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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.05.22

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Helena Sacadura Cabral: «Há dias fui à Baixa que, para mim, está irreconhecível. Desapareceram lojas que eu conhecia, apareceram outras que nem suspeitava que existissem naquelas bandas e mantiveram-se umas quantas que perderam muito do atractivo, do cheiro, da magia que antes possuíam.»

 

José Navarro de Andrade: «Piero Della Francesca era matemático, conhecia sem hesitação a geometria dos rostos e à época já a pintura dominava a perspectiva. Até parecia mal retratar os patrocinadores com tão pouca graça e garbo.»

 

Leonor Barros: «Quando foi a última vez em Portugal que um Ministro se demitiu por ter traído o seu eleitorado?»

 

Luís M. Jorge: «À espera dos comentários do professor Marcelo, lá papo uma reportagem da TVI sobre a educação d'antanho. Vinte ou trinta carquejas com o diploma da quarta classe recitam títulos das obras de el rey Duarte e feitos da dona Barbuda de Guimarães. O subtexto da coisa é cristalino: os meninos antigamente sabiam mais que os doutores agora, e tal.»

 

Teresa Ribeiro: «Ricardo Costa, na edição de ontem do Expresso, demarca-se do coro de indignados, começando por afirmar o óbvio, sobre o caso das "pressões do Miguel Relvas" que diga-se, a cada dia que passa fica mais interessante.»

 

Vasco Baptista Mendes: «A Califórnia há muito que está falida, tal como o estado da Nova Gales do Sul, na Austrália, e ninguém fala do iminente colapso do dólar americano ou australiano. Ambos são estados numa federação, têm governo e capacidade de endividamento próprio mas não têm moeda própria. Penso que será o mesmo caso dos estados no Brasil e na Alemanha na altura do marco.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.05.22

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João Carvalho: «Para as religiosas, era um milagre: o Santo Cristo tinha escolhido São Miguel para aportar, onde o povo tinha fama de ser muito crente, e a população de Água de Pau, ao saber da imagem aparecida, cresceu na sua fé. Rapidamente, essa imagem foi também alvo do culto de toda a ilha, de todo o arquipélago, sem tardar a ser admirada por fiéis de tantas outras paragens.»

 

José António Abreu: «O Miguel vai-se lixando por, desde há muito, estar demasiado embrenhado nos jogos do poder, incluindo no da relação com a comunicação social e, através dela, com a opinião pública. Já o Álvaro vai-se lixando por nem saber que está a jogar. Apenas num dos casos o resultado pode ser considerado justo.»

 

Teresa Ribeiro: «Hoje, nos jardins do Museu da Electricidade, há workshops zen (shiatsu, yoga do riso, tantra yoga) entre muitas outras actividades para miúdos e graúdos

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.05.22

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Ana Vidal: «Tu éve gud cantri uí nid gud présidant. Argent.»

 

Cláudia Köver: «Era boa de desculpas. Desculpava o pé direito por pisar o esquerdo, sem nunca pensar como poderia dançar sem causar nódoas negras. Desculpava-se a si de si própria, sem nunca pensar que a sua terceira pessoa poderia com isso sofrer. Era má de trabalho. Não trabalhava nem para ela própria.»

 

José Navarro de Andrade: «Daniel Carton foi durante mais de 10 anos editor de política do “Le Monde” e depois grande repórter do “Nouvel Obs”. Em 2003 chateou-se, retira-se e publica o livro “Bien Entendu… C’Est Off” sobre o métier que fora o seu. Algo me diz que passados quase 10 anos continua bastante actual.»

 

Patrícia Reis: «A Egoísta GANHA mais prémios (sim, no plural!). Na 24ª edição dos Papies, a Egoísta levou para casa o Grande Prémio na Categoria de Revistas com a edição Viagem, outra na edição Cartas e ainda menção honrosa com a Egoísta Traço. A Estoril Sol, proprietária da revista, e a equipa da 004, que faz a mesma publicação há quase 12 anos, estão FELIZES.»

 

Rui Rocha: «A Amnistia Internacional divulgou ontem o seu 50º relatório anual. Aí se declara que a violência doméstica continua a ser um problema grave em Portugal. De acordo com o relatório, entre Janeiro e Agosto de 2011, a PSP e a GNR receberam 14.508 queixas de violência doméstica. Por seu lado, a UMAR tinha registado até Novembro de 2011 23 mortes e 39 tentativas de homícidio como resultado de violência doméstica. Tal como refere Vítor Nogueira, Presidente da AI, os números visíveis são extremamente preocupantes, mas constituem apenas a ponta de um icebergue de medo, dor e desespero.»

 

Teresa Ribeiro: «Ler na Imprensa que "um ministro ameaçou divulgar na Internet dados pessoais de uma jornalista" tem um impacto tremendo. A indignação é inevitável, o escândalo previsível. Mas quando se sabe que a intenção enunciada era a de divulgar que essa jornalista vive com o militante de um partido da oposição percebe-se os contornos da contenda e já não é bem sobre inadmissíveis abusos de poder que ficamos a cismar mas sobre as vicissitudes das relações entre políticos e jornalistas

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.05.22

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Cláudia Köver: «Acordar é como adormecer. É despertar para uma realidade inversa. É nadar no fundo do mar e por breves instantes não saber se estamos prestes a romper o espelho de água ou a descer ao fundo do mar.»

