Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Faço minhas

por Pedro Correia, em 12.06.19

 

As palavras do Eduardo Louro, a propósito da morte de Ruben de Carvalho.

 

Niki

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.05.19

nikilauda-l-1309306da133f2ff.jpg

Aos 70 anos travou o seu último combate, a derradeira corrida de uma vida plena de sacrifícios, glória, coragem, dor e intransigente respeito pela sua condição de homem e de piloto.

Espalhou classe e desportivismo pelas pistas de todo o mundo, numa época em que a Fórmula Um se fazia com cavalheiros, com homens e não com meninos.

Deu dois títulos mundiais à Ferrari (1975/1977), um terceiro à McLaren (1984), mas se me perguntarem o que de mais vivo tenho na memória, talvez fruto da minha condição de Alfista, foram as vitórias em Anderstop, no Grande Prémio da Suécia (1978), com o Brabham-Alfa Romeo BT 46-B com efeito de solo, e em Monza, no mesmo ano.

A primeira constituiu um duelo entre o motor Cosworth DFV do Lotus 79 de Mario Andretti, que viria a ser nesse ano o campeão do mundo, e o fabuloso motor de 12 cilindros da Alfa Romeo, que conduzido pela lenda austríaca esmagou toda a concorrência. A segunda foi uma corrida atípica, com muitos acidentes e interrupções, num fim-de-semana aziago em virtude do falecimento de Ronnie Peterson.

Lauda deixará mais um espaço por preencher na galeria dos notáveis que nos deixaram muito cedo. Que tenha o merecido descanso.

JRinqqA.jpg(foto daqui)

A. Pérez Rubalcaba (1951-2019)

por Diogo Noivo, em 10.05.19

21448558_rywD2.jpeg

 

Despediu-se da política levado em ombros. Os elogios vinham de todo o lado, até de detractores. Com humor sereno e certeiro, respondia “nós, os espanhóis, somos muito bons em enterros”.

Alfredo Pérez Rubalcaba (Cantábria, 1951) entrou na política em 1982 pela mão de Felipe González, de quem foi ministro. Voltou às pastas governamentais com José Luis Rodríguez Zapatero, que quem foi ministro, vice-presidente e seguro de vida política.

Nesta última encarnação governativa, Rubalcaba geriu a terceira e derradeira negociação entre um Executivo de Espanha e a organização terrorista ETA. O processo fracassou, tal como os anteriores, ficando marcado por momentos gravosos. Ainda assim, foi o suficiente para aumentar as brechas existentes no meio etarra e, dessa forma, precipitar a derrota operacional da organização. Este vislumbre de êxito no meio de um tremendo fracasso deve-se a pequeníssimo grupo de pessoas, entre as quais Rubalcaba. A 20 de Outubro do ano passado, data do sétimo aniversário da declaração de fim da violência da ETA, escreveu nas redes sociais: “Acossado policialmente e isolado social e politicamente, o grupo terrorista teve de que admitir a sua derrota, sem alcançar nenhum dos seus objectivos.” E, para desespero dos revisionistas históricos que ainda existem no País Basco, clarificou: "A verdade esta: a democracia ganhou e a ETA foi derrotada."

Abandonou a política em 2014 para regressar à sua profissão de origem, a de professor de química orgânica na Universidade Complutense. O “maquiavel de Madrid” deixou a política para voltar ao ponto de partida.

Na última contenda pela liderança do PSOE apoiou Susana Díaz contra Pedro Sánchez. Apesar disso, Sánchez ofereceu-lhe o lugar de candidato socialista à câmara municipal de Madrid, oferta que Rubalcaba recusou, embora reiterasse a sua lealdade ao partido e ao seu secretário-geral.

Alfredo Pérez Rubalcaba dizia que depois da política começava a vida. Foi curta. Morreu hoje, em Madrid, vítima de acidente vascular cerebral. O PSOE perde um dos políticos mais inteligentes e sagazes dos últimos 30 anos e Espanha perde uma figura central do seu processo de consolidação e desenvolvimento democrático.

