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Sobre Rosado Fernandes

por Bandeira, em 14.05.18

Na hora da sua morte, Rosado Fernandes vem sendo referido sobretudo como “fundador da CAP”. É certo que o foi e que cada época tem as suas prioridades. Também o epitáfio no túmulo de Ésquilo gloriava o grande dramaturgo apenas enquanto ex-combatente em Maratona. E no entanto, sei que ninguém levará a mal se eu evocar aqui Rosado Fernandes, o classicista, porque é enquanto tal que a muitos de nós vai fazer falta.

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Carlos Silva e Sousa

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.18

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 (créditos: Sul Informação)

Esta tarde, no final de mais uma viagem, entrei no terminal do aeroporto e desactivei o modo de voo. Liguei o telemóvel e a notícia caiu de chofre. Fulminante como um raio vindo sabe-se lá de onde. Desta vez não houve tempo para nada. Nem um abraço. Apenas distância.

Conheci-o por intermédio de um casal de amigos comuns que haviam sido seus contemporâneos em Coimbra, na Faculdade de Direito. Há muito que me falavam dele, mas nunca se proporcionara. E quando nos conhecemos foi pelas razões mais estúpidas.

Eu era arguido. Um fulano que exercia (ou exerce) funções no MP, usando o seu soslaio olhar, formalmente correctíssimo, deduzira contra mim uma acusação. Devido ao modo, note-se, como o mandato fora exercido num processo findo. Por puro acinte, o que quem gere a corporação na altura não conseguiu vislumbrar. Não sei se ainda será assim, mas naquele tempo aconteceu.

Daquela vez calhara-me a mim. Acusado de difamação, se bem me recordo. Na contestação, como se impunha, mais a mais estando em causa um fulano que fora acusado de desde a década de Oitenta — altura em que teria aí uns cinco anos de idade — ter participado na constituição de uma associação criminosa, eu fora duro para com a instituição a que ele pertencia, verberara o simulacro de investigação que havia sido conduzido pelas polícias e, como não podia deixar de ser, fora contundente durante o julgamento para com quem patrocinara aquele espectáculo. Quando esse julgamento chegou ao fim, e o meu constituinte foi absolvido das magnas acusações que sobre si impendiam, sobrou para mim.

Houve quem tomando as dores de terceiros se tivesse queixado, para assim se desencadear o processo contra mim, o advogado. E eu lá tive que me ir defender, entrar em despesas, incómodos e chatices, pois claro.

De imediato recebi o apoio do então Bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, logo depois seguido pelo do seu sucessor. E no meu julgamento lá estiveram arroladas como testemunhas, entre outras, um magistrado do MP, entretanto jubilado, aquele que foi o juiz-presidente do tribunal colectivo no tal julgamento do sujeito que fora o meu constituinte — que foi lá para dizer que sim, que era verdade, que eu tinha sido advogado naquele processo, que o meu constituinte fora absolvido e que o vertido nas peças processuais, onde descobriram a pretensa ofensa depois do processo concluído, até fora depois confirmado no acórdão final —, mais o presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, o meu estimado António Cabrita, e mais uns quantos, entre companheiros de profissão, colegas de curso e amigos.

No dia das alegações finais o senhor procurador que me acusara resolveu não aparecer. Envergonhou-se. Quem veio em representação do MP foi um magistrado mais jovem, novo na comarca, que não acompanhara o processo nem o julgamento, mas que tendo lido o processo e sabendo da prova que havia sido produzida teve a hombridade de pedir logo a minha absolvição. Fui, evidentemente, absolvido. E na sentença lá estava, preto no branco, a afirmação de que fizera, é certo, uma defesa veemente, dentro dos limites, respeitando escrupulosamente as regras deontológicas, actuando como qualquer “bom advogado” se comportaria se colocado perante a mesma situação. Isto é, perante a falsidade, o agravo, em suma, fazendo um uso adequado da toga e dos instrumentos jurídicos, pugnando pela justiça, com arrojo, com dignidade, com frontalidade.

Naturalmente que fiquei satisfeito com o que se apurou. E com dúvidas não fiquei de que, apesar das despesas e dos incómodos por que passei, essa decisão honrou a magistratura portuguesa, reconhecendo o profissionalismo e a seriedade do mandato exercido.

O meu advogado nesse processo, logo a seguir à instrução e por impedimento do primeiro mandatário e nosso comum amigo que o indicara, acabou por ser o Carlos Silva e Sousa, que embora acompanhado pelo Paulo Freitas fez todo o julgamento e as alegações finais. Podia perfeitamente ter recusado o patrocínio. E tinha todas as razões para isso. Era um homem muito ocupado, com uma vida profissional intensíssima, desdobrando-se entre o trabalho no escritório, no partido e na autarquia, sem esquecer os assuntos ligados ao(s) consulado(s). Além de que na altura não me conhecia de lado nenhum e o processo era uma estopada. Nem no dia da leitura da sentença me deixou pagar-lhe o almoço.

Graças a esse episódio por que passei — triste no início, feliz na conclusão — ficámos amigos. Depois disso fiz vários julgamentos em Albufeira. O Carlos tinha aí o seu escritório, do outro lado do Tribunal e da Câmara Municipal. Na altura, creio, já era também o Presidente da Assembleia Municipal. Não obstante, estive com ele muitas vezes. Arranjou sempre tempo para tomar um café comigo, para dois dedos de conversa, para discutir a actualidade política, muito embora soubesse que eu na altura era activo numa agremiação concorrente. Comentava, ria-se, piscava o olho, puxava de um cigarro. E sorria, o Carlos sorria muito, serenamente (entre homens de bem não é a política nem o futebol que os separa porque o carácter é mais forte, é o carácter que os motiva e cria laços).

Foi assim com o Carlos Silva e Sousa. Falou-me dos seus vinhos, das propriedades para os lados de Tavira e da Fuzeta, do processo de regeneração das vinhas, do seu amor à terra e ao que esta produzia, do seu gosto em andar de botas aos fins-de-semana, campo fora, sem preocupações, sentindo os cheiros que chegavam avermelhados na imensidão do azul e da serra. O Carlos Silva e Sousa produziu alguns magníficos néctares. Um dia encontrei-o num pequeno expositor da Feira de São Brás, promovendo os vinhos que ele próprio produzia. Lá estivemos à conversa. Perguntava-me pelos amigos comuns que não via há anos. Comprei-lhe umas caixas de vinho, que o filho me ajudou a transportar até ao carro. Ficámos de combinar uma almoçarada, na quinta dele, com mais alguns. Acabou por nunca se proporcionar.

Ainda nos encontrámos nalgumas outras ocasiões. Tomávamos um café, às vezes, quando eu ia a Albufeira, subia a escada, do outro lado da rua, e passava pelo escritório dele. Ocupado como era raramente estava. E eu também não podia ficar à espera. Falávamos à distância. O abraço ficava adiado. Até hoje. Quando me chegou a notícia do seu falecimento.

O Carlos Silva e Sousa era um tipo de uma correcção extrema, com um humor corrosivo, de sorriso sempre aberto, de uma disponibilidade total para o trabalho, aliando a argúcia e a inteligência do advogado com o equilíbrio e o bom senso dos bons juízes, talvez fruto da herança paterna. Hoje perdemos todos. O Algarve perdeu um cidadão exemplar. E eu fiquei a dever um abraço ao Carlos Silva e Sousa. Um abraço fraterno. De gratidão. A um homem de bem. Um grande abraço.

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Sebastião, de grata memória

por Pedro Correia, em 11.02.18

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 Sebastião Fernandes (1947-2018)

 

Devo esta nota a Sebastião Fernandes. Ao "senhor Sebastião" ou simplesmente Sebastião, como era assim chamado por muitos clientes que o iam acompanhando de restaurante em restaurante. Alguns desde o desaparecido Velha Goa, em Campo de Ourique - pioneiro dos estabelecimentos de comida goesa na capital, numa época em que Lisboa estava muito longe de ser o actual mostruário de gastronomia transnacional.

Na segunda metade da década de 80 fundou o Cantinho da Paz, que continua a ser lugar de romagem obrigatória para gastrónomos de diversos quadrantes. Já este século, inaugurou a Casa de Goa, de existência efémera, na Calçada das Necessidades. Nos anos mais recentes, abriu as portas do Nova Goa, entre a Avenida de Roma e o Campo Pequeno. Era lá que recebia, com a bonomia de sempre, dispensando uma palavra gentil a cada cliente.

 

Como aqui assinalei, era um dos restaurantes onde me habituei a abancar sem necessidade de pedir ementa. Sebastião conhecia a minha preferência pelo magnífico sarapatel da casa.

Em regra, chego cedo aos restaurantes: gosto de ser dos primeiros a ser atendidos, seja ao almoço ou ao jantar. Havia tempo para conversar com o proprietário, senhor de muitas histórias, desde a Goa natal de onde saiu ainda adolescente - paixão e devoção que nunca se lhe apagou da memória e dos afectos.

Conhecia muita gente - da política, da banca, da vida empresarial, do jornalismo, do desporto, dos meios artísticos e intelectuais. Sabia receber todos sem nunca trair confidências: esta é uma regra básica de quem quer singrar no ingrato mundo da restauração.

 

Almocei lá pela última vez num domingo de Dezembro. Achei-o um pouco abatido, talvez em consequência de um resfriado. Trouxe-me o sarapatel, com o delicioso arroz basmati servido à parte. O restaurante ia receber um grupo, dessa vez não houve tempo para conversarmos.

Na mesa ao lado, quatro trintonas obcecadas com dietas consultavam interminavelmente a lista, sem se decidirem. "Detestamos picante. Não queremos nada picante nem muito calórico", disse enfim uma delas, aparente porta-voz do grupo, com ar visivelmente enfastiado. Sebastião, com aquela paciência que apenas os orientais têm e a suave ironia em que são exímios, sugeriu: "Posso fazer-vos um bifinho grelhado..."

 

Faleceu há dias, de morte súbita, aos 70 anos. Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim - embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs - unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.

Devo à grata memória de Sebastião Fernandes outra deslocação ao Nova Goa. Onde talvez pela primeira vez me estenderão a ementa. Embora eu já saiba o que irei comer. E que vinho beberei em sua invocação.

Vão-me fazer falta o seu ar bondoso e a sua palavra inspirada em relatos da antiga Goa colonial e da Lisboa de outras eras. Relatos que davam um livro que muitos gostariam de ter escrito. Eu também.

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Dolores O’Riordan (1971-2018)

por Diogo Noivo, em 16.01.18

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Havia ali um apelo à insurgência. A letra da música falava de frustrações e de uma exasperação profunda, mas o videoclip instigava à revolta. Do ponto de vista estético, a explicação era simples: o realizador do vídeo de Zombie, dos The Cranberries, dirigira uns anos antes o clip do imortal Smells Like a Teen Spirit, dos Nirvana. No entanto, o apelo à revolta presente nas imagens tinha razões bem mais importantes: Zombie foi inspirado no atentado do IRA ocorrido a 20 de Março de 1993, em Warrington, Inglaterra, onde morreram duas crianças. A religião, a política, e uma sociedade rasgada ao meio apareciam no videoclip de forma explícita e sem recorrer a figurantes. Os irlandeses The Cranberries, que já andavam nas tabelas com baladas como Linger, entravam sem medo no campo minado da crítica a uma organização terrorista.

