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Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado

por jpt, em 06.07.20

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Nem um suspiro pelo Cabo Delgado, quanto mais uma lágrima ...

No sábado um amigo em Maputo, lusomoçambicano que durante anos foi jornalista em importantes jornais em Portugal e, depois, em Moçambique, partilhou no seu mural de facebook a notícia de mais uma emboscada nas estradas de Cabo Delgado, a qual causou dez mortos, com três sobreviventes que conseguiram fugir para o mato. Um dos mortos era irmão de um seu conhecido. Ao seu postal, que publicou "para ver se o mundo acorda um bocadinho para esta inexplicável guerra que está a decorrer na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, desde Outubro de 2017", juntou várias fotografias dos túmulos dos assassinados pelos guerrilheiros. No meu mural de FB partilhei o seu postal e fotos, tal como várias outras pessoas o fizeram, exactamente com o mesmo objectivo, dar visibilidade a esta desgraça crescente. Nessa mesma semana as notícias mostraram efeitos de mais um ataque guerrilheiro a Mocimboa da Praia, com relatos de inúmeros militares mortos - até de um oficial superior - e da população em fuga. Desta ouvem-se, em registos áudio,  relatos de sevícias praticadas por guerrilheiros e de desmandos por parte da tropa regular. Uma refugiada de Mocimboa descreve com detalhe a situação, explicitando que os guerrilheiros "vêm para matar, nem avisam" e que os soldados pilham, dizendo-os, em frase extraordinária, "os novos insurgentes".

Quase todos os dias vejo no FB, em páginas individuais ou colectivas de moçambicanos, notícias e filmes sobre as atrocidades que vão decorrendo no Cabo Delgado. E muitas outras me chegam via Whatsapp. Na última semana chegaram-me, por esta via, filmes de inúmeros cadáveres dos chamados "insurgentes". A lógica, explícita nas palavras de um soldado audível num desses filmes, é mostrar aos revoltosos, e à população, que eles são abatíveis, que nem as notícias das suas baixas são mera propaganda estatal nem eles são invulneráveis - e mesmo que não tenha ainda ouvido falar da crença entre estes insurgentes da sua invulnerabilidade convém lembrar que essa é uma hipótese, dado que a crença na imortalidade mágica dos combatentes grassou no norte de Moçambique nos últimos anos da guerra civil, há trinta anos. 

Mais uma vez partilhei - via Whatsapp - com alguns amigos que têm ligações a Moçambique (ou nacionais ou portugueses que lá viveram) as notícias que recebera explicitando que não reenviava os filmes por serem excessivos, macabros. Dois desses amigos, mais vividos, pediram-mos e assim lhos reenviei. A resposta de ambos foi imediata e coincidente: "não os partilharei", tamanha a comoção que haviam tido. Mas, de facto, logo encontrei essas imagens no facebook na página Pinnacle News, animada por um conjunto de jornalistas e amadores moçambicanos, vários dos quais estão nas províncias do norte do país.

Em 29 de Janeiro de 2018 eu, já cansado de notícias sobre a eclosão deste movimento, aqui publiquei este postal Guerrilha Islâmica em Moçambique - reproduzindo um filme entretanto desaparecido que continha declarações pró-sharia de guerrilheiros encapuçados. Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte. E muito fui resmungando desde a década passada, em privado pois isto é matéria sobre a qual não se especula em espaço público, sobre as possibilidades da eclosão deste tipo de conflito. Mas não tinha, nem tenho, quaisquer fontes privilegiadas. Ou seja, não era preciso ser nem druida nem agente de informações para prever coisas destas, nem o é para acompanhar, desde há dois anos e meio, este processo.

Ontem, numa magnífica noite de verão, jantei com amigos aqui ao ar livre, no retiro bucólico em que venho envelhecendo. No final debatia-se, com veemência, as questões da arte e da (im)pertinência filosófica da chamada "arte contemporânea". Nesse entretanto recebi mais uma mensagem via Whatsapp, enviada por outro amigo de Maputo: uma ligação para um filme colocado naquela página de FB. Para não incomodar os convivas vi-o silencioso. Durante 2 minutos e 53 segundos um (presumível) guerrilheiro é linchado por um grupo de soldados. Aparentemente morre. Eu levantei-me fui ao interior da casa, servi-me de um uísque, liguei o som do telemóvel, comprovei que se tratava de  Moçambique, pelo português falado e seu sotaque. Bebi um seco. Servi-me de um outro, com gelo. E regressei à douta conversa. Ainda que pouco loquaz. Mesmo muito pouco.

