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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.11.21

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Cláudia Köver: «Band of horses é um grupo indie/rock alternativo americano (ou assim o diz a wikipédia). A música de hoje fez parte da banda sonora de "127 horas". Filme que, infelizmente, ainda não vi. A banda tem três álbuns e é provavelmente uma das mais conhecidas que até agora aqui vos apresentei. Fica a esperança que não conheçam a música de amanhã.»

 

Ivone Mendes da Silva: «A Eugénio de Castro juntam-se Alberto Osório de Castro, Alberto de Oliveira, António Nobre, Júlio Brandão, entre outros. Eram os “nefelibatas”, designação um bocadinho pejorativa. Vem do grego: são os que andam nas nuvens. O Simbolismo português é, antes de mais, uma atitude estética, não é a filosofia do decadentismo francês de final de século. É um virar de costas ao pesadume exaltado do ultra-romantismo, é “de la musique avant toute chose”.»

 

João Carvalho: «Como se sabe, o transporte de doentes é muitas vezes vertiginoso, o que constitui não só um perigo potencial para os restantes transportes em circulação, mas também para a tensão arterial dos próprios doentes ambulatórios. Recomenda-se, portanto, que a selecção das respectivas viaturas seja feita com muita calma...»

 

José António Abreu: «Antes quase não se discutiam decisões governamentais de centenas de milhões de euros com impacto ao longo de décadas. Agora discutem-se ferozmente alugueres operacionais de viaturas de oitenta e seis mil euros. Proclama-se que deviam ser anulados. Apesar de resultarem de contratos assinados pelo anterior governo, culpa-se o actual. O Ministro (que se enreda ao procurar explicar-se; note-se como Zorrinho preserva o orgulhoso silêncio que tão bem resulta por cá) devia demitir-se ou, no mínimo, voltar a andar de scooter (não está claro se poderia manter o motorista mas provavelmente Mota Soares preferiria guiar a ter de seguir abraçado a ele).»

 

Luís M. Jorge: «Perdi o maldito livro hoje mesmo. Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso

 

Rui Rocha: «A vida não está fácil para os pensionistas. Primeiro, foram os cortes previstos no Orçamento de Estado para 2012. Agora, é a Lusa que os quer pôr a trabalhar

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.11.21

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Ana Cláudia Vicente: «Parabéns à Cooperativa de Produtores de Queijos da Beira Baixa / Idanha-a-Nova pela Medalha de Ouro conseguida nos World Cheese Awards deste ano. Enquanto uns lamentam o presente, outros investem, arriscam, preparam o futuro.»

 

Cláudia Köver: «A crónica esteve provisoriamente "perdida" entre o trabalho e o lazer. No entanto regressa hoje aos nossos ouvidos com "How you like me now?" de "The Heavy", uma banda inglesa que figurou na Hot List da revista Rolling Stones em 2008. Esta mesma música foi usada num anúncio da KIA durante o Super Bowl 2010 e integrou a banda sonora de The Fighter. Se não a tiverem ouvido aí, também a podem reconhecer de séries como "White Collar" ou "Entourage".»

 

José António Abreu: «Dois rapazes de São Francisco que se autodenominam raparigas e cantam sobre rapazes sonhando com raparigas. Estranho? Mesmo nada quando se sabe que a história de um deles inclui, graças à mãe, passagem por um culto radical, deambulações pela Ásia e Europa enquanto criança e nunca ter pisado uma sala de aula. Hoje na Discoteca Lux, em Lisboa, amanhã na sala 2 da Casa da Música, no Porto. Claramente, têm um fraquinho por ícones da indústria automóvel americana.»

 

José Gomes André: «Foi isto escrito no Economist de ontem? No Der Spiegel da semana passada? Não. Data de 1791, quando uns ainda jovens Estados Unidos se viam a braços com uma colossal crise financeira. Não deixa de ser curioso ouvir nos "media" os relatos histéricos sobre a "crise dos nossos tempos". É no que dá desconhecer o passado. Como nos diz Santayana, acabamos condenados a vivê-lo uma e outra vez...»

 

Laura Ramos: «A revisão da política do medicamento em Portugal era urgente por variadas razões, nem todas especialmente novas - como a transparência do mercado farmacêutico - mas agora assume um papel redobradamente importante, actuando também na suavização dos efeitos da austeridade. Quer pelo lado do consumidor privado, porque a baixa generalizada dos preços lhe facilita o acesso a terapêuticas de custos comportáveis. Quer pelo lado do consumidor público, o Estado, que assim poderá reduzir os seus gastos sem comprometer uma parcela dos objectivos do SNS.»

 

Luís M. Jorge: «Nouriel Roubini, o homem que previu a recessão de 2008, faz uma síntese exemplar da crise do Euro e enumera as soluções que ainda nos restam. A Alemanha está contra, evidentemente.»

 

Rui Rocha: «António José Seguro cunhou a expressão violenta abstenção. Todavia, ao que parece, melhor falaria de uma abstenção violenta, sendo que esta descreve não a posição do PS em relação ao Orçamento, mas a situação vivida no próprio grupo parlamentar socialista. Na verdade, e de acordo com vários relatos, Seguro pretendia votar favoravelmente a proposta dita de modelação dos cortes salariais na função pública. A decisão terá mesmo sido comunicada à bancada do PS pelo líder parlamentar. Todavia, alguns deputados socialistas manifestaram a intenção de quebrar a disciplina de voto, o que levou a liderança (se é que assim se pode dizer) a recuar e  a optar pela abstenção.»

 

Eu: «Tanto vamos sabendo, no contínuo bombardeamento informativo de que somos alvo de manhã à noite. Mas tanto permanece por desvendar nas entrelinhas das notícias. E muitas vezes é precisamente quando as notícias terminam que a vida verdadeira começa, com o seu permanente jogo de sombras e luzes.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.11.21

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Ana Vidal: «Acaba de chegar às livrarias um dos motivos que me têm afastado do DELITO ultimamente. Agora já não me pertence e espera o vosso veredicto. O texto é meu, a capa é um belíssimo quadro do pintor Joaquim Baltazar, que traduz na perfeição o espírito do livro. Enfim, uma sugestão para o Natal

 

José Maria Gui Pimentel: «Em relação à proposta do Governo, para a eliminação de quatro feriados, acho que faz algum sentido. Mas apenas isso: algum. Isto porque em Portugal no papel até se trabalha muito, em muitos sítios bastante mais do que na maioria dos países europeus. O nosso problema diz sim respeito à produtividade. Aumentar a produção por outros meios pode resultar mas acarreta consequências sobre a qualidade de vida (já das mais baixas da UE) que não são despiciendas.»

 

Leonor Barros: «Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.»

 

Luís M. Jorge: «Eis o canto do cisne da escola económica judaico-cristã. Agora que os efeitos da crise chegam à Espanha, à Itália, à França e à Bélgica, e já nem a Alemanha consegue colocar as suas obrigações de dívida pública a dez anos, suponho que vai ser um pouco mais difícil encontrarmos preguiçosos e irresponsáveis para incriminar.»

