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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.04.21

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Ana Sofia Couto: «Nas últimas semanas, mesmo os mais cépticos têm tido razões de sobra para acreditar que em Portugal os acontecimentos políticos escapam a um entendimento racional. Na pastelaria, diz-se que o país é uma anedota. As próximas eleições podem comprovar a tese: se o PS não for fortemente penalizado, ficamos a saber que para muitos eleitores não interessa a responsabilidade - e a culpa - de quem nos conduziu a esta situação.»

 

Rui Rocha: «"Playing for Change" é um movimento que tem como objectivo levar a paz a todo o mundo através da música. Deixo aqui One Love numa versão imperdível. Hei-de trazer aqui outros momentos fantásticos deste projecto.»

 

Eu: «Alguns filmes reconciliam-nos com o cinema. Outros reconciliam-nos com a vida. Mais raros ainda são os que nos reconciliam simultaneamente com a vida e o cinema enquanto o tempo passa. Como este filme, que apetece rever uma vez e outra. Graças a Lost in Translation, seremos sempre felizes em Tóquio. Quem disse que jamais se deve voltar a um lugar onde já se foi feliz?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.04.21

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Ana Sofia Couto: «Um filme belíssimo sobre a memória, a doença, a beleza, o bem e o mal, e a possibilidade de encontrar em tudo isto a melhor lição de poesia. Venceu o prémio de melhor argumento na edição de 2010 do Festival de Cannes.»

 

João Carvalho: ««A pedido da direcção de Informação da TVI venho informar que as imagens do primeiro-ministro a testar o som, no púlpito, em São Bento, fornecidas pela RTP, não são para utilizar.» Ficamos a saber que S. Bento tem um púlpito, mas... quando um primeiro-ministro, preocupadíssimo com uma comunicação ao País sobre a chegada do FMI, pede a um Luís que lhe diga se fica melhor mostrar a orelha direita ou a orelha esquerda, está a testar o som?»

 

Rui Rocha: «Aquilo de que precisamos não é de menos democracia, mas de mais democracia. De uma democracia que evolua da ideia de que toda a irresponsabilidade é permitida para a consciência de que toda a responsabilidade pode e deve ser exigida. A resposta à crise não pode ser mais ausência e demissão dos cidadãos. Pelo contrário, é fundamental reforçar a participação. Desde logo, nas eleições. Mas, também antes e depois delas. 

 

Eu: «O universo de Raymond Carver é povoado de quadros agrestes, de visões desencantadas de um quotidiano onde a esperança há muito deixou de morar. É um mundo citadino, contemporâneo, cheio de personagens que andam à margem do afecto - um mundo de vencidos da vida, confrontados com a erosão de toda a espécie de ideais. Um mundo onde, apesar de tudo, irrompem uns súbitos lampejos de ternura: é nesta complexa atmosfera que tem feito soçobrar por manifesta incapacidade tantos escritores de renome que o malogrado norte-americano se agiganta, como cronista perfeito da era de todas as imperfeições, sem rasto de heróis. O tédio das sociedades materialistas e o desgaste do amor são temas que lhe são caros.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.04.21

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Jorge Fonseca Dias: «Podemos apostar no fim da batota. No fim da burocracia. No choque fiscal empresarial. Num posicionamento realmente diferenciador no que toca à tecnologia e activos humanos. Podemos criar legislação que pisque o olho a capital e empresas. Podemos ser sociais para com quem precisa. Podemos ser solidários. Podemos ser palco para inovação na ciência. Podemos usar o mar. Podemos aperfeiçoar na energia renovável. Cada um de nós pode participar. Afinal, o que queremos nós para Portugal?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Foi capa da L' Espresso. Para Alessandra Mammì é só o mais belo filme de Moretti. Considerado por Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do quotidiano "Il fatto", como uma obra genial, o filme que hoje estreia em Itália de um realizador de excepção é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias, pelos corredores do poder e pela solidão. Ou o drama de um Papa que depois de eleito para o trono de S. Pedro se confronta consigo próprio, com as suas fraquezas e as suas dúvidas. Michel Piccoli regressa no principal papel. Definitivamente uma obra a não perder.»

 

Teresa Ribeiro: «Pena não se poder fazer como no futebol e contratar no exterior os craques que fazem falta aqui no plantel. Sem o nosso ADN, que é, já não me restam dúvidas, o nosso maior problema estrutural, a governação seria mais fiável. Um alemão nas Finanças e um finlandês na Educação, para começar, não estaria mal. O tal chinês talvez pusesse na Economia. Nada como uns negócios da China para pôr a nossa Economia a funcionar.»