 

Helena Sacadura Cabral: «A ALUMNI, Associação dos Antigos Alunos de Económicas, comemorou ontem o centésimo primeiro ano da criação do ensino desta disciplina, tendo resolvido inaugurar um "quadro de honra" dos seus alunos mais brilhantes. Fui uma excelente estudante e, por isso, tive a distinção de ser convidada para participar da cerimónia. Aceitei e em boa hora o fiz.»

 

José António Abreu: «Os governos não perceberam que o sistema, cada vez menos assente nos rendimentos ligados à produção de bens e serviços com capacidade para fazer entrar o dinheiro que as vantagens da globalização – produtos baratos, facilidade de circulação de capitais – fazia sair, estava rapidamente a tornar-se insustentável e continuaram, através de impostos, taxas e quejandos, a desviar recursos da parte da economia verdadeiramente produtiva para a menos produtiva.»

 

Patrícia Reis: «Se não disser nada ninguém dirá nada. Posso ouvir o Caetano Veloso a cantar: alguma coisa acontece no meu coração... posso disfarçar e até esconder-me num ritual de consolo, pedir colo a quem mo dá, invisível, transparente, um pai fantasma que me leva nos dias. Se eu não disser nada ninguém dirá nada. E o recato, esse silêncio pelo qual anseio, é o melhor. O que me apavora é o amanhã de manhã. É ter sobrevivido a isto. Mas faço a vida de actriz. Porque não? Sou o avesso de tudo o que mostro hoje mas nada direi.»

 

Rui Rocha: «Estes factos permitem abrir duas linhas de reflexão. A primeira, de carácter geral, aponta para a existência de uma relação pouco saudável entre jornalistas e políticos. Demasiados telefonemas, cumplicidades, tricas, deslealdades, panelinha e conversas de botequim ali onde se impunha sobriedade, respeito e formalismo.»

 

Teresa Ribeiro: «Era uma pessimista inveterada, mas quando os problemas começaram a despontar à sua volta numa progressão geométrica, converteu-se ao optimismo por instinto. Somar às dificuldades a convicção de que não se iriam resolver tornou-se uma carga demasiado pesada, até para alguém habituado a esperar sempre o pior. Foi então que ela percebeu que só é pessimista quem pode.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.05.22

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Cláudia Köver: «A alma – se é que esta é a definição mais apropriada - pode por momentos abandonar o corpo quando sofre. Mas a alma não se descola das palavras, a não ser que esta seja corrompida, separando a expressão do sentimento real. O que fazer a estas palavras sem alma? O que fazer aos sentimentos reais que ficaram sem palavras?»

 

Fernando Sousa: «Extraordinário! Com correios assim as nossas polícias e quem as usa não precisam nem de conferências de imprensa nem de comunicados para criar oportunas diversões.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Teseu, o herói, depois de ter matado o Minotauro no labirinto em Creta, viu-se em dificuldades para sair lá de dentro. Apaixonada ou não por ele, o certo é que Ariadne, a jovem princesa cansada daquelas zoomórficas complicações familiares, decidiu que ao ajudá-lo se ajudava a ela. Ajuda-te a ti mesma, deve ter pensado, que o conhecimento viria depois e para alguma coisa lhe havia de servir ser neta do Sol. Os poetas já deram mil e uma explicações para o facto de Teseu ter abandonado Ariadne na ilha de Naxos.»

 

José Navarro de Andrade: «Em 1998, contra o aviso de opiniantes encartados, de politólogos televisivamente encadeirados e mesmo de pollsters munidos da sua estatística ciência, o povo do nórdico Minnesota, gente conhecida pela moderação e nada atreita a fantasias, elegeu para governador do seu gélido estado o Sr. Jesse Ventura. Jesse, the Body, assim era conhecido até que na campanha virou a sua alcunha para Jesse, the Mind.»

 

Leonor Barros: «Há alguma razão para o PSD e o CDS terem chumbado hoje os pedidos de audição na Assembleia da República sobre a alegada, ó bela palavra, pressão de Miguel Relvas ao jornal Público

 

Luís Menezes Leitão: «Tsipras tem o retrato de Che Guevara no seu gabinete e deseja fazer uma revolução como ele. A revolução passa naturalmente pela nacionalização de todos os bancos e pelo combate ao desemprego através da criação de novos cargos públicos e de empresas estatais. E quem vai pagar os custos desta política será naturalmente a solidariedade europeia, já que Tsipras não quer sair do euro. Mas não deixará de declarar a bancarrota, causando o caos em toda a Europa, se os restantes governos europeus não estiverem dispostos a financiar a sua revolução.»

 

Teresa Ribeiro: «Antes, quando me faziam uma proposta de trabalho ofereciam-me um salário líquido, ou seja, diziam o que me interessava saber, que era quanto eu ficava a ganhar. Agora propõem-me salários brutos, para que o impacto psicológico dos valores que me apresentam seja mais favorável e eu fique ciente, quando fizer as contas, de quanto é que pagam em impostos para me contratar.»

 

Eu: «Carlos Fuentes - uma das figuras cimeiras do chamado 'realismo mágico', que congregou nomes de romancistas que permanecerão ligados a um dos melhores momentos de sempre da literatura universal, como Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Miguel Angel Asturias e José Lezama Lima - era não só um grande ficcionista mas um excelente cronista, crítico, ensaísta, espectador sempre comprometido com os acontecimentos contemporâneos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 22.05.22

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Cláudia Köver: «Espaço. Há um determinado espaço que pode ser ocupado. Não há como preenchê-lo com mais do que o que lhe foi previamente destinado. Cabe uma pessoa. Cabe meia pessoa mais outra meia pessoa. Não cabem duas. Se eu quiser deixar uma pessoa se sentar, tenho, inevitavelmente que remover a outra.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não quereria estar na pele de quem tem de gerir este barco, tentando conciliar o interesse do país com a troika e uma certa ideologia. De facto, estes números podem ter várias leituras. A minha é preocupante. Mas eu só interpreto, não giro nem governo. E, sobretudo, tenho muito poucas ideologias. Sou uma tecnocrata, que é o pior que hoje se pode ser..

