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Delito de Opinião

Sobreviventes da II Guerra Mundial

Centenários ou nonagenários, ex-combatentes que ainda estão connosco

Pedro Correia, 17.05.24

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                                                         Dick Van Dyke                                 Mel Brooks

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                                                    Ray Anthony                                             Edgar Morin

 

Alan Bergman, compositor e letrista, galardoado com quatro Emmys, três Óscares e dois Grammies - incluindo para melhor canção (The Way We Were, 1973). Veterano do exército norte-americano. 98 anos.

Charles Burrell, guitarrista de jazz, trabalhou com Billie Holiday, Charlie Parker, Duke Ellington, Lionel Hampton e Count Basie. Combateu na marinha norte-americana. 103 anos.

Dick Van Dyke, actor consagrado em filmes como Mary Poppins (1964) e Chitty Chitty Bang Bang (1968). Prestou serviço na força aérea. 98 anos.

Earl Holliman, actor norte-americano. Mentiu a respeito da idade para se inscrever na marinha durante a guerra. Participou em filmes como O Gigante, ao lado de James Dean e Elizabeth Taylor (1956). 95 anos.

Edgar Morin, antropólogo, filósofo e sociólogo, autor de livros muito influentes, como Paradigma Perdido (1973). Combateu como tenente nas forças da resistência francesa. 101 anos.

Jimmy Carter, antigo presidente norte-americano (1977-1981). Ingressou na Marinha durante a II Guerra Mundial, quando se inscreveu na Academia Naval. 99 anos.

Józef Hen, escritor e dramaturgo polaco. Membro do exército que lutou contra a Alemanha hitleriana com apoio soviético. 100 anos.

Lee Adams, letrista de teatro musicado na Broadway, vencedor do Prémio Tony pela peça Bye Bye Birdie (1961). Combateu no exército norte-americano. 99 anos.

Mel Brooks, realizador, actor e produtor norte-americano. Célebre por filmes como Frankenstein Júnior e Balbúrdia no Oeste (1974). Participou na Batalha das Ardenas. 97 anos.

Ray Anthony, trompetista e compositor, último sobrevivente da mítica banda de Glenn Miller. Serviu na marinha norte-americana durante a guerra. 102 anos.

Ray Marshall, economista, assumiu a pasta governamental do Trabalho durante o mandato presidencial de Jimmy Carter. Combateu na marinha norte-americana. 95 anos.

Robert McGinnisdesenhador e ilustrador norte-americano, autor de numerosas capas de livros e cartazes de filmes célebres como Boneca de Luxo Barbarella. Serviu na marinha. 98 anos.

Roland Dumas, político socialista francês, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros (1984-1986; 1988-1993) e ex-presidente do Tribunal Constitucional. Participou na resistência. 101 anos.

Tom Copeland, antigo presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (1970-1971). Serviu no teatro de guerra europeu como comandante de carros de combate. 100 anos.

William Russell, actor britânico. Participou em séries televisivas muito populares no Reino Unido e em filmes como A Grande Evasão (1963) e Super-Homem (1978). Prestou serviço na Royal Air Force. 99 anos.

As palavras também têm história

Pedro Correia, 23.04.24

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Palácio Quintela, em Lisboa, onde Junot instalou o seu quartel-general em 1807

 

Muitas vezes não fazemos a menor ideia da origem de algumas das expressões coloquiais que usamos. Mas vale a pena investigar de onde vêm e como se foram generalizando.

Várias remontam ao tempo das invasões francesas, na primeira década do século XIX. Uma das mais frequentes relaciona-se com a chegada do general Jean-Andoche Junot a Lisboa, à frente do exército napoleónico, quando ainda se avistavam no horizonte as velas da frota que conduzia a família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 30 Novembro de 1807. Ficou, portanto, a ver navios.

Portugal acabou por ser devastado pelas tropas gaulesas, que aqui praticaram as maiores atrocidades. Mas Junot, indiferente às situações de penúria e de miséria provocadas pelos invasores também em Lisboa, instalou-se no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, com despudorada ostentação, vivendo à grande e à francesa.

Um dos generais que o acompanharam na invasão, Louis Henri Loison, tornou-se tristemente célebre pela ferocidade com que tratava os portugueses que tinham o azar de lhe surgir ao caminho. Por ter perdido o braço esquerdo numa batalha, logo recebeu a alcunha de Maneta. A partir daí, quando alguém se envolvia numa situação complicada ou perigosa, passou-se a dizer que iria pr'ò Maneta.

Derrotados na batalha do Vimeiro em Agosto de 1808, após o desembarque de forças britânicas em Portugal, Junot e as suas tropas retiraram-se para França após encherem navios de tudo quanto puderam na sequência de incontáveis actos de pilhagem em igrejas, palácios e bibliotecas - num dos maiores atentados desde sempre cometidos ao património nacional. Zarparam assim, de armas e bagagens.

 

Duzentos anos depois, os ecos das invasões francesas perduram no nosso vocabulário corrente. Porque também as palavras têm história.

Os discípulos de Chamberlain

Pedro Correia, 17.04.24

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Neville Chamberlain cumprimentando Hitler em Munique (1938)

 

É comum ouvir-se por estes dias, a propósito da política de canhoneira aplicada por Vladimir Putin na Ucrânia, um conceito desenterrado dos mais bafientos baús da História.

Que conceito é esse? O de "apaziguamento".

 

Em síntese, os defensores desta tese recomendam a atitude dos três macaquinhos da fábula: há que vendar os olhos, cobrir os ouvidos e emudecer perante sucessivas violações do direito internacional para não indispor os prevaricadores. Se for preciso inverte-se até o ónus da prova, transformando o agressor em agredido e o agredido em agressor. Como o Grande Irmão de Orwell, que instituiu um Ministério da Verdade para melhor disseminar as mentiras enquanto incentivava as massas a urrarem o mais cruel e acéfalo dos paradoxos: «Guerra é paz!»

Não há nada de original nisto. Quando escuto os apóstolos do apaziguamento recordo-me sempre do mais infausto e patético de todos os primeiros-ministros britânicos: Arthur Neville Chamberlain. Céptico perante os aliados, crédulo perante os inimigos. De uma granítica intransigência face às vozes que o alertavam contra os riscos do compromisso a todo o preço, sempre pagos mais tarde a custos elevadíssimos. E de uma benevolência sem limites face à ofensiva totalitária.

De tanto querer a paz, na sua indesmentível boa fé, facilitou o caminho aos promotores da guerra. Da mais sangrenta, devastadora e homicida das guerras.

 

Recordo em particular o acalorado debate na Câmara dos Comuns travado a 25 de Junho de 1937 -- em que, não por coincidência, foi invocado várias vezes o nome de Portugal.

Era a primeira vez que Chamberlain ali discursava sobre política internacional desde que fora empossado como chefe do Governo conservador britânico, no mês anterior. E logo ali ficou bem patente o seu anseio em levar à prática uma política de "apaziguamento" com as feras totalitárias que faziam da guerra civil espanhola terreno experimental para um incêndio muito mais vasto que não tardaria a deflagrar no mundo.

