suas próprias refeições.

Encorajava os jovens a descobrir Cristo entre os pobres.

 

Francisco - que escolheu chamar-se assim em homenagem explícita ao santo de Assis - foi uma extraordinária figura à escala global. Daí a notícia da sua morte, ao início da manhã de hoje, ter mergulhado grande parte do mundo em profunda tristeza. O mundo católico, sim. Mas a dor é partilhada por muita gente de outras confissões e até por pessoas que não professam religião alguma. Ecoando o brado que Francisco soltou em Lisboa, na memorável Jornada Mundial da Juventude, em Agosto de 2023: «Todos, todos, todos!»

A voz de uma Igreja que não exclui. A voz de uma Igreja que não prega no deserto, mas no coração das urbes contemporâneas, atenta aos pecados perpetuados por incontáveis gerações. Como ensina frei Bento Domingues, «uma Igreja só pode ser católica, isto é, universal, quando é uma escola de aprender a servir, sem olhar a quem».

Servir as pessoas, não ideologias, como Francisco acentuou na sua peregrinação de 2017 a Cuba.

 

No próprio dia em que foi eleito, a 13 de Março de 2013, anotei aqui: «Também ele apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele.»

Nunca perdeu o sorriso tímido, jamais se deslumbrou com as ilusórias luzes do poder terreno. «Sou apenas um passo», insistia em dizer. Sem humildade existencial ninguém é verdadeiro discípulo de Jesus. 

 

Nos doze anos do seu pontificado, revelou-se mais inspirador do que qualquer líder político do nosso tempo. Com a palavra e o exemplo, tornou-se «pároco do mundo», na feliz definição da revista italiana Panorama

«Regressa à Casa do Pai» - terminologia oficial hoje usada na Santa Sé - neste momento em que tanto precisávamos dele, neste momento em que a Igreja tanto necessita de um sucessor à altura do seu legado - o do retorno à pureza da mensagem evangélica, contrariando a volúpia da guerra e a cupidez da plutocracia.

«O mundo de Francisco acabou. O todos, todos, todos deu lugar a um mundo assente no tudo, tudo, tudo», lamentava há menos de um mês Jorge Botelho Moniz num amargurado texto de reflexão no Público.

Deus queira que não.

Lembrar Mario Vargas Llosa

Pedro Correia, 14.04.25

eeee.jpg

Mario Vargas Llosa morreu ontem em Lima, capital do seu Peru natal, aos 89 anos. Era, sem favor algum, um dos maiores escritores dos dois últimos séculos - justamente distinguido, em 2010, com o Prémio Nobel da Literatura.

Foi sempre um nome de referência no DELITO DE OPINIÃO. Pelo seu talento ímpar, pela manifesta qualidade da sua escrita, pela clareza das suas ideias, pelo desassombro das suas opiniões. 

Pela minha parte, nunca o escondi: era um dos meus autores preferidos. Equiparo-o a Kafka, Orwell, Camus, Hemingway, Greene. Escritores que não apenas admiro e considero, mas que estimo muito. Como se integrassem a minha família alargada - desde os anos da adolescência, quando comecei a conhecê-los e a conviver com eles sem nunca me cansar.

 

Tendo escrito sobre três livros de Vargas Llosa, é o momento de recordar esses textos aqui publicados.

dddd.jpeg

Sobre Conversa na Catedral (1969):

«Recorrendo à técnica da diluição cronológica, Vargas Llosa povoa esta magnífica obra de múltiplas personagens e narrativas secundárias sem abandonar a denúncia dos governos que suprimem a liberdade e condenam sucessivas gerações a um futuro sem esperança.»

 

mario 2.jpeg

Sobre A Tia Julia e o Escrevedor (1977):

«Acontece que a sua história pessoal, sendo verdadeira, parecia trama de ficção. Puro radioteatro. Impensável confusão entre biografia e folhetim. Quanto mais inverosímil, mais emocionante ou divertida – e, num certo sentido, mais verdadeira. Lembrando-nos que a vida é um romance - percorrido por momentos delirantes ou lancinantes de riso e choro, varrido por horas alternadas de partilha e solidão.»

 

cccc.jpeg

Sobre La Llamada de la Tribu (2018):

«O liberalismo não é uma ideologia, não é uma doutrina fechada que suscite aplausos acéfalos ou seguidores incondicionais. Em tempo de trincheiras, potenciadas pelas chamadas redes sociais, um liberal à moda antiga – cultor da tolerância, da moderação, da justa medida, da liberdade apenas condicionada ao império da lei – é menos mobilizador do que um populista incendiário apelando ao encerramento das fronteiras. Mas nem por isso deixa de ter a razão do seu lado.»

 

..................................................................................

