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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.06.21

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Ana Lima: «No dia em que passam 123 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa ficam aqui umas citações provocatórias.»

 

Fernando Sousa: «No dia seguinte fomos ao liceu de Nampula, depois comprar livros e cadernos, lápis, borrachas, canetas, calções e mais T-shirts. Passou a dormir na camarata dos soldados. Não sou capaz de descrever a felicidade da cara dele – tudo o que me ficou do meu pequeno amigo.»

 

José António Abreu: «Se ninguém contesta a imponência do Duomo, muita gente ao longo dos séculos questionou-lhe beleza e coerência arquitectónicaOscar Wilde terá sido o  detractor mais famoso: considerou-o um falhanço monumental, salientando que os pormenores mais atraentes estão a altura excessiva para poderem ser devidamente apreciados. Já Mark Twain, outro autor com queda para as tiradas corrosivas, adorou-o. Eu, que não passo de uma alma simples, sempre disponível para ser maravilhado, concordo mais com Twain.»

 

Rui Rocha: «Um dia normal: Lisboa em festa e o resto do país a trabalhar.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.06.21

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Fernando Sousa: «"Mal empregado, não acha?" - perguntou a vizinha, sobre um carro adormecido, há anos, debaixo do telheiro. A passagem, perto, de uma patrulha da GNR, em marcha lenta, obrigou-me a abandonar o quintal. Não cheguei a ver a marca da lata velha. Pareceu-me só que não era um Cadillac 75, nem um Chrysler Imperial nem um Mercedes-Benz 700, alguns dos carros que ele usou. Mesmo assim talvez devesse estar no museu onde estão os outros: ouviu conversas que nos condicionaram a todos.»

 

Laura Ramos: «Haverá sempre cara e coroa no mundo em que vivemos. Mas isto ultrapassa tudo quanto é admissível num país da UE. Como é possivel termos chegado a tanto, debaixo do nosso nariz?»

 

Rui Rocha: «Guarda-chuvas, pen-drives, chaves e comandos de garagem ou de automóvel, cartões de todo o tipo, esferográficas e users e passwords de aplicações que uso raramente, como o Skype ou o site das finanças. A questão é: isto só me acontece a mim, ou estas coisas foram concebidas com o único objectivo de nós, os humanos, as perdermos?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.06.21

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Ana Lima: «Estamos no mês, por excelência, das festas de Lisboa. Misto de sagrado e profano, todos os anos estas festas enchem ruas, praças, becos, sobretudo no que se convencionou chamar bairros populares que, nesta altura, se tornam locais de “romaria”.»

 

Ana Sofia Couto: «Há algum tempo, falei aqui deste problema: o número de cães abandonados na Serra da Arrábida estava a aumentar. Chamam-lhes animais errantes e dizem que alguns estão num estado selvagem. Há relatos de moradores assustados. Conheço algumas associações que já recolheram vários animais, e sei bem que não é possível fazer muito mais. Existem casos em que, devido à falta de espaço, os animais ficam em casotas fora das instalações da instituição.»

 

Ana Vidal: «Ao contrário das cerejas, devia saber-se parar a tempo as conversas.»

 

Fernando Sousa: «O portão rangeu, protestou, resistiu mas a minha curiosidade foi mais forte do que os pudores da História. Imaginei debaixo destas ervas um chão de granito, um menino a brincar, entre patos e galinhas, e mais tarde um homem feito a ler dossiers. "Vinha cá poucas vezes, mas quando vinha o quintal ficava cheio de gente!" - gritou a cicerone. "Já reparou aí debaixo do telheiro à sua direita? Espreite! Espreite! Não tenha medo que não vem ninguém! As pessoas nunca dão a volta, nunca vêm a este lado. Não querem saber! Ninguém quer saber!"»

 

João Carvalho: «Foi pena Hugo Chávez não ter vindo submeter-se à cirurgia a Valadares (Vila Nova de Gaia). Partindo do princípio de que um abcesso pélvico ou na virilha é praticamente a mesma coisa e que a suposta especialista Virgínia Evangelista ainda lhe teria feito uma bela epilação a uma perna inteira, Chávez teria ganho uma axila totalmente gratuita. E convenhamos que regressar a Caracas com três axilas iria deixar roídos de inveja tanto os seus inúmeros inimigos como o seu amigo Sócrates.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.06.21

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Cláudia Köver: «Hoje o "jornal com o melhor design do mundo" apresenta uma descrição da imagem portuguesa aos olhos de 163 estrangeiros. Entre as muitas citações recebidas o "i" esqueceu-se de editar pelo menos uma das opiniões, na qual se lê: "Onde seria possível conhecer uma pessoa tão amorosa como a Cláudia?". Infelizmente não entrei para a avaliação final dos termos mais associados ao nosso país - tête-à-tête com o "Cristi", o fado e a sardinha.»

 

Fernando Sousa: «"Lá ao fim! Lá ao fim! Tá a ver? Aquela portinha? Era a adega! Aquilo é que era bom vinho!" - atirou a excitada moradora da casa ao lado. "E aí, à direita, nessas portinhas era onde guardavam os cereais, enxadas e coisas assim!" Mas o abandono secou as traves, os tectos começaram a ceder e as ervas foram tomando o adro onde gente humilde privou com gente grande - ninguém diria. "Mas entre, entre. Empurre o portão!..."»

 

Rui Rocha: «José Sócrates vai para Paris defender o sistema de ensino público português?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.06.21

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Ana Margarida Craveiro: «Pelos vistos, não se pode comentar os discursos do senhor Presidente da República. Corremos o risco de estar a denegrir a imagem da Presidência. O respeitinho também chegou a Belém.»

