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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.01.23

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André Couto: «Sou politicamente insuspeito no elogio ao nosso Adolfo Mesquita Nunes, a quem hoje foi entregue a Secretaria de Estado do Turismo. Estou certo que todos neste espaço, autores e leitores, lhe damos a maior força, certos de que estará à altura de tão nobre desafio. A aposta no Turismo por parte do Governo tem sido curta e, diga-se, por parte da oposição as críticas têm sido estilo calças pelos tornozelos. Não é preciso, no entanto, ser visionário, para perceber que este pode ser um sector chave na recuperação económica do País, através da geração de emprego e captação de investimento.»

 

José António Abreu: «Na realidade, nem precisamos de ficar pelo 25 de Abril. Atendendo a que os governos imediatamente anteriores ao dito também não eram recomendáveis, para encontrar melhor (ou menos mau) teremos de recuar até... até... credo, é demasiado deprimente pensar nisso. Tal como constatar quão repletas de nada as alternativas permanecem, incluam ou não esse estandarte da boa gestão da coisa pública (é o que ouço dizer) chamado António Costa, devidamente acolitado pelos saudosistas do grande flâneur dos boulevards parisienses.»

 

José Maria Gui Pimentel: «A súbita queda do spread -- que se encontra já em quase metade dos valores de início de Setembro -- não resultou de nenhum factor específico de Portugal. Isto não invalida, ainda assim, que o Governo possa com alguma propriedade argumentar que as suas políticas -- nomeadamente a relativa acalmia conseguida, apesar de tudo, nos últimos meses e a aprovação do Orçamento -- permitiram que os factores externos que beneficiaram a dívida portuguesa pudessem actuar.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.01.23

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Ana Vidal: «Ainda vou na primeira volta e já estou em estado catafórico. Dou graças aos céus por já não ter filhos (e ainda não ter netos) em idade de precisarem de ajuda com os trabalhos de casa, porque me sentiria pouco mais do que atrasada mental. O drama é, afinal, muito mais extenso do que a imposição de um estúpido e inútil acordo ortográfico. O problema de fundo é que o funcionamento da língua não funciona.»

 

JPT: «A sociedade portuguesa indiscutiu o colonialismo. Ou seja, manteve a sua histórica inconsciência colonialista, muito baseada no velho mito do "modo especial de ser português", aliás, do "modo especial de ser colono". Isso implica a manutenção, fluída, de estruturas mentais sociais que condicionam categorizações e relacionamentos, as quais subsistem, como é óbvio, numa multiplicidade de conteúdos - entenda-se, "cada um como cada qual", ou seja, as perspectivas individuais não são determinadas mas são, isso  sim, influenciadas.»

 

Luís Menezes Leitão: «A ala socrática do PS deixou-se de tal forma contaminar pela irrealidade, que julgou que bastava um jantar com o seu querido líder para poder patrocinar uma espécie de Revolta na Bounty no PS. António Costa seria o imediato que destituiria o Capitão Bligh, que os socráticos odeiam por ser incapaz de cantar hossanas ao Governo anterior que atirou o país para a bancarrota. Para isso António Costa já andava à procura de figuras no PS que disputassem a Câmara de Lisboa, mas ninguém se mostrou disponível para defender a desastrada gestão de Costa/Salgado à frente da capital.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.01.23

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Adolfo Mesquita Nunes: «A razão pela qual cheguei a France Gall é suficientemente ridícula para que a deixe para outra ocasião. Mas foi nesse momento, em que a vi e ouvi cantar, que começou esta minha - também ela ridícula - queda por cantoras de vozes limitadas, na vertigem da afinação e sempre à beira do abismo. Mas voltemos a France Gall, que é dela que quero falar. Quem a visse cantar as músicas de Serge Gainsbourg, ainda adolescente e com ar inconsciente, não podia deixar de perguntar: mas sabe ela o que está a cantar, percebe ela o significado das coisas que o Gainsbourg lhe escrevia para cantar?»

