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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.12.19

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Ana Margarida Craveiro: «Estão quase a acabar os anos 00, sem que eu tenha aprendido a referir-me a eles em voz alta. A data de vencimento da minha carta de condução aproxima-se, e já não parece um futuro longínquo. A invenção da televisão de qualidade já leva dez anos (Sopranos, 24, Sete Palmos de Terra, House, por aí fora), e o James Cameron voltou a realizar filmes. Dez anos. Pois.»

 

Leonor Barros: «Deve ser Natal. Não são só os Pais-Natal enforcados nas varandas e os meninos Jesus em cascata nas janelas. Não são os bolos-rei, azevias e sonhos que invadiram as pastelarias e se espraiam em tabuleiros oferecidos. Não são só as lojas permanentemente cheias, as filas para pagar, embrulhar presentes, pedir talões e cheques-brinde. Não são só as notícias dos sem-abrigo de quem ninguém se lembra nos restantes dias do ano, as acções de solidariedade mais profícuas que coelhos em Primavera, comos somos solidários e caridosos. Não são só as canções de Natal ad nauseam em tudo o que é canto.»

 

Teresa Ribeiro: «Se alguma coisa se desconstrói a partir do discurso deste homem são as ideias que andam a angustiar as últimas gerações de pais. Gerações que perderam a autoridade natural dos progenitores à moda antiga e que agora andam aos papéis, sem saber como educar os filhos e ainda por cima obcecadas com a ideia de que o sucesso é uma condição de sobrevivência.»

 

Eu: «A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, monárquicos, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma "vanguarda revolucionária" para o derrube da "sociedade burguesa". Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal "foi um putsch militar e não uma insurreição das massas"

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.12.19

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Sérgio de Almeida Correia: «Por acaso tudo se passa entre nós. Talvez, também por acaso, sejamos um país. Quem sabe se, por acaso,  essa notícia nos diz respeito? Enfim, não sejamos pessimistas. Neste país tudo acontece por acaso. Até o inexplicável. E, pensando bem, por acaso, até é capaz de ser bom que tudo se passe assim. Por acaso.»

 

Teresa Ribeiro: «A braços com casos sucessivos de corrupção, o Brasil tem proporcionado à Imprensa brasileira abundantes manchetes sobre o tema. Na última Veja, mais um escândalo envolvendo políticos é pretexto para uma bela reportagem seguida de um top ten das causas que propiciam actos de corrupção, elaborado a partir de uma consulta feita a várias figuras com idoneidade para se pronunciar sobre a matéria.»

 

Eu: «São publicações que  prestam culto a "famosos" que ninguém conhece, ignoram o significado do termo "intimidade", adoram escrever o verbo "assumir", imaginam um "casal" em cada par que vislumbram ao virar da esquina, acreditam que uma pessoa se realiza essencialmente pela "relação" que estabelece seja com quem for, e não concebem que uma jovem possa viver sem ser "com o coração destroçado" após ter terminado o namoro, forjado ou real, que essas mesmas publicações garantiam ser "eterno" semanas antes.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.12.19

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Luís M. Jorge: «Il trionfo del Tempo e del Disinganno. O título deste oratório de Handel foi atraiçoado em libretto nas várias versões. Houve quem lhe chamasse O triunfo do Tempo e da Verdade. Outros, menos optimistas, traduziram-no para O triunfo do Tempo e da Desilusão

 

Eu: «Convém escolher melhor os exemplos quando se mencionam candidatos que baixaram imenso de umas eleições para outras. Se é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho caiu de 792.760 votos (16,2%) nas presidenciais de 1976 para 85.896 (1,5%) nas presidenciais de 1980, é muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo - abaixo do "folclórico" Otelo de 1976. Um notável trambolhão do qual ainda não se refez por completo. Nem muitos dos seus apoiantes.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 13.12.19

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João Carvalho: «Sócrates anunciou ontem a construção da primeira fase do TGV e disse que este é "justamente o momento" para o projecto passar para o terreno. Como há muito se adivinhava, o troço anunciado – o primeiro a ficar pronto se já ninguém conseguir estancar este desastre económico – é a linha Poceirão-Caia. Ou seja: é o troço que vai permitir a ligação Lisboa-Madrid.»