Comentando a aparente resignação de Berlim na sequência do recente afundamento de um navio alemão ao largo da costa espanhola, o antecessor de Churchill não hesitou em elogiar o regime de Hitler por «ter demonstrado um grau de moderação que devemos reconhecer». O massacre de Guernica, cometido pela tenebrosa Legião Condor, ocorrera dois meses antes...

Incapaz de ler os sinais da História, Chamberlain pedia «cabeça fria» no Parlamento britânico e recomendava aos próprios jornalistas que «medissem as palavras» para não ferir as susceptibilidades dos inimigos da democracia. E rematou assim, cego perante as evidências: «Se todos formos prudentes, pacientes e cautelosos seremos capazes de salvar a paz na Europa.»

 

O antigo primeiro-ministro liberal David Lloyd George respondeu-lhe da melhor maneira. Observando sem rodeios que Hitler violara já três acordos internacionais subscritos pelo Estado alemão. Ao inutilizar o Tratado de Versalhes (1919) reintroduzindo o serviço militar obrigatório. Ao rasgar o Pacto de Locarno (1925), invadindo e remilitarizando a Renânia. E ao transformar em letra morta o Acordo de Não-Intervenção na Guerra Civil de Espanha (1936), disponibilizando instrutores, armamento e aviação a Franco.

E Lloyd George retorquiu a Chamberlain: «Precisamos de cabeças frias, sim, mas também de corações fortes.»

Solidários com os que sofrem as agressões, não com aqueles que as praticam. E aprendendo sempre com as lições da História.

Brilhante estratego, fraco profeta

Henry Alfred Kissinger (1923-2023)

Pedro Correia, 30.11.23

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Teve uma vida cheia - e lúcida e activa até ao fim. Morreu ontem, tranquilamente, na sua casa do Connecticut. Já centenário, há quatro meses fez uma última visita a Pequim, onde foi recebido por Xi Jinping, que o enalteceu como amigo perpétuo da China.

Catedrático emérito da Universidade de Columbia, talvez o maior especialista em política internacional nos escalões dirigentes norte-americanos da última metade do século XX, Henry Alfred Kissinger, nascido em Maio de 1923 na Alemanha e radicado na América desde 1938, levou uma perspectiva europeia ao Departamento de Estado. Antecipando o que mais tarde, na viragem do milénio, sucederia com Madeleine Albright durante a administração Clinton.

Como conselheiro especial do presidente Richard Nixon, de quem se tornou braço direito para a política internacional, com prolongamento para a administração Ford, subiu tão alto quanto lhe era possível em Washington. Foi o primeiro judeu a desempenhar as funções de secretário de Estado - terceiro posto na hierarquia do Executivo. Faltou-lhe apenas ter sido candidato à presidência, o que lhe estava constitucionalmente vedado por não ter nascido com a nacionalidade norte-americana.

 

Este europeu transposto para o Novo Mundo era herdeiro directo dos "realistas" que retalharam o mapa mundi ao longo de um século -- da Convenção de Viena, em 1815, à cimeira de Versalhes, em 1919. Com duas convicções básicas: nenhum país tem aliados permanentes, só interesses permanentes; e não haverá vencedores em guerras na era atómica. Assim promoveu o degelo nas relações entre Washington e a China comunista primeiro e com a União Soviética logo a seguir. As duas mais espectaculares acções norte-americanas das últimas décadas na política externa.

Legou-nos detalhadas memórias em três volumes e várias obras ensaísticas dissecadas nos circuitos universitários e nas chancelarias internacionais, além de conquistarem leitores fiéis entre os cidadãos comuns. Diplomacia, por exemplo, é um trabalho académico de grande fôlego, confirmando o autor num patamar de erudição muito superior ao da média entre a elite política no seu país adoptivo.

 

A originalidade de Kissinger, nos salões e gabinetes de Washington, radicou-se na sua visão da política externa americana inspirada nos cem anos anteriores dos meandros da diplomacia europeia. Também influenciado, naturalmente, por circunstâncias da sua biografia pessoal: ter nascido numa família hebraica entre as duas guerras mundiais e conhecer a experiência totalitária não em abstracto mas no concreto. O regresso à Alemanha devastada pela guerra, enquanto cumpria o serviço militar já como cidadão norte-americano e exerceu funções de tradutor nas forças armadas, levou-o a perceber como são débeis os pilares daquilo a que chamamos civilização e como se havia tornado irrisória a influência europeia nos destinos mundiais.

A sua tão propalada realpolitik limitou-se, no fundo, a seguir os trilhos abertos por Ialta, na cimeira que dividiu o globo em esferas de influência. O planeta multipolar dos nossos dias, com emergentes potências de âmbito regional, baralhou toda a lógica anterior, que a geração de Kissinger preferia, pois a política de blocos, ideologicamente antagónicos mas perfeitamente identificáveis, assegurou meio século de relativa paz em diversas regiões do globo.

Consumado xadrezista, Kissinger valorizava na política externa as linhas de continuidade estratégica em função das quais as alianças entre nações assumiam uma geometria variável ditada por conveniências tácticas. A aproximação simultânea de Washington a Moscovo e Pequim, sob o seu comando, aconteceu como via de exploração das divergências entre russos e chineses que à época fracturavam o mundo socialista e acabaram por disputar as boas graças dos EUA.

Neste aspecto foi hábil sucessor dos mestres da diplomacia oitocentista na Europa, desde logo Metternich, e opositor da visão messiânica dos Estados Unidos na promoção das boas práticas democráticas à escala planetária.

 

Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, Kissinger adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível - para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.

Há que lembrar, de qualquer modo, que se revelou fraco profeta em relação a Portugal, ao vaticinar em 1975 que o nosso país sucumbiria a uma "ditadura comunista" capaz de funcionar como "vacina" para o conjunto da Europa. E não esqueço o aval, directo ou indirecto, que deu aos generais indonésios para invadirem Timor.

Era uma figura compreensível no contexto da Guerra Fria - e sobretudo à luz desse contexto merece ser valorizada. Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, teste em que provavelmente muitos dos seus antecessores e alguns dos seus sucessores falhavam.

Israel e Palestina, as causas de um conflito

jpt, 02.11.23

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Já aqui deixei nota que - com a minha vetusta idade, a qual me permite lembrar de Moshe Dayan, Golda Meir e Yasser Arafat -, não tenho qualquer disponibilidade para escutar/ler os doutos que  na imprensa se afadigam a explicar o que se passa lá no longínquo Mediterrâneo.
 
Mas tenho solidariedade e piedade. Solidariedade com as vítimas dos estrategas do fascismo palestino. E, concomitantemente (que bela articulação retórica me sai aqui), com as dos "falcões" israelitas - esses que desta não se safarão durante as próximas décadas. E julgo que após ter exarado esta profunda opinião, arguto diagnóstico da situação, o mundo melhorará.
 