 

Zombie, o single do segundo álbum da banda, tomou as rádios e as televisões de assalto, fazendo da banda uma das mais importantes e icónicas da década de 1990. A 31 de Agosto de 1994, poucas semanas depois do lançamento desta música, o IRA declarou um cessar-fogo “completo”, interrompendo 25 anos de violência que deixaram um rasto de cerca de 3000 mortos. A cessação da campanha de terror foi o culminar de mais de 18 meses de conversações, mas não será exagerado assumir que o sucesso de Zombie – e a pressão social por ele gerado – terão dado uma ajuda.

Dolores O’Riordan, vocalista dos The Cranberries, morreu ontem aos 46 anos.

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Uma luz que se apaga

por Pedro Correia, em 02.01.18

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O País na minha pré-adolescência nada tinha a ver com este. Era um país cinzento, governado por senhores muito idosos que apareciam sempre de fato escuro nos monocórdicos telejornais.

Nesse país irrompiam ocasionalmente focos de luz e de brilho e de beleza. Proporcionados por mulheres lindíssimas, por vezes ainda mal chegadas à idade adulta, mas já em destaque no nosso pequeno mundo do espectáculo, da televisão, do teatro e do cinema.

 

No meu tempo de teenager, havia pelo menos duas que se destacavam da mediana dominante. Eram a Guida Maria e a Helena Isabel - assim mesmo, actrizes com duplo nome próprio.

Inigualáveis, cada qual à sua maneira. E contrariavam em tudo aquela triste modorra num país de senhores severos e graves que pareciam vir da pré-história. Pela forma como falavam, como vestiam, como se comportavam. E pela estonteante beleza que exibiam, sem sentirem necessidade de pedir desculpa aos diáconos de turno, ofuscados com tanto brilho. Como se beleza fosse pecado em vez de bênção.

Sempre me senti fascinado por ambas. Pareciam estrelas de Hollywood caídas neste cordato redil lusitano, fora do tempo e fora do espaço que lhes couberam em sorte. Deslocadas daquela época.

 

Um dia, muitos anos depois daquele tempo cinzento a que aludo no primeiro parágrafo, era eu editor de um suplemento de histórias protagonizadas na primeira pessoa do singular quando decidi entrevistar a Guida Maria. Foi uma longa conversa ao telefone, pontuada por incontáveis gargalhadas dos dois lados do fio. Ela, com um sentido de humor desconcertante, correspondeu à elevada fasquia que lhe antecipara.

Hei-de reproduzir aqui essa entrevista, que hoje recordo ainda em choque, ao saber da notícia do seu falecimento. Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.

Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.

 

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X

por jpt, em 30.11.17

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Não há mais a dizer para além deste nosso, sempre erguido, X

  

 

e mais XX

  

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Belmiro de Azevedo (1938-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.17

Gostava especialmente de Belmiro de Azevedo. Era um grande empresário, que transformou uma empresa familiar num grande grupo económico, que aguentou contra ventos e marés, fazendo da vida empresarial praticamente um duelo. Curiosamente perdeu as duas maiores batalhas em que se envolveu: a oposição à OPA do BCP sobre o BPA, que perdeu, e a OPA da Sonaecom sobre a PT, que também perdeu. Mas, mesmo quando perdia, estava sempre pronto para a batalha seguinte, já que, como ele dizia, não há derrotas eternas, nem vitórias definitivas.

 

Mas o que gostava mais em Belmiro era o seu estilo truculento e a capacidade de impor os seus pontos de vista. Num país onde se considera que o respeitinho é muito bonito e em que a maior parte das pessoas só diz meias palavras, com receio das consequências, Belmiro dizia e fazia o que pensava, sem constrangimentos de qualquer ordem, sendo absolutamente demolidor quando era necessário. Recordo-me uma vez que o Parlamento o queria ouvir num inquérito, e ele disse que só estaria disponível às oito da manhã, pois tinha que apanhar o avião para o Porto. Pois não é que os deputados, que habitualmente só chegavam às 9h30m, foram abrir propositadamente o Parlamento às oito da manhã, com receio de serem chamados de preguiçosos por aquele homem que fazia do trabalho a sua divisa.

 

Ficou na história o conflito de Belmiro com Marcelo Rebelo de Sousa, quando ele era presidente do PSD, e criticou o facto de a Sonae estar a fazer investimentos no Brasil com apoio do Estado. Belmiro respondeu-lhe à letra, exigindo que tirassem Marcelo da presidência do PSD, e que ele fosse erradicado da sociedade portuguesa. Lembro-me de que o artigo que escreveu na altura terminava assim: "Aqui tem, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Por mim, escusamos de ficar por aqui: não me calo nem que Cristo desça à terra. E desengane-se: dito por mim, isto quer dizer realmente isso mesmo". Cristo desceu efectivamente à terra e nem assim Belmiro se calou, só o tendo feito em definitivo ontem. E os poderes do Estado mostraram mais uma vez a sua verdadeira natureza. O Presidente fez uma declaração formal de condolências e, no Parlamento, que em tempos tinha aberto de propósito para o ouvir, houve deputados a abster-se ou mesmo a votar contra um simples voto de pesar. Só que Belmiro de Azevedo era muito superior a esse tipo de posições oficiais e só podemos imaginar o que diria sobre as mesmas. Ontem partiu um grande homem.

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A morte

por Helena Sacadura Cabral, em 24.11.17
 

Morreu hoje o Pedro Rolo Duarte. Era uma morte anunciada para quem, como eu, viveu há cinco anos, exactamente a sua história. 
Talvez por isso, o meu primeiro pensamento vá para a sua mãe, a quem a vida acaba de roubar o bem mais precioso e, só depois, para o filho. Para este, haverá sempre uma lógica temporal, que não existe no caso da sua avó. Nenhuma mãe deveria, alguma vez, passar por isto.
Finalmente, o meu pensamento vai para os amigos que sempre lhe serviram de esteio e jamais o abandonaram. E eram muitos. Muitos, mesmo!
Conheci o PRD há muitos anos quando, com o Miguel Esteves Cardoso, o meu saudoso MEC, faziam aquela inesquecível revista chamada KAPA. E era eu quem lhes tinha sempre de cortar os orçamentos. Não foi, assim, um primeiro encontro fácil dado que era olhada como aquela que lhes cerceava os sonhos. Havíamos de, aos poucos, ir resolvendo esses problemas já que, com o lançamento da minha FORTUNA, passei a ter mais projectos para gerir. Mas ele e eu  havíamos de nos cruzar noutros aventuras.
Depois, amigos comuns juntaram-nos na GRUPA, esse conjunto de gente de quem eu podia quase ser a "avozinha", mas que me tem dado muito bons momentos. Aí conheci um outro Pedro, que o tempo havia transformado e enriquecido. 
Era um homem livre, que dizia o que pensava, uma cabeça que não parava, um comunicador excelente, uma verdadeira força da natureza. Não conseguiu vencer essa besta que é o cancro. Mas julgo poder dizer que na batalha da vida, ela a dominou e terá sido um homem com muitos momentos felizes!

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Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

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 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

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Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.

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Harry Dean Stanton

por jpt, em 16.09.17

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Morreu agora, aos 91 anos. Uma carreira gigantesca, tamanha que um tipo vira-se para os recantos da memória e ele aparece em não-sei-quantos deles. O homem vai-se e deixa um buraco (fiquei agora a ler este belo texto de 2013).

 

Eu sei que estou a ser reducionista mas, mais do que tudo, ele foi-me o andarilho do "Paris Texas", filme, música e musa da minha geração. O outro dia morreu o Sam Shepard (co-argumentista), agora vai-se o Stanton. E o altar vai-se actualizando ... Deixo-o a cantar a "Cancion Mixteca"

E também a andar por ali, aqui

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Na morte de Jerry Lewis

por Pedro Correia, em 20.08.17

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Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.
Ainda hesitei em aguardar por ele à saída, para lhe caçar um autógrafo, ao princípio dessa noite de Setembro de 1996: afinal, Jerry Lewis foi um dos ídolos da minha infância.
 
Mal surgia no ecrã, despertava um festival de gargalhadas nas suas comédias de início de carreira em parceria com Dean Martin. O último filme que rodaram juntos – Pintores e Raparigas, de Frank Tashlin, película de 1955, o mesmo ano em que Damn Yankees estreou na Broadway – é uma obra-prima do género, com a vantagem acrescida de incluir uma esplendorosa Shirley MacLaine, então a dar os primeiros passos no cinema.
Dez anos depois, sempre em registo de comédia, o actor nascido com o nome de Joseph Levitch a 16 de Março de 1926, em Newark, Nova Jérsia, protagonizou um dos raros filmes que me fizeram rir até às lágrimas: Boeing, Boeing, hilariante longa-metragem sobre troca de identidades realizada por John Rich em que Jerry se revelava no auge das suas magníficas capacidades como comediante.
Mas talvez o seu melhor filme tenha sido afinal um drama: O Rei da Comédia, de Martin Scorsese (1983), ao lado de Robert de Niro. A Academia de Hollywood podia e devia ter-lhe dado um Óscar por esse trabalho que desmontava com implacável lucidez os frágeis mecanismos do sucesso televisivo. Nada feito: os académicos costumam torcer o nariz a actores oriundos do reino da comédia, esse género que teimam em considerar menor. Pelo mesmíssimo motivo, nem um gigante como Chaplin conseguiu uma estatueta com clássicos como Luzes da Cidade ou O Grande Ditador.
 
Naquele dia, acabei por trocar o autógrafo de Jerry Lewis pelo de Suzanne Vega, que actuava a curta distância, na Virgin, também em Market Street. Improvisando um recital com uma simples viola na mão e um ar doce, quase tímido, como se pedisse desculpa pela súbita fama de que gozava.
Confesso: gosto de ver o meu nome escrito por ela na dedicatória que me deixou no disco Nine Objects of Desire, que tem uma canção deliciosa: World Before Columbus, com uma letra que rapidamente memorizei: "If your love were taken from me / Every color would be black and white / It would be as flat as the world before Columbus / That's the day that I lose half my sight // If your life were taken from me/ All the trees would freeze in this cold ground / It would be as cruel as the world before Columbus / Sail to the edge and I'd be there looking down."
 
Mas ainda hoje me arrependo de não ter esperado antes por Jerry Lewis à porta dos actores no Golden Gate.
 
Texto reeditado em homenagem a Jerry Lewis, hoje falecido aos 91 anos

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Jeanne Moreau 'in excelsis'

por Pedro Correia, em 31.07.17

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Há caras que não nos enganam. Ela tinha uma dessas caras. Os olhos magoados, a boca sensual, o lábio inferior ligeiramente descaído, dando-lhe um ar de amuo permanente. Essa face tão expressiva fez a aura desta actriz - uma das maiores estrelas de sempre do cinema francês. Dela emanava uma «sexualidade enigmática e brilhante», na feliz definição de Camille Paglia.

Vimo-la nesse fabuloso noir de Louis Malle que se intitulou Ascenseur pour l'Échafaud (1957), ao som de Miles Davis. Ou, de novo dirigida por Malle, imortalizada em Os Amantes (1958). Ou, no mais insólito dos triângulos amorosos, em Jules e Jim (1962), de Truffaut. Ou na excelente versão do Diário de uma Criada de Quarto, de Buñuel (1964). Ou, ao lado de Brigitte Bardot, em Viva Maria, ainda de Malle (1965). E em tantos outros filmes que lhe fizeram perdurar o inigualável rosto com que todas as câmaras pareciam fazer amor.

