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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (73)

Tutora dos bastardos

Cristina Torrão, 21.01.26

Livro Dinis e Isabel.jpg

A 21 de Janeiro de 1298, D. Dinis fez de D. Isabel tutora de três dos seus filhos bastardos - Pedro Afonso, Afonso Sanches e Fernando Sanches -, para o caso de morrer antes dela e da maioridade dos filhos. Li algures que tal atitude seria um abuso, só permitido pelas qualidades de santa da rainha. Na verdade, porém, a aceitação de filhos do rei fora do casamento, pela rainha sua esposa, não era tão rara como isso, um pouco por toda a Europa. Dependia muito dos casos e das circunstâncias. Muitos desses filhos, reconhecidos pelo pai, eram educados e integrados na corte. Como vemos, já nesses tempos, a família tradicional nem sempre era o modelo. 

A vida conjugal de D. Dinis e de D. Isabel levanta algumas interrogações. Apesar de terem estado mais de quarenta anos casados, só tiveram dois filhos, nascidos nos primeiros anos da união. Especular sobre as razões, não nos leva a lado nenhum. No entanto, sabendo ser a missão principal de uma rainha gerar o herdeiro do trono e tendo conhecimento da profunda religiosidade de D. Isabel, usei a hipótese, no meu romance, de ela ter optado pelo celibato, depois de ter dado à luz o infante D. Afonso, considerando a sua missão cumprida. Notemos que a infanta D. Constança nasceu apenas um ano antes do irmão. E, depois dele, não veio mais nenhum!

Inverti, assim, um pouco os papéis. Apesar de não lhe agradarem as aventuras do marido, não era propriamente D. Isabel a pessoa mais amargurada, neste casamento. Era, sim, D. Dinis. Ao ver-se casado com uma "santa".

 

Nota: a capa do livro de Mário Domingues serve apenas para representar o casal. É interessante verificar que D. Dinis surge aqui parecido com a reconstrução do seu rosto, feita a partir do seu crânio.

Um ano com D. Dinis (72)

Transferência do Estudo Geral

Cristina Torrão, 15.01.26

Em Janeiro de 1307 (não se sabe o dia) fez-se o primeiro pedido de transferência, de Lisboa para Coimbra, do Estudo Geral das Ciências, percursor da Universidade.

O Estudo Geral tinha sido fundado em Agosto de 1290, em Lisboa, através da bula De Statu Regno Portugaliae, emitida pelo papa Nicolau II. Poucos anos depois, iniciaram-se conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que D. Dinis doara para a construção do edifício, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. No meu romance, tentei dar uma explicação plausível:

O Estudo Geral, porém, continuava a ser um problema bicudo. A contestação dos escolares aumentava, pois a Casa da Moeda instalara-se definitivamente naquele que havia sido o seu edifício e o rei ainda não conseguira disponibilizar os terrenos para a construção de um novo. As querelas descambavam, muitas vezes, em autênticas zaragatas, que se alargavam à população residente à volta do bairro dos estudantes. Estes, por seu turno, reclamavam do monarca a protecção especial que Nicolau IV lhes havia destinado. E Dinis ponderava a transferência do Estudo Geral. Custava-lhe afastá-lo de Lisboa, mas a situação tornava-se insustentável.

Considerava a hipótese de Coimbra. O Estudo Geral teria de se situar obrigatoriamente numa cidade, já que era o bispo quem concedia o grau de licenciado aos estudantes. Santarém e Leiria, por exemplo, não sendo assento episcopal, possuíam apenas o estatuto de vila. Em Portugal, havia apenas nove cidades, tantas, quantos os bispos: a Braga arquiepiscopal à cabeça, seguindo-se Lisboa, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Guarda, Évora e Silves.

A transferência para Coimbra foi autorizada pelo papa Clemente V em 26 de Fevereiro de 1308. No entanto, a Universidade mudaria de local várias vezes, entre Lisboa e Coimbra, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego mais de dois séculos depois da morte de D. Dinis.

À altura da Fundação do Estudo Geral das Ciências de Lisboa, já existiam as Universidades de Paris, Oxford, Cambridge, Nápoles, Pádua, Montpellier e Salamanca, todas fundadas na primeira metade do século XIII. Bolonha, a mais antiga, foi fundada ainda no século XII.

Estátua D. Dinis Coimbra.jpg

Estátua de D. Dinis, em Coimbra

Um ano com D. Dinis (71)

O neto chamado Dinis

Cristina Torrão, 12.01.26
 

D. Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

Porém, as desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves. D. Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses. 

A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho?*

O pequeno infante Dinis morreria com cerca de um ano de idade, cumprindo o mesmo destino de um seu irmão, chamado Afonso, nascido em 1315.

Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto, nas vésperas do primeiro aniversário do pequeno. Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo (...) Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome?*

Dos sete filhos do futuro D. Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho, futuro rei D. Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319.

 

Pedro I.jpg

D. Pedro I, neto de D. Dinis 

 

* Excertos do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

Um ano com D. Dinis (69)

701º aniversário da morte de D. Dinis

Cristina Torrão, 07.01.26

D. Dinis faleceu a 7 de Janeiro de 1325, com sessenta e três anos, sendo aclamado seu filho Afonso IV rei de Portugal.

O Rei Lavrador teve um reinado preenchido. Durou quarenta e seis anos, dos quais cerca de quarenta terão sido felizes, pois o soberano estava, desde o início, perfeitamente vocacionado para a sua tarefa, sentindo-se, por assim dizer, como peixe na água.

Os últimos anos foram, porém, marcados pela guerra civil contra o seu próprio herdeiro, o que muito o amargurou e tanto desgastou, que o conflito bem pode ter acelerado a sua morte.

Conforme sua vontade, D. Dinis foi sepultado no mosteiro de Odivelas, mandado construir por ele próprio.

Túmulo jacente.jpg

O estado degradado em que se encontrava a sua sepultura, levou um grupo de cidadãos a criar uma página no Facebook, a fim de alertar quem de direito para a necessidade da sua recuperação.

A iniciativa foi um sucesso! O túmulo foi inteiramente restaurado, foi feita uma reconstituição do rosto de D. Dinis (contestada por muitos, sem razão, diria eu; explico aqui, porquê), e foram apurados vários elementos para estudo, entre os quais, a espada funerária.

A descoberta desta espada foi mesmo uma sensação arqueológica mundial. Agitou a comunidade internacional, tanto de profissionais, como de entusiastas e amantes da época medieval. Trata-se de uma espada lindíssima, que, espero, esteja a ser restaurada (pelo menos, assim estava planeado) e dará informações preciosas sobre a arte e a estética medievais ibéricas.

Espada Funerária.jpg

No ano passado, o do 700º aniversário da sua morte, estavam, aliás, previstas várias iniciativas:

Está prevista uma "exposição itinerante dedicada à divulgação dos resultados do Projecto de Conservação e Restauro do Túmulo D. Dinis, a inaugurar a 18 de Abril". Vai ainda haver um "Congresso Internacional, a decorrer dias 27 e 28 de Junho, no Mosteiro de Odivelas", e vai ser lançado um "livro monográfico/catálogo que reunirá o conjunto de estudos interdisciplinares desenvolvidos", com data prevista em Outubro.

Não sei se todos este planos foram cumpridos. Se sim, não tiveram o impacto que calculava, pois não dei conta de nada. Interessava-me, sobretudo, o "livro monográfico/catálogo". Será que existe? E, claro, a apresentação da espada, em todo o seu esplendor.

Enfim, muitos projectos se atrasam, no nosso país. Aguardemos, pois!

O desmoronar de mitos

Mais vale tarde do que nunca

Cristina Torrão, 18.12.25

Através da RTP-Play, vi ontem o primeiro episódio da série "Visita Guiada" dedicado a D. Afonso Henriques e que, na televisão portuguesa, foi transmitido a 6 de Outubro passado. Com a colaboração do Professor e Historiador Luís Carlos Amaral, da Universidade do Porto, vi com satisfação confirmadas muitas das informações que vou divulgando nas minhas Rapidinhas de História.

As quatro mais importantes:

1 - A ligação de D. Teresa à nobreza galega não possuía apenas um aspecto sentimental. D. Teresa seguia um plano ambicioso: pretendia reconstituir o antigo reino da Galiza, que pertencera a seu tio Garcia, e que incluía os condados Portucalense e o de Coimbra. D. Teresa entendia que este reino fazia parte da sua herança.

2 - D. Afonso Henriques recebeu de seus pais um condado organizado e forte, situação conseguida ao longo de trinta e quatro anos: governo conjunto de D. Teresa e D. Henrique - dezoito anos; governo de D. Teresa viúva - dezasseis anos.

3 - Não está historicamente provado que, à altura de São Mamede, já houvesse um projecto de reino português.

4 - Em Zamora, em 1143, o imperador Afonso VII, primo de Afonso Henriques, não o libertou da ligação vassálica, ou seja, ficou comprometida a independência de Portugal.

Muito mais haveria a dizer sobre a desmontagem de vários mitos que duraram séculos e que o Estado Novo realçou e divulgou (e se têm mantido para além dele).

Quem tiver interesse, pode ver este episódio aqui:
https://www.rtp.pt/play/p14841/e879958/visita-guiada