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Delito de Opinião

O 25 de Novembro nunca existiu!

jpt, 25.11.25

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Ao longo dos tempos vários amigos e conhecidos meus, para além de ligações digitais, me afirmaram ser o "Público" um jornal de "direita" - principalmente quando eu resmungo com as africanices e afrodescendices que vão surgindo naquele jornal. É certo que não se lhe referem com o acinte que usam quando falam de outros jornais - como o "Observador" ou o "Nascer do Sol" -, os quais costumam resumir a "lixo informático" ou coisas similares. Mas, ainda assim, quando procuro contestar tal viés reaccionário no jornal da SONAE ripostam, com violentas invectivas aos múltiplos e arreigados direitistas que ali escrevem - e em particular com imprecações a António Barreto e, acima de tudo, João Miguel Tavares. Em suma, para os eleitores do centro-esquerda e da esquerda activista o "Público" segue enfeudado ao PSD e circundantes, nisso um órgão da perniciosa direita.

E, decerto que para comprovar isso, hoje o jornal dá a primeira página à entrevista a Duran Clemente, cujas longas declarações obedecem ao mote "O 25 de Novembro nunca existiu!".

Apenas me ocorre uma expressão, da qual nunca percebi a origem: "Esta não lembra ao careca".

Ultracatólico

Pedro Correia, 19.11.25

 

O jornal digital Observador, transcrevendo uma notícia da Lusa sobre a primeira volta da eleição presidencial no Chile, chama «advogado ultracatólico» ao candidato conservador José Antonio Kast, que enfrentará no segundo e decisivo escrutínio, em Dezembro, a comunista Jeanette Jara - por sua vez ali identificada como «progressista».

Interrogo-me o que será um «ultracatólico».

O Papa?

O Estado do Vaticano?

O putativo líder bloquista José Manuel Pureza, apresentado há dias no Público como «católico-militante», será igualmente ultra? 

Interrogo-me também se a Lusa e o Observador, por coerência, usarão as designações "ultra-islâmico" ou "ultra-muçulmano". Havendo critério uniforme, dir-se-ia que sim. Mas fiz a pesquisa e recebi esta resposta: «nenhum resultado».

Só haverá "ultras" entre os católicos? Talvez um futuro texto do Observador me esclareça.

Irei esperar. Sentado.

O estado da imprensa

jpt, 28.07.25

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Vampire Weekend é um agrupamento musical - do qual nunca ouvira falar. Virão a Portugal actuar - como noticia a SIC Notícias. Acontece que a notícia de que aqui deixo ligação teve uma formulação anterior publicada - da qual deixo imagem. Demonstrando que é uma notícia escrita de modo automático (o tal GPT). 

É fácil apontar a um qualquer "estagiário" - versão "pós-moderna" do bode expiatório. Mas é evidente que não é esse o problema. A imprensa nacional não age nem, de facto, reage diante das mudanças actuais. Tecnológicas e outras. Faz uma mera navegação de cabotagem. Soçobra.

(Criticar por criticar?, dizer mal por dizer mal? Não. Aludo a uma "notícia" sobre um grupo pop-rock. Atente-se como a indústria musical, que foi a primeira área comunicacional a sofrer o embate do furacão tecnológico digital, se conseguiu reconfigurar. E isso não foi feito reduzindo-se a estas pobres artimanhas...)

A imprensa portuguesa e Venâncio Mondlane em Lisboa

jpt, 15.07.25

Agostinho Costa e o jornalismo informativo

jpt, 29.06.25

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Ontem mais uma vez o Pedro Correia se insurgiu diante das atoardas substantivas e das atitudes abrasivas do comentador televisivo Agostinho Costa. Ecoar diferentes opiniões, oriundos de diversos pontos de (tomada de) vista, é um valor fundamental na imprensa. E a questão da guerra na Ucrânia - crucial na nossa sociedade - não deve ser excepção. Mas o desconforto face a este indivíduo ultrapassa a sua aparente bizarria. Ou seja, levanta várias questões:

1. Lateralmente: sobre a questão ucraniana noto um paradoxo - de facto é um falso paradoxo, mero episódio das artimanhas da retóricas avessas à democracia liberal. Pois quando estalou essa guerra houve decisões europeias para obstar à disseminação da propaganda russa, promovida pela divulgação da sua imprensa e de inúmeros "sítios" digitais, sitos na Rússia ou alhures. O que colocou problemas quanto aos princípios relativos à liberdade de expressão e de acesso à informação.

Lembrando-nos o que é pouco dito: se os "princípios" são (devem ser) sacrossantos, são-no na medida em que são também "maleáveis". Pois a sua centralidade depende, exactamente, dessa relativa maleabilidade e de como esta é controlada de forma institucionalizada / legitimada. Ilustro de modo superficial: a aparente oposição entre o "não matarás" e a defesa da "guerra justa", ou entre a inadmissibilidade de "justiça por mãos próprias" e o direito à "legítima defesa". Ou, vá lá, entre o "não cobiçarás a mulher do próximo" e o direito ao divórcio. Matérias que filósofos, juristas e teólogos esmiuçaram...

Ora realço que muitos, sitos nos diferentes nichos de extracção comunista - cujo viés antidemocrático se consubstanciou numa russofilia até anacrónica -, contestaram essa "censura" (por exemplo aqui, num abaixo-assinado que congregou dezenas de intelectuais portugueses) aos dizeres russos e russófilos. Mas é desses mesmos sectores ideológicos que entretanto surgem apelos para um controlo das plataformas de divulgação - as "redes sociais" - evitando opiniões (e "versões") de "extrema-direita".

É notório que estas opiniões são opções por cardápio  (a la carte). E demonstram que os núcleos avessos às democracias liberais e às suas instâncias multilaterais querem esconder o evidente. Do Atlântico aos Urais nenhuma "extrema-direita" é mais poderosa do que a instalada no poder de Moscovo: nacionalismo agressivo e dotado de fortíssimo argumento militar, discriminação desvalorizadora de "minorias" nacionais/linguísticas ("étnicas", diz-se popularmente), substrato clerical, repressão política, censura de imprensa, limitação ao direito de associação, execução alargada e aprisionamento de opositores políticos, oligarquia cleptocrática, conúbio com as piores ditaduras internacionais (veja-se a aliança factual com a monarquia norte-coreana), apoio constante a núcleos políticos congéneres no estrangeiro. E, relevante pois sonante na actual agenda política da "esquerda identitarista", repressão dos homossexuais - note-se que se na Hungria o governo de Orban, tão dito de extrema-direita, pode ser agora afrontado por uma enorme manifestação defensora dos direitos dos homossexuais, isso é impensável sob o regime russo.