Serei eu assim tão igual à "jornalista" que há um mês chorava pela morte de um cidadão norte-americano, esganado por um polícia? Tão igual aos seus colegas que não enchem primeiras páginas e aberturas televisivas com este assunto? Tão igual às turbas de manifestantes que então saíram às ruas clamando que as "vidas dos negros contam"? Tão igual aos pobres opinadores que "contextualizam" este silêncio - que é mediático, político e, acima de tudo, cultural - porque não há imagens das violências enquanto o cidadão Floyd foi assassinado diante de um telemóvel?

Pois se a profusão de notícias, o relevo que lhes é dado, e as "indignações" que causam, dependem das imagens dos morticínios então entenda-se bem: sobre o Cabo Delgado há imensas imagens, imensos filmes, e há mortes em directo. Tudo disponível, em canal aberto. A jornalista "afrodescendente" não se comove com estas imagens? Nem os seus colegas? Nem os indignistas burguesotes? Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"? Para que serve a "relação privilegiada", a extraordinária diplomacia portuguesa - afadigada na preparação da "presidência"? Onde está a tão propalada "costela" moçambicana do PR? O legado anticolonialista oriundo de Moçambique patentado pelo nosso PM? E, já agora, para que serve a CPLP? Pois o silêncio, tonitruante, não é apenas dos "indignistas" profissionais ou dos jornalistas, preguiçando nas redacções. É também das elites políticas. Essas que andam há décadas a papaguearem "lusofonices".

As causas do conflito no Cabo Delgado serão várias e foram sendo caladas. Há três meses ainda se podia ler intelectuais moçambicanos dizerem que se tudo se resumia a actos de "mercenários ocidentais desempregados" ou dos "interesses americanos". O mesmo tipo de intelectuais que insultavam o meu colega moçambicano que, primeiro do que todos, ainda em 2017, aludiu a tensões étnicas na região. Diziam-mo a mim, não o esqueço, para minha contida repulsa. 

Causas várias haverá, internas, externas, no âmbito da consabida "maldição dos recursos naturais". E essa pluralidade das causas impede aquilo que a pobre jornalista chorona e os seus similares gostam: apontar o dedo aos americanos ("yankees", dizia-se), ou, vá lá, aos "ocidentais", e resolver-se o assunto, construir-se a narrativa. Que sirva de catapulta para o protesto "as usual". Não veste bem, esta narrativa? Então nem se enfatizam as notícias nem se protesta. Pois para quê? São só pretos, e coisas entre eles ...

E aqui sim, vejo o tal "racismo estrutural".

Serviço público televisivo

por jpt, em 14.06.20

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Trump agradece eficácia de SS a protegê-lo contra manifestantes (RTPNotícias, 12 de Junho)

Esta é a "notícia" que a empresa de serviço público televisivo publicou, acompanhada desta mesma imagem. O que se pode dizer é curto. Pedir o despedimento de alguém é sempre duro. Mas neste caso é inultrapassável. O Estado não pode ter no seu serviço noticioso alguém que tem este entendimento do jornalismo. Não é um caso de incompetência nem um erro. É a vigência, descarada, da concepção de que ser jornalista é manipular factos e opiniões, e sem qualquer limite. É óbvio que quem redigiu esta aldrabice tem que ser despedido. Tal como é que o responsável deste serviço público noticioso (RTPNotícias) que não só deixou passar esta atoarda como não fez por a apagar nas 40 horas subsequentes também tem que ser afastado. Não apenas dessas funções de chefia mas da empresa pública. Entenda-se  bem: despedido. E nós, cidadãos, temos de ser informados pela administração desta empresa pública não só sobre quem são estes dois desonestos profissionais como do momento exacto da sua saída de funções remuneradas por uma empresa estatal.

E isto não tem nada a ver com Trump. Como é evidente. Tem a ver com a desfaçatez destes profissionais. Aldrabões.

 

Onde se lê: BE propõe novo imposto para financiar fundo de apoio à imprensa, deve ler-se:

Bem aventurados os mansos, pois serão financiados.

O Expresso

por jpt, em 04.04.20

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Quem me conhece (ou blogo-conhece) saberá que eu abomino Marcelo Rebelo de Sousa mais do que as brigadas do Al Shabaab odeiam as barracas de bifanas e coiratos no Campo Grande em dia de jogo do Sporting. E que quanto a Costa e seus sequazes tenho frémitos de os enviar para a arena do José de Alvalade (o nome é esse mesmo) rodeados de leões.