 

Fernando Sousa: «Uma mulher tão antiga como este portão e estas ruínas abeirou-se do terceiro andar da casa vizinha e gritou: "Dê a volta, dê a volta e vai ver!" Eu fui. Ela já estava debruçada da janela do outro lado. "Vê? As pessoas nunca dão a volta! Não sabem!" Você, leitor, sabe? Espreitou por cima deste muro?»

 

José Maria Gui Pimentel: «E se Pedro Passos Coelho convidasse Teixeira dos Santos para ministro das Finanças? Vamos assumir que a enorme probabilidade de o próprio não aceitar não se concretizava. Seria, sem dúvida, uma medida muito arriscada, em termos de capital político. Porém, numa altura em que os prazos para o cumprimento das medidas da Troika são apertadíssimos, um Ministro que não necessitasse de adaptação seria uma mais-valia substancial.»

 

Luís M. Jorge: «Alessandra Augusta, de 40 anos, veio do Leblon ajudar Passos Coelho na campanha eleitoral. Não deve ter sido fácil. Ela explica em entrevista ao Sol como se adaptou a uma campanha em directo, assente nos free media (por oposição aos anúncios pagos que dominam a política brasileira) e em que os debates incluem perguntas a sério do moderador (na terra do samba eles ligam o relógio e calam a boca).»

 

Rui Rocha: «Pelo que se viu no lançamento da candidatura, Francisco Assis pode muito bem tornar-se num líder de cariz asmático.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Quem faz da cidadania e do serviço aos outros o seu lema de vida só pode ficar deprimido quando chega o 10 de Junho e olha para as listas de condecorados do regime.»

 

Eu: «Dois artigos de opinião publicados esta segunda-feira na imprensa diária revelam que os socialistas estão a digerir da pior maneira a pesada derrota eleitoral do partido nas legislativas de domingo. Vale a pena comentá-los, um de maneira sucinta outro com um pouco mais de atenção.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.06.21

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Ana Lima: «O VIII Congresso Europeu de Tribunais de Contas decorreu a semana passada em Lisboa. Os cartazes ainda se encontram em alguns mupis na cidade. Eu sei que o nome da organização é mesmo assim: European Organisation of Supreme Audit Institutions. Mas há alturas em que mais vale substituir as siglas pelo extenso. Ou será que nos estão a querer dizer alguma coisa?»

 

Ana Sofia Couto: «Girlfriend (2010), um dos grandes filmes para ver no Festroia 2011. O folheto com o programa do festival resume a história: Evan é um jovem com Síndrome de Down. Quando recebe uma considerável quantia de dinheiro, usa-o para conquistar Candy, uma antiga colega de liceu. Pela sua interpretação extraordinária, Evan Sneider merece toda a nossa atenção, numa obra que é mais do que um filme sobre pessoas com Síndrome de Down. É um filme de grande sensibilidade sobre o amor e a compaixão.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Depois do discurso de demissão, em que nos comoveu com a declaração “o meu coração está preenchido, não há nele outro sentimento que não seja o amor ao meu país, amor aos meus compatriotas", José Sócrates não conseguiu conter as emoções à flor da pele e deixou a Comissão Nacional do PS com um simples mas repleto de emoção: “eu adoro-vos”. Onde é que eu já vi isto?»

 

Rui Rocha: «António Costa não vai apresentar-se às eleições para Secretário-Geral do PS. É pena. O sucesso da sua candidatura constituiria uma oportunidade única para proceder à urgente e indispensável renovação de uma das instituições fundamentais da democracia portuguesa. Refiro-me, naturalmente, à Quadratura do Círculo.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «É só para dizer que não me revejo nas declarações de Ana Gomes sobre Paulo Portas. E, além do mais, não compreendi o exemplo dado, em especial quanto à falta de idoneidade pessoal do visado. Perdoem-me a ignorância, mas estas coisas têm de ser ditas às claras e sem meias-palavras.»

 

Eu: «Se não é possível acumular as funções de secretário-geral do PS com as presidente da câmara de Lisboa, como será possível acumular as funções de secretário-geral do PS com as de primeiro-ministro?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.06.21

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Ana Margarida Craveiro: «O ar já é outro, mas algumas personagens ainda vivas persistem em chafurdar na imundície e mediocridade. Ana Gomes, com estas insinuações (não são declarações, são só a forma mais vil de boato), revestiu-se de indignidade e vergonha. Seria bom termos um pedido de desculpas, mas não tenho grandes esperanças em relação a tal. Fica só o incómodo por termos figuras públicas com responsabilidades relevantes - eurodeputada, diplomata - tão nojentinhas (perdoem a palavra).»

 

Cláudia Köver: «Todos nós sabemos que muito do que é a Alemanha de hoje e os seus hábitos peculiares já se propaga desde o tempo dos Habsburger. É por isso que, através do passado, poderemos melhor compreender algumas decisões históricas e até um pouco da actualidade germânica.»

 

Rui Rocha: «O discurso da derrota de José Sócrates foi 90% de transpiração e 10% de inspiração assistida. Por teleponto.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Um campanha sem cartazes e com pouco lixo é uma bênção. E a prova de que os eleitores não dependem do aparato para escolher. Seria bom que de futuro fossem todas assim. Poupavam os partidos, poupava o erário e ganhava o ambiente.»

