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Cidade de Zamora, nas margens do rio Douro/Duero. Imagem Sapo Viagens

 

Embora se conheça o local, não se conhece bem a data em que D. Afonso Henriques foi armado cavaleiro. Há consenso, por parte dos historiadores, que tenha sido num Dia de Pentecostes, uma data muito usada para este efeito, na época medieval, e o Professor Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126, preferindo, no entanto, a primeira hipótese.

O Pentecostes, no ano de 1125, foi no dia 17 de Maio. Penso, por isso, que podemos assinalar hoje o 894º aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.

A História teve, no passado, a tendência para afirmar que este teria sido um acto de rebeldia do jovem infante em relação a sua mãe, por D. Teresa estar ligada ao conde galego Fernão Peres de Trava. Porém, o Professor Mattoso dá-nos uma versão diferente. Em primeiro lugar, diz-nos, na referida biografia, que, a partir de 1120, D. Afonso Henriques

“passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres. Até 1127, não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele e a «rainha» [D. Teresa] (p. 54)”.

O professor Mattoso reforça esta sua tese com o local escolhido: Zamora.

“Se alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto, Coimbra ou Viseu? (…) Não se esqueça que Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca durante o cerco de Peñafiel em 1111. Se aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e, dadas as suas relações com Fernão Peres, também com o seu consentimento (p. 56)”.

Tudo isto nos dá outra visão dos acontecimentos: em vez de um acto de rebeldia do jovem infante, por instigação dos barões portucalenses revoltados, teria sido antes uma tentativa de D. Teresa de apaziguar esses mesmos barões, apresentando-se ao lado do filho.

A cerimónia terá decorrido na basílica de São Salvador de Zamora, pois não existia ainda a catedral. Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses (redigidos à volta de 1185), dizem-nos o seguinte:

“O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso (…) tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar como é costume fazerem os reis”.

A ser verdadeiro, este relato reforça a tese de que D. Teresa promoveu a investidura do filho, pois intitulava-se «rainha», por isso, o seu filho era um infante tal como o primo. D. Teresa pretendia mostrar à meia-irmã D. Urraca e ao sobrinho D. Afonso Raimundes que continuava a reclamar para si uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, no qual era apoiada pelos Trava.

 

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Admirável prosa panfletária

por Pedro Correia, em 15.05.19

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Portugal Contemporâneo é um monumento, equivalente naquilo que hoje se convencionou chamar escrita de “não-ficção” a esse ponto cimeiro do romance intitulado Os Maias. Não por acaso, Joaquim Pedro Oliveira Martins e Eça de Queiroz eram amigos, companheiros de geração e de múltiplas tertúlias (sob o lema Vencidos da Vida), além de cúmplices no essencial das ideias – a primeira das quais era a urgente reforma das mentalidades portuguesas, o que no entender de ambos deveria ser precedido de uma profunda alteração das instituições políticas. Sob pena de o atraso estrutural do País se tornar irrecuperável, fragilizando a própria independência nacional.

«Há ou não recursos bastantes, intelectuais, morais, sobretudo económicos, para subsistir como povo autónomo, dentro das estreitas fronteiras portuguesas?», interroga-se o autor em prefácio à terceira edição, redigido em Abril de 1894, quatro meses antes da sua morte prematura, aos 49 anos.

Oliveira Martins, que chegou a abraçar teses iberistas, temia que a resposta fosse negativa. Por isso este seu copioso livro, com mais de 600 páginas, assenta na procura incessante das causas da decadência deste povo peninsular, parafraseando a consagrada expressão de Antero de Quental, outro “vencido da vida”.

 

O “Portugal Contemporâneo” a que alude o título – com edição original de 1881, em dois volumes – estende-se da morte de D. João VI, em 1826, à revolta da Janeirinha, que pôs fim ao período da Regeneração, em 1868.

O balanço do Portugal oitocentista, na óptica do autor, não podia ser mais negativo: o País vivera sob sucessivas ocupações estrangeiras, com duas décadas de soberania militar e política inglesa na sequência das invasões francesas, e atravessou quase todo o século sob o espectro da bancarrota. Situação muito agravada pela traumática independência do Brasil, em 1822, só reconhecida três anos depois por Lisboa, e pela dilacerante guerra dinástica que se estendeu de 1828 a 1834, fracturando o reino entre absolutistas e liberais.

 

Cáusticos parágrafos

 

A obra destila pessimismo. Sobre um tempo em que, segundo OIiveira Martins, o «antigo comunismo monástico», varrido com a deposição e o banimento perpétuo de D. Miguel, dera lugar ao «comunismo burocrático» das décadas liberais.

Nesta sucessão de episódios trágicos ou burlescos, com uma peculiar liberdade de interpretação dos factos e um extraordinário poder descritivo, perpassa uma galeria de personagens sujeitas aos cáusticos parágrafos do narrador. Quase ninguém escapa ileso: D. João VI legara-nos um «calamitoso reinado». A infanta D. Isabel Maria, sua filha que exerceu como regente, «era histérica e beata». D. Miguel revelou-se «bronco, violento, brutal». D. Pedro IV era encarado pelo povo como «traidor ao pai e à Nação, ladrão da coroa brasileira». Sá da Bandeira, «fraco e virtuoso». Saldanha teve uma «triste vida de guerrilheiro liberal». Salvam-se Mouzinho da Silveira, Passos Manuel, Alexandre Herculano – poucos mais. Em muitas páginas, cada adjectivo soa a punhalada.

 

Personalidade contraditória, Oliveira Martins oscilou entre a crença no socialismo utópico e a irreprimível nostalgia do País antigo, erguido em Aljubarrota e na Restauração. Chegou a abraçar o ideal republicano mas quase no fim da vida aceitou o convite do Rei D. Carlos para ministro da Fazenda, com as finanças nacionais novamente destroçadas. Sentindo-se traído pelo liberalismo – a seu ver um regime anárquico na economia e sem raízes nacionais – conclui em admirável prosa panfletária, coim laivos maniqueístas, que «a anarquia do reino reproduzia-se na anarquia dos partidos» e «Portugal e o seu governo eram um corpo inerte».

A Bookbuilders presta um serviço público ao relançar este marco da historiografia nacional, reunindo os dois tomos num volume, enriquecido com verbetes biográficos alusivos às figuras aqui retratadas. Nada mais útil, para apreendermos o País de hoje, do que mergulharmos nestas páginas corrosivas e vertiginosas, redigidas em prosa de qualidade intemporal.

 

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Portugal Contemporâneo, de J. P. Oliveira Martins (Bookbuilders, 2018). 694 páginas.
Classificação: *****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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A resistência à escravidão

por Pedro Correia, em 12.05.19

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Bloqueio a Berlim decretado por Estaline durou quase um ano: terminou a 12 de Maio de 1948

 

Faz hoje 70 anos, Berlim foi libertada. Não pelo solo, mas pelo ar. Foi um marco na história da liberdade na Europa. Estranhamente - ou talvez não - um marco de que pouco se fala hoje. 