Dor, saudade e raiva

por Diogo Noivo, em 01.05.19

Perdi uma amiga que tinha um coração doce e um sorriso glorioso. Corrijo, não a perdi. Foi-me roubada de maneira vil, insidiosa e cobarde. Lamentavelmente, não sou o principal lesado. Antes fosse. Há dois petizes que ficaram sem mãe e um querido amigo que ficou sem o amor da sua vida. Há uma mãe viúva à qual foi arrancada a sua única filha. Há ainda um grupo de amigos de longa data que ficou amputado.

As razões do cretino responsável por tamanha desgraça são para mim imperscrutáveis. Na verdade, as razões pouco importam. A nuvem de angústia e dor lancinante que deixou a pairar sobre várias cabeças é demasiado grande e opressiva para ser explicada. Só percebemos a enormidade da coisa quando nos toca na pele.

Resta-me agarrar a saudade, as muitas memórias de amizade e carinho. E recriminar-me por não ter estado mais presente. Porque não tenho qualquer ambição de chegar ao céu, que sempre me pareceu um sítio aborrecidíssimo, espero que a ira do destino se abata com um fulgor brutal e impiedoso sobre o filho da puta que nos roubou.

Mortais, como todos nós

por Pedro Correia, em 13.04.19

Quando eu era miúdo, o festival RTP da canção fazia parar o País. As pessoas vibravam tanto ou mais com as cantigas do que com o futebol durante aquelas semanas que rodeavam o sarau musical, antes e depois de ter ocorrido.

Assim sucedeu durante muitos anos. Eram outros tempos, era outro país. Embora a belíssima canção de Luísa Sobral que o irmão Salvador tão bem interpretou em 2017, cativando a Europa ao ponto de ter posto milhões de pessoas a cantar em português, com o inédito triunfo na Eurovisão, tenha reaproximado as gerações mais jovens deste concurso. Mas a xaropada que apresentámos há um ano, na estreia de Lisboa como palco do eurofestival, indiciou que Amar Pelos Dois fora algo tão imprevisto como irrepetível.

É justo salientar que nos tempos anteriores, ainda com a RTP a preto e branco, nasceram neste mesmo certame belíssimas canções que deixaram de ser exclusivo dos seus intérpretes originais para se integrarem no património musical português. Canções como Sol de Inverno, Flor Sem Tempo, Cavalo à Solta, No Teu Poema, só para anotar as primeiras que recordo. Além de outras, que por algum motivo guardei numa gaveta grata da memória mais remota, como O Barquinho da Esperança, escrita por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso para as inesquecíveis Doce - só agora voltei a ouvi-la, 35 anos depois, e não resisto a trazê-la aqui, lembrando sempre com ternura a Fátima Padinha, que conheci em adolescente. O pai dela, Joaquim Padinha, foi um dos maiores amigos do meu pai.

 

 

Quando eu era miúdo, por algum motivo, acreditava que os vencedores do festival RTP estavam tocados pelo dom da imortalidade. E fiz-me adulto com esta mesma convicção enraizada - resquício do imaginário infantil que só terminou de vez no dia em que, estando eu a fechar a primeira página de um jornal em Macau, onde então vivia, lá inseri a notícia da morte de Carlos Paião, um desses vencedores. O primeiro a ficar pelo caminho.

Lembrei-me de tudo isto ontem, ao saber da morte de Dina, também galardoada do festival, falecida após longo combate contra uma implacável doença. No ano passado tinham desaparecido duas outras ex-triunfadoras do festival: Madalena Iglésias e Maria Guinot.

Simples mortais, afinal - da mesma condição que tu e eu. Como cantava a Fá, com aquela bela voz que ainda me emociona, «por cada gota que cai no mar / há uma outra que sobe ao céu».

Rafael Sánchez Ferlosio (1927-2019)

por Diogo Noivo, em 02.04.19

Rafael-Sanchez-Ferlosio_vozpopuli.jpg

Morreu ontem Rafael Sánchez Ferlosio, um dos maiores intelectuais da Espanha actual. Autor de El Jarama, de Industrias y andanzas de Alfanhuí e de uma vasta obra ensaística de primeira água, os obituários descrevem-no como mestre singular das letras espanholas, como plumífero, isto é, alguém cuja existência não se compreende sem o valor da escrita.