 

Eu: «Muitos 'analistas políticos', em televisões e jornais, andaram semanas a falar em "diferença mínima", em "equilíbrio", em "taco a taco". Usavam como critério exclusivo de avaliação as 'sondagens' que apontavam invariavelmente para um "empate técnico" entre o PS e o PSD. Alguns foram ao ponto de garantir que José Sócrates "ganhou" o debate com Passos Coelho. Parecia que falavam de um debate virtual - não daquele que aconteceu. Com a realidade a passar-lhes totalmente ao lado.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.06.21

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José António Abreu: «Foi toda a gente cordata (excepto aquela jornalista que questionou Sócrates sobre os processos judiciais; o respeito esvai-se tão depressa, caramba), Louçã engasgou-se apenas uma vez (nada mau, atenção, para quem teve aqueles resultados), Jerónimo lá conseguiu arranjar maneira de poder reclamar um bom resultado (começo a pensar que não é por acaso que os circos dos países comunistas têm sempre excelentes contorcionistas) e se Passos Coelho pensar bem no assunto talvez conclua que não é pior depender dos deputados do CDS para garantir a maioria absoluta do que seria depender dos deputados do PSD eleitos pela Madeira.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Já repararam que os únicos partidos de direita em Portugal parecem ser o PPV e o PNR? No PSD e no CDS (não falando sequer da Nova Democracia) existe um temor profundo em ser rotulado de partido de direita. Começa pelos nomes de ambos: Partido Social Democrata e Centro Democrático Social dificilmente serão reconhecidos por algum estrangeiro como partidos de direita (já Partido Popular seria bastante mais óbvio, mas esse nome passou a ser um empecilho para Paulo Portas há muito).»

 

Luís M. Jorge: «Passos Coelho canta em barítono técnico.»

 

Rui Rocha: «José Sócrates demitiu-se em 23 de Março. Foi necessário esperar um mês e meio pelas eleições. Na melhor das hipóteses, e tendo em conta todos os trâmites previstos, o novo governo tomará posse dentro de três semanas. Em qualquer caso, entre o momento em que a crise política foi aberta e a entrada em funções dos novos titulares do poder executivo terão passado não menos de dois meses. Sem invocar sequer o exemplo inglês que resolve a coisa em algumas semanas, é absolutamente necessário encurtar os prazos de transição do poder em Portugal.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Vai haver muito trabalho, muito trabalho mesmo, para quem queira trabalhar, limpar a casa e espera um dia poder voltar a ver uma liderança competente e prestigiada, que saiba ouvir, dialogar e comunicar para dentro e para fora do partido usando a mesma linguagem. Em suma, um líder à altura da tradição e dimensão do partido, capaz de dar esperança aos portugueses e aos militantes anónimos que nele confiam, exigente e responsável.»

 

Eu: «Foi vergonhosa a tentativa de manipulação dos eleitores através de sucessivas sondagens que apontavam para "empates técnicos". Nunca houve tantas sondagens numa campanha e nunca as sondagens falharam tanto. Os resultados das urnas demonstraram que não podia haver situações de efectivo empate técnico a tão poucos dias do exercício do voto. Aqui está um tema de urgente reflexão por parte dos responsáveis das empresas de sondagens e por parte dos responsáveis editoriais que as divulgam.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.06.21

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Ana Vidal: «É bom lembrar que nos esperam dias muitos sombrios, e também particularmente difíceis para quem estiver no governo, seja de que cor for. Espero que se mantenha este realismo prudente e lúcido, que significa um pudor mais do que justificado.»

 

Fernando Sousa: «Por favor, alguém sabe quanto custa uma passagem para Porto Galinhas?»

 

João Campos: «O PSD elegeu um deputado em Beja.»

 

José Gomes André: «Já corre champanhe no meu barraco.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Um candidato assumidamente liberal e com um estilo caracterizado pela maioria da opinião publicada como ingénuo (nos casos mais brandos) e pouco inteligente (nos mais ásperos) acaba de ter um amplo apoio eleitoral. Estou, de facto, agradavelmente surpreendido. A opinião publicada não corresponde efectivamente à opinião pública.»

 

Laura Ramos: «Espero que [Aguiar-Branco] tenha muita influência nos tempos que se seguem.»

 

Leonor Barros: «Embora não seja da cor e não tenha por isso ajudado à eleição aqui ficam os meus Parabéns ao nosso Adolfo que foi eleito pelo CDS. Acima de partidos, acredito em pessoas e o Adolfo é uma das pessoas em que acredito.»

 

Luís M. Jorge: «Foi preciso que Sócrates se demitisse para que os jornalistas lhe fizessem perguntas difíceis.»

 

Rui Rocha: «O grande vencedor, Passos Coelho, tal como o país, não têm nada para festejar. Para lá do ruído das claques partidárias, está lá fora um Portugal devastado. E um desastre não se festeja. O esforço no sentido de controlar os danos e de reconstruir sobre as ruínas não se compadece com foguetório e espectáculos de variedades. Neste cenário, o próximo governo não terá, desta vez, um minuto de estado de graça. Na verdade, o que o espera, e a nós com ele, é um estado de desgraça que vai exigir que todos sejamos capazes de nos transcendermos.»

 

Eu: «Como é óbvio, depois da hecatombe eleitoral do PS, José Sócrates tem o estrito dever democrático de renunciar já esta noite às funções que desempenha. Não me refiro apenas às de primeiro-ministro, mas também às de secretário-geral dos socialistas. O PS merece outro líder. Tão cedo quanto possível.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.06.21

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João Carvalho: «Consta que a locomotiva estacionada este fim-de-semana à porta do Ministério das Obras Públicas tem despertado alguma curiosidade. O DO foi saber e está em condições de informar que a máquina e o respectivo vagão estão ali para carregar as peças do TGV na próxima segunda-feira e levá-las para longe, como já andamos a prever aqui há bué de tempo. É com este fim triste e inglório que acaba o TGV em kit encomendado pelos dois últimos ministros das Obras Públicas.»