Enfim, mais de três anos depois do início da guerra na Ucrânia, a adesão à ideologia fascista, sob embrulho russófilo, continua a ser aceite. E propagandeada. Em Portugal é-o fundamentalmente através da televisão. Pois não se trata de "redes sociais" mas sim de estações televisivas que emitem sob alvará estatal e pagam para que seja feita propaganda de extrema-direita.

2. Pede-se à imprensa que sobre a guerra na Ucrânia - na produção e importação de reportagens e na análise (comentário) - seja ... analítica. É normal que o estupor e alarme inicial tenha promovido um até alarido, mesmo propagandístico, convocando a opinião pública a um esforço (político, orçamental, de acolhimento) em prol dos invadidos. Mas foi evidente que esse enviesamento pró-ucraniano - democrático, independentemente dos defeitos próprios do regime de Kiev - se deixou alongar: exemplo disso, mesmo pungente, foram as intervenções diárias no horário nobre de canal generalista do exaltado José Milhazes. Esse é caso extremo, até pitoresco. Mas a normal tendência pró-ucraniana - por ser o país invadido, associável ao nosso âmbito multilateral, e pela evidência do expansionismo russo -, cristalizou-se num discurso repetitivo, muitas vezes - mas não sempre - falho de capacidades analíticas. Esquecendo o fundamental: a Ucrânia defende-se no campo de batalha e nos contextos diplomáticos. Não no audiovisual e nos jornais portugueses.

(Pior ainda, o seguidismo às teses e práticas do governo israelita. Mas será importante integrar o cada vez mais esquecido factor: a actual guerra em Gaza e sua transferência para Líbano e Irão, é uma refractada sequela do conflito na Ucrânia).

3. O caso de Costa não é único, mas é o mais vibrante.  General e influente maçónico, evidencia ser adepto do regime fascista russo. E, neste contexto internacional, de todos os regimes antidemocráticos - em particular o iraniano - que sejam adversários dos nossos aliados e das nossas instâncias multilaterais. E segue remunerado para realizar essa propaganda - muito provavelmente devido às teias de influência que construiu a partir das suas inserções nos grupos de pressão castrenses e civis. Pois, até pela sua consabida truculência insultuosa, não haverá outra explicação para a continuidade desse seu labor televisivo. E é nisso apoiado pela estação televisiva - não só pelas constantes aparições. Pois há pouco tempo, num zapping meu, apanhei-o numa entrevista pessoal, julgo que vespertina - lamentavelmente não registei o programa, não recordo o título. Mas percebi o intuito "humanizador": o entrevistador fez questão  de um "vamo-nos tratar por tu", e construíu o diálogo de modo a que os espectadores assistissem à apresentação de um aprazível cidadão sénior, felizmente ainda activo, pois saudável e viçoso. Ou seja, sedimentando a simpatia pelo propagandista Costa. E pelas suas opiniões.

4. Aos jornalistas e/ou analistas (agora ditos "comentadores") não pode ser exigida a "neutralidade". Nem mesmo se pode pedir uma "equidistância", ponto de tomada de vista que é mitológico. Pode-se pedir objectividade, esta sempre construída na subjectividade pessoal. E, até mais do que tudo, alguma decência.

Ainda assim há destrinças a fazer. Ilustro: tivesse eu sido convidado para comentar - de modo gratuito - a recente final da Taça de Portugal entre o meu Sporting e o  Benfica, em estúdio teria sido vibrante adepto. E ali ao vivo, diante dos "caros telespectadores", teria festejado a ansiada "dobradinha" - como aqui o fiz. Mas se ali estivesse na qualidade de "comentador residente" - ou seja, remunerado (e bem que me daria jeito) - a abordagem intelectual seria diferente. Sim, rejubilaria. Sim, festejaria (repito, como aqui o fiz). Mas - por estar a ser remunerado, ou seja, por estar a trabalhar - teria de reconhecer que Mateus Reis deveria ter sido expulso, que houve um erro crasso da arbitragem, o qual a não acontecer teria mudado as dinâmicas do jogo e, talvez, impedido a tal ansiada "dobradinha" sportinguista. Enfim, que o título obtido foi um bocado coxo (o Sporting poderia ter ganho na mesma mas ficará sempre a dúvida...).

Que quero eu dizer? Que é louvável a disponibilidade para acorrer à imprensa de modo voluntário (gratuito, no sentido de não remunerado...) em atitude de cidadania, militância, "activismo" (como se diz agora) ou de mero adeptismo. Mas quando se vai opinar de modo laboral (remunerado) a restrição à militância, ao propagandear, é uma vilania. Costa não é, nem de perto nem de longe, o único - exemplo crasso é o da comentadora residente Ana Gomes, na sua patética classificação da competência televisiva dos cabecilhas partidários: disso diria a minha mãe, que tinha uma linguagem menos abrupta do que a minha, "isso não é um comportamento digno de uma Senhora". Pois esta gente é paga para exercer um trabalho e vai exercê-lo ao serviço de outros interesses. Mas Costa é mais fascista deles todos. E o mais malcriado.

Qual a razão para que continue a ser contratado para propagandear o fascismo? Repito-me: talvez devido à sua influência no meio castrense - e é problemático percebermos que há alguns generais tão avessos aos regimes democráticos e à multilateral de Defesa em que estamos inseridos. E/ou pela inscrição maçónica, sempre de influência esconsa, algo imperscrutável. Mas, para além dessas dúvidas quanto ao actual trampolim fascista em Portugal, há algumas certezas. Entenda-se, os nomes dos responsáveis directos.

