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Duas notas:

1. Quem disse que os alemães não têm sentido de humor?

2. Até se fica a perceber melhor por que é que os Monty Python nasceram no Reino Unido.

_____________

Mais a sério, uma sugestão interessante para cortar o nó górdio em que o Brexit se transformou: Inglaterra e Gales fora da UE, Escócia e Irlanda do Norte dentro da UE - e do Reino Unido.

Indignações

por Diogo Noivo, em 30.08.18

rober bodegas.jpg

Rober Bodegas 

 

O humorista galego Rober Bodegas fez uma série de piadas sobre ciganos num programa de televisão e colocou o vídeo no Twitter. A indignação voraz ateou a pira moral. Acusaram-no de discurso de ódio. Foi insultado por todos os “colectivos” possíveis e imaginários. Foi até comparado a Le Pen e a Salvini. Depois vieram as ameaças de morte. Em violenta ebulição nas redes sociais, o caso chegou às primeiras páginas dos jornais. Bodegas pediu desculpa e apagou  o vídeo da rede social. Vozes como a de Dani Acosta, humorista de etnia cigana, que alertavam para o óbvio – uma piada é uma piada –, foram olimpicamente ignoradas.

No El Pais, o escritor Andrés Barba traçou o mapa deste tipo de casos: 1) Comediante faz uma piada sobre um grupo étnico, colectivo, comunidade autónoma ou figura política; 2) Coletivo, grupo étnico ... descontextualiza o comentário e ataca em massa contra o comediante com uma violência que excede em muito a piada que o provocou e que acaba por dar à piada uma difusão que nunca teria tido de outro modo; 3) Um certo grupo de intelectuais argumenta que, embora seja verdade que a piada é de um extraordinário mau gosto, não é menos verdade que a liberdade de expressão é garantia de direitos democráticos e um dos pilares da civilização ocidental; 4) Oprimido por ameaças de morte ou pelas consequências da piada no plano laboral, o comediante dramatiza um pedido de desculpas que não sente, faz um comunicado de imprensa e reza a todos os santos para que o caso caia no esquecimento  o mais rapidamente possível.

O melhor resumo de esta e de outras indignações a propósito de textos de humor surgiu na rede que mais zurziu Bodegas, o Twitter: “não façam piadas, por favor. As piadas ofendem. Uma piada matou o meu cão e toda a minha família. Ainda recordo quando uma piada entrou pela minha janela e os matou a todos. É preciso ter cuidado com as piadas”.

The Tancos Show

por Diogo Noivo, em 18.07.18

No Público, Vasco Lourenço defende que o assalto a Tancos foi um embuste, uma “encenação político-criminal”, uma urdidura destinada a “acentuar e dramatizar ainda mais os ataques ao Governo, devido aos trágicos incêndios do Verão passado”. Tratou-se de um “cozinhado”, de um “logro”, de uma “FARSA” (assim, em maiúsculas). Sem meias-palavras, afirma que se tratou de um ataque à “Geringonça”.

Acrescenta Vasco Lourenço que “Naturalmente, não tenho como provar a minha teoria (...) mas, enquanto não me demonstrarem o contrário, o que ainda ninguém conseguiu fazer, é minha forte convicção que tudo não passou de uma farsa (...)”.

Substitua-se “a minha teoria” por “que D. Sebastião ficou em Marrocos a fumar shisha”, “que a padeira de Aljubarrota era um transformista do Conde Redondo chamado Arnaldo”, ou por qualquer outra coisa que vos venha à mente.

Como escrevi ontem, o caso de Tancos parece um sketch humorístico. Está visto que Vasco Lourenço considera que ainda há umas gargalhadas por dar.

Les beaux esprits... e tal e coisa

por João André, em 18.05.18

trump-BdC.jpg

 Os meus amigos sportinguistas (especialmente aqui no blogue) que me perdoem, mas é-me difícil resistir.

 

Espero no entanto que as coisas se resolvam depressa e com o mínimo de prejuízo para o Sporting. Zero prejuízo é já impossível.

Uma nota de humorismo.

por Luís Menezes Leitão, em 28.10.17

Como de lá fora se olha para a balcanização da Espanha.