 

João André: «Ontem a Rainha Beatrix da Holanda (não gosto da "tradução" de nomes, mesmo de monarcas) comunicou ao país que no dia 30 de Abril, o dia da Rainha, abdicaria do trono em favor do filho mais velho, Willem-Alexander. A razão invocada foi o seu 75º aniversário e os 200 anos da Holanda como país. Nos seus 33 anos de reinado, Beatrix conseguiu construir uma influência determinante para a harmonia do país. Não tendo muitos poderes reais, Beatrix será hoje a mais influente figura política do país.»

 

Eu: «Já ouvi hoje, pela primeira vez, na televisão: alguém afirmou de dedo em riste que se "de têta" não sei o quê "no mapa". Era de esperar.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.01.23

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André Couto: «"Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do FMI e dois brancos, o do Banco Central Europeu e o da Comissão Europeia, e já se fala em mais medidas de austeridade". O Arménio não foi racista, se calhar enganou-se a ler... O Arménio foi infeliz, ponto. Fugiu-lhe o discurso para o preconceito e ninguém morre por isso, mas já morre pela reacção: dos homens de causas e convicções, de voz grossa e atitude firme, espero a mesma frontalidade na assunção dos erros próprios que na crítica aos erros dos outros e, nesse aspecto, esteve bem pior do que nas polémicas palavras.»

 

João André: «Cumpri em Dezembro 9 anos a viver na Holanda já sabendo que não chegaria aos 10. Irei começar em Abril uma nova etapa da minha vida profissional que me levará a viver novamente numa Alemanha onde estive pouco depois de terminar o curso. Ao todo passei 10 anos dos 19 da minha vida adulta a viver fora do país onde nasci.»

 

Luís Menezes Leitão: «O grupo socrático não lhe dá descanso, sonhando com o regresso à filosofia de Sócrates. Eles querem ver o PS voltar a defender o TGV, o novo aeroporto, as parcerias público-privadas, o cheque-bebé e o aumento aos funcionários públicos. E nem aceitam qualquer responsabilidade no estado de bancarrota, uma vez que o seu miraculoso PEC4 salvaria o país. É por isso que lançaram António Costa contra Seguro, que tem no currículo ter sido incapaz de dizer uma única palavra contra Sócrates, mesmo quando o país mergulhava no abismo.»

 

Eu: «O Impossível acontece para nos demonstrar que o homem, suposto dominador da natureza, mais não é afinal do que um minúsculo grão de poeira cósmica na intangível imensidão do universo. É disso que nos fala uma cena crucial do filme, quando uma senhora de 75 anos aponta o céu estrelado a um rapaz de sete, sedento de sabedoria, e lhe ensina a mais elementar das lições: as aparências iludem. Muitas estrelas que vemos refulgir no céu estão já mortas há uma eternidade e só o nosso débil olhar humano, incapaz de discernir o essencial do acessório, não se apercebe disso.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.01.23

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Gui Abreu de Lima: «Aqui, da Lisboa onde me encontro, que em sorte me calhou este romântico Chiado e uma rua que acaba em rio azul – que meu braço atirado à janela lhe sente a aragem e os olhos míopes me enervam, que não distinguem o que vai nos azulejos que meu vizinho da frente exibe desde o tempo da senhora D. Maria II – sinto-me muda de palavras, essas mesmas que respeito não conhecem, se esgatanham todo o tempo cá por dentro e chegam quando bem lhes apetece. Tenho quilómetros delas e tantas vezes duvidei que fossem minhas. Impossíveis de tanta força. Densas como nunca fui, leves como horas bem passadas. Gozam que nem perdidas, como se fossem donas de todas as avenidas.»

 

José António Abreu: «Quando surgem notícias sobre mulheres violadas penso quase sempre nesta canção de Tori Amos (Me and a Gun, do álbum Little Earthquakes, lançado em 1992) e, mais especificamente, nesta actuação em Montreaux. É raro mas desta vez pude pensar nela por um bom motivo: o post da Ana Vidal sobre a evolução da Lei em Marrocos.»