Dito isto fica a questão: será que nem os idólatras notam o desvario de uma capa destas? Que não é preciso ser tão rasteiro?

Por outro lado é um aviso: vêm aí tempos ainda mais difíceis para a imprensa. Há que garantir que Armando Vara se disponibiliza a deixar as grandes empresas pagarem publicidade. Não é nada mais do que isso.

Jornais, jornalistas e relações fiduciárias

por Diogo Noivo, em 01.04.20

A imprensa e os jornalistas dependem da relação fiduciária que estabelecem com leitores, ouvintes e espectadores. Uma vez quebrado o laço de confiança, não há injecções de capital nem ajudas de Estado que os salvem.

Vem isto a propósito de três episódios ocorridos nas últimas semanas. Primeiro, a SIC emitiu uma peça sobre tumultos em Londres motivados pelo coronavírus. Ora esses motins nunca aconteceram e as imagens que ilustravam a ‘notícia’ eram de um protesto ocorrido em 2011. Depois, vários órgãos de comunicação social publicaram um documento falso que se fazia passar por decreto do governo com as medidas para o estado de emergência. Hoje, parte da imprensa voltou a cair no truque do documento oficial falso, desta feita sobre o alegado cancelamento do projecto do aeroporto no Montijo.

O caso do motim em Londres espelha inépcia grosseira e falta de profissionalismo no seu máximo esplendor. Já a publicação dos documentos falsificados revela pelo menos falta de atenção, uma vez que era fácil suspeitar da sua veracidade – recebi o suposto decreto do estado de emergência através das redes sociais e mal terminei de ler a primeira página já estava a franzir o sobrolho.

Pede-se mais, sobretudo num momento de crise e ansiedade. Todos erramos, evidentemente, mas este tipo de erros não são justificáveis. Convidam-nos a assinar jornais, a ajudar a imprensa, mas não se garante a lisura e o rigor na produção de conteúdos. Suspeito que, a continuar por este caminho, a decadência será inevitável, com elevado prejuízo para a qualidade da democracia e para o direito (e necessidade imperiosa) de estar informado.

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(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

O Público e o CDS

por jpt, em 06.02.20

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Foi no twitter (onde quase nunca vou), no mural de um prezado co-bloguista [do És a Nossa Fé], que encontro isto. Um "cartoon" de Cristina Vieira, publicado no Público no passado fim-de-semana. A ilustradora tem todo o direito de o fazer. O critério editorial do jornal é que tem muito que se lhe diga. OK, é o "Público", pejado de extremo-esquerdistas, mas não tem direcção?

 

80 anos de Sampaio no Público

por jpt, em 16.09.19

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O antigo presidente Jorge Sampaio cumpre 80 anos e o jornal "Público" dedicou-lhe bastante espaço. Grande entrevista, artigo encomiástico de um seu colaborador, inúmeros depoimentos de personalidades conhecidas. Eu simpatizo com Sampaio: esteve duas vezes em Moçambique, com elegância e competência. É um grande sportinguista (condição não suficiente mas que me impulsiona o apreço). Mas não é sobre ele que boto. É sobre o jornal. E sobre quem lá trabalha.

No café acabo de folhear o "Público". Leio em vigorosa diagonal as várias páginas sobre o antigo presidente da república, antigo presidente da câmara de Lisboa e antigo secretário-geral do PS. Não há uma única alusão ao momento crucial da sua presidência. Quando - no exercício dos seus legítimos poderes - demitiu um governo maioritário e abriu caminho à ascensão ao poder do seu sucessor no PS, José Sócrates. Não há uma única alusão a isso, repito. Nem uma única reflexão sobre o processo subsequente, de degenerescência do poder político. E da degenerescência do próprio PS, e da esmagadora maioria dos seus apoiantes (alguns dos quais são meus amigos reais e devem ler isto, sabendo, claro, do quanto os desprezo apesar da entristecida amizade que ainda lhes dedico), reduzidos a apoiantes nada envergonhados da roubalheira. A qual continua, neste incessante esforço de esconder e fazer esquecer a cumplicidade de todo o aparelho socialista e dos seus "companheiros de estrada" (e dos prostitutos a la Jugular) com a criminalização do Estado.