 

Luís Menezes Leitão: «Começa a ser evidente para todos que o euro está à beira do colapso. Tal deve-se à forma como foi concebido, destinado a ser a moeda única de uma Europa com economias muito diferentes. O euro poderia funcionar com base em políticas de coesão, mas essas são já passado. A partir do momento em que a crise se instalou e os países europeus adoptaram a regra do cada um por si, é evidente que o euro se tornou numa armadilha para os países do Sul que nunca conseguirão viver nas condições draconianas exigidas pela Alemanha.»

 

Rui Rocha: «Marx teorizou sobre a coisificação do trabalho. Só no século XXI foi dado um salto qualitativo. Álvaro Santos Pereira coisificou o desemprego. Passos Coelho desenvolveu a utopia da oportunidade. Tal como o próprio Marx previra, a história repetiu-se. Como farsa.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 21.05.22

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Fernando Sousa: «Suspenso o recolher obrigatório para uma noitada de póker, debaixo de um telheiro onde um dos condenados pintara a Última Ceia, com um dos apóstolos com o braço cheio de relógios, ganhos às cartas, a coisa correu bem durante um par de horas.»

 

José António Abreu: «É politicamente correcto respeitar quem, ao ter uma atitude estúpida, está a ser fiel a si próprio.»

 

José Navarro de Andrade: «Na tarde de 25 de Abril de 1961 toca um telefone algures em Los Angeles. É Dexter Gordon quem levanta o auscultador. Trata-se de uma chamada interurbana de Nova Iorque e do outro lado da linha apresenta-se o sotaque carregado de Alfred Lions, o dono da Blue Note. Em três tempos chegam a acordo: Dexter mudar-se-á para Nova Iorque, assim que legalmente lhe for permitido, e passará a gravar para a Blue Note. Se há telefonemas que salvam uma vida, este foi um deles.»

 

Luís M. Jorge: «Um partido com vocação executiva tem apoiantes de vários tipos. O “hardcore” é aquele cujos interesses materiais (trabalho, acesso a negócios) dependem do partido. O “softcore” é o que se motiva por causas, como a despenalização do aborto ou o casamento entre homossexuais. O “missionário”, tradicionalista, é o que vota em quem sempre votou e encara o partido como uma extensão do clube, da família e do contexto local ou regional.»

 

Patrícia Reis: «Cada vez estou mais convencida de que o melhor do mundo são os livros.»

 

Teresa Ribeiro: «Confrontada com o colapso iminente das economias que se propôs regenerar e com a incapacidade de avançar com soluções compatíveis com a sua cartilha ideológica, a direita liberal tem agora dez preocupações essenciais.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.05.22

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Ana Margarida Craveiro: «Pouco tenho lido de jornais e afins. O meu Google Reader também costuma ser brindado com um "mark all as read", que um dia dos meus parece que tem uma hora para fazer tudo e ainda uns trocos. Uma coisa é certa: pedidos de desculpa implicam uma assunção de culpas. E, a ser verdade o que estava na última página do Expresso, parece-me claramente insuficiente. Explosões todos temos, mas há quem não as possa ter, em virtude do cargo que ocupa. Tão simples quanto isto.»

 

Cláudia Köver: «Se eu fosse só uma, como poderia contar comigo mesma? Terei todo um universo no meu interior? engolido à nascença por inteiro ou que se move e cresce sem aviso?»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não sou porta-voz do Banco, nem ninguém me encarregou de tal tarefa. Mas enquanto antiga trabalhadora julgo ser meu dever fazer esta clarificação.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Quando encontrei a minha costureira, pedi-lhe um casaco comprido de Verão. Ela compreendeu-me e Deus ma conserve, até porque, hoje em dia, pouco trabalho lhe dou. Para não a cansar, claro. Fez-me muitos casacos compridos de Verão. Usava-os por cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, e sentia-me tão habillée; outras vezes, vestia-os sobre umas calças e uma camisa atada na cintura e sentia-me feliz. Ando a precisar de um casaco comprido de Verão.»

 

José António Abreu: «Por que vão as mulheres juntas à casa de banho?»

 

Laura Ramos: «Gosto de cartas... Escrevi e recebi tantas que, quando as reencontro, percebo que são documentos únicos que jamais serei capaz de repetir, agora que, há tantos anos, a electrónica tomou conta de mim e dos meus correspondentes.»

 

Leonor Barros: «Noventa minutos, uma bola, onze jogadores para cada lado abraçados por uma multidão em júbilo, uma massa exultante que se vai dividindo e esmorecendo, enquanto o tempo decorre e na proporção dos golos metidos nas respectivas balizas. Um balneário vedado aos demais e onde, ao que parece, acontece muito mais do que uma troca de roupa e massagens nos gémeos. E é isto. O futebol para mim é isto. Há contudo variáveis a incluir: se os jogadores são giros e morenos, pode abrir-se uma excepção para alguns louros, ostentam um belo par de pernas e um torso de fazer ruborizar a mais benta das mulheres.»

 

Luís M. Jorge: «Mário Crespo inaugurou outra campanha temerária contra a "asfixia democrática". Alguns blogues da direita, liderando pelo exemplo, organizaram manifestações à porta da Assembleia a que compareceram dezenas de cidadãos indignados. Rodrigo Moita de Deus vestiu-se de palhaço e fez marketing de guerrilha na Sant'Ana à Lapa.»