 

Eu: «Fernando Nobre anda a ser criticado, vejam lá, por faltar à palavra: disse que não se envolveria com nenhum partido e acabou por aceitar figurar como independente nas listas do PSD. Quem o critica, em grande parte, é gente que acha muito bem haver um primeiro-ministro que agora governa com o FMI quando há poucos dias jurava que não governaria com o FMI. (...) Não me choco com a duplicidade de critério destes incongruentes, que em larga medida cumprem uma antiquíssima tradição do servilismo lusitano: é de bom tom evitar qualquer crítica ao Governo. Choca-me, isso sim, que Portugal esteja à beira da bancarrota - e que, segundo as estimativas do FMI, venha a ser o único país da União Europeia em crise persistente no próximo ano. De uma coisa tenho a certeza: não foi Fernando Nobre quem conduziu Portugal a este cenário de ruína.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.04.21

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João Carvalho: «Passos Coelho quer as contas do Estado bem feitas e às claras. Silva Pereira põe-se a perorar: as contas estão bem feitas e esta não é a altura certa para fazer fitas. Não se entende Silva Pereira, que vai acabar por ir embora com uma imagem fracota. Alguma vez as contas do Estado foram bem feitas?»

 

Ricardo Gross: «Cabe aos melhores filmes iludirem-nos com a possibilidade da libertação. Substituição ilusória e efémera. As mulheres e o cinema; o cinema e as mulheres. Mero fogacho da plenitude que não se recupera nunca mais. Duas irrealidades que o obsessivo está condenado a conjugar até ao fim. Que não termina quando os filmes acabam ou os pequenos romances recomeçam. “Vertigo”. Termino o texto e vou para o cinema arder.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Gente como a Estela [Barbot], discreta, competente e séria, anda escondida, foge dos partidos e não precisa dos holofotes do poder para seguir o seu caminho. Não tenho dúvida de que nesta hora de crise que todos atravessamos, crise que radica antes de tudo o mais na falta de estatura dos nossos dirigentes, pessoas como ela fazem muita falta a este país.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.04.21

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André Couto: «O Governo caiu. O Benfica, desta vez, não foi campeão. O FMI chegou. A campanha corria macambúzia. O tom e os assuntos do debate ajudavam a que os programas do costume mais parecessem canções de embalar. Até que Pedro Passos Coelho sacou da cartola - acho que este trocadilho ainda não foi muito explorado - Fernando Nobre como candidato a Presidente da Assembleia da República. E tudo mudou.»

 

António de Almeida: «A hipocrisia internacional não conhece limites. Se foi inquestionavelmente legítima a intervenção norte-americana no Afeganistão, atacada pela Al-Qaeda com a cobertura do regime talibã, é estranho que se invoquem razões humanitárias para invadir o Iraque ou a Líbia. Para não parecer muito mal, neste momento a comunidade internacional também parece finalmente acordar para a Costa do Marfim, onde um presidente derrotado nas urnas usurpou efectivamente o poder.»

 

João Carvalho: «António Mota não fez qualquer descoberta: Portugal tem sido incapaz de qualquer planeamento, estratégico ou não, e isso é um mal que vem de longe. Já quanto à internacionalização do grupo que trata por tu as grandes obras públicas, o melhor que podemos fazer é desejar-lhe felicidades e que mande de lá saudades. Porque o que menos precisamos por cá (há muito tempo) é da Mota-Engil, do BES, da Brisa, da Lusoponte e de todos aqueles do costume que vivem à mesa do Orçamento do Estado e que querem abanar-nos mais um bocado para ver se ainda cai algum.»

 

Rui Rocha: «O Governo de Sócrates não se ficou por conduzir o país à bancarrota. No momento em que ministros de um Governo eleito democraticamente, em conluio ou por decisão unilateral de um deles, violam as leis em vigor, adoptando uma conduta que pode consubstanciar a prática de um crime de abuso fiscal, a insolvência não diz respeito apenas à inexistência de disponibilidades financeiras. Na verdade, estamos a falar de uma falência do próprio Estado de Direito. Não foram só as importâncias retidas na fonte aos polícias que não foram entregues ao Ministério das Finanças. Foi a própria fonte da ética e do fundamento democrático que secou.»

 

Eu: «O critério de Cavaco é estreito. E confirma que o actual chefe do Estado perdeu atributos revelados noutros tempos, em que fazia pontes para sectores políticos muito para além do partido que comandou. Falta neste elenco designado por Belém alguém claramente conotado com a esquerda. Cavaco teria revelado rasgo político se pelo menos uma das personalidades que indicou para o Conselho de Estado fosse desta área política – e porque não até próxima do PCP, que não tem qualquer representante directo ou indirecto neste órgão em representação da Assembleia da República? Não seria pedir de mais a alguém que procura não ser confundido com um líder de facção. Procura sem o conseguir. Por vezes dir-se-ia até que não faz qualquer esforço nesse sentido.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.04.21

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Fátima Mégre: «A dinâmica da violência, do conflito, da instabilidade não só tem recrudescido mas tem encontrado a sofisticação de meios de aniquilamento. Do nosso aniquilamento. Cada vez mais isolados apesar de mais próximos, cada dia mais invisíveis apesar de todas as visibilidades possíveis, cada vez mais ignorantes e ignorados apesar de toda a velocidade de conhecimento.»