E o que temos agora, nas vésperas de mais umas eleições, controlado que já está o aparelho judicial, calados que estão os pequenos núcleos contestatários ou meramente analíticos na imprensa estatal (vejam o que aconteceu ao "Sexta às 9" na RTP, suspenso no período eleitoral pela nova direcção de informação, ali colocada - exactamente como Sócrates fazia com a imprensa toda - para controlar os danos da ladroagem do aparelho socialista)? O que temos agora? O jornal "Público" a fazer o frete ao PS, a produzir "amnésia organizada", a reforçá-la.

A propósito de Sampaio tudo o que haveria para saber sobre o "Público" e seus profissionais, e colaboradores cúmplices, está dito.

 

Ser saloio

por Diogo Noivo, em 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

Bruno de Carvalho

por jpt, em 06.07.19

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Ainda que apoiado pelo "institucional" jornal Expresso (a razão pela qual o jornal preferido da "classe média" Bloco Central político-económico apoia este homem é algo difícil de entender, se não se tiver uma interpretação economicista) Bruno de Carvalho acaba de ser definitivamente expulso do meu clube, na Assembleia-Geral do Sporting hoje decorrida. No último ano houve momentos em que o julguei personagem dramática. Mas afinal nem isso, tamanha a rábula que vem interpretando. Ainda assim esta perversa personagem - que a quase todos nós sportinguistas seduziu e exaltou -. ainda consegue, após todos estes desmandos e desvarios, receber apoio militante, e mesmo exasperado, de 30% dos associados.

É uma legião, sem calções, de gente disponível para quem a saiba arrebanhar. Esperem pouco, que alguém aparecerá. E não terá que ser do mundo da "bola". Nem sobre coisas da "bola".

 

Expresso por encomenda

por jpt, em 29.06.19

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Aqui longe, hoje, sábado à tarde, vejo as notícias portuguesas. Ecos de uma entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso. "Outra vez?", resmungo, "ainda?", "a que propósito?", indago. O homem vitimiza-se, como sempre: que foi indexado como terrorista, que foi prejudicado e traído por todos os que o rodearam, que não tem emprego, que muito sofreu com uma doença da filha, algo que tudo explica da sua deriva aquando presidente do Sporting. E ameaça, voltar a candidatar-se e ser eleito, processar o Estado, etc.

"Porquê?" repito, não haverá mais assuntos para o Expresso explorar, em Portugal e no mundo, do que voltar à "vaca-fria", à enésima entrevista com o ex-presidente do Sporting, que encheu horas de ecrã e rios de papel há um ano? 

Sigo na procura das notícias. Passado um pouco vejo no És a Nossa Fé, que o Pedro Correia coordena, que hoje há uma assembleia geral do Sporting, para aprovação do orçamento, para reiterar confiança na actual direcção do clube. E, no mesmo dia, o "institucional" Expresso faz uma entrevista "higiénica", auto-vitimizadora, ao antigo presidente (e que personagem) do Sporting. Assim como se não fosse nada ... Não ao presidente do clube, não aos seus oponentes eleitorais (Benedito, por exemplo, candidato que perdeu por muito pouco), não a membros da direcção - o que poderia ser entendido como inserido no debate interno ao clube. Mas ao antigo presidente, com o historial todo, com um processo inédito de deposição e de expulsão do clube.

Isto é uma encomenda. Paga. É óbvio. 

É o Expresso. O que resta? Ou o que sempre foi. Pouco importa. É o Expresso.

A morte do jornalismo desportivo

por jpt, em 15.06.19

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Escolho o "Record" porque é o jornal desportivo que mais frequento. Pois este jornal não monopoliza a deriva - ainda que seja o que mais nela se embrenha, comparativamente ao "O Jogo" ou mesmo ao "A Bola". 