Aqui escrevi em 4 de Março de 2025

"Desde logo eu (e tantos outros) me espantei e enojei com a desbragada putinofilia - até vituperando o patriotismo ucraniano - de alguns generais comentadores televisivos - um até exultava com a "libertação de Mariupol", tanto lhe agrada Putin. Ditos "especialistas em assuntos militares" (caramba, são generais, seriam especialistas de quê?). Para quem ache que são "especialistas", comentadores avisados e assim neutrais, deixo um exemplo, o do general Costa - um avençado por instruções dos (ex?-)jornalistas Nuno Santos e Santos Guerreiro. Enquanto trata todos os interlocutores por títulos académicos (o sacrossanto "Chô Doutor/a") gozou a cena da Sala Oval, referindo "Vance", "Trump" e "o Zelensky", assim denotando o desprezo pelo "mimado" ucraniano, como o disse. Tal como referiu o "Senhor Macron" - em evidente glosa do célebre e justificadamente sarcástico "Senhor Hitler" de Fernando Pessa. Terminando, o escroque fascista, a tratar os líderes eleitos da democrática União Europeia por "cavalheiros" e - imagine-se - "madames", como se estas fossem epígonas da Maria Machadão de Jorge Amado. Há 3 anos que Nuno Santos e Santos Guerreiro agridem o país com este lixo moral. Pois são isto."

(Também no  meu "O Pimentel")

 

A Cartilha do "Público"

jpt, 21.06.25

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Morre Mouta Liz, esse que tão conhecido foi nos anos 1980... Trata-se de terrorismo? É de "extrema-direita", logo clama o "Público"! Mero erro de frenesim noticioso, qual velha "gralha"? É evidente que não o é. Um dislate ignorante de um "jovem estagiário", esse sempre invocado inculto bode expiatório? Não, por mais "jovem" que seja o teclista. Mas sim de um reflexo condicionado, efeito de uma ideologia inculcada: a "esquerda" é virtuosa, sê-lo-á ainda mais a "extrema". O Mal, o Terror(ismo)? Só pode provir da "direita", ainda mais da sua "extrema".

A SONAE financia...

A imprensa dita de referência

Paulo Sousa, 18.06.25

Entre confrontar o poder ou confrontar quem desafia o poder, a atitude da imprensa dita de referência vai mudando de acordo com a orientação política desse mesmo poder.

Salvaguardando honoráveis excepções, o grosso dos nossos jornalistas são de esquerda. Ora porque, sendo da velha guarda, se formaram profissionalmente no pós-25 de Abril, ora porque, mais novos, se formaram nos cursos de comunicação, ministrados pelos da velha guarda. A minoria que não se encaixa nesta classificação confirmará a regra.

Há imensa literatura sobre isso. Os editoriais, deste ou daquele órgão de comunicação social, desistiram de querer mostrar o mundo ao seu público e passaram a querer mudar o mundo. Ao preferirem condicionar a opinião dos seus leitores/espectadores a reacção não surpreende. Se eu comprar uma coisa com a expectativa de que me proporcione informação, e me servem formatação, é provável que eu prefira mudar de fornecedor. Estranhamente, ou não, o que era designado por Legacy media, enquanto informação de referência, passou a ser associado a algo pejorativo e a informação enviesada.

Este postal tem alguns dias de atraso, mas só agora o conseguir aqui verter.

Temendo estar condicionado por alguns dos muitos viés com que tenho de viver, pedi ajuda ao ChatGPT para comparar a cobertura mediática de dois episódios dos últimos dias.

Os dois casos são diferentes, e muito, na sua gravidade. Um respeita a uma agressão a um actor da Companhia Teatral A Barraca e o outro a um homicídio familiar, o de um pai que matou um filho por este se opor ao casamento da irmã.

Aqui vai a comparação resumida do ChatGPT:

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Conclusão preliminar

  • A cobertura da agressão ao actor da A Barraca foi mais ampla, com várias reportagens televisivas, vídeos, entrevistas e enquadramento político e ideológico.

  • O homicídio pelo pai teve cobertura muito limitada, praticamente apenas nas redes sociais da TVI e CMTV online — sem aparecer claramente nos noticiários televisivos.

Como comecei o postal pelas conclusões, fico agora sem nada para dizer.

Quem vê caras vê corações

jpt, 02.05.25

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Ainda não vi qualquer debate televisivo dedicado a estas eleições - não tenho paciência, além de me ser indiferente quais dos dirigentes têm mais jeito para aquilo. Também ainda não vi "comentários" televisivos sobre os debates televisivos - não tenho paciência, pura e simplesmente. Mas sei que há uma gente que ganha dinheiro para ir à televisão "dar notas" aos políticos - como se fosse o velho prémio Somelos-Helanca do "A Bola", a premiar os jogadores... E, claro, depois dão melhores notas aos jogadores, perdão, aos políticos do(s) partido(s) que preferem. Ou para os quais trabalham. Não há dúvida, na imprensa - como aprendi no "Calhau" em Mafra - "há filhos de muitas mães"

Enfim, não é bem sobre isso que agora atento. Venho apenas dar conta que vi ontem - nas "redes sociais" - várias menções a um debate no canal "Now" (nunca percebi porque se atribui alvará a um canal português com nome estrangeiro), acontecido anteontem à noite (após as 22 horas). Montenegro e Santos haviam debatido. De seguida veio um trio comentar o ocorrido: uma jornalista da Sábado, o Santana Lopes e um empresário - que consta estar a trabalhar para o PS. Aquilo deu brado, o empresário - a puxar o fogareiro todo para sardinha dele - anunciou que o Montenegro dissera "não sou só eu o corrupto, etc...". E o Santana foi Santana - com todos os defeitos que lhe possam atribuir o Santana também tem qualidades.

Fiquei curioso, "puxei atrás" na tv e fui ver. Vi. E constatei uma verdade insofismável: quem vê caras vê corações.

25 de Abril de 2025

jpt, 26.04.25

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No telejornal ouço breves declarações do secretário-geral do PCP, ripostando certeiramente às esparvoadas declarações de um ministro (esta gente não tem quem lhes escreva textos?) sobre o 25 de Abril. Dizia Raimundo "isto não é uma festa, é uma celebração!" ("e as celebrações não se adiam", concluia. Pois podem-se suspender, claro. Mas não adiar).
 
Eu gosto de festas (se recatadas, que me falta energia para festivais e festarolas). De manhã um simpático vizinho convidou-me para me juntar aos dele (que me são algo simpáticos) no desfile. Recusei, grato, explicando-lhe (até lhe enviando um texto que li há dois anos num 25 de Abril) que nunca vou a este desfile. Pois não celebro (a democracia, ainda por cima) com comunistas - versões brejnevistas, enverhoxistas, polpotistas, maoístas, guevaristas, etc.
 
