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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 25.02.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Se por absurdo um primeiro-ministro é ilegalmente filmado a matar alguém, filmagem essa sem qualquer valor probatório, podem os cidadãos ignorar tais imagens se, por alguma forma, elas se tornaram públicas, alegando que não tendo qualquer valor probatório elas nada provam?»

 

João Carvalho: «O Chevrolet Bel Air de 1957 que está no topo é um carro normal que tem pouco de normal: enorme, luxuoso e gastador, como todos os carros norte-americanos do tempo do Elvis (e não só). Já o carro idêntico que se segue não é normal e tem tudo para ser normal: só um europeu é que o acharia anormal. Contrastes do sonho americano que tantas vezes é um pesadelo para o mundo.»

 

Luís M. Jorge: «Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. (...) O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas, entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.»

 

Eu: «É consolador saber, como ontem revelou Henrique Monteiro na Assembleia da República, que temos um primeiro-ministro com disponibilidade para falar mais de uma hora ao telefone com o director do Expresso, numa noite de quinta para sexta-feira, procurando dissuadi-lo de publicar uma notícia que lhe dizia respeito. Mais consolador é presumir que este procedimento deve decorrer ao abrigo de uma alínea qualquer do Estatuto do Jornalista que ainda há poucos dias Arons de Carvalho enaltecia, também no Parlamento, como demonstração cabal de que não existem condicionamentos à liberdade de imprensa em Portugal.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 24.02.20

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Ana Vidal: «Miguel Sousa Tavares, entusiasmado ao princípio por achar que lhe arrancaria uma qualquer reacção que traísse desconforto, tristeza ou  hesitação, foi desistindo aos poucos até desanimar completamente, ao perceber que falava com um muro de cimento armado. Esta entrevista teve em mim um efeito revelador. Percebi finalmente, com enorme apreensão, qual é o grande trunfo de Sócrates: nada o demove porque nada o comove. E não sei o que se passa convosco, mas a mim preocupa e assusta saber que o país está entregue a uma espécie de robocop em versão Armani.»

 

Paulo Gorjão: «Paulo Rangel esqueceu-se -- ou terá deixado para data posterior? -- que cada pescador também é um soldado. Na entrevista concedida a Judite Sousa em Outubro de 2009, entre outras coisas, Paulo Rangel incluía também as pescas nas suas preocupações de segurança e defesa nacional. Na altura entendia também que havia imensas pessoas qualificadas no PSD para serem líderes do PSD. Pelos vistos candidataram-se os únicos três militantes que ele entendia que não reuniam as qualificações. É preciso ter azar. Habituem-se.»

 

Eu: «Há 25 anos que o PSD vive dominado pela figura tutelar de Aníbal Cavaco Silva. É um ciclo que já devia ter terminado. Se tem ambições de futuro, o partido laranja devia iniciar um novo ciclo, sem qualquer resquício de tutela cavaquista. É algo que já se percebeu que não sucederá nesta campanha interna, onde o cavaquismo surge em força. Alexandre Relvas, o director da campanha presidencial de Cavaco Silva, é um dos principais apoiantes de José Pedro Aguiar Branco. Carlos Blanco de Morais, consultor do Presidente da República para os assuntos constitucionais, contribui para a elaboração da moção de estratégia de Passos Coelho. E Eduardo Catroga, que foi o ministro das Finanças preferido de Cavaco Silva, inclui-se entre os apoiantes de primeira linha de Paulo Rangel.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 23.02.20

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João Campos: «Às nove da noite é possível atravessar a Rua Augusta - a principal artéria da Baixa - sem nos cruzarmos com mais de seis pessoas. A essa hora, as lojas estão fechadas, os restaurantes e cafés estão a fechar (ou estão desertos), e nos prédios, a maior parte das janelas não mostra qualquer luz. O imponente arco da Rua Augusta já nem iluminado está - após o cair da noite, é apenas um sinistro arco de pedra que dá acesso à devastada Praça do Comércio. (A propósito: não espreitem para a "obra". É deprimente).»

 

João Carvalho: «Acabo de saber que o social-democrata Morais Sarmento se manifestou hoje muito crítico perante a escolha de Vítor Constâncio para o Banco Central Europeu. Presumo que Sarmento tenha chegado de uma ausência prolongada, mas que não há-de impedi-lo de tomar duas iniciativas: primeira, ir à Europa explicar isso mesmo; segunda (esta é um favor), arranjar qualquer coisa por lá que sirva para Constâncio partir.»

 

Paulo Gorjão: «Alguém acredita que Paulo Rangel não se lembrava de se ter filiado? Será que também não se lembra de ter escrito a Paulo Portas? Paulo Rangel lembra-se que no 25 de Abril a sua "mãe acabou de bordar um pullover com dois elefantes vermelhos" -- tinha Paulo Rangel seis anos na altura -- e não se lembra de ter sido militante do CDS quando tinha 28 anos? Alguém se filia num partido de ânimo leve ao ponto de não se lembrar se o fez?»