Acaba de rumar à eternidade: mesmo sem a sua presença física entre nós, ela é daquelas que sempre povoarão os sonhos cinéfilos, fazendo da arte das imagens em movimento uma singular liturgia dos sentidos.

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A semântica da ditadura

por Pedro Correia, em 13.07.17

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  Liu Xiaobo (1955-2017)

 

Mesmo na morte, os opositores às ditaduras comunistas são alvo de agressões. Pelo menos, de agressões semânticas. Volta hoje a acontecer: Liu Xiaobo, Prémio Nobel da Paz, o mais conhecido preso político chinês, que se encontrava detido nos calabouços de Pequim desde 2009 por delito de opinião, é alcunhado de "dissidente" nos obituários dos órgãos de informação - incluindo portugueses, que jamais usariam esta denominação para mencionarem um activista contra os defuntos regimes de um Pinochet no Chile ou um Videla na Argentina. Não lhe reconhecem sequer a nobre condição de opositor a uma tirania.

Liu, um dos protagonistas da manifestação de Tiananmen, afogada em sangue pelos tanques do exército chinês em Junho de 1989, só há dias foi transferido para um hospital estatal - já afectado por um cancro no fígado em fase terminal - numa tentativa hipócrita de evitar que o Governo fosse acusado de deixar agonizar na prisão outro dos insubmissos condenados ao degredo interior e à morte cívica pelo regime de partido único que vigora em Pequim desde Outubro de 1949.

 

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 Carl von Ossietzky (1889-1938)

 

Em 1935, o jornalista, escritor e pacifista alemão Carl von Ossietzky foi impedido pelo regime nazi de receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz que lhe foi atribuído nesse ano. Estava detido num campo de concentração e morreu escassos três anos depois, vitimado por uma tuberculose. Ninguém ousou alguma vez chamar-lhe "dissidente".

Foi preciso esperar 75 anos para novamente um galardoado com o Nobel da Paz se ver impedido de receber o prémio na capital norueguesa e não poder sequer delegar essa função num membro da família, como sucedeu em 1975, quando Andrei Sakharov se fez representar pela mulher, Elena, e em 1983, quando também Lech Walesa esteve representado em Oslo pela mulher, Danuta.

Em 2010 - e à semelhança do que aconteceu com Von Ossietzky - nem a mulher do galardoado foi autorizada a viajar. Liu Xia, mulher de Liu Xiaobo, estava então sob detenção domiciliária. Presa só pelo facto de ser casada com o novo Nobel da Paz, galardoado em reconhecimento pela sua "luta, longa e pacífica, pelos direitos fundamentais na China", segundo sublinhou o Comité Nobel.

A cadeira que  ficou vazia nessa cerimónia adquiriu de imediato uma poderosa carga iconográfica. Como complemento directo daquela fabulosa fotografia de Stuart Franklin que capta um homem de braços nus a enfrentar uma fileira de tanques em Pequim, a 4 de Junho de 1989, poucas horas após a sangrenta repressão do movimento pró-democracia na Praça Tiananmen.

 

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  Tanques em Tiananmen (Junho de 1989)

 

Uma simples imagem desmente torrentes de propaganda e é capaz de sobreviver ao regime mais tirânico, que tem como argumento exclusivo a força bruta.

Combatamos esses regimes para honrar a memória dos cidadãos que nunca se vergaram aos seus ditames. E a primeira forma de combatê-los é recusar a semântica da ditadura, substituindo-a pelo vocabulário dos homens livres.

 

Leitura complementar: 

Ao lado dos carrascos

Os cúmplices e os outros

Um democrata não é um dissidente

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Medina Carreira

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.17

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(14/1/1931- 3/7/2017)

Advogado, militante socialista, depois independente, fiscalista, homem de Estado, professor, comentador televisivo, cronista, acima de tudo um cidadão interveniente. Com o correr dos anos tornou-se visceral, mais amargo, mas as suas preocupações eram as de sempre: Portugal e os portugueses. Lutou como pôde, sempre com lealdade e frontalidade, de forma corajosa e desassombrada por aquilo em que acreditava. Em Portugal, no mundo, fazem sempre falta homens como ele. Que o seu exemplo cívico, numa terra de gente acomodada, bem comportada e onde não abundam os exemplos possa perdurar. E que descanse em paz.  

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Simone Veil

por Helena Sacadura Cabral, em 30.06.17

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Tinha 89 anos e uma vida que poderia ter ficado pelos fogos crematórios de Auschwitz. Chamava-se Simone Veil e se a França está de luto em sua memória, muitos serão aqueles, fora do país, que, como eu, lamentam profundamente o seu desaparecimento. Devo a esta Mulher uma abertura de espírito que talvez não tivesse sem a sorte imensa de me ter cruzado com ela. 
A Europa também devia estar de luto. Mas, como a memória é cada vez mais curta, acredito que poucos a recordem hoje, pese embora tenham múltiplas razões para saberem de quem se trata. Podia, até, ter sido Presidente do seu país. Mas a sua obstinada independência sempre lhe limitou esse caminho e foi pelo seu pé que decidiu afastar-se, há alguns anos, da vida política e até da vida pública. 
Sobrevivente do Holocausto, foi a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu e antiga ministra da Saúde francesa, é a ela que se deve a despenalização do aborto em 1975. Agora dá-se pouco valor a esse facto, porque, para o bem e para o mal, está tudo à nossa disposição...
Quem, como eu, teve a oportunidade de falar com ela, só pode recordá-la como uma das mais interessantes e extraordinárias mulheres do seu tempo. E estar-lhe profundamente grata pelo que ela conseguiu para todas nós.

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Helmut Kohl (1930-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 16.06.17

Depois de Bismarck, Helmut Kohl é seguramente o maior estadista da história alemã. Recebeu um país dividido em dois pela cortina de ferro, com a metade ocidental ainda a expiar a culpa do nazismo, e começou pacientemente a reerguer a Alemanha. Primeiro declarou que a Alemanha ia abandonar a tradicional expiação colectiva, indicando o seu próprio caso pessoal: "Eu tinha 15 anos quando a guerra acabou. Não tenho culpa nenhuma do que se passou lá". Depois foi o primeiro a exigir, após a queda do Muro de Berlim, a imediata reunificação da Alemanha. Enquanto os outros políticos alemães falavam nessa possibilidade como um cenário a longo prazo, e os restantes países europeus o viam como um simples cenário de pesadelo, Kohl exigia uma reunificação imediata. Para a obter, pagou tudo o que lhe pediram por ela. Primeiro, aceitou converter o marco DDR numa paridade 1:1 com o Deutsche Mark, o que fez aumentar enormemente o custo da reunificação. Depois aceitou abandonar o próprio marco a troco do euro, o preço que os parceiros europeus lhe pediram para não se oporem à reunificação, julgando que assim controlavam a Alemanha. Mas o homem que quando atravessou pela primeira vez o muro, proclamou perante a porta de Brandenburgo: "Este é o dia mais feliz da minha vida!", tudo aceitou para devolver à Alemanha o lugar que entendia lhe ser devido na Europa. O estado actual do seu país demonstra bem como ganhou a aposta.

 

Mas Helmut Kohl não era apenas grande em dimensão política, era-o também no excesso de peso que o atormentava, o que encarava com bonomia. Era obrigado a passar as férias de Verão numa clínica de emagrecimento e ao longo do ano ia vestindo fatos de dois tamanhos, um para a altura em que tinha saído da clínica, e outro para quando se aproximava a altura de lá regressar. O seu apetite incontrolável levou a uma história curiosa: Uma vez o seu adversário político Oskar Lafontaine foi atacado por uma louca que o tentou degolar, só por milímetros não lhe atingindo a carótida. Kohl foi informado dessa notícia quando acabava de sair do restaurante onde jantara. A perturbação foi tanta que teve uma quebra de tensão. Como resolveu o problema? Voltou para o restaurante e jantou outra vez.

 

Ironicamente, comentava-se sobre ele que era preferível ter um chanceler alemão que acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos. Mas essa petite histoire não ficará para a História. Essa só recordará o homem que, através da reunificação alemã, inscreveu o seu nome em letras de ouro na História da Alemanha.

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Filosofar é combater o paternalismo

por Inês Pedrosa, em 06.05.17

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Ruwen Ogien morreu há dois dias (a 4 de Maio). Recebo a notícia hoje, 6 de Maio, quando se completam 19 anos sobre a morte do meu pai, coincidência que obviamente não coincide com coisa nenhuma a não ser com os meus labirintos interiores. Quem era Ogien? Interessantíssimo filósofo francês, defensor de uma ética minimal que nos defenda do paternalismo e garanta a liberdade de cada um ser o que quiser e como quiser. Este pensador parte do princípio de que não temos qualquer "dever" ou "imperativo" moral para connosco, mas apenas para com os outros; esses deveres podem ser positivos (ajudar, fazer o bem) ou negativos ( não fazer mal), sendo que devemos privilegiar o dever negativo, isto é, o de não interferir na vida alheia, de forma a evitar o paternalismo - nomeadamente, o perigo de fornecermos "ajudas" indesejadas pelo alvo da nossa ajuda, desrespeitando desse modo a sua individualidade e auto-determinação. Particularmente estimulante era o seu método de pensar; Ogien servia-se de toda a espécie de materiais leves e pesados: intuições, experiências pessoais, dados históricos, sociológicos, jurídicos, normas lógicas, etc: entendia que do ecletismo bem organizado nasce a luz.  

O último livro de Ruwen Ogien é uma reflexão cáustica e acutilante sobre o culto do "dolorismo" e da suposta redenção através do sofrimento. É também uma crítica cortante ao totalitarismo hospitalar, ao elitismo dos médicos e ao modo como os doentes têm de se transformar em Sherazades do pessoal clínico, encantando-o para merecer os seus favores, designadamente analgésicos. O livro intitula-se: Mes Mille et Une Nuits. La maladie comme drame et comme comédie ( Albin Michel, 2017). Outros livros dele que destaco: L'éthique aujourd'hui. Maximalistes et minimalistes. (Gallimard, 2007) e  L’influence de l’odeur des croissants chauds sur la bonté humaine et autres questions de philosophie morale expérimentale (Grasset,2011). Alô, alô, há algum editor por aí com coragem para os publicar? 

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Ainda tão cedo para dizer adeus

por Pedro Correia, em 09.04.17

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 Carme Chacón (1971-2017)

 

Há menos de uma década era uma das mais promissoras políticas de Espanha. Ministra da Defesa, primeira mulher a assumir tais funções, a sua imagem a passar revista aos soldados já grávida de sete meses deu volta ao mundo.

Bonita, inteligente, talentosa, Carme Chacón quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés.

Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de que como é ilusória e transitória a espuma da política.

Ex-ministra, ex-deputada, ex-personalidade promissora da política espanhola, Carme morreu hoje, na solidão do seu apartamento madrileno, com apenas 46 anos - "insuportavelmente jovem", na certeira definição do obituário do El Mundo. A sua última aparição pública ocorrera há precisamente duas semanas, presença discreta num comício de apoio à candidatura de Susana Díaz na campanha interna para a liderança do Partido Socialista. Há três candidatos em liça, ela ficou à margem. Irremediavelmente arredada dos holofotes.