Escrevo às 17.34 (daqui) de hoje. O sítio do "Record" apresenta-se neste estado (tudo notícias com fotos chamativas): 2ª notícia: as vestes do casamento do capitão do Real Madrid, Sérgio Ramos; 4ª notícia: declarações do pai da mulher que acusou Neymar de violação; 5ª notícia: férias do jogador do Benfica Ruben Dias, foto da namorada anunciando que ela "mostra tudo" (um tópico nos títulos do jornal); 6ª notícia: o estado de espírito de uma adepta fervorosa (e com generoso colo, como antes se dizia, bem iconografado) dos Golden State Warriors, clube de basquetebol americano; 7ª notícia: um jogador da Juventus mostrou uma mulher na sua cama; 8ª notícia: as regras para o vestuário e comportamento no casamento do capitão do Real Madrid; 10ª notícia: sobre a divulgação de imagens da mulher que acusa Neymar de violação; 11ª notícia: a reacção da namorada de Ruben Dias a uma partida que ele lhe fez; 16ª notícia: as imagens do casamento de Sérgio Oliveira, jogador do F.C. Porto; 19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana; 20ª notícia: a lista de convidados do casamento do capitão do Real Madrid; 21ª notícia: o advogado da mulher que acusa Neymar de a ter violado; 22ª notícia: uma rapariga muito magra mas com par de mamas bem constituído, dita Júlia Palha, num barco de recreio em bikini; 23ª notícia: fotogaleria dos convidados ao casamento do capitão do Real Madrid; 24ª notícia: uma rapariga voluptuosa em lingerie provocatória sob o título "Bastou alguém chamar-lhe Barbie e o nome pegou"; 25ª notícia: bis, fotogaleria em que a namorada do benfiquista Ruben Dias "mostra tudo"; 27ª notícia: namorada do futebolista Cédric, voluptuosa na piscina, mostra como foi a sua despedida de solteiro; 28ª notícia: as imagens do casamento de Simeone, treinador do Atlético de Madrid; 29ª notícia: fotos das férias dos craques, anunciada com um tipo debruçado sobre uma tipa, em trajes menores; ...

Valerá a pena a continuar? É necessário armar um texto com laivos de semiólogo? Ou basta este rol para provar que aquilo morreu? E fede? (Ainda que as garotas que costumam aparecer tenham, sempre, fartas mamas - lembro que não é ordinarice, é assim que se diz correctamente - e curvas apreciáveis).

 

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(Postal para o És a Nossa Fé)

A série de capas históricas do "A Bola" que o Pedro Correia aqui vem mostrando é bastante denotativa do clubismo exarcebado que aquela empresa imprimiu ao seu negócio. É seu direito, estratégia em busca de lucros. Mas de há muito tempo  apenas uma falsidade enviesada, se pensada em termos de jornalismo.

Mas não é apenas uma coisa histórica. Um dos exemplos desse seguidismo ao Benfica e, acima de tudo, à sua direcção actual é a sucessão de manchetes sobre o jogador Jovic, contínua na página digital do jornal.

O processo deste jogador é perfeitamente normal: decerto que o Benfica o contratou por lhe reconhecer potencialidades. Chegado ao plantel, o jovem Jovic não teve espaço para se afirmar, face à concorrência que encontrou: Jonas, que é um jogador de grande classe; Seferovic, que não sendo um jogador extraordinário é muito competente (nos primeiros jogos que fez no Benfica, antes de se apagar durante a época passada, fartei-me de resmungar: "raisparta que os tipos acertaram ..."); e Mitroglou, um jogador pouco interessante mas que funcional, em particular num campeonato como o português, uma espécie daquele "pinheiro" que há anos um treinador sportinguista pretendia (imagem que sempre me faz lembrar um Peter Houtman que nunca me encantou, nem me deixa saudades). Sendo este Mitroglou um "pinheiro" até mais móvel, mais competente, concedo. Face a essa situação o Benfica emprestou o jogador, para que ele evoluísse. A um bom clube, de um excelente campeonato [o alemão Eintracht Frankfurt], e que - o que é, nestas coisas, o fundamental - realmente o pretendia, enquadrando-o e dando-lhe tempo de jogo. E visibilidade. Assim muito o valorizando. Crítica minha? Nem uma gota. 

Ainda assim é também possível argumentar que se tivesse o Benfica no início da época que ora finda uma outra perspectiva de futuro, e particularmente se tivesse um técnico mais afoito na opção por jogadores jovens, muito provavelmente Jovic teria feito uma época ainda mais sonante - a vida dos avançados dos 3 grandes é mais fácil em Portugal do que no campeonato alemão, isso é indiscutível. Digo-o como mera hipótese. Pois se calhar o peso de Jonas, a imposição até algo exuberante de Seferovic, e a explosão de João Félix (que é um belíssimo jogador, mesmo que se possa dizer que o habitual empolamento dos jovens do Benfica o poderá sobrevalorizar um pouco) poderiam ter obstado a uma afirmação de Jovic. Nunca se saberá, é mera especulação. Fica a minha conclusão: nada da condução da carreira de Jovic no plantel benfiquista transpira incompetência. Mas também poderia ter sido diferente. Com toda a franqueza - e até porque gosto muito do treinador Lage - julgo que Jovic teria sido uma grande revelação no Benfica. 