 

Teresa Ribeiro: «António Barreto começa a mostrar serviço. Para começo, não está nada mal. Precisávamos disto [Pordata] como de pão para a boca.»

 

Eu: «Quando o vento sopra de feição, ele [José Sócrates] soube de tudo e foi responsável por tudo. À mínima brisa contrária, torna-se a pessoa mais ignorante do País, como ficou patente na entrevista de ontem à SIC - a primeira em que permaneceu à defesa durante o tempo todo. É um estilo de governação que o define. E que caracteriza um ciclo político que está prestes a esgotar-se.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 22.02.20

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João Carvalho: «Quando alguém se atreve a criticar o que o chefe diz ou faz, há um costume muito curioso: saltam logo as galinhas a cacarejar "ó-da-guarda", "aqui-d'el-rei". Trata-se daquilo a que muitos chamam "política de galinheiro". Eu prefiro chamar-lhe "política de aviário", que é onde as galinhas acabam por nunca ficar muito tempo. Em Portugal é que esse costume não anda a atravessar os seus melhores dias. Talvez porque há cada vez mais pintos do que galinhas nos poleiros. É só a gente bater-lhes o pé que eles saltam logo para debaixo das asas do galo.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Ainda não foi eleito líder do partido [PSD] e aos poucos vão-se sabendo as verdades que queria esconder. Porquê? Será que sente vergonha do facto de ter sido militante do CDS/PP durante cerca de três anos? Que diabo, não foi propriamente uma inscrição feita na adolescência, quando a barba começava a despontar, mas uma opção numa idade em que já era presumível alguma maturidade. A não ser que [Paulo] Rangel considere que aos 28 anos ainda não tinha acordado para a política.»

 

Eu: «Li atentamente a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso e tive de imediato a sensação que algo não batia certo. Diz ele que decidiu concorrer ao Palácio de Belém depois de ouvir durante "dois ou três meses" várias personalidades, entre elas os ex-presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. "Falei com toda a gente, não houve nenhum sector da política portuguesa que eu não tenha abordado", diz o presidente da Assistência Médica Internacional. Ora aqui está o que não bate certo: para quem falou com dezenas de pessoas, do CDS ao Bloco de Esquerda, é estranho ter deixado de fora Manuel Alegre. Nem sequer teve curiosidade de saber se o poeta tencionaria recandidatar-se à presidência.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 21.02.20

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Paulo Gorjão: «À pergunta se contaria com Pedro Passos Coelho como deputado caso vença as eleições internas, Rangel opta por não se comprometer. Um péssimo sinal. Pelos vistos, Paulo Rangel quer continuar pelo mesmo caminho de divisões internas. Em sentido contrário, José Pedro Aguiar-Branco e Pedro Passos Coelho -- que já perceberam que essa é uma questão fulcral na vida interna no PSD -- adoptam uma abordagem inclusiva. É também nestas pequeninas coisas que se vê a visão e a dimensão dos políticos.»

 

Eu: «[Ben] Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 20.02.20

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José Gomes André: «Que um Governo à deriva se defenda recorrendo a estes argumentos infantis, não me espanta. Que pessoas inteligentes - de João Galamba a Eduardo Pitta, de Pedro Marques Lopes a Fernanda Câncio - se agarrem a estas idiotices para continuarem a defender Sócrates, ultrapassa a minha compreensão.»

 

Teresa Ribeiro: «O atrevimento do poder político em relação aos outros poderes: o judicial e o dos media (porque a comunicação social não é formalmente um poder mas tem um enorme poder) é propiciado pela nossa cultura democrática. Fundada por partidos que formalmente se opõem, mas que na prática se neutralizam e diluem num mar de interesses e afinidades.»

 

