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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 26.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «Foram hoje publicados os resultados de um estudo do International Budget, que apresenta a transparência orçamental em perspectiva comparada. O relatório português foi realizado por Marina Costa Lobo (ICS), Paulo Trigo Pereira (ISEG), Ana Margarida Craveiro (ICS) e Luís de Sousa (ICS). Os resultados não são brilhantes para Portugal: 58 pontos num total de 100, uma das piores prestações na zona europeia. (...) A falta de transparência é também uma das causas do nosso actual problema. Sem conhecermos a situação, como podemos pedir contas ou tentar corrigi-la?»

 

Gabriel Silva: «Em finais de 2009 a equipa gerente da mina anunciou que os 10 milhões de portugueses estavam a 9,4 metros abaixo do solo. Muito mais do que os 5,3 metros que a mesma equipa anunciara antes de ser escolhida novamente para dirigir a operação. O engenheiro-chefe disse que agora é que ia ser. Embora fosse operação demorada, anunciou que no final do ano seguinte estariam 1 metro acima, nos 8,4. Seriam precisos sacrifícios, como seja cada um dos mineiros pagar um pouco mais das suas economias. Mas em contrapartida a equipa dirigente diminuiria a despesa, isto é, aquilo que leva a terra acumular-se em cima dos desgraçados. Os financiadores da operação torceram o nariz. Não acreditaram, até porque aquela mesma equipa já tinha revelado igual incompetência antes e com as mesmas promessas. Começaram a pedir juros mais altos.»

 

João Carvalho: «Há um ano tomava posse o actual governo. Aqui fica a nossa lembrança pelo aniversário. Não, não é oferecida ao governo, mas ao país, porque o país, coitado, é que merece. Querem uma boa notícia neste primeiro aniversário? Pois bem: primeiro e último.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 25.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «O fim das "disciplinas" de Área Projecto e Estudo Acompanhado, definido em Orçamento do Estado, diz muito sobre a desorientação do Ministério da Educação. Não me interpretem mal, ainda bem que acabam essas perdas de tempo, mas mal vai o país em que o currículo escolar é definido pelo Ministério das Finanças.»

 

João Campos: «Desde o sucesso da trilogia "O Senhor dos Anéis", realizada por Peter Jackson, que ouço falar numa futura adaptação para o cinema da prequela "O Hobbit". Neste livro, Tolkien narra a história de Bilbo Baggins, um pacato hobbit do Shire que (com um "empurrãozinho" de Gandalf) se vê no meio de um grupo de anões preparados para recuperar o seu antigo reino a Leste, na Montanha Solitária, em tempos atacada e dominada pelo dragão Smaug. Claro que a viagem não seria assim tão simples, e durante a aventura, os anões e o hobbit perdem-se nas Montanhas Azuis (onde Bilbo encontra Gollum, e lhe rouba o Anel), são capturados por elfos, enfrentam Smaug e acabam por entrar na Batalha dos Cinco Exércitos, contra os Goblins e Wargs de Moria.»

 

João Carvalho: «Por ocasião do PEC2, o PSD aceitou a recolha de receitas agravadas se o montante fosse igual ao das despesas cortadas pelo Governo até ao fim deste ano. Agora com o Orçamento, o Governo aceita um corte nas despesas para o próximo ano se o PSD apresentar receitas que respeitem um saldo igual ao previsto. Portanto, ambas as partes concordam sempre desde que tudo seja igual. Só as armas são desiguais: apenas uma das partes toma conta das receitas e das despesas. Precisamente aquela que nunca cumpre, sonega informação e pinta a realidade.»

 

Sofia Bragança Buchholz: «Um dia, a curiosidade foi mais forte do que eu e segui-o. Depois de o ouvir, colei o olho à mira da porta, espiando as escadas do prédio. Vi-o descer descontraído, assobiando, aliviado. Vi um homem alto, entroncado, ligeiramente calvo, mas de viris braços peludos, aquele mesmo que um dia, à entrada de casa, vira roubar um beijo à cinquentona inquilina de cima e percebi finalmente o porquê de todo aquele clamar: aquele grito de dor, de aflição, de tormento, mais não era do que o orgasmo histriónico do histriónico namorado da vizinha.»

 

Teresa Ribeiro: «Os melhores salários para um dos piores desempenhos. Segundo um relatório da Comissão Europeia é esta a relação custo-benefício desta casta de funcionários do Estado [juízes], a mesma que anda a chorar os cortes salariais determinados pelo novo O.E. e a tributação do subsídio de residência.»

 

Eu: «Esta é já, para mim, a frase do ano. Foi proferida por um dos 33 mineiros libertados por um prodígio de tecnologia após 69 dias de cárcere imprevisto 700 metros abaixo de terra. "Estuve con Dios y estuve con el diablo. Me pelearon y ganó Dios, me agarré de la mejor mano." É esta a frase, proferida pelo extrovertido Mario Sepúlveda, o segundo mineiro que regressou à superfície naquele já inesquecível 14 de Outubro, o primeiro de dois dias que fez colar mil milhões de pessoas aos ecrãs televisivos em todo o mundo. "La mejor mano" possibilitou que esta história, ao contrário de quase todas que nos vão chegando ao domicílio, tivesse um final feliz. Mais emocionante, mais empolgante, mais cheia de imprevistos e com muito melhor elenco do que a esmagadora maioria da ficção televisiva e dos reality shows que se produz actualmente.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 24.10.20

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Ana Vidal: «Se temos mesmo de aguentar as medidas esmagadoras que aí vêm para deixar-nos a todos - famílias e empresas - praticamente agonizantes, não poderíamos ao menos ser poupados ao descaramento deste arrogante irresponsável, que ajudou em grande medida a que chegássemos a esta tristíssima situação? Será que ainda temos de ser gozados a este ponto? Será que aguentamos tudo?»

 

Bandeira: «Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.»