 

Eu: «Notícias frescas da eurozona: Itália à beira da recessão, no próximo ano o desemprego continuará a disparar em Espanha, a Economist vaticina o colapso do euro. E os nossos vizinhos até já admitem sem rodeios um cenário de regresso à peseta. "Mereceste reinar", escreveu Quevedo num soneto dedicado a Filipe III. De quantos dirigentes europeus contemporâneos poderá um historiador futuro dizer o mesmo?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.11.21

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Ana Vidal: «É oficial: o Fado foi reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Estão de parabéns todos os portugueses, quer gostem ou não deste género musical. E estão de parabéns, particularmente, os principais impulsionadores desta candidatura, com especial destaque para Rui Vieira Nery. Por mim, ergo com muito gosto a bonita guitarrinha estilizada que recebi na homenagem que a Sociedade Portuguesa de Autores fez recentemente a todos os que de alguma forma estão ligados ao Fado: autores, intérpretes e instrumentistas. É uma honra fazer parte desse universo.»

 

João Campos: «É mais ou menos recorrente: o final do ano traz consigo as "listas" que toda a gente faz, em jornais, revistas e blogues, sobre os melhores livros, filmes e discos do ano. Invariavelmente, ao longo dos últimos anos dou por mim a contribuir para essa tradição, mas sem assinalar nada que tenha sido feito nesse ano, pois nunca ando a par dessas coisas. Acontece que em 2011, por qualquer combinação astral esquisita, posso nomear um livro, um disco, uma música e um filme - todos de 2011.»

 

João Carvalho: «Não é a primeira ilha em que me instalo para ficar nunca-sei-até-quando: a minha primeira ilha foi a Taipa, em Macau. Nem sequer é a segunda ilha onde fico: a minha segunda ilha foi São Miguel, que acabo de deixar para trás, já com saudades. Faço inversão de marcha e regresso a Angra com um dado já adquirido: esta é a minha Terceira...»

 

Teresa Ribeiro: «O ventinho de fim de tarde arrepia a superfície do lago onde vogam os patos. Da janela do 4º andar consegue vê-los todos. Seis, sem contar com os bravos. Menos dois que na semana passada. Junto ao prédio, a bebé do terceiro andar, a fugir aos guinchos da avó, e o miúdo que mora em frente com o som do auto-rádio no máximo, chamam a atenção de um cão vadio. Ao longe um bando de adolescentes fustiga com paus a vegetação que espiga na orla do lago. Serão aqueles que os matam?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.11.21

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Ana Lima: «Em dia de dérbi (ou derby) aí vai uma contribuição para todos os adeptos das duas equipas (e de outras): trata-se de um texto publicado numa revista que se publicou entre Março de 1926 e Março de 1927, de seu nome "Ordem Nova", e que tinha como objectivo a mobilização para a luta política a favor da ditadura, promovendo as suas ideias e propostas.»

 

Ivone Mendes da Silva: «- Tens mesmo de ir ver o jogo?

- Sim e ainda tenho de vestir alguma coisa.

- Nunca hei-de perceber porque não ficas em casa.»

 

Rui Rocha: «Mário Soares afirma que Otelo tem muito bom coração. Ramalho Eanes assevera que Otelo tem o coração perto da boca. Se tivermos em conta que a história testemunha que Otelo teve o dedo colado ao gatilho e que, com a outra mão, manteve o fósforo junto do rastilho, chegaremos à conclusão que, no meio de tudo isto, o que é preciso é ter estômago.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.11.21

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Ana Lima: «Fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve. As minhas filhas também não compreenderam. Na realidade não só não prejudiquei como beneficiei o Estado pois além do dinheiro que poupou, nem a água e a luz consumi. Mas digo-vos: o dinheiro perdido é compensado por este sentimento de que, mesmo no meio das contradições e desconhecendo quais os números reais, estou no lado certo das estatísticas.»

 

João Carvalho: «Uma vez na posse dos impressos e mais a factura, deixámos o balcão e dirigimo-nos para a porta da rua. Foi quando vi, colado ao vidro da parte de dentro e escrito em parangonas, com todas as letras maiúsculas e em quatro linhas: "Peça a factura se faz favor. Facturar faz o País avançar." Deu para entender por que é que o País não avança.»

 

Luís M. Jorge: «Às onze da manhã e às cinco da tarde, no Opinião Pública da SIC Notícias, todos os desocupados do país erguerão as vozes em uníssono para denunciar a infausta repugnância lusitana pelo trabalho.»

 

Rui Rocha: «Na greve de ontem, o tempo perfeito, o momento idealizado, estava no passado. Esse onde o trabalho podia ser para toda a vida e era pago em 14 remunerações anuais e em que o Estado oferecia a miragem de uma ampla protecção social na doença e na tristeza. O cimento que uniu os trabalhadores não foi o desejo de revolução, com a consequente alteração das estruturas políticas e sociais, nem sequer o de revolta (entendida esta no sentido que lhe é dado por Paolo Virno, Alain Badiou ou Jacques Ranciére: momento análogo ao da catástrofe, do colapso, sem projecto de futuro). No fundo, os trabalhadores em greve são consumidores que vêem o poder de compra afectado e reclamam o seu lugar no sistema capitalista e na social-democracia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.11.21

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Ana Vidal: «Andávamos todos tão necessitados deste Castelões melhorado como do novo paradigma do dr. Soares. Mas não se apoquente, amigo novo-rico português que ficou excitado com a ideia de ter este ano um estômago mais brilhante do que a sua árvore de Natal: não quero apontar-lhe o dedo, que é isso! Nem dizer-lhe o que penso desta aberração imoral, sobretudo nos tempos que correm (olha, perdão, já disse). Afinal, você tem tanto direito de exibir a sua alarvice pseudo-sofisticada como qualquer sultão dos petroemiratos ou estrela pop, seja a lady gaga ou outra de discurso escorreito.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Lembro-me de ter lido uma entrevista na qual uma das filhas de Jacques Brel dizia que o pai era igual aos bourgeois que vilipendiava nas canções. Por estas e por outras, hei-de preferir sempre a obra ao autor. Gosto de que leio, vejo e ouço. O resto, je m'en fousNe me quitte pas pode ser canção de amar ou de rastejar (e ninguém diga desta água não beberei...), mas é sobretudo uma belíssima canção. Postas assim as coisas, melhor, cantadas assim, eu teria ficado. Nem que fosse para me ir embora no dia seguinte.»

 

João Carvalho: «Pode não parecer pela notícia que o mencionado Jardim do braço-de-ferro com Lisboa é o mesmo Jardim que manteve audiências recentemente com Passos Coelho e Vítor Gaspar, nas quais entrou de carrinho e saiu de patins. Mas é ele. O que é que acham? Será que acabou o número dos palhaços e começou o dos trapezistas sem rede? Pode ser bom sinal. Que o circo prossiga.»

 

José António Abreu: «Juro que não fiz de propósito mas hoje, dia de greve geral, foi também o dia em que mais trabalhei esta semana.»

