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Delito de Opinião

O comentário da semana

«A IA, desprovida de base afectiva biológica, não pode gerar consciência»

Pedro Correia, 09.12.25

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«[Recomendo] a leitura do último livro de António Damásio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, de onde se pode concluir que a Inteligência Natural não só se sobrepõe à IA actual como também a enquadra numa perspectiva biológica e evolutiva mais profunda. A IA, na sua forma actual, depende fundamentalmente da Inteligência Natural Humana (INH) e, segundo a perspectiva de Damásio, não possui a base afectiva e biológica que ele considera essencial para a verdadeira consciência - a capacidade de ter uma perspectiva subjectiva do mundo e de si mesmo - que é a maior conquista da INH.

A IA, desprovida de uma base afectiva biológica, não pode gerar consciência no sentido damasiano. Ela pode simular respostas emocionais ou usar dados sobre emoções, mas não as sente. O "mistério da criação da Consciência" defendido por Damásio permanece inacessível à IA puramente algorítmica (para ultrapassar este postulado damasiano alguns dos criadores da IA já falam na “AGI, consciência artificial”).

Do ponto de vista de Damásio, a IA é uma ferramenta poderosa, mas é um subproduto da Inteligência Natural Humana (INH). A IA não tem a base biológica e afectiva que é a fonte da verdadeira consciência e da complexidade humana, o que a torna fundamentalmente subordinada ao domínio da INH, sendo altamente improvável que alguma vez se venha a tornar independente da inteligência natural humana.»

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 08.12.25

 

«A cada dia nos informam que a IA já nos dispensa de aulas, aprendizagens, leituras, reflexões. Ela estuda-nos, disseca-nos, arruma-nos num algoritmo e passa a trazer-nos ao sofá só o que desejamos. E as novas gerações parecem felizes com a entrega. Julgam que a vassoura será sempre escrava.»

Rodrigo Guedes de Carvalho no Expresso do dia 5

O mundo que a Inteligência Artificial está a criar*

Paulo Sousa, 05.12.25

Algures no séc. IV a.C. num diálogo entre Platão e Sócrates, que chegou até nós na obra Fedro, é referida a invenção da escrita. Taut apresenta a sua invenção** ao seu Rei Tamus e explica-lhe como dessa forma se poderá solucionar o esquecimento. O rei não fica agradado com a novidade e diz-lhe:

"Se os homens aprenderem isto, isto implantará esquecimento nas suas almas; deixarão de exercitar a memória porque confiarão no que está escrito. Não inventaste um remédio da memória, mas um remédio do relembrar; e ofereces aos teus discípulos a aparência da sabedoria, não a sabedoria verdadeira."

Já lá vão bastante mais de dois mil anos e, observando a partir do séc. XXI, é fácil de concluir que o Rei Tamus não conseguiu antecipar o alcance da invenção de Taut. Perante aquela novidade, o Rei achou que a maneira como ele próprio adquirira conhecimentos e sabedoria era a única forma de os alcançar. Métodos diferentes não levariam à “verdadeira sabedoria” mas apenas a uma “aparência da sabedoria”.

A nossa reacção perante as possibilidades que a inteligência artificial (IA) irá criar pode muito facilmente ser idêntica à do Rei Tamus. Que as pessoas deixarão de pensar por si, que ao confiarem na tecnologia perderão o espírito crítico e acabarão por ser dominadas pelas máquinas. Mesmo com receio, será impossível evitar os seus efeitos e segundo alguns estudos já sabemos que o trabalho intelectual está a baixar os anteriores níveis de remuneração. Quem já se debruçou sobre este fenómeno garante que trabalhos que exigem perícia manual, improviso, julgamento de contexto e capacidade de adaptação passarão a ser mais bem pagos do que os que exigem muitos anos de estudo e de progressão académica. Os canalizadores, electricistas, serralheiros, técnicos de reparações mecânicas e electrónicas, cuidadores de idosos, enfermeiros, cozinheiros, entre outros, estarão em vantagem perante as profissões que envolvem tarefas mais repetitivas.

A forma como adquirimos conhecimentos será também profundamente alterada. O ensino irá deixar de estar centrado no professor, enquanto “transmissor” de conhecimento, para passar a ter no seu centro o aprendiz assistido por uma IA ajustada ao seu ritmo, limitações e talento. Aprender deixará de ser acumular informação e passará a ser dominar processos.

Apesar de todas estas mudanças, algo se irá manter inalterado. A escola continuará a ser fundamental como espaço indispensável de socialização e de construção colectiva.

 

** A invenção de Taut, nos termos em que é referida nesta obra, será mais um dos inúmeros mitos clássicos, uma vez que existem registos escritos com mais de cinco mil anos.