A cidade estava dividida desde 1945, quando o Exército Vermelho se apoderou da metade oriental da Alemanha enquanto as divisões blindadas ocidentais anexavam a parcela mais ocidental do país, conduzido à derrota por Adolf Hitler. As cimeiras de Ialta e Potsdam, em 1945, repartiram o território alemão em quatro grandes áreas de influência tuteladas pelos vencedores da II Guerra Mundial, aplicando-se a mesma regra para Berlim, capital do defunto III Reich. A Alemanha, mergulhada em cinzas e escombros, tornou-se um país ocupado. À mercê de um novo conflito, desta vez ideológico: de um lado os Estados Unidos, o Reino Unido e a França – democracias liberais; do outro, a URSS de cariz totalitário. Como Winston Churchill alertou em Março de 1946, uma Cortina de Ferro fracturara o continente europeu. Do lado de lá, imperavam as legiões de Estaline.

O ditador soviético quis transformar a Alemanha num Estado-satélite, sem verdadeira soberania. Enquanto as potências ocidentais apostavam na reconstrução de uma Alemanha próspera para evitarem os erros cometidos no final da I Guerra Mundial, quando a miséria e o caos social fizeram chocar o ovo da serpente de onde emergiu o regime nazi.

 

Enclave ocidental


Berlim, naquele ano de 1948, permanecia sob ocupação militar. Dividida em quatro zonas. Três quartos da cidade funcionavam como autêntico enclave ocidental em território comunista – ilha democrática no imenso império vermelho. A 7 de Junho, as potências ocidentais anunciaram a intenção de unificar as áreas territoriais sob a sua jurisdição – formando aquilo que seria a República Federal da Alemanha a partir do ano seguinte. No dia 20, entrava em circulação uma nova divisa monetária, o marco alemão, substituindo as senhas de racionamento que vigoravam desde o fim da II Guerra Mundial. Tudo à revelia de Moscovo.

Era um equilíbrio precário entre os antigos aliados que prometia não durar muito. E assim foi: a 24 de Junho, Estaline ordenava aos seus efectivos militares o encerramento compulsivo das vias de acesso a Berlim Ocidental tanto por estrada como pelas linhas férreas que conduziam a Hamburgo e Munique, bloqueando igualmente os canais fluviais: 2,2 milhões de pessoas viram-se privadas, de um dia para o outro, de alimentos. A cidade apenas produzia 2% daquilo que comia, dependendo quase em exclusivo do exterior para esse efeito.

Num primeiro momento, a administração norte-americana hesitou. Alguns conselheiros do Presidente Harry Truman não queriam arriscar um conflito declarado com os soviéticos, anteriores aliados de Washington na guerra contra a Alemanha nazi, nem socorrer aquela população, que escassos anos antes vitoriava Hitler e diabolizava os EUA.

 

A maior ponte aérea


Truman não escutou tais vozes. Estava convencido de que se Berlim caísse por inteiro nas mãos dos soviéticos, os EUA perderiam rapidamente o domínio de todo o território alemão.

A 26 de Junho o inquilino da Casa Branca ordenou o início da Operação Vittler – que viria a transformar-se na maior ponte aérea destinada ao transporte de carga humanitária. Usando para o efeito três corredores aéreos, com 32 quilómetros de largura, a partir de Hamburgo, Hannover e Frankfurt, na Alemanha Ocidental.

O desafio foi imenso: nunca tinha sido montada uma operação deste género, para fins civis, em toda a história da aviação. O general Lucius Clay (1898-1978), comandante militar norte-americano na Alemanha, foi o artífice supremo deste imenso aparato logístico que viria a mobilizar um total de 277.569 voos rumo. «Ninguém nos expulsará de Berlim», garantiu.

Este abastecimento aéreo da população cercada foi um sucesso, rapidamente difundido nos documentários de actualidades exibidos diariamente nas salas de cinema um pouco por todo o mundo. Tornando-se assim num inesperado foco de propaganda americana em socorro de cidadãos em risco, enquanto os soviéticos eram apresentados como seres impiedosos, capazes de condenar homens, mulheres e crianças à fome e ao frio.

 

O argumento atómico


Estaline ainda ponderou encerrar unilateralmente os corredores aéreos. Truman dissuadiu-o, fazendo sobrevoar sobre a Alemanha dois bombardeiros B-29 – as chamadas “superfortalezas” – idênticos aos que em 1945 lançaram as bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui. A URSS ainda não dispunha de arsenal nuclear, o que limitava a capacidade de manobra do dirigente soviético, com noção exacta das distâncias geográficas: uma bomba despejada sobre Berlim teria efeitos inevitáveis em Moscovo, a 1854 quilómetros de distância.

Perdida a batalha da propaganda, confirmada a resistência da população de Berlim e a intenção de Washington de prosseguir a ponte aérea – na qual também participou a Real Força Aérea britânica – Moscovo cedeu. A 11 de Maio de 1949, era anunciada a reabertura das ligações por estrada e via férrea entre Berlim e a Alemanha Ocidental, através de território controlado pelos comunistas, com efeitos logo após a meia-noite. Mas os voos de abastecimento prosseguiram até final de Setembro: havia que salvaguardar reservas suficientes na cidade para a hipótese de haver novo cerco.

Berlim estaria em foco noutros dramas – o maior dos quais ocorrido a 13 de Agosto de 1961, quando Moscovo ordenou que toda a parcela ocidental da cidade ficasse cercada por blocos de betão numa desesperada tentativa de drenar a contínua fuga de cidadãos do Leste para o Ocidente: erguia-se assim o tristemente célebre Muro. Símbolo máximo da Guerra Fria, emblema de um sistema político que entraria em derrocada definitiva em Novembro de 1989. Derrubado pela própria população de Leste, que nunca desistiu de perseguir a liberdade.

 


A ajuda que vinha do céu

 

Apesar da ponte aérea, a população de Berlim Ocidental passou por inúmeras privações entre Junho de 1948 e Maio de 1949. Faltava a energia para o abastecimento de fábricas e lares. Nesse Inverno vários habitantes mais idosos morreram devido ao frio. A iluminação pública esteve quase sempre racionada. E chegou a ser ordenado o corte de milhares de árvores para acender lareiras na cidade sitiada.

Nesses meses, muitas das crianças da cidade acorriam a toda a hora às vedações do velho aeroporto de Tempelhof e do novo aeroporto de Tegel (inaugurado em Dezembro de 1948), onde era constante o movimento das aeronaves ocidentais. Os miúdos dessa geração habituaram-se a brincar com aviões de papel, de lata ou de madeira – muitas vezes feitos por eles próprios. Cada qual, à sua maneira, simbolizava a resistência à escravidão.

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Eva

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.19

4913426918493990.jpeg(Fotograf: Beat Mumenthaler, Schweiz)

"Há uma nova geração de judeus húngaros, que ele [Viktor Órban] não os ataca directamente, porque tem agora inimigos diferentes, que são os refugiados. Os refugiados são os judeus de hoje (...)" – Eva Koralnik, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, tradutora em 1961 no processo de Eichmann, ontem, na Universidade de Macau

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40 anos

por Diogo Noivo, em 06.12.18

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Faz hoje 40 anos que a Constituição de Espanha foi aprovada em referendo com o voto favorável de 87% dos eleitores. Na Catalunha, a aprovação rondou os 90,5% e no País Basco os 69% (nos 30 dias que antecederam o referendo, a ETA cometeu 32 atentados e matou 15 pessoas porque "havia que criar uma forte tensão" antes do acto eleitoral).