Eu: «Portugal está de luto. Portugal inteiro? Não: algures no Porto, a meio da tarde, um político fala aos militantes do seu partido, com direito a transmissão directa no canal público de notícias. Pura acção de propaganda, ao jeito a que este político já nos habituou. E que diz ele? Repete que os jornalistas cometeram "crimes" ao divulgar escutas telefónicas. Proclama, como se ele próprio acreditasse nisso, que Portugal "foi dos primeiros países a sair da recessão técnica" e que "podemos esperar crescimento económico já em 2010". Empolgado pela sua própria oratória, afirma: "Aumentámos o défice para evitar que o desemprego subisse." Estranhamente, sem escutar um coro de gargalhadas na sala.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 19.02.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Tenho muita dificuldade em encontrar, pela blogosfera fora, quem faça da sua militância partidária a absoluta alienação da capacidade de pensar por si próprio. Como é possível que, legitimamente optando por escrever sobre o partido a que pertencem ou sobre o Governo que suportam, não se lhes conheça uma crítica, pequena que seja, um "algo está mal", uma paragem pela berma, uma dúvida, um receio, uma divergência: nada que não seja a defesa cega da coisa.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Quem esteja a acompanhar os depoimentos que estão a ser prestados na Comissão de Ética não pode deixar de ficar pasmado. O tom e o estilo de algumas intervenções, de que constitui belíssimo exemplo a desta manhã da jornalista Felícia Cabrita, que se dá ao luxo de fazer comentários e questionar o poder legislativo, como se afinal fosse este que estivesse a ser escrutinado neste momento, dizem tudo sobre o interesse do que por lá se passa. Ver a miséria assim exposta não aproveita a ninguém, mas os senhores deputados devem saber alguma coisa mais que eu não sei que justifique o espectáculo.»

 

Eu: «Albert Camus, uma das maiores referências morais do mundo do pós-guerra, deixou bem claro que a questão dos meios é fundamental na definição de qualquer objectivo político. Por esse motivo, entrou em ruptura com o marxismo clássico e com os seus expoentes da época, remando contra a maré dominante que glorificava o estalinismo. Para ele, a libertação do homem jamais poderia servir de pretexto para justificar um acto criminoso. As bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui eram tão imorais, sob este ponto de vista, como os campos de extermínio nazis.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 18.02.20

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João Carvalho: «Dá cá 60 euros. Foi recentemente, na VCI (Porto), segundo esta notícia relata. É melhor esquecer também aquele velho hábito de levar a mão à frente da boca e nariz quando se espirra. Se circular numa autoestrada e fizer muita questão de usar a mão para tapar a boca e nariz, por o seu carro não ter limpa-vidros do lado de dentro, procure a saída ou o posto de gasolina mais próximo, encoste o carro e espirre então em segurança.»

 

José Gomes André: «O sr. Silva candidata-se como cabeça-de-lista de um partido a um cargo relevante, numa eleição geral. Vence as eleições, deixando o segundo classificado a 5%. Três meses depois, o seu partido perde uma eleição nacional, sem que o sr. Silva tivesse sido cabeça-de-lista ou sequer candidato em qualquer lista.»

 

Paulo Gorjão: «Se esta candidatura [de Fernando Nobre] for patrocinada pelos soaristas, como li algures, é um sinal de desespero e de completa ausência de alternativas. Tenho dificuldade em acreditar que o seja. Não tem sentido. Nobre em circunstância alguma teria o apoio do PS e, nesse sentido, não é uma verdadeira alternativa a Manuel Alegre.»

 

Eu: «A generalidade dos cidadãos, excepto aqueles que assinaram um pacto de devoção eterna ao actual primeiro-ministro, só pode ficar perplexa ao verificar que o procurador-geral [Pinto Monteiro] não detectou indícios de actos lesivos do Estado de Direito na conduta de um administrador-executivo da PT nomeado pelo Governo através da golden share que dispõe naquela empresa. Como se essa golden share existisse para mandatar o referido administrador a funcionar como mediador para a compra de uma estação de TV incómoda para o Executivo do partido a que pertence, e como tal apontada a dedo três meses antes, num congresso partidário, pelo primeiro-ministro.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 17.02.20

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Ana Margarida Craveiro: «A semana passada, ficámos a saber que 87% das mulheres que abortam não usam meios contraceptivos. Pura e simplesmente, para 1425 mulheres, a interrupção voluntária da gravidez é um meio de planeamento familiar. Acrescente-se que, para 468 mulheres, o procedimento não era novidade. Os números são ainda mais graves se considerarmos a idade destas mulheres. Estamos a falar de mulheres dos 21 aos 29 anos, na maior parte dos casos, sendo a faixa dos 30 a que se lhe segue. A falta de informação não pode servir de desculpa eterna.»

 

André Couto: «O artigo 38.º da Constituição da República Portuguesa, da liberdade de imprensa e meios de comunicação social, é precedido por um não menos importante, o 37.º, com a epígrafe liberdade de expressão e de informação. É giro ver os paladinos do 38.º a quererem limitar o uso do 37º.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Será que ele [Fernando Nobre] está convencido de que vai ser eleito? O país perderá um cidadão e um médico. E o que irá ganhar em troca?»

