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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.09.21

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Ana Sofia Couto: «Veja-se o caso da autonomia das escolas para contratar professores. Há algum tempo, o tema era incluído nas críticas à acção tentacular do ME [Ministério da Educação]. Hoje, depois de terem sido notícia os critérios de selecção demasiado específicos adoptados por algumas escolas, percebe-se que a autonomia pode significar opacidade. Parece que precisamos sempre de uma forma de regulação, de uma autonomia controlada

 

João Carvalho: «Parece que ele está um bocado perdido: qualquer documento exaustivo sobre anos de despesas só confirma o despesismo que se sabe. Mais ainda se tivermos em conta a reduzida população da Madeira e a diferença monstruosa da dívida per capita dos cidadãos nacionais e dos madeirenses.»

 

Laura Ramos: «Há muito tempo que os casos de enriquecimento ilícito dos políticos deviam estar qualificadamente criminalizados. Pena é que se fique pelos titulares de cargos políticos ou de altos cargos públicos

 

Rui Rocha: «O que é fundamental perceber é quantos estádios de futebol, quantas parcerias público-privadas, quantas auto-estradas, quantas rotundas, quantos parques-escolares, quantos filhos bastardos dos auto-proclamados pais da democracia e do serviço nacional de saúde foram precisos para chegar até aqui. Quantas vezes o nome do estado social foi invocado para dar cobertura a quantos se sentaram à mesa do Estado sem nunca terem intenção de pagar a conta. São perguntas para as quais não é difícil adivinhar a resposta. Mas, a verdade inteira o BES é que sabe.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.09.21

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João Carvalho: «A lata vesga do homem enquistado no cargo de presidente do governo da Madeira, espécie de primeiro-ministro regional com ar de rei das bananas, é insuportável há muito tempo. Cheio de ar e vento como os balões, resume tudo a banalidades e a razões redondas que não tapam a ilegalidade do endividamento contraído à sucapa.»

 

José Maria Gui Pimentel: «É impressão minha ou o Futre ("vão vir charters") e o Hélio ("sai da frente Guedes") foram, em Portugal, os dois primeiros exemplos (sim, porque haverá outros de certeza) de alguém que faz uma imbecilidade inadvertida e acaba por ganhar dinheiro com isso? De imbecilidades propositadas já havia casos, mas disto, que me lembre, não. Já merecia um capitulo nos livros de auto-ajuda sobre "como enriquecer".»

 

Rui Rocha: «António José Seguro acusa Passos Coelho de ser cúmplice de Jardim. Revela-se, assim, um Seguro contra terceiros. No que diz respeito aos danos próprios, não me lembro de o ouvir emitir grandes opiniões. Provavelmente, na última fila da bancada parlamentar que apoiou a governação de Sócrates não tinha cobertura. De rede.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.09.21

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Ana Lima: «Parece-me boa ideia relembrar o que disse António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, numa entrevista ao JL/Educação em 2005. Questionado sobre o papel da escola e sobre as exigências que a sociedade lhe faz, dizia: "À escola cumpriria salvar o mundo e reparar todos os males. Perante isto eu faço uma provocação aos outros (e até a mim próprio), defendendo uma escola retraída, mais modesta e mais concentrada nas tarefas da aprendizagem."»

 

Ana Margarida Craveiro: «[Alberto João] Jardim endividou-nos a todos a favor daquele cantinho florido, com obras para os madeirenses. Quem vai pagar o buraco não são os madeirenses, mas nós todos. Repito: nós, de Bragança a Faro, vamos pagar as dívidas da Madeira. E convém lembrar que até pagamos bem mais do que qualquer madeirense, porque não temos reduções de IVA por quaisquer complexos de insularidade. E para visitar as obras que o nosso dinheiro pagou, compramos bilhetes inteiros de avião, não tarifas reduzidas.»

 

José António Abreu: «E se fizéssemos um exercício teórico muito giro no qual retiramos diferenças de rendimento pré-existentes às análises sobre os apoios sociais? Não? Mas porquê? Vá lá, aprendam a mentir e a fingir entusiasmo (não irão a lado nenhum sem o conseguirem). De resto, não vai demorar mais do que um daqueles inquéritos via telefone ou internet em que uma voz simpática ou um pop-up de cores suaves, respectivamente, nos informa de que se prevêm necessários apenas alguns minutos para responder a tudo. Pode ser então?»

 

Luís Menezes Leitão: «Há um princípio que qualquer governante português deveria seguir: é a de que não interessa nada cair nas boas graças de governantes estrangeiros defendendo posições evidentemente contrárias aos nossos interesses. Já há 150 anos Lord Palmerston dizia: "England has no eternal friends, England has no perpetual enemies, England has only eternal and perpetual interests". E Mao Tsé-Tung referiu um princípio de combate simples: "Devemos apoiar tudo que o inimigo combate, e combater tudo o que o inimigo apoia." Pelos vistos Durão Barroso, que tem essa formação política, não se esqueceu desta regra simples.»

 

Rui Rocha: «Alguns [no PS] pretendem reabilitar o líder anterior (José Sócrates). Outros querem lançar a candidatura do futuro líder (António Costa). A reabilitação de Sócrates pressupõe que Seguro actue como carro-vassoura, recolhendo os que caíram da governação e assegurando-lhes um transporte confortável até à meta. O lançamento de Costa implica que Seguro actue como  lebre. Cabe-lhe assegurar as despesas da corrida nas primeiras voltas à pista. Mas,  nessa missão, a lebre deve desgastar o Coelho, desgastando-se a si própria. Pode até ter vestida a camisola amarela. Todavia, em caso algum lhe estará reservada a vitória na corrida.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.09.21

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Ana Vidal: «Aposto que os arautos do bota-abaixismo vão descobrir imeeeeensos contras nestas medidas. E aposto que são os mesmos que gritavam que é preciso emagrecer o Estado. A coerência não é para todos, e há que ter sempre umas pedras de reserva para atirar.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Terminei ontem a leitura de As luzes de Leonor de Maria Teresa Horta. Acho que o li bem, que é o melhor tributo que se pode prestar a um livro e a um autor. O romance de época, e eu vou designar assim a narrativa cuja acção se situa num tempo diverso do do autor, cria a quem se dispõe a entrar por essa via, uma exigência de proximidade.»