E tenho piedade - cristã, a do cristianismo ateu - por tantos dos meus compatriotas (ou de países aliados) que têm enchido o meu Facebook com as suas aceradas opiniões, quase sempre comprovadas com indiscutíveis fontes bibliográficas ou filmográficas.
 
Entre estes há os mais arqueológicos, que se desdobram na partilha de "mapas étnicos" dos tempos bíblicos - comprovando que os "judeus" já então eram os "donos da terra", assim julgando resolver as coisas de hoje. E há os mais sociológicos, incansáveis na proclamação da justeza das reclamações históricas da também imorredoira "nação palestiniana". Gentes futebolistas, estas minhas ligações-FB, sempre adeptos fervorosos sobre tudo o que mexa, seja qual for o campeonato em causa, fiéis ao mandamento do grande holigão René Descartes, fundador da claque do Paris-St. Germain, e autor do lendário lema "Torço, logo existo!".
 
Entretanto, sobre o continuado confronto entre israelitas e palestinianos, no canal Sic Notícias, no programa Toda a Verdade, está a ser transmitido este esplêndido documento "A Origem de um Conflito". Tem três episódios, são transmitidos a cada domingo (dá para recuar e ir ver). Já passou o segundo. É muito recomendável.
 
Mas será, também, um desperdício de tempo para judeófilos e para palestinianófilos. Para esses recomendo o canal Onze - que está porreiro. Em especial o aprazível programa "Sagrado Balneário", charlas sobre velhas histórias dos jogadores e treinadores de futebol,

Nos passos de Vlad Dracul

Ana CB, 27.10.23

Uma das personagens mais evocadas nesta época de Halloween (importação que parece ter vindo para ficar) é sem dúvida o Conde Drácula, o famoso vampiro à volta de quem gira a história do livro homónimo de Bram Stoker. Para criar o seu protagonista o escritor inspirou-se vagamente na figura de Vlad Dracul, que foi voivode (príncipe) da Valáquia no séc. XV. Mas sabiam que Stoker escreveu o seu livro sem nunca ter postos os pés na Roménia? E quem foi realmente Vlad Dracul? Entre o mito e a realidade, os factos confirmados e aqueles cuja genuinidade permanece incerta, vou contar um pouco da sua história, numa visita guiada pelos locais que permanecem ligados à sua memória.

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SIGHIŞOARA

 

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Sighişoara é uma das cidades mais bonitas da Roménia, e presume-se que foi nesta casa situada no coração do centro histórico que Vlad Dracul III nasceu, algures entre 1428 e 1431, e viveu até aos quatro anos de idade. Deram-lhe o mesmo nome do pai, apesar de ser o segundo filho. Dracul significa “dragão”, sobrenome que o seu pai recebera ao tornar-se membro da Ordem do Dragão, uma Ordem fundada pelo Imperador Segismundo em 1408, na Transilvânia, para proteger o Cristianismo no leste europeu.

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P1480214 assin.jpgA casa é actualmente um restaurante, sempre muito concorrido devido ao “folclore” que existe à volta da figura histórica de que foi berço, mas consta que a qualidade da comida não é exactamente proporcional à sua fama.

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TÂRGOVIȘTE

 

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Târgoviște era na época a capital do voivodato da Valáquia, razão pela qual a família Dracul se mudou para aqui quando Vlad Dracul pai conseguiu ascender ao trono da Valáquia, em 1436. Foi por isso aqui que Vlad filho viveu grande parte da sua infância.

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Depois de o seu pai e irmão mais velho terem sido assassinados, Vlad reclamou para si o principado, mas apenas conseguiu mantê-lo durante dois escassos meses em 1448 até ser obrigado a refugiar-se fora da região. Em 1456 voltou a atacar a província e retomou o trono da Valáquia. Correu entre os habitantes o rumor de que era o seu pai que tinha regressado do mundo dos mortos para os proteger, e presume-se que seja esta a origem provável do mito da imortalidade de Vlad Dracul. Desta vez conseguiu manter o seu domínio durante seis anos. A Valáquia era disputada pela Hungria e pelos otomanos, pactos e alianças faziam-se e desfaziam-se à velocidade da luz, e as traições eram constantes. A violência era moeda corrente na época, mas consta que os métodos de Vlad para instigar respeito e terror excediam o habitual. Quando o exército do sultão Mehmet II entrou em Târgoviște em meados de 1462, a cidade estava deserta mas o cenário com que depararam era dantesco: milhares de cadáveres de homens, mulheres e crianças estavam empalados em grandes estacas cravadas no chão, formando uma floresta macabra de carcaças em estágios de decomposição variados. A sua brutalidade valeu-lhe o nome pelo qual passou a ser depois conhecido: Vlad Țepeș (Vlad, o Empalador).

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Do palácio real (Curtea Domnească) de Târgoviște restam hoje apenas ruínas. Mas o conjunto monumental que pode agora ser visitado tem outros motivos de interesse, sendo um deles o actual ex libris da cidade: a torre Chindia, que foi mandada construir pelo próprio Vlad Dracul III.

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FORTALEZA DE POENARI (CETATEA POENARI)

 

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O castelo de Poenari tem as suas origens no séc. XIII, mas encontrava-se em ruínas quando Vlad Țepeș decidiu aproveitar o seu potencial defensivo e transformá-lo numa fortaleza quase inexpugnável. Quase, mas não completamente, pois nem ela conseguiu resistir aos avanços dos Otomanos no final do seu segundo reinado, tendo Vlad sido obrigado a fugir por uma passagem secreta com acesso às montanhas a norte. Diz a lenda que a sua mulher se suicidou atirando-se das muralhas, apavorada pelo receio de ser selvaticamente maltratada pelos turcos – a violência desmedida não era um exclusivo do seu marido. Situada perto de Arefu (em pleno coração da fabulosa Transfăgărășan), a 860 metros de altura, a fortaleza de Poenari é basicamente uma muralha – e em termos práticos, um “ninho de águia” que obriga a subir mais de 1400 degraus para lá chegar. Só para corajosos…

 

CURTEA VECHE

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Na Roménia, Vlad Țepeș é considerado um herói nacional. Em flagrante contraste com a imagem sanguinária descrita na maioria dos textos da época que sobreviveram até aos nossos dias – escritos por saxões e turcos, há que notar, que eram os seus maiores inimigos – as narrativas tradicionais romenas apresentam-no como um apoiante dos camponeses contra os traiçoeiros boiardos e um intrépido defensor do seu principado contra o Império Otomano. É provavelmente por isso que o encontramos representado em bustos esculpidos um pouco por todo o lado – e Bucareste não é excepção.

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O Palácio Real Velho fica mesmo no centro histórico de Bucareste e foi mandado construir de raiz por Vlad II Dracul. Vlad Țepeș, que era o seu segundo filho, ocupou-o durante o segundo reinado, entre 1456 e 1462. A partir dessa altura passou a ser a residência real oficial, estatuto que só perdeu no séc. XVIII. Hoje em dia funciona como museu, fazendo parte do núcleo do Museu Municipal de Bucareste.