 

João Carvalho: «Este blogue foi a este blogue fazer um link através da cópia de um excerto do texto. Uma cópia? Uma cópia não. Pegou no infinitivo do verbo «despir» e inventou (uma, duas, três vezes) algo extraordinário: o "plural do infinitivo". E ficou todo satisfeito por ter emendado o original.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 23.10.20

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João Carvalho: «"Visite os Açores com voo incluído" — diz o imaginativo anúncio televisivo. Bem visto. Pode parecer-vos um exagero, mas olhem que não é. Pelo contrário: dá sempre imenso jeito viajar para os Açores de avião. A sério. É a melhor maneira. Vão por mim.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 22.10.20

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João Campos: «Já se sabe que o jornalismo científico em Portugal, em termos gerais, não prima pela qualidade. Mas por vezes, seria bom que os jornalistas dedicados a estes temas perdessem alguns minutos a confirmar algumas informações. Por exemplo, com uma pesquisa de cinco minutos da internet, a jornalista que escreveu esta notícia no Público saberia que "o lado escuro da Lua" (astronomicamente falando, não me refiro ao disco dos Pink Floyd) não ganha por vezes esta designação por nunca lá chegar a luz do Sol - ideia obviamente errada!-, mas por aquele hemisfério da Lua nunca ser visível a partir da Terra, devido ao facto de o movimento de rotação do satélite estar sincronizado com o seu período de translação. Enfim, é o que se arranja.»

 

João Carvalho: «Sei que estou atrasado (por outros afazeres que me exigem maior pontualidade), mas quero registar aqui um facto que me despertou para uma realidade que tem sido escamoteada, nesta semana nacional do Orçamento e cujo desfecho está ainda longe de se adivinhar: a verdadeira dimensão da dívida dita "soberana". Isto porque o governo tem afirmado sucessivamente que a dívida pública é muito inferior à dívida privada. Foi preciso Vítor Bento, economista, gestor e conselheiro de Estado, dizer há dois dias que isso "é uma falácia". Porquê? Porque, da dívida privada, 25 por cento é dívida das empresas públicas e mais 20 a 25 por cento é das parcerias público-privadas. Ou seja: quase metade da dívida nacional supostamente privada também é, afinal, dívida pública encapotada.»

 

Luís M. Jorge: «Pois não: um Conselheiro de Estado, rnhó nhó nhó, não podia revelar aquilo. Mas o clamor das prima donnas aborrece-me mais que a vaidade do homem. O teatrinho de António Costa em compunção, como se a Infâmia do professor deslustrasse a Pátria e as Instituições até ao Dia do Julgamento, foi um desempenho bombástico para o país escanifrado que ele ajudou a enterrar. A indignação tacanha é o vício dos portugueses. Não há delinquente no Conselho de Ministros nem boneco hirto na Presidência que nos refreie quando uma alma singela comete indiscrições de porteira. Marcelo revelou coisas que não sabíamos? De modo algum: mas pôs-lhe um dia e uma hora. E isto — no país das alusões ataviadas — é uma franqueza imperdoável.»

 

Marisa: «Tens pressa. Estás sempre cheio de pressa (mas para chegar aonde?). Tens sempre que ir a algum lado (aonde vai afinal toda a gente quando diz que tem de ir?). Corres muito. Corres demais. Não corras tanto, tens pressa para quê? Deixaste de ter sonhos. Em vez disso tens a cabeça entupida de projectos – para o trabalho, para um texto, para as férias e para a vida em geral. Sabias que é cientificamente provado que a maioria dos projectos falha? Ainda assim, planeias demais e preocupas-te demais. Respondes com “vai-se andando” e com “é a vida” à quietude dos dias que se consomem lentos. Jogas no Euromilhões religiosamente todas as semanas, confiante que bastaria isso. Estás submerso em frases feitas, ideias feitas, histórias que te fazem. E não questionas.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «[Decisão sensata], a de Vítor Baía, de confessar que se tivesse obtido num dos grandes clubes da capital os êxitos que conseguiu ao serviço do FC Porto isso teria tido outra dimensão. Ou a constatação, ao fim destes anos todos, de que um clube de bairro nunca passa disso mesmo. Por maior que seja o desgosto por essa situação e grandiosos os sucessos desportivos.»

 

Eu: «Um indivíduo isolado, disposto a levar uma greve de fome às últimas consequências, conseguiu o maior sinal de abertura da ditadura cubana do último meio século, levando à libertação de algumas dezenas de presos políticos. Esse indivíduo, o cubano Guillermo Fariñas, acaba de ser justamente distinguido com o Prémio Sakharov, anualmente atribuído pelo Parlamento Europeu. Na Assembleia da República, os grupos parlamentares aprovaram hoje um voto de congratulação por esta escolha. Todos? Todos não: o PCP e o seu apêndice verde estiveram não ao lado do resistente Fariñas mas da ditadura castrista. Espantosa justificação invocada num partido que se diz internacionalista: o Prémio Sakharov é um "instrumento político de intervenção e ingerência"

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 21.10.20

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Ana Vidal: «Não posso deixar de pensar no contraste flagrante com o que se passa com um cada vez maior número de "escritores de circunstância", que publicam ao sabor das leis do mercado, sem terem tempo, sequer, de amadurecer ideias. E em quantos e quantos livros não passariam a prova do tempo, se lhes fosse feito esse simples teste.»

 

João Campos: «A história de The Left Hand of Darkness é narrada de forma linear, mas com base em "fontes" dispersas, alternando entre os diários e as memórias de Genly Ai e o diário do outro protagonista, Estraven, sem contudo seguir uma estrutura fixa (como acontece, por exemplo, em The Dispossessed). Pelo meio, de forma mais ou menos aleatória, surgem capítulos distintos que apresentam lendas e contos de Gethen, descrevem as várias religiões presentes naquele planeta, ou que incidem sobre outros aspectos daquele mundo - aspectos laterais que ajudam a compreender mais um fascinante mundo imaginado e descrito por Ursula K. Le Guin.»