 

José António Abreu: «Caminhava pelo passeio, regressando do almoço. Poucas dezenas de metros à minha frente, duas turistas, raparigas de vinte e poucos anos, debatiam-se com um mapa. Uma voltou-se e pediu auxílio a outra rapariga – presumivelmente portuguesa – que se encontrava perto, junto a uma montra. Esta olhou para o mapa, hesitou, chamou uma amiga. Ficaram as quatro a olhar para o mapa, rodando-o, aproximando e afastando a cabeça da sua superfície, olhando para cima uma e outra vez como que para confirmar o local em que se encontravam, fazendo deslizar a ponta do indicador pelo papel. Neste ínterim, cheguei junto delas. Vinha preparado para providenciar ajuda mas nenhuma das quatro ergueu os olhos do mapa.»

 

Rui Rocha: «A Administração Pública está sujeita ao cumprimento da lei. Cabe ao novo governo demonstrar que não vale tudo. Os cortes, a racionalização, a poupança, não podem fazer-se apesar da lei ou contra a lei. E, convenhamos, no caso de muitos docentes contratados já bem basta a posição iníqua do Estado que os manteve em situação de precariedade ao longo, em muitos casos, de dezenas de anos. Negar-lhes agora um direito legalmente consagrado seria acrescentar à caducidade do contrato a caducidade do próprio Estado de Direito.»

 

Teresa Ribeiro: «A partir das 18h, nesta fase do ano, o sol já está baixo. Imaginem então o que será assistir a um concerto de out jazz no Alto do Parque Eduardo VII com a luz do fim da tarde a descer sobre a cidade. Dia 17, às 18h, vai ser assim.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.09.21

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Ana Vidal: «Se vive na capital, prepare o espírito para uma festa de novos destinos emocionantes e não gaste os seus preciosos neurónios a fixar os nomes das estações, porque eles serão imprevisíveis: só durarão o tempo de um contrato.»

 

José António Abreu: «Não basta aumentar os impostos e cortar na despesa. Como um montão de gente já explicou, ambas as vias têm efeitos recessivos. Juntas, nem se fala. É também necessário estimular a economia. E desculpar-me-ão o cepticismo mas, por muito que Vítor Gaspar pareça acreditar no poder salvífico do capital estrangeiro, as privatizações e o fim das golden shares não terão impacte significativo.»

 

João Carvalho: «Para [Georges] Chicoti, há que «consolidar a democracia» e reconhecer que existem «possibilidades para todos os cidadãos apresentarem as suas opiniões»; estão previstas eleições no próximo ano e «os partidos políticos terão direito a participar nessas eleições». Convenhamos que esta condescendência em tom paternalista do ministro das Relações Exteriores é capaz de não traduzir completamente as relações interiores em Angola.»

 

José Maria Gui Pimentel: «A SIC fez uma emissão especial do programa "Alta Definição" sobre o 11 de Setembro. Para tal convidou Luís Costa Ribas (LCR), uma escolha sensata, visto que o jornalista cobriu o evento de perto. Embora tenha logo achado estranho o Alta Definição fazer uma reportagem daquele tipo, a verdade é que, durante 20 dos 35 minutos que durou a emissão, o entrevistador e LCR vão fazendo uma análise muito interessante àquele dia fatídico. Porém, a partir dos 20 minutos de emissão, e sem qualquer pré-aviso, o programa transfigura-se, passando ao habitual registo, com uma entrevista sentimental a LCR, na qual este fala da sua vida preenchida, da família, etc. A conversa até foi, diga-se, interessante, mas talvez fosse de inserir noutro contexto, não?»

 

Laura Ramos: «Pois eu, que nem sou gulosa, também não me conformo com esta derrota! Bem sei que o leitão - quantas vezes superior ao cochinillo - já levou a sua quota ao centroMas esta iguaria, senhores? Como é possível compará-la ao pastel de Belém? Que  afinal não é de Belém, nem da Ribeira, nem  do Choupal porque é uma nata, em qualquer ponto do país. Uma nata! E uma nata, convenhamos, é uma simples nata, mesmo na China.»

 

Leonor Barros: «Peço desculpa aos profetas da negritude, aos cavaleiros das trevas deste país à beira do abismo, aos arautos da desgraça e do apocalipse, por vir destruir esta manhã de sol com uma boa notícia mas isto é uma óptima notícia. Ler sempre. Ler mais.»

 

Luís M. Jorge: «Talvez esta seja uma boa altura para recordarmos a Nuno Crato que ele não foi nomeado para contestar os relatórios da OCDE sobre a educação em Portugal, mas sim para ultrapassar o desempenho do Governo anterior nas matérias da sua responsabilidade. As instituições internacionais lá estarão para o avaliarem.»

 

Teresa Ribeiro: «Depois de um dia de trabalho, nada como uma massagem relaxante. Mas se não houver tempo ou t€mpo para pagar a um profissional e desgraçadamente também não existir em casa um par de mãozinhas talentosas para nos aliviar a tensão, será de uma grande utilidade termos alguns conhecimentos na matéria. Falo de auto-massagem, pois. Dia 17, das 16h às 17h, podem aprender umas coisas no workshop que decorre no Jardim Amália Rodrigues.»

 

Eu: «Impera a ideologia de que tudo é descartável e transaccionável no mundo contemporâneo - a começar pelos afectos. Miro o folheto e fico nauseado com o sorriso radioso da moça da foto, a convicção de que se pode fazer lucro aproveitando os dramas alheios, a noção de que tudo na vida tem um preço em vil metal. Até as memórias de um amor.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.09.21

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João Campos: «Gosto muito de uma bela sardinha assada, mas não posso deixar de subscrever isto

 

João Carvalho: «É angolana e acaba de ser coroada Miss Universo. Leila Lopes vai andar um ano a correr país atrás de país na defesa de causas muito tocantes, conforme a agenda habitual que lhe está destinada. Que tal se algumas dessas causas fossem as do povo angolano e dos jovens manifestantes de Luanda que são cercados pela polícia e levados a julgamento?»