 

* Texto publicado no jornal O Portomosense

Volta a ser necessário escolher

Sérgio de Almeida Correia, 27.05.25

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(créditos: Forbes, DPA/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES)

O problema não é novo e não se me afigura de fácil resolução.

Não há muito tempo, um artigo do Vítor Rebelo, deu-nos conta de que a Escola Portuguesa de Macau realizou um inquérito junto dos encarregados de educação no sentido de apurar qual a posição destes sobre a eventual imposição de restrições ao uso de telemóveis no interior do estabelecimento de ensino e durante os períodos escolares, sem prejuízo da sua utilização "em situações de emergência, actividades pedagógicas por indicação do professor, ou para permitir o acesso a recursos educativos e ferramentas online facilitadoras da aprendizagem". A ressalva é importante, mas não é tudo.

Depois disso, em Março, saíram notícias vindas da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau sobre a vontade de se impor um "conjunto de orientações sobre o uso de telemóveis para alunos de escolas do ensino não superior". pareceu-me bem.

E quanto a este ponto, o presidente da Associação de Pais da Escola Portuguesa de Macau (EPM), Filipe Figueiredo, manifestou a concordância da associação a que preside quanto à introdução dessas restrições, salientando, com razão, as perturbações ao comportamento das crianças e jovens que a influência e a dependência daqueles equipamentos tem causado. 

Recorde-se que, em 2023, a UNESCO recomendara que fossem banidos os telemóveis (smartphones) das escolas por constituírem uma distracção à aprendizagem.

Concordar-se-á, facilmente, que há impactos positivos, mas também alguns muito perniciosos, ao uso frequente, desregrado, incontrolado de equipamentos electrónicos. E não apenas por parte dos mais novos. O mesmo se diga quanto às ferramentas de Inteligência Artificial (IA).

Ontem, o The Guardian deu-nos a notícia de que na Estónia, considerado uma dos países mais avançados do mundo em matéria de Educação e que obteve resultados muito bons na última ronda do PISA, em 2022, ocupando os seus estudantes o  primeiro lugar em Matemática, Ciências e Pensamento Criativo, e o segundo em Leitura, se lançou um programa nacional designado "AI Leap" destinado a dotar os seus alunos e professores de ferramentas e qualificações de nível mundial em matéria de IA, programa esse que começará em Setembro. Desse modo se investirá na preparação tecnológica dos professores, enfatizando-se um modelo de aprendizagem autónomo, suportado numa ética digital, de maneira a que se dê "prioridade à equidade educativa e à literacia em IA". 

A ministra da Educação e Tecnologia da Estónia enalteceu o uso desses equipamentos, referindo que no seu país o direito de voto é exercido a partir dos 16 anos, que o exercício desse direito é estimulado para que ser feito online, recorrendo-se aos telemóveis, e acrescentando que isso contribui para a participação cívica e eleitoral, a obtenção de informação e a análise de plataformas políticas, não fazendo sentido a imposição de restrições, que transmitiriam uma ideia contraditória.

O sucesso do uso dos telemóveis, e dos resultados obtidos por aquele país, estará antes num conjunto de regras direccionadas a crianças com menos de 12 ou 13 anos, quanto ao modo como esses equipamentos deverão ser utilizados, cabendo depois às escolas a regulação do seu uso durante os intervalos e nas aulas, sempre que o professor considere que devem ser usados como auxiliares na realização de trabalhos escolares.

Segundo Kristina Kallas, o desafio está em saber se somos capazes de evoluir no sentido de nos tornamos criaturas de  pensamento mais rápido e de nível mais elevado, ou se vamos deixar que seja a tecnologia a apoderar-se da nossa consciência.

A solução não é fácil. Continua a haver todo um debate por fazer. 

A solução da proibição é a mais fácil, a mais imediata. Mas, pergunto eu, será que com a proibição se garante o sucesso?

Há que encontrar as soluções mais adequadas ao momento e procurar ir adaptando-as à medida que vamos conhecendo um pouco melhor os desafios que se nos colocam, as exigências e as consequências do uso, imoderado ou regrado, desses equipamentos e da IA.

Uma coisa é certa: não podemos permitir que seja a IA a decidir por nós. Nem ficar num grau tal de dependência que a nossa autonomia seja colocada em risco. No dia em que isso acontecer será o fim da nossa espécie enquanto seres pensantes, dotados de razão e independência.

No fundo, o que está aqui em causa é saber se seremos capazes de continuar a evoluir não perdendo razão nem autonomia. Isto é, se continuamos a ser livres ou se vamos perder essa liberdade em favor das máquinas e de quem as domina.

A escolha será decisiva e voltará a ser, não há que fugir, entre a liberdade e a tirania.