 

Maria Isabel Goulão: «Nem sabem o que se passa outside, nas ruas infestadas de bicharada cruel e gananciosa capaz de tudo para pôr o dente num pedaço de comida, verdadeiros monopolistas dos escassos abrigos da chuva e do vento. Pois é; antes de ser uma elegante aristogata fiz parte de mundo desgraçado, cheia de bichos nefastos que só dão maçadas (vulgo parasitas e pulgas) e envergonham a classe. Não julguem que não temos o nosso brio: um pêlo limpo e asseado faz toda a diferença entre nós, e causa verdadeiras clivagens sociais entre os gatos finos de upstairs e os rafeiros de downstairs

 

Eu: «De respiração suspensa, o mundo acompanhou a inédita operação de resgate dos mineiros chilenos, que contou com o incentivo permanente do Presidente da República, Sebastián Piñera. Uma situação limite, que em circunstâncias normais conduziria à morte dos 33 trabalhadores encurralados a 700 metros de profundidade. Mais de dois meses depois do acidente que os deixou enclausurados numa mina de cobre, os 32 chilenos e o seu companheiro boliviano voltaram enfim a ver a luz do dia. Em ambiente de mobilização colectiva, numa altura da história do mundo tão marcada pelo individualismo galopante, em ambiente de solidariedade, numa fase em que os egoísmos nacionais pontificam, estes heróis dos nossos dias regressaram à superfície reconduzindo-nos de algum modo ao imaginário de Júlio Verne: a viagem ao centro da Terra é a última utopia possível neste planeta.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 20.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «Há uma coisa que parece não ser clara no Estado: o Estado não tem de dar lucro. Não é suposto que dê lucro, da mesma forma que não deve dar prejuízo. O saldo entre receitas e despesas deve dar zero. Se dá lucro, a primeira medida é baixar as contribuições (taxas e impostos) impostas a todos os portugueses (não só contribuintes, mas qualquer pessoa com uma conta da luz, neste caso). Porque tiram-se duas conclusões: (1) a gestão foi boa. Óptimo, muitos parabéns. (2) Não precisam de tanto financiamento privado

 

Henrique Burnay: «Há lugares que nos chocam porque são reveladores, confrontam-nos com a verdade. Auschwitz, e Birkenau, pelo contrário, são lugares que fazem parte da nossa memória. Já sabíamos tudo antes de termos chegado. Vistos de perto, chocam pela simplicidade. A maldade humana não necessita de sofisticação, não precisa de nada de extraordinário. Um lugar banal e homens vulgares são suficientes. E o ódio ao outro. Auschwitz não pode ser apenas a recordação da infinita possibilidade do mal. Com certeza que não. Há homens e mulheres reais que sofreram ali, não são apenas símbolos.  Mas esse último sacrificio é necessário. Para que cada um de nós saia de Auschwitz com a certeza de que é possível, de que o mal é facilmente humano. Sobra a esperança de saber que o bem também é humano. E que, em ambos os casos, é uma escolha.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Nos dias de hoje o valor da liberdade e da independência acaba por estar de acordo com os tempos de crise. Já não há processo judicial, já ninguém vai discutir a existência ou inexistência de justa causa. Os princípios reduziram-se a um número redondo e ficou tudo bem para os patrões e para a dispensada. O Código do Trabalho pode não prestar para nada, mas para isto ainda serve.»

 

Eu: «Do Presidente da República espera-se particular atenção à defesa da imagem pública do País no decurso das suas frequentes deslocações oficiais ao estrangeiro. Lamentavelmente, isso não suecedeu na viagem que Cavaco Slva fez a Praga, em Abril deste ano, na qual assistiu impávido a duas intervenções destemperadas do homólogo checo, Václav Klaus, pondo em causa o rigor e a competência das autoridades portuguesas na difícil missão de enfrentar a crise económica. O problema, neste caso, não era saber se Klaus tinha razão: o Presidente da República Portuguesa não pode ouvir em silêncio estas desconsiderações e estes enxovalhos, comportando-se como se nada fosse. Ou, pelo menos, não deve. Cavaco comportou-se assim. Ficou muito mal na fotografia. Quase tão mal como o seu colega checo.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 19.10.20

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António Pais: «Dos meus quatro avós, conheci três. Só uma (a avó materna, Odete) conheci bem. Morreu já eu era adulto e pai. Vivia numa quinta, perto de Coimbra, com duas irmãs. Durante o Liceu ia lá passar as férias. Do Natal, da Páscoa e parte das férias grandes. E era uma quinta a sério. Tinha tudo. Desde os pomares à vinha e aos animais. O leite que bebia de manhã era o das vacas, poucas, que lá havia. Vindimei e vi pisar uvas no lagar e o vinho ser guardado em pipas de madeira. O milho era malhado na eira. Possivelmente foi uma das razões que me fizeram trocar Lisboa por uma pequena vila alentejana. Vai para dois anos.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «País de opereta já éramos no tempo do Eça. Continuando por este caminho não tarda e seremos figuras de uma banda desenhada com muitas seitas. Com sorte, pode ser que por essa altura, se continuarem a cavar, as notas também acabem por ser iguais às do jogo do "Monopólio" e voltemos todos à casa da partida para recebermos mais algumas. Nesse dia não haverá mais inconstitucionalidades. Comida também não. Talvez sobrem alguns princípios "intangíveis" a que nos possamos agarrar.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 18.10.20

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João Carvalho: «Como se já não nos bastasse a corrupção que grassa, ainda temos andado a aturar despesismo, incúria, incompetência, amiguismo e abusos generalizados. Não, não é a "nossa" credibilidade que está em causa, porque há muito que pagamos isso tudo até ao tutano. O que está em causa é a liderança política incapaz e irresponsável que o ministro das Finanças não combateu. Essa liderança é que vai ter de mudar depressa. E não é líquido que ela não venha desta vez a ser responsabilizada. Para variar.»