Old Spice

por João Campos, em 21.07.17

sean-spicer-press-conference.jpg

Curioso, o timing da demissão de Sean Spicer: será apenas uma cortina de fumo para um momento particularmente bizarro (passe o eufemismo) da administração Trump, ou terá Spicer finalmente cedido aos gritos desesperados de socorro da última vértebra da sua espinha dorsal? Por um lado, e por mais tempestuosa que tenha sido a sua relação com a imprensa (passe outro eufemismo), não consigo deixar de sentir alguma simpatia pelo ex-porta-voz da Casa Branca: sempre que o vi na televisão a proferir os disparates mais inusitados fiquei com a sensação de que não acreditava verdadeiramente neles; que, algures no canto mais recôndito da sua mente, ele sabia quão absurdas eram as suas palavras e as suas acções. De resto, o contraste com o fanatismo gelado de Sarah Huckabee Sanders, com a alucinação permanente de Kellyanne Conway, e com o aspecto de Voldemort-de-trazer-por-casa do outro imbecil que emergiu há um par de meses para debitar dois ou três disparates não podia ser mais evidente. Enfim, propaganda por propaganda, prefiro aquela que seja divertida, e as declarações delirantes de Spicer sempre proporcionaram algumas gargalhadas, tanto pelo próprio como pela forma como "alimentou" momentos muito inspirados nos programas de John Oliver, Stephen Colbert, ou Trevor Noah. Enfim, ou muito me engano (e espero enganar-me), ou os norte-americanos ainda irão ter muitas saudades de Sean Spicer. 

 

Em relação ao passado, ele até pode ter razão. Mas, por favor, alguém lhe diga que o Elefante Branco fechou e o Pérola Negra já não é o que era.

Dentes-de-leão

por João Campos, em 05.10.16

No more kings. Vimes had difficulty in articulating why this should be so, why the concept revolted in his very bones. After all, a good many of the patricians had been as bad as any king. But they were... sort of... bad on equal terms. What set Vimes's teeth on edge was the idea that kings were a different kind of human being. A higher lifeform. Somehow magical. But, huh, there was some magic, at that. Ankh-Morpork still seem to be littered with Royal this and Royal that, little old men who got paid a few pence a week to do a few meaningless chores, like the Master of the King's Keys or the Keeper of the Crown Jewels, even though there were no keys and certainly no jewels. 

Royalty was like dandelions. No matter how many heads you chopped off, the roots were still there underground, waiting to spring up again.

It seemed to be a chronic disease. It was as if even the most intelligent person had this little blank spot in their heads where someone had written: "Kings. What a good idea." Whoever had created humanity had left in a major design flaw. It was its tendecy to bend at the knees. 

Terry PratchettFeet of Clay (1996)

 

Neste 5 de Outubro em que se volta a assinalar com um feriado a Implantação da República (independentemente de poder ser essa ou outra efeméride a merecer o dia de descanso), parece-me apropriado regressar a um autor muito cá de casa: Terry Pratchett. Dizer que as suas sátiras são incomparáveis no género onde situou o mundo secundário de Discworld  - a fantasia literária - seria dizer mesmo muito pouco: é muito provável que no seu auge as sátiras de Pratchett tenham sido incomparáveis, ponto (leia-se Small Gods). Poucos temas dentro e fora do género escaparam ao seu olhar atento e à sua prosa aguçada; sendo britânico, e cultor de um género literário rico em reis e rainhas, seria talvez inevitável que também a monarquia servisse de mote para alguns jogos de palavras, para umas poucas gargalhadas e para uma ou outra reflexão. Como se pode ver por este trecho retirado do décimo-nono livro da série Discworld, no qual o Comandante da Guarda de Ankh-Morpork, Samuel Vimes, se vê a braços com uma série de homicídios e com a possibilidade de a monarquia regressar àquela cidade-estado histórica (ainda não terminei a leitura e tenho evitado spoilers, pelo que para já desconheço se Lorde Vetinari, governador absoluto de Ankh-Morpork, será substituído). E na obra completa podemos encontrar outras passagens sobre o tema, como esta outra, retirada de uma nota de rodapé (as notas de rodapé de Pratchett são famosas) do quarto livro da série, Mort, publicado em 1987, e que talvez ajude a explicar a ciência subjacente ao fenómeno da sucessão: 

 

The only thing known to go faster than ordinary light is monarchy, according to the philosopher Ly Tin Wheedle. He reasoned like this: you can't have more than one king, and tradition demands that there is no gap between kings, so when a king dies the succession must therefore pass to the heir instantaneously. Presumably, he said, there must be some elementary particles – kingons, or possibly queons – that do this job, but of course succession sometimes fails if, in mid-flight, they strike an anti-particle, or republicon. His ambitious plans to use his discovery to send messages, involving the careful torturing of a small king in order to modulate the signal, were never fully expanded because, at that point, the bar closed.