 

Luís M. Jorge: «Dia de greve é dia de trauliteirismo galopante, como sabemos. Daí a importância de mimarmos a nossa direita civilizada, que não alça mocas de Rio Maior nem vitupera a infame Constituição marxista onde se consagram direitos a quem dá cabo da economia.»

 

Luís Menezes Leitão: «Passos Coelho agora afirma que "temos que dar um passo atrás para dar dois passos em frente". Já há muito que me parecia que estas políticas do Governo com impostos extraordinários, taxas de IRS de 50% e confisco de salários aos funcionários públicos e pensões aos pensionistas nada tinham de liberal, mas antes de socialista. Agora verifica-se que o Primeiro-Ministro se filia claramente na pura dogmática de uma frase imemorial dita por Vladimir Ilitch Lenine em 1904 (a obra pode encontrar-se aqui). Lenine de facto conseguiu atingir o objectivo da sua vida, apesar dos muitos passos que deu para trás, mas a sua vitória representou a desgraça do seu povo durante quase 75 anos. Desejo sinceramente que Portugal não passe pelo mesmo.»

 

Rui Rocha: «Os dados apresentados pelos sindicatos só são compreensíveis se os entendermos como um milagre (ocorre-me o episódio da multiplicação dos pães), prestidigitação ou pura charlatanice. Na verdade, aceitar uma participação próxima de 1 milhão de trabalhadores já exige alguma boa vontade. Estaríamos, mesmo nesse caso, a falar de 20% da população empregada e de um número inferior em 2 milhões ao apresentado pelos sindicatos.»

 

Eu: «Em dia de greve geral suscita-se a questão: como vamos em matéria de direitos laborais por esse mundo fora? O melhor é consultar o relatório anual da Confederação Internacional de Sindicatos: nenhuma organização está tão bem informada nesta matéria.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.11.21

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João Campos: «A confirmar-se, claro - com a CP, nunca é de fiar -, esta é uma excelente notícia: [Intercidades Lisboa-Faro] Novas paragens em Ermidas do Sado e Santa Clara. Já era tempo de o concelho de Odemira ter uma ligação à rede do Intercidades.»

 

João Carvalho: «Jardim, na senda habitual do défice democrático que plantou e senhor de conhecidos tiques absolutistas nas duas ilhas onde reina, promoveu desta vez uma trapaça: dono dos dados e das cartas do jogo, alterou as regras do jogo e ainda foi a jogo. Ganhou, claro. Falta agora confirmar que Portugal é um Estado de direito com um regime democrático constitucionalmente consagrado. Não sei se vai caber ao Tribunal Constitucional, não sei se vai ser preciso alguém apresentar queixa e não sei se Jardim vai espumar pela boca. Nem quero saber.»

 

Laura Ramos: «Para viver de sonhos chegaram-me as últimas legislaturas. Eis no que deu. Eis quem pagou.»

 

Leonor Barros«Em Março último, Cavaco Silva afirmava que havia limites para os sacríficios exigidos aos portugueses. Além dos limites aos sacríficios devia haver limites à paciência dos portugueses e ainda limites à distinta lata do primeiro-ministro. E depois querem convencer-nos de que não há alternativa à austeridade. Esqueceram-se de um adjectivo possessivo de extrema importância. Não há alternativa à nossa austeridade, já que a vossa, senhores governantes, vai continuando a ser uma miragem. Tenham vergonha.»

 

Luís M. Jorge: «Vale a pena recordarmos que nem Sócrates, nem os amigos de Sócrates, nem os jornalistas e colunistas de Sócrates, nem os abrantes de Sócrates se atreveram a pôr alguma vez em causa a legitimidade de uma greve. Podem ter insultado os grevistas com a panache do costume, mas não discutiram direitos fundamentais. E essa pequena diferença revela-nos muito do que em breve teremos de enfrentar.»

 

Luís Menezes Leitão: «Mário Soares constitui seguramente a figura mais emblemática do regime saído do 25 de Abril. É por isso com tristeza que o vejo associar-se a uma iniciativa tão absurda como a deste manifesto. Estou totalmente em desacordo com a política financeira de Vítor Gaspar e aposto singelo contra dobrado que daqui a dois anos o país vai estar ainda pior do que está hoje. No entanto, a oposição pressupõe a afirmação de alternativas, não bastando a apresentação de um texto mal escrito, em estilo de redacção escolar, sem uma mínima proposta consistente.»

 

Rui Rocha: «Nada incomoda mais do que os comentários que procuram sublinhar o incómodo e a inutilidade das greves. Estas são um direito que tem como único critério a vontade dos trabalhadores. É assim que as devemos encarar. Numa sociedade adulta, respeita-se sem adversativas o direito à greve e o correspondente direito à não greve. Depois, fazem greve os que entendem fazer, sofrem-nas os que devem sofrer e tiram-se as conclusões pertinentes. São os custos de viver em sociedade. Convenhamos, há por aí outros bem piores. Nunca fiz greve, nem tenciono fazer nos próximos tempos. Mas, no dia em que decidir fazer, não aceitarei que condicionem o meu direito a partir de um critério de utilidade ou do incómodo que pode causar.»

 

Eu: «O órgão central do PCP subscreve a posição oficial da ditadura síria, copiando as posições pró-Kadhafi que assumiu sem sombra de pudor nos meses que antecederam a queda da ditadura líbia. Em vez de criticar o tirano, contesta aqueles que ousam levantar-se contra ele, denunciando supostas milícias responsáveis por "actos considerados terroristas em qualquer parte do mundo, como ataques a esquadras e instalações do exército". Uma vez mais, coloca-se ao lado de quem reprime e levanta a voz contra os reprimidos. Azar das Catarinas Eufémias sírias: elas jamais contarão com a solidariedade do PCP.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 22.11.21

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João Campos: «O PS propõe, no contexto das medidas de austeridade (e da busca desesperada por uma alternativa ao corte de um dos dois subsídios), medidas de moralização para os políticos. E que propõe Seguro? Simples: As viaturas do Estado para uso particular devem passar a ser contabilizadas para efeitos de IRS. Assim de repente não sei que efeito tal medida teria nas contas públicas, mas é impossível não ver que o secretário-geral do PS perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Se propusesse que as viaturas do Estado devem ser usadas única e exclusivamente para fins de Estado, e jamais para fins particulares, aplaudiria. Mas isso, como é bom de ver, seria pedir muito.»

 

João Carvalho: «O serviço público que se esperaria da RTP (usando o exemplo inevitável do canal principal em sinal aberto) está muito, muito longe dos mínimos desejáveis. Ora porque se cola à programação das televisões privadas com o olho nas audiências, ora porque não se cola e não sabe o que há-de fazer além de encher chouriços — chouriços que ficam pela hora da morte, mais caros que as morcelas gourmet da mesa do rei — o certo é que andamos todos a pagar ordenados principescos que seriam obscenos mesmo que fossem entregues aos melhores profissionais do mundo.»