 

João Carvalho: «Finalmente, tal como aqui previmos desde sempre. Adeus, TGV. Falta agora fechar a RAVE, que nunca devia ter existido e já comeu a sopa de muitos pobres. Só é pena ainda termos de pagar a teimosia estúpida de quem quis a todo o custo avançar com o que devia estar suspenso há muito e não se importou de assumir compromissos contratuais que estava na cara jamais ser capaz de cumprir. Pudera, não é? Ninguém lhes cobra responsabilidades e não lhes sai dos bolsos.»

 

Luís M. Jorge: «Qualquer totó no lugar de Passos Coelho já teria garantida a maioria absoluta, mas dizer isto é não conhecer o grémio dos diletantes. O PSD é uma miséria disfarçada de tristeza metida dentro de um logro e condenada ao fiasco. A única coisa que o motiva é a alegria sempre renovada de escorregar nas cascas de banana que o primeiro-ministro, com invejável desprendimento, lhe atira ao caminho.»

 

Rui Rocha: «Pelo caminho que as coisas levam, vencerá as próximas eleições aquele que apresentar os níveis de incompetência mais eficazes.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A actual “geração à rasca” ainda tem a casa dos pais para se abrigar. Os seus filhos e netos provavelmente não terão, porque a essa sucederá uma geração ainda mais à rasca, dominada pelas poses bonapartistas dos actuais dirigentes. Um bonapartismo só de pose. Não na essência. Porque se persistirmos nos actuais modelos de participação e liderança, acabaremos todos não por sermos como o corso, mas por sermos como eles: isto é, definitivamente sonsos, medíocres, mansos e sempre à rasca.»

 

Eu: «Alguns actores são assim: atingem um estatuto de primeira grandeza, andam uns anos aclamados por um vasto público, são idolatrados e invejados em proporções quase iguais até que um dia sentem na pele que não existe nada mais ilusório do que o efémero mundo da fama. Nesse dia, trocam a vida de fingimento pela vida real e deixam de ser confundidos com as suas personagens mais célebres.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.04.21

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José Maria Pimentel: «A estratégia para a próxima campanha eleitoral afigura-se bastante clara. Aliás, já começou. Sócrates dirá até à exaustão que a culpa é do PSD, que rejeitou o PEC-4, levando à queda do Governo e à precipitação da subida dos juros, que, por sua vez, obrigou o executivo  a pedir ajuda ao FEEF e ao FMI. Antes disso, ainda procurará o apoio do Presidente da República e do PSD (e do PP) ao pedido de ajuda, o que permitirá afirmar que o bailout não é filho de mãe solteira.»

 

Rui Rocha: «Não sou um entusiasta de Fernando Nobre. Não votei nele nas presidenciais. Não me agradou o tipo de  campanha que fez. Creio mesmo que teve momentos bastante infelizes. Sou sensível à maior parte dos argumentos que têm sido utilizados para criticar a sua escolha como cabeça-de-lista do PSD em Lisboa. Parecem-me viáveis quer as críticas que se fazem à instabilidade política de Nobre quer as que, na óptica dos interesses do PSD, defendem a existência de outras alternativas ou salientam que a opção não trará grandes benefícios eleitorais.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Lutar dentro dos partidos é hoje uma quimera. Tudo aquilo é deprimente. Começa no facto de se votarem moções de orientação política desfasadas no tempo, ultrapassadas pelos acontecimentos, quando o que seria aconselhável, depois do que sucedeu, seria suspender o conclave por quinze dias, iniciar um novo período de apresentação de propostas e de formalização de candidaturas. Mas nada disso interessa. Tudo o que seja discutir ideias para o futuro, estratégias de renovação e alargamento da participação é incómodo.»

 

Teresa Ribeiro: «E tu, PSD, não penses que me esqueci do que me fizeste no passado. Em muitas coisas, tu e o PS bem se podem juntar. Por isso pára de apontar o dedo ao outro. Eu sei o que ele me fez durante seis anos, não precisas de mo vir dizer. O que eu gostava de saber acerca de ti é se mudaste. Se em 2005 acabámos foi porque me desiludiste. Lembras-te? E agora, o que tens para me dar que eu já não conheça? É que até agora tens falado, falado, mas ainda não disseste grande coisa, pois não? Raios, ando deprimida com tudo isto. A minha prima é que tem razão. Nunca tive jeito para escolher partidos!»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.04.21

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Ana Cláudia Vicente: «O jornalismo poderá tirar a coisa a limpo: ou abusei  ao almoço, ou a banda sonora seleccionada para o  final do congresso socialista teve por composição principal um tema de Trevor Rabin, de 1998, criado para um filme memoravelmente mau e ominosamente intitulado Armageddon. Não, foi com certeza impressão minha.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Um dos aspectos mais graves nesta profunda crise política é a representatividade. As taxas altas de abstenção e a falta de ligação ao eleitorado costumam denunciar bem este problema: as pessoas não se revêem nos seus representantes, não acreditam neles, não confiam neles. O fenómeno é bem conhecido, e as soluções para o tentar resolver também (voto uninominal, voto preferencial, etc.). Mas falta outro factor: e que tal responsabilizar o eleitorado?»