Mas tudo isto que digo é apenas para sublinhar que não estou a criticar ou a cutucar a secção de futebol sénior do Benfica. Não é essa a questão. Estou apenas a falar do "A Bola". Jovic vai ser transferido para o Real Madrid, por uma enorme quantia. O Benfica vai lucrar com essa transferência. Mas, de facto, o não ter apostado no jogador conduziu a que a parte fundamental do lucro será para o clube alemão. O Benfica perderá assim algumas dezenas de milhões de euros. Ou melhor dizendo, deixará de ganhar algumas dezenas de milhões de euros. 

Repito o que disse, não estou a criticar o Benfica. Nem a "gozar". Foi um processo normal. O que me é interessante é a sucessão de notícias do "A Bola". Sistematicamente informando os seus leitores - na maioria benfiquistas - que haverá "Encaixe significativo para os cofres da Luz com a transferência de Jovic", descurando uma hipótese de análise crítica perfeitamente sustentável. Sempre enfatizando que o clube beneficiará. Mas nunca aflorando o evidente desperdício económico que irá acontecer. Chama-se a isto moldar opiniões. Um verdadeiro condicionamento, em particular da massa adepta daquele clube. Há quem lhe chame "jornalismo". Mas não é. "A Bola" é, de facto, e já há muito tempo, um departamento de comunicação de uma empresa.

[E é assim, como jornal desportivo, um verdadeiro exemplo dos chamados "jornais de referência". Ou da prevalência na imprensa dos "fretes ao poder".]

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O meu amigo Luís Alvarães acaba de partilhar estas declarações de Vitorino Nemésio, proferidas na época em que se preparava a sua nomeação para director de O Século, algo que acabou por abortar, talvez também por causa da entrevista em que as proferiu.

 

Hoje impera a informação. Informação moderna, caminhando mesmo no sentido da informática, ciência que, a partir da termodinâmica, abarcou o próprio boato como objecto. É uma informação quantificada.” (Vitorino Nemésio, entrevista à revista Flama, 1973).

 

O Luís, para além da pertinência da partilha - será interessante compará-la com as opiniões que defendem que Bolsonaro, Trump et al negam o preceito "Não há nada novo sob o Sol" - teve ainda a gentileza de me enviar a digitalização da entrevista. Quem tiver curiosidade em lê-la encontra-a aqui - preferi não a deixar neste blog pois as imagens ocupam algum espaço de ecrã e não quero aborrecer algum passante mais apressado.

Dentinho

por jpt, em 12.10.18

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de "posição de Estado" dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente - lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a "má impressão" que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.
 
Na altura havia muitas visitas políticas portuguesas, em 97 o PR Sampaio e em 98 o PM Guterres com enormes delegações (150-170 pessoas), mas também um constante corropio de ministros, secretários de estado e afins. Vigorava em Lisboa a noção de que "estar no poder" implicava visitar as ex-colónias, coisa também de uma CPLP que começara. O que causava um carrossel de visitas vácuas, impreparadas, de teor algo turístico por vezes, e desprovidas de "sentido de Estado". E o Paulo dava-lhes a atenção que o seu apurado sentido profissional comandava - sendo também que muito do seu trabalho não passava na RTP por critérios da sede, dado o manifesto desinteresse de muitas dessas deslocações. Assim, dado o carácter pouco servil do seu trabalho, muitas vezes o ouvi contestar, "que não era o homem que ali devia estar", diziam ministros e assessores, desgostosos com a "cobertura televisiva" que consideravam obrigatória para a sua micro-pompa de governantes. Pouco lhes importava ser ele, de facto, competente, informado, criativo, analítico. E empenhado. Importava-lhes apenas o de não estar ele de chapéu na mão diante de qualquer chefe de gabinete do sub-secretário de estado ou de um assessor de sua excelência o director-geral. Na responsabilidade de ser correspondente do serviço público, e sem a ligeireza de servir o poder político do dia ...
 