Tanto prometia, tanto deixou por concretizar. Parte quando era ainda tão cedo para dizer adeus. E há neste momento espanhóis de diversos quadrantes a chorar a sua morte, atordoados com a brutal notícia. Tudo é tão fugaz e desconcertante nesta álgebra incerta a que chamamos vida.

 

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 Grávida de sete meses, passando revista às tropas enquanto ministra da Defesa (2008)

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Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

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Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

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O ardina viajou

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.03.17

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Eu estava hospedado no central Metrópole. Já nos conhecíamos, mas naquele dia quente e húmido de Junho de 1993, ele veio buscar-me ao hotel, para irmos jantar, no belíssimo Saab 900 turbo, azul escuro, com os estofos de cor creme, que me ficaria na retina e viria a ser o meu carro nos anos seguintes.

Tratava-se de acertar os termos da minha contratação, qual mini-estrela do universo da advocacia lisboeta, com experiência anterior da Administração de Macau, referências de boa vizinhança nos anos em que cá residira, quando era apanhado logo pela manhã à porta do elevador com a sua mulher a dizer-me que a música era boa. E eu envergonhadíssimo pelo volume de som que saía das sinfónicas ou das vozes, então de Brel, Ferré e Brassens, que tomava conta do patamar de acesso aos elevadores, ali na Rodrigo Rodrigues.

Sempre impecável na simpatia e na afabilidade do trato, acertámos o pouco que havia, verbalmente, como é timbre entre homens de bem, e passados dois meses eu desembarcava de novo em Macau para me atirar de corpo e alma ao escritório que nessa época ficava no edifício da Nam Kwong, na Almeida Ribeiro, onde éramos vizinhos do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês.

Macau dera o salto da pequena vilória colonial da era pré-Almeidista, com pretensões a cidade, para a metrópole consolidada do final do século XX que crescera fora do espaço que lhe estava destinado, espremida entre a zona de aterros do porto exterior, mais a dos novos aterros e os que haveriam de vir a sê-lo mais alguns anos volvidos.

Nesse tempo, a Assembleia Legislativa (AL) era uma máquina de produção legislativa, atenta, rigorosa e eficiente que causava problemas à inércia governativa, aos amanuenses da Praia Grande e gelava os paninhos quentes com que alguns queriam tratar dos assuntos que interessavam a Macau e aos seus cidadãos.

Aqui demandavam os melhores e mais pragmáticos homens do direito. Não havia tempo a perder, nem lugar para protagonismos. Era tempo de combate. Era preciso tomar conta das acções em curso, preparar novas petições, analisar contratos, acompanhar as questões do aeroporto e da AL, ler os pareceres, formular uma opinião sobre os caminhos a seguir. E depois começaram as escrituras e impunha-se tomar conta daquilo tudo.

Não me perdi. Com o apoio de uma querida amiga, com o beneplácito do Rui, fui tratando de desempenhar as minhas tarefas com a competência e o brio de quem, acabado de chegar depois de um interregno de três anos, vinha disposto ao trabalho no escritório do parceiro contratante para que ele se pudesse dedicar por inteiro às questões da transição.

Anos antes, depois de uma reunião no Palácio do Governo, onde também funcionava a AL, discutíramos as primeiras questões do bilinguismo e as perspectivas do Prof. Heuser (Heidelberg), e quando em Novembro de 1989 me predispusera a regressar à pátria, ele teve a gentileza de nos convidar – à saudosa Lurdes, ao meu amigo Pedro Horta e Costa e a mim –, para almoçarmos na Galera, em jeito de despedida.

Nesse primeiro interregno da minha vida macaense continuei a contactar com o Rui, com o Frederico e o com o Francisco, prestando alguns serviços avulsos para uma pequena sociedade que tinham em Portugal. Foi pouco no volume e no valor, muito na solidariedade e no apoio a quem queria ingressar, sozinho, no complicado mundo da advocacia lisboeta, respeitando escrupulosamente as regras deontológicas. Creio que nunca lhes agradeci devidamente o que então por mim fizeram.

O regresso em 1993 foi, pois, mais fácil. Todas as questões se resolviam com uma aparente facilidade graças às referências que o Rui possuía e ao extenso conhecimento que tinha de leis, regulamentos, fontes e tudo o mais que era necessário num dia-a-dia onde não nos podíamos dar ao luxo de perder demasiado tempo com rodriguinhos. Havia o trabalho na AL, os actos notariais, os tribunais, o acompanhamento da imprensa, os contratos do aeroporto, as tertúlias e os tempos de descanso, que nisso o Rui tratava os trabalhadores como príncipes. Ninguém se queixava, e ainda havia a sua eterna boa disposição.

O pior era lá fora, na selva, onde o tráfico de influências, as negociatas, o compadrio, o clientelismo, os generais, os coronéis, os seus avençados e as seitas campeavam. Sabendo que o mundo não iria terminar no dia seguinte, e que a 1999 se seguiria 2000, a tudo isso o Rui resistiu. Com a maior das facilidades e sorrindo com desdém aos merceeiros que se deixavam vender por pataca e meia e uma quota num terreno. Depois, quando foi necessário assegurar informação credível e transparente lá surgiu o Futuro de Macau. Cumpriu a sua missão com seriedade. Outra coisa não seria de esperar.

Preocupado como estava com esse mesmo futuro, o Rui não se poupou a esforços. Eram leis e relatórios, múltiplas reuniões, mais o Conselho Superior de Justiça e até, por pouco tempo, a presença no Conselho Superior de Advocacia. Durou pouco a sua presença em tal órgão, de onde se demitiu. Fazer de corpo presente não era com ele. Hoje, alguns do que lamentam o seu trágico e prematuro fim foram os mesmos que ao melhor jeito estalinista eliminaram as suas referências na AAM. Como se ele não tivesse sido um dos primeiros, como se não tivesse, também ali, dado o seu melhor e não tivesse sido fundamental para que a AAM tivesse adquirido o estatuto que teve e, entretanto, tem vindo a perder. O Rui nunca ligou a essa desfeita que lhe fizeram. Eu protestei, sem sucesso, com os vários pastores que por lá passaram, mas estes nunca me deram resposta, e aquele rebanho seguiu pastando para onde o mandavam. Por isso, hoje, os tribunais estão como estão e o português assume cabisbaixo, não fora o esforço de alguns magistrados na sua preservação, o estatuto de língua morta perante a horda de ruminantes que dele tomou conta. Chorai, pois, que lenços não faltarão e sempre sobrarão as mangas das camisas quando aqueles forem levados pela corrente. O agravo não ficará com quem já partiu.

Como director dos SAFP deu o pontapé de saída para a reforma da administração, para dotar Macau de quadros capazes, competentes e bilingues. Foi acima de tudo um homem preocupado com os problemas da localização e autonomização jurídicas de Macau. Para o Rui, seria impensável deixar um sistema à mercê do que viesse de Cantão ou Fuquien, ou sujeito aos humores de um qualquer serventuário do poder ou do partido. Macau e as suas gentes, de qualquer origem ou etnia, e a dignidade de Portugal e dos portugueses que aqui vivem e trabalham deviam ser os únicos referentes, a marca indelével dos séculos e dos que aqui nos precederam entrando e saindo de cabeça erguida.

A revisão de 1990 do Estatuto Orgânico, a lei de imprensa, toda a legislação penal avulsa, dos animais às associações criminosas, a defesa intransigente dos direitos e garantias dos cidadãos de Macau, que se dúvidas houvesse ficou plasmada no relatório do financiamento da Fundação Oriente e, pouco depois, em 2000, quando nos estúdios da TDM sugeriu a devolução do dinheiro da Fundação Jorge Álvares à RAEM como única saída decente para o esbulho feito às gentes de Macau. Da pouca vergonha do Instituto Internacional de Macau e do caminho seguido pela Escola Portuguesa é escusado falar agora.

Também a Fundação D. Belchior Carneiro lhe deve hoje o belíssimo lar-residência de Oeiras, depois dele, do João Frazão e de eu próprio desbloquearmos o imbróglio do terreno que havia sido impingido aos irmãos da Santa Casa pelo belga, em leito de cheia e com o “aval”, como sempre, da Administração de Macau.

É bom recordar tudo isto agora que o último figurante da administração portuguesa, o reservista ao serviço da EDP, aqui desembarcou, iniciando nova romaria para rever a sua pandilha local a pretexto da Escola Portuguesa. Já se adivinha, de novo, o cheiro a barbecue.

Enfim, que hei-de eu dizer nesta hora triste em que vejo partir um amigo que me acompanhou ao longo de trinta anos, que me ajudou na vida e na carreira, que contribuiu com as suas ideias e achegas para o meu sucesso académico e que me abriu sempre as portas de sua casa como se fosse a minha.

O legado de um homem cujo sentido da honra e da dignidade estão acima dos circunstancialismos de conjuntura é sempre de difícil avaliação. Mas foram esses mesmos valores que o impediram de dobrar a cerviz a troco de medalhas, de tostões ou de milhões, como fez quando recusou ser advogado em regime de avença dos interesses do jogo. O Rui não estava para aturar tipos que acham que os milhões que ganham lhes dão o direito de pedir favores e de telefonar às 3 ou 4 da manhã de um spa em Las Vegas para insultarem o advogado que não lhes reconheceu as assinaturas nuns contratos manhosos num inglês mal redigido e destinados a uma terra onde se fala em português e chinês. Negociatas de bordel, golpadas e moscambilhas nunca foi com ele. A gente anda na rua e fala com as pessoas.

Quando se demitiu da AL, em ruptura com o soba colonial, estava preocupado com as questões da segurança, embora soubesse que Portugal se afundava em negociatas de sanitas, aquisições de quadros com dinheiros públicos por troca com facturas de livros e restauros de peças antigas que nunca regressaram, mas fê-lo com a lealdade de sempre. O Rui dispensava o comprometimento do seu nome e a reputação do escritório nos cambalachos de fim de ciclo do império. Por isso a CNN ou a imprensa estrangeira que vinha a Macau queria conversar com ele.

Da falta de alinhamento com as negociatas nos ressentimos todos lá no escritório, quando o trabalho escasseou à laia de represália. E também aí, nessa altura, não lhe foi ouvido um ai. Um senhor. Como também não foi ouvido quando numa auto-estrada, depois de um acidente, foi em auxílio dos outros, suportando a explosão de um outro carro em chamas para ver as mãos e a cara queimarem-se-lhe, sofrendo depois enxertos vários em Coimbra, para poder salvar uma mulher inconsciente que estava dentro de um veículo acidentado. Antes dos bombeiros chegarem. Ou agora, como ainda há dias o vi, lutando estoicamente, lutando como só um herói sabe fazer, mantendo sempre a compostura, a dignidade e o sorriso apesar de ver ali o seu próprio corpo ser corroído pela dor e a ingrata antecipação do fim a chegar.

O Rui nunca foi de fazer fretes porque era um homem sério e honesto como poucos. Porque teve a consciência em todo o seu percurso da necessidade de se preservarem princípios e valores, porque sabia que estes, ao longo da vida, não necessitam de segurança pessoal, e dispensam a pertença a igrejas, a seitas, a partidos ou a associações discretas. Em rigor, o Rui comportava-se sempre como o verdadeiro anarquista que nunca foi mas que no íntimo lhe espreitava.