 

Rui Rocha: «Sócrates já foi um vendedor de ilusões. E os resultados eleitorais demonstram que teve um certo talento nesse ramo de actividade. O problema de Sócrates é que tem tanto mérito na venda de ilusões como demérito na actividade de pagador de promessas. E isso é fatal no ramo das ilusões. Recorde-se: estas não sobrevivem na ausência de um nadinha de realidade. A reserva de realidade nas ilusões vendidas por Sócrates esgotou-se. Por isso, Sócrates decidiu mudar de ramo. Agora, está no negócio das alucinações.»

 

Eu: «Ana Gomes interrompeu as ladainhas próprias de uma missa de acção de graças para fazer aquela que foi, de longe, a melhor intervenção escutada no palco de Matosinhos. "É preciso que o PS reconheça com humildade que nem sempre tudo foram rosas na governação e que nem sempre a rosa cheirou muito bem. O PS também cometeu erros e assumi-los será meio caminho andado para corrigi-los", disse sem papas na língua a eurodeputada socialista, a única que recusou prestar tributo incondicional ao secretário-geral do partido num congresso formatado para o culto da personalidade ao político que mais contribuiu para desmantelar o nosso estado social e para diminuir os direitos sociais dos portugueses. Sintomaticamente, falou para uma sala vazia. Este PS convive mal com o debate interno e faz tudo para ignorar as vozes críticas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.04.21

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Ana Vidal: «Acabo de ouvir uma investigadora da Universidade do Minho (não fixei o nome), entrevistada na RTP1, classificar de "eufusivo" o discurso de Sócrates no congresso. Pareceu-me efórica.»

 

Rui Rocha: «Oitenta mil milhões de razões para comemorar. Este é o sinal exterior de pobreza que justifica a entusiástica celebração do líder que decorre por estes dias em Matosinhos. José Sócrates, o andor, é carregado em delírio por Almeida Santos, António Costa, Manuel Alegre e António Vitorino. Não há peso que os vergue. Não há bico de papagaio que os tolha. Não há joanete que os faça suster a marcha. Esta é a hora de dobrar a espinha pelo querido líder. Este é o momento certo para celebrar os 150.000 desempregos, as medidas em matéria de abandono de família, as taxas demolidoras da saúde, as parcerias impúdico-privadas e as empresas públicas falidas. Brindemos então, camaradas.»

 

Eu: «Sucedem-se na tribuna António Costa, António Vitorino, Augusto Santos Silva, Correia de Campos, Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, Almeida Santos, Edmundo Pedro: o PS sai renovado deste congresso.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.04.21

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João Carvalho: «Soube-se já em Bruxelas que o pedido de auxílio financeiro de Portugal deverá provavelmente rondar os 80/85 mil milhões de euros. Ao mesmo tempo, o ainda ministro Teixeira dos Santos declarava ser "ainda prematuro estar a avançar qualquer montante" sobre a necessidade imediata do nosso país, mesmo que só aproximado. Fica mais uma vez confirmado o extraordinário rigor e a plena consciência que o ministro-das-Finanças-que-nos-saiu-na-rifa sempre demonstrou durante todos estes anos. É realmente uma tristeza ver Teixeira dos Santos partir em breve para um rodapé da História.»

 

Leonor Barros: «Raramente terei começado post algum com tanta vontade de escarrapachar nomes, assim uma espécie de anúncio à moda do Velho Oeste: WANTED mas hoje, ai hoje, logo hoje, passados uns meros dias sobre o anúncio fatídico da vinda desse tal FMI ou FEEF ou outra coisa qualquer que, surpreendam-se, vai ajudar a Banca, deu-me esta ímpeto. Foi logo pela fresca quando no meu mural facebookiano me anunciaram que nove dos nossos deputados europeus votaram contra uma proposta para que os voos com duração inferior a quatro horas passassem a ser em classe económica. E agora os nomes e os partidos, já agora: José Manuel Fernandes, Paulo Rangel, Regina Bastos, Carlos Coelho, Mário David, Maria do Céu Patrão Neves e Nuno Teixeira do PSD e Luís Manuel Capoulas Santos e António Fernando Correia de Campos do PS votaram contra.»