 

José Maria Gui Pimentel: «A realidade mais interessante na China actual é a emergência de uma nova classe média, e sobretudo o ritmo a que ela se vai estabelecendo, não apenas nas grandes cidades mas também nas cidades de segunda linha. Este fenómeno acarreta efeitos curiosos, como a construção de um fosso evidente entre os pais, ainda presos à China tradicional, e os filhos, nos quais se observa claramente já o culto da individualidade, característica distintiva das sociedades capitalistas. A esta diferenciação individual junta-se um evidente fascínio pela cultura ocidental, muito particularmente pela cultura americana.»

 

Luís M. Jorge: «Depois das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e das Sete Maravilhas da Gastronomia, para quando as Sete Maravilhas da Literatura, reconhecendo os escritores que transportam as nossas palavras para além da Taprobana? Não é todos os dias que temos o privilégio de escolher entre os lusíadas de Camões e os lusíadas do Gonçalo Tavares, ou de integrar o Equador e o Codex 632 no cânone do Ocidente. Além disso, o Malato gosta muito de ler.»

 

Luís Menezes Leitão: «Se a constituição for revista apenas porque a Senhora Merkel e o Senhor Sarkozy assim o pediram, esta legislatura ficará na história como aquela em que os deputados reviram a constituição do país a mando de governantes estrangeiros. (...) Um país que se dispõe a rever a sua constituição apenas porque um governante estrangeiro o pediu, não pode depois estranhar que a seguir também lhe mandem pôr a bandeira a meia-haste.»

 

Rui Rocha: «É fundamental, também a este propósito, que o actual Ministro da Educação seja consequente, ao nível dos actos, com a exigência que refere nas suas palavras. A alienação estatística, nesta e noutras matérias, por ter como consequência uma realidade grosseiramente falseada, tem custos. E estes são sempre pagos pelo país e, sobretudo, por aqueles que têm menos recursos.»

 

Teresa Ribeiro: «Já experimentaram jantar de olhos vendados, deixar o paladar às cegas, submetê-lo a uma radical prova de fogo? Se a ementa estiver à altura do desafio, imaginem como será intensa essa festa de sabores. Dia 17, no Alto do Parque Eduardo VII, poderão desfrutar deste jantar inesquecível, com hora marcada para as 20.30h.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.09.21

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Adolfo Mesquita Nunes«Não consigo precisar qual a minha primeira memória da infância, se é que não é mais importante conseguir coleccionar umas quantas. Mas consigo, com notável precisão, identificar a música que mais facilmente me transporta até lá. Não sei se isso acontece convosco, e se acontece não posso senão convidar-vos a partilhá-la connosco, esta coisa de ter uma música que nos mergulha nos cheiros, texturas e afectos de um tempo que passou mesmo. Eu tenho essa sorte, que nem sempre traz alegrias, de conseguir recuar apenas porque a ouço. Mais do que uma sorte, é uma benção. Aqui está ela, pois.»

 

Ana Lima: «Chamamos-lhe 11 de Setembro. O ano não é mencionado pois sabemos que seja ele qual for continuaremos a estremecer perante a menção desta data e perante a recordação do que estávamos nós a fazer enquanto, em directo de Nova Iorque, as televisões nos mostravam que é sempre possível ir mais além no horror, mergulhar mais fundo na incapacidade de compreender o outro, reconhecer as nossas limitações enquanto seres humanos. Cada um de nós lembra-se desse dia com uma memória precisa pois não nos basta rever as imagens dessa terça-feira que passaram vezes sem conta. Torna-se necessário voltarmos a nós, à nossa escala, para encontrarmos algo que faça sentido. O mal, quando nos ultrapassa, pela sua dimensão, deixa-nos longe das razões, das certezas. Tudo é abalado.»

 

João Carvalho: «Haverá coisa mais básica, mais primária por natureza, mais falha de sentido real do que o pregão «as pessoas estão primeiro»? A falta de ideias só não é triste enquanto não se manifesta.»

 

José António Abreu: «Talvez seja a consciência da morte que nos leva a pensar no passado – é, no mínimo, a sua sombra: o medo do futuro, a percepção súbita de uma enorme fragilidade. Ou então há várias possibilidades e tudo depende de uma escolha – do modo como quisermos definir o que é um adulto.»

 

Laura Ramos: «Políticos perdem pensão acumulada. Dir-me-ão que são peanuts. Mas isto é muito mais do que diminuir a despesa pública. Espero que a revisão das mordomias avance e refunde o valor do exemplo de quem nos representa.»

 

Luís Menezes Leitão: «A insistência do ministro das Finanças em seguir a via grega cabe na definição perfeita do que é um comportamento irracional: adoptar sempre o mesmo procedimento, esperando que ele alguma vez conduza a um resultado diferente.»

 

Rui Rocha: «Nada tenho contra os seres sencientes a que a petição se refere. Mas, não posso deixar de sublinhar, entre outras coisas, o invulgar sentido de oportunidade dos seus subscritores e promotores num momento em que, no nosso país, o serviço público de saúde destinado aos animais humanos está a sofrer graves restrições orçamentais.»

 

Eu: «De 1972 (The Hot Rock) a 2002 (City by the Sea). A ver aqui, numa fantástica montagem de Dan Meth. Três minutos e vinte segundos imperdíveis.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.09.21

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Ana Vidal: «Uma história de vida comovente, a destes Romeu e Julieta da Guarda que não desistem do seu amor nem mesmo sessenta anos depois. Primeiro os pais dela, depois os filhos, alguém os impediu sempre de estarem juntos e de viverem a vida como a sonharam. Apesar de tudo, as linhas que traçaram o drama ainda estão bem evidentes: a beleza dela, o brilho nos olhos dele. Para meditarmos até que ponto temos o direito de interferir na vida dos outros.»