 

Paulo Gorjão: «Francisco José Viegas mantém no blogue -- aqui vai cliché... -- um olhar atento sobre a realidade. Atento, informado e interessante, atributos mais do que suficientes para justificar e valer a pena a visita regular.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 12.12.19
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Eu: «Neste país de brandíssimos costumes, informa-nos hoje o Expresso, há 17 indivíduos presos por corrupção. Eis a crua realidade em números: 17 pessoas num país com dez milhões de habitantes. Nenhum tubarão, claro: só peixe miúdo. O sargento da Brigada de Trânsito de Albufeira. Um funcionário do Centro de Emprego de Lagos. Um inspector da Polícia Judiciária que extorquia dinheiro a suspeitos que ameaçava com penas pesadas. O tipo do fisco que "fazia desaparecer processos de execução a troco de dinheiro". Dezassete, ponto final. Nenhum político, nenhum gestor público, nenhum empresário 'benemérito'. É quase caso para dizer que a corrupção nunca existiu em Portugal. Percebo agora melhor o motivo por que há por aí tanta gente preocupada com as 'violações do segredo de justiça'. Isso sim, é um gravíssimo problema nacional.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 11.12.19

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João Carvalho: «Todos os que se queixam das linhas de alta tensão que lhes passam perto de casa podem contar sempre com o meu apoio. Que ninguém se sinta só em tudo quanto seja lutar contra as decisões polémicas que afectam a nossa vida comunitária.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O PS acabou de sair de eleições e viu ser-lhe renovada a confiança política, apesar da erosão do poder, dos erros cometidos ao longo de quatro anos de governo, e do crescimento de uma clientela política e empresarial amorfa que suspira pela maioria absoluta.»

 

Teresa Ribeiro: «Em 2066, Bolaño, sabendo-se condenado pela doença, ajusta contas com a vida sem concessões. É seco, cínico e duro, porque não tem tempo para ser outra coisa. Mas a sua ambição impede-o de fechar os planos da sua escrita sobre a simples descrição de iniquidades e barbaridades várias para dessa forma retratar a humanidade. Apesar de, a quase todos os títulos miserável, a natureza humana não se esgota nesses close ups. Para se ser rigoroso é preciso explicar que o horror nasce de fragilidades como a pobreza, o medo, o amor desmedido ou a ausência dele e, é claro, o sexo.»

 

Eu: «Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica. São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 10.12.19

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Ana Vidal: «Às vezes, tenho vergonha de ser portuguesa.»

 

Eu: «Lamento informar o Pedro Lomba, mas não foi Passos Coelho que mudou 180 graus nesta matéria, desdizendo na oposição o que dissera no Governo. Não foi Passos Coelho que declarou em 2004 que o TGV estimularia a economia portuguesa até 1,7% do produto interno bruto - foi o primeiro-ministro da época, Durão Barroso. Quem mudou foi precisamente Manuela Ferreira Leite, ministra de Barroso. Talvez por não gostarem de tamanha "inconsistência", os portugueses recusaram dar-lhe a vitória a 27 de Setembro.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 09.12.19

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Ana Margarida Craveiro: «Nós não somos um país. Somos uma coisa com muitos nomes, onde cabem extremos e mundos que nunca se tocam. Onde muita coisa correu mal, para chegarmos a este ponto.»

 

João Carvalho: «Prometemos continuar com afinco este combate contra os tratos de polé de que sofre a nossa língua e contra o mau gosto e infracultura que grassam, dispostos a tentar alargar os bons resultados a outros meios de comunicação.»

 

Luís M. Jorge: «José António Saraiva foi convocado para um tête-à-tête na cave do Centro de Reinserção Social da Cartuxa em companhia de uma pessoa idónea, de preferência adulta. A coordenadora da equipa queria saber o que pensava ele do segredo de justiça, da violação desse segredo, da relação entre os jornalistas e as suas fontes e dos limites da liberdade de imprensa, entre outros assuntos cabeludos.»