 

CASTELO DE BRAN

 

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É irónico que o local na Roménia mais associado ao Drácula de Bram Stoker seja aquele que menos (ou talvez mesmo nada) tem a ver com Vlad Dracul III. Stoker nunca visitou a Roménia, e presume-se que tenha aproveitado uma ilustração do castelo de Bran mostrada num livro de Charles Boner para descrever o castelo do Conde Drácula, uma vez que mais nenhum castelo romeno se lhe assemelha.

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Situado a poucos quilómetros da turística cidade de Brașov, na Transilvânia, o castelo de Bran está construído – como seria de esperar – no topo de uma elevação junto à localidade com o mesmo nome, rodeado de vegetação. A Transilvânia só passou a fazer parte da Roménia depois da Primeira Guerra Mundial, e em 1920 os cidadãos de Brașov decidiram unanimemente oferecer o castelo de Bran à Rainha Maria, que o restaurou e passou a usar como residência real.

A ténue ligação que o castelo de Bran talvez possa ter com Vlad Țepeș remonta a 1462, quando o príncipe foi capturado pelo exército do rei húngaro e, segundo consta (mas não está provado sem sombra de dúvida), ali terá ficado encarcerado durante dois meses.

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MOSTEIRO DE SNAGOV

 

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Vlad voltou a conquistar a Valáquia novamente em 1476, mas também desta vez o seu reinado foi de curta duração. Mais uma vez atacado pelos turcos, foi morto perto de Bucareste em Dezembro do mesmo ano. A História diz que a sua cabeça foi enviada a Mehmet II, em Constantinopla. Já quanto ao local onde foi sepultado, a controvérsia mantém-se até aos nossos dias – outra coisa não seria de esperar um homem cuja vida deu azo a tanta celeuma. A versão mais difundida é que foi enterrado no mosteiro de Snagov, situado numa ilhota no lago que leva o mesmo nome.

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O lugar é tranquilo e muito bonito. A apenas cerca de 40 km a norte de Bucareste, é um local privilegiado de veraneio para os habitantes da capital.

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Recentemente, os historiadores levantaram a hipótese de Vlad Țepeș ter de facto sido sepultado no Mosteiro de Comana, por se encontrar mais próximo do local onde ocorreu a batalha em que foi morto.

 

Do que não restam dúvidas é que o príncipe da Valáquia morreu mesmo, embora a memória colectiva se tenha encarregado de o guardar para a posteridade. Por mera coincidência ou ironia do destino, o Drácula de Bram Stoker terá certamente dado uma “ajudinha”.

 

(Post já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Êxodos, massacres, genocídios e omissões

Pedro Correia, 26.10.23

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Crianças arménias refugiadas em 1915: o primeiro genocídio documentado do século XX

 

Também em matéria de "catástrofes humanitárias" (como agora tantos dizem, numa tradução imbecil do 'amaricano') há umas mais iguais do que outras.

A Arménia, lá nos confins do Cáucaso, sem jornalismo nem "activismo" nas redondezas, pode ser chutada para o rodapé pelo supremo responsável da segurança global (atenção: as cinco anteriores palavras são em registo irónico).

 

Convém nunca esquecer que os arménios sofreram o primeiro genocídio documentado dos tempos modernos. Há pouco mais de cem anos, cerca de milhão e meio foram massacrados pelo já decadente Império Otomano, avô da Turquia actual - incluindo deportações e assassínios em massa.

Seguiu-se o tenebroso Holodomor - a condenação de um povo inteiro à morte pela fome. Neste caso ucranianos, submetidos à mais cruel pena capital colectiva pela URSS de Estaline em 1932/1933.

 

Massacres étnicos originaram também grandes êxodos - de dezenas de milhões de pessoas. É outro dramático legado do século XX.

Entre 1944 e 1949, 1,7 milhões foram expulsos da Polónia para a Ucrânia - e vice-versa.

Após 1945, cerca de 8 milhões de alemães foram evacuados dos chamados "territórios de Leste" para o perímetro da actual fronteira alemã - e, depois, muitos fugiram da RDA para Ocidente.

O desmembramento do Hindustão britânico originou entre 1947 e 1951 o êxodo cruzado de 15 milhões de pessoas da União Indiana para o Paquistão - e vice-versa. Nessa traumática jornada entre fronteiras recém-estabelecidas, terão morrido cerca de dois milhões de pessoas.

O genocídio ocorrido no Camboja submetido ao domínio totalitário comunista de Pol Pot, entre 1975 e 1979, custou pelo menos dois milhões de vidas humanas.

A disputa pelo enclave que acaba agora de mudar de mãos no Cáucaso originou em 1994 a deslocação forçada de cerca de 400 mil arménios e de mais de um milhão de azeris.

Menos expressivo, mas não menos doloroso, foi o êxodo ocorrido em Chipre na sequência do golpe ilegal ali protagonizado pela Turquia em 1974 que dividiu a ilha até hoje: 200 mil gregos e 60 mil turcos desalojados.

Viria a acontecer, em escala maior, nas guerras dos Balcãs da década de 90 - ainda cheia de chagas por cicatrizar.

E no Ruanda, na sanguinária guerra civil de 1994: cerca de um milhão de mortos em apenas três meses apenas por pertencerem à "etnia errada" (tútsis, sobretudo).

Sem esquecer a guerra no Sudão, culminada na "limpeza" étnica no Darfur, em 2003: pelo menos 2 milhões de mortos e 6 milhões de refugiados nos vinte anos seguintes. Primeiro genocídio documentado deste já tão triste século XXI.

 

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Guterres na fronteira entre Gaza e o Egipto (20 de Outubro)

 

Existirá, nos casos de grandes êxodos, uma figura da justiça internacional denominada "direito ao regresso" dos desalojados, apenas invocada no caso da Palestina?

Fica à consideração dos especialistas.

Ao secretário-geral da ONU nem é preciso perguntar: dirá logo que sim. Num reflexo condicionado semelhante ao que no passado dia 20 o levou a mostrar-se aos repórteres do lado da fronteira egípcia com Gaza numa arenga cheia de bonitas frases humanitárias que esqueceram os mais de 200 reféns israelitas e de outras nacionalidades levados à força pelo Hamas, em circunstâncias bárbaras.

Também se peca por omissão. Eis um destes casos.

O obsceno riso de Estaline

Pedro Correia, 05.09.23

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Só há pouco tempo, observando pela enésima vez as fotos do infame pacto Molotov-Ribbentrop (assinado em Moscovo a 23 de Agosto de 1939, dando carta branca a Berlim para abocanhar a metade ocidental da Polónia) percebi o que mais me choca nestas imagens. É o facto de Estaline, amável anfitrião, ser o mais risonho em todas elas. O tirano soviético sabia que aquele acordo entre a Rússia comunista e a Alemanha nazi era muito mais do que um pedaço de papel: ali tinha início a II Guerra Mundial - o maior cataclismo bélico registado na História, com cerca de 50 milhões de cadáveres.