 

João Carvalho: «Nem é preciso esperar pelo encerramento: o congresso do PS recheou de vulgaridades e lugares-comuns o pavilhão de Braga, o que corresponde exactamente ao que podia esperar-se. Menos esperada, porém, foi a incapacidade para o partido assumir o lamentável estado em que deixou o País ao fim de seis anos de governação, preferindo descobrir todos os defeitos e mais alguns num Governo que ainda não leva cem dias de trabalho.»

 

Luís M. Jorge: «Hoje conhecemos bem as circunstâncias em que foi codificada a Solução Final na Conferência de Wannsee. A reconstituição do planeamento do 11 de Setembro, a cargo Khalid Sheikh Mohammed, não seria menos interessante. Impressiona o contraste entre a singeleza da ideia e a complexidade da execução.»

 

Patrícia Reis: «Há dez anos o terror mudou de significado. A Egoísta fez um tributo a NY e recebeu uma série de prémios. Numa das páginas, o meu filho mais velho, então com cinco anos, substituiu o texto do MEC que nunca chegou. As perguntas eram: - Mãe, sabes que a América foi atacada? - Mãe, não é a América que ataca sempre? - Mãe, ainda há pessoas na América? Dez anos se passaram. Hoje, o meu filho, já não mora aqui e continua a fazer perguntas.»

 

Teresa Ribeiro: «Já experimentaram fazer tai chi? Para os estreantes e convertidos vai haver uma sessão no dia 17, entre as 17h e as 18h, no jardim Amália Rodrigues, no alto do Parque Eduardo VII. A entrada é livre.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.09.21

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Cláudia Köver: «Os paladares esmurram-nos o estômago como se quisessem ir para além das suas paredes e escorregar pelas nossas veias até tornarem faladores os nossos poros mudos - de quem não está habituado a sentir a comida, mas apenas a comê-la.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Na Cidade, o nosso lugar é o lugar dos outros.»

 

Rui Rocha: «Não sou de intrigas, mas parece-me que Assis está a levar um bigode. Um bigodinho, vá.»

 

Teresa Ribeiro: «A cozinha saudável já não é o que era. Ementas à base de malgas de arroz integral e folhinhas de alface só existem na cabeça dos fundamentalistas que fogem da comida vegetariana como o diabo da cruz. No workshop de cozinha saudável quem quiser pode aprender a cultivar o prazer da boa mesa sem que para isso tenha de aumentar os níveis de colesterol.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.09.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Já por aqui falei da minha capacidade de chegar pontualmente ao local combinado: nem antes, nem depois, mas à hora marcada. Trocava de bom grado essa capacidade, que tenho de sobra, pelo talento, que me falta, de chegar pontualmente às pessoas: nem antes, nem depois, mas no momento certo.»

 

João Carvalho: «Deverão ser feitas mais detenções nas redondezas das ruas onde tiverem sido feitas as detenções daqueles que apoiavam na rua do tribunal os jovens que protestavam contra a detenção dos outros jovens detidos no sábado e que estão a ser julgados. É até provável que venha a haver detenções em casas junto a essas ruas onde tiverem sido feitas as detenções daqueles que apoiavam na rua do tribunal os jovens que protestavam contra a detenção dos outros jovens detidos no sábado e que estão a ser julgados. E assim por diante, nesse desenvolvimento imparável da democracia angolana.»

 

José António Abreu: «Nós acreditamos que a amizade (ou aquilo que lhe faz as vezes) é importante na política por estarmos habituados a que seja importante para tudo. Por estarmos habituados a que, neste rectangulozinho deprimido e tantas vezes deprimente, as coisas se resolvam (e a formulação é propositada, já que resolver é especialidade da casa enquanto prever e planear são verbos remetidos a utilização retórica) através da relação pessoal (do favorzinho, do jeitinho, da cunha) e não da competência nem da assumpção de responsabilidades. Já era tempo de crescermos.»

 

Laura Ramos: «Não há monopólio moral de pecados na privada, nem monopólo de virtudes na medicina pública. Muitos profissionais acumulam, e acumulam, eticamente, muito bem.»

 

Luís Menezes Leitão: «Existe inúmera duplicação de serviços devido à distribuição das competências por vários ministérios. Dou o exemplo do Instituto Nacional da Construção e do Imobiliário e do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, que tratam claramente de assuntos afins, mas estão distribuídos por ministérios diferentes. Em qualquer caso, a lista é um bom contributo para se começar a fazer o que há muito já deveria estar feito. O país que está exangue com os impostos não pode ver adiados os cortes na despesa do Estado.»

 

Teresa Ribeiro: «E que tal deixar os miúdos pintar com chocolate telas de bolacha?»

 

Eu: «É uma sensação curiosa, ter dois amigos como presidentes da República em países lusófonos. (...) Um abraço amigo, Jorge [Carlos Fonseca]. Desejo-te as maiores felicidades no teu novo cargo. Tenho a certeza antecipada de que confirmarás as expectativas que os eleitores cabo-verdianos acabam de depositar em ti.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.09.21

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Cláudia Köver: «Actualmente o estado regula os ciclos menstruais de todos os portugueses - as dores de barriga, as irritações, os afrontamentos e as menopausas - quer seja de forma comparticipada, quer não.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Há tempos, quando estava na biblioteca com alunos, uma das miúdas abriu ao acaso a Aparição, no trecho em que Sofia, durante a explicação de Latim, lê uns versos da livro 4 da Eneida: Ana soror, quae me suspensam insomnia terrent/ Quis nouus hic  nostris sucessit sedibus hospes e, depois, de intentar uma tradução, beija o incauto Alberto Soares. A minha aluna comentou: “Ah, isto de aprender latim deve ser giro.” Lidas aquelas linhas, na cabeça dela, o latim passou a ser uma coisa de palavras desconhecidas e explicadores dúcteis.»

 

João Campos: «Criemos mais impostos parvos, mas rentáveis. O Bastonário da Ordem dos Médicos já deu o mote, com a ideia de taxar a fast food (voltarei a este tema). A minha humilde sugestão: taxar todas as pessoas que em transportes públicos ou qualquer outro espaço partilhado com desconhecidos se recusem a usar auscultadores nos seus telemóveis ou leitores de mp3, obrigando toda a gente que está à sua volta a ouvir a sua música (normalmente terrível, mas não é esse o ponto).»