 

Eu: «Imaginem, por momentos, o que sairia da pena vigilante e contundente de Mário Soares se o presidente dos Estados Unidos ainda se chamasse Bush ou se o envio de magalas para Cabul se devesse ao dedo do pernicioso Dick Cheney. Nada que se parecesse com a meiga reprimenda a Obama: pelo contrário, seria algo digno de fazer estremecer paredes e calçadas.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 08.12.19

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Ana Margarida Craveiro: «A vida depois da presidencialização é tramada. Obriga à responsabilidade, e a prestar contas. Tramadíssima, de facto. Em vez de ordenar o voto obedientíssimo dos grupos parlamentares relevantes, implica que se convençam os deputados da bondade da medida. Leva à negociação, e à defesa consciente de posições, para se chegar a um consenso. Em vez da verdade única, um jogo de cedências mútuas. Ora bolas.»

 

João Carvalho: «O que agora o País ficou a saber, com clareza e com as palavras todas, é que o projecto do TGV não prevê o transporte ferroviário de mercadorias. E mais: que essa falta é um erro grave. Pudera. É obviamente «um erro histórico», um conjunto de "projectos tacanhos", como acabou de afirmar Manuel Moura, o primeiro presidente da RAVE nomeado por Jorge Coelho no tempo de António Guterres.»

 

Leonor Barros: «Sim, é verdade, não sou particularmente católica – podem implicar à vontade com o particularmente, já se sabe que ou se é ou não se é - sim, não sou muito dada a tradições, sim, implico ferozmente com tudo o que são obrigações, sim, detesto fretes e imposições, presentes de Natal embrulhados na hipocrisia do dever cumprido e mensagens sms formatadas, iguais para todos os felizardos da lista telefónica e para gáudio das operadoras, odeio o cheiro a fritos que se me agarra ao cabelo sempre que me atiro aos afazeres de dona-de-casa prendada na véspera de Natal, sim, tenho uma saudade dilacerante do sorriso do meu pai por estes dias.»

 

Teresa Ribeiro: «Há muita gente que ganha dinheiro à pala da poluição - assim se explicou a Inês, 16 anos, no fórum sobre aquecimento global, a que assisti há pouco no programa Curto-Circuito, da SIC Radical. Confesso que depois de a ouvir me senti tipo atrofiada.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 07.12.19

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Adolfo Mesquita Nunes: «A oposição parlamentar limita-se, pois, a fazer o seu trabalho, obrigando o PS parlamentar a fazer aquilo que há muito não estava habituado - trabalhar em vez de aplaudir - e obrigando o governo a prestar contas sobre o que anda a fazer ao invés de distribuir boutades a torto e a direito contra a oposição.»

 

Ana Vidal: «Serei eu a única a ver o absurdo de uma guerra de marcas de genéricos? É que eu pensava, pelos vistos ingenuamente, que o conceito "genérico" se traduz num medicamento sem marca, criado exactamente para evitar que o peso do marketing (criatividade, embalagem, promoção, etc.) se reflicta no preço final. Mas estava enganada. Afinal, tal como os animais do Orwell, também os genéricos são todos iguais... mas uns são mais iguais do que outros.»

 

Luís M. Jorge: «O que torna as pessoas credíveis? Em primeiro lugar o que exigimos delas, em segundo o que elas têm a perder. As responsabilidades que atribuímos a um político implicam um acto de fé na sua honradez, tal como a leitura de um semanário implica a crença na probidade daqueles que o compõem.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Um dentro e outro fora. É o que diz Mário Soares dos pés de Manuel Alegre em relação ao PS. A entrevista é interessante, embora sem acrescentar nada de novo, mas foi pena que o patriarca se tivesse esquecido daqueles que sendo militantes têm tido os dois pés fora do PS e ainda assim continuam lá dentro para compor listas, cobrar mordomias, intrigar nos corredores do poder e subir na vida. Com o aval de quem manda, contra tudo o que a república ensinou.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 06.12.19

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Luís M. Jorge: «O Lutz Burkleman, Brulkman, Burklem, ou lá como se chama, voltou. O seu intelecto sistemático, bom gosto, libertinismo e fair play regressam com ele.»