 

Aos leitores, votos de um bom feriado. 

Mau Humor

por Francisca Prieto, em 30.06.16

Hoje foi dia de andar para aqui de estômago embrulhado numa difícil digestão daquelas que só as polémicas nas redes sociais são capazes de provocar.

Ora um rapaz humorista, de nome Diogo Faro, resolveu escrever uma crónica na revista Visão onde, divagando no formato dicotómico a que Miguel Esteves Cardoso brilhantemente nos habituou, abordou a temática das idas à praia dos Betos versus os Mitras.

A crónica até podia ter graça, mas não tinha lá assim muita. Repleta de lugares comuns e até de algumas incongruências, avançava pelas linhas fora ridicularizando os Lourenços versus os Fábios e as sanduíches de peru sem glutén por oposição aos papo-secos mistos e por aí fora.

Tudo isto passaria ao lado, se não houvesse pelo meio uma tirada infeliz em que o autor considerou hilariante comentar que os betos se apresentavam na praia com as suas grandes ninhadas, onde muitas vezes constavam crias com trissomia 21 que as mãe não afogavam à nascença porque ficavam óptimas nas fotos da família.

Defendo há muito tempo que não há fronteiras para o humor, excepto as do nível da graça. Ou seja, podemos fazer humor sobre aquilo que bem nos apetecer (sim, mesmo sobre o Menino Jesus ou a Madre Teresa ou os paralíticos do deserto), mas se nos atrevemos a levar o humor para temas extremos, é bom que a piadola seja mesmo hilariante. Não pode ser só uma graçola palerma.

E esta graçola do senhor Diogo Faro é tão pateta que, não tendo graça nenhuma, acaba por ser gratuitamente ofensiva para uma data de famílias que conheço que dão o litro para que os seus filhos com trissomia 21 tenham um projecto de vida capaz.

As crianças com trissomia 21 felizmente já não são remetidas para o quarto dos fundos das casas, mas também não são troféus de uma família. São só filhos. E para elas queremos um futuro igual ao que desejamos para qualquer outro filho: que sejam autónomas e felizes.

Aparecem evidentemente nas fotos de família, fazem o seu percurso em escola regular, andam na natação ou no judo ou no que bem lhes apetecer e trabalham o dobro dos outros para conseguirem metade dos resultados.

Nós estamos lá ao seu lado, como estamos para todos os filhos. Para os proteger das agruras desnecessárias, para lhes dar a mão quando calha não serem convidados para uma festa, para os ajudar nos trabalhos de casa e para garantir que, aconteça o que acontecer, venham a ter um papel relevante na sociedade.

Ao contrário do que o caríssimo Diogo Faro parodia, infelizmente há muitas famílias, de betos e não betos, que os afogam à nascença. Diz-nos a estatística que mais de 95% das crianças com trissiomia 21 ficam pelo caminho, logo ao início da gravidez, por opção dos pais. O que quer dizer que há muita gente que foge, como o diabo da cruz, de os querer ver no postal estival de família.

Mandar piadolas palermas sobre famílias que todos os dias têm de encher o peito para fazer valer os direitos dos seus filhos é uma crueldade.

Fazer humor em cima de crianças deficientes mentais é uma covardia.

Se o texto fosse de rebolar a rir, perdoava-se. O que está mal é que não era. Era só poucochinho.

