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Todos crescemos com histórias de deuses, demónios e anjos, de terras de oiro, fontes de juventude, animais monstruosos e homens capazes de feitos de tão grande heroísmo que os elevaram muito acima do comum dos mortais.
Quem não se lembra do panteão de deuses imortais e semideuses valorosos que decoram as raízes étnicas de todos os credos e culturas?
Quem nunca ouviu falar no heroísmo e tenacidade da padeira de Aljubarrota, de Rómulo e Remo, de Robin Hood, Wilhelm Tell, Paul Bunyan ou Hans Brinker?
São lendas e mitos que fazem parte da história, porque afinal a história trata de compilar, avaliar e verificar todo o tipo de informação transcorrida desde que o conhecimento existe. Existe história em tudo, e tudo e todos fazemos parte da história com maior ou menor grau de relevância.
Há a história que nos contam os antigos, que a ouviram de outros que a sabiam porque alguém mais velho lhes contou; é a tradição oral de quem conta um conto, tão enraizada no folclore dos homens desde que existem em grupos nómadas ou sedentários.
Todas as histórias juntas perfazem a história que estudamos nos livros das escolas, colégios e universidades. A história de alguns, de muitos, de todos e a sua influência no Mundo para ter chegado ao dia de hoje nos moldes em que o conhecemos.
Por fim, há a história viva. São aqueles factos ou pessoas que não passaram à história, só porque fizeram parte dela. Não há muita gente que tenha sobrevivido à sua história. Pessoas maiores são diferentes e normalmente as diferenças assustam e o resultado é eliminá-las antes que aniquilem a nossa forma de vida. Aconteceu há mais de 2000 anos na Galileia.
O tempo é implacável e o mundo vai perdendo todos os dias pedaços vivos da sua história, da história dos homens, aqueles que viveram e fizeram História.
Pena que muitas pessoas que deixaram marca no tempo, enquanto são vivas, caiam no esquecimento com tanta facilidade e só se volte a falar nelas quando morrem. Como só a morte lhes pudesse dar a devida grandeza.


D. João II (1481-1495) e D. Pedro V (1853-1861) em notas de banco: dois reis muito populares
Em quase 800 anos, Portugal teve 34 reis. Trinta e dois titulares e dois monarcas consortes - casados com as rainhas que asseguravam a chefia do Estado, primeiro Maria Francisca (1777-1816), depois Maria da Glória (1834-1853).
Mas de rainhas falarei noutro dia. Hoje interessa-me mencionar nomes masculinos. E anotar que bastaram três deles para crismar metade dos nossos reis. Houve seis Afonsos (nos séculos XII, XIII, XIV, XV e XVII). João, outros seis (séculos XIV, XV, XVI, XVII, XVIII e XIX). E cinco Pedros (séculos XIV, XVII, XVIII e XIX).
Seguiram-se os três Filipes durante a união dinástica, entre 1580 e 1640, com o nosso país submetido à soberania castelhana.
Três outros nomes surgem em duplicado. Houve dois Sanchos (séculos XII e XIII), dois Fernandos (séculos XIV e XIX) e dois Manuéis (séculos XV-XVI e XX).
A lista completa-se com estes oito: Dinis (1279-1325), Duarte (1433-1438), Sebastião (1557-1578), Henrique (1578-1580), José (1750-1777), Miguel (1828-1834), Luís (1861-1889) e Carlos (1889-1908).
Foi quanto bastou. Pode concluir-se que quase todos estes nomes continuam muito populares entre os portugueses. A excepção será Sancho, agora menos frequente. Mas João, Duarte, Afonso e Miguel incluem-se entre os dez ainda hoje mais escolhidos (os outros são Francisco, Lourenço, Vicente, Tomás, Gabriel e Santiago).
Dos 34, quatro eram estrangeiros. Os Filipes, naturalmente - embora Filipe I (1580-1598), em estrito rigor, fosse luso-flamengo-espanhol: seu pai, o imperador romano-germânico Carlos V, era natural da Flandres e sua mãe, D. Isabel, foi a primeira filha do nosso D. Manuel I. Chegou a ser considerada a mais bela mulher do seu tempo.
Sophia de Mello Breyner alude a ela num célebre poema, "Meditação do Duque de Gándia sobre a Morte de Isabel de Portugal": «Nunca mais / A tua face será pura limpa e viva / Nem o teu andar como onda fugitiva / Se poderá nos passos tecer. / E nunca mais darei ao tempo a minha vida.»
Embora natural de Valladolid, o primeiro Filipe teve o nosso idioma como língua materna e viveu dois anos em Portugal (1581-1583). Seu filho e neto homónimos mantiveram uma relação muito mais fria e distante com o reino lusitano.
O quarto estrangeiro que se sentou no trono português era austríaco: D. Fernando II. Obteve o título de príncipe real ao casar-se aos 19 anos com a Rainha D. Maria II, em 1836, sendo designado Rei no ano seguinte, ao nascer o primogénito do casal, futuro D. Pedro V. Foi um genuíno português de adopção, tendo deixado bem claro o seu amor ao nosso país nas mais diversas circunstâncias até falecer, aos 69 anos, em 1885.
Poderia ter havido monarcas portugueses com outros nomes?
Pelo menos dois.
D. Jorge (1481-1550), filho bastardo de D. João II. O pai sonhou vê-lo no trono mal ocorreu a trágica morte do herdeiro legítimo, o príncipe D. Afonso, em 1491, com apenas 16 anos. Mas a Rainha viúva, D. Leonor, impediu tal sucessão: seria o seu irmão, D. Manuel I, a suceder ao Príncipe Perfeito.
D. Teodósio (1634-1653), Príncipe do Brasil - título criado em sua honra. Era o primogénito de D. João IV, tendo sido educado para suceder ao pai. A sua morte prematura, com apenas 19 anos, impediu tal desígnio. O que seria trágico não apenas para a família, mas para Portugal: Afonso VI, o monarca seguinte, era mentalmente incapaz e acabou por ser destituído de funções.
Mas a História é o que é, não aquilo que gostaríamos que fosse.