 

Teresa Ribeiro: «Classificar a oposição de infantil tem graça e revela, é claro, um padrão. Meninos, preparem-se para muitos ralhetes, agora a duas vozes. O estilo de mestre-escola de Sócrates pelos vistos fez... escola.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 05.12.19

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João Carvalho: «Extraordinário – isso, sim – é este hábito que está a instalar-se de chamar "banqueiro" a Vara. Já não ficarei admirado se o homem, um dia destes, publicar um livro sobre a sua empolgante vida no mundo da alta finança. Insistam só mais um bocadinho que ele ainda se convence. É de boa tradição as biografias traduzirem a ideia de "a vida e a obra" ou "o homem e a obra". Novidade são as biografias do tipo "o homem e a queda", uma tendência que o banqueiro João Rendeiro inaugurou com indesmentível sentido de oportunidade.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 04.12.19

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João Carvalho: «O nome do edifício, como pode ver-se, prima pela modéstia, uma vez que, além do piano, há um violino transparente com uma escadaria e cuja decoração interior consiste numa exposição de projectos e ideias destinados ao futuro desabrochar da cidade e arredores. Convenhamos que a construção é desajeitada: falta altura nas três pernas do piano, sobem-se muitas escadas para entrar e o violino que serve de quarto apoio ao chão é totalmente desproporcionado.»

 

Luís M. Jorge: «O João Galamba afirma que esta notícia é falsa, e que o primeiro-ministro não mudou de telemóvel. Vamos dar crédito ao homem? Eu dou. Afinal é um deputado por Santarém, por amor de deus.»

 

Teresa Ribeiro: «Se a maioria das mulheres se sentissem amadas assim, a cirurgia plástica, a indústria da cosmética e as terapias da felicidade, em vez de apresentarem lucros fabulosos, estariam em dificuldades. A "pressão social" sobre as mulheres foi inventada por estas áreas de negócio quando identificaram o amor transgénico como uma janela de oportunidades

 

Eu: «Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 03.12.19
 

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Ana Cláudia Vicente: «Hoje talvez menos, que a cultura de conversa já teve melhores dias, mas penso que podemos ainda considerar-nos um daqueles países pródigos em ditos, rifões, adágios e provérbios. E para nosso incómodo ou gargalhada, certo é que temos máximas que concentram mais conhecimento sobre as virtudes e defeitos nacionais do que muitos tratados. O que vos proponho é que troquemos umas ideias sobre o assunto: quais os aforismos que mais denunciam as nossas, digamos, fraquezas?»

 

Ana Vidal: «Na recusa patética do envelhecimento e na incapacidade de aceitarmos o sofrimento que nos cabe, como coisas naturais, será que nos transformámos em "bonecas inquebráveis"  que passam pela realidade sem se deixar marcar nem deixar marca?  Como nos vêem os homens exigentes, após o prazer imediato e  óbvio de uma aparência agradável? Como nos vemos nós, quando o espelho não nos mente? Ou será que é melhor não pensarmos muito no que pode trazer-nos cabelos brancos e rugas?»

 

João Carvalho: «A realidade nacional revela hoje em dia um aspecto que pode deixar os sociais-democratas menos angustiados: o próprio país caminha para um suicídio colectivo e o PSD apenas cumpre o dever de o acompanhar neste percurso doloroso.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Tivesse Manuela Ferreira Leite escutado o que disse a sua companheira de partido e ex-juíza do Tribunal Constitucional, Assunção Esteves, e teria compreendido o porquê de não se poder contornar as regras à medida das conveniências. O interesse que algumas pessoas revelam por conhecer o conteúdo das conversas do primeiro-ministro não será muito diferente do interesse que algumas pessoas têm por conhecerem os hábitos dos seus vizinhos. Mas não é por haver quem tenha esse interesse - gostos não se discutem - que se vai permitir a devassa, fomentar a bisbilhotice e a coscuvilhice.»

 

Eu: «O Tribunal de Contas já chumbou cinco dos seis contratos de subconcessão lançados este ano pela empresa pública Estradas de Portugal. A pergunta que se impõe é esta: estará o presidente da EP, Almerindo Marques, à espera do sexto chumbo para apresentar finalmente o pedido de demissão?»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 02.12.19

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Ana Vidal: «O jornal ABC chegou a fazer uma primeira página inteiramente ocupada com a fotografia do "monstro", cuja legenda era "O olhar do assassino de uma criança de três anos". No mínimo, deveria agora repetir a capa com a legenda "O olhar de um inocente injustiçado", mas não o faz porque isso não vende jornais. Nem sequer o El País, habitualmente mais discreto e prudente, resistiu à condenação prévia. E o que dizer das televisões, expondo à exaustão as imagens da detenção e alimentando a fúria e o ódio do público? Que ao menos este triste exemplo sirva para se repensar o poder irresponsável e voraz da comunicação social.»