 

Maria Teresa Loureiro: «O que me faz mesmo sentir em casa é entrar num autocarro, numa camioneta, num eléctrico, etc., etc., etc., dizer bom dia e ser olhada (com sorte) com um ar de "olha para esta armada em esperta" e não obter qualquer resposta. Nessas alturas, inspiro fundo (com precaução), expiro de alívio, e penso, estou em Portugal, com os diabos!»

 

Eu: «Prometeu pôr o País a crescer 3% ao ano e deixa o País em recessão. Prometeu criar 150 mil postos de trabalho e deixa o País com o maior índice de desempregados de que há registo. Prometeu baixar os impostos e deixa o País com a maior carga fiscal de sempre. Prometeu estancar o défice das contas públicas, que era de 5,9% em 2005, e deixa o País com um défice de 8,6%. Prometeu o comboio de alta velocidade e deixa o País com menos quilómetros de linha férrea. Prometeu aumentar o poder de compra dos portugueses e acaba o mandato a cortar salários, deixando o País mais pobre.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.04.21

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Ana Vidal: «Há uma rosa no solitário da janela, champagne nos copos, Verdi no ar. O relógio parou. Eu leio-te o desejo nos olhos, tu lês-me Borges depois do amor. O lugar, que importa? Pode ser uma mansarda em Montmartre, uma villa em Scirmione, uma caverna em Matmata, uma cabine no Expresso do Oriente, uma cubata no Quénia ou um mosteiro suspenso nos Himalaias. Ou pode ser simplesmente o nosso quarto, com o mundo  inteiro aos pés. O lugar somos nós, onde quer que estejamos.»

 

António Balbino Caldeira: «Para resolver o desajustamento entre a oferta de trabalho (dos candidatos) e a procura de trabalho (dos empregadores) é mais viável agir sobre a oferta dos candidatos do que sonhar com a solução paternalista utópica do Estado que garantiria emprego para todos. Enquanto a realidade não vence a ideologia, que, por causa da utopia da igualdade, se concentra na taxação dos rendimentos do trabalho e impõe uma fiscalidade proibitiva do desenvolvimento, em vez de se virar para a taxação do consumo e para formas mais eficientes de taxação da riqueza, defrontar-nos-emos com um impasse na contratação de trabalhadores.»

 

João Campos: «A Moody's cortou o rating da CP (entre outras) para "lixo". De ratings pouco ou nada percebo; mas para mim, que desde finais de Fevereiro não consigo ir de comboio à terra devido às sucessivas greves dos maquinistas às sextas-feiras, os rantings da CP há muito tempo que são lixo.»

 

João Carvalho: «Para tentar resolvê-la, só há uma maneira de enfrentar a crise financeira, económica e social: deixar de fingir que ela não começou por ser a crise de valores que realmente é. De outro modo, este circo não será desmontado. Poderá até tornar-se triste e pobre, muito mais triste e muito mais pobre, mas isso é a característica infeliz de muitos circos — que continuam a chamar-se circos mesmo sem o merecer.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Só há duas maneiras de enfrentar a actual crise política, social e económica que se abateu sobre o País sem pirar de vez: ou com humor, vendo o circo, ou lendo qualquer coisa de útil e que nos possa servir no futuro. Mas definitivamente sem continuar a ouvir José Sócrates, Teixeira dos Santos, Passos Coelho, Portas, Louçã ou o PR. E ainda menos os banqueiros e os comentadores encartados.»

 

Teresa Ribeiro: «Confiantes no seu poder de sedução, os todo-o-terreno foram os primeiros a avançar para a pista, com umas anedotas novas e a descontracção habitual. A seguir vieram as meninas arrivistas, vestidas de majorettes, com novo sotaque e novo par. Os jovens promissores, ainda sem passado, limitaram-se a desfilar sob as luzes intensas. Ofegantes, os sobreviventes chegaram pouco depois, aos cardumes, agarrados às boias das pessoas certas, enquanto os directores cessantes tocavam violino na esperança de espantar os peixinhos que já lhes mordiam as canelas. Os barões, como estão sempre assinalados, só tiveram de ocupar os seus lugares de sempre e ficar a ver o cortejo que fechava com uma conhecida trupe de contorcionistas, constituída por empresários, consultores e especialistas, mas também composta por gente anónima.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.04.21

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Teresa Leandro: «Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.»