Não pode haver melhor data do que esta para um feriado verdadeiramente nacional - aquele em que se alicerça e fundamenta a nossa História.
A emancipação de Portugal ficou garantida em 5 de Outubro de 1143 num tratado firmado em Zamora por D. Afonso Henriques e D. Afonso VII, rei de Leão e Castela. O nosso primeiro monarca recusou prestar vassalagem ao vizinho, seu primo. O reino português deixava de ser condado, emergindo como nação livre e soberana.
Há quase 900 anos. Poucos países podem orgulhar-se de ter uma história tão longa, fronteiras tão estáveis e uma língua tão difundida pelo globo, embora maltratada no rectângulo europeu.
Celebremos, pois.
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A solução dos dois estados em 1494.
Eis a pergunta que, por imperativo moral, devemos fazer hoje: estaríamos contra ou a favor dos polacos em Setembro de 1939?
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Martin Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)
Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.
Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: «Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra.»
Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King. «Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade», declarou* o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Nobel da Paz.
No tempo de Lincoln ainda não havia Nobel. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura.
Um ideal que lhe custou a vida: viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos EUA e no mundo.
* Cumprem-se hoje 62 anos

Nos meus primeiros tempos na Alemanha, tive receio de "desaprender" o meu inglês e passei a ler quase só livros nessa língua. Um dia, o meu marido chegou a casa com um romance histórico de Sharon Penman. Nenhum de nós conhecia a autora, mas ele tinha deparado com o livro em promoção e resolveu oferecer-mo.

Posso dizer que este livro mudou a minha vida. Apaixonei-me logo pela escrita desta autora. E, até hoje, ainda não encontrei melhor, em matéria de romances históricos. Além disso, foi ela que me levou a igualmente escrever este tipo de ficção.
Sharon (Kay) Penman não se limita a narrar os acontecimentos, ela puxa-nos para o meio da acção. É facílimo identificarmo-nos com as suas personagens. Não há vilões, nem santos, nos seus livros. Há pessoas, com todos os seus lados, bons e maus. Sharon Penman revela uma lucidez invrível sobre a natureza humana.

Depois de ler seis livros dela (alguns, duas vezes) estive cerca de vinte anos afastada das suas obras. Em fins do ano passado, descobri, na minha estante, um romance ainda por ler: Time and Chance, o segundo volume de uma saga de cinco, sobre a família de Henrique II de Inglaterra e Leonor da Aquitânia. Peguei nele. E "a febre" voltou. Soube que Sharon Penman tinha entretanto falecido, mas não descansei enquanto não arranjei os três volumes que me faltavam. A sua aquisição provocou-me um entusiasmo raramente sentido, em matéria de livros.