Há sempre uma razão

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.06.16

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EU Referendum Local Results 2016 vs. Mad Cow Disease Outbreak Areas 1992

 

"However, it would be a mistake to jump to conclusions"

Sair da casca

por João Campos, em 26.06.16

Na RTP, promove-se a partida entre a Inglaterra e a Islândia a dizer algo do género (cito de memória): "afinal, a Inglaterra não quer sair do Euro, mas a Islândia é a favor do Brexit." Há dias, durante o jogo que opôs as selecções da Rússia e de Gales, um dos comentadores contou a história de uma actriz pornográfica que teria oferecido a um dos jogadores russos 16 horas de sexo se ele marcasse aos galeses (não marcou, evidentemente, o que só torna a cuscovilhice mais divertida). No mesmo jogo, perante a imagem de um adepto de Gales a chorar, comentou-se que ele (o adepto) ou estaria emocionado pela prestação da equipa, ou talvez tivesse apenas constatado que já não tinha trocos para a cerveja. E estes nem foram casos isolados: nos trechos promocionais dos jogos que transmite têm imperado os trocadilhos (muito secos, admita-se, mas ainda assim), as alusões humorísticas a algum contexto da actualidade, e os comentários durante as partidas têm sido marcados por inúmeras piadas e referências no mínimo invulgares às equipas, aos jogadores, aos treinadores, aos adeptos ou a outra coisa qualquer que passe pela cabeça dos comentadores de serviço.

 

É impressão minha, ou isto do europeu de futebol deu a volta ao miolo da emissora pública? Enfim, se deu, então já não era sem tempo, como se costuma dizer. Nestes dias tão sisudos é salutar ver a RTP a sair da casca e a adquirir sentido de humor. Esperemos que seja para manter, e que não se resuma a um epifenómeno suscitado por um torneio de futebol. 

O estado da arte

por Ana Vidal, em 15.06.16

O problema dos humoristas em Portugal é que são como o estado islâmico: auto-proclamam-se. Alguns, como é o caso de Rui Sinel de Cordes, vão mais longe ainda nesse fascínio e trocam graças por mísseis e bombas contra um público que, evidentemente, não reage como eles gostariam. Não percebem os auto-proclamados humoristas que escolheram a mais difícil e ingrata de todas as artes, e que fazer rir muitos é para muito poucos. E quando isso não acontece, quando fatalmente constatam o fiasco, reagem como onze virgens ofendidas e vão fazer humor, enormes e injustiçados, para o seu micro-público amante de cintos de explosivos.

 

Não percebem também outra coisa muito básica: o direito à liberdade de expressão que lhes permite violentar todas as fronteiras (as dos outros, claro) é o mesmíssimo direito que assiste a esses outros para os crucificarem depois em praça pública. A mesma praça pública, aliás, e com a mesma violência.

1. A vantagem de jogar em casa

Por fim, ensina-me a construir gaiolas para os coelhos e dá-me conselhos e indicações sobre a comida, como tratar as doenças e essas coisas. E fala-me um pouco da cobrição:

– Tens de meter a fêmea onde está o macho, e nunca o contrário. Nunca o macho onde está a fêmea.

– E por que razão? – pergunto.

– Porque aí o macho encontrará duas novidades com que se entreter, uma fêmea e um território novo. É demasiado. Ficará confuso, e isso não é nada bom nestas situações, pois, ao fim e ao cabo, é ele quem tem de tomar a iniciativa – diz o Der Warming, dando-me uma cotovelada cúmplice. – E se não acontecer nada passados dois minutos – continua -, separa-os, porque isso quer dizer que não é o momento adequado do ciclo da coelha e podem pegar-se. Na pior das hipóteses, ela pode arrancar-lhe as bolas num instante.

– A fêmea onde está o macho – repito.

– Isso mesmo; se ele jogar em casa, correrá tudo bem.

– Mas então será a fêmea que ficará confusa – digo.

– Não importa; isso até pode ser uma vantagem – diz.

 

2. Os golos metidos fora valem mais

Quando chego a casa, mostro-lhes os coelhos e, antes que eu tenha tempo de reagir, o pai junta o macho a uma das fêmeas.

– A fêmea onde está o macho – protesto – disse o Der Warming. O macho tem de jogar em casa.

– Que parvoíce – diz. – Isso não quer dizer nada se ele for um verdadeiro macho.

 

3. Saltando os preliminares e indo directamente aos penáltis

E é um verdadeiro macho. Salta logo para cima da coelha, agarra-se bem ao seu pescoço com os dentes e monta-a – aprendi que se diz assim –, para, em seguida, lançar um grunhido e cair de lado.

 

4. O nível adequado de celebração (sim, sou sportinguista)

Ela, no entanto, não parece muito afectada e continua a comer.

 

Erling Jepsen, A Arte de Chorar em Coro.