 

João Carvalho: «Com imenso tempo de atraso e uma despesona de custos e mordomias às costas, «o Governo aprovou, em definitivo, a extinção dos governos civis», pondo assim fim a uma das maiores aberrações administrativas da nossa tristíssima realidade, a qual só serviu para cobrir uma parte do compadrio político que passou a dominar este país. Sócrates encarregou-se de demonstrar isso mesmo a seguir às autárquicas, quando ofereceu escandalosamente vários lugares de governadores civis aos candidatos socialistas que não tinham ganho autarquias por rejeição dos eleitores.»

 

José António Abreu: «Ou a prova de que é possível uma canção incluir versos como "sadness is my luxury" e "I was born to die alone" e levantar o ânimo de quem a ouve

 

Leonor Barros: «Começo a ter medo de viver neste país e isto porque tudo mas tudo, rigorosamente tudo, se não foi taxado com impostos, sobretaxas e tributos solidários, poderá vir a sê-lo e tudo o que se tinha como garantido pertence ao passado.»

 

Luís M. Jorge: «O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente, não explicam a situação

 

Luís Menezes Leitão: «Quero agradecer à equipa do DELITO DE OPINIÃO o honroso convite para participar no seu delictum collectivum. Sempre admirei os que têm coragem de se rebelar contra o pensamento único e praticar delitos de opinião. É graças aos autores de delitos de opinião que é possível derrubar regimes ditatoriais e totalitários. Naturalmente que assumo a exclusiva responsabilidade pelos delitos de opinião que vier a praticar no DELITO. Ubi non est culpa, ibi non est delictum

 

Rui Rocha: «Dedico algum tempo a escrever no DELITO. Há quem se questione sobre o interesse de uma actividade gratuita como esta. Respondo que é uma forma muito mais agradável de entretenimento do que passar quatro ou cinco horas em frente à televisão a assistir a programas de má qualidade. Isso sim é uma actividade perfeitamente gratuita. À leitura de jornais em papel voltaria se algum dia se reencontrassem com a sua missão mais nobre: a de contar histórias. Até lá, assim estou. Praticamente sem televisão e sem jornais. Eu sei que é estranho, mas não tenham pena de mim. Sinto-me muito bem assim.»

 

Teresa Ribeiro: «Não por acaso, o Movimento Verde Alfacinha decorre durante a Semana da Mobilidade. Quem ainda não se estreou a andar por Lisboa no meio de transporte mais fashion do momento, pode começar já a passar o anti-ferrugem pelas rodinhas da sua bike e aderir ao espírito, porque dia 18 vai haver no Jardim Amália Rodrigues (no topo do Parque Eduardo VII) uma concentração de bicicletas, seguida de um passeio de 16 km pelas ciclovias e ruas da cidade.»

 

Eu: «Não há partido mais plural do que o PSD. Consegue ser governo e liderar a oposição ao mesmo tempo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.09.21

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Ana Margarida Craveiro: «O parlamento deveria ter um corpo sólido e bem formado de funcionários independentes, que respondem às requisições dos deputados em tempo útil, participando dos trabalhos das diversas comissões. É o caso, por exemplo, da Islândia, onde o parlamento conta com economistas, juristas e cientistas políticos para auxiliar os deputados nas suas funções. Se isto custa dinheiro? Claro que sim, implica mais salários. Mas acham mesmo que os salários deste corpo independente seria mais alto que os valores pagos por pareceres e consultas externas?»

 

José António Abreu: «Existindo, como é absurdamente evidente para qualquer pessoa que não tenha passado os últimos anos a curtir uma longa viagem alucinogénica, recursos a rentabilizar e desperdícios a eliminar, a falta de dinheiro levará a que, em quase todos os sectores e certamente naqueles onde, pelo peso que representam, os cortes terão de ser significativos, se verifique mesmo decréscimo da quantidade e/ou da qualidade dos serviços prestados. Exactamente da mesma forma que uma família em dificuldades financeiras obrigada a cortar nas férias, mudar-se para um apartamento mais pequeno ou trocar o carro pelos transportes públicos perde qualidade de vida. É agradável? Pelo contrário: é péssimo. Mas é matemática e não uma questão ideológica.»

 

Leonor Barros: «Ah, as novidades! Perdoem-me esta exclamação inflamada mas eu sou rapariga que gosta de novidades, desde que não seja o Vítor Gaspar a dar-mas evidentemente. E o que vem aí é muito tentador. Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe que se converteu às maiúsculas, logo agora que já me tinha habituado às minúsculas e José Luís Peixoto andarão por aí a espalhar a palavra escrita aos leitores com títulos muito sugestivos, Quando o Diabo RezaO Filho de Mil Homens e Abraço respectivamente.»

 

Patrícia Reis: «Tenho uma empresa há 14 anos. Sou, portanto, masoquista. Uma empresa com sete pessoas na área da comunicação e design é um puro suicídio. Nunca escapei ao fisco, até nem sei como se faz. Nunca tive um director financeiro. Não tenho dívidas ao Estado. Cortei nos salários de todos e ninguém tem subsídios de férias ou de natal. Desde 2008 que a nossa vida é complicada. Animada, é certo, mas complicada.»

 

Rui Rocha: «Ao contrário do que para aí se afirma, não me parece que o principal traço que define Portugal e os portugueses seja o dos brandos costumes. O reduto último da portugalidade, se existe, deve procurar-se na circunstância de só conseguirmos ser solventes quando ousamos  franquear as nossas fronteiras.»

 

Teresa Ribeiro: «Durante os próximos dez dias vou falar disto. O que é? Um movimento de cidadania. Qual o seu objectivo? Varrer o planeta com uma onda verde. E não, não me estou a referir ao Sporting (cruzes!). Nem tão pouco a saladas tristes. O Movimento Verde Alfacinha parte de Lisboa para o mundo com um programa que não vos vai provocar o mínimo bocejo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.09.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não sei se acontece convosco mas eu tenho aí umas quatro ou cinco profissões que gostaria de experimentar apenas por um mês ou, vá lá, um ano. Guia turístico é uma dessas profissões. Bastava-me um mês, se tivesse de passar todos os dias pelos mesmos lugares, ou talvez me deixasse ficar mais uns meses se pudesse perder-me, eu próprio, em roteiros ao acaso.»