 

João Carvalho: «Na Europa, é a Dinamarca que tem as habitações – apartamentos ou moradias independentes – maiores (137 metros quadrados), seguida da Grécia (126 metros quadrados) e da Holanda (115,5 metros quadrados). Entre os nossos parceiros, as casas mais pequenas são as dos britânicos, cuja área, em média, se fica pelos 76 metros quadrados.»

 

Luís M. Jorge: «As velhas carquejas da intratável livraria Buchholz planearam há anos a estratégia de marketing perfeita. Sempre que se aproxima um solstício, abrem as goelas e ameaçam desaparecer. Agora recebi um press release em que me confiam a próxima Liquidação Total. (...) Uma oportunidade única para o leitor afastar teias de aranha enquanto é enxovalhado por Helgas de napa preta e godemichet. O documento assegura-nos que os livros estarão à venda a partir de 1 €. Quanto à masmorra, é gratuita.»

 

Eu: «Barack Obama decidiu mandar mais 30 mil soldados para travarem a guerra no Afeganistão. A poucos dias de receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 01.12.19

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João Carvalho: «Miguel de Vasconcelos – secretário de Estado da regente de Portugal, Margarida de Saboia, duquesa de Mântua – é alertado pelo tumulto e decide ir à varanda do Paço para ver o que se passa. Levanta-se em passo rápido, tira um agasalho do armário, abre a portada da varanda e tropeça na soleira. A queda é inevitável: desamparado, não consegue agarrar-se ao balcão, precipita-se no vazio e estatela-se lá em baixo no terreiro, com o corpo em posição estranha e inerte.»

 

Paulo Gorjão: «O PCP parece que está muito chateado porque o PS não o consultou na recente escolha para o Tribunal Constitucional. Ou seja, não é propriamente a qualidade da escolha em abstracto que preocupa o PCP, mas sim a sua marginalização no processo. Não sei se é verdade que o PS ignorou uma prática seguida desde a transição para a democracia, mas em todo o caso não faz mais do que reconhecer a crescente irrelevância eleitoral do PCP. Ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas últimas eleições legislativas, cada vez mais periférico no sistema político português, o PCP resiste à mudança, mas exige a manutenção dos privilégios com base numa representatividade passada...»

 

Teresa Ribeiro: «Por instinto conduziu-o pelo braço. Olhos em frente, a furar médicos e enfermeiros naquele vaivém por entre aflitos, o que ela queria era segurá-lo pelo braço, porque a mão, aquela mão dele, estava ao contrário.  Se ele imaginasse como lhe era insuportável segurá-lo pela mão, teria percebido porque teve ela de ser tão desembaraçada em tudo, para poder negar àqueles espectros de bata branca o espectáculo banal do seu pavor.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 30.11.19

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Luís M. Jorge: «Os dados recentes sobre o agravamento do défice das contas públicas e do saldo negativo da balança de transacções correntes, bem como a confirmação do crescimento da taxa de desemprego para 18,3 por cento, não desencorajam o primeiro-ministro,  que se mostra determinado e confiante no rumo que traçou para o país. Atribuindo os maus resultados pontuais à persistência da crise internacional, José Sócrates recordou que está previsto um crescimento de 0,2 por cento do PIB em 2018, uma consequência evidente das iniciativas encetadas pelo Governo

 

Paulo Gorjão: «Julgo que se estão a fazer leituras apressadas e erradas do que aconteceu no Parlamento na sexta-feira. A votação coordenada do arco que vai do BE ao CDS, pura e simplesmente, não é sustentável no tempo. Se fosse significaria que não havia divergências entre si e o feitiço acabaria por se virar contra o feiticeiro. O que se passou foi uma mera manobra de dissuasão. Um alerta severo ao Governo.»