Vencedor do Prémio Cervantes em 2004, cunhou a bem-humorada – e tristemente necessária – “moral do peido”: quando o assunto são nacionalismos, só incomoda o cheiro proveniente de terceiros, nunca o próprio. A Espanha que lhe presta homenagem dá hoje votos ao Podemos, ao Vox e a nacionalismos periféricos que precisam de dividir para existir. Quem conheça a obra de Sánchez Ferlosio e tenha lido as suas entrevistas sabe que os mandaria a todos de volta para o buraco infecto de onde saíram.

Pela luz dos olhos teus

por Pedro Correia, em 27.12.18

 

Interpretou algumas das mais belas canções que conheço no nosso idioma. Muito mais do que «a irmã de Chico Buarque» ou do que «a mãe de Bebel Gilberto», como era geralmente conhecida, destacou-se na criação ou recriação de temas que jamais esqueceremos - como Triste Alegria, Maninha, Vai Levando e sobretudo o sublime Pela Luz dos Olhos Teus, que registou em inúmeros espectáculos ao vivo e num célebre disco com Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes.

Desse fabuloso trio - Vinicius, Jobim e Miúcha - só ela restava. Morreu hoje, aos 81 anos. Presto-lhe esta singela homenagem, enquanto ouvinte comovido e agradecido, convicto de que a sua voz ressoará para a eternidade.

Feita de terra e alma

por Pedro Correia, em 19.11.18

loureiro-dos-santos.png

 

Honra, palavra antiga. Como outras, que nos parecem em acelerado desuso neste tempo de implacável voragem de valores. Palavra que - neto, sobrinho e primo de oficiais do Exército - sempre associei à instituição militar. 

Na adolescência, nos anos de brasa da revolução, habituei-me à presença quotidiana dos militares na nossa vida colectiva. Fizeram o 25 de Abril e nos dois anos seguintes andaram na crista da onda, com sucessivos protagonistas: António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes.

Alguns deles quiseram transformar Portugal numa "sociedade socialista" (com diversos padrões, do soviético ao líbio, passando pelo albanês), outros bateram-se por uma democracia plena, sem tentações totalitárias. Os dois modelos confrontaram-se num tenso dia 25 de Novembro, vai fazer 43 anos, com a vitória - felizmente para nós - dos moderados, que devolveram o poder às instituições civis, integrando o escol fundador da nossa democracia multipartidária e representativa. 

 

Entre esses militares, figurou o general José Loureiro dos Santos, falecido no sábado, aos 82 anos, e cujo funeral hoje se realiza. Transmontano de Sabrosa, teve um brilhante currículo, que de algum modo já se prenunciava ao ser distinguido em 1953 com o prémio nacional como melhor aluno do ensino secundário português. Diplomado na Academia Militar, foi sendo gradualmente promovido de alferes a general de quatro estrelas, entre 1957 e 1991. Cumpriu uma missão de serviço em Angola, como capitão, de 1962 a 1965. Foi comandante da Região Militar da Madeira, chefe do Estado Maior do Exército, vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, ministro da Defesa Nacional (em dois governos), membro do Conselho da Revolução, director do Instituto de Altos Estudos Militares. Leccionou, como professor catedrático convidado, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

É ainda autor de vasta obra, dedicada sobretudo a temas relacionados com a estratégia militar e política num planeta cada vez mais globalizado. Nestes anos mais recentes, partiram dele algumas das observações mais sagazes e pertinentes sobre a marcha da História, nas suas frequentes aparições televisivas ou em artigos de jornal. Alertava, por exemplo, para a necessidade de definirmos a plataforma continental atlântica como um objectivo estratégico do qual devíamos «tomar posse efectiva», sem aguardamos autorização alheia.

Como justamente assinalou o Presidente da República, era «um pensador de Portugal e do mundo».

 

Ninguém o confundia com um teórico desligado da realidade, longe disso - daí o mérito acrescido das suas intervenções públicas. Muito valorizadas pelo facto de em dois momentos cruciais da nossa História recente, com a patente de major, ter estado no lado certo: a 25 de Abril de 1974, ao emergir como delegado da Junta de Salvação Nacional no arquipélago de Cabo Verde, onde era comandante militar, e a 25 de Novembro de 1975, quando integrou o núcleo operacional que conteve o golpe extremista e abriu caminho à democracia liberal em que vivemos desde 1976. Honrando, nas duas ocasiões, a farda que envergava.

Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo - outra palavra hoje fora de moda.

Palavra «feita de terra e alma», na lapidar definição poética de Miguel Torga, conterrâneo do oficial-general de quem agora nos despedimos.

Stan Lee

por jpt, em 13.11.18

O macro Stan Lee morreu ontem (os super-heróis também partem). Para obituário nada melhor do que um auto-retrato.

In Memoriam

por Fernando Sousa, em 11.11.18

Ergueu-se Abraão, rachou a lenha e partiu

E consigo levou a chama e um cutelo.

E quando juntos se quedaram ambos,

Isaac, filho primeiro, assim falou: `Meu Pai

Tudo está preparado, o ferro e o fogo

Mas qual é o cordeiro a imolar nas chamas?`

E Abraão prendeu o jovem com cinturões, correias,

Em redor construiu trincheiras, parapeitos

E empunhou o cutelo para matar seu filho.

Dos céus um Anjo lhe bradou então

E disse: `Não levantes a mão contra esse jovem

Nada tentes contra ele que é teu filho.

Vê! Um cordeiro preso está ali naquela sarça.

De orgulho oferece um sacrifício em vez do jovem.`

Mas por não querer assim, matou o velho o filho

E um por um também metade dos filhos da Europa. 

 

Parábola do Jovem e do Ancião, de Wilfred Owen, poeta inglês morto nas trincheiras uma semana antes da assinatura, há cem anos, do Armistício da Guerra de 1914-18, in Elegias.

Maria Guinot (1945-2018)

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.18

Lembro-me bem da surpresa geral que houve em 1984 quando esta canção ganhou o festival da canção da RTP. Mas toda a gente reconheceu que apesar de não ser nada festivaleira, era a canção mais bonita que tinha aparecido em festivais. Hoje, no dia em que Maria Guinot partiu, deixando um silêncio no meio de tanta gente, recordo a beleza desta canção.

Aznavour e o rap

por jpt, em 01.10.18

 

Ainda há dias me surpreendi ao ver um cartaz (dos muitos espalhados na cidade) anunciando um seu concerto aqui durante Outubro – um Matusalem em palco. Morreu agora. Cantou viveu até aos 94. Grande vida. E, como aqui se vê, sempre pronto para a crista da onda …

Aznavour (1924-2018)

por Pedro Correia, em 01.10.18

 

Um dos gigantes do mundo da canção acaba de nos deixar, aos 94 anos.

Restam-nos felizmente ainda alguns veteranos da dimensão que ele atingiu - João Gilberto, Juliette Gréco, Tony Bennett, Vera Lynn, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Harry Belafonte.

Aznavour parte, mas deixa-nos um rasto infindável de música que perdurará em aliança perpétua com tantas palavras destinadas a ecoar junto de gerações futuras. «Je vous parle d'un temps / Que les moins de vingt ans / Ne peuvent pas connaître.»

Uma voz de todos nós

por Pedro Correia, em 16.08.18

 

O adjectivo "genial" banalizou-se de tal maneira, para qualificar o banal e por vezes até o medíocre, que procuro evitá-lo nos tempos que vão correndo. As palavras também se gastam, desde logo por uso inadequado.

Mas não encontro outra para designar Aretha Franklin - agora desaparecida. Ela sim, genial. Ela sim, uma das gigantescas personalidades do mundo da música popular, em que deixou o seu traço singular muito para além do rótulo de "rainha da soul" que lhe colaram os cultores de etiquetas.

Em temas que nunca passam de moda - como "Respect" ou este que trago aqui em jeito de comovido requiem a uma das minhas eleitas de sempre, inconfundível intérprete da banda sonora das vidas de tantos de nós.

Senador Semedo

por Pedro Correia, em 17.07.18

18733176_P4qE7[1].jpg

 

Tenho pena que a palavra em Portugal esteja tão abastardada. A palavra senador. Deve ser o único país em que isso acontece.

Se não fosse assim, iniciaria este texto dizendo que João Semedo merecia ter sido senador da República Portuguesa. Um senador a sério, não daqueles que aparecem de ar conspícuo e discurso redondo nas pantalhas, serão após serão, dizendo coisa nenhuma.