Edição Cavalo de Ferro (2016), tradução de João Reis.

 

 

Adenda: Citada na badana do livro, a opinião da crítica Lisa Garsdal, no jornal dinamarquês Politiken, acerta em cheio no alvo: Não há absolutamente nada para rir no original thriller caseiro de Erling Jepsen; simplesmente, não se consegue evitar.

No Tempo Em Que Metia o Clooney Num Chinelo

por Francisca Prieto, em 08.05.16

eu e o clooney.jpg

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Bolas, já passa da meia-noite

por José António Abreu, em 13.02.16

E nem ganhei o Euromilhões nem a Jessica Chastain se apaixonou por mim.

 

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Álvaro de Campos Revisited

por Francisca Prieto, em 30.01.16

Álvaro de Campos revisited.JPG

 

Secção de voto

por José António Abreu, em 24.01.16

Descobri que partilho a secção de voto com Rui Rio ao votarmos hoje quase em simultâneo. Ainda espreitei mas - lamento - não posso garantir que ele tenha votado em Marcelo.

Corte de cabelo e um voto nulo (mas útil)

por José António Abreu, em 23.01.16

Certa vez um cliente chamou-lhe «salão» e tanto Mário como Octávio pararam de cortar e olharam um para o outro com ar aparvalhado. «Isto é uma barbearia», resmungou Mário enquanto recomeçava a dar aos dedos. 

Trata-se de um espaço rectangular com cerca de cinco metros de comprimento por menos de três de largura. Quem entra pela porta dupla de metal e vidro, colocada numa das paredes mais curtas, depara-se com duas cadeiras de barbeiro voltadas para a esquerda, na direcção de um espelho que ocupa quase toda a área de parede acima de aproximadamente meio metro de altura. Ao lado da porta existe um bengaleiro e, ao lado deste, uma mesinha onde um rádio portátil sintonizado para a estação local debita canções pedidas por ouvintes que as dedicam a familiares e amigos. O espaço por trás das cadeiras de barbeiro é limitado, pelo que, das seis cadeiras de metal com assento e encosto forrados a napa verde-azeitona que aí se encontram, apenas as duas das pontas podem ser usadas sem que as pernas dos ocupantes compliquem a vida a Mário ou Octávio nas suas deambulações em torno dos clientes. Ao fundo, junto à porta de acesso a uma área reservada (onde presumo existir uma casa de banho), há um lavatório no qual é lavada a cabeça dos raros clientes que o desejam.

Mário é baixo, magro e usa bigode à treinador de futebol dos anos 70. Octávio é alto, tem cabelo branco em ondas que flutuam em torno da sua cabeça e uma dezena de quilos a mais. Mário é o patrão e essa circunstância está sempre implícita. Fala mais e de forma mais categórica. Octávio é o filósofo, embora um filósofo de tiradas curtas e frequentemente irónicas. Eu prefiro que seja ele a cortar-me o cabelo e ambos o sabem. Se é Mário que está disponível quando chega a minha vez, ele resmunga para o cliente seguinte: «Pode vir», o que deixa o homem indeciso, olhando dele para mim, tentando perceber se sou eu que não quero ser atendido por Mário, se é este que recusa atender-me. E, em qualquer dos casos, porquê. Contudo, apanhados de surpresa, ninguém tem coragem para expressar a dúvida em voz alta.

Apesar de lá cortar o cabelo há mais de trinta anos, sempre de dois em dois meses, sempre ao sábado de manhã, e de nunca ter mudado o estilo de corte, Octávio faz questão de perguntar: «Então como vai ser hoje?» Às vezes brinco com a ideia de lhe dizer para estar à vontade e cortar como lhe apetecer mas refreio-mo: por um lado, sou conservador, pelo menos no que respeita ao meu aspecto; por outro, julgo que os únicos estilos alternativos que Octávio e Mário conhecem são os permitidos pelos pentes das máquinas de corte.

A barbearia fica no largo municipal, vendo-se o edifício da Câmara quase em frente. No passeio estão sempre a passar pessoas. Quando no interior falta assunto de conversa, Mário (nunca Octávio) usa-as para evitar silêncios demasiado prolongados, de acordo com critérios que nunca percebi mas presumo estarem ligados ao seu estado de espírito (por vezes suporta longos períodos sem necessidade de falar, de outras parece incapaz de estar calado mais do que alguns segundos).