 

José António Abreu: «Acho que quem gosta de livros gosta inevitavelmente de ver pessoas a ler. Eu, pelo menos, gosto.»

 

Leonor Barros: «Não sei se o psiquiatra que violou uma paciente no seu consultório aguentará tamanha pena. Dois meses, ouviram bem, dois meses de suspensão da actividade porque a violação ocorreu no seu consultório privado e não no de uma instituição pública. Assim sendo, o acto não é importante, importante é o local. Volta Strauss-Kahn que estás perdoado.»

 

Rui Rocha: «Na época dos outdoors, que parece agora ultrapassada, o que deviam os eleitores fazer no sábado véspera de eleições? Fechar os olhos para não verem o apelo ao voto colocado na berma da estrada? Da mesma forma que, na verdade, a pré-campanha não o é, pois que a campanha começa muito antes do seu início formal, também se prolonga para lá da última sexta-feira antes das eleições. É assim, goste-se ou não. Para quê, então, e em nome de que paternalismo, o dia de reflexão?»

 

Eu: «O que terá acontecido a Teixeira dos Santos?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.06.21

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Ana Lima: «Berlusconi sabe que, por enquanto, face à falta de alternativas bem organizadas, por parte da oposição, ainda tem mais algum tempo para se manter à tona. Mas o discurso ameaçador não lhe fica nada bem.»

 

Ana Margarida Craveiro«Não tivemos telejornais dedicados exclusivamente a espalhar o pânico sobre pepinos e tomates mal lavados, a entrevistar pessoas chegadas da Alemanha, e afins histerias comuns. Não se desenvolveu um especialista em bactérias em cada português. Graças à campanha, perdeu-se esta oportunidade. Ora ainda bem, alguma coisa de bom.»

 

Cláudia Köver: «A fragmentação da obra de três compositores contemporâneos, cuja sonoridade não embale todo e qualquer ouvido, e a sua reconstrução numa nova palete de sons e passagens, serviu de inspiração a este conceito. Admito ter cortado e recolado a obra alheia - à qual eu própria muitas vezes não dou ouvidos - e tê-la refeito a meu gosto, servindo agora de embrulho a esta crónica. No entanto, neste processo, jogou-se também a dança das influências entre a música e a escrita - e as letras acabaram por se adaptar à sua melodia.»

 

João Campos: «Se a possibilidade de o PSD eleger um deputado por Beja é reduzida - mas existente, os tempos estão estranhos -, então a probabilidade de o CDS conseguir tal feito é tão pequena que nem o acelerador de partículas do CERN seria capaz de a detectar. Se é certo que não votarei à esquerda (a única excepção a esta regra são as eleições para a minha junta de freguesia), resta-me decidir entre um voto útil - no PSD, na vaga esperança de "roubar" um deputado ao PS (e à CDU) - ou um voto mais convicto (falta-me uma palavra melhor, desculpem), mas inútil, no CDS.»

 

João Carvalho: «Por aqui se vê como os alemães não percebem peva da Europa. Alguma vez um português ia à Alemanha comer pepinos, com tantos legumes oblongos de primeira qualidade na própria terra? Se eu fosse a ministra Ana Jorge limitava-me a dar ordens para o impagável e omnipresente Francisco George fazer aquilo que ele mais gosta: acompanhar o caso. Mas desta vez é para acompanhar o caso a sério, não é para fazer as fitas do costume.»

 

José António Abreu: «Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.»

 

Leonor Barros: «Depois de tanto se malhar no Sócrates, pergunto-me em quem se irá malhar depois de domingo à noite. É bom que se vá pensando num substituto sob pena de se sofrer uma insuportável síndroma de privação. Sete anos de bordoada não se esquecem facilmente e o homem é um animal de hábitos, diz-se.»

 

Luís M. Jorge: «Ligo a televisão e vejo uma ama, filmada à socapa, a espancar bebés, um fuzileiro a receber sopapos na camarata, uma Kátia a esfaquear uma Vanessa com dezassete golpes de x-acto, uma menina dos olhos da sua avó pontapeada no YouTube e um bife sovado até à morte pela boa juventude do Algarve — aparentemente porque era turista e andava na rua, coisa rara em Albufeira. As caixas do multibanco não têm tido mais sorte: são arrancadas, arrombadas, esventradas e sequestradas com abandono por veículos de alta tonelagem.»

 

Patrícia Reis: «Não lhe soube responder e o miúdo seguiu para o jogo da Fifa 11 com a descontracção de quem não sabe o futuro, já esqueceu o passado e o que lhe interessa é o golo do momento.»

 

Rui Rocha: «A governação de Sócrates, baseada na mentira, na ocultação, na manipulação estatística, no adiamento de decisões urgentes, em promessas feitas para nunca serem cumpridas, no facilitismo e na elisão da responsabilidade, representou um retrocesso civilizacional para o país. Tal bastaria para eliminar este PS do âmbito das decisões racionais. Deixemos, todavia, que seja ainda submetido ao teste do futuro.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.06.21

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Alda Telles: «No fim, ficará um instante, como aquele gesto de coragem absoluta de Suárez, a única pessoa que não obedeceu às ordens dos golpistas naquele 23 de Fevereiro e não se refugiou debaixo de um assento parlamentar (esperando talvez a morte). Um gesto eventualmente absurdo, ou “um gesto de redenção individual e talvez colectiva” como o caracterizou Cercas. Esse instante acontecerá às 20 horas do próximo dia 5 de Junho. O primeiro dia de mais um resto das nossas vidas.»