 

Acabo de saber da morte - infelizmente já esperada - do activista político, ex-deputado e cidadão João Semedo - que admirei pela sua coerência aos valores em que acreditava, o que lhe valeu perseguições internas no PCP e um recomeço de vida partidária já neste século, integrando o Bloco de Esquerda após ter abandonado as fileiras comunistas. Em nome da cidadania e da liberdade de consciência.

Conheci-o relativamente bem antes da sua incursão no BE, que incluiu uma falhada liderança bicéfala, em devido tempo rectificada. Antes e depois, era movido essencialmente pela noção de serviço público - conceito cada vez menos na moda, soando quase a obsoleto nos tempos que correm - sem ambicionar prebendas ou honrarias.

Podia ter sido quase tudo quanto quisesse - conselheiro de Estado, ministro da Saúde, "líder de opinião" com mais substância do que muitos que pululam por aí. Mas creio que aquilo que verdadeiramente o satisfez foi ser médico. Um simples médico, capaz de gestos e palavras que pudessem curar ou minorar males alheios. Tão apenas isso. Nada menos que isso.

Gostei muito de o conhecer pessoalmente e de ter com ele demoradas conversas que nunca me decepcionaram. Lembro-as agora, enquanto escrevo estas linhas apressadas. E volto ao princípio: João Semedo - homem sem medo - foi um dos nossos senadores. Não com esse título, mas seguramente com esse mérito. E reconduzindo a palavra ao seu genuíno significado: o de máximo servidor público.

Frank Carlucci (1930-2018)

por Luís Menezes Leitão, em 04.06.18

 

Resultado de imagem para Frank Carlucci

Há homens que tiveram um papel decisivo na história de um país, mas fazem-no de forma tão discreta, que passam quase despercebidos. Frank Carlucci foi um desses homens, tendo permitido aos Estados Unidos retomar o controlo da situação em Portugal, que em 1975 ameaçava descambar perigosamente para o comunismo.

 

A saída dos militares para a rua no dia 25 de Abril de 1974 apanhou os americanos de surpresa, tanto assim que o Embaixador dos Estados Unidos, Stuart Nash Scott, um político que via Portugal como um destino de reforma, se encontrava nesse dia em Londres, num jantar da Harvard Law School. Quando regressou a Portugal viu-se incapaz de controlar a situação. Aquando do 28 de Setembro, Spínola chegou a contactá-lo para pedir o auxílio da NATO, ficando sem saber que resposta dar, até que Spínola caiu. Com Vasco Gonçalves no poder a situação foi-se agravando até que Carlucci chega a Lisboa como embaixador, a 24 de Janeiro de 1975. Imediatamente se espalha pelo país o rumor de que o novo Embaixador americano pertencia à CIA, gerando o ódio das forças revolucionárias. Otelo comenta imediatamente que, se o Embaixador americano era membro da CIA, não seria possível garantir a sua segurança em Portugal. Ouvindo estas palavras Mário Soares entra em pânico, uma vez que as mesmas poderiam ser um pretexto para uma intervenção militar dos EUA para garantir a segurança da sua embaixada. Toma, por isso, a iniciativa de telefonar a Carlucci. Diz-lhe para não ficar assustado, que o General Otelo era uma pessoa temperamental, e que não deveria ser levado a sério. Carlucci responde imperturbável: "Não se preocupe. Já falei com o General Otelo e ficou tudo esclarecido".

 

O que se tinha passado? Carlucci encontrou à entrada da Embaixada uma manifestação violenta de pessoas que a queriam invadir. Pergunta o que estava a causar aquilo e dizem-lhe que foram as declarações do General Otelo. Toma a iniciativa de telefonar a Otelo, dizendo-lhe o seguinte: "Não sei quem o senhor é, mas sei que não tem competência, de acordo com as normas portuguesas, para declarar o embaixador americano persona non grata. Por isso faz favor de me enviar uma tropa para proteger a Embaixada, uma vez que foram as suas declarações que causaram isto". Otelo assim fez e nunca mais a Embaixada voltou a ser incomodada. E afinal o Embaixador americano era mesmo da CIA tendo ido para Director da agência anos depois.