 

Eu: «Se fosse no Porto, onde o bairrismo é uma bandeira, bastaria a suspeita de que estaria em marcha uma operação lesa-ecologia como esta para Sá Fernandes encontrar pela frente uma acção de embargo, que lhe pudesse travar o passo. Ele sabe bem o que isso é, aliás: antes de fazer parte do poder camarário distinguiu-se como o maior embargador da capital. Não na defesa dos interesses da cidade, como agora se comprova, mas na defesa dos seus interesses políticos.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 29.11.19

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João Carvalho: «A peixeirada-do-mal é uma nódoa que cai aos fins-de-semana num canal de informação – a SIC-Notícias. O moderador não modera e os opinadores não opinam. Ou opinam, mas ninguém os ouve: atropelam-se todos à molhada, cada qual a levantar mais a voz do que os restantes, e a peixeirada instala-se invariavelmente. Não é um grande mal, porque o pouco que se percebe é um chorrilho de lugares-comuns que não-aquenta-nem-arrefenta.»

 

Jorge Assunção: «Na blogosfera económica, nenhuma universidade está tão presente como a George Mason. Não é de admirar, uma vez que, quer a blogosfera, quer a George Mason, partilham parte do código genético: a abertura à comunidade exterior, a necessidade de estabelecer um circuito aberto para troca de ideias. O tempo ‘perdido’ pelos seus professores a comunicar com o exterior, mais do que compensou. Entre outras coisas, promoveu a ascensão da universidade nos rankings de reconhecimento e nas preferências dos alunos. Talvez a academia portuguesa pudesse aprender alguma coisa com o exemplo, mas duvido.»

 

Paulo Gorjão: «A Suíça acaba de aprovar a interdição de construção de minaretes. Nada a dizer sobre a legitimidade da decisão. A medida foi aprovada através de referendo e o voto foi exercido livremente. Coisa distinta é saber se foi justa. Não foi, na minha opinião. O resultado do referendo revela medo, intolerância, ou mesmo xenofobia. Um velho e longo debate.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 28.11.19

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João Carvalho: «Alguém menos avisado que se aproxime da obra poderá achar estranho que a Selecção do Brasil tenha um estádio e, mais ainda, que esse estádio seja em Lisboa. São as cores do SCP, é certo, mas a aplicação de verde e amarelo é excessiva. Tem de reconhecer-se que, se assumido o lado artístico da criatividade, um arquitecto é sempre polémico nos projectos (e nos filmes caseiros) que faz. O problema é quando se trata de um clube e muitos adeptos também torcem o nariz.»

 

Paulo Gorjão: «De pouco adianta ao Governo a pose de vítima na reacção aos (des)equilíbrios de poder no Parlamento. Estamos ainda numa fase em que as partes medem forças numa dinâmica que tem algumas semelhanças ao chicken game. A seu tempo emergirá um ponto de equilíbrio. Instável, claro. Mas por agora o contexto ainda não é propício à ruptura total.»

 

Teresa Ribeiro: «... nós adiamos casamentos, divórcios, filhos, férias, exames médicos, idas ao cabeleireiro, compras de sapatos, de livros, de apartamentos, de carros, passeios, mestrados, idas ao ginásio, obras na casa. Enquanto eles adiam mais uma subida inevitável dos impostos.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 27.11.19

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Paulo Gorjão: «Enquanto alguns persistem na tentativa de fabrico de candidaturas de facção -- e ontem/hoje foi um dia de más notícias para os engenheiros de ondas --, Pedro Passos Coelho vai fazendo o seu caminho, trabalhando no sentido de criar condições objectivas para o debate de ideias e propostas. De forma complementar, Pedro Passos Coelho dá sinais com actos e não com meras declarações retóricas que concreta e objectivamente criam condições para a unidade e a abrangência interna no PSD.»

 

Eu: «Nestes instantes vou sentindo uma irreprimível nostalgia do Pacheco [Pereira] antigo, que nos mandava tomar as devidas precauções contra o frenesim populista, inimigo desbragado dos "políticos" e de todo o debate travado em moldes racionais. Nada a ver com esta penosa reencarnação do ilustre pensador, tão mal representado pelo seu sósia, que parece desdizer hoje tudo quanto o Pacheco original dizia outrora.»


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