Dos vários cadernos especiais feitos pela imprensa para celebrar a efeméride, destaco os artigos El nacimiento de una noción (Juan Francisco Fuentes no El Mundo) e Garantía de convivencia (Felipe González no El País). 

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.07.18

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Britain’s ‘disgraceful’ pre-handover efforts to deny nationality to Hongkongers revealed in declassified cabinet files

 

Officials repeatedly pressured Portugal not to grant rights to Macau residents to prevent Hongkongers from asking for similar treatment

"(...) Portugal had remained adamant that its constitution did not allow it to distinguish between holders of Portuguese nationality, unlike Britain, which had a two-tier system, according to the files. "

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Só podia ter acabado como acabou

por Pedro Correia, em 02.05.18

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Subitamente, em 1974, faz agora 44 anos, Lisboa transformou-se na capital da Europa. Enviados especiais de todas as partes do globo acorreram, em fluxos torrenciais, à cidade onde os cravos floriam nas espingardas. E Portugal passou a ser notícia – não durante dias ou semanas, mas durante meses, até a chama revolucionária se esgotar em Novembro de 1975.

 

Figuras como Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes e Otelo Saraiva de Carvalho compareciam nas capas de jornais e revistas, sob títulos dos mais diversos idiomas. Havia os discípulos de Maquiavel que, como o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, apostavam que Portugal seria a “vacina da Europa”, espécie de laboratório onde se experimentava a revolução socialista destinada a falhar e a constituir um exemplo à escala universal. E havia os outros, os que sonhavam que todas as utopias seriam possíveis no auge da Guerra Fria neste canto mais ocidental da Europa.

Intelectuais de diversos matizes – de Jean-Paul Sartre a Glauber Rocha – acorreram ao país que adormecera em plena ditadura caetanista e despertara já sob o mito da “sociedade sem classes”. Sérgio Godinho, numa canção com letra sábia, advertia: “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Mas ninguém o escutou, entre as palavras de ordem entoadas nos comícios de rua.

 

Os repórteres estrangeiros que afluiram a Lisboa deixavam-se fascinar pelas figuras mais iconográficas do golpe revolucionário – do monóculo prussiano de Spínola até à cabeleira branca de Álvaro Cunhal com o seu perfil de príncipe florentino. E choviam hipérboles: André Pautard, por exemplo, comparava na revista L’Express o 25 de Abril à libertação de Paris somada ao Maio de 68. Raymond Cartier, da Paris-Match, jantava em casa de Mário Soares, ao Campo Grande, e trazia de lá uma indigestão de novidades. O brasileiro Berilo Dantas, enviado da revista O Cruzeiro, conversava com Mestre Chico, durante 30 anos barbeiro de Spínola, e revelava que o general almoçava todos os dias no mesmo hotel de Lisboa.

Um homem que não dispensava as rotinas surgia ao leme da revolução: quem soubesse decifrar sinais perceberia já então que tudo só poderia acabar como acabou.

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A guerra que Thatcher "inventou"

por Pedro Correia, em 29.03.18

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Estamos sempre a aprender. Acabo de escutar um historiador, em tom categórico e professoral, proclamar em horário nobre da televisão: "A senhora Thatcher, quando estava a braços com uma crise de agitação social na Inglaterra, inventou uma guerra, a guerra das Malvinas."

Extraordinário doutor Fernando Rosas: folheando sabe-se lá quantos canhenhos empoeirados, só ele conseguiu descobrir que foi afinal a primeira-ministra Margaret Thatcher quem ordenou aos odiosos déspotas do regime militar de Buenos Aires - apoiados pelo ditador cubano Fidel Castro - para  invadirem o arquipélago das Malvinas no dia das mentiras de 1982.

A maquiavélica senhora precisava dessa invasão para "inventar uma guerra" que só poderia culminar com a vitória britânica, emulando o triunfo da Royal Navy sobre Bonaparte em Trafalgar, enquanto as massas ignaras entoavam o God Save the Queen.

Fiquei esmagado com tão eloquente demonstração de sapiência do reputado académico. E aqui venho inclinar-me em respeitosa vénia à sua luminosa e profícua erudição.

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De Sidónio a Marcelo

por Pedro Correia, em 10.03.18

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«Precursor do que não sabemos,

Passado de um futuro a abrir.»

Fernando Pessoa, À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

 

A monarquia tem uma indiscutível vantagem comparativa sobre a república no imaginário popular. As meninas e os meninos - de todas as idades - ainda hoje sonham com príncipes e princesas. O regime republicano tentou reconverter símbolos monárquicos ao inventar conceitos como "primeira dama" ou "primeiro cavalheiro", com insucesso generalizado. E, já agora, experimentem dizer a alguém de quem gostam muito: "Tu és para mim como a filha do presidente da república." A reacção será gélida ou de escárnio, compreensivelmente.

Esta vantagem existe a outro nível: um rei ou uma rainha são conhecidos, urbi et orbi, só pelo nome próprio. Sem necessidade de apelidos "legitimadores". E, em regra, nome de rei nunca deixa de estar na moda através dos séculos. Basta lembrar os nossos: do Afonso ao Luís, do João ao Duarte, da Maria ao Manuel. Digo-vos eu, que sou Pedro Miguel (ambos nomes de reis).

 

Mais de cem anos de república deram-nos dezanove chefes do Estado. Mas apenas dois conhecidos pelo nome próprio: o primeiro foi Sidónio, que não por acaso Fernando Pessoa crismou de Presidente-Rei, brevíssimo líder tombado às balas de um assassino, decorrerão em Dezembro de 2018 cem anos exactos; o segundo é o actual inquilino do Palácio de Belém.

Marcelo, apenas Marcelo. Para sempre Marcelo: assim falarão dele os futuros manuais de História.

Entrou ontem no terceiro ano do seu mandato. Que tem sido um mandato feliz, sempre próximo do comum dos portugueses, que o distinguem com a mais franca e calorosa das homenagens, tratando-o pelo primeiro nome.

Em nada diferente dos nossos reis de melhor memória.

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"Ser imparcial não é humano"

por Pedro Correia, em 24.02.18

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 Claire Foy como Isabel II em The Crown

 

Terminei ontem de ver a primeira temporada de The Crown [A Coroa] - razão bastante, suficiente e mais que justificada para ter aderido à plataforma Netflix, produtora e distribuidora em exclusivo desta série britânica, que me dizem ter sido a mais dispendiosa da história da televisão.

Valeu a pena o investimento. Sem a menor concessão ao figurino do entretenimento industrial, The Crown é um tratado sobre as emoções humanas submetidas à razão política no singular quadro constitucional do Reino Unido. A figura central - de estrutura piscológica muito mais densa do que as frívolas "revistas do coração" permitiriam alguma vez entrever - é Isabel II, já com o mais extenso reinado de que há registo histórico. Ascendeu ao trono por morte inesperada do pai, em Fevereiro de 1952: tinha só 25 anos e súbditos em todas as parcelas do planeta - resquício moderno do antigo império inglês, que no início do século XX era ainda o mais poderoso à escala mundial.