 

Miguel Félix António: «Uma fotógrafa de uma conhecida revista do “social”, depois de ter tirado o retrato a um pequeno grupo de convidados – onde pontificavam um muito prestigiado jornalista e um ex-líder partidário muito conhecido na década de 90 (eu sei que do milénio passado, mas caramba…) – perguntou aos próprios os seus nomes, evidenciando uma ignorância indesculpável. Talvez por ter caído nela, por ter tido vergonha, quando o ex-líder partidário lhe perguntou se não reconhecia o dito jornalista, acabou por dizer que conhecia a cara do político que a havia interpelado, mas não o nome. Provavelmente, disse eu, pensou tratar-se de um actor de novela ou de um desses personagens que são conhecidos por aparecerem nas revistas…»

 

Teresa Ribeiro: «Quando vejo na televisão gente que já teve responsabilidades governativas a revoltar-se contra "o estado a que isto chegou", gente do PS, do PSD, do CDS, tanto me faz, este nunca começa a ressoar-me na cabeça. Nunca, nunca nunca. Levanto-me do sofá a ver se empurro com uma água das pedras esta palavra enorme e a irritação que me provoca tanta gente inocente e ofendida. Portugueses a criticar portugueses segundo o velho método da auto-exclusão: apontam a falta de coragem e seriedade dos outros como se nunca, nunca, nunca tivessem tido responsabilidades ao mais alto nível. Vejo-os e penso: nisto é que somos bons.»

 

Eu: «Fixem estas datas: 10 de Maio de 201029 de Setembro de 201015 de Outubro de 2010. Em todas elas, o primeiro-ministro e o seu principal acólito revogaram o programa eleitoral do PS, as mais emblemáticas promessas e "garantias" anteriormente expressas e todo o cenário macro-económico em que baseavam a governação, traindo as expectativas dos portugueses em geral e dos eleitores socialistas em particular. Em nenhuma destas datas ouvimos um pedido de desculpas do primeiro-ministro e do seu principal acólito. É todo um estilo de governar que está aqui. Nas expectativas defraudadas e na arrogância de quem é incapaz de reconhecer um erro.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 17.10.20

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Ana Sofia Couto: «Comprei-o porque estava a um bom preço, pensando que era mais um daqueles livros com um diagnóstico sobre o choque de civilizações. Enganei-me. O problema surge como pano de fundo, claro, mas as três partes do livro são uma explicação, no campo da História das Ideias, da forma como o pensamento político de fundamentação teológica foi perdendo terreno no Ocidente. Hobbes não poderia deixar de aparecer.»

 

Ana Vidal: «A receita é a dos audazes: puxar pela imaginação, juntar-lhe uma vontade férrea e uma boa dose de alegria, que dá sempre uma graça especial. Temperar a massa com paciência e esperança, amassar tudo muito bem e deixar levedar um pouco (não muito, para não azedar). E deu-se o milagre: primeiro um, depois três ou quatro, mais tarde muitos mais, os curiosos começaram a aparecer e depressa passaram a amigos. Contagiou tudo e todos - acaba de ser entrevistada por um jornal nacional, que vai publicar a história - e os leilões vão cumprindo a sua função. Mas é preciso mais, que o sonho da Maria é tão caro como meritório.»

 

João Carvalho: «Não há dúvida que a luz quando chega nunca é para todos. Como de costume, o serviço é público, mas só por momentos e só alguns é que lucram. E ainda sobra para bónus e prémios de gestão que mais parecem primeiros prémios da lotaria do Natal. Pois cá vamos vivendo, sim, mas cada vez com menos energia. Metidos num túnel de trevas.»

 

Teresa Ribeiro: «Ainda bem que este senhor se reformou e pôde escrever este livro. Não é por acaso que está a ter tanto impacto. Veio na altura certa. Obriga um certo discurso político a inflectir e a responsabilizar todos os que contriibuíram para o estado a que isto chegou e não apenas os governos de Sócrates. De Cavaco a Guterres, de Durão Barroso a Santana Lopes TODOS cometeram os mesmos erros. Dizer isto é inviabilizar o discurso que por sistema inocenta o partido que está na oposição e responsabiliza o que está no governo, um jogo que andamos a jogar há vinte anos e que tem permitido aos beneficiários mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.10.20

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Coutinho Ribeiro: «O Estado vai extinguir ou fundir uma série de organismos públicos e, com isso, espera reduzir fortemente a despesa. Ora, parto do princípio de que tais organismos são inúteis. Mas, se são inúteis, uma questão não pode deixar se der colocada: por que razão foram criados? Não me parece que Portugal alguma vez tenha sido suficientemente rico para suportar tamanho desperdício. E ainda que tenha sido... Há qualquer coisa aqui que me cheira a gestão danosa da coisa pública.»

 

Eu: «Acusado por sectores da esquerda radical de nostalgia pela ditadura de Pinochet, [Sebastián] Piñera triunfou nas urnas – à segunda volta – em Janeiro de 2010. Mas só agora se impôs verdadeiramente como dirigente popular e quase incontestado graças ao modo firme, convicto e determinado como conduziu o resgate dos 33 mineiros, dando ordem para que não fossem poupados esforços nem cifrões na concretização desse objectivo, cortando drasticamente o programa oficial das celebrações do bicentenário da independência do Chile e fazendo ver aos proprietários da mina que terão de respeitar integralmente os direitos dos trabalhadores.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «O director da escola de Felgueiras refere que, se pudesse transpor a sua estrutura toda para Coimbra, também conseguiria os mesmos resultados. Quer-me parecer que ia ficar desiludido: não é só o carácter urbano da escola que é um factor de sucesso. O D. Maria, antigo liceu nacional feminino, consegue reunir uma população escolar quase exclusivamente vinda de classe média, com uma elevada taxa de estabilidade de professores. O liceu não é muito grande, e estamos a falar de alunos, na sua maioria, com pais instruídos (muitos professores, médicos e advogados), com um rendimento bem acima da média nacional. Evidentemente, esta particular fatia social está relacionada com a localização da escola: urbana, classe média alta, zona bem tratada (Solum, em Coimbra). Mas não há milagres. Compare-se o D.Maria, uma escola pequena que se dá ao luxo de escolher alunos, com a Avelar Brotero, uma escola maior, situada uns cinquenta metros ao lado. As diferenças saltam à vista.»

