Dois homens que deixaram obra e lastro
António Borges Coelho (1927-2025) e Álvaro Laborinho Lúcio (1941-2025)
Morreram muito recentemente duas figuras que admirei, por motivos diversos mas que justificam louvor póstumo em simultâneo: António Borges Coelho e Álvaro Laborinho Lúcio.

O primeiro distinguiu-se como ensaísta e cronista de mérito, mas sobretudo como historiador. Autor de uma História de Portugal em vários volumes, em que sobressai a sua análise do interregno filipino que durou 60 anos mas continua a ser um dos períodos menos bem conhecidos dos compatriotas.
Tive ocasião de sublinhar aqui o mérito dessa obra quando a li, há oito anos.
«António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.» Palavras que hoje reitero.
Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa e A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos. Incluindo Crónicas e Discursos, um livro-testamento editado em 2024 que também destaquei aqui.
«Alegra-me quando as pessoas acham que fiz alguma coisa de útil», afirmou numa entrevista à Lusa, em 2018. Bastava-lhe isso. E cumpriu o desígnio.
Morreu a 17 de Outubro, com 97 anos. Nunca o conheci. Mas sou-lhe grato enquanto leitor.

O segundo, magistrado de profissão e escritor por vocação, foi competente ministro da Justiça durante uma legislatura, no terceiro executivo de Cavaco Silva (1991-1995), e mais tarde (2003-2006) ministro da República para os Açores, por nomeação de Jorge Sampaio. Tive o gosto de conhecê-lo ao fazer-lhe uma extensa entrevista jornalística em 2020, na Fundação Gulbenkian.
Cinco anos antes tinha-o incluído numa série de textos polvilhados de alusões irónicas no DELITO DE OPINIÃO sob o título "Presidenciáveis" - e que originou um livro homónimo. Na altura ofereci-lhe um exemplar da obra e ele sorriu, com louvável fair play, quando leu que «os complexos desafios de Belém exigem trabalho árduo e não apenas Laborinho». Em anos mais recentes, já aposentado, este social-democrata de sólidos princípios humanistas dedicou-se sobretudo à escrita de ficção: tive igualmente ocasião de salientar três desses títulos aqui: O Chamador (2014), O Homem que Escrevia Azulejos (2016) e O Beco da Liberdade (2019).
«A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis», declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.
Morreu a 23 de Outubro, com 83 anos. Deixou excelente memória em muitos portugueses, até de vários que nunca votaram no PSD.