Vinha aí um morticínio feroz. O carcereiro dos povos da União Soviética tornava-se, naquele momento, o maior colaboracionista de Hitler - «estrelas gémeas», como lhes chamou Trótski do seu exilio mexicano.

«Durante vários anos, todos os oposicionistas na Rússia foram perseguidos e executados como supostos agentes do nazismo. Depois disto, Estaline juntou-se a Hitler numa estreita aliança», denunciou o autor d' A Revolução Traída num longo artigo publicado em Dezembro de 1939 - admirával análise, a vários títulos.

 

Sabendo que iria sacrificar de imediato 23 milhões de polacos e rasgar avenidas para o avanço incendiário das hordas germânicas no continente europeu, o déspota do Kremlin ria-se.

É um riso obsceno, quase insuportável de ver tantos anos depois. Mas adequado a alguém que proclamava: «A morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de um milhão de pessoas é uma estatística.»

Ler (24)

História sem teias de aranha e cheia de alusões a Portugal

Pedro Correia, 22.07.23

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Este é o género de livro que abre o apetite para o estudo da História. Escrito por Arturo Pérez-Reverte, que se distinguiu como grande jornalista e excelente repórter de guerra e é hoje um dos mais notáveis romancistas espanhóis. Um livro original: lembra factos históricos do país vizinho - desde muito antes de a actual Espanha se chamar assim - e desenrola-os como se colasse cromos numa caderneta. Comentando com frequência cada acontecimento ou cada episódio de modo sarcástico. Estabelecendo por vezes contrastes com o momento presente.

Faz-nos sorrir, faz-nos pensar.

Esta obra, Una Historia de España, é redigida em vários tons, conforme se sucedem os temas e as épocas - do melancólico ao agreste, do empolgante ao desencantado. Típico de quem ama intensamente o seu país, por mais pragas que lhe rogue. Eis um exemplo: «A Carlos III sucedeu o imbecil do seu filho, Carlos IV» (p. 111) Uma pátria é assim mesmo: como alguém da nossa família. Com quem nos alegramos, com quem nos zangamos, com quem nos reconciliamos. Alguém que nos toca sempre.

Título do primeiro texto: "Tierra de conejos". Eis os nove seguintes (seguem no original, para não se perder a expressiva verve castelhana): "Roma nos roba"; Rosa, rosae. Hablando latín"; "Roma se va al carajo"; "El puñal del godo"; "Y nos molieron a palos"; "Um niño pijo de Oriente"; "Moros y cristianos"; "Una frontera de quita y pon"; "Llegan más moros". O último, não por acaso, chama-se "Epílogo Triste, O No".

 

Falando do passado, fala-nos também do presente. Em diálogo permanente com o leitor: parece fácil, mas não é. Com um talento só ao alcance dos melhores escritores.

Alguns excertos - tradução minha - caracterizam a terra e as gentes: «A inveja, poderoso sentimento nacional» (p. 57); «A marca de Caim, que todo o espanhol transporta na sua memória genética» (p. 64); «Nisto de darmos tiros no próprio pé, aos espanhóis sempre nos parece pouco» (p. 87); «Napoleão deu-nos como presente envenenado a devolução do rei mais infame de que há memória» (p. 123); «A velha e turva Espanha, pródiga em rancores, nunca esquece os seus ajustes de contas» (p. 163); «Espanha seria um país estupendo se não estivesse cheia de espanhóis» (p. 181); «Ninguém se suicida historicamente com tão enternecedora naturalidade como um espanhol com uma arma na mão e uma opinião na língua» (p. 246).

 

Portugal é várias vezes mencionado: contei 15 referências. Destaco duas.

«Herdeiro de Portugal inteiro (sua mãe, a belíssima Isabel, era princesa de lá) após fulminar os discordantes na batalha de Alcântara, Filipe II cometeu, se me permitem esta opinião pessoal e intransmissível, um dos maiores erros históricos nesta secular balbúrdia em que tão mal vivemos: em vez de mudar a capital para Lisboa - antiga e senhorial - e dedicar-se a cantar fados contemplando o Atlântico e as possessões da América, que eram o esplêndido futuro (calculem o que somavam os impérios espanhol e português, juntos sob a mesma coroa), o nosso timorato monarca enclausurou-se no centro da Península, no seu mosteiro-residência do Escorial, gastando o dinheiro que vinha das possessões ultramarinas hispano-lusas, além dos impostos com que sangrava Castela.» (p. 74)

«Marginalizados, inundados de impostos, desatendidos nos seus direitos e pagando também o preço nas suas possessões ultramarinas acossadas pelos piratas inimigos de Espanha, com um império colonial próprio que em teoria lhes fornecia abundantes recursos, em 1640 os portugueses decidiram recuperar a independência após 60 anos sob domínio espanhol. Vão àquela parte, disseram. Assim proclamaram o rei João IV, antes duque de Bragança, dando início à guerra, longa de 28 anos, em que se acabou por capar o porco» (p. 94).

 

Li de um fôlego Una Historia de España na versão original. Ainda antes de haver tradução portuguesa. De imediato senti que gostaria imenso de ver obra semelhante produzida entre nós. Sobre a nossa História, tão desprezada e tão esquecida.

Poderia algum dos nossos prosadores mais consagrados descer do pedestal da verborreia lusa, espanejar teias de aranha e conseguir algo semelhante?

Havia um, mas infelizmente já cá não está: Vasco Pulido Valente. Seria um livro adequado à pena dele.

O Conde de Ferreira

jpt, 31.05.23

Há 11 anos José Capela publicou o livro "Conde de Ferreira e Cª: Traficantes de Escravos", colecção de biografias de comerciantes de escravaturas ("negreiros") do século XIX. Quando ele morreu deixei no "Canal de Moçambique" esta muito breve recensão a esse livro (e a outro que ele publicara no ano seguinte, uma verdadeira pérola: "Delfim José de Oliveira..."). Foi uma espécie de homenagem minha, pois Soares Martins (de pseudónimo Capela) fora muito importante na minha vida e tinha (e tenho) para ele uma enorme gratidão. E um grande respeito intelectual, também (mas não só) por ter passado décadas a vasculhar documentos e a publicar, sem pejo nem adornos, sobre como o comércio de escravos foi estruturante no pré-colonialismo português em Moçambique. E como isso moldou as características do subsequente regime colonial - apesar das tralhas lusotropicalistas e lusófonas que vão subsistindo, já para não falar das dulcificadas invocações dos "bons velhos tempos", que tanto misturam as normais (e respeitáveis) memórias individuais de juventude com pronunciamentos de cariz sociológico. Enfim, talvez com um bocadinho de exagero, mas cheguei aos 50 anos com a sensação de que se tive algum "maître à penser" acabou por ser ele... sem que isso possa macular a sua memória devido às atoardas que vou botando. Mas já estou a divagar, avante,
 
Nesse "Conde de Ferreira..." Capela deixou explícito que vários desses comerciantes de escravos regressaram do Brasil mais ou menos após a ilegalização da actividade e se integraram na sociedade do novo regime liberal (e o financiaram), usando as doações beneficientes para ascenderem socialmente. Nisso também patrocinando instituições que ainda existem (misericórdias, hospitais, etc.).
 