Leonor da Aquitânia e Henrique II provocaram alterações profundas, na Europa medieval. Naquela altura, o rei de Inglaterra era igualmente duque da Normandia. Henrique II, o primeiro rei Plantageneta, herdou ainda de seu pai os condados de Anjou e da Bretanha e, por casamento com Leonor, tornou-se conde de Poitou e duque da Aquitânia. Era, porém, vassalo do rei de França, por esses territórios, criando uma situação bizarra. Por um lado, muita da França actual pertencia-lhe, possuía inclusive mais terras do que o próprio monarca francês. Por outro, custava-lhe, como rei de Inglaterra, ser vassalo do de França. Para complicar mais ainda, Luís VII tinha sido o primeiro marido de Leonor da Aquitânia. O casal conseguiu o divórcio e Leonor foi, até hoje, a única mulher a ser rainha de França e de Inglaterra. Mas a rivalidade entre os dois "maridos" foi uma constante, enquanto viveram.
Leonor e Henrique fundaram uma das dinastias europeias mais poderosas: os Plantagenetas, que regeram sobre a Inglaterra durante cerca de 300 anos. Além disso, foram pais de dois dos mais famosos monarcas europeus: Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra.
Conhecemos estas personagens, sobretudo, através dos filmes e séries sobre Robin dos Bosques. Essas narrativas nada têm a ver com a verdade histórica. Não há a mínima referência a essa figura, nas vidas de Ricardo e João. Aliás, Robin dos Bosques é uma personagem mítica, nem se sabe se existiu. E, no caso de ter existido, quando viveu.
Henrique e Leonor tiveram oito filhos. Três eram raparigas, uma delas casou com Afonso VIII de Castela. Dos cinco rapazes, um morreu em criança, mais dois ainda jovens. Por isso, à altura da morte do pai, apenas Ricardo e João eram vivos. Dez anos os separavam.
Admira-me que a saga desta família ainda não tenha sido filmada. Nada ficaria a dever à Guerra dos Tronos, com as suas intrigas, rivalidades e guerras constantes. Depois de cerca de quinze anos de casamento, a forte paixão entre Henrique e Leonor foi-se transformando em ódio. Os dois guerrearam-se e instigaram os filhos a tomarem posição, ou contra o pai, ou contra a mãe, conforme os casos. Ricardo era o preferido de Leonor e lutou sempre contra o pai. A situação chegou a tal ponto, que Leonor esteve presa durante dezasseis anos, por ordem do marido. Mas sobreviveu-lhe, apesar de ser dez anos mais velha. Leonor viveu mais de oitenta anos. Assim que o marido morreu, Ricardo Coração de Leão, feito rei, ordenou a libertação da mãe.

Túmulos de Henrique II e Leonor da Aquitânia, na Abadia de Fontevraud*
Ricardo e João odiavam-se, apesar de o mais novo ter ficado a tomar conta do trono inglês, quando o Coração de Leão partiu para as cruzadas (este é o fundo verdadeiro das histórias de Robin dos Bosques). João cobiçava a coroa. E esta acabou mesmo por lhe cair no regaço! Ricardo morreu, com cerca de quarenta anos, atingido por uma flecha. O grande guerreiro, que regressara das cruzadas com uma fama inigualável, acabou por perecer numa luta "menor", uma escaramuça contra um seu vassalo francês.

Túmulo de Ricardo Coração de Leão, na Abadia de Fontevraud*
João nem acreditava na sua sorte. Ricardo não deixou descendentes, apesar de ter sido casado. Terá tido um filho ilegítimo, mas ainda não esclareci esse aspecto, pois ainda não li a saga toda. Aliás, a sua vida sexual é objecto de especulações. Diz-se que se interessava mais por guerra do que por mulheres e, claro, põe-se a hipótese de ter sido homossexual.
João Sem-Terra (assim apelidado por ter sido o mais novo de todos os irmãos, com poucas hipóteses de conseguir herança) ficou conhecido por ter assinado a Magna Charta, considerado assim o "pai" da representação parlamentar. De resto, perdeu todos os territórios franceses pertencentes ao progenitor e quase lhe escapava igualmente a coroa inglesa. Mas foi ele quem deu seguimento à dinastia Plantageneta.
Viajo regularmente de carro entre a Alemanha e Portugal. Na zona de Tours, vejo a placa mencionando a Abadia de Fontevraud e, muitas vezes, penso ser uma pena passar ali tão perto e não a ir visitar. Lá se encontram os túmulos de Leonor da Aquitânia, Henrique II, Ricardo Coração de Leão e Isabel de Angoulême, que foi rainha de Inglaterra, por ter sido casada com João Sem-Terra.