 

Cristina Nobre Soares: «Ela faz lentamente a cama de lençóis brancos. Num quarto igualmente branco. Suspira quando olha para a cadeira de madeira preta perto da janela. Ela sentava-se todos os dias ali, diz. A olhar uma janela que para ela já só tinha dentro. O nome? Não tinha. Ou pelo menos o que os filhos aqui deixaram não era o dela. Nem a morada. Para que não tivesse um sítio de retorno. Trazia a roupa do corpo e as pernas negras. Caiu, disseram. Todos os velhos que perderam o nome e o sítio no mundo acabam por cair. E ficam aí. Os que ainda se lembram, esperam. Os que, como ela perderam a memória, apenas ficam. Os outros esperarão por eles.»

 

João Campos: «The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Aliás, desde a leitura de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, que não ria tanto com um livro: desde o início, em que "Mike", o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Foi, sem dúvida, uma obra excelente para começar as minhas leituras de Outono. E que aproveito para recomendar.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O modo como sucessivos governos se mostraram incapazes de combater os múltiplos corporativismos instalado neste país, do lobby da farmácias aos dos tribunais, passando pelos da construção civil e pelos gangues religiosos e ateus que se especializaram nas movimentações baixas e marginais do regime, devia ter levado os portugueses a interrogarem-se, a saírem para a rua, como hoje fazem contra as inevitáveis cobranças nas SCUT, exigindo mais qualidade na democracia, maior eficiência das instituições, maior rigor no controlo das contas públicas e dos desvarios das parcerias público-privados, em suma, exigindo na rua melhores políticos, gente capaz e competente.»

 

Eu: «No país de Sócrates, quando era necessário caçar votos (na campanha legislativa de Setembro de 2009), o primeiro-ministro disse esta frase lapidar, num frente-a-frente televisivo com Francisco Louçã: Estas pessoas que fazem as suas deduções fiscais na Educação, na Saúde e nos PPR não são ricas, é a classe média. Isto conduziria a um aumento fiscal brutal para a classe média, mais de mil milhões de euros.” O mesmo primeiro-ministro que acaba de fazer precisamente aquilo que há um ano imputava ao líder do BE: um aumento fiscal brutal, mandando as deduções às urtigas.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.10.20

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Ana Vidal: «Sou como tu, Sophia: metade de mim é maresia. E até na outra, a que devia contrapor ao sal e à espuma a terra firme, há rastos de algas e um canto de sereia. Há pedras roladas por infindáveis marés. Fazem sentir-me, em vez de terra, areia. Essa metade minha é ao revés. Metade de mim voa, é ventania. A outra, só ecoa. Procura a luz, talvez, essa metade inquieta. A outra... vegeta. Mas é a mais rasteira, essa metade que me prende ao chão, a que me faz matéria verdadeira. A que me liga ao mundo, a que tem sombra e fundo. A outra não. A outra, só me assombra. Sou como tu, Sophia: metade de mim é pura fantasia. A outra? A outra é alquimia.»

 

Lourenço Cordeiro: «A adopção, que é a criação de uma relação de paternidade à margem da biologia, ou o casamento homossexual, que é a criação de uma relação amorosa à margem da fecundidade, são respostas sociais a um sentimento de profunda injustiça que reconhecemos existir, e que portanto deverão ser acarinhadas como obras de engenharia de que nos devemos orgulhar. Neste aspecto, apesar de tudo lateral e secundário, Manuela Ferreira Leite não tinha razão.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Os mineiros chilenos, e o boliviano que com eles esteve durante todo o tempo, já nos tinham dado uma lição de esperança, de fé e de vida. Os chilenos deram-nos agora uma lição de unidade, de luta, de capacidade mobilizadora e de congregação de esforços em torno de um objectivo que a todos interessava e com o qual todos se identificavam. Uma verdadeira lição de trabalho e de solidariedade nacional que esqueceu antagonismos pessoais e políticos.»

 

Teresa Ribeiro: «Tem algo de infantil esta melodia e no entanto não é uma canção para crianças, muito menos uma cantiga sobre a infância para consumo de adultos nostálgicos. Esta veste-nos de bibe e equipa-nos com material escolar logo que avança com a letra, numa simbiose perfeita, própria das canções de génio. Comovente sem ser lamechas, Aquarela (Toquinho/Vinicius de Moraes) explica-nos a vida em poucos versos, apoiada no fraseado cristalino do violão de Toquinho.»

 

Eu: «A China é um estado forte? Não, a China é um estado fraco. Só um estado muito fraco pode tratar com tanta prepotência um dos seus melhores cidadãos, encarcerando-o por 11 anos pelo simples delito de exprimir ideias. Um comunista é solidário? Depende: alguns solidarizam-se com quem sofre, outros solidarizam-se com quem faz sofrer. No caso do Partido Comunista Português, ainda não vi nenhum dos seus militantes solidarizar-se com Liu Xiaobo, o novo Nobel da Paz, actualmente no cárcere por delito de opinião.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 13.10.20

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Ana Vidal: «Não sei o que me dá mais vontade de rir: se a negativa escandalizada e quase ofendida de Ricardo Salgado à pergunta de um repórter "Estão aqui para fazer pressão sobre Passos Coelho?", se o facto de ouvi-lo referir-se aos outros banqueiros da inocentíssima embaixada como "colegas", como se fossem todos escriturários da função pública ou meninos de escola em visita de estudo. Ele e os colegas foram "em busca de esclarecimento", explica, numa voz mais aveludada do que um creme de cogumelos, e "confiam inteiramente nos políticos portugueses" para uma decisão sábia e justa. Pois claro. Mas alguém tinha dúvidas?»

 

João Lisboa: «Constituída por 69 notáveis (“número curioso”, diria Mota Amaral), Belzebu é o chefe supremo e fundador da Ordem da Mosca; Satanaz é o líder do partido da oposição; Baalberith, o mestre das alianças; Nergal, o chefe da polícia secreta; Astharot, ministro das finanças, Baal, comandante-em-chefe dos exércitos, e por aí fora, numa extensa lista de embaixadores, juízes, chefes de cozinha, grandes escanções, mestres de cerimónias, chefes dos eunucos, directores de espectáculos e superintendentes das casas de jogo, onde nem sequer falta Nybbas, “grande parasita, vigarista e charlatão”. Afinal, vendo bem, tudo pessoal conhecido.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Durante muito anos reclamou-se contra a falta de disponibilização gratuita do Diário da República. O anterior Governo de José Sócrates conseguiu esse pequeno feito, afinal tão fácil, de tornar as leis publicadas no jornal oficial acessíveis a todos. Eu pensei que isso seria suficiente para que a legislação ficasse mais transparente, fosse mais cuidada, já que poderia obrigar a um maior esforço do legislador no sentido de se aperfeiçoar. Verifiquei hoje que estava enganado.»