 

Teresa Ribeiro: «Há vozes desagradáveis, ridículas, envolventes, profundas, suaves, cuja marca influencia a forma como avaliamos os seus portadores. Imaginem o John Wayne com a voz tensa do Humphrey Bogart e algo de fundamental se perderia na composição do bom gigante. Jamais a Marlene Dietrich faria uma femme fatale convincente se tivesse o instrumento vocal da Melanie Griffith.»

 

Eu: «Dizer que o Chelsea "foi feliz" é o mesmo que dizer que jogou de azul. Um lugar-comum idêntico a tantos outros. Uma "explicação" que nada explica. Uma frase nada feliz.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 19.05.22

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Laura Ramos: «O jogo de amanhã no Jamor leva-nos obrigatoriamente ao outro Final da Taça em 1969, quando a crise estudantil coimbrã emergiu naturalmente na super estrutura desportiva mais original do país, a Académica, a defrontar-se com o Benfica no mesmo estádio nacional

 

Patrícia Reis: «Espero que tenham um bom coiso, eu por acaso até tenho um coiso, ou espécie de coiso, que terei de fazer, mas cada um tem o que merece e, sendo sábado, os coisos não descansam. Pobre país cheio de coisos? Qual quê, é um coiso como outro qualquer, garantem-me. Seja. Cada um é como cada qual e o coiso nacional é aquilo que os outros não são.»

 

Eu: «As peças jornalísticas de Ernest Hemingway no Toronto Star, de que foi repórter e correspondente internacional entre 1920 e 1924, estão finalmente disponíveis aqui. O que é um prazer enorme para todos os apreciadores da obra do autor de Adeus às Armas e O Velho e o Mar. Até porque a prática jornalística é indissociável da sua técnica como escritor

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.05.22

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Cláudia Köver: «Sou paixão. Não sei viver senão apaixonada. Por vezes, apaixonada por alguém. Sem paixão seria um corpo sem alma, um vagabundo sem rua, um poeta sem palavras.»

 

João Campos: «É lamentável que um jornal que se quer "de referência", como o Expresso, publique - na edição impressa ou on-line, é irrelevante - um artigo destes, puro lixo escrito por uma senhora que pelos vistos passa o tempo em frente ao computador a brincar aos jornalistas. É por estas e por outras que, em termos de imprensa, prefiro o Correio da Manhã

 

José António Abreu: «Faltam 30 dias para a Grécia ser governada pelo Bloco de Esquerda. Seguir-se-á um divertido braço de ferro (encontrando-me invulgarmente bem disposto, resolvi não lhe chamar chantagem). Se a Grécia o perder e anunciar a suspensão do pagamento da dívida, o estoiro será imediato e já bastante bonito. Se a Grécia o "ganhar", obrigando os europeus que mantêm algum dinheiro nos bolsos a suportarem-lhe os défices, a austeridade passará imediatamente de moda em toda esta nossa bela Europa. O que acabará por conduzir, num futuro não demasiado longínquo, a um estoiro ainda mais bonito.»

 

José Gomes André: «Na realidade, [James] Madison foi o primeiro autor a tematizar a ideia de federalismo, na sua dimensão teórico-conceptual e prática. Foi também o primeiro pensador a defender claramente as virtudes do pluralismo para uma sociedade livre, quebrando com o preconceito europeu nesta matéria (que fazia equivaler eficácia a homogeneidade). Madison foi ainda um dos primeiros autores a advogar o paradigma activo da liberdade religiosa (direito natural do indivíduo) por oposição ao conceito passivo da "tolerância" (mera concessão do governante).»

 

Laura Ramos: «Encarniço-me contra os hipócritas que clamam contra o fim do Estado Social, no sentido em que não é legítimo eleger este ou qualquer Governo do século como "o culpado". É uma desonestidade intelectual, claro.»

 

Eu: «Soares franco e frontal. E o Jornal de Leiria a confirmar que a imprensa regional portuguesa está em boa forma.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.05.22

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Ana Margarida Craveiro: «Qual a diferença entre economia numérica e economia não-numérica?»

 

Ana Vidal: «Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.»

 

José António Abreu: «Tendo ficado evidente no domingo passado, em Madrid, que os homens de negro o mantêm sob vigilância, alguém ainda acredita que o Federer não é um extraterrestre?»

 

Patrícia Reis: «O Micas é uma colecção infanto-juvenil que começou por ser uma prenda para o meu filho mais novo. Depois comecei a escrever sobre o Museu da Presidência, Serralves, a Fundação Oriente, o Oceanário, a Casa dos Patudos e a Primeira República e, por fim,  cheguei a este livro sobre o Benfica que, na verdade, é um sonho que nos leva à década de 60 do século XX e que faz uma homenagem a Eusébio e ao Bom Gigante. O Micas ficou contente.»

 

Rui Rocha: «Numa relação extra-conjugal com um homem que sofre de ejaculação precoce, a mulher peca sempre por tardia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.05.22

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Cláudia Köver: «Deveria haver um compartimento no nosso corpo reservado apenas para a saudade. Não teria de ser grande, porque a saudade no geral já é algo que aperta. Aperta o coração.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Alguém me explica a lógica desta decisão depois de todas as medidas restritivas anteriormente tomadas? Se há rendimentos de trabalho é porque há trabalho. Se há subsídio de desemprego é porque não há trabalho. Ou apenas trabalha quem tem emprego?!»