 

José António Abreu: «Carlos Zorrinho diz que só «a teimosia» ou «eventual excesso de precaução» pode impedir o governo de aceitar as alterações ao orçamento propostas pelo PS. Ele devia ter mais cuidado com a questão de «a teimosia» porque todos nós, detentores de memória não selectiva, ainda nos lembramos de como o governo do Partido Socialista não era propriamente brilhante a aceitar sugestões nos tempos em que dispunha de maioria absoluta.»

 

Laura Ramos: «John Fante foi isso mesmo: um escritor americano filho de italianos pobres imigrados no Colorado, cujo pai assentava tijolos com brios de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, numa espiral autoritária e primitiva que marcou o escritor para sempre. A Confraria do Vinho é assumidamente autobiográfico e um dos últimos livros publicados por este "Hemingway italo-americano", como lhe chamaram, girando em torno dos derradeiros dias do pai, quando o escritor, já casado e a viver em Malibu, regressa penosamente à casa da família perto de Sacramento e à vida entre os paisani, dominados pela idolatria às vinhas de Musso, afogados em chianti (o leite das suas segundas infâncias), eternos malandros deambulando pelas tascas à espera de se atirarem a qualquer rabo de saias.»

 

Luís Menezes Leitão: «Quando é conseguiremos arranjar um governo que não se preocupe com os prejuízos do bar da Heidi e dos que investiram na sua política de crédito e se preocupe antes com os cidadãos trabalhadores deste país?»

 

Patrícia Reis: «Hoje apresentei às pessoas que trabalham comigo no atelier os cortes que terão no subsídio de Natal. Eu não tenho. Não chega, não é a primeira vez, não será a última, mas tenho de pagar o imposto seja como for. Pouco importa, é Natal na mesma.»

 

Rui Rocha: «Os proveitos do alojamento turístico ascenderam na Madeira a 250 milhões de euros em 2009 e a 227 milhões de euros em 2010. Todavia, como aqui se vê, a soma dos proveitos dos meses de Dezembro e de Janeiro dificilmente ultrapassa os 30 milhões de euros. Aqui chegados, uma pergunta: que percentagem dos turistas que visitam a Madeira entre Dezembro e Janeiro continuaria a fazê-lo se não existisse animação ou se esta fosse mais contida? Não sei, confesso. Mas, sei uma coisa. Os proveitos do mês de Novembro de 2010, em que não existiu Natal, Réveillon ou Carnaval, foram superiores a 14 milhões de euros. Isto é, Novembro de 2010, sem nenhuma âncora, gerou mais proveito do que Janeiro ou Dezembro do mesmo ano (cada um deles vale cerca de 14 milhões). Assim, é de admitir que a decisão de visitar a Madeira no final do ano seja ditada, tal como acontece em Novembro, por muitos outros motivos de interesse. E que a animação seja, só por si, pouco relevante.»

 

Eu: «Não há políticos no Governo italiano, liderado pelo ex-comissário europeu Mario Monti. Há sete professores, dois advogados, um banqueiro, um almirante, um jurista, uma antiga delegada da polícia... A intenção é clara: demonstrar aos italianos que chegou a hora de "limpar" o país desse vírus que é a política. Outra coisa não seria de esperar desta equipa governativa que se destina a regenerar Itália para mostrar obediência à Comissão Europeia e ao directório franco-alemão.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 21.11.21

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Ana Lima: «Diz Geraldo Martins, especialista sénior em educação do Banco Mundial, que, em época de crise, as universidades deverão "encontrar as melhores opções para maximizar os recursos disponíveis, isto é, alcançar melhores resultados com os mesmos recursos. Isso exigirá muita criatividade". Ora, fazendo eco deste apelo o Instituto Politécnico de Bragança já deu o exemplo. Com efeito, com palestrantes deste gabarito para quê esperar por mestrados, doutoramentos, provas para associados, para agregação, até chegarmos a ter professores catedráticos?»

 

Ana Margarida Craveiro: «Já tinhamos um presidente pro bono, agora temos uma presidente da Assembleia da República pro bono. Independentemente do valor inqualificável das reformas, o que importa aqui é o desprezo pelo cargo. Os salários dos políticos são pagos ao valor a que são por vários motivos. Um deles é a independência. Estes presidentes reformados representam o quê? A Caixa de Aposentações? Isto estraga a qualidade da democracia. E é errado, do ponto de vista institucional. Mas sinto-me sempre a pregar aos peixes, quando realço estas coisas.»

 

João Campos: «Decorreu entre 18 e 20 de Novembro o Fórum Fantástico 2011. Em jeito de resumo (que não fará justiça ao evento), foram três dias de excelentes sessões sobre os géneros do fantástico na literatura, no cinema e na banda desenhada.»

 

João Carvalho: «Se não são transportes públicos, são transportes para-públicos. Apenas acontece que há públicos incapazes de conter os tiques mais ostensivos do novo-riquismo de mau gosto (eticamente mal-educado e financeiramente desastroso) que os norteia. Quer isto dizer que os transportes existem, mas há públicos e públicos. Alguns até andam de transporte dentro de casa, como a foto ilustra...»

 

José António Abreu: «Em tempos de crise temos uma vantagem competitiva. Estamos habituados. A crise é o nosso ambiente natural..»

 

José Maria Gui Pimentel: «Quase sete anos e duas derrotas em eleições legislativas foi quanto aguentou Mariano Rajoy ao leme do PP. Em Portugal, o país onde a regra, e não a excepção, é os governos não terminarem a legislatura, e onde o PSD, desde as eleições de 2005, conheceu 5 (cinco!) líderes diferentes, seria tal situação possível? Receio bem que não. Não quero com isto defender a estabilidade de liderança como panaceia. Mas que ajuda muito...!»

 

Rui Rocha: «Não há modos agradáveis de abordar más notícias. Mas, para que não se prolongue a tortura emocional dos reais ou presumíveis afectados,  é obrigatório encontrar formas correctas, claras e concisas de o fazer.»

 

Eu: «O Renato Teixeira ficou a espumar de raiva com os resultados eleitorais em Espanha: "Os maiores terroristas do Estado Espanhol estão de regresso ao poder." Comparando fraudulentamente a ditadura de Franco com a actual democracia representativa espanhola que acaba de dar voz aos cidadãos nas urnas. Logo ele, que ainda há poucos dias se tinha insurgido contra a "suspensão da democracia na Grécia". Não conheço na actual blogosfera portuguesa ninguém que se equivoque tanto nos conceitos políticos: para ele, democracia é ditadura e vice-versa. A baralhação deste radical pequeno-burguês de fachada socialista chega ao ponto de o levar a branquear o totalitarismo nazi, comparando favoravelmente Hitler com o Estado de Israel: "As principais vítimas do holocausto estão prontas para superar o mestre."»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.11.21

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Ivone Mendes da Silva: «Quem lê hoje Trindade Coelho, Júlio Dinis, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Alves Redol? E quem lê Eugénio de Castro, António Feijó, Mário de Sá-Carneiro, Carlos de Oliveira ou a poesia de Vitorino Nemésio? Temo-los nas estantes, claro, mas iremos tirá-los de lá para abrirem uma clareira  nos dias do nosso descontentamento?»

