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Delito de Opinião

Um herói português em Hamburgo

Cristina Torrão, 02.12.25

“Fábio Vieira põe os adeptos do Hamburger SV em êxtase”, ouvi ontem no rádio, ao pequeno-almoço.

Fábio Vieira provoca explosão de emoções no estádio

O golo tardio de Fábio Vieira provoca um “terramoto”

Loucura no último minuto

São as manchetes que encontro na internet.

Realmente, a situação não podia ser mais emocionante.

Fábio Vieira HSV.jpg

Imagem tirada deste vídeo

 

Mas comecemos pelo início. Fábio Vieira, de 25 anos, nascido em Santa Maria da Feira, jogava no F.C. Porto, quando foi comprado pelo Arsenal. Desde Setembro passado, é jogador emprestado ao Hamburger SV.

A história recente deste clube alemão tem sido dramática.

Hamburgo é a segunda maior cidade alemã (1.852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. O Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, tem capacidade para 57.000 pessoas. No seu palmarés, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos alemães. E, no entanto, de 2018, até à época passada, jogava da 2ª divisão!

Volksparkstadion.jpgVolksparkstadion, em Hamburgo

 

De há doze anos para cá, os adeptos do Hamburger SV vêm precisando de nervos de aço. O clube esteve quase a descer de divisão, em 2014, mas assegurou a sua permanência no play-off por uma unha negra. Depois deste susto, anunciaram-se medidas drásticas para tirar o clube da crise, incluindo a dissolução de todo o management.

Mas as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Começou uma odisseia macabra. O HSV ficou três vezes no quarto lugar e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off, com o último classificado da Bundesliga. E dessas três vezes falhou.

Na época passada, porém, conseguiu, com um 2º lugar, regressar finalmente à Bundesliga. Não tem, contudo, brilhado, pelo contrário.

No fim-de-semana passado, uma vitória permitiu-lhe ascender ao 13º lugar (entre 18 equipas). Uma vitória sobre o VfB Stuttgart, sexto clasificado! E em desvantagem numérica, depois de um dos seus jogadores ter visto o cartão vermelho (minuto 81). Nesta altura, o jogo estava empatado 1-1.

Já nos descontos, último minuto da partida: Fábio Vieira faz o segundo golo para o Hamburger SV. O estádio explodiu. Ouçam, neste vídeo, a histeria dos relatadores:

 

 

 

Curiosidade: Fábio Vieira esteve quase a jogar pelo VfB Stuttgart, antes de ir para Hamburgo, precisamente o clube que, devido ao seu golo, perdeu dramaticamente este jogo.

 

Outra curiosidade: o guarda-redes do Hamburger SV é, desde 2019, Daniel Heuer Fernandes, um luso-alemão, nascido em Bochum (pai português e mãe alemã). Fez, aliás, parte do plantel português para o Campeonato Europeu Sub-21 de 2015, na República Checa.

 

Manuel Heuer Fernandes.jpg

 

Adenda: Peço desculpa. O guarda-redes não se chama Manuel, mas sim Daniel Heuer Fernandes.

Pela Europa 4

Cristina Torrão, 02.03.25

Hamburgo, com cerca de 1.800.000 habitantes, é a cidade alemã que melhor conheço. Não admira, vivi lá os meus primeiros sete anos "alemães". E, quando saí de lá, fiquei a apenas 50 km de distância.

O nome oficial de Hamburgo é "Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo" (Freie und Hansestadt Hamburg) - uma cidade-estado independente, que se tornou num dos dezasseis "Estados" (Land/Länder) da República Federal da Alemanha. Há só mais duas cidades-estado, neste país : Berlim e Bremen. Munique pertence ao estado da Baviera e Colónia ao estado da Renânia do Norte - Vestfália.

O porto de Hamburgo é o segundo maior da Europa. E, no entanto, fica a cerca de 100 km da foz do rio Elba.

Na zona do porto de Hamburgo, encontra-se o entretanto famoso Portugiesenviertel, ("bairro dos portugueses"), com grande variedade de restaurantes do nosso país, aos quais se misturam alguns brasileiros e espanhóis.

Estádios de 2ª divisão no Euro 2024*

Cristina Torrão, 05.07.24

Apesar de morar a apenas 60 km de Hamburgo, não vou assistir ao vivo ao jogo de hoje entre Portugal e a França. Por um lado, é dificílimo arranjar bilhete. Por outro, custar-me-ia muita energia emocional. Não estarei, assim, entre os portugueses que se deslocarão ao Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, com capacidade para 57.000 pessoas. E pertencente a uma equipa da… 2ª divisão!

Volksparkstadion.jpg

Imagem Wikipedia

Não é o único. Muita gente em Portugal não saberá que, na verdade, metade dos estádios alemães, onde se disputam as partidas deste Euro, pertencem a clubes da 2ª divisão. Cinco, entre os dez escolhidos: Düsseldorf, Köln (Colónia), Gelsenkirchen (pertencente ao Schalke 04), Berlim (o Estádio Olímpico, com lotação para 74.000 pessoas, é a “casa” do Hertha BSC) e Hamburgo, onde hoje se jogará os quartos de final entre Portugal e a França.

Hamburgo (onde morei durante sete anos) é a segunda maior cidade alemã (1,852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. Além disso, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos no seu palmarés. E, até 2018, era a ÚNICA equipa alemã que nunca tinha estado na 2ª divisão, desde a criação da Bundesliga, em 1963, nos moldes que hoje se conhecem (o Bayern de Munique, nessa altura, não foi convidado para participar na Bundesliga; ficou na 2ª divisão, só subindo à 1ª na época de 1965/66).

De há dez anos para cá, os adeptos do Hamburger SV vêm precisando de nervos de aço. Como aqui registei, o clube esteve quase a descer, em 2014, mas assegurou a sua permanência no play-off por uma unha negra. Nessa altura, o capitão da equipa era a antiga estrela da selecção neerlandesa Rafael van der Vaart. E, depois deste susto, anunciaram-se medidas drásticas para tirar o clube da crise, incluindo a dissolução de todo o management.

Enfim, as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Não preciso de dizer que os adeptos se acostumaram à máxima “para o ano é que vai ser”. O Hamburgo ficou, desde então, três vezes no quarto lugar (épocas 21/22, 22/23 e 23/24) e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off com o ante-penúltimo classificado da Bundesliga.

Esta época, que até começou muito bem, acabou, mais uma vez, no quarto posto. E a humilhação foi ainda maior, perante a subida à Bundesliga da segunda equipa de Hamburgo, eterna rival do Hamburger SV: o FC St. Pauli.

O FC St. Pauli é uma clássica equipa de 2ª divisão. Passou uma época na Bundesliga nos anos 1970 e outra em 2010/11. Mas também já desceu à 3ª divisão, vendo-se obrigada a jogar na chamada Liga Regional do Norte, de 2003 a 2007. Como se depreende, esta subida significa muito para este pequeno clube. E deprime ainda mais os adeptos do Hamburger SV.

Millerntor-Stadion Gudrun Becker.jpg

Millerntor-Stadion - Foto Gudrun Becker

O Millerntor-Stadion, com lotação para quase 30.000 pessoas, e onde o FC St. Pauli está “em casa”, tem, desde ontem, servido de treino para as selecções de Portugal e da França.

Curiosidade: O bairro de St. Pauli inclui a rua Reeperbahn, onde se situa o famoso red-light district de Hamburgo.

*Originalmente publicado no És a nossa Fé