 

Eu: «A desobediência civil, como nos ensinaram Gandhi e Martin Luther King, pode ser um imperativo cívico. Foi isto, se bem entendi, que o Joaquim Vieira pretendeu dizer, o que torna - a meu ver - ainda mais injustos os qualificativos com que foi brindado.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.02.20

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Ana Sofia Couto: «Aprendi muito com o Sr. Medeiros, mas a memória mais feliz que guardo dos meus tempos na Culsete tem a ver com cigarros. Contra as indicações do médico, que a família queria que seguisse, o Sr. Medeiros continuava a não recusar o prazer de um cigarro. Por isso, sempre que me dizia para ir comprar o Público ao quiosque, pedia-me que trouxesse, escondido no jornal, um maço de cigarros. A forma como fazia este pedido obrigava-me a responder com um sorriso: falava muito baixinho e piscava-me o olho.»

 

João Carvalho: «Interessa-me que as escutas institucionalizadas sirvam para fazê-la. Interessa-me saber em que medida elas permitem culpar alguém. Interessa-me ajuizar por e para mim próprio. Por isso é que pode interessar-me o mesmo nos casos inversos. O meu juízo sobre o carácter de alguém que gere a coisa pública atrás da porta não é jurídico nem incriminatório. Apenas me interessa para participar com mais consciência na vida colectiva e no exercício individual da cidadania como parte do todo.»

 

Paulo Gorjão: «Mário Lino esclarece que nunca deu instruções à PT para comprar a TVI. Jamé, you might say. Resta agora saber se isso é bom ou mau...»

 

Teresa Ribeiro: «Que o rei ia nu, já sabíamos. A surpresa foi quando vislumbrámos no meio dos cabeçudos (que grandes cabeças eles tinham!) e palhaços do costume o carro alegórico: eu cá não sou de intrigas, mas aquilo parecia-me uma carreta. A fechar o cortejo, muito discreto, vi passar um amola-tesouras, com a sua inconfundível gaita de beiços.»

 

Eu: «Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n' A Troca - até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.02.20

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João Campos: «Francisco José Viegas escreveu, há seis anos, esta bela prosa sobre o carnaval lusitano.  E há seis anos que se limita a publicá-la novamente, por esta altura, nos seus blogues. Faz bem: o texto é certeiro, e permanece actual. Diria mesmo que aquele texto irá permanecer actual por muito, muito tempo. Infelizmente.»

 

João Carvalho: «Se Aguiar Branco vier a desistir, ainda poderá dizer-se que o fará em nome de interesses superiores, que não os dele. Já se for Paulo Rangel a deixar a corrida, a história é déjà vu: Rangel também garantia abespinhado que não seria candidato, horas antes de anunciar a sua candidatura. Também déjà vu é a viragem de 180 graus três meses após ter declarado com pompa que cumpriria o mandato no Parlamento Europeu para que foi eleito. Mais? Sacrificar uma amizade a uma candidatura é outro caso déjà vu. «A minha candidatura é de ruptura» – diz o ainda eurodeputado. É capaz de ser: de uma só penada, a ruptura foi na lealdade que devia ao amigo.»

 

Leonor Barros: «Não vale a pena culpar D. Sebastião por se ter perdido algures a Sul, determo-nos em Belém à espera das caravelas que nos hão-de devolver esse esplendor cujas aventuras Camões eternizou ou blasfemar Afonso Henriques que, ao que se sabe, deu umas belas bordoadas na mãe. Esqueçam os poetas, esqueçam os historiadores, esqueçam os políticos. Vale pena reflectir sobre o presente, o aqui e agora, e pensar em que raio de gente nos tornámos, que raio de gente somos nós afinal.»

 

Paulo Gorjão: «Uma fonte do PS informa que vamos assistir ao "regresso em força do secretário-geral do PS". Ou seja, a fonte admite implicitamente que José Sócrates anda muito longe dos seus melhores dias... A tentativa de spin, de qualquer modo, é óbvia. O momento de desaire é impossível de disfarçar. E é tão indisfarçável que José Sócrates tem de convocar de emergência os principais órgãos do PS. Em força, diria...»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O polvo foi sendo alimentado, cresceu, engordou, ocupou todo o espaço livre do regime. Enquanto isso aconteceu todos acharam piada, fecharam os olhos, assobiaram para o lado. O polvo sorria e sendo grande o desperdício sempre havia alguém que aproveitava as sobras para também ir engordando. Mas ao mesmo tempo que o polvo crescia as paredes do regime tornavam-se mais frágeis, a pressão que o polvo exercia para se acomodar no espaço livre tornou-se cada vez maior. Quem o alimentou esqueceu-se de que à medida que o polvo fosse aumentando de volume menos espaço ficaria para os que o alimentavam e para os que impotentes o viam crescer, antecipando o que aí vinha. As paredes do regime não se fortaleceram à medida que o polvo crescia. Agora o desequilíbrio é evidente. O risco iminente.»