 

É também o momento propício para lembrar alguns dos seus pensamentos que mereceram destaque neste blogue. Aqui ficam, nos parágrafos que se seguem, em modesta mas comovida homenagem à sua memória.

«A literatura é o alimento de espíritos indóceis e propagadora de inconformismo, um refúgio para aqueles a quem sobra ou falta algo, na vida, para ser infeliz, para não se sentir incompleto, sem realizar as suas aspirações.»

«Agora, graças à grande revolução audiovisual e cibernética, a privacidade deixou de existir, e em qualquer caso ninguém a respeita: transgredi-la é um desporto praticado diariamente pelos órgãos de informação perante um público que assim o exige com avidez.»

«Por detrás da crise financeira, existe uma moral degradada pela ganância. Esta é uma forma terrível de incultura.»

«A magia e o hipnotismo colectivos podem conduzir ao poder qualquer demagogo sem escrúpulos, tanto numa ditadura como numa democracia.»

«Todo o nacionalismo foi sempre uma catastrófica epidemia para os povos.»

«A paixão pode ser generosa e altruísta quando inspira a luta contra a pobreza e o desemprego. Mas a paixão também pode ser destruidora e feroz quando é movida pelo fanatismo e pelo racismo.»

«A literatura francesa fez o mundo inteiro sonhar um mundo melhor. A literatura francesa permitiu que sejam hoje realidade muitas democracias, preservando a razão contra pesadelos e revoluções, após tantos fracassos e mortos.»

«As democracias mais imperfeitas são sempre preferíveis às ditaduras mais perfeitas.»

 

mario.jpeg

(1936-2025)

Miguel Macedo

Pedro Correia, 14.03.25

mm.jpg

 

Foi injustiçado. Foi vítima de uma acusação infame que liquidou a sua carreira política. Foi alvo de uma investigação sem provas e de uma acusação irresponsável que o destruiu por dentro - e talvez lhe tenha deteriorado a saúde a um ponto que até ele mal pôde avaliar. Tinha sido secretário de Estado, deputado, líder parlamentar. Era um competente ministro da Administração Interna.

Talvez pudesse ter sido presidente do PSD - o seu partido de sempre. Nunca saberemos. Acusado de "prevaricação e tráfico de influências", abandonou de imediato funções públicas e remeteu-se à vida privada. Aconteceu em 2014. Se ocorresse uns anos depois, teria visto provavelmente o seu retrato exposto em obscenos cartazes de propaganda política chamando-lhe "corrupto" - alvo da demagogia mais rasteira para ajustar contas com o regime democrático.

Não se escondeu, não virou a cara, não optou pela litigância de má-fé para estender prazos rumo à prescrição.

Negou todas as acusações, comportando-se com irrepreensível dignidade.

 

Seis anos depois, ao ser ilibado na sede própria, o tribunal, a notícia não fez manchete: foi varrida para discretos rodapés. Os "justiceiros" da imprensa estavam de folga ou assobiaram para o lado nesse dia. 

Recebeu-a com alegria, mas também com amargura: a tardia sentença judicial absolveu-o de qualquer suspeita, mas a sua morte cívica fora decretada muito antes. Mesmo assim, ninguém lhe ouviu uma palavra de azedume. Nem lhe passou pela cabeça "processar o Estado" ou pôr-se aos gritos, declarando guerra ao Ministério Público. Deu, também com isto, um notável exemplo de contenção republicana. 

Ressurgiu há um ano, como discreto comentador político longe do chamado "horário nobre": o último foi exibido há escassos dias. Morreu ontem aos 65 anos, vítima de fulminante síncope cardíaca.

A sua voz apagou-se cedo de mais. Faz-nos falta como alerta contra os demagogos de turno que andam por aí sem freio nos dentes, mais assanhados que nunca. Agitando o espantalho da insegurança para apertarem o torniquete à liberdade. 

 

A minha respeitosa homenagem a Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silva, que agora nos deixa, para dolorosa surpresa geral.

A Assembleia da República prestou-lhe merecido e justo tributo póstumo, como se impunha. É triste que só a morte sirva para convergirmos no essencial. Conscientes de que a democracia política é tão frágil como a vida humana: pode apagar-se com demasiada facilidade se não cuidarmos bem dela em cada dia que passa.

A última das três Marias

Teresa Ribeiro, 04.02.25

img_1200x1200$2023_12_11_12_26_30_452742.jpg

Entrevistei-a o ano passado para o Público, a propósito do relançamento da obra de Maria Lamas "As Mulheres do Meu País". Então com 86 anos, a última das 3 Marias conservava no olhar a fibra da rebeldia, algo que contrastava em absoluto com a sua evidente fragilidade física. Esse desconcerto enterneceu-me, expôs de forma explícita o que ela era, o que sempre fora. Na altura estava a ser requisitada para várias coisas ao mesmo tempo. Entrevistas na televisão, noutros jornais, coisas que tinham a ver com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Não escondia o cansaço nem a felicidade de ter de ser obrigada a andar numa roda-viva. Se nunca ninguém a impedira de fazer da sua vida o que queria, não seria a idade a dobrá-la.