 

Eu: «Liu Xiaobo, o novo Prémio Nobel da Paz, foi detido e condenado a 11 anos de prisão simplesmente por ter sido um dos autores deste documento que defende os direitos humanos na China. Não andou a pôr bombas em transportes públicos, não disparou contra ninguém nem sequer partiu nenhuma montra à pedrada, como aqueles jovens "radicais" gregos tão idolatrados pela extrema-esquerda blogosférica. Um intelectual injustamente encarcerado numa ditadura por exprimir ideias de modo pacífico devia merecer a solidariedade de um partido como o PCP, que no seu hino diz defender "uma terra sem amos". Mas não: o partido de Jerónimo de Sousa, Francisco Lopes, José Casanova, Albano Nunes, Bernardino Soares e - lamento, mas é um facto - também de Carlos Carvalhas, António Filipe, Honório Novo e Octávio Teixeira não se solidariza com a vítima, mas com o injusto aparelho judicial chinês e o seu poderoso amo, o Partido Comunista.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 12.10.20

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João Carvalho: «A Lusa também vai fazer greve? Qualquer dia parece a TAP. Com a diferença de que a TAP voa com ventos de todos os quadrantes e a Lusa marcha sempre a favor do vento. A greve só tem uma vantagem: enquanto a Lusa estiver a descer a Avenida da Liberdade e a pedir aumentos salariais ao Marquês de Pombal, não andará a escrever tolices.»

 

João Pedro Pimenta: «Com o tempo, o Douro ganhou divulgação, reconhecimento e potencial turístico, consagrados com a classificação de Património da Humanidade pela UNESCO. Tornou-se um destino de visita e entrou na moda. Com a melhoria das acessibilidades rodoviárias e fluviais - que não ferroviárias – surgiu a feliz ideia de criar um festival de cinema na região, o Douro Film Harvest. Com o apoio dos organismos públicos e privados ligados ao turismo, o projecto avançou e em 2009 conseguiu-se levar à região Andy McDowell, Milos Forman e Kyle Eastwood (filho do realizador de Gran Torino e compositor das bandas sonoras dos filmes do pai). Entretanto, Sabrosa pasmava com uma multidão a ver BB King ao vivo.»

 

Paulo Gorjão: «Custou, mas o objectivo foi conseguido. Portugal foi eleito para um lugar não permanente no Conselho de Segurança da ONU, deixando pelo caminho o Canadá, cuja derrota deixará cicatrizes no plano interno. Para trás ficam longos meses de trabalho de formiga, em que a diplomacia portuguesa sob a liderança de Luís Amado foi tecendo a sua teia, fio a fio, passo a passo.»

 

Eu: «E lá surge novamente, a propósito da merecida atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiabo, a famigerada palavra dissidente. Que se emprega apenas como referência aos opositores nas ditaduras comunistas. Quem se opõe à dinastia dos irmãos Castro em Havana é dissidente. Quem se opõe à dinastia Kim em Pyongyang é dissidente. Quem ousa enfrentar a bota cardada de Pequim, que esmaga impiedosamente os defensores de direitos humanos, é dissidente. Mas a que propósito vem o palavrão? Dissidente, esclarece-me o Cândido de Figueiredo que tenho à mão, "é aquele que diverge da opinião geral". Parte-se portanto do princípio que a "opinião geral" se conforma com os ditames da ditadura, havendo uns quantos excêntricos que pensam de outra maneira, em evidente fuga à normalidade. Lamento, mas não uso a palavra. E rejeito o conceito. Lula da Silva e Dilma Rousseff foram opositores à ditadura militar brasileira - ninguém jamais ousou chamar-lhes dissidentes. Nelson Mandela foi um combatente contra o apartheid - não era um dissidente do regime racista sul-africano.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 11.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «Todos os dias, exceptuando terças, quintas e sábados, o nosso lixo não é recolhido. No caixote, um papel da fiscalização a dizer quais os dias "certos" para a recolha. Liguei para a Câmara, a dizer que isto não podia continuar. Explicaram-me que tenho o caixote errado, destinado a lixo comum, e portanto nos restantes dias não podem recolher. Existem caixotes com tampas diferentes, que a Câmara distribuiu. Pergunto quando foi feita a distribuição dos ditos caixotes novos. Dizem-me que as equipas de rua passaram por todos os números, para actualizar os caixotes. Volto a perguntar exactamente a mesma coisa, e digo que o meu prédio não tem espaço para tantos caixotes (três diferentes num prédio de 1910 sem hall de entrada era capaz de ser engraçado enquanto gincana). Do outro lado, vão buscar o projecto, para perceber o que se passa: surpresa das surpresas, dizem-me que vivo num prédio arrendado. Pois, eu sei. Que o senhorio mora longe. Pois, também sei disso. E como tal não há ninguém responsável. Resultado: não temos direito a caixotes novos, e a recolha.»

 

João Carvalho: «Na política, príncipes e plebeus fazem asneiras, mas os plebeus fazem mais porque são muito mais rápidos e sobra-lhes muito mais tempo para fazê-las, como cem anos depois se vê com grande clareza.»

 

Luís M. Jorge: «A pergunta é esta: quando deve Passos Coelho aceder aos berros pungentes da pátria? Resposta: no último minuto. Até lá, mais vozes se unirão ao coro. E o povo conhecerá dia após dia, se as agências de comunicação não forem parvas, aquilo que deve conhecer: os delírios galantes dos ajustes directos e dos eventos, das comemorações e das chazadas. A dissipação abjecta dos recursos públicos por amigalhaços e correligionários. O sofrimento dos almeidas santos e dos pedros soares. Depois, só depois, virá a aprovação — e com ela o negrume. De maneira que a situação é a seguinte: Passos Coelho não está acabado. Vocês é que estão.»