Hoje Mário apara os poucos cabelos existentes na cabeça de um idoso cujas feições me recordam alguém – seria funcionário na escola secundária nos tempos em que a frequentei? – enquanto Octávio me faz o corte do costume. À espera, encontra-se apenas mais um cliente, um homem franzino, com barba que parece não ser cortada há uma semana e cabelo que parece não ser lavado há três. Mário esteve a protestar contra o dinheiro injectado nos bancos, «que ainda por cima cobram cada vez mais comissões». Mas o filão esgotou-se e nos últimos trinta segundos só se ouviu Tony Carreira e o som das tesouras.

«O Antunes passa mais tempo na rua do que talho», diz Mário.

«Deve ir aos correios», diz Octávio. «Agora que deixou de receber cartas em casa.»

Octávio está entre mim e a porta e, de qualquer modo, está a dar os últimos retoques no corte do meu cabelo, pelo que não posso rodar a cabeça para ver quem passa na rua.

«O Magalhães continua a lá ir.»

«Acho que não foi, durante uns tempos.»

«Foi. Às escondidas, noutro horário.»

«Ah. Ele vai estar nas mesas de voto, desta vez?»

«Não sei. Deve estar.»

«E se acontece outra vez?»

«Pois, só a hipótese devia fazê-lo ficar em casa. Mas deve estar. Olha quem.»

Octávio pergunta-me se já chega. Digo-lhe que sim. Ele desaperta o pano branco que evita que o cabelo cortado entre para dentro da minha roupa (desconfio que os fazem a partir de lençóis velhos). Saio da cadeira.

«O que aconteceu?, pergunto.

«Não sabe?»

Digo-lhe que não faço ideia enquanto retiro uma nota de dez euros da carteira.

Naquele espaço é Mário quem conta as histórias mas, não gostando particularmente de mim, hesita. Depois decide-se.

«Toda a gente de cá conhece a história», resmunga. «Não se falou de outra coisa.» Ignoro o remoque. Ele mordisca o bigode e continua: «O Antunes está sempre numa mesa de voto. Nas últimas eleições estavam a contar os votos, tudo a correr como de costume, quando apareceu um em que alguém tinha escrito em letras grandes: 'A mulher do Antunes do talho anda metida com o carteiro'.»

Fica à espera da minha reacção. Rio-me. Por causa da história e da formulação da mensagem anónima: só numa terra destas alguém escreveria “anda metida”. Mantenha-se a decência, mesmo quando o tema são indecências.

O cliente seguinte intervém subitamente, enquanto se levanta da cadeira: «Ele chegou a ir a casa do Magalhães pedir satisfações mas não o encontrou e ainda foi insultado pela mulher. Pela mulher do Magalhães.»

«Isso é só gente a falar», diz Octávio. Estende-me quatro euros de troco, na mão aberta.

«Não», garante o homem. «A minha cunhada assistiu.»

Deixo dois euros na palma da mão de Octávio. Pergunto: «E era verdade, o que o escreveram no boletim?»

Mário funga. «Se fosse só com o carteiro…»

«Se calhar até foi ciúme», diz Octávio.

«Ele não reconheceu a letra?»

«Estava em maiúsculas», responde Mário.

«E ainda bem que não conheceu», diz Octávio. «O voto é secreto.»

Claramente, o tema já originou muitas piadas.

Mário sorri, demonstrando alegria genuína pela primeira vez. «A denúncia quase nem foi o pior. O Antunes é do PS. Sofre mais pelo PS do que pelo Benfica. E, como o boletim tinha a cruz no PS, queria que fosse válido.»

Octávio abana a cabeça, em sinal de respeito. «Pôr lá a cruz foi de mestre. Quem fez a coisa dava-se a requintes de malvadez.» Indica ao cliente seguinte que suba para a cadeira.

Despeço-me e saio. O céu está carregado mas não chove. Vou caminhando pelo passeio, em direcção a um dos cantos da praça. Ao passar junto ao talho, espreito lá para dentro. Não vejo o tal Antunes. Apenas uma mulher baixa e gorducha, com mais de cinquenta anos. Deve ser uma funcionária. 

Estudo conclui: não há mulheres heterossexuais.

Governo de iniciativa presidencial liderado por António José Seguro.


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