Falámos de feminismo, perguntei-lhe o que pensava das mulheres – tantas – que fazem questão de se declarar “femininas e não feministas”. Respondeu-me: “Sinto que há muitas mulheres que não têm consciência de tudo o que foi conquistado. Durante anos e anos andaram mulheres a lutar pelos seus direitos e sofreram muito. Foram presas, espancadas, humilhadas. Eu fui insultada e espancada na rua. Enquanto me batiam disseram-me ‘Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves’.”

 Ela e as outras duas marias (Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa) tiveram a ousadia de escrever um livro, “As Novas Cartas Portuguesas”, onde se falava das necessidades afectivas das mulheres e do seu desejo de emancipação. Lançado em 1972, foi considerado pornográfico pelo anterior regime e imediatamente apreendido. Estas recordações ainda lhe incendiavam o olhar. Era um orgulho. O seu e o das mulheres que sentia representar.

Na hora da despedida, agradeço-lhe tudo o que ajudou a conquistar para mim, para a minha filha e, quem sabe, para uma futura neta. E fica a promessa: pela parte que me toca, sempre honrarei a memória das feministas do meu país.

Marianne Faithfull

jpt, 31.01.25

(Marianne Faithfull - Broken English Live)

Eram mesmo outros tempos, tínhamos muito menos informações. À Marianne Faithfull cheguei na adolescência apenas por apanhar este LP "Broken English" - comprado na do Apolo 70?, na loja de discos baratos da Baixa? - que teria ouvido num ápice na rádio. Não sabia quem era ela, o enorme pedigree rock que tinha - sabia lá eu que teria sido a musa da canção da minha vida, a "You Can’t Always Get What You Want" dos Stones, sabia lá eu do implícito desta "Broken English"... Ficou-me ela para sempre. E ainda mais quando fui crescendo e sabendo quem era ela.
 
Morreu agora. Lembro-a não como a beldade do panteão rock. Mas como esta matrona imensa... intensa.

Jimmy Carter (1924-2024)

Pedro Correia, 30.12.24

carter.jpeg

 

Escrevi sobre ele duas vezes em 2024. Não há duas sem três: faltava esta. Em tom de elegia, ao contrário das anteriores. Para dar nota do falecimento de Jimmy Carter, Presidente dos EUA durante a minha adolescência, triunfador da corrida à Casa Branca de 1976 - a primeira que segui em pormenor do primeiro ao último dia, como se acompanhasse as peripécias de um campeonato de futebol.

James Earl Carter Jr, 39.º inquilino da Casa Branca (na verdade foi o 38.º pois Grover Cleveland ocupou duas vezes o emblemático edifício do n.º 1600 da Avenida Pensilvânia em Washington) entre 1977 e 1981, esteve longe de ser um chefe do Executivo norte-americano bem-sucedido. Apesar de alguns sucessos no campo internacional, como os acordos de Camp David que selaram a paz entre Israel e o Egipto, os tratados do Canal do Panamá que permitiram a restituição a este país da faixa de território que Washington ali administrava desde o início do século e um acordo para a redução de mísseis balísticos assinado com a URSS.

Em Novembro de 1980, este vulto do Partido Democrata era o rosto de um país enfraquecido, que parecia à beira da decadência. Foi derrotado nas urnas pelo republicano Ronald Reagan - que prometia «um novo amanhecer na América».

Mas Carter soube reconstruir a sua imagem. E é hoje considerado, sem favor, um dos melhores antigos presidentes dos EUA, tendo recebido em 2002 o Nobel da Paz. Pelos seus esforços na promoção da democracia, da justiça social, das condições sanitárias e dos direitos humanos um pouco por todo o globo.

O Centro Carter, que fundou em 1982 com a sua mulher, Rosalyn, é uma organização de referência, à escala mundial, para avaliar campanhas e resultados eleitorais. Em Julho, não hesitou em considerar fraudulento o escrutínio presidencial na Venezuela, ganho por Edmundo González, o candidato da oposição - que acabou perseguido, ameaçado e exilado pela ditadura militar de Caracas.

 

Em Maio mencionei-o no DELITO: figurava na galeria dos escassos sobreviventes actuais entre os militares mobilizados na II Guerra Mundial. Com Mel Brooks, Dick Van Dyke e alguns outros.