Nada oponho a festejar conjunto uma qualquer efeméride ou vitória sportinguista. Mas "celebrar" a democracia com os seus adversários? É bom para o folclore, para a mimalhice. E será também para a afirmação partidária (louvável o estômago dos da IL em marchar ali depois do PCP - donos do desfile - os ter impedido de participar). Mas não sou de "folclores".
 
Depois um grande amigo, fotógrafo, telefonou-me: "vou fotografar, queres vir?", e isso seria diferente, vestiria o colete de observador não-participante, "se calhar escrevemos um texto juntos" (para blog, que ninguém nos paga...). Mas desisti, sem energias pois acabrunhadíssimo com episódio que sofri há dois dias.
 
Percebendo-me desasado uma querida amiga passou por minha casa e levou-me ao café local. Ela avançou na sua amêndoa amarga, eu amornando uma parca imperial, logo unidos por outra amiga, minha "mana", esta optando pela sua Sagres. Escorremos umas horas. Na televisão, frenética, incessante, a cobertura da arruaça na baixa lisboeta, cometida por umas dezenas de histéricos. Nesse entretanto viu-se (centenas de vezes, sem exagero) a detenção de um antigo juiz. Mais uns sopapos e meia dúzia de bastonadas. Repetidas, vezes sem conta.
 
Ali ao lado, a avenida da Liberdade estava cheia - sim, da gente folclórica que mitografa que os democratas são os socialistas e os comunistas e que nós outros somos "faxistas", ainda hoje, em pleno 2025 o dizem (mas eles ou os seus filhos emigram ou vão estudar para os países governados pelos "faxistas", coisas do arco da velha).
 
Mas não é isso que me interessa aqui. O relevante é terem as televisões passado horas a propagandear aquela minudência holiganesca. (Com menos porrada do que em qualquer derbi Braga-Guimarães, já agora). No 25 de Abril os mariolas colonizaram a televisão... E os "jornalistas"? Adoraram.

A Censura Instaurada

jpt, 07.04.25

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Conheço o Afonso de Melo desde os tempos liceais, vizinho de rua, colega de “liceu”, até naquilo de jogarmos Subbuteo juntos. Mais tarde chegámos a cruzar-nos nas andanças pelo “Calhau” de Mafra, eu mais dado (ainda que muito pouco) à “rusticidade” militar do que o então já jornalista, pois entretanto entrara no “A Bola”. Esse alojado - como durante décadas o esteve - na Travessa da Queimada, junto à fiada de tascas, bares e discotecas que fizeram o Bairro Alto da nossa geração. E nesses redutos, por vezes, após o fecho da redacção lá se bebericava algo conjunto. Depois a vida apartou-nos, eu anos emigrado.

Nos últimos tempos reencontrámo-nos por estes Olivais, que ele visita fiel e filialmente. Fez nesse entrementes décadas de jornalismo, desde o tal “A Bola” percorrendo um ror de periódicos, intervalou-se como “oficial de comunicação” na Federação do seu Futebol. E vigora numa infatigável última década no “(Nascer do) Sol” (e parente “i”). Semanalmente preenchendo páginas e páginas com a sua prosa e seu olhar, cosmopolitas de viajados e atentos, cultos e atrevidos, densos e esvoaçantes, sem “com licenças” nem “ó faz favor”, abrangendo o realmente circundante. Ou seja, não se debruçando apenas pela tralha dos dias correntes.

Acoplado a esse rumo já publicou uma prateleira de livros - em alguns congregando o que botara na imprensa - naquela sua escrita sem concessões ao aprazível, no arrumadinho “simpático” ao leitor mimado, pois implacável no necessário cerzir das coisas do mundo. Convocando-nos, para os seus ritmos e temas. E ainda há um mês lá fui ao “lançamento” do seu último, a deliciosa colecção “A Tragédia do Homem-Orquídea e Outras Eu-Biografias”.

Há dias os lisboetas sobressaltaram-se, recordámo-nos ideafixs, na defesa dos jacarandás. Lembrei-me de deixar um breve postal, tornado impertinente após o recuo camarário, preservando o arvoredo. Era este breve trecho do seu “Sabiá na Gaiola” (Âncora, 2009), pois bem denotativo do identitário, afectivo, do que então ocorria: “Em Phnom Penh não havia flores roxas, deste roxo-chão. Em Phnom Penh não há jacarandás como em Lisboa; há frangipanis. A flor dos frangipanis é branca-sonho ou cor-de-rosa-cor-de-dor. Flores brancas pelo chão: Monivong Boulevard.”(14).

Enfim, neste longo rumo - pois já vamos para anciãos - o Afonso foi dos que mais, e desde cedo, enfrentou, peito feito, teclado rijo, a cleptocracia instalada desde há décadas por Pinto da Costa, essa que foi colhendo a vil anuência dos sucessivos próceres e de inúmeros jornalistas. E desse patrono portista e de seus esbirros sofreu impiedosa perseguição e inaceitáveis ameaças - mesmo daquelas que nós, no remanso da vidinha, dizemos apenas “de filme”. Mas nisso sempre tendo tido o apoio dos seus.

Mas há sempre novidades neste “comboio descendente” luso. Há dias morreu José António Saraiva, antigo director do “Sol”, e logo foi substituído o vigente interino Vitor Raínho, sendo nomeado um novo director: Nuno Tiago Pinto.

Como corolário? O (já) velho Afonso de Melo, e pela primeira vez em 40 anos de carreira, viu excluído um texto seu. Corrosivo, opinativo, enfrentando um meio que bem conhece, a cúpula de certa forma de viver o futebol. Decerto que para “não incomodar”. É assim o “novo jornalismo”, esse que apregoa - como o faz o novel director Pinto no seu mural de FB - “novos, grandes e interessantes desafios.” Ou, como diremos nós, os mais-velhos mas não mais-cansados, é assim a censura instaurada.

Claro, o Afonso de Melo diante deste inaceitável acto censório logo se despediu. Abaixo - e porque me deu autorização para tal - reproduzo o texto sobre futebol que tanto assustou o (afinal agora) Pôr-do-Sol.