 

João Campos: «Há quem defenda que a blogosfera portuguesa foi fundada pela Coluna Infame, o excelente e polémico blogue de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho, nascido a 15 de Outubro de 2002 e extinto a 10 de Junho de 2003. Dos founding fathers dessa bloga, apenas Pedro Mexia manteve presença regular na blogosfera ao longo dos anos, em vários projectos colectivos e individuais.»

 

João Carvalho: «Há qualquer coisa indefinida nos Açores que nos envolve. Em especial, na ilha espaçosa de São Miguel, a gente sente algo que está para lá do nosso olhar, do que é palpável, do que temos por óbvio. Somos misteriosamente envolvidos e vamo-nos deixando envolver. O envolvimento imediato é a natureza. A moldura marítima da ‘ilha verde’ mal serve para conter os imensos cambiantes verdes da paisagem, que oscila entre os tons mais profundos e as manchas mais subtis. Quase temos medo de lhes tocar, para que não se estraguem.»

 

José António Abreu: «A forma como a memória nos prega partidas. Como, sem perceber que mentimos, a moldamos de forma a podermos manter uma visão aceitável de nós próprios. Mas também as consequências de actos que julgávamos insignificantes. Que lembramos como tal, mesmo sabendo que por vezes actos insignificantes para uma pessoa são estocadas mortais para outra. Os efeitos da passagem do tempo na memória e nas nossas ilusões. Tudo em cento e cinquenta páginas de pura filigrana.»

 

Luís M. Jorge: «Não é a austeridade, acreditem — nunca foi. O que me chateia mesmo é o gozo mal disfarçado de quem a impõe com esta mistura tão lusitana de tacanhez endémica, subordinação saloia e analfabetismo panfletário. Tragam-me um vilão do Graham Greene, melancólico e sem peneiras, para desenjoar.»

 

Luís Menezes Leitão: «A Câmara Municipal de Lisboa não consegue realizar uma gestão equilibrada, continuando com uma dívida monumental que acha que deve ser paga pelos cidadãos, mesmo quando estes já suportam preços altíssimos de combustível. E infelizmente o lobby autárquico conseguiu que o Governo desistisse de lhes aplicar limites ao endividamento. O verdadeiro combate às gorduras do Estado passa é pelos municípios. Digam-lhes que não podem lançar mais "taxas" sobre os cidadãos e que têm que viver dentro do seu orçamento. Vão ver como o défice se reduz.»

 

Rui Rocha: «Descascado da capa espessa do marketing político, o socialismo de Zapatero revelou-se nas suas componentes estruturais: o betão a qualquer preço, as teias de interesses e o conluio entre clientelas e interesses públicos e privados, o crédito e o endividamento desbragados e o sucesso tão rápido quanto insustentável. Tudo aquilo que os espanhóis resumem com uma palavra: despilfarro. O seu legado mais grave é, todavia, um golpe profundo na viabilidade da coesão e do estado social. Esse mesmo que, vezes sem conta e com assinalável falta de pudor ou, quando menos, com total imprevidência, invocou reiteradamente e em vão. Que o digam os mais de 5 milhões de desempregados espanhóis.»

 

Teresa Ribeiro: «Estamos fartos de saber que estas coisas se passam na indústria alimentar. Quando vêm a público, logo se ergue um coro de indignação. Das empresas que sustentam estes negócios, dos consumidores. Se passarem estas imagens na televisão à hora das refeições, é bem possível que nos perturbem, momentaneamente, o apetite. Nada, porém, que não se resolva com uma boa vinhaça.»

 

Eu: «Sete anos de governação socialista mereceram hoje um duro, amargo e justo castigo do eleitorado espanhol. Nem o facto de Rodríguez Zapatero ter dado lugar a Pérez Rubalcaba (na foto) como cabeça de lista travou a queda do Partido Socialista Operário Espanhol, com menos quatro milhões e meio de votos do que os obtidos nas legislativas de 2008. Com apenas 28,6% dos sufrágios, o partido que governou Espanha durante 21 anos (entre 1982 e 1996, e de 2004 até agora) perde 59 lugares na Câmara dos Deputados e quase metade dos assentos no Senado. Pior que isso: perde pela primeira vez em todas as comunidades autónomas, restando-lhe como consolação o triunfo em duas das 52 circunscrições eleitorais -- Barcelona e Sevilha.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 19.11.21

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João Carvalho: «O empobrecimento é chocante? Até pode ser, mas nada existe que o substitua. Todos o sabemos, se pararmos para pensar antes de alinhar no coro de protestos. Sabemos que andámos anos e anos a viver com mais do que tínhamos, a gastar acima do que auferíamos, a comprar mais do que podíamos e a recorrer a linhas de crédito acima das nossas possibilidades.»

 

Rui Rocha: «Numa altura em que o desemprego atinge sinais preocupantes, é sempre reconfortante saber que há organizações que continuam a apostar no recrutamento de talentos

 

Eu: «"Sem o menor respeito pela verdade e pela lealdade, você mentiu e atraiçoou-nos a todos." A frase não é do líder do Partido Popular, Mariano Rajoy, que vencerá as legislativas de amanhã. É de um homem de esquerda: o escritor Arturo Pérez-Reverte, numa demolidora carta aberta dirigida ao ainda chefe do Governo [Rodríguez Zapatero]. Um documento que vale por mil editoriais. E que justifica, melhor do que qualquer análise política, a viragem que dentro de poucas horas ocorrerá em Espanha.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.11.21

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Cláudia Köver: «Lia eu feliz e contente os jornais pela manhã, quando tropeço nesta notícia e nesta frase específica, chegando logo para o lado o doce de morango e a chávena do café. Temos todos direito a concordar ou não com Merkel e com as medidas de resolução para a crise em que nos afogamos. Mas criticar o "atrevimento de uma senhora que vem da Alemanha do Leste e de um país que provocou duas guerras mundiais”, é uma associação muito má...»

 

João Carvalho: «Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o "Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia", vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.»

 

José António Abreu: «O empobrecimento colectivo português é inevitável. É-o, de resto, há muitos anos. O empobrecimento das pessoas que trabalham no sector público e das que trabalham no sector privado. Não é preciso a troika dizê-lo nem é preciso que o governo proceda a cortes «idênticos» em ambos os sectores para que tal se verifique. Tem de o fazer no público porque não há outra forma. É ele o patrão. No privado, os métodos são inúmeros e começaram a ser usados há muito. Vão agravar-se, claro. Desde logo, no comércio vão agravar-se tanto que muita gente vai ser despedida. Na indústria, dependerá das áreas de actividade e da capacidade exportadora.»

 

José Maria Gui Pimentel: «O mais recente boom no mercado chinês diz respeito à procura por um bem, aliás, serviço, aparentemente efémero, mas com um efeito no status social muito persistente: o casamento, claro está. As lojas de organização deste tipo de eventos brotam de todos os cantos, sendo invariavelmente as mais bem apresentadas das redondezas. Nestas, mais do que o serviço, vende-se o Sonho: desde a marcha nupcial à entrada dos noivos, ao bolo enorme, não descurando, evidentemente, exuberantes vestimentas, o fato para o noivo e o vestido para a noiva.»