 

Ana Lima: «Eu sei que o tempo, este que é o nosso, nos puxa para aquilo que é mais terreno e que a realidade que nos cerca nos limita os pensamentos, que parecem concentrados em temas mais prosaicos. Mas é exactamente nestas alturas que não nos devemos esquecer da poesia e do facto de serem os poetas a dizerem as coisas mais importantes, aquelas que permanecem.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Neste país, praticamente tudo se encontra regulado, através de regimentos, decretos-leis e sei lá mais o quê. Mas a ninguém ocorre responsabilizar os criadores dessa mesma legislação pelas suas desastrosas consequências financeiras. A ninguém ocorre alterar essas mesmas leis e regulamentos, antes de crucificar na praça pública o trabalho feito.»

 

Ana Vidal: «Para além dos "monstros sagrados" da geração de ouro da MPB, entre criadores e intérpretes - Jobim, Vinicius, Caetano, Buarque, Bethânia, Gal, Simone, Gil (para citar apenas alguns) - e dos actuais e estrondosos sucessos de vendas e de bilheteiras, sobejamente conhecidos e aclamados por todo o lado, existe uma outra música no Brasil que Portugal conhece ainda muito pouco. É uma linha urbana, culta e sofisticada, que absorveu o que de melhor fizeram os seus antecessores e inovou com mestria e bom gosto em composições que honram, sem uma beliscadura, a brilhante tradição musical a que o Brasil sempre nos habituou. Casando novas tecnologias e tendências melódicas com os mais profundos e sólidos alicerces da chamada "tropicália", continua a provar que o código genético do povo brasileiro se escreve em pautas de música.»

 

João Carvalho: «Pode utilizar-se a expressão entrevista, desenvolver a ideia de que a maioria dos contribuintes não dispõe de informação bastante e menos ainda de conhecimentos técnicos suficientes e, por fim, concluir que se faz e se diz que faz aquilo que é possível. Eliminando o conteúdo entre os dois termos, fica entrevista possível. A interpretação é da minha inteira responsabilidade, mas devo dizer que me agrada especialmente. E ainda me agrada mais depois de suprimido o desenvolvimento da ideia. Entrevista possível, sim. Afinal, esperavam o quê?»

 

José António Abreu: «Incoerência é... criticar a "inflexibilidade" alemã e simultaneamente defender inflexibilidade para com a Madeira.»

 

Laura Ramos: «Andamos tão ocupados com as últimas da  Primavera árabe e as tristes figuras de Kadhafi e Bashar Assad, que quase nos esquecemos das tensões noutros lugares massacrados e, aliás, bem próximos.»

 

Rui Rocha: «Neste dia em que comemora 54 primaveras, igual número de verões e, pelo menos, uma bancarrota, o Delito de Opinião apresenta sinceros parabéns a José Sócrates e deseja-lhe muitas propriedades.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.09.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Há quem encha gavetas com primeiras páginas e se esgote em esboços de uma história que não virá. Há nesse esforço uma qualquer noção de expectativa que sempre ambicionei: a minha imaginação conduz-me sempre para o desenlace de histórias que nunca vieram.»

 

Ana Lima: «A primeira vez que estive na Festa do Avante foi no primeiro ou segundo ano em que se realizou na Quinta da Atalaia, pela mão de um namorado, que, pertencendo à JCP, nela trabalhou arduamente. Depois disso, poucas vezes lá fui. Este ano (ontem) foi uma delas.»

 

Ivone Mendes da Silva«Cá para mim, mais algumas romãs teriam feito toda a diferença. Talvez ela tivesse passado daquela ataraxia complacente e tivesse exigido, pelo menos, mais três meses longe do sol e do solo. Mas isto digo eu, que gosto é do Outono.»

 

Luís M. Jorge: «No Delito de Opinião todos escrevem o que querem. Somos infinitamente tolerantes uns com os outros, embora tenhamos já, por duas vezes, discutido o que podiam ser os limites da crítica num blog colectivo. A primeira conversa ocorreu no tempo do Governo de Sócrates, a segunda no de Passos Coelho. A resposta, tal como a entendo, é esta: não há limites.»

 

Rui Rocha: «Ainda sou do tempo em que a competência para discutir novos impostos estava atribuída à Assembleia da República. Agora, pelo visto, para se ser um bom cidadão, mais do que pagar impostos, importa é propor novos caminhos na cruzada do esbulho fiscal. Não falta quem esteja disposto a contribuir. Com propostas, entenda-se. De Cavaco Silva a aprendizes de Warren Buffett, cada vez há mais praticantes deste desporto nacional.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.09.21

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João Campos: «Passos Coelho anuncia o princípio do fim da crise em 2012. O que não augura nada de bom. Da última vez que um ministro anunciou o fim da crise foi o que se viu, lembram-se?»

 

José António Abreu: «Se em A Estrada [Cormac] McCarthy fez dos outros humanos a maior ameaça, [David] Vann quase não precisa deles (e com isto não estou a menorizar A Estrada, que entraria em qualquer top de melhores livros da primeira década deste milénio que eu compilasse). Os outros humanos são essenciais (especialmente, já o referi, as mulheres) mas não são eles a ameaça. Nem a natureza, que serve para expor e intensificar os problemas das personagens. Em A Ilha de Sukkwan, o Mal não vem de fora. De facto, talvez nem exista Mal (uma grande diferença em relação a McCarthy); existem falhas, incapacidades, incompreensões. E se A Estrada é consistentemente mais assustador, Vann consegue por vezes ser mais duro do que McCarthy.»