 

Paulo Sousa: «Perante a inacção do Estado, que Governo após Governo nada faz, caberá à sociedade civil criar pressão para o mais rapidamente possível evoluirmos para uma situação mais equilibrada. Quem de facto quiser ajudar as crianças institucionalizadas deve procurar alargar ao máximo a base de apoio deste movimento. Nesta linha de pensamento, pergunto-me porque é que alguns dos sectores ditos progressistas, que se dizem genuinamente preocupados com a felicidade das crianças, desprezam à partida o apoio da Igreja neste grupo de pressão. Arrisco uma resposta. Isso acontece porque não são as necessidades e os direitos das crianças que estão no centro do debate, mas sim de uma certa agenda política.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Enquanto o líder diz "nim" em matéria de Orçamento e se passeia pelas feiras, esclarecendo a quem passa que o PSD não tem qualquer responsabilidade na crise mas que isso não pode ser dito senão depois os "tipos ainda ficam zangados", o secretário-geral do PSD acusa o Governo de fazer chantagem exactamente ao mesmo tempo que um dos seus vice-presidentes se mostra disponível para negociar com total abertura com esse mesmo Governo que é acusado de chantagem.»

 

Teresa Ribeiro: «Quando leio comunicados como este divirto-me sempre a pensar no esforço a que obrigam. Que ginástica mental será necessária para os seus autores acreditarem no que escrevem? Neste caso concreto, como contornam no seu espírito a questão da defesa dos direitos humanos? Poderão em consciência condená-la?»

 

Eu: «Ministro das Finanças em 1980, destacado membro da oposição interna a Francisco Pinto Balsemão nos anos seguintes, líder do PSD e primeiro-ministro entre 1985 e 1995, candidato presidencial derrotado em 1996, chefe do Estado eleito uma década mais tarde, Aníbal Cavaco Silva ocupa um lugar central na política portuguesa há 30 anos exactos, tendo condicionado a estratégia de sucessivos líderes sociais-democratas por acções e omissões de vária ordem. É tempo de escrever o terceiro volume da sua Autobiografia Política, desta vez dedicado aos anos decorridos no palácio de Belém, e deixar espaço a outras personalidades no espaço político em que se insere. Para evitar ficar permanentemente associado à imagem do eucalipto. Que seca tudo em seu redor.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 10.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «A melhor garantia de sucesso na compra de livros é comprar os livros que o Bruno Vieira Amaral recomenda no i e na Ler. Resulta sempre.»

 

João Carvalho: «As imagens de Pyongyang aqui patentes dão bem conta de quão grande era o líder-pai e da capital que espera o líder-neto, onde as mulheres-polícias asseguram que não há engarrafamentos numa cidade sem trânsito. Já as imagens da televisão norte-coreana com o líder-filho e o líder-neto é presumível que tenham sido para assinalar este 10 de Outubro, Dia Mundial da Saúde Mental. Boa ideia.»

 

Paulo Gorjão: «Não foi há muito tempo que Manuela Ferreira Leite defendeu que o PSD não devia revelar o sentido de voto antes de o Governo apresentar formalmente o Orçamento do Estado (OE). Nessa altura, mais do que o sentido de voto, interessava à líder do PSD o conteúdo e a substância do OE. Curiosamente, estamos a falar da mesma Ferreira Leite que agora entende que o PSD deve dizer qual é o seu sentido de voto antes de ser conhecido o OE. Pior. Estamos a falar da mesma Ferreira Leite que agora parece tão pouco interessada no conteúdo e na substância do OE.»

 

Teresa Ribeiro: «Se isto fosse uma empresa, despediam-se. Se fosse um casamento, pedíamos o divórcio. Mas nos países democráticos só podemos descartar quem não desejamos através de eleições, solução claramente insuficiente quando se verifica que o problema da governação transcende os partidos e parece resumir-se talvez a uma questão de raça, sei lá. Não dá mesmo para importar uns políticos dos países onde se sabe governar?»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 09.10.20

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Bandeira: «Por razões que não sabemos esclarecer por completo, os escritores quase desaparecem dos registos históricos após 413 a.C. É provável que o seu prestígio estivesse já em declínio, mas a machadada final foi certamente dada pelo fracasso da expedição ateniense à Feira de Frankfurt desse ano e a subsequente capitulação de Atenas, em 415 a.C., na Guerra do Peloponeso (Flower).»

 

Paulo Gorjão: «Aqueles que defendiam que Manuela Ferreira Leite tomava as decisões no tempo 'certo', sem precipitações, são os mesmos que agora exigem que Pedro Passos Coelho diga desde já o que fará em relação a um Orçamento do Estado que ainda não foi apresentado na Assembleia da República.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «As circunstâncias em que o OE para 2011 vai ser discutido e votado, qualquer que venha ser o resultado das eleições presidenciais, dificilmente garantirão uma execução sem sobressaltos, sendo por isso mesmo cada vez mais previsível a realização de eleições antecipadas no final do próximo ano. Perde, assim, qualquer sentido, a afirmação de Teixeira dos Santos de que dependerá da aprovação do OE a possibilidade de dizer aos mercados que temos condições políticas para avançar com as medidas de que precisamos e que “a posição do PSD não está a ajudar”. Não está, nunca esteve e jamais servirá para tal, como ainda ontem se depreendeu, uma vez mais e com clareza, das declarações de Diogo Leite Campos, vice-presidente do PSD.»