 


O Discurso da Pequenez

por Afonso de Melo

Bem à moda do seu padrinho e mentor, e o padrinho não surge aqui por acaso, vamos lá deixar-nos de hipocrisia (essa palavra que passou a fazer parte do novo léxico dos que andam pelos jornais a escrever em nome do FC Porto), Villas-Boas veio agora gritar aos quatro ventos que o jogo de domingo, pelas 20h30 nas Antas, é o jogo da época para o seu clube. Poderia ter graça se não fosse estafada. O homem que se assume como um vento novo e limpo do futebol português limitou-se a ir ao baú e sacar do mofo uma daquelas tiradas inventadas por José Maria Pedroto, e depois plagiadas ad nauseum por um tal de Jorge Nuno, que veio a provar-se, tal como eu vinha escrevendo desde o tempo da Maria Caxuxa – que remete lá para inícios dos anos 90 – ser um ente definitivamente pernicioso para uma sociedade que se desejava no mínimo não fedorenta. Só lhe faltou acrescentar aquele lugar-comum enjoativo do venceremos contra tudo e contra todos. Contra quem? E contra quê? Que raio de palavreado é este? Adiante que entrar por esse caminho só pode levar à insânia.

Ora bem, esgoelar que o jogo deste fim de semana do FC Porto contra o Benfica é o jogo da época para a rapaziada da Mui Nobre e Invicta Leal Cidade é tão lapaliciano como jurar a pés juntos que o próprio La Palice, frente a Pavia, estava vivo um quarto de hora antes de ter morrido. Santa paciência! Até onde irá a idade do paleozoico? A minha memória, que já é de avô, e que aliás prezo muito, não me deixa olvidar esses tempos em que Pedroto virou o futebol português de pantanas graças a frases que os jornais e as rádios absorviam com se fossem esponjas. Por isso, vamos lá tentar ser sérios: desde quando é que um jogo do FC Porto com o Benfica não é o jogo da época para os portistas??? Cáspite! Já era assim no anos 60 e teve de ser assim quando o velho Zé do Boné re-fabricou um clube cujo único fito era emular os vermelhos de Lisboa, a amaldiçoada capital do império com a odiada Praça do Comércio que, segundo os anti-mouros, deveria ter sido assolada pelas chamas num destino mais devastador do que o de 1755.

Vá lá, deixemo-nos de tergiversações parolas. André Vilas Boas limitou-se a ser a continuidade do seu antecessor: em caso de desespero, qualquer época fica ganha desde que o FC Porto impeça o Benfica de ser campeão. Qualquer farsola que queira esganiçar-se a dizer o contrário entrará diretamente para o Clube dos Bacocos Irreversíveis. E, aí está, carregando às costas com o peso já muito razoável de quatro décadas de jornalismo, só tenho de pôr um ponto final neste assunto. Ou um ponto parágrafo. Ou um ponto de exclamação! Escolha quem tem ainda a divina paciência de passar os olhos pelo que rabisco semanalmente nestas páginas.

Para sublinhar esta reencarnação de Pedroto em Villas-Boas (ou, mais precisamente, na reencarnação de Pinto da Costa, o arremedo de Pedroto, em Villas-Boas), nada como o regresso à motivação das massas para que o vulcão despeje a ferocidade da lava na altura de o inimigo entrar em campo. Envolvido numa época miserável, tal como os artrópodes se deixam envolver pelas algas, o jovem presidente do FC Porto recorre ao verbatim esclerosado. Confesso que não me admiro. Estamos a falar de um produto fabricado e moldado de forma industrial. Villas-Boas foi alimentado com a mesma sopa com que alimentaram José Mourinho, outro menecma do original Zé Maria, e que o antigo presidente do clube criou à sua imagem e semelhança. E assim por omnia seculae seculorum. De José se fez Jorge, de Jorge se fez José, de José se fez André. E já estou quase a desabafar como o meu companheiro de adolescência dos Olivais Sul, André Pipa: «Não me quilhem!». Ou seja lá o que foi.

Domingo, nas Antas, o jogo da época só pode ser o jogo do Benfica. Como entra pelos olhos dentro. O êxito significará um alento precioso para a restante batalha ombro a ombro com o Sporting. Um triunfo do FC Porto, por muito que Villas-Boas queira engrandecê-lo, não aquece nem arrefece aos portistas. Eis-nos, novamente, de regresso ao insuportável discurso da pequenez endémica – para André, tirar o Benfica da luta pelo título será a sua vitória de Pirro, esse patético rei de Epiro e da Macedónia. E se a tal se resume a sua ambição, vou ali e já venho.

Aceitemos igualmente que estaremos perante dois opositores drasticamente separados pela lei da qualidade. O plantel do Benfica pode não ser tão exuberante como nos querem fazer crer, mas é indubitavelmente melhor do que o do seu contendor de domingo. Se no banco dos encarnados estivesse outro treinador qualquer que não Laje, talvez isso se viesse a fazer a diferença. Mas… Um enorme mas voa sobre as águias jornada a jornada. Depois de hora e meia desconcertante contra o Farense, o treinador do Benfica continua a pensar que se passa nada. Os largos minutos que a equipa desliga frente a todos os adversários poderão ser decisivos no Porto. E o homem que comanda a nau não arranja solução para acabar com os sustos, uns atrás dos outros. Aquele que era até quarta-feira passada o pior ataque do campeonato conseguiu marcar dois golos na Luz. Não é nada bom sinal para os encarnados.

(Também colocado no "O Pimentel")

Grande Primeira Página?

jpt, 06.04.25

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Há erros e erros. Todos os fazemos, naquilo do "errar é humano" ou do aprender através dos erros, como é evidente. E tantas vezes é mera crueldade apontá-los ou remexer "na ferida". Mas este é um descalabro! Só agora reparo - num mural de Facebook: a edição de 5 de Março do Jornal de Letras foi centrada no bicentenário de Camilo Castelo Branco. E tem o clamoroso erro de se ilustrar com Eça de Queirós.

Goste-se ou não do JL, o jornal é uma instituição, louvável por criticável que possa ser. Tem 44 anos! E uma coisa destas mais do que motivo de dichotes ou apupos é uma dolorosa demonstração do estado da imprensa portuguesa: falta dinheiro, faltam profissionais - e falta a remuneração aos "colaboradores", mais ou menos ocasionais, como tantos vão murmurando. 

Um descalabro, repito-me. Mais geral do que apenas um ocasional erro (monumental, numa publicação especializada como esta).