Perante o túmulo de Ricardo Coração de Leão*
Agora, que ando a ler esta incrível saga, não pude deixar de ir. E senti a emoção de finalmente conhecer pessoas que admirava há muito tempo. Foi uma experiência única.
Uma palavra para a ironia de Ricardo e Isabel de Angoulême jazerem lado a lado. Depois de enviuvar do rei João, Isabel já tinha cinco filhos, mas apenas cerca de trinta anos de idade. Regressou à sua terra-natal e casou com o conde de Lusignan, de quem teve mais oito filhos. E acabou por ficar sepultada em Fontevraud, na altura, um dos maiores centros religiosos franceses.

Túmulos de Isabel de Angoulême e Ricardo Coração de Leão, na Abadia de Fontevraud*
O rei que não deixou descendência ficou, para a eternidade, ao lado da cunhada, a esposa do irmão que odiava. O certo é que Isabel de Angoulême foi mãe, avó, bisavó, trisavó, etc. dos reis que regeram sobre a Inglaterra, por mais de dois séculos.
João Sem-Terra está sepultado na catedral inglesa de Worcester, que visitei em 2003.

Túmulo de João Sem-Terra (John Lackland) na Catedral de Worcester*
Nota: há apenas um livro de Sharon Kay Penman traduzido em português: Quando Cristo e os Seus Santos Adormeceram, o primeiro volume desta saga, sobre a guerra civil inglesa, travada entre a mãe de Henrique II, a imperatriz Maude, e o seu primo, o rei Estêvão (Stephen).
*Fotografias de autoria de Horst Neumann.

D. Afonso Henriques: só ele e mais dois monarcas portugueses ultrapassaram os 70 anos de idade
Fiz há dias uma investigação sumária, por mera curiosidade, sobre os 34 monarcas que reinaram durante quase nove séculos em Portugal e cheguei a uma conclusão inesperada: só oito morreram mais velhos do que a minha actual idade.
A morte prematura foi uma constante no trono português, em qualquer das dinastias. E a esperança média de vida, em vez de aumentar, foi diminuindo. Basta anotar que o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, foi também um dos que viveram mais tempo - faleceu em 1185, aos 76 anos. Enquanto o último, D. Manuel II, morreu com apenas 42, em 1932.
Destas cabeças coroadas, apenas uma chegou a octogenária: D. Maria I, falecida aos 81 anos. De pouco lhe valeu a longevidade física: passou o último quarto de século de vida como doente mental.
Septuagenários, apenas três. Além do fundador do Reino de Portugal, já mencionado, D. João I chegou aos 76 anos e Filipe I (luso-espanhol e o primeiro de três que durante seis décadas ocuparam simultaneamente os tronos em Madrid e Lisboa) morreu aos 71. Ninguém mais.
Ser monarca, na História de Portugal, parece ter implicado quase sempre falta de saúde. Até reis sexagenários, tivemos poucos. Eis o registo, por ordem cronológica: D. Afonso III (falecido aos 68 anos), D. Afonso IV (66), D. Henrique (68), Filipe III (60), D. João V (60), D. José (62) e D. Miguel (64).
Os nove monarcas da Dinastia Afonsina, entre 1143 e 1383, viveram em média 54 anos. A Dinastia de Avis, entre 1385 e 1580, teve oito reis, com 51 anos como idade média. Seguiu-se o domínio filipino, de 1580 a 1640: três cabeças coroadas, 58 anos anos de longevidade média. Superior à da Dinastia de Bragança, que se estendeu de 1640 a 1910: 14 monarcas, sem ultrapassar os 50 anos como idade média.