Devo-lhe a amizade, a camaradagem, a confiança sem limite no meu trabalho, o estímulo e a palavra amiga na hora certa. E também o trabalho diário de ardina digital junto dos seus amigos, trabalho a que nem a doença retirava o humor após meses de sofrimento. Na primeira aberta, mesmo depois de doente e entre tratamentos, lá chegava o e-mail com o anexo e uma única frase: “o ardina está de volta”. Até ao fim, o Rui teve sentido de humor. O Rui foi um dos poucos duros que conheci em toda a vida, que sorria e inspirava qualquer que fosse o combate e o estado das tropas. Até a um céptico como eu.

Três décadas de convívio depois, vendo-o partir assim, desta forma apressada, inacabada, sem jeito, com tantos livros para lermos e discutirmos (o último que aqui tenho é “O que resta da esquerda?”, do Nick Cohen), tantos filmes para comentarmos (irei ver “O Silêncio” logo que possa), sem tempo para ele poder assistir à discussão do trabalho que me consumiu, envelheceu e roubou horas ao nosso convívio dos últimos anos, torna-se mais imperioso do que nunca assegurar-lhe que iremos todos continuar a discutir os milhões que vão para a Universidade de Jinan, os que à custa do desinvestimento na saúde pública de Macau contribuem para dinamizar a incompetência grosseira, encher os bolsos de clínicas e hospitais privados de onde um dia começarão a nascer os cogumelos dos novos casinos. Esses e todos os outros.

Enquanto os grilos locais tecem loas em seu nome e agitam a casaca negra entre missas, nós continuaremos a resistir. E a olhar por esse imenso legado. Na língua em que nos deixarem. Sem receio de perdermos alguns amendoins.

Porque no fim, o que verdadeiramente importa, como sempre nos importou, são os nossos. Os nossos valores, os nossos princípios, a nossa gente, que são aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia, os que nos vêm bater à porta com um pedido de ajuda, os injustiçados desta vida, os que todas as manhãs nos dizem bom dia olhando-nos nos olhos.

Até ao fim, sans Dieu ni maitre, como cantou o Ferré, cá estaremos, Rui. Honrando a memória e o legado. Com os que estiverem connosco às sextas-feiras. E nos outros dias. À alvorada, se necessário. Continuando a percorrer os trilhos e as veredas incertas da vida com o mesmo à-vontade. Como homens livres que sempre fomos. Até ao fim. Resistindo sem quebrar. Como o bambu. Como tu fizeste, como só tu soubeste ser. O melhor dos ardinas. Até ao fim, sorrindo, sorrindo sempre.

Macau, 19 de Março de 2017

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 (também no HojeMacau)

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Tzvetan Todorov (1939-2017)

por Rui Herbon, em 08.02.17

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Tzvetan Todorov, francês de origem búlgara, nasceu em Sófia em 1939 e morreu ontem em França. Era um linguista, historiador e filósofo, um grande comunicador, um ensaísta especializado na alteridade (pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende do outro) e nas experiências totalitárias, um defensor da racionalidade humanista, seja ela de esquerda ou de direita; enfim, uma referência da cultura francesa de hoje. Influiu no pensamento moderno do mesmo modo que o fizeram Isaiah Berlin, Hannah Arendt, George Steiner, Claudio Magris ou Zygmunt Bauman, recentemente falecido, autores que têm convicções resultantes do pensamento racional aplicado ao conhecimento factual, temperado por um visceral humanismo, e que, mesmo quando não se partilham, enriquecem o nosso debate interior e fortalecem as nossas. De Todorov destaco "Memória do mal, tentação do bem" (Edições Asa, 2002), um tratado sobre o mal causado pelos totalitarismos mas também pelos que, em nome do bem, causaram muitas desgraças.

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Gorden Kaye (1941-2017)

por Diogo Noivo, em 24.01.17

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 Morreu o maior sex symbol da Britcom, protagonista de uma das melhores séries de televisão de sempre.

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O pesado manto da desmemória

por Pedro Correia, em 17.01.17

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“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

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Um adeus de até já

por Pedro Correia, em 10.01.17

 

Acabo de escutar as intervenções emocionadas de Isabel Soares e João Soares no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, durante as solenes exéquias do pai de ambos. Foi um momento exemplar de dignidade e elevação a que se associaram todas as instituições do Estado, todos os representantes partidários e uma galeria de ilustres convidados estrangeiros.

Somos tão invadidos pela vulgaridade e pela grunhice no nosso quotidiano mediático que quase estranhamos estes momentos de recolhimento e solenidade propícios à meditação sobre a frágil condição humana, impostos pela lei da vida e pelo luto nacional na hora em que nos despedimos de um político de excepção como Mário Soares.

Arrepiante foi escutar a lacrimosa do Requiem de Mozart naquele cenário. O mesmo em que Soares, em Junho de 1985, pôs a sua assinatura - com Felipe González, novamente hoje ali presente - na cerimónia da adesão dos dois países ibéricos à então CEE. Arrepiante também foi escutar a saudosa voz bem timbrada de Maria Barroso, que partiu ano e meio antes do marido, recitando os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste, de Álvaro Feijó.

«Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro / Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos / Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos / E ver-te-ás de corpo inteiro. // Como quando sorrias no meu colo. / E, ao veres que tenho toda a tua imagem / Dentro de mim, se, então, tiveres coragem, / Fecha-me os olhos com um beijo. // (...) Não um adeus distante / Ou um adeus de quem não torna cá, / Nem espera tornar. Um adeus de até já, / Como a alguém que se espera a cada instante. // Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar / De novo para ti, no mesmo barco / Sem remos e sem velas, pelo charco / Azul do céu, cansado de lá estar. // (...) E, se quiseres partir e o coração / To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino / Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?»

Como tantos portugueses, assisto comovido à cerimónia. Ficam-me a reverberar os acordes sublimes do Requiem e as sílabas do belíssimo poema que aquela gravação de Maria Barroso projecta para a eternidade.

Tento reter estes instantes. Antes que a poluição sonora nos invada novamente o recato do domicílio, com as berrarias do futebol mescladas de música pimba, graçolas rascas e vídeos imbecis das "redes sociais". Sem estética, sem gosto, sem grandeza. Tudo ao contrário do que acabámos de escutar agora.

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O legado de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.01.17

 Mário Soares (com Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Francisco de Sousa Tavares e outros) na manifestação da Fonte Luminosa, em Lisboa (19 de Julho de 1975)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, que hoje morreu aos 92 anos. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.

Texto reeditado

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So long, Leonard

por Helena Sacadura Cabral, em 12.11.16

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Ando deliberadamente em época de más noticias. Leonard Cohen foi o meu companheiro de momentos menos felizes em que só ouvir a sua voz me tirava de amarguras. E foi também companheiro fiel das musicas que, ao som da sua voz, dancei nos braços de quem amava.

Só isto bastaria para sentir a sua partida. Acresce que gostava e gosto do que escreveu. Às vezes e sem sabermos bem porquê há almas que tocam a nossa e ficam para sempre ligadas às recordações que não queremos esquecer.
Com Cohen, como com Aznavour, a idade não conta, porque aquilo que nos toca é intemporal. Vou, por isso, ter muitas saudades deste velho canadiano, que foi jovem ao mesmo tempo que eu.

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So long, Leonard

por Pedro Correia, em 12.11.16

 

      

      

      

      

       

      

 

 Leonard Cohen in memoriam.

Todas estas foram aqui canções do século. Hallelujah passou na voz de K. D. Lang.

 

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Avalanche

por Inês Pedrosa, em 11.11.16

Morreu Leonard Cohen. Eu ter-lhe-ia dado um Nobel qualquer. Por exemplo, o da química. O meu corpo e a minha alma explicam porquê, desde que, aos 11 ou 12 anos, ouvi pela primeira vez esta canção. So long, Leonard. 

 

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Menos uma figura de referência

por Pedro Correia, em 27.10.16

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De raros compatriotas podemos dizer que são figuras de inequívoco prestígio nacional. Era assim João Lobo Antunes - grande médico, grande cientista, grande escritor, grande humanista, grande intelectual, grande cidadão.

Cheguei a mencioná-lo aqui no DELITO DE OPINIÃO como um possível candidato a Presidente da República - cargo em que, sem desprimor para o actual titular, tenho a certeza de que representaria exemplarmente os portugueses e este País que ele tanto amou.

O seu desaparecimento, de algum modo prematuro, deixa-nos um pouco mais desamparados. Por andarmos tão carecidos de personalidades inspiradoras num tempo em que a mediocridade impera e a mediania se exibe travestida de excelência.

 

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A minha "conversa" com João Lobo Antunes

por Alexandre Guerra, em 27.10.16

Tinha-me cruzado com o Professor João Lobo Antunes por duas ou três ocasiões, por motivos profissionais, mas nunca tinha falado (e nunca falei pessoalmente) com ele. Desses breves momentos, nunca fiquei com a ideia de que seria uma pessoa simpática, pelo contrário, daquilo que ia vendo e conhecendo do Professor João Lobo Antunes, enquanto personalidade pública, sempre o considerei algo elitista e pouco acessível (nada que me incomodasse), mas nunca tive dúvidas quanto à sua rara envergadura intelectual e, sobretudo, quanto à sua firmeza nas convicções ideológicas que tinha.

Em Maio último, por razões que um dia poderei contar, tive o privilégio de trocar alguns e-mails com João Lobo Antunes. Fiquei esmagado com a sua dureza de argumentos intelectuais e ideológicos. O professor foi impiedoso comigo, mas ao mesmo tempo concedeu-me o privilégio de poder rebater e contra-argumentar, tendo eu as devidas réplicas da sua parte.

Divergimos naquilo que era o âmago da questão, com João Lobo Antunes a expor os seus argumentos de uma forma duríssima, como nunca ninguém me tinha confrontado. Ao projectar a sua intelectualidade e ao exprimir as suas convicções, acabei por perceber que João Lobo Antunes me tinha concedido um estatuto merecedor do seu tempo e atenção.

No final, e depois de ter literalmente arrasado os meus pontos de vista, embora eu me tenha mantido firme em relação àquilo que defendia, o Professor João Lobo Antunes despediu-se de uma forma que nunca irei esquecer e que tanto me orgulha. Só um homem de tal inteligência, sofisticação e elegância responderia o que ele respondeu. Mas isso, fica só para mim.

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Mário Wilson

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.10.16

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 (1929-2016)

 

"Só nós sentimos assim"

Obrigado, meu capitão.

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A última "pomba" do Médio Oriente

por Alexandre Guerra, em 28.09.16

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Desde que me lembro de ter alguma consciência política e sensibilidade para as questões do mundo, que convivo quase diariamente com o conflito do Médio Oriente, seja em momentos de maior ou menor intensidade. Não estarei a exagerar se disser que aquela realidade israelo-palestiniana me tem acompanhado ao longo da vida, onde aliás já tive o privilégio de estar por mais que uma vez. Havia três figuras que faziam parte desse meu mundo: duas já morreram há uns anos; Ytzhak Rabin, em 1995, e Yasser Arafat, em 2004. E a terceira figura era Shimon Peres, que morreu esta manhã. Todos eles foram em tempos das suas vidas "falcões", que lutaram pela sua terra, mas morreram como "pombas" na tentativa de encontrar uma solução de paz para um conflito milenar.

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Barbosa de Melo

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.09.16

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(Foto: LUSA) 

(1932-2016)

 

Foi um senhor. Como este são cada vez menos. A república, a democracia, o pensamento e a seriedade ficam muito mais pobres. Paz à sua alma.