 

Nascida numa nação impregnada de moralidade vitoriana que permaneceu como baluarte de resistência simultânea às hordas nazis e ao dominó das "revoluções socialistas" que varreram o século, Isabel II tornou-se num paradoxo vivo, seduzindo artistas tão diversos como Andy Warhol ou Lucian Freud, fotógrafos como Cecil Beaton ou Annie Leibovitz, guionistas, realizadores, músicos e uma plêiade de ensaistas políticos.

Percebe-se o fascínio por esta figura distante mas familiar, sem reprodução possível noutros ordenamentos constitucionais, funcionando como um elo permanente entre as raízes da monarquia milenar que corporiza e a sociedade multiforme em que crescem os seus bisnetos, mantendo uma imbatível popularidade no país que se foi agitando ao ritmo dos Beatles, dos Smiths e dos Sex Pistols.

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The Crown (2016) mostra-nos esta Rainha ainda jovem e de passo incerto, nascida para desfrutar uma tranquila existência entre cães e cavalos na aristocracia rural inglesa, e que acabou conduzida pelos caprichos da História à solidão do "mais horroroso palácio britânico", o de Buckingham, transportando o peso simbólico da Coroa legada pelo seus ancestrais desde o normando Guilherme, o Conquistador, no século XI.

Permanecer nesta ambígua coexistência entre tradição e modernidade foi desde o início o seu lema. E também o seu maior dilema, que ela soube solucionar de forma irrepreensível no complexo convívio com treze chefes de Governo - nove conservadores e quatro trabalhistas, onze homens e duas mulheres, de Winston Churchill a Theresa May.

 

O quarto episódio traz-nos um extraordinário diálogo entre a jovem monarca e a sua avó paterna, que sobrevivera não apenas ao marido, Jorge V, mas ao filho segundo, que jamais sonhara ser Rei.

A tímida Isabel II (notável desempenho da belíssima actriz Claire Foy), num raro momento propício a confidências, sente-se compreeensivelmente abalada pelo recente falecimento do pai, Jorge VI, e ainda assombrada pela abdicação do tio, Eduardo VIII, que em 1936 provocara um abalo sísmico na monarquia ao optar por uma paixão mundana em desfavor do trono. E mostra-se perplexa pela sua insólita posição institucional: cabe-lhe simbolicamente decidir sobre tudo sem afinal se pronunciar sobre coisa alguma.

 

«Não me parece certo, um Chefe do Estado não decidir sobre nada.»

«É o mais certo», diz-lhe a Rainha Maria, sua avó.

«É? Mas não fazer nada é não trabalhar...»

«Não fazer nada é o trabalho mais difícil de todos. E consome toda a tua energia. Ser imparcial não é natural, não é humano.»

 

Este diálogo ajuda-nos a compreender como The Crown é muito mais do que uma simples série televisiva: é uma exemplar coreografia do realismo político, aqui elevado a um patamar artístico. Como senha de identidade não apenas de uma soberana ou de um regime, mas também de um povo que conseguiu enfrentar adversidades inomináveis e soube perdurar para além de todas as contingências históricas.

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Depois das inacreditáveis declarações de António Costa ao ABC, a apoiar a vergonhosa acção de Espanha contra os independentistas catalães, vem o mesmo ABC poucos dias depois criticar a independência de Portugal, lamentando os 350 anos do "ignominioso tratado de paz que pôs fim à poderosa união de Espanha e Portugal". Mostra bem como António Costa deveria ter estado calado nesta matéria. Ao contrário do que muita gente julga, defender a autodeterminação dos povos de Espanha deveria ser uma política essencial ao Estado português, sob pena de Espanha também poder questionar o direito de Portugal à sua própria independência. É manifesto que para isso não lhe falta vontade. Afinal, como se escreve neste artigo, Portugal não se revoltou ao mesmo tempo que a Catalunha, só não tendo sido subjugado como esta, porque alguém em Espanha se lembrou de assinar um "ignominioso tratado de paz"? Bem diz o povo que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. E a falta de solidariedade com que agora estamos a tratar os catalães pode um dia virar-se contra nós. Se alguém tem dúvidas que olhe para a imagem, também fornecida pelo ABC, com uma alegoria da conquista de Portugal, com o leão espanhol a subjugar o dragão português. É elucidativo da forma como os castelhanos acham que devem conviver com os outros povos da península ibérica.

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Os Habsburgos na RTP2

por João Pedro Pimenta, em 21.12.17

Apesar das séries de TV - ou agora até da net, ou de um híbrido entre as duas - estarem em grande, suplantando mesmo o cinema, não sou grande seguidor. A oferta é imensa, tem inúmeras categorias, e a obrigatoriedade de seguir os episódios, sobretudo quando há várias épocas, implica um esforço de fidelidade que tem os seus custos. 

 

Quando não são extensas acompanho uma ou outra. E há algumas que não sendo especialmente mediáticas têm o seu interesse. É o caso de uma produção que passou na RTP2 até há cerca de duas semanas, com o título português Maximiliano: Poder e Amor (no original Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe), que narra o encontro do herdeiro do trono do Sacro Império que dá nome à série com a duquesa da Borgonha. Centrando-se na particular relação entre os dois, com as habituais sub-tramas de romances pelo meio, a série mostra-nos um período charneira da história da Europa, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Constantinopla caíra poucos anos antes, na mesma altura em que findava a Guerra dos Cem Anos, e Portugal tinha iniciado a expansão africana. A história começa com a notícia da morte de Carlos, o Temerário, na batalha de Nancy, e das atribulações que a sua filha Maria teve de passar, em particular com a burguesia flamenga (a duquesa da Borgonha tinha a sua corte na então próspera Gand), pouco afecta à casa ducal e mais próxima da França de Luís XI, inimigo jurado do Temerário, com cujo filho (quase uma criança) pretendia casar Maria, anexando o velho ducado e seus territórios, que então se estendiam da Borgonha propriamente dita até à actual Holanda, aos territórios franceses. Dando a volta a estas maquinações, Maria casar-se-ia com Maximiliano.

 

Não querendo fazer demasiadas revelações caso a série volte a passar na TV um dia destes, compreende-se melhor assim o fim de uma potência, a Borgonha, que a ter sobrevivido como estado (e como reino, como pretendia o Temerário) mudaria bastante a geopolítica da Europa como a conhecemos, e a ascensão de outra. O Sacro Império passava por inúmeros problemas, numa altura em que os exércitos eram sobretudo constituídos por mercenários, para cuja manutenção era preciso dinheiro, que não abundava nos cofres dos Habsburgos. Para mais, estavam rodeados de poderosos inimigos - a França a oeste e a leste a Hungria do poderoso Matias Corvino e seus estados vassalos, como a Valáquia do célebre Vlad, o Empalador. Ironicamente, a coroa da Hungria seria mais tarde ostentada pelos Habsburgos. Mas todos esses problemas são retratados na série, onde começa a formar-se a dinastia que dominaria a Europa no futuro próximo. Se então a Borgonha passava por uma crise dinástica, Castela passava por outra, que acabou com o triunfo de Isabel, a Católica, sobre a pretendente apoiada por Portugal, Joana, a Beltraneja. A resolução das duas acabaria por ficar umbilicalmente ligada: o filho de Maximiliano e de Maria, Filipe, o Belo, casar-se-ia com a filha dos Reis Católicos (de Castela e de Aragão), Joana, a Louca, e o filho de ambos, que a História recorda como Carlos V, herdaria os títulos de Imperador do Sacro-Império, Duque de Borgonha (embora a região com esse nome tivesse sido anexada pela França) e Rei de Castela e Aragão, com todos os territórios inerentes e ainda os do Novo Mundo. O seu filho Filipe seria também, a partir de 1580, Rei de Portugal, como se sabe.