 

José António Abreu: «Há os países que se vão lixar por estarem sobreendividados. Há os países que se vão lixar por se estarem a sobreendividar. Há os países que se vão lixar por andarem a alimentar o sobreendividamento dos países mencionados nas duas frases anteriores. Há os países que se vão lixar porque vivem de vender petróleo ou gás natural aos países mencionados nas três frases anteriores. E há a Coreia do Norte.»

 

José Navarro de Andrade: «Sobre Lisboa a “Time” tudo faz para seduzir o seu leitor a dar um saltinho de fim-de-semana a esta cidade periférica, suficientemente exótica para prometer romantismo e suficientemente civilizada para que não se desconfie da higiene das saladas. Lá está o rosário de clichés, pintados com cores amáveis e atraentes: os pastéis de nata, os Jerónimos, o bacalhau, o vinho do Porto, o eléctrico 28, a Brasileira, a Ler Devagar

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.05.22

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Ana Vidal: «Depois da notícia arrasadora, o homem obrigou-se a subir, sem uma única paragem, os dezanove lanços da escada de serviço. Foi aumentando o ritmo da escalada até ficar sem fôlego. Precisava de se aturdir, de dar ao coração uma outra razão para bater como uma bomba em contagem decrescente. Mas não bastou. Chegou ao topo com vontade de recomeçar tudo, uma e outra vez

 

Fernando Sousa: «Carlos Fuentes. Sangravam-lhe os dedos quando escrevia, para mais quando o fazia sobre o México. Era inovador, ousado, corajoso. Leiam o Adão no Éden, acabado de editar entre nós e vejam pelos vossos próprios olhos. Era um escritor comprometido com o seu mundo, que é também o nosso. Topava os esquemas e arrancava máscaras, e isso a reinventar sempre a escrita. Esta noite olho para a minha estante e não me apetece ler sequer. Acho que vou sair e beber um copo. A ele.»

 

Helena Sacadura Cabral: «François Hollande tomou posse hoje como PR da França e parte de imediato para a Alemanha para se encontrar com Angela Merkel. Por muito que Hollande diga que leva na bagagem uma nova era no relacionamento entre os dois países, confesso que me causa um certo incómodo a rapidez com que esta viagem se realiza. É que tanta pressa - no próprio dia da tomada de posse... - configura mais subserviência do que o contrário.»

 

João Carvalho: «A notícia é de ontem e não deve ter escapado à maioria dos portugueses: Portugal passou a ser o quinto maior exportador mundial de tomate concentrado. Ou seja: já não nos chegava o lodo em que estamos enterrados, para agora sermos vítimas deste cenário tão incómodo. Concentrado, ainda por cima. E o que isto agrava, senhores, as nódoas nacionais? Livra!»

 

José António Abreu: «Na verdade, quem cala normalmente discorda mas laborar com base na outra versão é mais simples para ambas as partes.»

 

Eu: «Cada vez mais os políticos devem ser confrontados entre o que propõem aos eleitores e aquilo que são capazes de concretizar assim que ascendem ao poder.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.05.22

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Adolfo Mesquita Nunes: «A traição não nos acontece. Nós é que a chamamos, primeiro ao de leve, como quem finge que não quer, depois quase aos berros, como quem finge que resiste. Ainda que dependa da oportunidade, a traição é sempre um exercício de vontade. É por isso que, nesse momento em que nos sabemos presos, apenas nos resta abraçar a liberdade do arrependimento. Só ele respeita a traição enquanto aquilo que ela é: uma opção.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Este ano a Feira do Livro ajudou-me muito a voltar ao mundo real, apesar de ter sido muito estafante devido ao calor. Mas recebi tanto, mas tanto, carinho das pessoas que me procuraram, que não tenho o direito de me queixar. Foram esses abraços carinhosos, esses beijos sentidos que me devolveram a uma certa forma de vida quotidiana.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Quem tem fome não vota em partidos de protesto, vota em partidos de acção.»

 

José Navarro de Andrade: «Para estes eméritos juristas a qualidade de uma legislação afere-se em abstracto. A lei é em si mesmo de uma bondade inapelável, o problema é essa coisa abjecta e contingente chamada realidade à qual ela, desgraçadamente, se vê obrigada a descer. A santidade intrínseca da lei é conspurcada pela malvadez inata dos homens.»

 

Leonor Barros: «Este primeiro-ministro conseguiu um feito único: ser o primeiro-ministro mais vaiado em menos tempo de governação e digamos que em termos de comunicação difícil é pior. Alguém que o aconselhe que o rapaz anda desgovernado. Como nós, de resto.»

 

Luís M. Jorge: «As caixas de comentários dos grandes blogs colectivos recordam-me sempre uma boutade do Eça de Queirós em que se explicava a alguém que nos bordéis de Lisboa todas as meninas eram miguelistas.»

 

Rui Rocha: «António Seguro garante que é a cara do emprego. Isto preocupa-me. Confesso que vi o emprego poucas vezes. E há muito tempo. Mas estava capaz de jurar que tinha um aspecto muitíssimo diferente. Por isso, das duas uma. Ou sou mesmo um péssimo fisionomista e não o consigo reconhecer quando dou de caras com ele, ou Seguro não se tem visto ao espelho. Nenhuma das alternativas é, convenhamos, muito agradável. Em todo o caso, uma coisa é certa. Se Seguro tiver razão, está na cara que se trata de emprego precário.»