Sei agora por intermédio do historiador João Pedro Simões Marques que aconteceu o que eu esperava há já anos - os cirugiões plásticos da História descobriram o Conde de Ferreira (tão presente por esse Portugal afora, ainda que quase ninguém saiba quem foi). E o "Público" (claro) já está em ardores de expurgar as tais instituições dessa memória...
 
Eu continuo na minha, ao que consta na documentação da época (ainda que um pouco posterior) o malvado D. Pedro I não só castrou um aio devido aos seus ilegítimos actos sexuais (um antecessor do prof. Ventura e seus acólitos, está visto) como matou por mãos próprias uns esbirros do seu pai (e terá até comido parte do coração de um deles, a crer ou no cronista ou na colecção de cromos a que tive acesso). E apesar de tudo isso, que tanto agride os actuais valores, continua ali, plantado no centro do nosso Mosteiro de Alcobaça, como símbolo de amor, ainda por cima. Não será, mesmo, de acabar o que os franceses começaram, e rebentar-lhe com a tumba? Ou, pelo menos, retirá-la dos nossos olhos, evitar aquele elogio à memória da ditadura, da pena de morte e da castração por infidelidade amorosa (invertida ou não)?

A frase que falta

Pedro Correia, 10.05.23

 

«Je parle. Il le faut bien. L’action met les ardeurs en oeuvre.

Mais c’est la parole qui les suscite.»

Charles de Gaulle, Mémoires de Guerre

 

Às vezes basta uma frase. Uma simples frase pronunciada no momento certo. Charles de Gaulle pronunciou várias que passaram à história. Dois exemplos: «A França perdeu uma batalha mas não perdeu a guerra», em Londres (1940); «Viva o Quebeque livre!» , em Montreal (1967).

Mas aquela em que mais tenho pensado nestes dias foi pronunciada em Argel, no dia 4 de Junho de 1958, na varanda da sede do governo geral daquele que era então o mais emblemático território ultramarino francês. «Je vous ai compris»", bradou o general, ovacionado pela multidão compacta na praça, nas ruas e nos edifícios fronteiros.

 

A França encontrava-se numa das suas horas mais difíceis, à beira da guerra civil, quando a decrépita classe política parisiense fora chamá-lo dias antes à sua aldeia para salvar o país, pela segunda vez em duas décadas. A guerra da Argélia e um surto imparável de conflitos sociais ameaçavam tornar ingovernável o país que De Gaulle resgatara dos nazis apenas 14 anos antes.

Uma das primeiras decisões do general foi viajar a Argel. Cerca de um milhão de franceses viviam então em território argelino, devastado pelos sangrentos conflitos entre os militares enviados de Paris e a guerrilha da Frente de Libertação Nacional, que reivindicava a independência.

Os franceses argelinos, na sua esmagadora maioria (incluindo Albert Camus, galardoado meses antes com o Nobel da Literatura), queriam manter a ligação à pátria-mãe que remontava a 1830, mesmo conscientes dos horrores da guerra e das fracturas que o conflito da Argélia provocava na sociedade gaulesa. E foi isso mesmo que exprimiram a De Gaulle naquele dia de Junho numa das manifestações mais participadas de que há memória.

O general, escutando a voz da rua, proclamou: «Compreendo-vos.» Foi acolhido com um imenso vozear de aplauso por todas aqueles que, sem o saberem, engrossariam em breve a longa legião de derrotados da história.

 

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Há hoje as versões mais desencontradas sobre o real significado desta frase que confirmou De Gaulle como efémero herói dos pieds noirs, os intransigentes da Argélia francesa (muitos dos quais argelinos de terceira ou quarta geração).

Uns admitem que se deixou contagiar pela efervescência da multidão e lançou aquele grito como símbolo de adesão simbólica à união franco-argelina sob a bandeira tricolor.

Outros enaltecem-na como símbolo supremo do cinismo em política: no fundo, De Gaulle dizia uma coisa enquanto pensava o seu contrário, como se veria quatro anos mais tarde, ao impulsionar os acordos de Evian que abririam caminho à independência da Argélia, sob a liderança da FLN, e ao impressionante êxodo de centenas de milhares de franceses forçados a dizer adeus a uma terra a que chamavam sua.

Há ainda quem sugira que o general se limitou a exprimir, de forma inconsciente, uma evidência: o carácter irredutível dos franceses que viviam na Argélia tornaria mais dolorosa mas não menos inevitável a via da negociação entre Paris e a guerrilha argelina rumo à independência.

 

Todos concordam no entanto que esta frase, fossem quais fossem as reais motivações do recém-designado chefe do Governo francês (que ascenderia meio ano depois ao Palácio do Eliseu), permitiu a De Gaulle ganhar tempo, ampliar a sua margem de manobra e congregar um apoio popular sem o qual não lhe teria sido possível fazer ressurgir a França do caos em que mergulhara devido à irresponsabilidade dos políticos da IV República.

Bastou uma frase, muito mais ambígua do que parecia. E às vezes é isso mesmo que falta: uma frase. É sempre nos pormenores que devemos procurar o segredo da diferença entre vitória e derrota em política.

Os nomes de reis e presidentes

Pedro Correia, 17.03.23

  

 

Ao longo de 770 anos da monarquia portuguesa, houve apenas 16 nomes no cargo supremo do Estado – 15 masculinos e um feminino.

Concretamente, sentaram-se no trono seis reis de nome Afonso, outros seis de nome João e cinco reis chamados Pedro. Nomes de monarcas foram também Sancho (dois reis), Dinis (um), Fernando (dois), Duarte (um), Manuel (dois), Henrique (um), Sebastião (um), Filipe (três), José (um), Miguel (um), Luís (um) e Carlos (um). Além de duas rainhas chamadas Maria, que ascenderam ao trono por morte ou abdicação de seus pais, D. José e D. Pedro IV.

A implantação da república, há cem anos, permitiu elevar à chefia do Estado alguns nomes próprios que seriam inimagináveis num monarca. Só a república nos deu TeófilosSidóniosBernardinosÓscaresHiginos e Américos. Só em república alguém chamado Aníbal atingiu o cume da pirâmide do Estado. E o mesmo pode dizer-se de Marcelo, que nunca foi nome de rei.