 

Claro que grande parte destes acontecimento não vêm narrados na série, que decorre num período de cinco anos. Nela cabem o romance, a intriga, a traição, a desobediência e a guerra, num ambiente algo pesado e penumbroso. Tem também uma excelente fotografia e alguns aspectos curiosos, como o facto de todos falarem na respectiva língua e em mais nenhuma - o austríaco falava com a borgonhesa em alemão e esta respondia-lhe em francês, ao passo que em Gand se falava flamengo. Nem uma palavra em inglês. Só é pena que não tenha sido referido um pormenor: o de Maximiliano e Maria, que antes do casamento nunca se tinham visto (e casam mesmo por procuração) serem já primos, uma vez que a mãe dele, já morta na altura dos acontecimentos, e a avó dela eram sobrinha e tia, ambas portuguesas, ambas da casa de Aviz (filha de D. Duarte e de D. João I, respectivamente). Tirando a omissão lusa e outras de menor importância, e só lamentando não haver mais cenas de batalha, a série cumpre perfeitamente a função didáctica. Que haja mais.

 

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1234).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

Para além desse trabalho historiográfico, pioneiro, e de referência, Soares Martins foi um excelso diplomata, durante 19 anos adido cultural português em Maputo, com obra de monta. Para além das sábias articulações que induziu e reproduziu, em época de grandes cesuras entre ambas as sociedades, constituiu, em condições muito difíceis, políticas e económicas, os então ditos “serviços culturais da embaixada de Portugal”, funcionando desde 1983 e que vieram a dar origem ao centro cultural português, inaugurado em 1997 (e não em 1996, como incorrectamente anuncia a literatura oficial). Nessas décadas iniciais foi muito relevante a constituição da biblioteca desses “serviços culturais”, obra de Soares Martins. Num Maputo bem diferente do que é hoje, a ausência de material bibliográfico era enorme, e lendárias eram as filas na rua de jovens leitores aguardando a sua vez para estudarem. Em finais de 1990s pude constatar que havia mais de 1000 visitantes diários.  Antes, na Beira dos anos 1950 e 1960, Soares Martins, sobrinho do célebre bispo Sebastião Soares de Resende, tinha tido grande papel na dinamização de uma imprensa que, ainda que coarctada pela censura do Estado Novo e pela oposição da sociedade colonial, entreabria a denúncia das tétricas condições que esta reproduzia.  Claro que os seus contemporâneos na Beira e em Maputo muito mais poderão adiantar sobre essa personagem extraordinária que foi José Soares Martins. Como intelectual, como diplomata. Como democrata.

Em 1997 Jorge Sampaio visitou Moçambique. Soares Martins reformara-se no ano anterior, e regressara a Portugal. Mas ali se deslocou para essa ocasião. Foi condecorado, com a comenda do Infante D. Henrique. E Sampaio, conjuntamente com Joaquim Chissano, descerrou esta (aparentemente) modesta placa – em madeira, propositadamente, para evocar o tradicional trabalho artesão moçambicano; de autoria do célebre carpinteiro português Silva, para significar as possíveis simbioses – que serve para nomear, e de modo tão justificado, a sala de leitura do centro cultural português (o Camões) de Maputo. Sua, antes de todos os outros, obra.

Agora, após 3 anos de ausência do país, fui a Maputo. E fui ao centro, apenas para me curvar diante desta placa. É muito bonito que ela esteja ainda – sabemos da tradicional amnésia das instituições estatais, e da vertigem dos funcionários em remodelar e pensar que antes deles era o Caos, que “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo” e que deles, só deles, brota o Verbo Iluminador. E é muito bonito constatar que há sítios, locais, e pessoas, que sabem que não é assim, e que os antepassados respeitáveis, e iluminadores, são homenageados, lembrados (e seguidos, nas diferenças de cada era) no quotidiano. Fico contente.

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Leninismo: um vírus totalitário

por Pedro Correia, em 10.11.17

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Há cem anos, Lenine fundou um dos mais tenebrosos regimes políticos de todos os tempos. Um regime que nasceu da mentira, alimentou-se do terror e mergulhou a Rússia em décadas de opressão.

Um século depois, desfeitos todos os mitos, dissipadas todas as dúvidas, há quem permaneça cego perante esta clamorosa evidência: o comunismo nunca foi a força libertadora que anunciara aos povos nem inaugurou uma página redentora na história da humanidade. Pelo contrário, trouxe novas guerras em prolongamento directo das anteriores - tão velhas como o mundo. Impôs antigas grilhetas em novos escravos. Impulsionou os cavalos do apocalipse, guiados pela máxima de Estaline, o mais pérfido discípulo de Maquiavel: "O homem é o problema. A morte resolve todos os problemas."

Resta, portanto, um último equívoco ainda por esclarecer em definitivo junto de alguns espíritos: o da origem do mal. Alguns persistem em encarar com benevolência o leninismo – pouco mais do que uma técnica de conquista do poder por via insurrecional – enquanto reservam as críticas aos seus derivados de diversos matizes: o estalinismo, o trotskismo e o maoísmo. Supostas perversões do sistema.

 

Acontece que o regime de terror começa com Lenine, nos dias iniciais da chamada Revolução de Outubro de 1917 – que foi um golpe de Estado clássico – e sem camuflagens de qualquer espécie. Basta ler as primeiras proclamações bolchevistas logo após a conquista de Petrogrado. Está lá tudo: o tom intimidatório, os pontos de exclamação sem permitirem contraditório, a linguagem bélica com a meticulosa utilização de verbos como “esmagar” e “liquidar”.

E a mentira, sempre a mentira como senha de identidade de um regime que prometia a paz e trouxe a guerra, que prometia o pão e trouxe a fome, que prometia a liberdade e trouxe uma tirania ainda mais implacável e cruel do que a da dinastia Romanov, derrubada oito meses antes num levantamento popular que instaurou em solo russo uma frágil democracia, cedo varrida pelos batalhões bolchevistas que mandavam dar “todo o poder aos sovietes”.

De tudo isto nos fala Manuel S. Fonseca nesta sua Revolução de Outubro, que nos transporta aos dias fundacionais do “socialismo real”, etapa após etapa, em minuciosa cronologia que acompanha o percurso biográfico de Vladímir Ilítch Uliánov – o verdadeiro nome de Lenine (1870-1924) – desde os primórdios na região do Volga natal até à morte em Gorki, quando já a doença o retirara da vida pública, passando pelo seu atroador percurso como senhor absoluto do Kremlin onde fora entronizado como czar vermelho entre manifestações de indecorosa idolatria que já prefiguravam o culto da personalidade com dimensões demenciais no subsequente reinado de Estaline, herdeiro ungido.