Os comentadores televisivos e Moçambique

jpt, 07.02.25

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Aos meus compatriotas que se interessam por Moçambique: o mapa indica onde é Chibuto, na província de Gaza - desde a independência o mais extremado reduto eleitoral do Frelimo. Que eu saiba Chibuto não é uma das duas cidades referidas pelo comentador televisivo (remunerado?) "senhor embaixador" Martins da Cruz como as únicas tendo "problemas" políticos. Nem será alvo dos aventados interesses económicos do comentador televisivo (remunerado?) "doutor" Miguel Relvas. Nem objecto de análise detalhada do comentador televisivo (decerto que remunerado) administrador "Paulo" Portas. Ainda assim Chibuto existe... E vários amigos acabam de me enviar ligações para a transmissão em directo (via FB) da visita que Mondlane está a fazer à pequena cidade. Um incrível, gigantesco, banho de multidão!
 
Será um facto politicamente impressionante? Talvez. Esperemos pelos telejornais... pois neles o "senhor embaixador" Martins da Cruz, o "doutor" Relvas ou o (administrador) "Paulo" Portas nos virão esclarecer. Remunerados? Quiçá...

O Rol dos Espiões...

jpt, 31.01.25

Antes de tudo é interessante notar que até simpatizantes socialistas encolhem os ombros e constatam agora que os governos de Costa foram ... tempo perdido. Um político hábil, um governante medíocre, nada mais do que isso. E, já agora, como todos que conhecem a Bélgica poderão confirmar, nenhum "prestígio" adveio àquele reino pelo simples facto de ter tido Charles Michel como presidente do Conselho Europeu - ao invés do saloio argumento aqui promotor da elevação do nosso antigo PM ao posto...

A governação de Costa teve um objectivo inicial, trancar a débâcle do PS face ao desvario de Sócrates e à cumplicidade e/ou complacência de todo o "universo PS" diante daquilo, no que "coabitou" perfeitamente com o Presidente que nos coube, por decisão eleitoral. E foi sobrevivendo acobertado pelas políticas financeiras europeias.

Durante esses anos Costa teve o condão de se rodear de gente dotada de tétrica incompetência, como tanto o exemplificaram os ministros - agora comentadores televisivos - Eduardo Cabrita e Azeredo Lopes (este ao menos reconheceu essa sua característica, invocando-a em tribunal para se safar das sequelas da sua pantomina ministerial). Mas para além de gente desse calibre Costa precisou de mais, de homens de mão. Soube fazê-lo, e os escândalos com dois dos seus chefes de gabinete teriam sido letais noutros países democráticos. Mas por cá ainda se lhe dá o estatuto de "prestigiante"... Talvez ainda mais agora, quando - sem pingo de pudor - se transgenderiza em "minoria étnica", mesmo se não especifica a "etnia" a que pertence.

Enfim, esta situação de ter "à mão de semear" o rol de agentes de informação é tétrico. Claro que o rasteiro Escária será cutucado (mas nunca crucificado) por isso, e não se questionará a peculiar concepção de exercício de poder do seu antigo chefe, que convocava esta inaceitável situação. Mas esta é arrepiante.

A situação - escandalosa - faz-me lembrar uma similar, acontecida em 1999, quando o abjecto "Independente" publicou o rol de espiões. Vivi-a em Maputo. E anos depois, tendo conhecido um simpático "ex-espião", até tive mais alguns detalhes do que acontecera, já invocados em registo cómico. Em 2006 escrevi um postal no ma-schamba sobre essa memória, que agora transcrevo. Mas antes recordo que em 2008 o então ministro Jaime Gama queria uma lei que impedisse este tipo de vazar de informações delicadas... Foi insuficiente, como se vê, mostrando não apenas a insuficiência do "Legislador" mas também como a lei é sempre insuficiente quando os incumbentes... não prestam. Ou são dados à imbecilidade, como a soberba de Augusto Santos Silva provocava, ao anunciar à imprensa em 2011 que Portugal ia instalar espiões no Líbano - e foi este tipo presidente da AR e sonhou-se PR!...

Enfim, passa um quarto de século e as coisas não melhoram. Porquê? Porque são os mesmos tipos no poder. Temos mesmo de aprender com os moçambicanos, e clamar "Anamalala"!

(Aqui deixo o postal com 19 anos sobre a devastação que o poder político faz dos serviços de informação)

Liberdade de expressão?

Em 1999 Veiga Simão, então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.

Voz amiga telefonou-me de Portugal - qualquer leitor de Greene ou Le Carré imagina um adido cultural, mesmo se seu amigo próximo, algo associável a este tipo de coisas, mesmo que fosse eu completamente excêntrico a esse "ramo" - informando-me do que iria acontecer, na ironia do "amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí", deixando-me a balançar entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo lhe solicitei o envio daquela "bomba", e na alvorada seguinte recebi no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal "Independente" onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha, Ressano Garcia ou mesmo Machipanda, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.

Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, os das comissões subiram a observados e regressaram às comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.

Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público - confundindo, cientes disso, "público" com "do público" - e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem (alguém acredita que ninguém saiba quem denunciou os serviços de informação?). Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.

Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, dizendo-a máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espionagem nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, esses inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do "linkismo" ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.

A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, "não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe": Longe, eu?! Foda-se..., eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.

(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)

Araújo Pereira & Leitão

jpt, 27.01.25
"Se quer estragar a noite a estas pessoas..." — Ricardo Araújo Pereira  "aborrecido" com Alexandra Leitão
 
Dada a ridícula bronca do deputado das malas, deixei-me ontem (após o resumo do interessante jogo Porto-Santa Clara) ver o programa de Ricardo Araújo Pereira, humorista que às vezes tem piada. Na segunda parte do programa foi entrevistada a nova candidata a presidente da Câmara de Lisboa, eleições que decorrerão em Setembro ou Outubro deste ano... Adianto que muito me irritam estas entrevistas mansas - até carinhosas - do humorista aos políticos, "humanizando-os" através do sorriso ligeiro. (E até porque me lembro dele a fazer isso com José Sócrates, mesmo até quando bem se sabia quem o homem era, é!).
 
Mas a entrevista a Alexandra Leitão foi interessante, pelo que anunciou sobre a entrevistada e interroga sobre o entrevistador. Foram dois pormaiores: 1) Leitão tem uma postura corporal controlada, decerto que por treino, patente no seu entrelaçar das mãos. Mas, ocasionalmente, ainda é mais forte do que esse treino, e nota-se-lhe a tendência para falar - mesmo naquele registo plácido - de indicador em riste. Algo muito denotativo do tipo de personalidade e atitude intelectual. 2) Araújo Pereira gozou, explicitamente, com o timbre vocal de Carlos Moedas. Leitão não se coibiu, riu-se e entrou na piadola sobre as características físicas do seu principal oponente nesta candidatura.
 