 

Eu: «O inominável deixa uma pesada herança - no País e no partido. Não admira, por isso, que muita gente já nem consiga citar-lhe o nome. Aludem a ele dizendo "o que está no governo". Por vezes, para o designar, recorrem à expressão "esse indivíduo" ou a outras, várias das quais irreproduzíveis. Para o País, vítima da sua inultrapassável arrogância e da sua manifesta incompetência, a possibilidade de vê-lo enfim a léguas do poder constitui um bálsamo digno de registo. Para o partido, é um trágico equívoco apresentar-se a eleições com "esse indivíduo" como cabeça de cartaz: ele funciona como uma garantia antecipada de um desaire histórico. Porque os eleitores conhecem-no hoje bem de mais. Ao ponto de muitos já nem conseguirem pronunciar o nome deste vendedor de ilusões, o último que parece ainda capaz de acreditar nos ecos voláteis da sua própria propaganda.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.04.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Sem explicação, porque não há explicação que resista, ano após ano, país após país, douze points após douze points, me deixo levar; agora na convicção de que a improvável, quase impossível vitória, neste ou outro ano, chegará mais rápido que a superação dos principais problemas do país.»

 

João Marchante: «Portugal precisa de fazer um cinema com uma linguagem autêntica, que corresponda de facto ao modo de pensar e sentir dos portugueses. O teste parece-me fácil: se o público gostar é porque os filmes são genuínos. Este tornou-se, aliás, o principal problema; as pessoas andam zangadas com os filmes portugueses. Como às vezes sucede na vida, até se zangam com o que desconhecem; mas, cheira-lhes que nem vale a pena espreitar. E — atente-se —, o povo é sábio nos seus instintos, por mais ignorante que possa parecer e — hoje, infelizmente — ser.»

 

Luís M. Jorge: «Ricardo Salgado quer a ajuda externa. O primeiro-ministro não quer a ajuda externa. Naturalmente, o primeiro-ministro acabará por obedecer.»

 

Rui Rocha: «Sócrates, protótipo do homem-light, juntou à sua insustentável leveza a circunstância do poder. E isso converteu-o num very-light. Um foguete que sinaliza um percurso feito na contramão da realidade, indiferente à noção de limite. Infelizmente, foi precisamente no limite que, na realidade, a sua pesada herança nos deixou.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Pelas palavras que tão depressa profere como pelas que não profere e pelas escolhas que faz, o Presidente da República é o coveiro-mor do regime. Os outros, os que aí andam, a começar pelo rei da poncha, não passam de aprendizes.»

 

Eu: «O grau de cumplicidade com um ditador “amigo” devia ter limites, ditados pela óbvia evidência dos factos. Isto não sucede no Avante! nem no PCP. Mas que outra coisa seria de esperar de um partido que apoiou o infame pacto assinado entre a Alemanha de Hitler e a URSS de Estaline, a construção do muro de Berlim e as invasões imperialistas de países soberanos como a Hungria e a Checoslováquia pelos blindados “internacionalistas” da União Soviética?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.04.21

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Francisco Teixeira: «A dívida pública passou de 68% para 97% desde que [José Sócrates] é primeiro-ministro, o défice de 2010 não foi de 6,8% mas de 8,6% (se tirássemos o fundo de pensões da PT e continuássemos a pagar os submarinos seria de 9,6%!), a despesa pública nominal não parou de aumentar e a previsão de crescimento económico em 2011, que o Governo manteve até 21 de Março nas suas previsões, não passou de uma alucinação sem sentido.»

 

Luís M. Jorge: «- Mas como é que pudeste deixar o nosso filhinho Rubem ao sol dentro do carro durante quatro horas numa tarde de Agosto, homem?

- E tu, como é que pudeste dar-lhe um kinder chocolate antes do jantar, sua puta?»

 

Rodrigo Sousa e Castro: «Derrubar o governo de forma perversa, mas aceitando a saída de Sócrates como resultado de intenção não declarada do PSD de fazer uma aliança circunstancial mas contranatura com forças sem qualquer utilidade táctica futura, interromper um processo vital de negociação na Europa desprotegendo inexoravelmente todo o colectivo nacional, desarmando o governo para enfrentar um período conturbado de crise financeira, não dizer nada de substancial sobre as soluções alternativas para as premências do presente e muito menos sobre as soluções futuras. É típico da actuação de um comandante sem estofo, sem capacidade de exercer a acção de comando e de vistas curtas...»

 

Rui Rocha: «Esta foi uma época em que o Futebol Clube do Porto humilhou o Benfica no confronto directo. Cinco a zero em casa e vitória na Luz são coisa para, só por si, encher a época a um dragão. Acresce a este quadro a possibilidade de celebrar o título na Luz, nos bigodes de Luís Filipe Vieira. E, quando seria difícil imaginar melhor enquadramento, eis que o Benfica se encarrega de proporcionar um contexto ainda mais favorável. Apagar as luzes e ligar o sistema de rega introduz na festa azul e branca um ingrediente adicional de guerrilha que Pinto da Costa muito aprecia.»

 

Teresa Ribeiro: «Quando leio que os portugueses já não podem voltar a contar com o Estado paizinho, apetece-me puxar da pistola. Qual paizinho? O que sempre nos explorou, cobrando impostos elevadíssimos sem que alguma vez se verificasse um justo retorno? Um paizinho que cria monstros e que não paga o que deve?»