Depois vieram as complexas eleições de 1999, culminadas com semanas de contagem de votos e de agitação política. A situação era surpreendente, explosiva mesmo, pois não eram esperados resultados tão elevados por parte da oposição nem tamanha demora na contagem. Nesse entretanto o Renamo fez uma conferência de imprensa e proclamou a vitória. Na altura só havia duas estações televisivas a transmitir no país, a muito estatizada TVM e a RTP(África). E foi esta que disseminou essa proclamação, o que teve um impacto estrondoso. O Paulo apareceu nessa reportagem com um óbvio nervoso, perceptivel para quem o conhecesse pois traduzido num ricto similar ao sorriso. Foi o quanto baste, o divulgar da versão renamista do processo eleitoral, praticamente inacessível na imprensa estatal local, e o aparente sorriso tornaram-no pessoa malquista. Sucederam-se as ameaças de morte, uma das quais estando eu sentado com ele numa esplanada. O Paulo aguentou, nós amigos dizendo para que se acautelasse que nem tudo é da boca para fora - como o comprovou o assassinato de Carlos Cardoso logo em 2000 e nos anos futuros vários atentados a intervenientes televisivos. Ao fim de algum tempo de contínuas ameaças de morte, e até porque ali vivendo com a mulher e as duas filhas, ele regressou a Portugal. Fui, com vários amigos, levá-lo ao aeroporto. Nessa sua despedida do país ele ia vestido, com tão polissémica ironia, com uma t-shirt do Frelimo. Também a simbolizar o quão absurdo é a demonização do jornalista quando autónomo. Digno.
 
Depois passaram anos, a vida. Eu fiquei em Moçambique, ele por Portugal e Timor (de onde lembro uma magnífica reportagem, a tornar épica a constituição do arquivo nacional por Mattoso). E fui-lhe vendo outros bons trabalhos, profundos, de verdadeiro grande jornalista, daqueles que nos faziam dizer à nossa pequenina filha, meio pirosos, "Carolina anda cá ver, este é amigo dos pais". E foi para correspondente da RTP em Paris, onde soube que estava bem e acreditei, pois deve ser um posto intenso e Paris deve ser uma boa cidade para quem gostar de viver na Europa. E comecei a lê-lo no FB, nos tempos de Passos Coelho e Portas. No seu mural pessoal o Paulo zurzia a política portuguesa e, muito frequentemente, o governo: em tempos de crise, naquele troikismo, motivos nunca faltavam para bater. Tanto o li que um dia lhe enviei uma mensagem "estás farto de Paris?" e ele que nada disso, estava a adorar, a família também, a mulher com emprego, filharada a crescer. "Ouve lá", ripostei-lhe, "continuas a bater assim e eles metem-te como correspondente no Corvo ou num sítio ainda mais ermo ...", que é assim que o poder funciona, e nós sabemos bem disso. E rimos, cada um diante do seu teclado. E ele continuou a criticar, lá na sua página pessoal, "sem dó nem piedade".
 
Passado algum tempo o governo de Passos Coelho actuou mesmo face ao Paulo Dentinho. Eleições à vista retirou-o de Paris, onde escrevia curtas críticas no FB para os seus 3 ou 4 mil "amigos", e meteu-o ... como director de informação da RTP.
 
Passaram anos. Eu pouco vejo tv e nada RTP. Mas nunca li nestas redes sociais grandes críticas à partidarização da informação da RTP (essa que era uma prática constante da casa), tanto a favor do anterior governo como deste. Agora o Paulo é afastado. Dizem que porque escreveu um texto na sua página pessoal com palavrões e um futebolista não gostou. E, aduzem agora para ajudar à justificação, porque houve má cobertura do fogo em Sintra - não sei se estão a captar a indecência, o conselho de administração, subordinado a este governo, afasta alguém com o argumento de que houve má coordenação na cobertura jornalística de um fogo: e isto com a notória descoordenação deste governo nos combates ao fogos . Isto é de uma impudicícia inaudita.
 
E é, acima de tudo, o começo do ciclo eleitoral. Evidenciando também uma enorme diferença das práticas políticas desta geringonça face ao passado recente. Aqueles que assistem à RTP poderão comprovar. Quanto ao Paulo Dentinho presumo que se tenha despedido do posto vestindo a sua t-shirt do Frelimo, nesta polissémica ironia, necessária que é para suportar esta gente.

Expressamente

por Pedro Correia, em 29.09.18

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Já tínhamos o saco de plástico "inventado" pelo arquitecto Saraiva para resguardar o conteúdo do semanário do olhar alheio - e forçar assim os leitores a comprarem aquilo que ignoram, tornando opaco o jornalismo, algo que por definição deve ser transparente.

Já tínhamos as falsas primeiras páginas com conteúdos publicitários, anunciando uma conhecida marca ou propagandeando uma grande empresa.