 

Tiago Cabral: «Com este texto voltei aos meus verões. Verões passados na aldeia dos meus avós, Alcafozes, na Beira Baixa. Verões quentes e secos. Temperaturas escaldantes que hoje me custam aguentar, mas que à época o corpo franzino de um primário adolescente aguentava sem sequer reparar no calor. Os finais de tarde em que a minha avó, a única que me sobra nestes dias, regava o largo defronte da casa, o cheiro a terra molhada que só consigo associar a Alcafozes, esse cheiro intenso que absorvo cada vez que o sinto que me transporta anos e anos atrás, às memórias dos verões.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.01.23

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Gui Abreu de Lima: «Vida... que corrente de gente que de repente se sente. Que trazes nas frases todas as sintases. Aperto-te o papo - que mais destinais por estes beirais?»

 

Eu: «E se Ernest Hemingway, esse mestre do paradoxo, não tivesse escrito Adeus às Armas, um dos mais belos e amargos romances de guerra e amor de todos os tempos? A Humanidade teria sido privada de uma obra fundamental da literatura do século XX. E nós, cinéfilos do século XXI, ficaríamos privados daquele que é um dos melhores filmes em cartaz neste início de 2013. Um filme que nos baralha, oscilando quase sempre naquele fio da navalha entre o drama e a comédia que só cineastas acima da mediania como David O. Russell (que assinou o excelente Último Round, em 2010) conseguem arriscar com êxito

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.01.23

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José António Abreu: «Uff, acabou, não penso mais nisto. Considerem-se, como exemplo, quase todas as tarefas domésticas ou muitas das associadas a qualquer emprego. E, na maioria dos casos em que a solenidade inegavelmente existe – ao terminar algo para que se fica um instante a olhar com orgulho, até uma pitada de estranheza por se ter conseguido chegar a bom porto –, não será ela efémera, depressa substituída por embaraço? Não, afinal ainda não estava pronto, podia ter feito melhor. No fundo, não deverá a solenidade ser conferida por (e lida nos olhos ou escutada nas palavras de) quem, não tendo feito, avalia o trabalho (e – muito importante – se respeita)? Por outras palavras: durante quanto tempo terá Virginia Woolf olhado para a versão final de To the Lighthouse com a solenidade com que eu ainda olho?»

 

Laura Ramos: «Há gente que não perde tempo com guerras de final previsível, travadas com armas desiguais contra carrascos de cara tapada, manejando forcas feitas com o fio do cinismo. Paulo Júlio é desses empreendedores que não alinha em jogos florais entretecidos de calúnia. E tem a impaciência típica das pessoas eficientes. Foi à sua vida? Pior para nós, que adoramos palha.»

 

Luís Menezes Leitão: «Depois de um relatório do FMI chamado Rethinking the State, que era uma fraude monumental, surge agora outro relatório disparatado intitulado Pensar o Futuro. Parece-me sinceramente que este Governo anda a fundir os fusíveis com tantos relatórios sobre pensar e repensar, de que só chegam ao público as versões autorizadas. Quando acabar o mandato, terá produzido um monte de papéis inúteis sem ter feito uma única reforma que se visse.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.01.23

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JPT: «Fotografia do Chockwé, na bacia do Limpopo, hoje. Chockwé era, para quem só conheceu o Moçambique antigo, a vila Trigo de Morais. E ver este panorama provoca o susto das cheias, lembra a terrível, desgraçada, entrada do milénio, primeiro aqui a sul, no ano seguinte também a norte, no Zambeze e arredores. Talvez não, talvez que a desgraça venha a ser bem menor. Tudo o indica. Que os céus, vias da água, nos protejam.»