 

Eu: «Pedro Passos Coelho ganhou um trunfo inesperado para a sua candidatura: Alberto João Jardim, com a elegância habitual, escolheu o momento do regresso à Madeira, após participar no Conselho Nacional do PSD, para desferir ataques ao "indivíduo", como optou por chamar ao candidato. Percebe-se bem que Jardim está pouco ou nada habituado a ser questionado no partido. Mas Passos Coelho colocou a questão no plano certo ao reiterar, na reunião dos sociais-democratas, que neste momento de crise todas as parcelas do território nacional devem solidariedade às restantes. Não é a altura - longe disso - de a Madeira, pela voz do seu eterno governante, vir reclamar mais uma chuva de milhões.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.02.20

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Ana Vidal: «Uma boa discussão - com sentido de humor - faz muito mais pelo Amor do que oferecer corações de carpélio e rendinhas.»

 

João Carvalho: «Por estes dias, que tanto se tem dito sobre a queda da economia do País e da ética dos políticos, volta-me de novo à ideia a mesma expressão, que me ocorre por confirmar o quanto descemos fundo. Qual é, afinal, a mais recente e tentacular "empresa do regime"? Uma sucateira, senhores. Coisa nunca antes vista: uma sucateira. Sintomático, não é?»

 

Paulo Gorjão: «Sejamos claros. Começa a ser altura de acabar com o ciclo em que o PSD anda a reboque de Jardim. Com Passos Coelho acaba de certeza absoluta. Com o senhor que lê "jornais alemães", o homem que quer romper, afinal, o statu quo é para manter. The tail will continue to wag the dog

 

Sérgio de Almeida Correia: «Diz-se por aí que Fernando Nobre, o incansável dirigente da AMI, seria um bom candidato presidencial e que seria o homem certo para enfrentar Manuel Alegre e Cavaco Silva nas eleições presidenciais. Não sei que mal terá feito Fernando Nobre para lhe desejarem tal destino.»

 

Teresa Ribeiro: «Para os seus detractores a monogamia é uma capitulação. Quem a escolhe, dizem, é porque  não tem sucesso com o sexo oposto ou coragem para viver. Da solidão de quem se casa consigo próprio não falam, ou se falam contra-atacam afirmando que a pior solidão é a que se vive a dois. Mas eu digo que o amor verdadeiro existe. E não há nada mais invejável.»

 

Eu: «Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta. Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta. (...) É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 13.02.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Manuel Alegre anda muito calado para quem não se tem furtado a comentar todo e e qualquer episódio que pudesse envolver uma actuação presidencial. E percebe-se bem o seu silêncio: com outro candidato do PS na corrida, não ganha as eleições, pelo que não pode afrontar já os socialistas; mas se mantiver o silêncio para lá do insustentável, sobretudo se as revelações continuarem a chegar ao ritmo a que têm chegado, Manuel Alegre perde a autoritas que tem tentado ostentar ao longos destes anos e pode mesmo ser ultrapassado por outros socialistas que entretanto lhe ocupem tal espaço de reserva da ética socialista.»

 

Eu: «Pacheco Pereira, que na semana anterior tinha cedido o seu lugar na Quadratura do Círculo a José Pedro Aguiar Branco, veio desta vez - já com Paulo Rangel na corrida - fazer um apelo público à desistência do líder parlamentar social-democrata, considerando que é melhor haver dois candidatos do que três à presidência do PSD. Aguiar Branco fez bem em ignorar por completo o apelo do principal ideólogo da fracassada liderança de Manuela Ferreira Leite. Se a pressão do baronato o fizesse desistir isso representaria um inequívoco sinal de "asfixia democrática" no principal partido da oposição.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 12.02.20

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Ana Vidal: «Será que Sócrates prefere ser "empurrado" por uma enxurrada de lama que há-de um dia destes soterrá-lo de vez, julgado e linchado em praça pública muito antes de que a justiça o condene ou ilibe? Será que o vício do poder e a arrogância de não dar o braço a torcer valem, para ele, este enxovalho sem precedentes? Qual o limite do preço a pagar pela ambição?»

 

João Carvalho: «Um dos títulos grandes desta sexta-feira é inesperado: «Constâncio vai mandar na supervisão do Banco Central  Europeu». Nem-mais-nem-menos. Podem os europeus dormir descansados a partir de agora, que a crise financeira fica em boas mãos. É que nem tentem desistir dele e mandá-lo de volta. Os portugueses são pessoas de palavra: a gente dispensou-o, está dispensado. Boa sorte, europeus.»

 

Luís M. Jorge: «O João e o Rogério estão exultantes: apesar dos pequenos transtornos que descoroçoaram o primeiro-ministro, a popularidade do Partido Socialista alcançou os 38,1%. Sem querer perturbar o foguetório, lamento que os meus amigos se regozijem tanto com resultados tão medíocres. Convém lembrar que ainda esta semana Sílvio Berlusconi obteve quase 50% numa pesquisa semelhante. E se ele é exemplo para umas coisas, também devia ser para outras.»