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Manuel Fonseca, editor e um dos melhores colunistas da imprensa portuguesa (imperdíveis, as suas crónicas de sábado em cada edição do Expresso), militou num sector da esquerda extrema nos dias da juventude mas revisita hoje os primórdios da autocracia soviética sem qualquer traço de complacência perante o regime que em Outubro de 1917 “pôs fim ao pluralismo da esquerda e à extraordinária democracia participativa que a Revolução de Fevereiro criou na Rússia”. Porque estava contaminada pelo “vírus totalitário”, autêntico pecado original.

O autor chega ao ponto de se interrogar nesta obra valorizada pelo excelente grafismo e muito enriquecida com dezenas de fotografias centenárias: “E se a vitória bolchevique foi, afinal, a vitória da contra-revolução, esse lobo contra o qual os revolucionários tanto gritaram ao longo de 1917?”

A formulação desta pergunta já contém implícita a resposta, fornecida parágrafos adiante com a lucidez de alguém incapaz de ficar indiferente às lições da História: “Em vez de ser, como Lenine anunciara em O Estado e a Revolução, a pátria do controlo operário da produção e da autogestão, uma pátria sem polícia, exército ou Estado, a Rússia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi, depois de Outubro e por quase meio século, com Estaline, o palco de uma carnificina insensata, aleatória e psicótica. O exercício do poder de Lenine e dos bolcheviques gerou uma das grandes catástrofes do século XX, substituindo a revolução pelo gulag.” 

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Revolução de Outubro, de Manuel S. Fonseca (Guerra & Paz, 2017). 159 páginas.
Classificação: ****

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Política de ódio

por Diogo Noivo, em 06.11.17

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Miguel de Unamuno

 

O problema catalão é antigo. Não me refiro às origens de uma alegada singularidade histórica que, se bem adubada, justificará a independência. Refiro-me ao que Miguel de Unamuno topou em 1906:

 

La especial megalomanía colectiva o social de que está enferma Barcelona les lleva a la obligada consecuencia de la megalomanía a um delírio de persecuciones (...). Y asi hablan de odio a Cataluña, y se empeñan en ver en buena parte de los restantes españoles una ojeriza hacia ellos, hacia los catalanes (...). Y tal odio no existe. No existe odio a Cataluña, ni a Barcelona, ni existe la envidia tampoco. Lo que hay es que los españoles de las demás regiones han estado constantemente ponderando y exaltando la laboriosidad e industrializacion de los catalanes (...) y con esto les ha recalentado y excitado esa nativa vanidad que con tanta fuerza arriaga y cresce bajo el sol del Mediterráneo. Y esa vanidad, esa petulante jactancia y jactanciosa petulancia que se masca en el aire de Barcelona, hace que las gentes sencillas y modestas (...) al encontrarse en aquel ambiente de agressiva petulancia, se sientan heridas y molestas”.

 

Embora desnecessário, recorde-se que Unamuno foi tudo menos um simpatizante franquista, como demonstra o célebre episódio no Paraninfo da Universidade de Salamanca, uma mostra notável de coragem física e intelectual que o Pedro Correia homenageou aqui no DELITO há não muito tempo. Recorde-se também que Unamuno nunca se moveu por anti-catalanismos. Louvava a sensibilidade cultural catalã – por oposição à apatia de Madrid. Dizia que era através dos catalães que se relacionava com o mundo da cultura externa, palavras escritas ao pintor Santiago Rusiñol, agora compiladas num maravilhoso epistolário que acaba de ser publicado.

 

De facto, é de “agressiva petulancia” e de politização do ódio que se faz o chamado procés. Como assinala Javier Marías num artigo em defesa dos catalães, o independentismo que assaltou o Estado de Direito assenta em mentiras e deturpações, num carácter totalitário e quase racista, um sequestro da maioria por parte de uma minoria. “Os independentistas precisam de acreditar que o seu país é tão odiado como odiado é por eles o resto da nação. Não é nem nunca foi o caso”. Se descontarmos o teatro e a radicalização, é tão-somente isto que está em causa.

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A fuga dos chefes do governo.

por Luís Menezes Leitão, em 05.11.17

Se há coisa que reprovo profundamente no independentismo catalão é a fuga do presidente da Generalitat para Bruxelas, que pelos vistos nem sequer lhe vai garantir qualquer protecção. Curiosamente acaba de ser imitado pelo primeiro-ministro do Líbano, que também se pôs ao fresco, fugindo para a Arábia Saudita, alegando riscos para a própria vida.

 

É verdade que muitos dos que criticam Puigdemont, mais valia estarem calados, como Felipe Gonzaléz, que esteve entre os que se atiraram para o chão quando o parlamento espanhol foi invadido pelo grupo de militares comandado por Tejero Molina. Nessa altura só duas pessoas permaneceram nos seus lugares. Um deles foi Santiago Carrillo que, pegando no seu cigarro, se limitou a dizer: "Pavía chegou mais cedo do que se previa", recordando o momento em que o General Pavía, em 3 de Janeiro de 1874, ocupou o parlamento da I República Espanhola, iniciando a Ditadura de Serrano. O outro foi Adolfo Suárez que, embora estivesse a momentos de ser substituído com a eleição pelos deputados do novo governo, permaneceu sozinho no lugar destinado ao governo. E mais tarde explicou: "Não critico nenhum dos meus colegas que decidiu proteger-se, mas eu era o chefe do governo. O chefe do governo permanece sempre onde está".

 

E, de facto, quem assume a chefia de um governo, deve pensar que coloca a sua cabeça num cepo e que, se alguma coisa acontecer, é a dele que tem que rolar, não a dos seus subordinados ou a de segundas figuras. Há que lembrar aqui o que disse a Imperatriz Teodora ao Imperador Justiniano, quando ele quis fugir perante a revolta de Nika: "Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda. Se quiseres fugir, César, foge. Tens dinheiro, teus navios estão prontos e o mar aberto. Eu, porém, fico. Gosto desta velha máxima: a púrpura [o manto dos imperadores] é uma bela mortalha".

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Alemanha: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 23.09.17

Recordei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, entretanto substituído por Donald Trump.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu, ano após ano, durante o último meio século - do quase mítico general De Gaulle ao malogrado François Hollande, que não arriscou concorrer a um segundo mandato e viu o seu Partido Socialista implodir.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do n.º 10 de Downing Street, ano após ano, durante o último meio século - do trabalhista Harold Wilson ao conservador David Cameron, que entretanto deu lugar a Theresa May, sua correligionária.

Na véspera de os alemães serem chamados às urnas para escolherem o novo parlamento e o Governo que decorrerá do novo elenco no Bundestag, lembro quem foram os chanceleres da República Federal Alemã dos últimos 50 anos. Entre 1967 e 2016.

Volto a dividir este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil. E distribuo assim as cores: vermelho para os chefes do Governo sociais-democratas, azul para os democratas-cristãos.