 

Luís M. Jorge: «Algum dos senhores jornalistas me podia apresentar, antes de Dezembro, um trabalho de investigação decente intitulado "Como preparar-se para a extinção do Euro"? Muito agradecido.»

 

Luís Menezes Leitão: «Estas declarações de Cavaco Silva demonstram que ele é o verdadeiro líder da oposição em Portugal. Não falo de oposição ao governo, porque o governo limita-se a executar acriticamente os ditames da troika. Falo da oposição à própria troika, aquele conjunto de funcionários não eleitos e principescamente pagos que efectivamente nos governa. Desde o governo de Beresford no séc. XIX que Portugal não assiste a nada semelhante.»

 

Rui Rocha: «É fundamental termos presente que a crise está a ser gerida pela Senhora Merkel. A Senhora Merkel é uma política. Alguns (pouquíssimos) políticos são estadistas. Outros (ainda menos) têm coração. A nenhum falta uma agenda. A da Senhora Merkel só tem, por esta altura, uma data assinalada. A do dia em que irá a eleições. Por isso, importa perceber o que os alemães querem e o que não querem. E eles querem paz e prosperidade (ai os sacanas). Por isso mesmo, não querem o estouro do euro.»

 

Eu: «Alguns de nós podemos hoje orgulhar-nos de ter feito jornalismo numa época que mais tarde será recordada como tempo de pioneiros. Nós, os membros dessa vasta tribo do jornalismo pré-digital. Em que o acesso às fontes era mais difícil, a confirmação de factos não podia concretizar-se com um simples clique num rato, os modems e os telefones de satélite ainda tinham uma aura de ficção científica e o papel impresso parecia quase tão eterno como na geração de Guttenberg. Eram tempos agitados -- mas, paradoxalmente, mais calmos do que os de hoje, em que a tecnologia que devia facilitar-nos o quotidiano acaba por constituir uma nova espécie de escravatura. Tempos em que havia mais vagar para o convívio, para o ócio que estimula a criatividade, para a conversa de circunstância que permitia cimentar amizades que nunca acabam.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.11.21

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Ana Vidal: «Enfim, nem tudo será mau. Pelo menos desta vez, os reis magos vão chegar ao presépio num instante.»

 

Cláudia Köver: «Hoje a música chega-nos uma vez mais da Suécia, com a banda Junip.  A música "Always" pertence ao terceio EP da banda que tem ao todo quatro álbuns editados. Um dos seus membros, José González (filho de pais argentinos), alcançara já algum sucesso a solo, tendo marcado presença em diversos programas televisivos norte-americanos e as suas músicas figurado na lista de uma mão cheia de bandas sonoras de séries.»

 

João Carvalho: «Muito importante hoje em dia é sabermos escolher um transporte escolar que seja realmente seguro...»

 

José Gomes André: «O vídeo do momento (...) tem suscitado indignação e múltiplos comentários, havendo quem queira debater o estado do ensino superior e até "o futuro" do país a partir de um vídeo de quatro minutos. Eu dou o meu modesto contributo para o "debate" com uma singela expressão inglesa: "cherry picking".»

 

Laura Ramos: «Espero que, por uma vez, apanhem um corrupto. Isso não nos ressarciria de todos os danos acumulados pelos muitos casos em que a lei, a verdade e o exemplo acabaram triturados numa teia nojenta de expedientes processuais, alianças mafiosas e inexplicáveis impasses sem nome nem rosto, sujando muitos e não responsabilizando ninguém. Mas deixar-me-ia muito consolada.»

 

Luís Menezes Leitão: «Aqueles que exultaram com o corte de subsídios aos funcionários públicos, fazendo-os ser os bodes expiatórios da crise, vão experimentar a extensão da medida ao sector privado, como é agora exigência da troika. Há uma velha regra que diz que é um erro fazer acordos com crocodilos, no sentido de serem os outros a ser devorados. A única coisa que se consegue é ser devorado em último lugar.»

 

Patrícia Reis: «Hoje fui moderar um debate no âmbito de uma iniciativa universitária chamada: conexão lusófona (não perguntem, sff). Felizmente tinha comigo o escritor timorense Luis Cardoso, a poetisa angolana Ana Paula Tavares, brevemente o economista português Jorge Braga de Macedo, e o Tiago Soares, português, que é um indíviduo ligado à juventude das comunidades lusófonas (para onde ele for, eu voto!). Tivemos ainda o Kalaf, que lança hoje o seu primeiro livro, e que apesar de ter nascido em Angola gosta de dizer que é lisboeta.»

 

Rui Rocha: «As empresas saudáveis não deixarão de compensar os seus trabalhadores (os que merecerem) com outras remunerações complementares. As que enfrentarem dificuldades verão na medida um balão de oxigénio. Se ficarem por aí e não se reinventarem, acabarão por fechar apenas um pouco mais tarde. Ou seja, no sector privado, a vida continuará como antes. Com sucessos, fracassos, injustiças, entradas, saídas, prémios, promoções, mais ou menos remuneração em função dos resultados individuais e das vitórias ou derrotas das empresas, despedimentos colectivos, falências, salários em atraso ou desemprego. Trata-se de ganhar, perder e voltar a tentar.»

 

Eu: «Não esqueçamos que as duas guerras mundiais, ocorridas no último século, começaram precisamente na Europa. Quando a primeira começou, no dia 28 de Julho de 1914, ninguém acreditava que seria para durar. No final, quatro anos mais tarde, tinha deixado um macabro cortejo: pelo menos 35 milhões de vítimas. Recomendo, a propósito, a leitura das memórias de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: este período surge lá exemplarmente descrito. "Foi uma vaga que se abateu com tanta violência, tão subitamente sobre a humanidade que, ao cobrir de espuma a superfície, trouxe ao de cima as tendências obscuras do inconsciente e os instintos do animal humano -- aquilo a que Freud, numa visão profunda, deu o nome de 'sentimento de aversão pela cultura', a necessidade de se romper uma vez com o mundo das leis e dos parágrafos e de se dar rédea solta aos instintos sanguinários primitivos", recorda o grande escritor austríaco. Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Simplesmente porque as lições que nos vai deixando não são escutadas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.11.21

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Ana Margarida Craveiro: «Sempre que oiço Louçã ou Jerónimo (ou alguém dos respectivos partidos) a falar sobre urrricos e os bancos, tenho sempre uma dúvida: mas esta gente guarda o dinheiro onde, debaixo do colchão? É que independentemente de eu até poder discordar das políticas dos bancos, e da distribuição de dividendos e blá blá blá, no final do dia gosto de saber que o sítio onde tenho o meu pouco dinheirinho vai continuar de portas abertas. Gosto de saber que o meu pouco dinheirinho não desaparece numa qualquer falência ou bancarrota. Mas isso, sei lá, sou eu. Se calhar as outras pessoas, como o Louçã e o Jerónimo, são mais espertas que eu, e têm o dinheiro numa latinha em casa, à prova de incêndios e intempéries.»