 

Paulo Gorjão: «Gostei da forma e do modo como José Pedro Aguiar-Branco anunciou a sua intenção de se candidatar à liderança do PSD. Veremos depois quais são as suas propostas.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 11.02.20

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Paulo Gorjão: «Relembro: 29,1% foi o resultado do PSD nas legislativas de 2009. [Paulo] Rangel está envolvido até à medula neste resultado. Ele, mais do que ninguém, é o delfim de uma líder desastrosa. O fiel executor de uma estratégia errada e que culminou num fracasso estrondoso.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Preocupa-me que a justiça tenha dois pesos e duas medidas, que os dirigentes políticos passem a vida a dar o dito por não dito, que tão depressa firmem contratos com os eleitores para logo a seguir inventarem mil e uma razões para os violarem.»

 

Eu: «Felizmente o Sol anuncia que resistirá a todas as pressões para silenciar as notícias incómodas para o chefe do Governo e o seu núcleo duro de homens de mão. E felizmente estamos integrados na Europa - o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem é hoje para nós a última instância de recurso contra as tentações autoritárias deste PS de Sócrates, indigno dos tempos em que foi o principal baluarte da liberdade em Portugal.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 10.02.20

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João Campos: «A minha leitura actual é Drácula, de Bram Stoker, que encontrei em edição paperback na Fnac pela módica quantia de quatro euros e vinte e oito cêntimos, com o bónus de incluir também alguns contos adicionais de Bram Stoker. Perguntou-me uma colega de trabalho se estou a ler Drácula por causa, e cito, "desta moda agora dos vampiros". Sim, respondi-lhe, mas ao contrário. É que este, ao contrário dos que por aí andam a provocar histerias adolescentes em adolescentes e não só, é mesmo um clássico. Sem dúvida - um clássico e um grande livro, com vampiros que gostam realmente de sangue.»

 

Paulo Gorjão: «Paulo Rangel é o candidato desejado por Manuela Ferreira Leite. É o candidato a quem, para já, dois vice-presidentes -- Paulo Mota Pinto e Sofia Galvão -- já manifestaram o seu apoio. É, pura e simplesmente, o candidato do establishment. É o candidato, vale a pena lembrar, comprometido até à medula com os 29,1% obtidos nas eleições legislativas de 2009. Querem maior continuidade?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Menos de seis meses depois de ter tomado posse no Parlamento Europeu, Paulo Rangel já está pronto para dividir a sua agenda parlamentar europeia com a liderança do maior partido da oposição. Rasgar o contrato com os portugueses e a sua relação de confiança bilateral já não faz qualquer diferença. Em política, sempre vale tudo. Pelo menos para alguns.»

 

Eu: «"Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever." Com estas três frases, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, [Cesare] Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 09.02.20

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Ana Margarida Craveiro: «Não há formalismos que salvem a face do primeiro-ministro. Não basta matar o mensageiro, e voltar a atacar verbalmente a comunicação social. O seu poder pode e deve ser fiscalizado pelos órgãos competentes; o seu eventual abuso de poder pode e deve ter consequências. A estabilidade não é uma desculpa para esta machadada no Estado de Direito. Nem tudo pode ser sacrificado em nome de uma paz podre, sob pena do descrédito total.»

 

João Carvalho: «Após (mais) uma derrota das antigas e se bem percebi, o treinador do Sporting apareceu a dar aquelas explicações repetidas à exaustão que já toda a gente conhece e, mais ainda, a elogiar «a entrega dos jogadores». Fiquei sem saber se ele estava a referir-se à entrega aos adversários, mas não tenho nada com isso.»

 

Luís M. Jorge: «Quando o assunto foi discutido a autora não invocou valores, como o respeito pela lei, a privacidade ou a intimidade de cada um para proteger a pólis, a democracia ou os cidadãos. Não o fez antes, e não o faz agora. Ao invocar o caso Fernando Lima, uma tramóia que segundo os seus altos critérios devia ignorar, Isabel Moreira revela-nos os limites da sua doutrina e, muito pior, da sua boa-fé.»

 

Paulo Gorjão: «Resta saber quando José Sócrates está politicamente morto. Só falta saber quando é que Aníbal Cavaco Silva assina o atestado de óbito político.»