Hoje passámos a ter uma primeira página inteirinha com promoção ("grátis", dizem eles) de uns livrinhos lançados pelo próprio jornal. Coisa pífia - sem escala, sem dimensão, sem classe.

Abdicam das notícias para isto.

Quando se fala da crise do jornalismo português, há que apontar responsáveis. A crise não é filha de pais incógnitos. Os responsáveis são gente que faz coisas como esta, mergulhando no ridículo aquele que ainda é o melhor jornal português.

Boa sorte

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.08.18

"O dever de escrutinar o poder político, seja o Governo ou a oposição, dá cada vez mais lugar à produção de anátemas ou de certezas sectárias que menosprezam a exigência, a defesa do interesse público ou a factualidade verificada. A crescente propensão, muito inflacionada pelas redes sociais, de se analisar o que se publica a partir de trincheiras ideológicas, partidárias ou clubísticas estimula o vazio onde germina o populismo, a xenofobia e os radicalismos. A pós-verdade e/ou a verdade pessoal, relativa e insusceptível de questionamento, ganharam terreno. A crise da imprensa é em grande medida um espelho da crise do espaço público – mas, reconheçamo-lo, é também, e com excessiva frequência, uma das suas causas". – Os compromissos da Direcção Editorial

 

O respeito que tenho pelo jornalismo feito por profissionais íntegros e de mão cheia, por uma imprensa livre, descomprometida com o poder e os seus mainatos, e o gosto que tenho em ler um jornal bem feito, bem escrito, de preferência em formato papel, e ainda a cheirar a tintas, não me permitem que deixe passar este momento sem lhes dirigir uma palavra. Curta, necessariamente, porque só o correr dos dias, dos meses e dos anos nos mostrará se o seu compromisso foi respeitado.

Estou convencido de que não deixarão ficar mal quem como eles ainda acredita.

Oxalá tenham sucesso e consigam levar avante o seu projecto. Por isso desejo a todos os que irão fazer o jornal a partir de agora, mas em especial a Manuel Carvalho, Amílcar Correia, Ana Sá Lopes, David Pontes e Tiago Luz Pedro, as maiores felicidades.

Portugal precisa mais do que nunca de um jornal sério e credível. Nós cá estaremos para escrutinar o seu trabalho, criticando e aplaudindo sempre que o mereçam.

Bom trabalho. 

 

P.S. E se não for pedir muito, espero que acompanhem a situação que se vive em Macau com a atenção, a exigência e o rigor que a situação actualmente vivida exige. 

Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

Men for all seasons

por Diogo Noivo, em 02.02.17

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 Um ano e tal depois:

 

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 Via O Insurgente

As sumidades que pastam nos verdes campos do komentariado português são dadas a uma desfaçatez lendária. Daniel Oliveira, como bem nota João Cortez n’O Insurgente, é um caso flagrante.

Mas o seu a seu dono: em matéria de mortais encarpados à retaguarda, ninguém bate Nuno Saraiva, antigo jornalista do Diário de Notícias. Foi de A a B em tempo recorde e sem que o víssemos a percorrer o caminho que separa os dois pontos. Parece que se deixou de jornalismo – o que é um desafio ontológico notável, já que não é fácil abandonar o que nunca se fez – e se dedicou à bola. Parafraseando Gore Vidal, foi uma boa mudança de carreira.

Até à náusea (parte 2)

por Pedro Correia, em 22.10.16

 

TVI:

GNR monta caça ao homem na região de Trás-os-Montes

 

Correio da Manhã:

Caça ao homem em Vila Real continua

 

RTP:

Caça ao homem é intensa em Aguiar da Beira

 

O Jogo:

As imagens da "caça ao homem" em Arouca

 

i:

Caça ao homem em São Pedro do Sul depois de tiroteio em Aguiar da Beira

 

Viseu Mais:

GNR faz caça ao homem em S. Pedro do Sul

 

Rádio Cruzeiro:

Caça ao homem na Serra da Arada

 

Jornal de Leiria:

Leiria está a ajudar caça ao homem

 

Jornal de Notícias:

As imagens de uma noite de caça ao homem

 

Rádio Renascença:

GNR mantém forte dispositivo na caça ao homem

 

SIC:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Expresso:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Porto Canal:

Entidades queixam-se da falta de coordenação entre polícias na caça ao homem

 

Diário de Notícias:

Falta de coordenação entre polícias na caça ao homem preocupa governo

 

Espalha Factos:

Caça ao homem leva CMTV a máximo do ano

 

TSF:

Caça ao homem continua

 


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