 

Cláudia Köver: «Hoje deixo-vos com "The Grates", banda australiana que esteve por várias vezes no top do Triple J Hottest - uma selecção da rádio australiana Triple J, votada pelo público. A banda foi varias vezes nomeada para os ARIAM (Australian Recording Industry Association Music Awards) e tem três álbuns.»

 

João Carvalho: «Uma grande vantagem dos nossos dias é a possibilidade de escolhermos um transporte versátil que nos proporcione, ao mesmo tempo, o bem-estar de quem anda a pé...»

 

Patrícia Reis: «Estava aqui a pensar que sendo o fuso horário tão diferente talvez seja uma ideia  para ponderar. Ou então não ponderar em nada e ir simplesmente.»

 

Rui Rocha: «Em 2012 é necessário concretizar medidas de natureza estrutural, ao nível da despesa pública, e sobretudo nas administrações locais e regionais e no sector empresarial do estado, sendo o enquadramento da situação da Madeira uma oportunidade para dar um sinal claro de que não serão tolerados comportamentos erráticos e irresponsáveis.»

 

Eu: «Portugal sofre severas medidas de contenção da despesa pública e privada. Mas é uma ilusão pensar que, face à situação de penúria a que chegámos, haveria hoje alternativa ao programa de austeridade em curso. Basta reparar nas notícias que nos chegam de outros países europeus. Na vizinha Espanha, que regista a maior diferença entre ricos e pobres de toda a União Europeia, a economia estagnou: uma pessoa fica sem emprego a cada 20 segundos e de cinco em cinco minutos uma empresa fecha as portas. Eis a triste realidade: há hoje um milhão e quatrocentos mil lares espanhóis sem qualquer receita oriunda do trabalho.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.11.21

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Cláudia Köver: «Lykke Li foi uma das descobertas que me levaram a começar esta playlist. Na realidade foi uma dica que me deram em Berlim e que gentilmente passaram para o meu computador. Lykke Li é o nome artístico da cantora sueca Timotej Zachrisson (vá se lá saber porque não usa este nome). Deixo-vos com "I'm good, I'm gone" mas recomendo a mesma música em versão "Black Cab Sessions" - músicas gravas num táxi, absolutamente fantásticas.»

 

João Campos: «Não estou a ler este livro. Na verdade, já o li há alguns dias, mas como a alternativa seria, uma vez mais, escrever sobre um livro de ficção científica, opto antes por a banda desenhada. Melhor ainda: para a banda desenhada em Português de Portugal (o bom e velho). Falo do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse, escrito por Filipe Melo, desenhado pelo argentino Juan Cavia e colorido pelo também argentino Santiago Villa.»

 

João Carvalho: «Deixo amanhã o meu Porto-natal e regresso finalmente à minha morada açoriana dos últimos anos. A ligação aérea que vou fazer irá ocupar-me uma boa parte do dia, até à noitinha. Além disso, depois de amanhã estarei de volta às funções que interrompi em Fevereiro passado.»

 

Luís M. Jorge: «Conheci o Miguel Pires há uns vinte anos, quando ele talvez (talvez) bebesse Esteva e talvez (talvez) ainda gostasse de bacalhau com broa. Mas as origens de um gastrónomo devem ser envolvidas num certo mistério, e tratadas com uma amnésia muito selectiva sem a qual se desvanecem as oportunidades para o chantagearmos. Bastaram duas décadas para que esta figura hoje olímpica, hoje rodeada de perfumes éclatantes, que trata por  os grandes da alta cozinha internacional nos templos adornados com três estrelas Michelin de Tóquio a Copenhaga (não exagero) produzisse, enfim, um livro.»

 

Luís Menezes Leitão: «Tenho idade suficiente para me lembrar do PREC e devo dizer que todos os dias me parece assistir ao regresso de Vasco Gonçalves. Decretam-se dias de trabalho para a Nação, inventam-se classes privilegiadas como pretensas inimigas do povo, confiscam-se os seus rendimentos, e agora até se começa a falar em nacionalizar os bancos. E dizem alguns que este Governo é liberal. Infelizmente não consigo encontrar nenhum laivo de liberalismo nas medidas que estão a ser decretadas, parecendo-me antes de puro socialismo.»

 

Rui Rocha: «Subitamente, todavia, a harmonia foi definitivamente abalada quando, numa operação rotineira de lavagem de mãos, encarei o espelho e, oh tragédia!, oh desgraça!, oh memorando da troika na parte que diz respeito à Banca!, o vi ali, mesmo por cima da orelha esquerda. O primeiro cabelo branco! O impulso foi, naturalmente, para o arrancar sem piedade.»

 

Teresa Ribeiro: «"Nada como o amor dos animais", pensou, ao ouvi-la ronronar. Como se tivesse lido os seus pensamentos a bichana olha-o com doçura e delicadamente acomoda-se no colo desfrutando o calor que dele emana. Se falasse, dir-lhe-ia que também ele, que agora a observava embevecido a lavar as patas, era fácil de satisfazer. Sim, o amor dele por ela também era perfeito.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.11.21

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Ana Margarida Craveiro: «Parece que já há por aqui quem ande aos pulinhos para invadir o Irão, e as declarações a esse respeito sucedem-se. Pelos vistos, podemos tirar os neoconservadores da Casa Branca, mas a Casa Branca não sai do neoconservadorismo.»

 

Ana Vidal: «Para trás, maledicentes de serviço! Não é verdade que os deputados estejam imunes à austeridade nacional. Confirma-se que já nem sequer almoçam, coitados. Como sei disso? Simples: é a única explicação para estarem acordados durante o discurso do ministro da Economia. Não fora esse imperativo de contenção e o som mais ouvido na assembleia, esta tarde, seria o ressonar em uníssono de 230 criaturas, com o maestro Álvaro na batuta.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental.»

 

Leonor Barros: «Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá.»

 

Luís Menezes Leitão: «Enquanto o país continua a afundar-se todos os dias, como se vê por esta notícia, o ministro da Economia anuncia o fim da crise para 2012. Em que país vive ele? No Canadá?»

 

Eu: «Leio uma biografia de Ernest Hemingway distribuída gratuitamente com o Expresso. Na capa, o nome do autor -- um tal Hans-Peter Rodenberg, sobre o qual ficamos a saber quase nada -- vem impressa em corpo muito reduzido, enquanto o autor do prefácio, Miguel Sousa Tavares, surge em letras muito mais visíveis apesar de escrever apenas três páginas. A obra está traduzida em acordês, numa apressadíssima tentativa de beber o ar do tempo. E nem Sousa Tavares -- público e notório opositor a essa aberração que é o "Acordo Ortográfico" de 1990 -- escapa à fúria avassaladora dos acordistas, que querem moldar tudo e todos ao seu padrão, mesmo quem não comunga dessa obsessão de extermínio das consoantes ditas mudas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.11.21

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Cláudia Köver: «The Perishers é uma banda sueca indie rock, fundada em 1997. Algumas das suas músicas já se estrearam em séries norte-americanas, como Grey's Anatomy. Hoje, deixo-vos com "Nothing like you and I".»