 

Eu: «É conveniente recordar a alguns colegas da blogosfera que Manuela Ferreira Leite foi derrotada nas urnas, há pouco mais de quatro meses, por José Sócrates. Perdeu, entre outros motivos, porque fez uma péssima campanha, centrada na "asfixia democrática", algo que os eleitores não entendem num país onde o primeiro-ministro é alvo diário das mais duras críticas em todas as plataformas informativas. Passado este tempo, o PSD não conseguiu ainda arrumar a casa - como conseguirá convencer os portugueses de que é capaz de arrumar o País? E o pior é que o País anda a necessitar com urgência de ser bem gerido: sabe-se agora que Portugal se despediu de 2009 - um ano para esquecer - com a quinta taxa de desemprego mais alta entre os países da OCDE. Logo atrás da Espanha, Eslováquia, Irlanda e Hungria.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 08.02.20

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Cristina Ferreira de Almeida: «Estava aqui a lembrar-me das gravações que provavam a ligação de Nixon ao assalto à sede dos Democratas, naquela investigação jornalística muito maçadora para o Presidente dos EUA a que hoje chamamos caso Watergate e que bem pode ser considerado jornalismo de buraco de fechadura.»

 

João Campos: «Quanto a nós, continuaremos a caminhar alegremente e lindamente para a bancarrota (até ao final do ano, tenho outra grade de "minis" apostada). O buraco em que Portugal se enfiou é político, é económico, é tudo e mais alguma coisa - e todos nós, todos os dias, o tapamos (e nos tapamos) um bocadinho com a nossa indiferença e encolher de ombros.»

 

João Carvalho: «A vida pública caiu tão fundo que tudo o que se ponha a circular já ninguém estranha: rapidamente se propaga e logo começa a constar como verdade. Vejam bem que várias pessoas, em poucos dias, me fizeram chegar que há uma deputada pelo PS que, por ter residência em Paris, não só recebe passagens aéreas de ida-e-volta uma vez por semana como ainda anda a receber ajudas de custo diárias da Assembleia da República. Diz-se cada coisa por aí.»

 

Marta Caires: «Quando deixei Joanesburgo, num fim de tarde de Dezembro, as conclusões da Comissão da Verdade e da Reconciliação respiravam livres, eram públicas e estavam disponíveis para quem as quisesse ler. Mandela preparava-se para deixar a presidência da África do Sul. Tinha cumprido a missão, o sonho, fechado o ciclo de luta e 27 anos de prisão. É, eu tinha corrido para Joanesburgo para tentar curar-me da vida e, nesse fim de tarde, percebi que o único remédio para a vida é vivê-la. Ao longe, na estrada para Pretória, um jacarandá lilás brindava, em apoteose, a Primavera.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Quando há dias vi o último filme de Clint Eastwood, dei comigo a pensar no quão fácil seria mudar este país. Portugal não tem um Nelson Mandela, não tem um François Pineaar, e muito embora tenhamos os Lobos e Tomás Morais, a nossa tradição na oval não nos permite sonhar que eles tenham a capacidade aglutinadora dos Springboks, por muito grande que fosse a sua vontade.»

 

Eu: «Já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá. É Hugo Chávez, claro - who else? Ele diz-se inspirado por Simón Bolívar. A mim parece-me, muito mais prosaicamente, um discípulo de Vasco Gonçalves.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 07.02.20

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Ana Margarida Craveiro: «O PS tem obrigação de apresentar um substituto para José Sócrates. Pelo fim da vergonha. Já é tempo de reconhecermos que o poço tem de ter um fundo.»

 

Ana Vidal: «Sōkrátēs buscava o Conhecimento. O seu método para alcançá-lo era  o diálogo e a humildade de formular todas as perguntas. Sócrates prefere o Desconhecimento. O seu método para alcançá-lo é o monólogo e a arrogância de calar  todas as perguntas.»

 

Cristina Ferreira de Almeida: «Sócrates diz "só me faltava" (comentar a divulgação de escutas de conversas privadas) como se lhe estivessem a pedir um gesto de educação menos primorosa. Mas a evidência, a fotografia da evidência, da forma como Sócrates se serve do poder e do país não revela estes pudores. Vêmo-lo em sandálias havaianas e camisolas de alças pelos corredores dos ministérios e das empresas de capital público, a coçar os sovacos, a fazer apostas sobre o tempo que levará a derrubar este,  o custo de comprar aquele, a necessidade de controlar o outro.»

 

João Carvalho: «Já só me falta entender por que raio as cabalas servem para umas vezes e são postas de lado outras vezes, enquanto os contextos estão sempre aí na crista da onda. Vou continuar a procurar a explicação, mas confesso que me sinto perdido com estas modernices. É que eu sou do tempo em que a difamação só tinha uma saída: luva ao chão para um duelo. Nem cabalas nem contextos, que são respostas medricas próprias de quem virou a cara para não ver a luva atirada.»