 

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1967/1976

1967- Kurt Georg Kiesinger

1968 - Kurt Georg Kiesinger

1969 - Kurt Georg Kiesinger

1970 - Willy Brandt

1971 - Willy Brandt

1972 - Willy Brandt

1973 - Willy Brandt

1974 - Helmut Schmidt

1975 - Helmut Schmidt

1976 - Helmut Schmidt

Predomínio claro dos chanceleres sociais-democratas - com destaque para Brandt, que antes fora burgomestre de Berlim e ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

 

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1977/1986

1977 - Helmut Schmidt

1978 - Helmut Schmidt

1979 - Helmut Schmidt

1980 - Helmut Schmidt

1981 - Helmut Schmidt

1982 - Helmut Schmidt

1983 - Helmut Kohl

1984 - Helmut Kohl

1985 - Helmut Kohl

1986 - Helmut Kohl

Dois Helmuts dividiram esta década. Schmidt liderou o Governo alemão - então ainda sediado em Bona - mais um ano do que o seu homólogo democrata-cristão.

 

 

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1987/1996

1987 - Helmut Kohl

1988 - Helmut Kohl

1989 - Helmut Kohl

1990 - Helmut Kohl

1991 - Helmut Kohl

1992 - Helmut Kohl

1993 - Helmut Kohl

1994 - Helmut Kohl

1995 - Helmut Kohl

1996 - Helmut Kohl

Domínio absoluto do democrata-cristão Kohl, que liderou o complexo processo de reunificação, reconduzindo para Berlim a capital de todos os alemães.

 

 

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1997/2006

1997 - Helmut Kohl

1998 - Helmut Kohl

1999 - Gerhard Schroeder

2000 - Gerhard Schroeder

2001 - Gerhard Schroeder

2002- Gerhard Schroeder

2003 - Gerhard Schroeder

2004 - Gerhard Schroeder

2005 - Gerhard Schroeder

2006 - Angela Merkel

Outra década dominada por um político social-democrata. Schroeder assegurou sete anos de liderança alemã após o longo consulado de Kohl, que durou mais de década e meia.

 

                              

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2007/2016

2007 - Angela Merkel

2008 - Angela Merkel

2009 - Angela Merkel

2010 - Angela Merkel

2011 - Angela Merkel

2012 - Angela Merkel

2013 - Angela Merkel

2014 - Angela Merkel

2015 - Angela Merkel

2016 - Angela Merkel

Hegemonia total da liderança democrata-cristã na última década, personificada na primeira mulher colocada à frente dos destinos de Berlim. Merkel vai amanhã novamente a jogo.

 

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Balanço: domínio claro dos democratas-cristãos, que ocuparam a chancelaria durante 30 anos neste último meio século. Uma percentagem de 60%.

A CDU (União Democrata-Cristã) teve três líderes no Governo alemão ao longo deste período: Kiesinger, Kohl e Merkel. O SPD (Partido Social-Democrata) teve outros três: Brandt, Schmidt e Schroeder.

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Brincar às independências

por Pedro Correia, em 21.09.17

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O actual mapa político da Europa regeu-se até 2008 por um princípio basilar da Conferência de Ialta: nenhuma independência unilateral deve ser reconhecida no Velho Continente ao sabor de conveniências de circunstância, sob pena de tornar cada vez mais instáveis as relações internacionais. Desenhar fronteiras de acordo com critérios étnicos, religiosos, linguísticos ou de tribo, com o aval de analistas politicamente correctos, pode ser uma tentação para alguns caudilhos regionais mas é um acto indigno de estadistas.

O perigoso precedente foi inaugurado nesse ano pela "independência" do Kosovo, caucionada pelos Estados Unidos para punir a Sérvia e estribada num inaceitável predomínio étnico que legitimaria - por exemplo - o imediato levantamento insurreccional no País Basco contra os estados espanhol e francês. Moscovo respondeu também em 2008 com o reconhecimento das "independências" da Abcásia e da Ossétia do Sul, protectorados russos na Geórgia. A criação destes "bandustões" no Cáucaso demonstrou uma brutal incoerência: os russos, aliados da Sérvia, tinham estado na primeira linha dos protestos contra a "independência" do Kosovo, já para não falar na asfixia do movimento secessionista na Chechénia.

 

Aberta a caixa de Pandora em pleno século XXI, parece que recuámos duzentos anos na história. Eis-nos reconduzidos ao início do século XIX, nacionalista e fragmentário.

Com a Bélgica sempre prestes a implodir devido ao interminável conflito entre flamengos e valões.

Com os húngaros que não deixam de agitar-se na Voivodina e na Transilvânia.

Com galeses e escoceses, sem falar de parte dos irlandeses do norte, de costas viradas para Londres.

Com as eternas clivagens regionais no frágil estado italiano, onde se elevam vozes radicais pela independência da Padânia, capitaneadas pela Liga Norte.

Com as crescentes aspirações dos autonomistas corsos em clivagem aberta com o centralismo jacobino do Estado francês.

Com as reivindicações históricas germânicas, ciclicamente renovadas em círculos extremistas, à restituição da Alsácia e da Lorena (em França) e de Trentino-Alto Ádige (na Itália).

Com fortes minorias étnicas aspirando à reconfiguração do mapa político em países como a Letónia, a Macedónia e a Croácia.

Com a guerra civil de média intensidade que se prolonga no leste da Ucrânia entre russófilos e russófobos.

Com os problemas territoriais mal cicatrizados entre polacos e alemães, finlandeses e russos, húngaros e romenos.

Com os conflitos seculares entre gregos e turcos, centrados na ilha de Chipre, dividida desde 1974.

 

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

Ressurge agora a pulsão nacionalista na Catalunha, que nunca foi um Estado independente. A região goza de órgãos políticos próprios dotados de amplos poderes, reconhecidos na Constituição espanhola de 1978. Mas isto não basta para alguns elementos mais extremistas, que sonham com uma "grande Catalunha livre", integrando o arquipélago das Baleares, parte do País Valenciano, uma parcela oriental do território aragonês, Andorra, a Alta Sardenha e o departamento francês dos Pirenéus Orientais, onde se integra  o Rossilhão. Tudo em nome de pretensos direitos históricos, mais que contestáveis.

Nenhuma sondagem atribui maioria pró-independência entre os cidadãos da Catalunha. É um dado muito relevante, que a gritaria dos secessionistas nos palcos mediáticos não consegue iludir: não existem declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada. 

A Catalunha será sempre os que os seus cidadãos decidirem, mas num quadro de legalidade democrática. Não será uma minoria iluminada de catalães a decidir por todos, agitando bandeiras nas ruas e gritando palvras de ordem nas redes sociais. Muito menos os catalães "bacteriologicamente puros", que aliás são minoria na Catalunha. As famílias catalãs e castelhanas ou andaluzas ou valencianas ou aragonesas estão misturadas há séculos. E ainda bem.

 
A Europa - cada vez mais interdependente - não deve brincar às independências, dando lastro aos nacionalismos. Sempre redutores, sempre identitários, sempre com traços xenófobos centrados no ódio ao "estrangeiro".

Não esqueçamos: no século XX os nacionalismos exacerbados, postos em confronto, provocaram 80 milhões de mortos no Velho Continente. Tudo quanto contribua para o seu arrefecimento - e já nem falo na sua diluição - será sempre uma boa notícia para a Europa.

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Reino Unido: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 07.06.17

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século. E aqui foram recordados os titulares do Palácio do Eliseu também durante os mais recentes 50 anos.