Não faltaram óbitos abaixo dos quarenta. Segue a lista, pela mesma ordem a contar do início: D. Afonso II (37 anos), D. Sancho II (38), D. Fernando I (37), D. Sebastião (24), D. Pedro IV (35), D. Maria II (34) e D. Pedro V (24).
Por causas muito variadas: D. Afonso II morreu com lepra, D. Duarte (46 anos) e D. Manuel I (52 anos) com peste. D. Afonso VI (40 anos) e D. Pedro IV foram vitimados pela tuberculose. D. João III (55 anos) e D. José sucumbiram a tromboses. D. Maria II (retratada na imagem ao lado) morreu de parto e seu primogénito, o malogrado D. Pedro V, enlutou os súbditos ao desaparecer muito jovem, com febre tifóide. Tinha a mesma idade do infeliz D. Sebastião, um dos dois reis portugueses que sofreram morte violenta, tendo perecido na batalha de Álcacer-Quibir (1578). Já no século XX (1908), D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço. Tinha 44 anos.
Há fortes suspeitas de que pelo menos três acabaram envenenados: D. Fernando I em 1383, D. João II em 1495 (40 anos) e D. João VI em 1826 (58 anos).
Vidas breves, em grande parte. Vidas trágicas, em vários casos. Quase todas davam séries ou filmes de pendor dramático.

D. Manuel II, último Rei português, faleceu em 1932 com apenas 42 anos

Lula com Putin em Moscovo: vénia do ex-opositor da ditadura brasileira ao tirano russo
Lula da Silva, vergonhosamente, foi um dos 29 dirigentes internacionais que ontem compareceram ao beija-mão a Putin na Praça Vermelha, assinalando o chamado Dia da Vitória. Ocasião aproveitada pelo ditador russo, com descarado despudor, para comparar a guerra defensiva que a URSS travou contra a Alemanha nazi à actual "operação militar especial" iniciada em Fevereiro de 2022 pelo Kremlin contra a vizinha Ucrânia, em flagrante violação do direito internacional.
Ver Lula e Putin no mesmo palco é chocante, embora não surpreendente. O antigo opositor à ditadura brasileira presta agora vénia a um dos maiores déspotas do planeta, que oprime e escraviza não apenas o povo russo: quer fazer o mesmo às nações vizinhas.
A Praça Vermelha costuma atrair péssima gente. A 1 de Maio de 1941, noutro desfile, apareceram ali outros convidados: oficiais de alta patente da Alemanha hitleriana, então aliada da União Soviética de Estaline no esmagamento de diversos Estados europeus. Da Polónia à França. Passando por Checoslováquia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Luxemburgo, Estónia, Letónia, Lituânia, Finlândia.
Berlim e Moscovo haviam-se aliado em 23 de Agosto de 1939, o que esteve na origem imediata da II Guerra Mundial. Estreita cumplicidade só quebrada a 22 de Junho de 1941, quando Hitler deu ordem à sua tropa para invadir a URSS.
Cinquenta e dois dias antes, nesse 1.º de Maio moscovita, ainda figuravam como sorridentes comparsas no estrangulamento de outros povos. Vale a pena ver o filme desse dia. Para que a infame aliança comuno-nazi não se dissipe no nevoeiro da memória colectiva.
Hoje é dia apropriado para lembrar um dos mais notáveis discursos políticos do século XX. O chamado Discurso da Paz, proferido por John Fitzgerald Kennedy a 10 de Junho de 1963 na Universidade Americana, em Washington.
Disse o malogrado presidente dos Estados Unidos, que cinco meses depois seria assassinado em Dallas:
«Que paz ambicionamos? Não a Pax Americana, imposta no mundo pelas nossas armas de guerra. Nem a paz dos cemitérios nem a segurança da escravatura. Falo da genuína paz - a paz que torna viável a vida na Terra, a paz que dá esperança às nações e lhes permite obter melhor vida para as gerações mais jovens, e não apenas trazer paz aos americanos, mas paz para toda a humanidade. Não apenas paz para o nosso tempo, mas paz para todos os tempos.»
Princípios, ideais, valores. Que diferença entre estas palavras e as que dominam as notícias de hoje, centradas num despudorado materialismo que a pretexto da paz só visa validar o esbulho de bens alheios e estrangular nações soberanas.