 

José Maria Gui Pimentel: «Tento evitar ir às compras (de víveres) em horas de apetite, pois sei que a parte do cérebro responsável pela minha carteira e aquela responsável pelo estômago se vão digladiar, numa luta torturante.»

 

Luís M. Jorge: «Dez mil militares saíram à rua. Parece que estão fartos desta democracia que não respeita a sua condição e esperam resolver o assunto com alguma limpeza. Não são os únicos. Quando a intelligentzia europeia se fartou dos eleitores, nomeou presidentes honoríficos, repetiu referendos, delegou poderes nos excelentes políticos da França e da Alemanha e extinguiu consultas populares que considerava irresponsáveis. Quando os bancos se fartaram do Papandreu e do Berlusconi, chamaram aqueles rapazes do Grupo de Bilderberg e não se maçaram excessivamente com sufrágios.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.11.21

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Ana Margarida Craveiro: «O George Clooney é um excelente realizador. E o poder corrompe.»

 

Cláudia Köver: «Comecei a explorar o universo das músicas que amigos - próximos e distantes - despejavam em redes sociais, emails e conversas de café. Dediquei-me ao youtube, deixei de ignorar as letras pequenas nos cartazes de festivais, deitei os olhos aos artigos que me pudessem alimentar esta busca  e, acima de tudo, segui o trilho, de cantiga para cantiga, de banda para banda. Rapidamente descobri uma mão cheia de pequenas melodias, ou até mesmo discos inteiros, que me despertaram a curiosidade adormecida no ouvido.»

 

João Carvalho: «Não se trata de pôr fim ao direito dos juízes a transportes públicos gratuitos. Nem pouco mais ou menos, a meu ver. Admito que o direito pode conservar-se e faz sentido. O que deve terminar e já tarda tem outro nome: abuso do direito. Muitos juízes fazem de conta que desconhecem essa figura, que caracteriza a obtenção abusiva de um privilégio ao abrigo de um direito indevidamente tornado elástico. Mais: não procedem por imperativo individual de consciência em conformidade com padrões de exigência e de estatura moral desejáveis — ainda mais desejáveis pela crise que nos afecta a vida colectiva — o que é impróprio de membros de órgãos de soberania.»

 

José António Abreu: «Vale a pena ir a Serralves até 29 de Janeiro ver a exposição de fotografias do alemão Thomas Struth. Tiradas entre 1978 e 2010, incluem paisagens urbanas e ambientes industriais de impressionante complexidade, transformados em cenários quase irreais pela ausência dos humanos (em muito poucas se vêem pessoas) que afinal os construíram. Uma série de imagens obtidas no interior de florestas contrapõe a complexidade natural à humana e há também fotos de templos religiosos servindo a sua principal função nos dias que correm (de atracção turística), retratos de famílias de vários países e ainda algumas fotografias tiradas no interior de museus.»

 

Leonor Barros: «O Governo lembrou-se de acabar com o desconto de 50% nos transportes a que jovens e pensionistas tinham direito até agora. Nada contra. Paga quem tiver maiores rendimentos. O problema é que 'maiores rendimentos' podem ser esses agregados familiares endinheirados que ganham acima de 600 euros por mês, como aconteceu com o anterior (des)governoou os doidivanas que têm rendimentos anuais brutos entre os 2.934,54 euros e os 5.869,08 euros, e cito a mesma notícia.»

 

Patrícia Reis: «Eu gosto de ler. Desde sempre. De ficção científica a ensaio, de romances a literatura dita experimental. Gosto de poesia. E não tenho nada contra quem quer que publique. Cada um escreve o que pode, cada um lê o que pode, cada um tem os preconceitos elitistas que quer.»

 

Teresa Ribeiro: «Os olhos da mãe divagam distraídos pelos rostos estranhos que a rodeiam, enquanto a filha, de braços cruzados e pernas traçadas, não está. Por duas ou três vezes procuram-na, hesitantes, mas depois desistem e perdem-se num fio de pensamento qualquer. Então, à falta de interlocutor, a mãe, uma senhora que em nova devia ter sido muito bela, começa a falar sozinha. A filha fecha os olhos para não ouvir.»

 

Eu: «Sou insuspeito de simpatias por Berlusconi: várias vezes escrevi contra a sua falta de sentido de Estado, a sua duvidosa moralidade na gestão dos assuntos políticos e a ténue fronteira que separava a sua condição de empresário com a de responsável governativo. Mas esta saída do poder, nos termos em que ocorre, preocupa-me muito mais do que me alegra. E devia preocupar também aqueles que se manifestam a favor desta mudança política em Roma. Porque o designado sucessor de Berlusconi, Mario Monti, é um homem da confiança da superestrutura de Bruxelas, um tecnocrata puro e duro que ascende à liderança do Governo italiano não pelo voto popular mas por pressões da oligarquia financeira.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.11.21

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Cláudia Köver: «Avistei a farmácia onde esperava adquirir o medicamento que me aliviasse uma inflamação nas gengivas. Abri a porta, com as mãos cobertas por luvas grossas, e comecei por sorrir, sabendo que a paciência, a linguagem gestual e recurso a um inglês básico – que mais se parecia com um “You Jane, Me Tarzan” – seriam a melhor arma para fazer passar a minha mensagem.»

 

João Carvalho: «Perante a proposta de Orçamento do Estado, será o comportamento dos diferentes grupos parlamentares idêntico? Ano após ano, a resposta é a mesma: não. Este ano, por exemplo, a proposta pertence ao Governo do PSD e CDS e coube ao PS manter o suspense durante um certo tempo sobre o seu sentido de voto. Já o PCP e o BE mal esperaram para dar uma vista de olhos à proposta. Saltaram para a praça pública sem demora e apressaram-se a dizer que iam votar contra ela. (...) Uns privilegiam o debate parlamentar, enquanto outros usam o hemiciclo da Assembleia da República como palco para comícios. O PCP e o BE são incapazes de entender um regime que sempre odiaram. Olham para o Parlamento e o que vêem é mais um palanque.»

 

José António Abreu: «Era francesa mas gostava tanto de beber chá que todos lhe diziam mais parecer inglesa. Tendo certamente ouvido o comentário milhares de vezes, ela sorria sempre. Falava com um sotaque que ele achava inebriante, misturando palavras em português com palavras em francês e fazendo pausas inesperadas, como se seguisse regras muito próprias acerca dos sítios onde encaixar as vírgulas. Quando, pela hora do lanche, sentada à frente dele, dizia, com um suspiro de prazer: «Eu amo thé», ele ficava sempre um instante em suspenso, tentando perceber exactamente o sentido das suas palavras.»

 

Luís M. Jorge: «A escola económica judaico-cristã dirige o seu olhar castigador para um novo alvo. Desta vez não exige a mortificação dos povos do Sul da Europa, ou a expiação dos graves pecados cometidos pela nossa função pública. Não; a prioridade da semana é extinguir feriados. Um raciocínio simples, adequado à tocante singeleza das nossas cabecinhas: com menos feriados, vamos trabalhar mais. Se trabalharmos mais, vamos produzir mais, logo não há que hesitar — certo?»