 

Eu: «Há dois países em Portugal: o país real - o da monumental dívida pública, do desemprego, do défice externo e do crescente afastamento em relação à média europeia - e o país do neo-nacionalista José Sócrates, orgulhosamente só. O único cor-de-rosa é este último. Por azar, também é o único que não existe.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.04.21

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Eu: «Entre os notáveis detractores que Churchill teve durante a década de 30, em que alertou os britânicos para a necessidade de rearmar o Reino Unido, destacam-se John Maynard Keynes e Bertrand Russell. O primeiro, já com Hitler no poder, justificou perante a opinião pública em Londres a atitude dos alemães, apontando o dedo acusador ao Tratado de Versalhes, que procurou impor uma "paz cartaginense" a Berlim. Russell, um pacifista de sempre, preferiu traçar cenários de horror no caso de um suposto ataque nazi à capital britânica: "Bastam 50 bombardeiros de gás para envenenar Londres inteira", declarou em 1934. Estes intelectuais prepararam o terreno para a "paz com honra" assinada por Neville Chamberlain com Hitler em Munique, 11 meses antes do início da II Guerra Mundial. "Teremos a desonra - e a guerra", alertou Churchill. Cheio de razão antes de tempo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.04.21

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Ana Cláudia Vicente: «Chegada a minha vez de vos deixar nova sugestão de visita, e já que estamos nos arrabaldes do 100º aniversário da publicação da Lei de Separação do Estado e da Igreja em Portugal, venho recomendar-vos o Estado e Igreja, blogue recentemente criado por Luís Salgado de Matos e verdadeiro aperitivo para a leitura do livro homónimo. Quem está familiarizado com o autor facilmente reconhecerá o rigor e humor da sua prosa; quem ainda não, aproveite a oportunidade.»

 

Rui Rocha: «Zapatero renuncia. Sócrates permanece incrustado na sua irredutibilidade. Zapatero convenceu-se de que a quebra de confiança do eleitorado espanhol o impede de protagonizar uma solução para problema. Desta forma, permite ao PSOE e à sociedade espanhola trilhar o caminho da renovação política. Quanto a Sócrates, tornou-se ele próprio num problema sem solução. Indiferente ao facto de ser o principal factor de bloqueio da situação política, mantém o PS refém da sua liderança e insiste numa visão unipessoal de irresponsabilidade ilimitada da democracia portuguesa.»

 

Teresa Ribeiro: «Totalmente absorvidos pela luta política, agora que a alternância vai acontecer, os partidos, por seu turno, afinam estratégias. Entre a vitimização e o messianismo há todo um conjunto de opções a explorar. O empenho é imenso. Sente-se em cada intervenção a adrenalina a subir. É isto que os move. A paixão da política, o mata-mata.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.04.21

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João Carvalho: «Ao contrário do que aconteceu na maior parte dos países da União Europeia (UE), a fecundidade diminuiu em Portugal, entre 2003 e 2009. Portugal está mesmo entre os três países da UE com as menores taxas de fecundidade». Contudo, o que menos falta por aí é quem tenha passado estes anos a fecundar o país. Conclusão: nem para isso têm jeito, cambada de estéreis.»

 

Mr. Brown: «O Kane (Gary Cooper) de O Comboio Apitou Três Vezes é um homem que, apesar da grande coragem demonstrada, dá mostras de vacilar, que tem dúvidas e cede momentaneamente ao desespero; já o John T. Chance (John Wayne) de Rio Bravo tem os níveis de autoconfiança nos píncaros e se receia algo não dá mostras disso - uma visão mais máscula do herói do faroeste que Hawks e Wayne partilhavam. Gary Cooper, tendo bem frescas na memória as críticas ao seu filme, disse de Rio Bravo que era "tão falso que ninguém acredita nele". Equivocou-se, naturalmente.»

 

Paulo Gorjão: «A ser verdade o que está a ser transmitido aos jornais -- i.e. que Pedro Passos Coelho se prepara para convidar os seus adversário internos para integrarem as listas de candidatos a deputados -- diria que é uma excelente notícia e uma decisão sensata, por todas as razões e mais alguma.»

 

Eu: «Pequena irritação: o milagre da multiplicação digital dos inúteis zeros à esquerda, não metafóricos mas reais. Agora até os jornais têm páginas 02, 03, 04... E não é mentira do 01 de Abril.»

 

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.03.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Saio de casa, com a casa às costas, e entro na nova casa, onde a coloco. Cansado, não descanso. Agora que está tudo certo, é tempo de tirar os livros encaixotados, ao acaso ou por comodidade de tamanho, e inventar uma nova ordem. O pior só agora começou.»