 

Leonor Barros: «Chegar é espreitar o mar lá ao fundo, uma tarja brilhante, uma língua prateada ainda mais flamejante em tempos de Verão final, partilhar um gin tónico na quietude do dia salpicado de palavras e silêncios. Reencontrar os livros, pôr em dia leituras ocasionais e deambular sem destino fixo entre lombadas expectantes. Chegar é retomar a vida que se deixou antes de partir e transformá-la numa vida nova, uma sucessão de chegadas e partidas, um movimento pendular entre o ir e o vir, chegar e partir. Chegar é pertencer.»

 

Luís M. Jorge: «O Hugo Mendes tem colocado informação preciosa no Jugular. (O que fazia ele no tempo de Sócrates? Assobiava para o lado). Certo é que este post sobre o imposto para ricos que tanto inflamou as almas sensíveis do PSD (e o que faziam elas nos tempos do corte ao subsídio de Natal e do aumento dos transportes públicos? Adivinhem.) coloca a questão onde é preciso — nos antípodas de José Manuel Fernandes. Se alguém próximo do Governo se dignar a responder-lhe talvez vejamos o início de um debate público sério; o que, enfim, já cá vai fazendo alguma falta.»

 

Patrícia Reis: «Não, não trouxemos medalhas para casa, como se isso fosse o mais relevante, mas vimos uma recuperação extraordinária de um grande atleta: Nelson Évora. O homem que esteve um ano a recuperar, que tem um parafuso no pé e é o quinto melhor do mundo. Nunca se pensa nisso, mas é a verdade: qualquer lugar a que um atleta deste nível vá parar significa que é o quinto, o sétimo, o décimo melhor do mundo. Melhor medalha do que isto? Não me parece.»

 

Rui Rocha: «A história recente corre, ainda, em favor de José Eduardo dos Santos. Mais de trinta anos de guerra sangrenta estão bem presentes na memória e na carne dos angolanos. Daí que muitos prefiram, de momento, fechar os olhos e a consciência a quanto os rodeia. A paz podre é para estes, apesar de tudo, uma solução aceitável quando comparada com os dias de chumbo da guerra pura e dura. Por isso, não acredito que estes sejam ainda os prenúncios de uma primavera angolana iminente. Por mais um tempo, com mais ou menos sobressaltos, a arraia-miúda dedicar-se-á ao bisness de cada dia e o poder continuará a explorar o businessAs usual. Assim, teremos, se não me engano, ainda um par de anos para exercitarmos toda a nossa complacência relativamente a este regime corrupto e autocrático.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.09.21

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Ana Vidal: «Diego Rivera, o homem a quem ela chamava carinhosamente "panzón" por causa do volume da sua barriga, tinha, além disso, idade para ser seu pai e era "feo como un cerdo", nas palavras de uma amiga de Frida. Pelo seu lado, Frida era uma mulher-menina, fisicamente frágil (quanto a força interior, a conversa é outra) e doente, um vidrinho colorido e exótico que Diego gostava de exibir. Porém, nada disso impediu que se tivessem amado loucamente e que esse amor, aparentemente tão desequilibrado, se tenha já tornado lendário.»

 

Ivone Mendes da Silva: «A presença do meu filho em casa durante o fim-de-semana pede sempre uns mimos culinários para os quais necessitava de ingredientes que não tenho habitualmente. Lá fui. E reparei numa coisa que já me tinha chamado a atenção e na qual não me detivera ainda. Por todo o supermercado há produtos abandonados fora do sítio próprio: quatro iogurtes junto aos pacotes de arroz, uma embalagem de bacon na prateleira dos sumos, dois queijos frescos em cima dos limões. Isto só para dar alguns exemplos. Estive a pensar num termo com o qual eu pudesse qualificar a atitude subjacente a estas deslocadas presenças. Não me ocorre outro melhor: é estupidez.»

 

João Campos: «Escrever ficção científica durande as décadas de 50 e 60 seria certamente um desafio. Em plena corrida espacial, com a exploração do espaço a tomar a forma de uma corrida sem pausas entre os Estados Unidos e a União Soviética, e com descobertas a serem feitas a um ritmo alucinante, qualquer narrativa situada num futuro próximo corria o risco de se tornar obsoleta num instante. Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke sabiam-no bem, quando embarcaram na aventura de escrever e produzir o filme 2001: A Space Odyssey - o resultado, como se sabe, foi um filme de um realismo ainda por superar no género, mais de quarenta anos volvidos.»

 

Rui Rocha: «É sempre triste ver um tipo chegar aos 33 anos sem a mínima noção do que é a responsabilidade pelos seus actos. A dimensão de um erro, ainda que grave, depende muito da forma como enunciamos o acto de contrição que lhe corresponde. E da vontade que temos em fazer dele um ponto de partida para nos tornarmos melhores. Ricardo Carvalho, com o seu sorriso apatetado e cheio de auto-complacência, fez questão de nos vir dizer que, em rigor, não aprendeu nada.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.09.21

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Ivone Mendes da Silva: «Liberta dos afazeres vespertinos, cheguei a casa e sentei-me no sofá de onde vejo o castelo, para pensar. Penso muito melhor quando estou lá a olhar para o castelo. É como se as voltas de todos os raciocínios fossem ao fundo do tempo e me trouxessem o que tinham aprendido na viagem.»

 

Laura Ramos: «Nenhuma gestão ministerial pode dar-se ao luxo de cilindrar os poucos clusters de excelência que o SNS conseguiu construir, à custa de muita capacidade de organização, visão, lideranças pessoais, equipas altamente treinadas e profissionais de categoria internacional. Mas era mais meio ano ...  e a destruição estaria completa. Afinal, parece que ainda não está tudo perdido.»

 

Rui Rocha: «Sportinguista, se tens saudades do tempo em que podias contestar o Postiga e o Djaló no conforto do nosso estádio, chegou a tua oportunidade. O Delito de Opinião está a organizar um Charter, com preços fantásticos, com saída de Lisboa, escalas em Saragoça e Nice e regresso a seguir aos jogos. Só precisas de saber assobiar. Inscreve-te já na caixa de comentários.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.09.21

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José António Abreu: «Duas menos pouco da tarde. Caminho pela rua Júlio Dinis e não resisto ao aspecto da montra da Petúlia. Dizendo a mim mesmo que afinal não comi sobremesa ao almoço, entro e peço uma nata. Vou pelo passeio a comê-la quando me cruzo com uma rapariga preenchendo um vestido curto e decotado da forma mais adequada que é possível imaginar. Tem pernas longas, cabelo escuro e não parece possuir um grama de gordura fora daqueles dois locais onde ela, simetricamente distribuída, até fica bem. Como eu, vem a comer. Mas não uma nata; uma maçã. De repente, sinto-me tão consciente das minhas falhas....»

