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Tesouros escondidos

por Cristina Torrão, em 10.07.19

A época medieval é conhecida como a “idade das trevas”, na qual o mundo esteve supostamente parado durante mil anos, até surgir o Renascimento que, redescobrindo a Cultura Clássica, fez florescer as artes e deu os primeiros passos na Ciência. Numa das minhas publicações aqui no DO, o comentador Luís Lavoura lembrou os maus costumes medievais: um homem que assassina o irmão, encarcera um outro irmão, impõe o casamento de uma filha e, no fim, um enterro três semanas após uma morte, já com o corpo em plena putrefação. Ora, recordemos que lutas fratricidas estão longe de serem um exclusivo medieval, existem desde que o Homem é Homem; e o costume de os pais imporem casamentos às filhas estendeu-se, na nossa civilização ocidental, até, pelo menos, ao século XIX. Quanto ao enterro, poderia igualmente acontecer posteriormente.

Na verdade, a Idade Média esteve longe de ser um mundo de trevas. Esquecemo-nos que foi nesse período que se desenvolveu o estilo gótico, construindo-se esplêndidas catedrais por toda a Europa. Também foi na época medieval que se fundaram as universidades europeias, a primeira, em Bolonha, no já longínquo ano de 1088 (ainda nem existia Portugal). E já que falamos de universidades, recordemos que D. Dinis, além de fundar a universidade portuguesa, instituiu o Português como língua oficial dos documentos da corte, dando um enorme contributo para a uniformização e desenvolvimento da nossa língua. Além disso, deixou-nos lindos poemas e cantigas (sim, ele também compunha). Apesar de ter sido um rei medieval, não me parece que D. Dinis tenha vivido num mundo de trevas.

Também foi na Idade Média que se redescobriu Aristóteles - no livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, que deu origem ao famoso filme, tudo gira à volta de uma obra perdida do famoso filósofo grego. E o avô de D. Dinis, D. Afonso X o Sábio, fez de Toledo um centro de cultura, com a sua Escola de Tradutores, onde reuniu estudiosos de várias proveniências (sobretudo árabes) e se traduziram, para latim e castelhano, obras árabes, assim como (ainda com a ajuda dos muçulmanos) tratados gregos de Filosofia, Astronomia, Medicina, Matemática, Geometria e outros. Também lá se traduziram a Bíblia e o Talmude para castelhano. Afonso X fundou igualmente, na mesma cidade, um Observatório Astronómico, consciente da necessidade de estudar os corpos celestes. Como vemos, a redescoberta da Cultura Clássica, assim como os primeiros passos da Ciência, não são um exclusivo do Renascimento.

A ideia que temos das igrejas românicas (mais antigas que as góticas), escuras e sem cor, é falsa. Na verdade, as suas paredes ostentavam frescos coloridos, que se perderam ao longo dos séculos, fosse em obras de remodelação, fosse no desbotar das pinturas que não eram restauradas. A esmagadora maioria desses frescos perdeu-se para todo o sempre. Mas há vestígios em algumas igrejas, que dão uma ideia da sua riqueza.

Recentemente, uma historiadora de arte italiana descobriu um fresco medieval de cores vivas e em excelente estado de conservação, na igreja de Sant'Alessio all'Aventino, nos arredores do Circo Máximo e do Coliseu, em Roma.

Cristo e Santo Aleixo.jpg

A obra, que ficou escondida atrás de uma parede durante quase 900 anos (o que contribuiu para o seu estado de conservação), retrata Jesus Cristo e Santo Aleixo. Uma parte da pintura continua escondida pela parede, que, por questões de segurança, não pôde ainda ser removida.

As igrejas medievais, afinal, tinham muita cor. E havia excelentes artistas.

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