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O neófito

por Teresa Ribeiro, em 18.03.10

Abeirou-se do menu que se encontrava exposto na rua levado pelas três acompanhantes A avaliar pela atenção distraída que dispensavam à ementa elas eram, certamente, habituées do restaurante. Ele, também não restavam dúvidas, um estreante.

Da minha mesa solitária pude ver o desconsolo estampar-se-lhe no rosto: beringelas panadas com arroz integral? Hamburgueres de ceitan? Com tantas cervejarias e restaurantes genuínos ali perto e ele no planeta alface, rodeado por três estranhas comedoras de sementes de sésamo.

Os homens, os nossos descendentes de marinheiros, são os que dão sustento à infinidade de pequenos restaurantes sem história, onde pratos afrancesados e misturas exóticas não entram.  

Amantes de bifes à casa e escalopes com arroz e salada, quanto mais previsível é um cardápio mais depressa salivam. É vê-los, sempre em maioria, aos balcões das cervejarias onde o prato mais ousado é uma alheira com grelos, e aos magotes a atacar uma honesta travessa de costoletas à salsicheiro nas  tascas do Zé, a tresandar a cebola frita, que enchem as ruas da cidade.

Se levam uma senhora a jantar, condescendem e escolhem locais com guardanapos de pano e alcatifa, mas trata-se já de uma opção social, nada que se compare à genuína degustação de carnes vermelhas a que se entregam quando estão sozinhos e o objectivo é comer bem.

Divertidas, elas chilreavam à sua volta, numa alegria primaveril, enquanto o viam debicar o prato, sem o menor entusiasmo. No vegetariano era o único menino.

Haverá alguém que diz "Não"?

por Teresa Ribeiro, em 20.05.09

A situação é-me familiar. Peço uma informação e ainda que tenha a sorte de falar à primeira tentativa com a pessoa indicada, acabo invariavelmente em espera. Alegando que de momento não me podem atender, convidam-me a telefonar noutro dia. Seguem-se tempos de incerteza. Será que volto a conseguir falar? Se não sou bem sucedida às primeiras insistências, pergunto-me: Será essa pessoa difícil de apanhar, ou não quer simplesmente falar comigo?

A minha intuição depois tem de fazer o resto, ou seja, decidir até quando vale a pena manter a expectativa. Entretanto já terei posto em marcha um plano B. Tem de haver sempre um plano B.

Há várias razões para este comportamento das fontes: receio de ultrapassar competências, rotinas burocráticas que obrigam, por exemplo, a pedidos de autorização para falar e necessidade de apuramento de dados antes de prestar declarações. Estas resolvem-se. O pior são as que reflectem o luso pânico de assumir responsabilidades, incluindo a responsabilidade de dizer "não".

Não sei a partir de quando o hábito se generalizou, mas aos poucos, a arte de fugir a uma nega passou do redondo mundo das relações públicas para o universo do trabalho puro e duro. Foi assim que se criou o conceito de "reunião". Uma amável escapatória que permite aos decisores evitar confrontações.

Ao possibilitarem o acesso directo às fontes, os telemóveis introduziram pequenas variantes neste nosso peculiar mundo laboral. A falta de rede é apenas uma das várias desculpas que substituem palavras tão definitvas como um maravilhoso e rotundo "NÃo".

"Não estou interessado", "Não é possível", "Não autorizo" - coisa incómoda, despachar assim um assunto, evitar deste modo abrupto constelações de gente a gravitar à volta, suspensas de humores e promessas ambíguas. Suspensas, suspensas, suspensas, deslizando de dia para dia na mais fofa das dúvidas.

Num mundo onde se fala cada vez mais de rapidez e proactividade é notável como estes nossos hábitos resistem. Em tempos, uma executiva que dividia a sua carreira entre Portugal e os EUA confidenciou-me: o nosso stress é muito pior que o de lá. Nos EUA chegamos ao fim de um dia de trabalho estoirados porque fizemos muitas coisas. Aqui ficamos rebentados porque apesar do esforço não conseguimos resolver nada.

O stress é, pois, como o colesterol. Há do bom e do mau. O nosso esgota-nos a paciência, ainda por cima sem reflexos positivos nos índices de produtividade. Para quando decisores sem papas na língua e outras gorduras?


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