 

Fernando Sousa: «Quando a tropa premeia com cinco diazinhos de castigo um bando que veste a lustrosa farda dos fuzileiros e um juiz civil não consegue enxergar na lei outra medida para jovens zaragateiros de 15, 16 e 18 anos que não seja a prisão preventiva não temos mesmo quem nos defenda – nem as forças armadas nem a justiça. Portugal está mesmo à deriva, balança, enjoa quando não dá vómitos. Bem pode o Presidente da República pedir justiça, como os jovens advogados oficiosos no fim dos julgamentos nos quais pesaram pouco ou nada...»

 

João Carvalho: «Confirma-se, portanto, que a Lusa lida bem com coisas pequeninas que sejam do interior. Ponham-na a cobrir a campanha eleitoral na Beira Interior, por exemplo, antes que chegue a hora do inevitável: privatizá-la.»

 

José António Abreu: «Quanto ao nível de endividamento de famílias e indivíduos, já se discutiu bastante como a inacção do governo ao nível da lei do arrendamento (é irónico lembrar que, naqueles quatro meses caóticos do final de 2004, o governo de Santana Lopes tinha pronto um projecto de lei de arrendamento que talvez tivesse ajudado a estimular o mercado) e a concessão de benefícios fiscais no crédito imobiliário (usados pelos promotores para subirem preços) levaram muita gente a comprar casa em vez de a arrendar. Um pormenor de delicioso humor negro é verificar como, em 2008, Portugal estava em quarto lugar na lista de países europeus com mais elevada percentagem de proprietários: cerca de 75% dos agregados familiares possuía casa própria.»

 

Leonor Barros: «Vinte e oito mil euros em quatro noites em Nova Iorque, trezentos mil euros em festas de luxo, deslocações em limusinas num custo de cento e dez mil euros, jóias compradas na Tiffanny´s, desconhece-se o valor gasto. No total foram oito milhões de euros. E desengane-se quem acha que tamanho desmiolanço foi obra de um sheik das Arábias ou um oligarca lá para o Leste da Europa, esbanjando euros como quem come tremoços ou se abalança num belo prato de caracóis. À cabeça desta comandita temos o portuguesíssimo, lusitaníssimo Durão Barroso.»

 

Rui Rocha: «A campanha (e a pré-campanha) de Passos foi irregular, com momentos altos, como o debate com o Coiso e a apresentação do programa eleitoral, e alguns momentos baixos. Já o Coiso esteve mais constante. Cá para nós que ninguém nos ouve, fez uma campanha eleitoral que foi uma boa merda.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Para quem diz que o problema português foi apenas o resultado de um mau governo e de más opções, espero que daqui a um ou dois anos, depois de se terem livrado do "animal feroz", não nos venham dizer que a situação europeia e internacional nos impede a obtenção de melhores resultados, em especial no que diz respeito ao emagrecimento do Estado e do sector público empresarial.»

 

Eu: «Lembras-te qual foi o político que em 2005 prometeu pôr Portugal a crescer 3 por cento ao ano, criar 150 mil postos de trabalho e aumentar a convergência entre o nível de vida português e a média europeia?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.06.21

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Ana Lima: «Os provérbios populares, como "Mortos à cova, vivos à fogaça" correm, hoje em dia, graves riscos de se tornarem obsoletos.  A ideia de prolongar a vida, no mundo virtual, para lá da morte parece que está a ganhar adeptos. Parece-me concorrência desleal ao espiritismo. Basta um computador com acesso à internet para que mortos e vivos possam encontrar-se agora num limbo onde os que já estiveram vivos podem, por exemplo, divulgar segredos a todos os que continuam vivos, sem que tal acto os possa prejudicar. Em termos pessoais e familiares isso pode ter consequências complicadas.»

 

Fernando Sousa: «Os soldados amontoaram a papelada no fundo da escarpa. A coisa durou uma meia hora. Eram caixas e caixas de processos individuais, com nomes, datas, acções, condecorações, lotes de meias-vidas do então chamado recrutamento provincial – dos nascidos e crescidos em Moçambique, quer dizer, pretos na esmagadora maioria.»

 

João Campos: «Houve um momento da minha infância - não sei precisar quanto tempo durou - em que dizia querer ser, quando fosse grande, maquinista de comboios. Gostava de comboios, nada a fazer. Foram muitas as viagens até Beja (ainda sou do tempo em que os comboios chegavam a Beja, vejam bem) e até ao Algarve nas velhinhas automotoras. É certo que, durante a infância, momentos houve em que outras opções profissionais também se afiguravam fascinantes, como a paleontologia (obrigado, Spielberg), mas olhando hoje para trás, a mais viável teria sido mesmo a carreira de maquinista.»

 

João Carvalho: «João Galamba pode até saber bué sobre subidas e descidas da famigerada Taxa Social Única, mas é duvidoso que saiba do que fala com tamanho entusiasmo quando se refere ao que o chefe não contou nem à almofada. O risco, como está bom de ver, é o próprio Galamba entrar em queda mesmo que a TSU oscile pouquinho.»