 

Rui Rocha: «Vitor Gaspar começa a fazer-me lembrar o saudoso (livra) Hélder Postiga. Preparado tecnicamente, trabalhador, esforçado. O problema é a relação com a baliza. Que, nas contas do Estado, terá o seu equivalente no corte da despesa e nas reformas estruturais. Postiga precisava de não sei quantas oportunidades para marcar um golo quando o Jardel fazia anos. Gaspar já vai em três conferências de imprensa sem cortar nada que se veja. No futebol, driblar, passar, pressionar e desmarcar-se são sempre muito importantes. Mas, aquilo de que o povo gosta mesmo é de golos na baliza do adversário. No que diz respeito às contas do Estado é também assim.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «António José Seguro perguntou quem vai pagar o buraco orçamental da Madeira. Então o líder do PS não sabe? O senhor primeiro-ministro, que se prepara para ir a Funchal apelar ao voto, deveria desde já anunciar que essa dívida será paga por todos os residentes na Região Autónoma. Se houvesse justiça isso é que seria equilibrado, já que foram eles, os eleitores locais, quem ao longo de mais de três décadas andou a mamar da poncha.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.08.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não é a primeira vez que refiro aqui o céu de Jerusalém, uma das mais impressionantes cidades em que estive. Junto agora um vídeo que pode ilustrar o que então tentei descrever. E se acomodo este vídeo na série 'modo de vida' é porque há muito me deixei fascinar por Israel.»

 

Ivone Mendes da Silva: «É a distância ainda quente, / é a distância incompleta, / é o caule de Setembro / a emergir da terra.»

 

Luís M. Jorge: «Se eu também for esperto obediente atilado / não muito impaciente nem muito apressado / Hei-de encontrar padrinho hei-de ter um aliado / e mais tarde ou mais cedo, mamã, chegarei a algum lado.»

 

Rui Rocha: «Ontem anunciaram que o aumento do número de crianças por sala permitirá criar 20 mil novas vagas nas creches. É, claro, uma má medida. Todos sabemos que as crianças precisam de espaço e vistas largas. Para estreitezas bem basta o pouco tempo que passam em casa, confinados à cadeirinha, enquanto o pai vê o Benfica, assim o nevoeiro o permita, a mãe actualiza conhecimentos no Facebook e o irmão de seis anos estuda com a profundidade necessária todas as potencialidades da Wii.»

 

Teresa Ribeiro: «Foi Margaret Thatcher que disse que a sociedade não existe, só existem indivíduos e famílias. A frase, muito citada, reflecte um pensamento em que a direita se revê: culpar a sociedade é desculpabilizar os indivíduos, os únicos cuja existência pode ser comprovada pelas leis da física, logo os únicos que podem ser responsabilizados por tudo o que de bom ou mau acontece na praça pública.»

 

Eu«Assinala-se hoje o centenário da primeira mulher que recebeu carteira profissional de jornalista em Portugal. E é um aniversário felizmente celebrado com esta particularidade: Manuela de Azevedo está viva. Num meio que durante gerações esteve interdito a mulheres, ela arregaçou as mangas e soube mostrar quanto valia. Como repórter talentosa, entrevistadora de mérito, crítica que deixou rasto e também dramaturga e escritora - o seu livro de estreia, em poesia, teve prefácio de Aquilino Ribeiro.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.08.21

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Ana Cláudia Vicente: «Entre os diferentes ofícios, um se destaca pela inclinação para bem vestir sem grandes formalismos: o dos arquitectos. Que é raro vê-los engravatados, lá isso é, mas que são estetas, lá isso são - por natureza ou formação. Desleixados não.»

 

José António Abreu: «Susannah York, Sarah Miles, Susan George, Julie Christie, Charlotte Rampling, Jenny Agutter, Jane Birkin, Dominique Sanda,  Sandrinne Bonnaire, Nathalie Baye, Isabelle Huppert, Carole Bouquet, Valérie Kaprisky, Victoria Abril, Maria Schneider, Hanna Schygulla, Barbara Sukowa, Carole Laure, Geneviève Bujold, Liv Ullmann, Monica Vitti, Ornella Muti... Isso sim, era serviço público.»

 

Ivone Mendes da Silva: «A nossa relação com os álvaros e os doutores cria as mais curiosas situações. Lembro-me de um professor universitário brasileiro que, quando esteve em Portugal a leccionar um seminário, me disse: "Sabe, eu cheguei procurando não enrolar o meu pé no tapete das etiquetas."»

 

Laura Ramos: «Nada como uma pausa num monte alentejano para nos devolver a dimensão do tempo. Nem tão imóvel quanto agora. Nem tão urgente quanto aquele que nos aguarda. Esta quietude não é deste mundo. O mundo da pam-politização. Das convulsões. Dos impasses da moeda. Da geo-estratégia. Das culturas decadentes e das economias emergentes. Da insegurança. Do medo do futuro. Do pânico da perda.»

 

Rui Rocha: «Este pulha publicou esta foto, em que aparece com uma arma na mão e uma criança a seus pés, como se fosse um troféu de caça,  na sua página do Facebook. Gosta de chamar-se a si próprio Eugene Terrorblanche. Tinha 588 amigos na rede social. Desde que o escândalo rebentou na África do Sul, 25 desamigaram-se. Os outros continuam, impávidos e serenos. Reconheço que sou profundamente racista. Contra cabrões como este.»

 

Eu«Dois meses depois, não há reformas, dizem eles - os que nunca reformaram nada ou estiveram sempre na primeira linha do combate a todas as reformas no aparelho de estado. Dois meses depois, não há cortes na despesa, dizem eles - os que sempre contribuiram para avolumar a despesa.»