Quanto a Araújo Pereira, o cómico do regime, fica-me esta dúvida: será que daqui a uns tempos ele irá gozar com as características físicas de Leitão? E, já agora, será que Moedas - se confrontado com tal aleivosia - entrará "no jogo"?

Portas e Moçambique

jpt, 20.01.25

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Desde há já bastante tempo que vou vendo, não sempre mas habitualmente, a coluna dominical de Paulo Portas no telejornal da TVI. Portas fala bem, prepara-se, e está informado sobre as coisas do mundo - sai do rame-rame da politicazinha portuguesa, das cercanias dos "Passos Perdidos", e aborda com consistência (apesar da brevidade do programa) temas excêntricos às ladainhas dominantes no abundante "clube de comentadores". Para além de que pessoa que me é muito querida ter sido recentemente sua aluna e me ter confidenciado que o homem é um excelente professor, o que me reforçou a atenção. Ainda para mais porque este ofício de "comentador generalista" é a actual sequela, por paupérrima que seja, da velha figura do "intelectual público", pelo que convém ir sabendo o que os seus oficiais - os poucos melhores e os muitos piores - impingem aos incautos... Enfim, adiante,
 
ontem vi a sua apresentação. E desatei-me a rir, sozinho, ao ouvi-lo falar de Moçambique, país que o ex-ministro bem conhece. Pois na sua apologia ao poder agora empossado, Portas anunciou-nos que o novo governo nada tem a ver com o poder anterior... Eu não sou politólogo, daqueles que têm conhecimentos "etnográficos" sobre os "campos políticos" locais, sabedores enciclopédicos do "quem é quem", verdadeiros "coleccionadores de borboletas" e especialistas em previsões de teias urdidas e rompidas. Sou apenas um tipo que usa a rede "Whatsapp", que tem o telefone carregado de mensagens a darem conta das imensas continuidades, pessoais e colectivas, políticas entenda-se, normais que sejam, entre o governo moçambicano anterior e o actual.
 
E interrogo-me, mero telefone na mão, sobre a razão que leva Portas a fazer tal apologia. Tal como a faz Miguel Relvas. Ou Martins da Cruz (outro comentador, ao qual os locutores não tratam pelo primeiro nome - como agora é hábito pateta - mas sempre com as mesuras sacralizadoras do "Senhor Embaixador"...). Porque farão estes tipos, e alguns outros, tais apologias ao status quo de Moçambique. É que muitos resmungam diante da cumplicidade (arteriosclerosada) do PCP e do silêncio camarada do PS (no qual ainda há quem pense enviar António Vitorino para Belém..). E há até quem proteste com a atrapalhação de Rangel ou a diletante pressa de Montenegro diante de Moçambique. Mas ninguém se pergunta da razão que leva estes "intelectuais públicos" de "direita" a opinar deste modo sobre o país nosso aliado...
 
Faço uma proposta àqueles que são sensíveis às argumentações destes ex-ministros sobre Moçambique - até por sua simpatia para com discursos oriundos deste sector direitista da opinião política. Jaime Nogueira Pinto é uma homem da "direita profunda". E é, nas suas características próprias e respectiva mundividência, um verdadeiro "intelectual público". E conhece muito bem - muitíssimo, diria eu - Moçambique e os seus intervenientes políticos. E acaba de publicar sobre aquele país este artigo: "Moçambique: no limite do desespero".
 
Ou seja, bem desejo que os meus compatriotas que se querem informar sobre Moçambique, e que tendem para o lado destro, leiam este Nogueira Pinto. E mudem de canal televisivo quando os outros começarem a perorar, seguindo eles razões que a (boa) razão desconhece...

A imprensa portuguesa sobre Moçambique

jpt, 18.12.24

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(Homenagem da Ordem dos Advogados a Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos, partido que o apoia, no local dos seus assassinatos; Maputo, 19 de Outubro de 2024, fotografia de Paulo Julião/Lusa, publicada no jornal "Público")

 

A escritora comunista Ana Bárbara Pedrosa publica na "Sábado" um artigo sobre a situação moçambicana. No qual repete a sua interpretação, já apresentada há cerca de dois meses no "Público": o problema de Moçambique é o candidato oposicionista Venâncio Mondlane - que ainda por cima está no estrangeiro, o mariola (ela prefere chamar-lhe "ególatra", mas é sinónimo).

Após cuidadosa leitura do artigo tenho um contributo para a reflexão da militante comunista ("activista" diz-se no seu partido...), e muito agradecerei se alguém lhe transmitir: Vasco da Gama atravessou o Cabo da Boa Esperança em 1497, e convém conhecer os detalhes históricos quando se quer utilizar a História para figuras de estilo.

Quanto ao resto não tenho muito a dizer...

Discriminação na RTP

jpt, 20.11.24

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Serviço público televisivo? Tem a obrigação ética de respeitar os cidadãos, sem fobias discriminatórias, sem verrina desvalorizando as diferentes "identidades sociais". Mas acabo de assistir ao inverso. Nos seus 66 anos um concidadão morreu no serviço de urgências de um hospital. Na RTP, o preconceituoso, quiçá fóbico, locutor ao nosso compatriota sexagenário desvaloriza como "idoso"... A ira recobre-me.

A escassez noticiosa sobre Moçambique

jpt, 09.11.24

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(Ardinas do Porto, início de XX, autor desconhecido)
 
No meu mural de Facebook um amigo (que viveu anos em Moçambique) comentou o silêncio (relativo mas evidente) da imprensa portuguesa sobre a actual situação naquele país. "Respondi-lhe" assim: 
 
A esse silêncio referi-o em alguns dos meus postais sobre esta situação - (como neste e neste). E diante disso tentei, na modéstia da repercussão de blog/mural de FB, ecoar alguns contributos interessantes na imprensa .
 
De facto há um enorme desinteresse noticioso (ausência de destaques, escassez de informações, rarefacção de comentários). Podemos encarar esse silêncio (relativo) como sintoma de vários factores. Indo além do resmungo contra o défice de qualidade da nossa imprensa. No seu (ignorante e/ou preguiçoso) seguidismo às "agendas noticiosas" internacionais (agora os EUA, Gaza, Valência, Ucrânia, até a Alemanha). Ou a sua falta de recursos económicos (para ter correspondentes ou encomendar reportagens) e humanos - há um ano referi o caso extraordinário do "Público", que se veio justificar por não ter noticiado o assassinato do jornalista moçambicano Chamusse por estar de folga o único (!) jornalista que lá escreve sobre África.
 