Na véspera das eleições legislativas no Reino Unido, em que se confrontam a conservadora  Theresa May e o trabalhista Jeremy Corbyn, recordo hoje quem chefiou o Governo britânico durante o mesmo período.

Volto a segmentar este meio século por cinco blocos, cada qual correspondente a uma década, para uma consulta mais fácil. Pintando de vermelho os primeiros-ministros trabalhistas e de azul os chefes do Governo conservadores. Cumpre acrescentar que nenhum outro partido liderou o Executivo londrino de 1967 para cá.

 

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1967/76

1967 - Harold Wilson

1968 - Harold Wilson

1969 - Harold Wilson

1970 - Edward Heath

1971 - Edward Heath

1972 - Edward Heath

1973 - Edward Heath

1974 - Harold Wilson

1975 - Harold Wilson

1976 - James Callaghan

Predomínio trabalhista nesta década, iniciado durante os chamados Swinging Sixties por terras de Sua Majestade. Com um interlúdio conservador liderado por Edward Heath.

 

 

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1977/86

1977 - James Callaghan

1978 - James Callaghan

1979 - Margaret Thatcher

1980 - Margaret Thatcher

1981 - Margaret Thatcher

1982 - Margaret Thatcher

1983 - Margaret Thatcher

1984 - Margaret Thatcher

1985 - Margaret Thatcher

1986 - Margaret Thatcher

Os anos 80 britânicos tiveram hegemonia conservadora. Com Margaret Thatcher, vencedora de três eleições consecutivas, a impor-se sem discussão.

 

 

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1987/96

1987 - Margaret Thatcher

1988 - Margaret Thatcher

1989 - Margaret Thatcher

1990 - Margaret Thatcher

1991 - John Major

1992 - John Major

1993 - John Major

1994 - John Major

1995 - John Major

1996 - John Major

Segunda década com predomínio conservador: após o longo consulado de Thatcher seguiu-se o mandato de Major, que tinha sido um dos principais colaboradores da Dama de Ferro.

  

 

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1997/2006

1997 - Tony Blair

1998 - Tony Blair

1999 - Tony Blair

2000 - Tony Blair

2001 - Tony Blair

2002 - Tony Blair

2003 - Tony Blair

2004 - Tony Blair

2005 - Tony Blair

2006 - Tony Blair

O "novo trabalhismo" de Blair domina por inteiro a década, grande parte da qual em sintonia cronológica e programática com os EUA de Bill Clinton e a Alemanha de Gehrard Schröder. 

 

                            

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2007/16

2007 - Gordon Brown

2008 - Gordon Brown

2009 - Gordon Brown

2010 - David Cameron

2011 - David Cameron

2012 - David Cameron

2013 - David Cameron

2014 - David Cameron

2015 - David Cameron

2016 - David Cameron

Nova década dominada pelo Tories. E nem a queda de Cameron, provocada pelo Brexit, alterou a cor política na residência oficial de Downing Street, entretanto ocupada por Theresa May.

 

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Balanço: clara prevalência dos governos conservadores ao longo deste meio século (percentagem: 58%). Com cinco primeiros-ministros: Heath, Thatcher, Major, Cameron e May (esta ainda há menos de um ano em funções, pois só ascendeu à chefia do Executivo em 13 de Julho de 2016).

O Partido Trabalhista teve quatro inquilinos em Downing Street durante este período: Wilson, Callaghan, Blair e Brown (42% do total).

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França: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 05.05.17

Recordei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, entretanto substituído por Donald Trump.

Na antevéspera da eleição de um novo inquilino do Palácio do Eliseu, quando se confrontam nesta segunda volta das presidenciais o centrista Emmanuel Marcon e a nacionalista Marine Le Pen, relembro agora quem foram os titulares da Presidência da República Francesa, também durante os últimos 50 anos.

Volto a dividir este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil. Só altero as cores: vermelho para os Chefes do Estado mais conotados com o socialismo, azul para aqueles que assumiram ser conservadores ou liberais.

No final do mês farei o mesmo em relação ao Reino Unido, que irá a votos já em Junho para escolher um novo elenco parlamentar.

 

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Georges_Pompidou[1].jpg

 

1968/1977

1968 - Charles de Gaulle

1969 - Georges Pompidou

1970 - Georges Pompidou

1971 - Georges Pompidou

1972 - Georges Pompidou

1973 - Georges Pompidou

1974 - Giscard d' Eistang

1975 - Giscard d' Eistang

1976 - Giscard d' Eistang

1977 - Giscard d' Eistang

O conservador Pompidou, continuador do gaullismo sem De Gaulle, foi a figura dominante nesta década de transição em França. Até à sua morte prematura.

 

 

mitterrand[1].jpg

 

1978/1987

1978 - Giscard d' Eistang

1979 - Giscard d' Eistang

1980 - Giscard d' Eistang

1981 - François Mitterrand

1982 - François Mitterrand

1983 - François Mitterrand

1984 - François Mitterrand

1985 - François Mitterrand

1986 - François Mitterrand

1987 - François Mitterrand

Outra década, mudança de ciclo político em Paris. Com o socialista Mitterrand - derrotado nas presidenciais de 1965 e 1974 - a impor-se enfim na eleição de 1981.

 

 

FrancoisMitterrand[1].jpg

 

1988/1997

1988 - François Mitterrand

1989 - François Mitterrand

1990 - François Mitterrand

1991 - François Mitterrand

1992 - François Mitterrand

1993 - François Mitterrand

1994 - François Mitterrand

1995 - Jacques Chirac

1996 - Jacques Chirac

1997 - Jacques Chirac

Segunda década com predomínio de Mitterrand no Eliseu. Foi até agora o mais longo consulado desde o início da vigência da V República francesa, em 1958.

 

 

220px-ChiracUSA[1].jpg

 

1998/2007

1998 - Jacques Chirac

1999 - Jacques Chirac

2000 - Jacques Chirac

2001 - Jacques Chirac

2002 - Jacques Chirac

2003 - Jacques Chirac

2004 - Jacques Chirac

2005 - Jacques Chirac

2006 - Jacques Chirac

2007 - Nicolas Sarkozy

Um decénio quase completo sob a presença tutelar de Chirac, discípulo político do general De Gaulle. Conservador, beneficiou do voto maciço da esquerda contra Jean Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais de 2002.

 

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2008/2017

2008 - Nicolas Sarkozy

2009 - Nicolas Sarkozy

2010 - Nicolas Sarkozy

2011 - Nicolas Sarkozy

2012 - François Hollande

2013 - François Hollande

2014 - François Hollande

2015 - François Hollande

2016 - François Hollande

2017 - François Hollande

Uma década repartida entre a direita e a esquerda. Na segunda metade da década em contraciclo com a Alemanha e o Reino Unido, onde têm predominado os conservadores. A partir de agora abre-se uma incógnita.

 

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Balanço: a direita política dominou o Eliseu em 30 dos últimos 50 anos (percentagem: 60%). Com cinco presidentes: De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac e Sarkozy.

O Partido Socialista só teve dois inquilinos no palácio presidencial durante este meio século: Mitterrand e Hollande. Este último sai sem deixar saudades.

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