 

Eu: «Cortar? Sim, cortar. Se o regime está à beira da bancarrota, corte-se então. Que tal começar por reduzir o número de municípios e freguesias, reorganizando o anquilosado mapa administrativo do País? E que esperam para abolir os Governos Civis, essas relíquias novecentistas que servem hoje apenas para sorver dinheiros públicos e empregar amigos politicos? E que tal uma drástica diminuição do infindável rol de empresas públicas e empresas municipais, que em muitos casos apenas duplicam as tarefas já a cargo de outros organismos e mais não são também do que agências de empregos políticos? E porque não começar pela diminuição para metade do número de membros do Governo - ministros e secretários de Estado - se o exemplo, neste como noutros casos, deve vir de cima?»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 08.10.20

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João Carvalho: «O Público está a levar a cabo um inquérito: «Concorda que o PSD use a suspensão do projecto do TGV como condição para viabilizar o Orçamento para 2011?» No entanto, a resposta certa não está prevista: tanto faz. Porquê? Porque o projecto do TGV cai às segundas, quartas e sextas e avança às terças, quintas e sábados. Como as votações parlamentares costumam ser às sextas-feiras, o caso está resolvido por natureza.»

 

Luís M. Jorge: «Eis uma decisão de alto risco: se rejeitar o consenso dos bonzos Passos Coelho perde as instituições, embora, remotamente, possa ganhar o país. Não acredito que o faça. Não creio que o consiga, ainda que o tente — as rupturas exigem planos meticulosos, uma coisa nunca vista na Sant'Ana à Lapa. Mas lá que é um sonho bonito, isso é.»

 

Maria N.: «Pressentia ali uma ameaça. Os ícones de pau-preto que vieram de África embrulhados com ela em papel de jornal, que ela usava para as encher de terror e inventar rituais que deveriam cumprir para se protegerem, estavam a perder o seu poder. Já não estavam interessadas neles nem na aparição que ela inventara sobre um penedo, exigindo-lhes que comessem o chão. Era óbvio que já tinham esquecido o sabor da relva que evitava apocalipses. Substituíam-no por uma caçadora e agora o seu pé boto iria comer-lhe a carne pela perna acima e depois o tronco e os braços. Iria triturar a ossatura de passarinho, consumindo até os dentes, tomando por fim o seu lugar.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A escolha de Liu Xiaobo pela academia sueca do Nobel para Prémio Nobel da Paz é uma boa notícia. O facto de ter sido uma opção unânime só acentua a justeza da escolha. Escritor, comentador político e activista dos direitos humanos num país onde qualquer actividade política que fuja aos cânones dos senhores do partido é vista como uma ameaça ao regime, o galardoado tem tido uma vida em que tão depressa está atrás das grades como logo a seguir é libertado sem que se compreendam as razões para um e outro acto por parte das autoridades chinesas.»

 

Eu: «Escutas de duvidosa legalidade, disseminadas pela Rede à margem de qualquer enquadramento jurídico, servem agora de "prova" de acusação no tribunal da opinião pública - o mesmo onde se quis absolver Carlos Cruz após a sentença condenatória no processo Casa Pia. Se a moda pega, se a televisão começa a andar a reboque do YouTube, não tarda muito que tudo isto se transforme numa selva "mediática". Que o caso tenha sido levantado, em directo, por alguém com responsabilidades na vida cultural portuguesa torna a questão ainda mais grave.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 07.10.20

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André Couto: «Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel de Literatura 2010. Este ano a Academia abandonou a postura de Ídolos da literatura mundial, dando a conhecer talentos até então quase desconhecidos, consagrando com toda a justiça um escritor já largamente admirado e premiado. Para além da obra, um dos expoentes máximos da riquíssima literatura latino-americana, fica igualmente na retina a homenagem ao político, ao Homem dedicado às causas sociais e da liberdade no Peru.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Santos Silva, na versão ministro da Defesa, anunciou a compra de aviões para patrulhamento da zona costeira. Falou de zona económica exclusiva e soberania nacional, e da necessidade de garantir ambas. Uma semana antes, estava sentado ao lado de um PM que berrava contra submarinos comprados para exercer exactamente a mesma função. Já o escrevi antes, e repito: a questão do mar implica uma decisão política, num cenário de escolhas limitadas por recursos escassos. Se optamos pelo mar, então assumimos os custos da decisão. Defender uma das maiores zonas económicas marítimas do mundo implica recursos e consenso político. Esta descoordenação absoluta é só tonta, e mais um caso de possível desperdício de recursos. Não podemos ter um ministro da Defesa a avançar num sentido, contra um PM à toa.»

 

Fernanda Candeias: «Neste bar de hotel, encontramos Esteban entregue à árdua tarefa da espera. Mais do que observar atentamente, ele já só espera um fim. Alto, algo curvado, não consegue abandonar aquele semblante preocupado, apesar de ensaiar ao espelho, poses e expressões de tantos homens que por ali já tinham passado. Desenvolveu, com naturalidade, o talento de muito fazer em pouco tempo. Na verdade, a sua principal aptidão consiste em preparar um copo de uma qualquer bebida enquanto parece vigiar a entrada do bar. Pode fechar os olhos, durante uns segundos e ter a certeza de que ao abrir as pálpebras, alguém entrará por aquela porta.»

 

João Carvalho: «Enquanto o ministro Teixeira dos Santos tenta encaixar nas contas a compra de dois submarinos novos por mil milhões de euros, o ministro Santos Silva anuncia a compra de cinco aviões em segunda mão por 200 milhões de euros para executar missões de luta anti-submarina. Acho aconselhável que os submarinos venham equipados com armas anti-aéreas. Só por causa das coisas. Porque cheira-me que isto ainda vai acabar tudo aos tiros e era chato que uns aviõesinhos baratuchos dessem cabo de submarinos novinhos em folha.»

 

Eu: «Haja ou não orçamento, José Sócrates prossegue em campanha eleitoral acelerada - algo que nunca deixou de fazer desde Fevereiro de 2005. Agora até já inaugura igrejas, para comemorar o centenário da república, cheio de "alegria e luz no coração". Vale tudo para tentar cair nas boas graças dos portugueses. Com o objectivo de sacar votos, ao mesmo ritmo a que saca dinheiro aos contribuintes, ele era até capaz de se tornar diácono e gravar um disco em dueto com o padre Borga. A irmandade laicista que o tem apoiado devotamente aprecia com certeza este zelo apostólico do presidente do Conselho de Ministros, benza-o Deus.»


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