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Entre a lágrima e o sorriso

por Pedro Correia, em 26.08.16

De longe em longe somos surpreendidos pela notícia do desaparecimento de alguém que imaginámos imortal. Aconteceu-me em Abril de 2015 com Manoel de Oliveira, que partiu aos 106 anos: parecia-me inacreditável que um homem iniciado na aventura do cinema ainda na era do mudo, parceiro de tantas cenas com Vasco Santana na mítica longa-metragem A Canção de Lisboa, se mantivesse entre nós. Aconteceu-me há dias com o professor Moniz Pereira, personalidade que tanto admirei, campeão em várias modalidades e treinador de campeões - desde logo o incomparável Carlos Lopes, primeira medalha de ouro olímpica portuguesa: permaneceu connosco até aos 95 anos, despedindo-se no termo de uma vida cheia e a vários títulos exemplar.

Também na música acredito que vários dos meus ídolos são imortais. Gente maiúscula, que na maior parte dos casos já seduzia multidões muito antes de eu nascer e continua por aí: Vera Lynn (99 anos), Charles Aznavour (92 anos), Tony Bennett (90 anos), Juliette Gréco (89 anos), Harry Belafonte (89 anos), Chuck Berry (89 anos), Sonny Rollins (85 anos), João Gilberto (85 anos), Omara Portuondo (85 anos), Little Richard (83 anos), Jerry Lee Lewis (80 anos), Kris Kristofferson (80 anos) e Hermeto Pascoal (80 anos).

 

Toots Thielemans (1922-2016) 

 

Quando um nome grande da música se apaga sinto-me como quando era pré-adolescente, ao descobrir que afinal não existia Pai Natal.

Voltou a acontecer esta semana, ao saber da notícia do falecimento de Toots Thielemans: sempre o escutei, fascinado, desde que me lembro. Este belga míope e sem aura de vedeta era o homem dos desafios impossíveis em matéria musical: foi ele quem trouxe a harmónica para o jazz, casando o instrumento de que era exímio praticante com um género mais associado ao piano ou ao saxofone.

Foi um casamento longo e de inegável sucesso. Thielemans atravessou décadas no primeiro plano da arte musical, cativando sucessivas gerações que o ouviram em palco ou nos registos discográficos. E também no cinema, onde se escuta na abertura de Boneca de Luxo (1961) e na inesquecível banda sonora do pungente Cowboy da Meia-Noite (1969).

Tocou com quase todos os nomes grandes da música que lhe foi contemporânea - de Benny Goodman e Charlie Parker a Paul Simon, de Sidney Bechet e Miles Davis a Diana Krall. Passando por Ella Fitzgerald, Bill Evans, Dinah Washington, Dizzy Gillespie, Stéphane Grappelli, Oscar Peterson, Quincy Jones, George Shearing, Pat Metheny, Stevie Wonder, Milton Nascimento ou Elis Regina.

Reparem neste delicioso duo com a intérprete de Águas de Março em que Thielemans transforma o assobio em instrumento de luxo na mais célebre das suas composições, Bluesette:

 

 

A festa da música, a festa da arte, a festa da vida. Também por isto Toots Thielemans - que nos deixou esta terça-feira, aos 94 anos, apagando-se durante o sono - me parecia imortal.

Numa das ocasiões recentes em que foi homenageado na sua Bélgica natal este modesto cidadão do mundo que apenas queria ser um artesão esforçado, quase como se pedisse desculpa pelo talento, afirmou que na sua idade já só podia mover-se "nesse pequeno espaço existente entre a lágrima e o sorriso".

Legou-nos a música - e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.

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Ivo Pitanguy

por Helena Sacadura Cabral, em 07.08.16

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Nunca fiz uma plástica. E espero não fazer, porque isso seria sinal de que algo teria acontecido, que me desfigurara. Nunca critiquei quem as faz, embora pense que elas são, na maioria dos casos, sinal de falta de confiança em si próprio. Mas nada tenho a opor, desde que isso contribua para um maior bem estar pessoal. Só que, ou eu tenho demasiada confiança em mim, ou me acho uma pessoa especial, ou tenho um medo terrível que me estraguem o que possuo, com o qual convivo há imenso tempo, e de que gosto muito.

Há uns anos, num almoço de lampreia em casa de amigos comuns, o meu querido Fernando Póvoas dizia-me que se eu fosse à sua clínica, ele me tirava 5 quilos e eu ficava óptima. Dei uma tremenda gargalhada e disse-lhe que quem levasse o meu coração, teria que levar o pacote todo, incluindo esses cinco quilitos. Continuámos bons amigos, eu não perdi e até aumentei o peso e quem levou o meu coração levou tudo no pacote, sem ter havido reclamação.

Vem isto a propósito da morte de Pitanguy, a quem muitas mulheres devem o terem passado a gostar de si próprias, numa altura da vida em que, acreditam, tudo está perdido. Apesar de não haver nada mais falso!

 

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 Mário Moniz Pereira com Carlos Lopes em Janeiro de 1976: seis meses depois, o segundo conquistaria a primeira medalha olímpica de atletismo para Portugal

 

Mário Moniz Pereira foi um dos raros portugueses de excepção que tiveram o privilégio de ser homenageados várias vezes em vida: Medalha de Mérito Desportivo, Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, Comenda da Ordem da Instrução Pública, Medalha de Mérito em Ouro, Ordem Olímpica, Leão de Ouro com Palma, Grande Oficial da Ordem do Infante

Ao contrário do que é costume nas sociedades latinas em geral e na portuguesa em particular, mais dadas à veneração dos mortos.

 

Foi também o melhor representante da cultura leonina, pelo ecletismo de que sempre deu provas no seu  percurso pessoal enquanto praticante de ginástica, futebol, andebol, basquetebol, ténis, ténis de mesa, hóquei em patins, natação, tiro, equitação e esgrima.

Onde mais se distinguiu foi no voleibol, tendo sido duas vezes campeão nacional (1953/54 e 1955/56), a última também como treinador. E acima de tudo no atletismo, começando pelo título de campeão universitário de Portugal no triplo salto: aqui, como treinador e dirigente com o pelouro das modalidades, conquistou tudo quanto havia para conquistar: provas e campeonatos no plano nacional, europeu, mundial e olímpico. Com destaque para a primeira medalha de ouro portuguesa em Olimpíadas, obtida por Carlos Lopes em Los Angeles, na inesquecível madrugada de 13 de Agosto de 1984, quando nenhum português conseguiu dormir.

 

Mas na hora da despedida do Senhor Atletismo, ilustre sócio n.º 2 do Sporting Clube de Portugal, conclui-se com tristeza que faltou a homenagem que ele mais desejaria: o regresso da pista de atletismo ao estádio do clube.

Pista que o pioneiro Estádio José Alvalade orgulhosamente possuía e foi utilizada por milhares de atletas - em benefício da instituição leonina e do desporto português. Pista que a partir de 1979 passou a ser de tartan, por insistente reivindicação de Moniz Pereira, no rescaldo da medalha de prata obtida na prova dos 10.000 metros dos Jogos Olímpicos de Montreal por Carlos Lopes, o mais brilhante dos seus pupilos. Pista que se perdeu em 2003: o projecto encomendado a Tomás Taveira - só virado para o futebol, esquecendo o ecletismo que é marca distintiva do Sporting - não a contemplava. Nem foi possível reparar o erro, apesar de o custo final do novo estádio ter excedido em 75% o montante inicialmente estipulado.

De todas as homenagens, esta teria sido a que ele preferiria. Foi a única que ficou por concretizar.

Publicado originalmente aqui

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Mário Moniz Pereira (1921-2016)

por Pedro Correia, em 31.07.16

O Senhor Atletismo - campeão e treinador de campeões, um dos maiores desportistas de todo os tempos, o homem que nas décadas de 70 e 80 pôs o País a correr - acaba de perder a última corrida. Só a morte o venceu, ultrapassada já a meta dos 95 anos.

Era um grande sportinguista, respeitado por pessoas de todos os quadrantes. Um grande desportista, um grande cidadão, um grande português. Era, em suma, um grande Senhor. Com uma personalidade exemplar - a todos os níveis. Desportivo, artístico, cívico.

Infelizmente temos entre nós cada vez menos figuras verdadeiramente nacionais. Mário Moniz Pereira era uma delas.

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Como se o golo fosse só para nós

por Pedro Correia, em 26.07.16

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

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Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

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Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me ontem do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

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"Se for preciso corte metade"

por Pedro Correia, em 06.07.16

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Nuno Rocha (1933-2016) 

 

Vejo-me nas fotografias, miúdo ainda, naquele grupo em que todos eram mais velhos que eu. Mas tratávamo-nos por tu e as hierarquias eram muito mais diluídas nessa época, apesar de circular nas redacções uma frase importada das casernas: “A antiguidade é um posto”. Na hora de bulir, todos arregaçavam as mangas e aceleravam o passo: ninguém ia pavonear-se para as televisões armado em general, todos se comportavam como soldados.

Vejo-me a entrar naquela Redacção, num primeiro andar ao Príncipe Real que na sala maior funcionava como piso térreo, enquanto desfilava perante mim uma espantosa galeria de personagens de um romance que talvez ainda venha a ser escrito. Uma delas era o director do jornal, um portuense transplantado para Lisboa que ganhou fama como repórter do Diário Popular. No célebre “baile do século”, oferecido pelo magnata Antenor Patiño e realizado na última noite da vida política de Salazar, furou o veto à entrada de jornalistas disfarçando-se de empregado de mesa. Pôde ser assim o único a contar a história.

 

O director escrevia artigos copiosos – linguados, como se dizia no jargão profissional da época – que não tinha a menor paciência para rever.

Um dia, era eu ainda estagiário, chamou-me para que lhe corrigisse os erros de ortografia. E logo partia para outra prosa. Às vezes dava-me a impressão de que ele escrevia sozinho metade daquele semanário, contínuo sucesso de vendas, que ostentava como título de glória um comício em Almada em que o general Vasco Gonçalves lhe chamou “pasquim”.

Chamava-se Tempo, feliz título que define toda uma época já passada e que não regressa. Os nossos maiores concorrentes eram dois outros semanários (Expresso e O Jornal), a informação processava-se a um ritmo muito mais vagaroso do que o actual, podíamos dar-nos ao luxo de guardar notícias para só divulgar na quinta-feira.

E toda a gente lia jornais: eram frequentes as tiragens acima dos cem mil exemplares, números impensáveis para os dias de hoje. Havia quem comprasse só para ler um colunista: o Manuel de Portugal, por exemplo, era um sucesso sem par. Recebíamos chamadas de cidadãos anónimos a perguntar se podíamos “transmitir uma palavra de agradecimento àquele senhor que tanto gosto de ler”.

 

O director dos artigos copiosos era o Nuno Rocha. Morreu ontem, aos 83 anos, esquecido do mundo, alheado do fluxo informativo que durante tantas décadas o fez produzir um número incontável de notícias.

Desaparece num momento em que o jornalismo se transfigura por completo, frágil como nunca, transformado num voraz mecanismo reprodutor de desempregados em série, sem metade do prestígio social que teve nas décadas precedentes. A relação polifacetada do jornalista com a vida transformou-se numa relação estritamente monogâmica com um ecrã de computador.

O servo da gleba ressuscitou no servo da tela.