 

Eu: «Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.05.22

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Helena Sacadura Cabral: «Hoje houve eleições em dois países europeus. Um, a Grécia, mergulhado numa crise como não há memória, deu ao partido socialista uma derrota da qual vai ser difícil sair. O outro, a França, a caminhar para uma crise cujos contornos são ainda pouco claros, deu ao socialista François Hollande o seu voto para que ele ponha em prática as sessenta medidas com que se comprometeu.»

 

José António Abreu: «As declarações de Passos Coelho sobre o desemprego foram infelizes, sim senhor. A crise é real e há milhares de pessoas sem perspectiva. Mas teriam sido mal recebidas ainda que as circunstâncias fossem outras, menos graves. Os portugueses são hiper-sensíveis a opiniões claras e desagradáveis. Como, há uns tempos, nos ofenderam as palavras de uma actriz brasileira. Como, durante anos, reagimos mal aos alertas de gente sem jeito nem paciência para disfarçar opiniões: Medina Carreira e Manuela Ferreira Leite, por exemplo. Estamos habituados a escutar em silêncio e a preferir uma promessa que suspeitamos vazia a um aviso sincero.»

 

José Maria Gui Pimentel: «A política de comunicação do governo é, de facto, fraquíssima. Já as célebres afirmações da “pieguice” seriam mais compreensíveis se devidamente contextualizadas.»

 

Luís Menezes Leitão: «Passos Coelho está tão disciplinado à ortodoxia germânica que até declara publicamente que Portugal é contra os eurobonds, os quais, apesar de inaceitáveis para a Alemanha, nos seriam altamente favoráveis. E para que não tenhamos sequer ilusões sobre a actual realidade em que estamos, Passos Coelho mandou até abolir o feriado que comemora a independência de Portugal.»

 

Luís M. Jorge: «A questão não é a de sabermos o que os desempregados podem fazer por si, mas antes o que deve o primeiro-ministro fazer por eles. Para quem ouve Passos Coelho é sempre fácil esquecer que o país lhe confiou um trabalho, não a mesa de um café.»

 

Patrícia Reis: «Passos Coelho decidiu ir, com um séquito desnecessário, ao último dia de feira do livro de Lisboa. Além dos manifestantes que o assobiaram e apelidaram de ladrão, dos polícias com cara de mau, não lhe vi um livro na mão. António Lobo Antunes demorou-se a sair da sua mesa para cumprimentar o senhor. Afinal, estava a trabalhar, a receber os seus leitores. Foi uma sorte, com tantas televisões e outros órgãos de comunicação social por perto, não ter dito nada de bombástico.»

 

Eu: «Lentamente, a política regressa à Europa. A política que põe teses em confronto e rejeita todo o pensamento unidimensional. A política que fomenta e sedimenta alternativas, recusando rotas "inevitáveis" traçadas de antemão. Devemos congratular-nos. Este é o cerne da democracia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.05.22

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Adolfo Mesquita Nunes: «A morte é para onde vão as almas. Tudo o resto pode ficar por cá: a voz, as palavras, a obra, até o cheiro. Mas é a alma, que não volta mais, que nos escapa sabemos lá até quando. Não sei, por isso, neste tempo, dedicar-me à evocação daquilo que o engenho permite reter. O inglório esforço de agarrar a alma ocupa-me a mente. Há tempo para o resto.»

 

Rui Rocha: «Dificilmente se compreende que Passos Coelho, que considerou, em Maio de 2011, uma taxa de desemprego de 12,4% como um valor extremamente elevado que representava um sinal evidente da crise profunda que estávamos a atravessar, transforme agora, menos de um ano depois, a tragédia social a que então se referia numa promissora oportunidade.»

 

Eu: «Além do camarada Carlos Vidal, também o Renato Teixeira necessita com urgência de anti-histamínicos. Consequências desta "Primavera global", com tanto pólen de gramínea pseudo-revolucionária aí à solta.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.05.22

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Ana Margarida Craveiro: «Sobre as declarações do primeiro-ministro sobre desemprego, só me ocorre uma coisa: nem tudo o que se pensa, por mais verdadeiro que seja, se pode dizer em voz alta. Porque não somos todos bestinhas insensíveis, embriagados com powerpoints de empreendorismos e afins. Há desemprego, e desemprego. E se estas declarações podem ser verdade para alguns (admitindo que "mudar de vida" para um rapaz ou rapariga de 25/30 anos não é o fim do mundo), são uma ofensa para muitos outros, que aos 55 anos vêem o local de trabalho de uma vida inteira fechar, sendo que as oportunidades a mais de meio da vida tendem a não ser abundantes. Nem tudo o que se pensa pode ser dito, repito.»

 

Ana Vidal: «Numa experiência inédita para aproximar a monarquia inglesa do povo, o príncipe Carlos de Inglaterra apresentou a meteorologia na BBC. Seguiu-se-lhe Camila, com mais nervos e menos graça. Nada de novo para nós, afinal. Sir Passos Coelho e master Gaspar passam a vida a anunciar-nos raios e coriscos, e lady Cristas até vai mais longe: não só nos fala do tempo como tenta dominá-lo com orações.»

 

André Couto: «Os piegas, aqueles que não vivem na bolha dos Gabinetes e das Assessorias, nem viveram sempre para a Jota, ficariam imensamente felizes, não fosse a precariedade que os coloca em situações delicadas quando são despedidos, sem direitos nem protecção. Para além disto são ainda os afogamentos violentos em impostos e as barreiras insuperáveis ao empreendedorismo. Oportunidade? Onde? Como? É uma visão fofinha do desemprego, não fosse ser a do País das Maravilhas, não a do nosso.»