 

José Gomes André: «Na última semana, Portugal viveu uma tormenta política da maior gravidade. Confirmaram-se os piores cenários sobre uma situação económico-financeira à beira do colapso. O parlamento está atolado numa guerrilha política. E descobriu-se que o primeiro-ministro, verdadeiro farrapo moral, anda envolvido há meses em actividades repugnantes, conspirando com outros actores políticos para comprar jornais com fundos de uma empresa pública.»

 

Leonor Barros: «Como primeiro-ministro [José Sócrates] tem o dever de esclarecer os cidadãos deste país sobre o plano salazarento, despótico e abjecto de silenciar a comunicação social, correr com os inconvenientes que ousam atentar contra a sua opinião. Negá-lo, por exemplo, desmenti-lo e tranquilizar-nos a todos, restituindo ao país a dignidade de que são feitas as sociedades democráticas. Ou admiti-lo e demitir-se. São assim os homens de carácter. Até agora, silêncio.»

 

Paulo Gorjão: «O interesse público é um conceito elástico. Justificou a publicação das manobras de Fernando Lima. Agora justifica a divulgação de conversas que deveriam estar sob segredo de justiça. O curioso nesta história é que os indignados com a divulgação no primeiro caso não são os mesmos no segundo e vice-versa. O interesse público, coitado, é um dano colateral no meio de tudo isto. E o tudo isto é o jogo político, puro e duro.»

 

Eu: «O jornal Público tem quatro críticos de cinema - quase tantos como os jornalistas que integram a sua secção de politica nacional. Esses críticos acabam de escolher os "filmes da década": 20 películas cada um. (...) Pôr filmes como O Quarto da Vanda, Juventude em Marcha  e Ne Change Rien (de Pedro Costa, cineasta aqui representado por nada menos de três obras como se fosse um dos grandes génios mundiais da Sétima Arte) a par de Fala com Ela (de Pedro Almodóvar), Lost in Translation (de Sofia Coppola), Cartas de Iwo Jima (de Clint Eastwood), Disponível para Amar (de Wong Kar-wai), Longe do Paraíso (de Todd Haynes) e A Última Hora (de Spike Lee) é intelectualmente inaceitável.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 06.02.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não saberemos nunca se Cavaco efectivamente disse aquilo que pensa, mas sabemos já que aquilo que disse só ajuda a sua reconciliação com o povo socialista, confirmando a vontade de Cavaco de ser reeleito. A questão que agora se coloca, perante a revelação das escutas, é se essa vontade é maior do que o sentido de Estado que dele se esperaria.»

 

Ana Sofia Couto: «Fui ontem ver Um Profeta, um filme de Jacques Audiard. A história - «uma história de aprendizagem», como diz o Luís Miguel Oliveira - gira à volta de Malik El Djebena, um 'árabe, analfabeto, de aparência frágil e desprotegida', que é condenado a seis anos de prisão. Mas a razão por que escrevo este pequeno texto não é o filme, propriamente dito. A razão prende-se com uma questão em que pensei num momento do filme: o momento em que Malik entra na prisão - uma prisão francesa - e lhe é feito um interrogatório. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco.»

 

Ana Vidal: «Bater no fundo pode até ser desejável, se significar um renascer das cinzas e uma natural subida, por não ser possível descer mais. Infelizmente, até nisto Portugal parece ter descoberto uma originalidade: a de estar sempre a bater no fundo, repetidamente, como uma bola de borracha incapaz de estabilizar por causa da lei da gravidade. Da gravidade do que se passa lá no fundo, sobretudo.»

 

João Carvalho: «De hora a hora, ouço repetidamente na SIC-Notícias Jorge Lacão a perorar sobre a consciência e as preocupações e as boas intenções e a boa governação que se contrapõem às maldades que andam por aí a dizer-se. Acho notável o exercício e fluidez de Lacão, que só peca por não se ter lembrado de aproveitar o tempo de antena para esclarecer a sua posição no caso recente em que foi dado como um dos protagonistas.»

 

Paulo Gorjão: «Parece que José Pacheco Pereira está muito preocupado com a asfixia democrática. Também eu. Ainda não me esqueci de como as listas de deputados do PSD foram expurgadas das vozes mais incómodas. Cada um vai silenciando o que pode à sua escala. Isso, de facto, é preocupante. E os double standards também.»

 

Teresa Ribeiro: «Felizmente que em democracia, por mais pequeno que um país seja, nunca se consegue metê-lo inteiramente no bolso.»

 

Eu: «Pior que haver políticos que desgovernam as contas públicas, levando o País a tornar-se na chacota das principais instituições financeiras internacionais, é haver políticos que conspiram, traficam influências, mentem por cálculo ou vocação e degradam irreversivelmente a imagem das instituições. Não sei se a situação actual envergonha alguns dos protagonistas dos mais recentes episódios tornados públicos. Eu, como português, sinto-me envergonhado.»


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