 

Nessa altura, não. Havia tempo para trabalhar no duro e tempo para nos afastarmos do som estridente das máquinas de escrever e dos telefones que não paravam de tocar, alargando horizontes, convivendo, fazendo amizades, conhecendo mundo. O Nuno Rocha tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.

Continuava a escrever copiosamente, continuava a viajar como se não houvesse amanhã, ditando prosas ao telefone das mais diversas paragens. Na redacção, sempre sentado à secretária, o Chefe Peixe Dias conferia-lhe a pontuação e abria-lhe parágrafos nos textos com paciência de bom samaritano.

Chamávamos-lhe assim mesmo: Chefe – algo que nunca chamei a mais ninguém. Hoje só os cozinheiros merecem tal título, o que se adequa muito ao ar do tempo.

 

Ali, naquele semanário de direita onde não faltava gente de esquerda, fiz amizades para a vida. A Teresa e o Fernando, que me acompanham no DELITO. O António Ribeiro Ferreira, o Paulo Portas, o Carlos Santos Pereira, o Paulo Reis, o Ramos André, o Júlio Santos, o Carlos Pires, o António Duarte (o que será feito dele?), o Luís Marinho, a Helena Vieira, o Paulo Camacho, o António Fontoura, a Anabela Saint-Maurice, a Ana Guedes, o Jorge Nuno Oliveira, o Horácio Piriquito, o Jorge Botelho Moniz, o Vítor Pereira, o João Líbano Monteiro, a Eva Cabral, a Leonor Ribeiro da Silva, o Alcides Pinto, o Eduardo Sousa, o Augusto Teixeira, o Luís Costa Ribas, o Alfredo Canana. O Octávio Saldanha, o José Vasconcelos, o Ilídio Barreto e o Jorge Alves Oliveira, que nunca mais vi.

E tantos outros: Raul Alves Fernandes, Palmira Correia, Gouveia de Albuquerque, Isabel Atahide Cordeiro, Luís Fraga, Wilton Fonseca, Jorge Massada, Noé Ramos, Piedade Paulo. Alguns que já cá não estão: a Margarida Viegas, o Händel de Oliveira, o José Neto, o Albano Matos, o João Isidro, o Carlos Basto, o Jorge Pereira de Almeida, o José Paulo Canelas.

Aprendi quase tudo quanto conheço nesta profissão com quase todos eles. Porque então havia tempo para os mais velhos ensinarem os mais novos. E para os mais novos levarem na cabeça dos mais velhos. E corrigirem os textos. E reescreverem tudo desde o início, se fosse necessário.

 

Hoje imprime-se o erro sem que ninguém o detecte. Porque anda tudo a cem, porque cada um só sabe de si, porque todo o homem é uma ilha e a profissão deixou de ser um vasto arquipélago. E o jornalista – agora convertido em “profissional multimédia” nesta era já sem chefes em que a antiguidade deixou de ser um posto para ser posta de lado – quase perdeu até direito ao nome. É um número numa folha de cálculo.

Nunca a tecnologia foi tão desenvolvida. Nunca se esteve tão à distância do mundo real.

As “fontes” deixaram de ser criaturas de carne e osso, interlocutores a quem era possível encarar olhos nos olhos: tornaram-se seres virtuais, uma voz ao telefone, dois correios electrónicos, três sucintas mensagens num telemóvel.

Hoje ninguém se daria ao incómodo de se disfarçar de empregado para penetrar na festa de um Patiño: as dondocas que lá estivessem encarregavam-se da “reportagem” com trinta selfies a ilustrar. Saía na página quatro do jornal gratuito, três minutos para ler no metro, com títulos replicados nos rodapés das televisões e das farmácias de serviço entre o mais recente atentado no Bangladeche e a nova tatuagem da velha estrela do futebol.

 

O Nuno Rocha, meu primeiro director num jornal a sério, já cá não está para relatar os factos da semana. Nem o Chefe João Peixe Dias poderia voltar a aparar-lhe a prosa enquanto cofiava o bigode em gestos nervosos, de eterno cigarro a arder-lhe nos dedos.

“Se for preciso corte metade”, dizia o director. E o Chefe cortava. Outros tempos.

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Elie Wiesel: nunca esqueceremos

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

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Morreu hoje, 2 de Julho, aos 87 anos, a última das grandes vozes literárias do Holocausto: Elie Wiesel. "Noite" narra a sua experiência de prisioneiro nos campos da morte de Auschwitz e Buchenwald, de onde foi libertado aos 16 anos. Enquanto o lermos, enquanto passarmos a sua palavra, Wiesel continuará vivo. E os milhões de assassinados do horror nazi não serão esquecidos.

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Muhammad Ali (1942-2016)

por Luís Menezes Leitão, em 05.06.16

Nasceu Cassius Clay e foi com esse nome que se tornou famoso no mundo do boxe. Não hesitou, porém, em mudar de nome quando se converteu ao islamismo, essencialmente por influência de Malcom X, que também tinha abolido o seu apelido. Clay era um apelido herdado do patrão de escravos e ele queria usar um nome livre. Por isso obrigou o mundo inteiro a tratá-lo por Muhammad Ali.

 

Ali não era apenas um pugilista. Era também um activista político, que gostava de marcar com clareza as suas posições. Em 1967 recusou-se a combater no Vietname, dizendo que nada tinha contra os vietnamitas, já que nenhum deles alguma vez lhe tinha chamado Nigger. Por isso expulsaram-no do boxe e chegaram a condená-lo a uma pena de prisão, mas Ali voltaria a retomar a carreira, anulando a condenação. Os seus combates de 8 de Março de 1971 com Joe Frazier (Fight of the Century), de 24 de Janeiro de 1974 com George Foreman em Kinshasa (Rumble in the Jungle) e de 1 de Outubro de 1975 em Manila, novamente com Joe Frazier (Thrilla in Manila) marcaram a história do boxe. 

Ali tinha uma profunda vaidade, considerando-se sempre o maior. E para mim, quando acompanhei durante a minha adolescência os seus combates de boxe, era-o efectivamente. O seu estilo de combate era demolidor e ele próprio o definiu: pairava como uma borboleta e picava como uma abelha. Por isso lembro-me perfeitamente do choque que sofri quando num dia de 1978 o vespertino A Capital surge com a primeira página a dizer "Rei Ali derrotado por Spinks". Para mim era inconcebível que um gigante como Muhammad Ali pudesse ser derrotado por um pugilista menor, que num único combate lhe roubou todos os títulos do boxe.

 

O mito acabou aí. Muhammad Ali ainda voltaria a combater com Spinks, recuperando o título, mas, em lugar de se retirar, insistiu em defrontar Larry Holmes. Nessa altura antecipei o que se iria passar. Holmes aconselhou Ali a retirar-se em glória, mas ele insistiu em combater e continuou com a gabarolice do costume, garantindo que iria esmagar Holmes. Na altura apareceu de bigode e inventou um terceiro nome para si próprio ("Dark Gable"), que nunca pegaria. Mas em 3 de Outubro de 1980, no Caesars Palace em Las Vegas, num combate que ficou conhecido como The Last Hurrah, Ali seria derrotado ao 10º round. Nessa altura já eram evidentes os primeiros sinais da doença de Parkinson, tanto assim que Ali foi obrigado pela Comissão de Boxe do Nevada a fazer um exame neurológico na Clínica Mayo, mas apesar disso, numa decisão muito criticada, a Comissão autorizou o combate. E como não poderia deixar de ser, o resultado foi que Larry Holmes trucidou Muhammad Ali.

Ali passaria o resto da vida a lutar contra a doença de Parkinson. Para uma pessoa como ele, que achava que vencia sempre e para quem o impossível não era um facto mas uma opinião, até o Parkinson poderia ser vencido. Chegou a dizer: "Quem é esse Parkinson, a quem ganhou e em que livro de recordes está?". Nos restantes anos da sua vida ficaria a conhecer muito bem esse adversário e de facto combateu-o até à exaustão. Ontem perderia finalmente o combate da sua vida, mas ficou a lenda do maior pugilista de todos os tempos.

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Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 27.05.16

 

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Costureiras, quadro de Querubim Lapa (1949)

 

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens"

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (95 anos), Albert Bertelsen (94 anos), Júlio Pomar (90 anos), Leon Kossoff (89 anos), Manuel Cargaleiro (89 anos), João Abel Manta (87 anos), Arnulf Rainer (86 anos), Jasper Johns (86 anos), Nikias Skapinakis (85 anos) e Frank Auerbach (85 anos).

 

Lembrei-me disto há dias, ao saber que o grande Querubim Lapa se despediu de nós, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

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Morreu Paulo Varela Gomes

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.16

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"...Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro -- já não estaria aqui se assim não fora".

Estas são palavras do Professor Paulo Varela Gomes, ao tempo já em luta contra um cancro que há quatro anos lhe aparecera. Escritor, historiador de arquitectura e crítico, vai fazer muita falta a todos quantos o apreciavam e ao próprio país.
A primeira vez que ouvi falar no apelido Varela Gomes foi ao meu saudoso amigo Sérgio Sabido Ferreira, médico que o operou, a quando do golpe de Beja, sob forte fiscalização militar. Não o conhecia de lado nenhum. Fê-lo porque era um homem de carácter e um médico que jurara salvar vidas. 
Depois havia de ouvir falar da amizade que se teceu entre o seu filho Paulo e o meu filho Miguel. Viveram algumas perigosas aventuras juntas e uma delas foi a constituição do MAESL - Movimento dos Estudantes do Ensino Secundário- que deu origem à detenção de cerca de 150 estudantes, entre eles Portas e Varela Gomes.
Nessa ocasião, um energúmeno da PIDE havia de me telefonar às 11h da noite dizendo-me que o meu filho estava detido - tinha 13 anos - tendo-me invectivado de tudo e mais alguma coisa, antes de me dizer que o fosse buscar. Lá encontraria a mãe Varela Gomes e uma centena de pais a aguardar a saída dos filhos. O nosso encontro foi surreal, eu furiosa de ele me não ter avisado, ela orgulhosa da detenção, a dar-me lições de política. Finalmente o Miguel apareceria de cabeça rapada já por volta das 3 da madrugada. Se encontrasse, de novo, o homem que lhe fez aquilo, teria o prazer de o descompor. Isto se não me chegasse a ele para o esbofetear. E eu era uma mulher de mão pesada...
O tempo havia de me tornar sua admiradora, mesmo quando não concordava com ele. Julgo que se terá tornado católico no fim da sua vida. Mas o que me leva a admirá-lo mais ainda foi a dura luta que travou contra essa malvada doença que também levou o Miguel. Adoeceram em tempo próximo e o Paulo subirá ao céu a tempo de celebrar o dia do aniversário do amigo, que é amanhã!

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Tão longe e tão perto, Zé Paulo

por Pedro Correia, em 13.04.16

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Sentimos que começamos a envelhecer quando cada vez mais gente à nossa volta nos trata por você em vez de tratar por tu. Na segunda-feira despedi-me de uma pessoa que me tratava por tu há 33 anos - outra pessoa que parte cedo de mais, outra pessoa com quem ficaram tantas conversas por partilhar. Foi o José Paulo Canelas, um grande profissional do jornalismo, um amigo de décadas.