 

João Carvalho: «A Justiça pode, uma vez mais, limpar as mãos à parede, ao confirmar o que já toda a gente sabia que ia acontecer.»

 

José António Abreu: «O moralista disléxico chamava-se Erasmo Coina de Carvalho e não conseguia evitar enganar-se ao dizer ou escrever o nome.»

 

Leonor Barros: «Devia ser proibido morrer-se jovem.»

 

Patrícia Reis: «Ao almoço, uma mulher pontificou sobre sexo. Ao jantar, um homem, numa situação diferente, mais formal, terminou a fazer o mesmo. Separa-os qualquer coisa  como 15 ou 20 anos, não sei ao certo. Para a mulher, o sexo é uma necessidade, precisa de quem lhe toque. Para o homem, a poligamia é o que faz mais sentido. Tudo explicado com muitos pormenores, o número de amantes, as fantasias, as frustrações. As pessoas não falam abertamente sobre a sua sexualidade. A maioria tem receio ou pudor. Aqueles dois são, decerto, mais felizez. Ou talvez não

 

Rui Rocha: «Enquanto o Príncipe herdeiro do trono do Reino Unido apresenta o boletim meteorológico, limitando-se a explicar as consequências da Low Pressure situada sobre as ilhas britânicas,  a  Ministra da Agricultura da República Portuguesa, também conhecida por "Cristas de Baixas Pressões", manda chover. Penso que estamos conversados quanto à eficácia de uns e de outros.»

 

Eu: «Ainda há poucos dias, no velório de Miguel Portas, comentava com um amigo comum: "Este ano está a ser mais doloroso do que qualquer um de nós previa." Como nos versos que Pedro Tamen tão bem soube colar à dilacerante melodia de Carlos Paredes. «Era o segredo / sem ninguém para ouvir / era o engano / e era o medo / a morte a rir / dos nossos verdes anos.» Uma espécie de hino nacional ao contrário. Sem heróis do mar nem egrégios avós.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.05.22

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Helena Sacadura Cabral: «Nem todos podem ser políticos. O exercício desta carreira vai muito para além da profissão. À mulher de Cesar diz-se que não basta ser séria. É também preciso parece-lo. Na política passa-se o mesmo. Não basta ser bom e competente na área da sua dependência. É preciso saber fazer passar a mensagem. É afinal, também, preciso parecer-se sério.»

 

João Carvalho: «Conhecido pela sua perspicácia, Vasco Lourenço pôs o dedo na ferida: Soares, ex-Presidente da República, "está pujante e no seu melhor" por defender que o PS rompa o acordo que assinou com a Troika? Se o popular Vasco Lourenço o diz, então deve ser mesmo isso.»

 

José António Abreu: «Com a praga do desAcordo Ortográfico a disseminar-se rapidamente, as livrarias tornaram-se espaços onde as editoras nacionais me recomendam livros a comprar na Amazon. Assim sendo, gostaria de agradecer à Eucleia a sugestão de Quanto Mais Depressa Ando Mais Pequena Sou, de Kjersti Skomsvold (aprecio tanto a literatura nórdica), à Quetzal a de Tudo Arrasado, Tudo Queimado, de Wells Tower (diga a Academia Nobel o que disser, a literatura norte-americana permanece muito interessante), à Bertrand a de Ferrugem Americana, de Philipp Meyer (reler o parêntesis anterior), à Porto Editora a de O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu, de Jonas Jonasson (reler o primeiro parêntesis) e à Ahab (de tal modo a minha editora favorita que comprei todos os livros que lançou até há duas semanas) por A Ilha de Caribou, de David Vann (autor de A Ilha de Sukkwan, talvez o livro que mais gostei de ler em 2011 e prova de que a literatura norte-americana, diga a Academia Nobel o que disser, permanece indubitável, insofismável e inelutavelmente muitíssimo interessante).»

 

José Maria Gui Pimentel: «Somos um povo engraçado. Vivemos num país peculiar, único numa espécie de limbo muito seu. Por um lado estamos alojados na Europa ocidental -- um dos centros do mundo desde pelo menos o século XVI --, temos uma história rica e uma cultura quase milenar. Por outro, somos quase irrelevantes política e economicamente e a nossa história…bom, digamos que, no mínimo, não tão rica que valha por si só (como a da Grécia, por exemplo).»

 

Luís M. Jorge: «Estamos tão contaminados pela retórica liberal que se torna necessário um trabalho de higiene: os Estados precisam de recuperar a autoridade que perderam. Os Estados devem decidir que dívidas pagam, quando as pagam e em que condições. Alcançar isto é o trabalho da Esquerda.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.05.22

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Ana Vidal: «Parece incrível, mas a publicidade já foi assim. Mulheres penitentes, maridos magnânimos. Tragédias domésticas de proporções bíblicas, e... a salvação numa cerveja

 

Helena Sacadura Cabral: «Retomei a normalidade do quotidiano. Foi com alguma dificuldade. Mas com uma enorme mais valia, porque faço tudo mais devagar. Encontrei finalmente tempo para olhar à minha volta e descobrir cores e volumes que via todos os dias sem os olhar.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Um escritor não escreve contra o Mundo, o Mundo ordena-se para ele e ele devolve-no-lo, ordenando as palavras na ordem que mais lhe aprouver. Assim a charneca do Yorkshire retorceu as árvores que Emily Brontë nos leu, assim as intrigas se dobraram nos lençóis do Douro onde Agustina nos deitou. O Mundo dá-se ao escritor e o escritor devolve-o ao mundo que é como quem diz a nós que somos comuns.»