 

Luís Menezes Leitão: «Depois da vitória nas autárquicas, ninguém conseguirá desalojar Seguro da liderança, pelo que só terá que esperar que o poder lhe caia nas mãos. No fundo, foi o mesmo que aconteceu com Durão Barroso, que toda a gente no PSD criticava, até ao momento em que venceu as autárquicas, sendo logo a seguir eleito primeiro-ministro. É por isso urgente para os apoiantes de Sócrates derrubar Seguro antes das autárquicas.»

 

Patrícia Reis: «O livro, este ou outro, pouco importa, é um parto com urgência, sem epidural, sempre sofrido e ansioso. Quem disser o contrário, mente. Publicar é, porventura, um dos actos de maior exposição e risco que conheço. Podemos levar pancada de muitos lados e a mesma quantidade de mimos e elogios. Há um lado de vaidade na publicação. Sempre que deitamos um livro para o mercado somos alguém com uma bandeira que afirma que temos algo para dizer.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.01.23

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Ana Vidal: «Os abusos sobre mulheres nos países árabes não se limitam a esta situação, há um mundo de direitos fundamentais que ainda lhes são negados. Mas é um princípio, e saúdo o rastilho que há-de atear o fogo. O mundo está em mudança, e acredito que não terá sido por acaso que o Ministério para o Desenvolvimento Social de Marrocos foi entregue a uma mulher.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Para amenizar a política nacional, aqui fica um presente, sob a forma de vídeo, no dia da primeira ida aos mercados com que nos "surpreendeu" o ministro das Finanças, pouco dado a este tipo de surpresas. Pergunto: se este retorno estava previsto para Setembro, será que  o ministro técnico está a virar político?!»

 

JPT: «Não vim para o Delito de Opinião para opinar sobre política portuguesa, matéria que, diz-me a experiência, rapidamente me transforma em delinquente, tamanho o azedume face à "gasta pátria". Mas uma querida amiga real, e blogoleitora, acaba de saudar esta minha transferência blogal. Através da oferta deste "ex-voto", descoberto no seu sótão. Já agora, e abuso eu, a lembrar tempos outros, também de FMIs. A lembrar, que, e ao contrário do que dizem os furiosos assalariados do jornal "Público", também em Portugal - e em tantas outras austrais paragens - o FMI não foi nem quis ser o coveiro da democracia.»

 

Eu: «Superando em acutilância os seus camaradas de partido, António Costa aproveitou a sua tribuna de comentário televisivo semanal, na SIC Notícias, para acusar Seguro de partir para as próximas batalhas políticas "diminuído, sem autenticidade, sem convicção, sem capacidade de confrontação, sem capacidade de formulação de uma alternativa sustentada". Isto enquanto tarda em confirmar a sua recandidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Terminou o tempo de esperar para ver: estas vozes não se levantam agora por acaso. Em política, nunca há coincidências.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 22.01.23

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Ana Vidal: «Uma pessoa que não esboça sequer um sorriso (já nem peço que abafe uma gargalhada...) perante esta apresentação de produto, ou está morta ou não tem um pingo de sentido de humor. Para mim é mais ou menos a mesma coisa, e em qualquer caso não me serve como representante máximo do meu país.»

 

Eu: «Há muito que não se registava um reencontro tão evidente entre o gosto maioritário dos telespectadores portugueses e uma produção de qualidade em sinal aberto, como agora sucedeu com Gabriela, produção brasileira da Globo retransmitida na SIC. Prova evidente de que não é necessário nenhum "acordo" pseudo-unificador para aproximar as diversas parcelas do mundo lusófono nem há que inventar qualquer varinha de condão em alternativa aos reality shows mais rasteiros para atrair público em televisão: basta investir na qualidade comprovada. Com um romance que foi êxito de vendas e de crítica a servir de base, um elenco meticulosamente escolhido, uma produção competente, uma irrepreensível direcção de actores.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.01.23

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Ana Lima: «Nesta invernia cinzenta que atravessamos - literalmente e não só - o melhor remédio é encontrar alguma coisa que nos conforte. E que melhor consolo existe para um português do que a cozinha, esse território alquímico que nos redime e identifica como nenhum outro?»