Mas o nome mais republicano, aparentemente, é António – único com que foram baptizados presidentes dos três ciclos republicanos ao longo deste quase século. Na I República houve António José de Almeida (1919-23), único presidente que completou o seu mandato durante os anos inaugurais do regime. No Estado Novo, pontificou o presidente António Óscar Fragoso Carmona (1926-51), o de mais longo mandato durante a ditadura. E no regime subsequente ao 25 de Abril de 1974 já vamos em três chefes do Estado com esse nome: António Sebastião Ribeiro de Spínola (1974), António dos Santos Ramalho Eanes (1976-86) e Aníbal António Cavaco Silva (2006-2016).

Curiosamente, sendo António um nome tão português, nunca houve um rei António, legalmente reconhecido como tal, embora D. António, prior do Crato, tenha chegado a ser proclamado monarca em 1580 por sectores do povo, inconformados – ao contrário das supostas elites – com a anexação a Espanha. Já Manuel é um nome comum a reis e presidentes: o primeiro Chefe do Estado em república foi Manuel de Arriaga (1911-15), o último da I República foi Manuel Teixeira Gomes (1923-25). E também tinha esse nome o primeiro líder do regime ditatorial – o marechal Manuel Gomes da Costa (1926).

 
  
 

Nenhum presidente português terá sofrido tanto no exercício do mandato como o almirante João de Canto e Castro. Não só porque ascendeu ao poder quando era ministro da Marinha, na sequência da trágica morte de Sidónio Pais, baleado na estação do Rossio, em Dezembro de 1918, mas também porque era monárquico. E viu-se forçado a reprimir a revolta monárquica de Janeiro de 1919, restabelecendo a legalidade republicana contra as suas convicções mais íntimas. O seu mandato durou dez meses. Morreu 15 anos depois, totalmente retirado da vida política.

No século XIV, Portugal esteve quase a ter uma rainha chamada Beatriz: era a filha única do rei D. Fernando, falecido em 1383. Mas as cortes de Coimbra negaram-lhe essa pretensão, entregando a coroa a uma nova dinastia, protagonizada pelo Mestre de Aviz, D. João I. Outros príncipes reais faleceram antes de chegar a reis: D. Afonso (seria o VI), filho de D. João II, em 1491; D. Teodósio, primogénito de D. João IV, em 1653; D. José (seria o II), filho de D. Maria I, em 1788; e D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, em 1908.

Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1915), Bernardino Luís Machado Guimarães (1915-17; 1925-26), Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1917-18), José Mendes Cabeçadas Júnior (1926), Francisco Higino Craveiro Lopes (1951-58), Américo de Deus Rodrigues Thomaz (1958-74), Francisco da Costa Gomes (1974-76), Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1986-96) e Jorge Fernando Branco de Sampaio (1996-2006) foram os outros chefes do Estado republicanos, Acrescidos do actual titular, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, cujo mandato teve início em 2016.

Nenhum Sancho, nenhum Dinis, nenhum Duarte. Nem Henrique, Filipe, Miguel ou Carlos. E sobretudo nem vestígio de Maria: até hoje não houve nenhuma mulher na chefia do Estado republicano.

Neste ponto a monarquia estava mais avançada.

 
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Imagens: D. Afonso Henriques (1); Manuel de Arriaga (2); D. Maria I (3); João Canto e Castro (4)

Sempre perto mesmo longe

Pedro Correia, 03.02.23

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Gostei de ver a nossa Cristina Torrão no 10.º episódio da série Duplas à Portuguesa, emitida esta quarta-feira na RTP2. Abordando um tema que conhece bem: o reinado de D. Afonso Henriques, que aqui faz dupla com o seu aio e mentor Egas Moniz, figura histórica que tem muito de lendário.

Os depoimentos são interessantes e é sempre bom ver a nossa História recordada num canal público que tem como missão específica transmitir estes conhecimentos. A realização em tom de passatempo infantil é discutível, mas o essencial fica cumprido em cerca de meia hora de programa. Com várias intervenções sérias, fundamentadas e esclarecidas.

Parabéns à Cristina, que está sempre perto mesmo estando longe.

Ler (17)

O prazer da descoberta de revistas antigas

Pedro Correia, 28.01.23

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De novo confesso a minha paixão por frequentar alfarrabistas. Não apenas para adquirir livros antigos (como os três volumes da Guerra e Paz, em estado impecável, na edição portuguesa de 1957 com tradução do filósofo José Marinho), mas também revistas. Volta e meia, num dos meus alfarrabistas preferidos, abasteço-me de exemplares antigos da Paris Match, que ainda se publica. 

Já tinha falado disso aqui, há mais de dois anos, estávamos ainda aprisionados pela pandemia. Regressei lá recentemente, trouxe mais umas quantas. E deixo-me absorver por estes restos de uma colecção particular, agora desfeita certamente por decisão dos herdeiros.

Como se mergulhasse noutros tempos, contemporâneos ou anteriores ao dia em que nasci, e testemunhasse quase em directo acontecimentos entretanto transportados para enciclopédias e manuais de História. 

 

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«Isabel e Filipe reunidos em Lisboa», proclama um dos títulos. É o da edição n.º 412, de 2 de Março de 1957. Sobre a Rainha britânica, há pouco falecida, e o seu marido, o Duque de Edimburgo, que morreu quase centenário em Maio de 2021. Então eram ainda jovens, tinham décadas de vida à sua frente. 

Com três enviados especiais, a Paris Match faz uma cobertura exaustiva em 12 páginas da visita da monarca a Portugal, onde reencontrou o marido, que andara em missão oficial à volta do globo. Após 125 dias de separação, «uma nova lua-de-mel» começou em Lisboa, assinalaram os repórteres. Com excelentes fotografias em destaque, nunca funcionando como tapa-buracos de textos. 

 

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Somos, assim, testemunhas da História.

O primeiro sorriso de Isabel, desembarcada no Tejo, para o marido. Ao lado, o Presidente Craveiro Lopes (Lopez, lia-se na legenda).

O desfile pela capital, no mesmo coche real que transportara o seu bisavô Eduardo VII em 1903, na anterior visita de um monarca britânico.

A passagem pelo Rossio, cheio de mirones «até nas árvores», como assinalava a revista, com um mar de gente a gritar «Isabel!». Num país onde as manifestações populares estavam proibidas.

As imagens do faustoso esplendor na tribuna presidencial do Teatro de São Carlos, com Salazar - rara aparição em eventos públicos - num discreto segundo plano.

Uma extraordinária fotografia do jovem casal numa apoteótica recepção no Porto, cidade que a Rainha quis expressamente conhecer, em visita à margem do protocolo de Estado. 

 

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Portugal surge em foco noutra revista. A n.º 618, de 11 de Fevereiro de 1961. Dedicada em grande parte ao assalto ao Santa Maria, então emblema máximo dos nossos navios dedicados ao turismo de luxo.

Paris Match foi o primeiro grande título da imprensa internacional a embarcar no paquete com centenas de passageiros à mercê de um grupo armado luso-espanhol de opositores de Salazar e Franco. Os repórteres chegaram da forma mais insólita: de pára-quedas. Um deles, falhando o salto devido ao vento, passou longos momentos de angústia no mar, rodeado de tubarões.