 

João Carvalho: «Trata-se de um grupo de inspectores a ver se descobre onde é que Mário Lino, António Mendonça e Paulo Campos enterraram tantos milhões em tão pouco tempo

 

José António Abreu: «Certas carreiras – e vidas – ficam marcadas por um ou dois acontecimentos a que nunca mais é possível escapar. Na carreira de Sinéad O'Connor, os acontecimentos foram dois e ocorreram há cerca de vinte anos. Consistiram numa versão sublime de um original de Prince (Nothing Compares to You) e no acto – insensato, corajoso ou ofensivo, consoante o entendimento de cada um, mas indubitavelmente sincero, ao invés de tantos outros que se vêem por aí hoje em dia – de ter rasgado uma fotografia do Papa durante um episódio de Saturday Night Live

 

José Navarro de Andrade: «Bem sei que a música electrónica está em baixa desde que Xenákis e Stockhausen pregaram um grande susto aos ouvidos comuns, já lá vão uns 40 anitos. Doutro modo, há quem oiça nela despropósitos new age, com incenso e tudo, mais adequada a lobbys de hotel trendy, tipo W, ou a ambientes de spa de águas frescas. Imploro por isso a vossa indulgência com Pulse Emitter, natural do Oregon, terra de intermináveis florestas húmidas. Quando escuto isto, viajo. E de olhos fechados vejo melhor esta música.»

 

Luís Menezes Leitão: «Desde que D. Afonso Henriques decidiu dar a independência a este cantinho à beira-mar plantado que, com excepção do tempo dos Filipes, não temos um Governo tão subserviente aos ditames do estrangeiro.»

 

Patrícia Reis: «O homem que teve de despedir cinco pessoas passou sete dias ao telefone. O objectivo era arranjar emprego aos seus ex-empregados. Conseguiu quatro entrevistas. Informou quatro dos empregados. Um respondeu que não estava disponível para ir a entrevistas por ter férias marcadas. O homem continua a ansiolíticos

 

Rui Rocha: «Afirmar que Mário Soares é um animal político pressupõe uma definição incompleta do pai presumido da nossa democracia. Soares não é um animal qualquer. O que o caracteriza, antes de tudo o mais, é o faro apurado. Esse faro que lhe permitiu, em tantas ocasiões, suprir as suas evidentes limitações. Soares é um perdigueiro. Espetou as narinas na realidade destes dias que nos consomem. To Zé Seguro olha para Hollande e vê uma tábua de salvação. O olfacto de Soares diz-lhe que Hollande passou a representar uma urgência. Louçã carrega mais nos erres com o resultado do Syriza na Grécia. A Soares cheira-lhe a esturro. Enquanto outros se encantam com a transformação da França em Lalallande e da Grécia numa Nãopagamoscracia, Soares já viu o filme todo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.05.22

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Ana Cláudia Vicente: «Vi carrinhos de bebé quitados com os mais variados e coloridos impermeáveis; pais ataviados como quem comprou bilhete para ir à Patagónia; casais de miúdos com aquela pinta de quem acabou de chegar da viagem à Serra da Estrela. Poucos com medo da chuva e de molhar o sapatinho. Sempre gostei deste ambiente  todo-o-terreno.»

 

Ana Vidal: «A mulher olhou o homem demoradamente. Escorria pelo sofá abaixo, descomposto, de comando na mão e olhos fixos no écran da televisão. "Se algum dia deixar de te amar, é porque morri". Afirmara ele um dia, pomposo, ainda príncipe encantado. Quantos anos passados? Tantos, tantos. Não sabia porque se lembrara agora daquilo. Olhou-o de novo, quase condoída, mas não resistiu ao masoquismo do teste

 

João Carvalho: «Mário Soares não se limitou a ir buscar o socialismo à gaveta: já declarou que o primeiro-ministro está a governar mal, juntou-se aos que faltaram ao 25 de Abril (mais parecido com o sempre perspicaz Vasco Lourenço e menos com o faustoso Presidente da República que foi) e agora até diz que o País deve romper com a Troika e que o PS deve mandar às urtigas o acordo que subscreveu

 

José António Abreu: «Os meus instintos flutuam entre uma seriedade mal amanhada e uma idiotice plenamente conseguida. Baseado na ideia de que é preferível apostar naquilo em que se é bom, tento com frequência convencer a minha faceta séria a deixar-me abraçar em definitivo a via da idiotice. Ela recusa e cobre-me de insultos. Nas pausas entre eles, uma vozinha diz-me que se trata de uma péssima ideia por, nesse campo, a concorrência ser numerosa e feroz mas ignoro de que faceta provém.»

 

Rui Rocha: «Já estou por tudo. Que aumentem impostos, que cortem na saúde, que esqueçam compromissos, que prometam repor os subsídios às pingas, que nos mandem emigrar, que ponham 30 alunos em cada turma, pronto, um tipo torce-se todo, mas ainda vá que não vá. Agora isto, isto já me parece um bocadinho de mais: Corpo de Deus suspenso até 2017.»

 

Eu: «Remarque e Saramago: dois destinos que se cruzaram nesta obra. O alemão que sonhou com o Nobel e nunca o recebeu por ser considerado demasiado "comercial" (só A Oeste Nada de Novo, lançado em Janeiro de 1929, vendeu mais de um milhão de exemplares no decurso desse ano) e o português que venceria o cobiçado prémio em 1998, mais de quatro décadas depois de ter feito esta tradução - e apesar de ser já então um autor de grande sucesso em Portugal, Espanha, Brasil e vários outros países, numa demonstração óbvia de que vender bem não é sinónimo de falta de qualidade literária