 

José António Abreu: «Há um óptimo motivo para que os bancos portugueses não tenham cometido os exageros que os bancos americanos, islandeses e irlandeses cometeram – através das obras públicas, das PPP e de algumas opções «de futuro» (a política energética e os investimentos a ela associados, por exemplo), o nosso governo garantiu-lhes sempre uma excelente rentabilidade. Chato é pensar que se o Estado tiver mesmo de reestruturar a dívida pública, deixando de pagar vinte ou trinta ou cinquenta por cento desta (ou pagando-os muito mais tarde), os bancos nacionais, atulhados dela, entrarão em colapso na mesma.»

 

José Reis Santos: «Infelizmente vivemos ainda, em Portugal, num caldo político que entende de forma esquizofrénica o nosso sistema eleitoral e constitucional. É que, em teoria, deveríamos estar confortáveis com coligações, mas na prática estas só acontecem à direita, o que é uma natural deturpação das intenções originais dos nossos ‘Pais Fundadores’.»

 

Luís M. Jorge: «Preferiria vestir calças vermelhas e calçar sapatos com berloques a eleger Paulo Portas. A demagogia deve ser limitada pelo pudor, o pudor deve subordinar-se a princípios e os princípios não são uma merda que um tipo enrole ao pescoço para exibir com aisance entre retratos de peixeiras e coquetéis no Estoril. A direita que tenha juízo.»

 

Rui Rocha: «A divulgação do compromisso assumido pelo Governo de aprovar uma redução substancial (major reduction) da TSU e de, se for necessário, adoptar medidas adicionais de austeridade, confirma  que Sócrates é um mentiroso. Mas, mais do que isso, demonstra que o líder do PS está cada vez mais coxo.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Pedro Magalhães escreveu. A Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou. Eu tive o trabalho de ir comprá-lo à banca dos jornais e depois o prazer de lê-lo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.05.21

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Ana Margarida Craveiro: «No debate com Passos, José Sócrates disse que o líder da oposição não devia criticar o governo daquela maneira, porque isso punha em causa o país. Notável teoria política: criticar o governo é o mesmo que criticar a nação. O dr. Salazar ia gostar muito.»

 

José António Abreu: «Sócrates, transmutado em menos de dois anos de vendedor de ilusões em instigador de medos, livre de ter de defender ideias concretas por obra e graça de um programa eleitoral em que elas não existem, mostra-se chocado três dúzias de vezes por dia, acusando de cada uma delas o PSD de pretender acabar com tudo o que de bom tem o Estado Social (numa versão anterior àquela que ele mesmo amputou). É compreensível. Ao fazer propostas ou ao rebatê-las, Sócrates sempre operou com base em chavões e ideias simples. De resto, sempre foi elogiado por isso – não é uma das críticas que fazem a Passos Coelho, ser demasiado palavroso, não apresentar apenas uma ou duas ideias fortes

 

José Carlos Pereira: «Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista.»

 

Rui Rocha: «José Sócrates está a afundar-se. Será, provavelmente, um momento doloroso. Para ele e para um ou outro apoiante incondicional. Temos pena. Pensando bem, nem por isso. Este é um processo que Sócrates deve enfrentar sozinho. Com toda a indignidade que corresponde ao caminho do desastre que ele próprio quis trilhar. Sabe-se que os náufragos, em desespero, podem arrastar para o fundo aqueles que se aproximarem. Sócrates antecipou-se. Submergiu o país antes de se afogar. Agora, enquanto segue o seu destino solitário, o pouco Portugal que resta não pode perder tempo a dar-lhe atenção.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Haverá quem chame a isto coerência.  Um "menor mal" dizia o outro. Para mim é pura e simples falta de vergonha e mais uma demonstração de oportunismo de um "jotinha" que tudo faz para ser exactamente igual àqueles que critica.»

 

Eu: «O João Galamba, que por estas tardes tem sido acometido por frequentes sintomas de excesso de zelo, deparou com isto, em que me limitei - sem comentários - a enumerar 50 promessas eleitorais sociais-democratas e logo me imaginou "muito entusiasmado" com os objectivos deste partido. Isto foi ontem: se tivesse esperado pela manhã de hoje, em que enumerei 50 promessas eleitorais do PS, lá me veria ele "muito entusiasmado" com os socialistas. Mas, neste seu trepidante afã de tresler o que os outros escrevem, é sempre possível esperar um cenário diferente: amanhã será capaz de supor que me converti ao MRPP, que sou compagnon de route do Partido Humanista ou que tenciono votar na Carmelinda Pereira. A tão poucos dias da eleição, enfim, consigo compreendê-lo: aquilo por lá não anda fácil.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.05.21

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Ana Margarida Craveiro«Jovens de iMacs, subsídios estatais, propinas acessíveis, liberdade de voto, liberdade de expressão, liberdade de movimento, liberdade de quaisquer medos comparam-se aos jovens das ditaduras egípcia, líbia, tunisina. Afinal, o pós-materialismo é mesmo uma coisa grave. A primeira faculdade que afecta é a razão.»

 

Leonor Barros: «A direita acusa a esquerda, a esquerda acusa a direita, Passos Coelho acusa Sócrates, Sócrates acusa Passos Coelho, Paulo Portas acusa Passos Coelho de ter sido "muleta" do PS, diz que não é muleta de ninguém, o Assis diz que vai ser uma desgraça se o Sócrates sair, Sócrates também acha que vai ser uma desgraça se sair, uma parte do país concorda com Sócrates e com Assis, outra está empenhada em pôr o Sócrates a banhos lá para onde foi o Catroga.»

 

Luís de Aguiar Fernandes: «Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.»