 

Éramos absurdamente novos, absolutamente infatigáveis, ingenuamente crentes de que seríamos capazes de tornar realidade todos os sonhos. Eu editava na altura o segundo caderno do semanário Tempo, um dos jornais com maior tiragem à época, e havia decidido remodelá-lo alterando-lhe o grafismo e até o nome - passou a chamar-se Fim de Semana. Obtive luz verde da direcção para contratar novos colaboradores e colunistas - de uma geração mais jovem e com uma linguagem mais arejada e dinâmica.

Entrou assim em cena o José Paulo, que passou a ter a seu cargo duas páginas de temas desportivos - era já então a área que preferia. Trabalhámos juntos, semana a semana, durante quase três anos: posso garantir que foi um dos raros colaboradores que não falharam um prazo. Oferecia sempre mais do que lhe era pedido em textos que me chegavam irrepreensíveis às mãos - ao contrário de outros, que precisavam de ser profundamente alterados ou mesmo refeitos de alto a baixo após julgamento sumário e condenação à guilhotina.

Finda esta experiência, reencontrámo-nos durante alguns meses na revista Nova Gente, onde fui um fugaz subchefe de Redacção. Trabalhávamos imenso mas divertíamo-nos na mesma proporção naquela indescritível cave em Queluz onde não decorria um dia sem um toque surreal. Com histórias que davam para um bom livro, garanto-vos. Ou para trechos de filmes de um Buñuel ou um Fellini.

 

Depois os nossos destinos separaram-se. Eu saí de Portugal, andei dez anos por fora, cumpri o sonho de dar a volta ao mundo. Ele seguiu a rota do jornalismo desportivo, para a qual tinha genuína vocação: passou pela Gazeta dos Desportos e pelo Record, e chegou a subdirector do diário O Jogo. Como sucede a quase todos nós, sucedeu-lhe então uma inesperada alteração de rota, especializando-se noutra área do jornalismo: chegou a director da revista TV 7 Dias e era agora subdirector da TV Guia, embora em situação de baixa há cerca de um ano.

Foi quando exercia funções directivas n' O Jogo que, estando eu de regresso ao País e sem trabalho, recebi um telefonema dele a convidar-me para editor do jornal em Lisboa. Algo que jamais esqueci, jamais esquecerei. Só quem nunca passou pelo desemprego é incapaz de avaliar a importância destes gestos.

 

Na igreja do Santo Condestável, ao princípio da tarde de segunda-feira, dizia-me o Fernando Sousa, seu primo-irmão, que o José Paulo Canelas, por mais atarefado que andasse, nunca perdia de vista os amigos e tentava sempre ajudá-los. Sou testemunha directa desta generosidade. Sempre discreta, muito à maneira tímida dele, quase como se precisasse de pedir licença para nos mostrar que tinha um coração enorme.

Naquele momento triste, reencontrando após tantos anos parte da "minha" equipa da Nova Gente, foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco.

Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.

Tratamo-nos todos por tu e combinámos jantar. O Zé Paulo vai lá estar também.

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Where have all those songs gone?

por Pedro Correia, em 28.03.16

 

Este ano, ainda sem atingir um quarto de duração, está a ser terrível para a música. Pelo desaparecimento de vários nomes grandes desta arte, nas suas mais diversas facetas.

Em Janeiro vimos partir Pierre Boulez, David BowieOtis Clay, Hubert Giraud (que compôs canções célebres da canção francesa, como Sous le Ciel de Paris e Mamy Blue), Black (que nos legou Wonderful Life), o guitarrista dos Eagles, Glenn Frey (inesquecível, o seu contributo em temas como  Hotel California e Tequila Sunrise), Michel Delpech (com o seu eterno  Wight is Wight) e dois pilares dos Jefferson Airplane, Paul KanterSigne Toly Anderson.

Em Fevereiro desapareceu Maurice White, vocalista dos Earth, Wind & Fire. Logo seguido de Dan Hicks e Rey Caney. E este Março que ainda não chegou ao fim já se despediu, entre outros, de Naná Vasconcelos, do grande George Martin (que bem mereceu o cognome de Quinto Beatle pela roupagem musical que deu a Eleanor RigbyShe's Leaving Home  e  A Day in Life, entre tantos outros temas) e Frank Sinatra Jr.

Um mês que viu partir também, de forma trágica, um dos ícones da minha adolescência: Keith Emerson, compositor e teclista do trio Emerson, Lake & Palmer. Escutei-os inúmeras vezes - tardes sem fim, noites intermináveis, até os discos se gastarem de tanto rodar sob a agulha: Tarkus, Pictures at an Exhibition, Brain Salad Surgery, Works.

Emerson, segundo li nas notícias, andava deprimido há meses. A depressão tê-lo-á levado a "pôr termo à vida", como se escreve no modo eufemístico tão em voga em certas redacções que cultivam um estilo inócuo e contentinho. Com ele - e creio poder falar pela minha geração melómana - é um pouco mais da nossa juventude que parte também, num adeus irreversível aos dias em que cantávamos Lucky Man. Crentes de que as manhãs inundadas de sol jamais teriam fim.

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Um triste adeus ao Sr. Contente

por Pedro Correia, em 14.03.16

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Grande actor – de teatro, cinema e televisão – Nicolau Breyner era uma das raras figuras de indiscutível dimensão nacional: tornou-se popular junto de portugueses das mais diversas gerações. Começou a trabalhar muito cedo, no início da década de 60, e ainda coexistiu nos palcos com gigantes da arte de representar, como António Silva e Ribeirinho. E trabalhou até ao fim, com jovens colegas que tinham idade para serem seus netos.

Artista multifacetado, tão à vontade na comédia como no drama, também evidenciava qualidades humanas que amigos e colegas têm recordado desde que, há um par de horas, soubemos todos da inesperada notícia do seu falecimento. Num meio muito fértil em invejas e rivalidades de todo o tipo, poucos conseguiram ser tão consensuais como ele. Apesar de estar nos antípodas da correcção política e nunca ter escondido as suas convicções – no plano estético, ideológico e até religioso.

 

 

Como tantos de nós, lembro-me dele desde sempre. Na televisão (onde em 1975 fez parar o País com o seu programa Nicolau no País das Maravilhas, em que popularizou o duo “Sr. Feliz e Sr. Contente”, ao lado de um Herman José em início de carreira). Na telenovela (onde foi pioneiro em 1982, como autor e actor, com a sua Vila Faia, que rompeu o monopólio brasileiro). No teatro (não esqueço a magnífica actuação dele em 2005 na peça Esta Noite Choveu Prata, monólogo de Pedro Bloch, em que se repartia por três personagens). E no cinema, em filmes tão diversos como A Vida é Bela?! (de Luís Galvão Teles, 1982), a cuja estreia assisti, e Os Imortais (de António-Pedro Vasconcelos, 2003), com um inesquecível desempenho no papel do inspector Joaquim Malarranha. O último foi há pouco mais de um ano, noutro filme de Vasconcelos, Os Gatos Não Têm Vertigens, em que fazia um papel emocionado e emocionante ao lado de Maria do Céu Guerra.

Entrevistei-o duas vezes, uma das quais durante um jantar que partilhámos há pouco mais de uma década no Estoril em que deixou bem evidente outra faceta que tantos têm sublinhado: era um magnífico conversador. E um homem gentil, que também sabia escutar.

 

 

Nicolau, o Sr. Contente, teve uma vida cheia, repleta de episódios que dariam para vários livros e muitos filmes. Partiu hoje sem avisar, como por vezes lhe sucedeu em vida quando decidia pôr fim a uma etapa e iniciar outra. Para ele o tédio era uma espécie de pecado mortal.

Deixa-nos um pouco mais pobres e muito mais tristes. Mas com a recordação inapagável do seu talento, capaz de suscitar lágrimas e provocar sorrisos – numa perfeita simbiose da dualidade humana.

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So long, Nancy

por Pedro Correia, em 08.03.16

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Um bom exemplo de obituário jornalístico: a evocação de Nancy Reagan (1921-2016) por Lois Romano no Washington Post.

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Interventivo e activo até ao fim

por Pedro Correia, em 19.01.16

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Fui apanhado de surpresa, como aconteceu com quase todos nós. Ainda há dois dias o vi nas imagens televisivas, num almoço de apoio a Maria de Belém. Tinha a voz sumida e um aspecto mais frágil do que era costume, mas supus que estivesse engripado. António de Almeida Santos, que estava a poucos dias de completar 90 anos, era um daqueles homens que parecem não ter idade. Sempre aparentou ser mais jovem do que o bilhete de identidade indicava. Praticava ginástica diariamente, com disciplina espartana, e não deixava de dar umas braçadas de natação durante as férias estivais - incluindo na Beira Alta, região do seu berço e dos seus afectos mais profundos.

 

Era de uma elegância requintada - ia a escrever antiga, como quase já não  há. Elegância física mas também no trato social e na vida cívica. Calejado em duras contendas políticas, desde os tempos da academia coimbrã, nunca deixou de respeitar os adversários. Não me recordo de uma só ocasião em que lançasse algum sarcasmo insultuoso ou uma palavra de menosprezo gratuito a quem não pensasse como ele. Pelo contrário, não perdia uma oportunidade para fazer a pedagogia da tolerância, infelizmente tão arredada dos nossos costumes actuais.

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente e de manter com ele muitas conversas nos meus tempos de jornalista parlamentar. Já escrevi algumas vezes sobre essa época em que nos corredores da Assembleia da República circulavam algumas das melhores personalidades da nossa vida política. Personalidades como João Amaral, José Medeiros Ferreira e Maria José Nogueira Pinto, por exemplo - infelizmente já desaparecidas.

Aprendi alguma coisa com todas elas. E não esqueço essas lições.

 

Almeida Santos tinha sempre uma palavra amável, um momento disponível, um gesto fraterno para os jovens jornalistas que o procuravam na tentativa - nem sempre conseguida - de obter uma notícia. Nunca elevava o tom de voz, jamais perdia a compostura, parecia incapaz de se imaginar num inacessível pedestal. Como se ali não estivesse um homem com currículo e biografia, que foi ministro, presidente da Assembleia da República, conselheiro de Estado, presidente do PS, um dos principais legisladores da democracia portuguesa. Um homem que parecia conhecer toda a gente e ter estado em todos os momentos decisivos da vida nacional do último meio século - incluindo o processo de descolonização, que lhe valeu severas críticas cujos ecos não se dissiparam por completo.

Tinha a aparente modéstia característica das pessoas realmente influentes. Na política, como na vida, foi um verdadeiro maratonista: preferia seguir pelo seu passo enquanto via avulsos velocistas acelerar à sua volta para se estamparem três curvas adiante.

Era uma daquelas pessoas que pareciam eternas. Até por isso a inesperada notícia da sua morte, há um par de horas, me deixou tão consternado.

 

Guardarei dele a memória de um senhor sábio e paciente, de pose amena e voz pausada, cioso da sua privacidade sem esquecer que nenhum homem é uma ilha, capaz de resistir à cruel erosão do tempo como se o calendário fosse um aliado e não um inimigo.

Daí ter permanecido interventivo e activo até ao fim.

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Alan Rickman (1946 - 2016)

por João Campos, em 14.01.16

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Hans Grubber. Xerife de Nottingham. Alexander Dane/Dr. Lazarus. Severus Snape. E outros, tantos outros. 

 

Dias depois de David Bowie nos deixar, parte também o grande Alan Rickman. Se me permitem, 2016 está a ser uma bela treta. 

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David Robert Jones

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.01.16

(8/01/1947 - 10/01/2016)

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