A 1 de Outubro assinalei aqui o centésimo aniversário deste homem de perpétuo sorriso. Tornara-se já o chefe do Executivo norte-americano com maior longevidade de sempre, ultrapassando George Bush, falecido aos 94 anos em 2018. Mas permaneceu activo quase até ao fim. E ainda fez questão de votar na eleição presidencial de Novembro, optando naturalmente por Kamala Harris.

«Aliviar o sofrimento» era um dos lemas deste cristão convicto, que se manteve fiel à fé que professava. Quando falhou, nunca foi por défice de idealismo mas talvez por acreditar em excesso na bondade humana. Até nisto dir-se-ia hoje um homem de tempos muito distantes. De tempos que parecem nunca mais voltar.

Obrigado

Sérgio de Almeida Correia, 31.10.24

André Freire CM Pedro Simões 2024-10-30-17-03-(créditos: CM/Pedro Simões)

Choque pela notícia matutina. Choque pelas circunstâncias. Choque pela confrontação com a realidade.

A notícia caiu de chofre.

Figura de referência no estudo, investigação e ensino da moderna Ciência Política portuguesa, que ajudou a colocar no mapa internacional das escolas de referência, sempre disponível para com os seus alunos, rigoroso, aberto e amigo, o Professor André Freire partiu subitamente.

Sem aviso prévio e numa intervenção cirúrgica, tanto quanto me apercebi, corriqueira.

Os milhares de páginas que deixou escritas em livros e artigos científicos, que terão feito dele um dos mais citados politólogos nacionais, jamais servirão para colmatar a sua ausência na academia e no espaço público, nas televisões, em jornais, em múltiplos seminários e conferências, nas quais sempre participava com gosto e total disponibilidade.

Exemplo de integridade, de intervenção cívica desinteressada e oportuna, em especial nas cíclicas crises da política portuguesa, parte numa altura em que tinha ainda tanto para nos dar.

Os seus alunos ficarão órfãos. Os portugueses estão desde hoje imensamente mais pobres.

Fundamental no meu regresso ao universo académico, à orientação definitiva da agulha para a minha área de vocação e interesse, motivando-me para a investigação e a fixação de metas das quais, tanto ele como o saudoso Professor Farelo Lopes, nunca me deixaram desistir, dando-me sempre a sua opinião informada, a última sugestão de leitura e os incentivos para desenvolver, aperfeiçoar e depurar.

Concluído o doutoramento, que acompanhou com interesse e visível satisfação pelo cumprimento de todos os prazos e o interesse do tema que então investiguei, e sem cuja ajuda jamais teria concluído, lá íamos mantendo contacto virtual, sempre com uma palavra, da parte dele, de interesse sobre o que ia fazendo em terras longínquas, e de estímulo a um eventual regresso a Portugal, que sempre viu com bons olhos.

Uma vez por outra, quando passava por Lisboa, lá participava nas conferências de que me dava nota, visitando-o de caminho no gabinete do ISCTE que partilhava com a minha antiga orientadora, sua colega e amiga.

A sua voz continuará a ouvir-se, e a ser recordada, por mais anos que passem.

O vazio permanecerá de cada vez que ler uma página dos seus escritos ou o citar.

Tristeza maior por saber que já não terei o gosto de o ouvir comentar e criticar aquilo que for escrevendo.

Até sempre, Professor.

Até sempre, André, e obrigado.

Marco Paulo

jpt, 24.10.24

As reações à morte de Marco Paulo - SIC Notícias

 

[Marco Paulo - Maravilhoso coração]

Desprezado pelos gentrificados - e de que maneiras soezes o foi, vilipendiado por ser quem era e por ser de quem era. Pois amado, verdadeiramente, pelo povo. Cantou, deu-se, até ao fim, muito após a voz lhe doer. Morreu hoje o Marco Paulo. Decerto, tanto assim o surgiu durante décadas, um "maravilhoso coração". E um excelente cantor romântico.

Augusto M. Seabra

Sérgio de Almeida Correia, 06.09.24

1936200.jpeg(créditos: Público, Pedro Martinho)

Não havia texto dele que não fosse lido. Não havia apreciação que não fosse fundamentada. Não havia crítica que não fosse, como no Letra de Forma escreveu citando Baudelaire, "parcial, política e apaixonada". Eu acrescentaria livre. Goste-se ou não.

Muito terá ficado por dizer e por escrever. A morte chega sempre cedo quando ainda há perspectiva de tanto para fazer, desenvolver, concluir. Viver.

Restará a memória e tudo o que ficou registado. Muito, nele, terá sido sempre pouco, mas o melhor mesmo é ler o excelente Destaque, escrito a várias mãos, da edição de hoje do Público sobre esse português que nos deixou.

Às vezes, no meio de tanta mediocridade, fico a pensar como é que em Portugal ainda sobrevive gente assim. E que deixa obra.