 

Rui Rocha: «Vê-se logo que a investigação sobre o Benfica é conduzida por pessoas que não percebem nada das inúmeras subtilezas do mundo do pontapé na gramática na bola. Tratando-se  da transferência de um guarda-redes, o mais normal é que se fale em luvas. Ou não?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Tudo o que passa pelas Finanças parece mesmo que deixou de funcionar. Dos faxes aos computadores está tudo a precisar de uma vassourada. Das grandes.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.05.21

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José António Abreu: «Quantas destas pessoas que vejo na televisão a entregar, imbuídas de genuína e louvável boa vontade, pacotes de bolachas e de cereais aos voluntários do Banco Alimentar fogem aos impostos sempre que podem? Por exemplo: quantas aceitam não pagar IVA ao contratar serviços ou não o cobrar, ao prestá-los? Sendo certo que uma coisa não substitui a outra, quantas percebem o conceito de caridade mas não o de responsabilidade?»

 

Rui Rocha: «Nestas eleições são raríssimas as pessoas que manifestam intenção de votar em José Sócrates. Ou seja, as intenções de voto reveladas estão muito longe dos trinta e tal por cento. Isto é, ao contrário do que costuma acontecer, esta minha amostra pessoal apresenta resultados claramente contraditórios com os que vão sendo divulgados nas sondagens oficiais. Ou então, o voto em Sócrates tornou-se uma decisão eleitoral envergonhada que nem aos familiares, amigos e colegas se confessa.»

 

Teresa Ribeiro: «Quando se torna claro que a salvação do país depende de uma revolução de costumes que inclui também uma nova forma de estar na política, oferecer ao eleitorado o folclore regulamentar é frustrar legítimas expectativas. Admiram-se que as sondagens não descolem do imobilismo na intenção de voto quando tudo o que os partidos têm para oferecer aos indecisos decisivos é mais do mesmo?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.05.21

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Rui Rocha: «As eleições de 1958 tiveram, como se sabe, Humberto Delgado e Américo Tomás como protagonistas principais. O que já muitos não saberão é que não foi apenas o resultado final das eleições que foi condicionado pelo regime. Na verdade, o próprio recenseamento eleitoral estava longe, na prática, de abranger o universo dos potenciais eleitores (em 1974 o número de eleitores recenseados não chegaria a um milhão). Outro aspecto surpreendente, aos nossos olhos, é o de os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores. Como seria de esperar, o regime assegurou a impressão e a distribuição, porta a porta, pela GNR e pela PSP, dos boletins de Américo Tomás. A tarefa de imprimir os boletins de Humberto Delgado foi bem mais complicada.»

 

Eu: «Existe algo a que possamos chamar o conto mais belo de sempre? Sim: é um texto que só nos fala de ilusões. Foi escrito por um americano apaixonado por Espanha e passa-se em Madrid, num dos anos mais funestos de que há memória. É um impressionante retrato de um país que não tardaria a mergulhar num dilacerante conflito cujo rasto perdura. Falo de um conto intitulado A Capital do Mundo (ed. Livros do Brasil), que Ernest Hemingway publicou em Junho de 1936, já entre presságios da guerra civil. Toda a acção decorre no espaço fechado de uma pensão na calle San Jeronimo, perfeito microcosmos de uma Espanha em convulsão.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.05.21

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Ana Lima«Embora peque, na minha opinião, por ser demasiado longo, Quem vai à Guerra é um filme que nos informa; que nos diverte, através de olhares de quem, apesar de tudo, sabe usar o humor; e sobretudo que nos lembra que à guerra ninguém escapa, que da guerra, mesmo que passem 50 anos, ninguém se esquece.»

 

Carlos Carvalho: «“Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.»

 

José António Abreu: «Parece que o «direito à indignação» de outros tempos é agora "não saber respeitar a democracia".»

 

Luís M. Jorge: «A partir de agora, para satisfazer a minha curiosidade e talvez — no futuro — a curiosidade dos leitores, procurarei compreender um pouco melhor o relacionamento entre o grupo Espírito Santo, ou outros grupos económicos, e os governos da república. Estou interessado em aceder a notícias que nos permitam avaliar a influência política destas organizações: casos, esclarecidos ou por esclarecer, zonas de sobreposição entre os interesses dos grupos e as decisões de titulares de cargos públicos, contratações e nomeações — enfim, tudo o que, legitimamente, e dentro dos limites do interesse público, nos permita iluminar uma zona ainda opaca da nossa vida democrática.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A culpa de tanta ingenuidade é do "espertalhão" do José Sócrates. A da ignorância do candidato é do próprio. E deve ser aplaudida, posto que até esta é invulgar num candidato a primeiro-ministro. A irresponsabilidade, também ela invulgar, será dos partidos e dos eleitores que permitiram que se chegasse até aqui.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.05.21

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Ana Vidal«Lanço um livro a 27 de Outubro, no Brasil, e temo muito que por lá também seja mundo. A não ser que o "servo de Deus" se tenha outra vez enganado nos cálculos. Com um bocadinho de sorte, talvez seja socialista.»

 

José Maria Gui Pimentel: «O tema do dia é sem dúvida a sugestão de Pedro Passos Coelho (PPC) em relação a um novo referendo à lei da interrupção voluntária da gravidez. Pessoalmente, talvez por andar farto deste tipo de questiúnculas, considero as reacções exageradas. As críticas a PPC têm apontado em duas direcções. Os partidos mais à esquerda ficaram melindrados por se poder sequer pensar num novo referendo. Trata-se da crítica habitual destes partidos, a mesma que já se ouviu anteriormente, e centra-se na questão do Aborto em si. No que diz respeito à sugestão, tecnicamente, um novo referendo faz tanto sentido quanto fez o último. Com efeito, se bem me lembro, o último referendo não teve, à semelhança do de 1998, carácter vinculativo.»