 

Patti: «Foi despedida, exactamente dez minutos, antes da sua hora de saída do escritório. Com efeito imediato. E nem precisou de dar dias à empresa. Arrumou tudo mecanicamente. Não teve tempo de dizer adeus à colega das fotocópias. Nem do rapaz dos cafés. Ficara mesmo sem saber o nome dele. Seis meses ali a trabalhar e nem lhe sabia o nome. Estava agora na rua, numa noite fria de Outono baço, à espera do metro.»

 

Rui Rocha: «Quer no caso do BPN, quer no do buraco das empresas públicas de transportes, a responsabilidade existe e os portugueses vão ter que a pagar. Tal como vai acontecer relativamente às parcerias público-privadas. Chegado à governação, o Professor de Finanças decidiu converter-se no Professor Mandrake. O dia de hoje marca o fim da ilusão. Sócrates e Teixeira dos Santos ficarão na história de Portugal por terem protagonizado um projecto consumado de co-incineração das contas públicas.»

 

Eu: «Ataturk, na guerra contra os gregos, proclamava aos seus homens: "Eu não vos ordeno que ataquem. Ordeno-vos que morram." Por vezes parece que Sócrates ordena o mesmo a alguns dos seus ministros. Com uma diferença assinalável: o líder turco foi capaz de ganhar a guerra.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.03.21

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João Carvalho: «Quando os parlamentares ignoram que a forma masculina também aglutina gramaticalmente ambos os géneros e, nessa ignorância, não são capazes de perceber que "senhores deputados" é um vocativo q.b., só têm uma saída: "senhoras deputadas e senhores deputados". Não o fazendo e insistindo em "senhoras e senhores deputados», a asneirada é óbvia e lê-se assim: "senhoras coisa-nenhuma e senhores deputados".»

 

Luís M. Jorge: «O PSD fez publicar hoje as linhas de orientação para a elaboração do seu programa eleitoral. Alguns espíritos malévolos talvez observem que o líder social-democrata, ocupando o cargo desde 26 de Março de 2010, já teria tido tempo de nos proporcionar um documento maduro e definitivo em vez destes bitaites enjorcados

 

Miguel Noronha: «Chama-se "culto da carga" à tentativa de sociedades tecnologicamente atrasadas adoptarem, de forma ritualista, os sinais exteriores de progresso das mais desenvolvidas. Ainda que não consigam discernir de forma correcta a relação de causalidade, esperam com isso obter as mesmas comodidades das últimas.»

 

Rui Rocha: «O discurso oficial e oficioso do PS passa pela descredibilização de Passos Coelho e por exigir que este apresente alternativas. É verdade que o PSD e o seu líder devem ganhar em consistência se quiserem aparecer aos olhos dos eleitores como solução para a situação a que o governo do PS nos conduziu. Todavia, esta linha de argumentação parece muito pobre quando analisada pelo seu valor intrínseco. O interessante (diria mesmo, o imperativo democrático) seria que o PS esclarecesse se o que tem para oferecer ao país é mais do mesmo (líder, discurso, prática, PEC) ou se a sua proposta inclui, para além de um indispensável acto de contrição, uma mudança (de política, de programa, de atitude).»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.03.21

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Alexandre Borges: «Somos órfãos de nós mesmos. Não procuramos líderes políticos; ansiamos por um pai. A admiração que temos por quem fala alto é a confissão embaraçosa da nossa menoridade enquanto sociedade; o apreço pelas maiorias absolutas a revelação da nossa falta de talento para a democracia. Somos agressivos quando protegidos pela carroçaria do carro ou pelo anonimato da net. Vilipendiamos em mau português até o visado nos olhar nos olhos. Não precisamos de um governo. Precisamos de tomates.»

 

João Campos: «Não admira que a Apple não precise de investir muito em publicidade. Não precisa. Aos fanboys habituais, que defendem a marca da maçã com um fervor digno de um cruzado medieval, juntam-se os media e o seu turbilhão de euforia mediática. Compreendo muito bem a importância dos temas de tecnologia na agenda mediática, assim como percebo a relevância da Apple: goste-se ou não (e não é isso que está em causa), os seus produtos são incontornáveis. Só me incomoda ver o jornalismo virar evangelista.»

 

Rui Rocha: «O primeiro-ministro convocou hoje os jornalistas para entoar o canto do cisne. Sócrates sabe que a situação actual é insustentável. Acredito que chegou a convencer-se, ao longo destes anos, que a sua governação reluzia. E que ele próprio era de ouro. Perdido o brilho ilusório, sobra-lhe a lata. Hoje, mais uma vez, ensaiou o seu número favorito. Vitimizou-se e atribuiu a responsabilidade da situação actual à oposição. Por isso, é preciso recordar-lhe que em  Novembro de 2004, Jorge Sampaio deu início a um processo de dissolução da Assembleia da República. Foram convocadas eleições antecipadas. Nessa ocasião, os juros não dispararam para níveis socratosféricos e as notações das agências de rating não se precipitaram para o abismo.»