 

Marta Spínola: «Gostava de ver Hollywood pegar em Herculano e fazer uma coisa em grande. O drama de Eurico bate aos pontos o de William Wallace na minha opinião. Só não há kilts, não faz mal. Não tive uma relação fácil e imediata com este romance. Primeiro estranhei-o, como tanta gente. Mas depois de passar a estranheza, foi sem dúvida o meu livro favorito do programa do liceu.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 19.01.23

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João Campos: «Balsemão quer que o Governo ponha os "piratas" e os "motores de busca" na ordem. A coisa parece-me sinistra - e não é só por o patrão do grupo Impresa achar que um motor de pesquisa faz "pirataria". Mas percebo a ideia: é muito mais fácil atacar o modelo de negócio de outros do que pensarmos naquilo que está errado no nosso. E, diga-se de passagem, os órgãos de comunicação do Grupo Impresa deixam muito a desejar hoje em dia. Talvez fosse boa ideia Balsemão, antes que querer extorquir dinheiro à Google (é disso que se trata), preocupar-se antes com a qualidade do jornalismo dos seus meios de comunicação social. É que no meio de Artures Baptistas da Silva, colunistas que pelo tom e pela ortografia não teriam lugar em qualquer publicação decente, biqueiradas constantes no Português (pré ou pós-Acordo) e layouts muito pouco funcionais, o jornalismo "de referência" há muito que abandonou os meios do Grupo Impresa - Expresso incluído - e rumou a parte incerta.»

 

Luís Menezes Leitão: «O país alienou a sua soberania a uma instituição externa, a quem o Governo obedece docilmente, mesmo quando as medidas propostas arrasam completamente o país. O problema é que não é o FMI que vai a eleições. No final deste programa de ajustamento o país estará pior do que a Grécia: exangue e sem qualquer solução de Governo. Não haverá ninguém com bom senso para evitar este desastre?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.01.23

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não podemos controlar o que sentimos. Podemos treinar-nos na domesticação - nem sempre pelo medo - do que sentimos, e podemos até, com sorte e engenho, aclimatar-nos a um estado de constante alerta. Mas não vale a pena perder tempo em terrenos onde a liberdade ainda não existe e a derrota é certa. O que fazer desses sentimentos, como reagir ou dar-lhes seguimento, aí sim estamos no terreno da escolha. E é aí, só aí, onde a liberdade existe, que a moral começa e a confissão encontra justificação.»

 

José Maria Gui Pimentel: «O que o relatório do FMI defende não é austeridade: é reforma do Estado. Embora o efeito de ambas no curto-prazo seja o mesmo -- recessão -- não são de todo a mesma coisa. Austeridade são as medidas temporárias que o Governo entende tomar para fazer face a um ciclo adverso; disto são exemplo os "brutais" aumentos de impostos, ou os cortes nos subsídios (se se admitir que são temporários). Já Reforma são as medidas de reestruturação do Estado: permanentes e, mais importante do que isso, inevitáveis. Isto porque se toma essas medidas com a noção de que o Estado, tal como está, é insustentável.»

 

Luís Menezes Leitão: «Analisando este texto bíblico a conclusão parece-me evidente. O Governo de Passos Coelho é a estátua que está assente numa coligação de pés de ferro e de barro. Como o ferro não se mistura com o barro, a estátua cairá à primeira pedrada que surgir, com o desfazer da coligação e o fim do Governo. E prevejo que a pedra que for atirada, se calhar já nas autárquicas, dará origem a um novo Governo que terminará com a passagem da soberania deste reino a outro povo. Afinal de contas o destino deste Governo já está profetizado no trecho da Bíblia que Passos Coelho citou.»