 

Leonor Barros: «Que se faça um referendo do referendo do referendo que foi a referendo a referendar do referendo que afinal não havia intenção alguma de que fosse um referendo. É que nem há mais nenhum assunto premente neste país de graçolas e engraçadinhos.»

 

Margarida Corrêa de Aguiar: «Miserável, é a única palavra que me vem ao espírito para condenar a atitude tomada pelos meritíssimos juízes do Tribunal de Contas na extinção das pobres pensões de sobrevivência das viúvas dos nossos embaixadores, aquelas que ainda teimam em viver com idades na casa dos 90-100 anos. E miserável é, também, o silêncio do Ministério dos Negócios Estrangeiros.»

 

Rui Rocha: «Há duas presenças esmagadoras na vida dos habitantes da Coreia do Norte. Uma diz respeito ao amor inquestionável pelo Querído Líder. No sentido de que esse amor não pode ser questionado. A outra é a da fome. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, 6 milhões de coreanos estão à beira da morte devido a carências alimentares básicas. Entretanto, o regime mantém-se focado em salvaguardar alguns objectivos essenciais. Os militares devem continuar a alimentar-se adequadamente e à mesa do Querido Líder não podem faltar as habituais iguarias, nem o vinho da melhor qualidade. Morrer por amor é, na Coreia do Norte, uma expressão plena de significado.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Passos Coelho deve ansiar ver o défice e o FMI com outros olhos, mais alaranjados, e esse poderia ser um bom ponto de partida. De caminho talvez se poupasse ao incómodo de ter de formar governo e de enfrentar as sempre sóbrias críticas do Dr. Alberto João Jardim.»

 

Eu: «O PS, outrora a força partidária portuguesa com mais fecundo debate interno, reduziu-se há muito a uma câmara de louvores ao líder que teve o seu baptismo político como militante da Juventude Social Democrata. O último congresso socialista foi um esclarecedor exemplo de como neste partido hoje não se debate nada nem sequer se admite um erro: é a política a copiar as piores características de certos clubes de futebol, em perpétua e acrítica veneração aos líderes.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.05.21

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Ana Vidal«Este grupo de cidadãos, portugueses dos quatro costados e fervorosos militantes do PS, está já a caminho de Penafiel para o comício. Trazem canas, minhocas e anzóis na bagagem, e alguns baldes de plástico para levar para casa os restos da pescaria. Dispensaram o passeio a Rio de Moinhos e apressaram-se a apanhar o TGV Poceirão-Caia para chegarem antes dos autocarros, porque o almoço não está incluído e não querem correr o risco de perder os melhores  linguados e garoupas. Não vá o diabo tecê-las e já só restarem carapaus.»

 

Ega: «Dirigia-se ao povo, em directo dos três canais, todas as semanas aos domingos à noite, propagando confiança e optimismo. Era ainda responsável pela organização do congresso anual do PS, que juntava cerca de um milhão de pessoas durante 15 dias seguidos, com espectáculos do Tony Carreira e do Quim Barreiros, uma meia-maratona “José Sócrates”, jogos de computador em rede LAN com os Magalhães (num dos congressos foi, aliás, batido o recorde do Guinness de maior número de portáteis ligados ao mesmo tempo entre si, durante as qualificações para o jogo de estratégia “Socrates Politics Manager”), e incontáveis barracas a servir de borla panados de tofu e cerveja sem álcool.»

 

José António Abreu: «Temos por aí um candidato a primeiro-ministro, homem sobejamente conhecido por falhar objectivos, líder de um dos partidos mais bem colocados para ganhar as eleições, declarando não ter de fazer exactamente o que se comprometeu a fazer, mesmo quando o seu ainda Ministro das Finanças e «amigo para sempre» diz o contrário. Algo que deve tranquilizar imenso a Srª. Merkel, os restantes alemães e todos os outros que desconfiam de nós. Seria bom que ao menos nos lembrássemos de que as notícias viajam em ambos os sentidos.»

 

Luís M. Jorge: «O que diz o PSD? Nada. O que diz o CDS? Nada. O que diz a blogosfera de Sócrates? Nada. O grupo Espírito Santo é a história secreta de Portugal.»

 

Rui Rocha: «Tendo em conta que as previsões apontam para um dia com elevadas temperaturas, deve evitar-se o consumo de chamuças (de acordo com um camarada que chegou a técnico de segurança alimentar  - ramo alimentação de animais domésticos - depois de um tão curto quanto extraordinário período académico nas Novas Oportunidades, comidas condimentadas provocam desidratação).»

 

Sérgio de Almeida Correia: «De sondagens não percebo mais do que a generalidade dos portugueses, ou seja, limito-me a olhar para elas e cada vez com maior desconfiança. Ainda há dois dias o PSD estava à beira dos 40%. Tinha "disparado" e desfeito o "empate técnico". Hoje, segundo a SIC/Expresso/Renascença, voltaram ao ponto de onde, na minha modesta opinião, nunca saíram. De qualquer modo, e este é que é ponto, não é crível uma diferença intermédia tão grande em comparação com o que saiu no JN, tendo por base resultados de 21 e 22 de Maio. Em resumo: perante tantas falsas partidas o melhor mesmo é falar de batatas.»