 

A paralisação do processo revolucionário em Portugal deve-se a Carlucci ter aceitado o pedido de Costa Gomes para se organizar uma ponte aérea, que retirou os retornados das antigas colónias. Carlucci percebeu logo que a fervura revolucionária precisava de uma boa dose de água fria, e que essa era o regresso dos retornados, furiosos com a reviravolta que a revolução tinha causado nas suas vidas. E de facto assim foi. Grande parte dos militares revolucionários quis por tudo evitar esse regresso e Rosa Coutinho chegou a afirmar que a ponte aérea tinha sido o maior crime contra o 25 de Abril que foi praticado. Foi graças a Carlucci que a mesma foi realizada e a fúria revolucionária foi travada.

 

Há uns anos Carlucci deu uma entrevista a Miguel Sousa Tavares e foi mais uma vez muito reservado. O jornalista bem insistia em que era importante para a História que ele transmitisse a sua versão dos factos. A isso ele respondeu: "Há coisas sobre que não falo, nem sequer para a História". E de facto, como bom agente que era, levou consigo os segredos para a sepultura.

Até sempre

por Pedro Correia, em 28.05.18

Morreu o António Loja Neves, ao fim de 30 anos de militância no Expresso. Foi talvez o melhor caça-gralhas da imprensa portuguesa - uma espécie em vias de extinção. Era uma personalidade inconfundível, reconhecida até por quem nunca privou com ele.

Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 24.05.18

maria-da-fonte-1957[1].jpg

 Maria da Fonte, quadro de Júlio Pomar (1957)

 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (97 anos), Albert Bertelsen (96 anos), Leon Kossoff (91 anos), Manuel Cargaleiro (91 anos), João Abel Manta (89 anos), Arnulf Rainer (88 anos), Jasper Johns (88 anos), Nikias Skapinakis (87 anos) e Frank Auerbach (87 anos).

 

Lembrei-me disto há dois dias, ao saber que o grande Júlio Pomar se despediu de nós, com 92 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Bernard Lewis (1916-2018)

por Diogo Noivo, em 23.05.18

BernardLewisNYT.jpg

 

Bernard Lewis é um nome maior da historiografia sobre o Médio Oriente e o Islão. Cunhou o termo “choque de civilizações”, depois popularizado por Samuel P. Huntington. Contudo, ao contrário deste, Lewis não identificou no povo árabe, ou na comunidade muçulmana, qualquer atavismo que inviabilize a edificação de democracias no Norte de África e no Grande Médio Oriente. Em cerca de 30 livros e mais de uma centena de artigos e ensaios, Lewis argumentou que as aflições políticas dos países árabes e do Islão se devem a problemas eminentemente políticos.

No célebre The Crisis of Islam, elencou e dissecou os desafios (e os abismos) que assolam as terras do Islão - pobreza, desigualdade económica, autoritarismo -, explicando que a sua resolução é matéria de escolha, pois não há na religião nada de endémico que impeça a alteração do status quo. Foi também nestas páginas que afirmou não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão para validar os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Demonstrou que, de acordo com os cânones da fé islâmica, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida e, por outro lado, que o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Tido como “falcão” - foi conselheiro da Administração de George W. Bush e defendeu mão pesada no Médio Oriente - e como “orientalista” - Edward Said disse de Lewis o que Maomé não disse do toucinho -, o historiador nunca permitiu que as suas convicções políticas deturpassem os factos e a análise.

As memórias de Bernard Lewis, publicadas em 2012 sob o título Notes on a Century: Reflexions of a Middle East Historian, tecidas com humor britânico e erudição despretensiosa, oferecem uma viagem única por uma vida ímpar, deixando entrever uma visão pouco optimista sobre o Médio Oriente e principalmente sobre a capacidade do Ocidente em lidar com aquela região. Li-as na altura e hoje voltarei a elas. Bernard Lewis morreu no passado dia 19 aos 101 anos de idade.

Sobre Rosado Fernandes

por Bandeira, em 14.05.18

Na hora da sua morte, Rosado Fernandes vem sendo referido sobretudo como “fundador da CAP”. É certo que o foi e que cada época tem as suas prioridades. Também o epitáfio no túmulo de Ésquilo gloriava o grande dramaturgo apenas enquanto ex-combatente em Maratona. E no entanto, sei que ninguém levará a mal se eu evocar aqui Rosado Fernandes, o classicista, porque é enquanto tal que a muitos de nós vai fazer falta.


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D