Tudo isso será verdade. Mas há outros factores relevantes: continua uma enorme dificuldade - um desconforto - em abordar as problemáticas nas antigas colónias. O que passa, por um lado, pela permanência de uma espécie de "remorso colonial", qualquer coisa como um "não temos o direito de nos imiscuirmos" (mas podemos fazê-lo sobre a inacção espanhola em Valência, por exemplo...). E por um outro lado, algo ligado, pela dificuldade em abordar as realidades africanas - e as das antigas colónias portuguesas, em especial - por gente que continua presa à velha topologia direita/esquerda como instrumento de interpretação do que lá se passa.
 
Entenda-se, como pode um tipo que se entende de "direita" ou "centro" compreender que alguém louve, criticamente que seja, um estadista como Chissano, que é do Frelimo, um antigo movimento marxista-leninista? Durante anos levei com comentários abrasivos em blog por causa desse meu "chissanismo", que nem sequer explicitava recorrentemente... 
 
Ou, de outra forma, como pode um tipo que se "identifica" como de "esquerda" perceber o movimento em curso em Moçambique, agarrado às necessidades de invectivar como de "direita" o evangelismo "bolsonarista" de Venâncio Mondlane (como Agualusa - e sobre este telefonou-me ontem um amigo, "tenho de te contar esta!!!", ria-se, acabado de conversar com intelectuais da "velha guarda" "samorista" os quais, com ironia caústica, o chamavam "Aguavumba", menosprezando o seu camaleonismo, de cooptado ao "bloco histórico" do poder - e não só andam a clamar).
 
Para além disto, haverá também um factor para o qual olho até por percurso biográfico. No nosso país há pelo menos três décadas de formação superior pós-graduada nessa amálgama disciplinar "Estudos Africanos". As quais não foram suficientes para produzir "intelectuais públicos" oriundos dessas formações, que tenham apetência e competência para intervenção comunicacional abrangente e ganho "espaço" na imprensa. (E um exemplo típico é o conflito de Cabo Delgado: o absurdo longuíssimo silêncio moçambicano sobre essa "insurgência" foi ombreado pelo português. O único indivíduo do "espaço público" que dele falava, e já anos depois daquilo ter começado, era Nuno Rogeiro...).
 
Mas este nosso silêncio informativo tem um outro factor motriz, talvez o mais relevante. E que afronta o "complotismo dependentista" usado para legitimar os regimes autocráticos pelos "intelectuais" clientes desses "blocos históricos" de poder, e seus "compagnons de route" internacionais. Esse é o factor estruturante, promotor do silêncio: a inexistência desde 1975 de um qualquer projecto neo-colonial.
 
Há umas retóricas (algumas saudosistas, outras sentimentalonas), há efectivos interesses económicos (mas muito minoritários na economia portuguesa), há alguma articulação política entre Estados (coisa pouca, como se viu na recente questão russo-ucraniana), há pequenos núcleos de emigrantes (também muito minoritários no universo dos emigrantes portugueses). Mas não há grande intensidade de relacionamento nem interesse estatal ou societal em fazer crescer as interacções.
 
E tudo isto é denotado, melhor, demonstrado por este "silêncio" noticioso. De facto, Portugal, o nosso Estado e a nossa sociedade, está interessado noutras coisas. Neste tipo de situações isto pode irritar-nos, pois vivemos lá (em Moçambique ou alhures), ficámos com afectos e interesses (não interesseiros). E poderá irritar os "anticolonos" que sempre recorrem ao "xicolono" como "inimigo externo", necessário à sua (auto)justificação. Mas nada disso é o verdadeiro real.
 
Abraço. Ou, melhor, "estamos juntos".

Maputo e o "Público", hoje

jpt, 21.10.24

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Em Maputo uma manifestação pacífica de repúdio pelos assassinatos de Dias e Guambe, convocada por Venâncio Mondlane, agregou inicialmente algumas poucas centenas de pessoas. Antes da chegada do candidato a polícia dispersou a maioria com cargas de gás lacrimogéneo. Quando o candidato chegou ao local deu uma "conferência de imprensa, rodeado de algumas dezenas de jornalistas (a RTP transmitindo em directo) e alguns, poucos, apoiantes - talvez da sua segurança. A polícia disparou gás sobre essa pequena mole que ali trabalhava (ligação para curto filme totalmente demonstrativo da situação) numa praça já vazia. O candidato presidencial teve de fugir em corrida, rodeado por alguns poucos dos seus.

Na quarta-feira passada a sua comitiva fora alvo de disparos com munição real em Nampula. Na sexta aconteceram os assassinatos de Maputo. (Há agora relatos videográficos da praça OMM mostrando cápsulas de munições reais que teriam disparadas pela polícia, mas não se pode afiançar tal).

Por cá, no sempre "Público" de hoje, o sociólogo moçambicano Elísio Macamo publica um interessante artigo. Usando a ferina armadura da ciência política e sociologia, das quais é exímio profissional, não deixa de se alongar sobre as causas passionais que foram invocadas pela polícia como causa dos assassinatos de sexta-feira. E, com pertinência retórica, elabora sobre a luta interna no Frelimo - partido que ganhou as eleições, avança, decerto que assente na história eleitoral do país -, luta essa que terá causado estas mortes, acontecidas apenas para desmererecer o novo presidente Chapo. Com Dias e Guambe assim vítimas de "balas perdidas", num "fogo cruzado que pouco tem a ver com eles".

Ou seja, esmiuce-se bem o argumento: esta violência não é sistémica, é um desvio, qual epifenómeno (eu também sei usar termos dos jargões, ainda que seja menos exímio). E, já agora, retira-se assim que as verdadeiras e substantivas dinâmicas do país se encontram encerradas no jogo interno do Frelimo, como se pairando sobre uma quase insignificante população e seus (ir)representantes excêntricos ao partido no poder.

O que não consigo perceber é isto: se o Frelimo ganhou as eleições com naturalidade, tal como o vem fazendo (por exemplo, nas últimas autárquicas em que Mondlane também foi "derrotado"), qual a razão do Estado, e sua polícia, não deixar em paz uma manifestação pacífica?

(Mas essa, claro, é uma resposta que nunca obterei num jornal como o "Público").