Era o fotojornalismo no apogeu, muito antes da tecnologia digital e dos actuais meios de transmissão de imagens e texto.

Mergulho com assombro neste trabalho que valeu à Match reputação mundial. Com fotos exclusivas dos passageiros (incluindo muitas crianças), dos tripulantes portugueses e dos assaltantes, com destaque para o comandante dos "corsários": Henrique Galvão (a quem a revista chama Enrique Galvao), ex-salazarista convicto convertido à causa da democracia e apostado no derrube violento de Salazar.

 

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Tantas outras histórias estas revistas continuam a narrar-nos, várias décadas após terem sido impressas.

A edição n.º 749, de 17 de Agosto de 1963, informava que a vivenda californiana de Marilyn Monroe, ali falecida um ano antes numa noite em que não conseguiu suportar a solidão, acabara de ser vendida. Um letreiro, colocado no exterior do portão, confirmava com linguagem expedita de negociante americano: «Vendida - mas temos outras». Ignorava-se a identidade do novo proprietário, mas a Match desvendava um segredo: Joe di Maggio, o segundo dos três maridos da malograda actriz, mandava depor rosas no seu túmulo três vezes por semana.

Na edição n.º 625, de 1 de Abril de 1961, com a deslumbrante actriz belga Catherine Spaak na capa, deparo com este título: «Gable júnior repõe na viúva um sorriso de mamã.» Nascia o filho póstumo de Clark Gable, quatro meses após o súbito desaparecimento do intérprete de E Tudo o Vento Levou. A vida imitando a ficção, em toada de melodrama: o eterno galã das matinés sempre alimentara o sonho de ser pai. Aconteceu, mas já cá não estava para conhecer o bebé.

 

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Regresso à edição n.º 749: o destaque vai para o Presidente norte-americano. De semblante sombrio, nada sorridente. O casal John e Jacqueline acabava de perder Patrick: o filho recém-nascido sucumbira ao fim de dois dias, naquele funesto Agosto, vítima de graves problemas respiratórios. 

Um instantâneo revelava-nos um Kennedy destroçado, ao fundo de um elevador que o conduzia ao quinto andar do hospital onde iria velar o filho que mal chegara a viver. «Como o Presidente foi apenas um pai dorido», proclama o título. 

A revista desfia pormenores. Jackie transportada de helicóptero para o hospital quando se encontrava na casa de praia e logo submetida a uma cesariana, o marido interrompendo uma audiência na Casa Branca com membros do Comité Contra os Ensaios Nuclares e voando para Boston. Depois, horas de angústia perante a incubadora: o recém-nascido nem tinha força para chorar. Foi o próprio John a dar a desoladora notícia à mulher, ainda a recuperar do parto prematuro.

Tragédia no sonho americano. Como se antecipasse um luto de muito maior impacto, prestes a chegar, três meses depois. Com Kennnedy ceifado por balas traiçoeiras em Dallas que lhe roubaram a vida e abalaram o mundo.

Fragmentos de História. Que nos elucidam, comovem e deslumbram em simultâneo. 

A palavra pervertida

Pedro Correia, 16.12.22

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O progresso. Se há palavra malbaratada, desvirtuada, pervertida, vilipendiada é a palavra progresso - sempre pronta a ser usada e abusada por todos os vendedores de ilusões. Alguns dos maiores torcionários de que há memória usaram-na em discursos e até em livros. Em nome do progresso, matou-se e torturou-se. Sob a bandeira do progresso, o homem é constantemente empurrado com excessiva frequência de regresso às cavernas. Invoca-se o progresso como se fosse um dogma, pratica-se o retrocesso como se fosse inevitável.

Nada há de tão perverso na política como esta novilíngua destinada a iludir as mais legítimas aspirações dos povos. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional e símbolo de um futuro radioso. «O verbo "guilhotinar", notai, não se pode conjugar no passado. Não se diz: "Fui guilhotinado".»

Palavras proferidas na véspera da sua morte, a 5 de Abril de 1794: foi vítima da guilhotina, na sequência de uma conspiração liderada por Saint-Just, que costumava proclamar: «Ninguém pode governar inocentemente.» Provavelmente tinha razão: o próprio Saint-Just - apelidado de Anjo da Morte - viria a ser executado a 28 de Julho (10 do Thermidor do ano II, segundo o calendário revolucionário), com apenas 26 anos, acusado de "inimigo do povo". Com ele morria Robespierre - outro protagonista dos alvores da Revolução Francesa, outra vítima crepuscular da guilhotina.

De nada valera a Saint-Just o brilhantismo das suas intervenções enquanto mais jovem deputado eleito para a Convenção Nacional, em 1792, com a ardente apologia da revolução permanente. «Àqueles que o povo (não o voto, porque o voto é um acto de Estado, de subserviência) derruba, não devem ser conferidos quaisquer direitos», proclamou, entre apelos à execução sumária de Luís XVI, o monarca deposto três anos antes. Sem imaginar que viria a ser vítima da sua própria oratória, tão implacável, tão intransigente, tão incendiária.

Foi a primeira revolução de grande envergadura a devorar vários dos seus filhos - e esteve muito longe de ser a última. Nenhum discurso inflamado por cartilhas partidárias é capaz de atingir os abismos que moldam e condicionam a natureza humana.

 

Imagem.

Execução de Saint-Just e Robespierre, em 28 de Julho de 1794 (10 do Thermidor): a Revolução Francesa devorando os seus filhos

A Independência do Brasil

jpt, 07.09.22

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Cumprem-se hoje 200 anos da independência do Brasil. É tonitruante o relativo silêncio, qual murmúrio, em Portugal sobre o assunto - publicações, filmes, documentários, congressos? Nem mesmo o recordar, trazendo para os escaparates, do que foi sendo bem feito sobre essa época. Razões para tal haverá, desde a pequenez (ultramontana) que ao processo ainda sente como "perda" - e que na senda deste Ventura de agora ainda chamará "terroristas" aos Tiradentes - e o patético (identitarista) que se quer "desculpar" da História, a ver se nisso pingam uns subsídios extra para as ONGs e centros de investigação que controlam.

Enfim, deixo aqui memória desta interessante "Oceanos", n. 44 (2000), com  alguns artigos interessantes sobre portugueses no Brasil independente, que foi coordenado pelo antropólogo Robert Rowland - estou a folhear/reler hoje, como celebração...

E deixo um desejo sincero aos meus (poucos) amigos e amigos-FB brasileiros. O de que daqui a 200 anos o Brasil tenha evoluído o suficiente para que os seus problemas já não sejam culpa do colonialismo português. Será difícil, pois até agora não conseguiram libertar-se disso. Mas talvez venha a ser possível...

As duas Espanhas

Pedro Correia, 17.07.22

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«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 86.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Alberti, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha «enterrado os seus mortos e os rancores», decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre». Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña.

A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham - mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

«Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.»

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta.

Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.