 

Eu: «Território onde implacáveis coronéis das roças casavam com respeitosas senhoras de sociedade mas conviviam afinal com "damas moças", sempre sem questionarem a sacrossanta instituição do matrimónio, esta Ilhéus de Gabriela (que era a da infância e juventude de Jorge Amado) constitui um microcosmos de uma certa época, marcada pela hipocrisia das convenções sociais que só eram respeitadas na aparência. Que isto seja feito de forma implacável mas também divertida, em excelente português, graças a um naipe de talentosos actores bem dirigidos, e com um roteiro de qualidade, basta para explicar a popularidade deste telerromance, eficaz cruzamento de folhetim camiliano com um manual de sociologia política.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.01.23

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Ana Vidal: «Recuso-me a contribuir para alimentar mais esta polémica insana sobre a história do cão que matou o bebé. Este fenómeno de esquizofrenia nacional, que levou milhares de pessoas a assinar petições, cerrar fileiras e destilar ódios em debates com os argumentos mais descabelados, pode ser facilmente explicado pelo estado de frustração e desespero em que andamos. De vez em quando é preciso libertar tensões, e antes esta catarse colectiva em volta de uma notícia de jornal do que sairmos de casa desembestados para matar os vizinhos a rajadas de metralhadora.»

 

João André: «Em democracia, debater não significa abrir mão daquilo que se considera essencial. Nem ter necessariamente que ceder nas suas posições. Significa antes ter respeito pelas opiniões contrárias, ser responsável e educado perantes opiniões absolutamente diferentes das suas e aceitar as decisões tomadas de acordo com as regras acordadas no início. Infelizmente quem está no poder (agora ou no passado) em Portugal tende a esquecer-se disso.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.01.23

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Ana Lima: «Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva? E porque não foram eles a escolher o dia em que morreriam? Será que se escolhessem um domingo não iria ser possível por causa dos dias e horários de funcionamento do serviço onde se ministra a injecção letal? Não sei, tudo isto é tão estranho...»

 

Fernando Sousa: «Era culto sem espalhafato, ladino e mordaz, e, a par disso, um ser leal e atento e um homem sem vergonha da doçura. Daí termos ficado cúmplices sem saber de quê. A sua ironia às vezes incomodava-me mas o seu humor repunha a qualidade das tantas conversas que tivemos, olhos nos olhos, dos Açores a Gaia, que era como gostava de olhar para o mundo e as pessoas. Ofereceu-me das melhores gargalhadas que já dei quando, uma vez, a meio da doença, o acompanhei a mudar um penso, e, à pergunta da recepcionista da clínica sobre o nome, respondeu prontamente e com o ar mais sério do mundo: “Júlio Machado Vaz.” Não me aguentei. “É que às vezes nos confundem.” E ele a seguir, que também gostava de rir, gargalhou também. Gostava de falar, mas ouvia como vivia: com a alma toda. Firme nos seus motivos, sabia ainda perder - "Touché". Ele era assim, o João, um amigo cheio, de quem me recuso a despedir. Até porque tínhamos combinado, há poucas semanas, um café para um dia destes...»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não costumo fazer parte de "movimentos". Abro raríssimas excepções, desde que os mesmos partam da sociedade civil, não tenham qualquer conotação política e envolvam objectivos e pessoas confiáveis. Julgo que esta poderá ser uma das poucas vantagens de se ser conhecido: dar rosto por uma causa em que se acredita

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.01.23

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Adolfo Mesquita Nunes: «Lembro-me que quis calar a cidade e suspender os movimentos, fazer de tudo uma estátua. Havia um céu enorme, desmanchado em luz, que quis desligar. E não consegui esquecer os eléctricos que passavam, levando e trazendo pessoas com destino. Aparentemente o Mundo convivia bem com o mais trágico dos acontecimentos, abrindo a ferida, para usar um eufemismo. E fiquei a pensar na cobardia do Mundo perante a morte. Volto aqui sempre que me morre alguém e dou comigo a pedir desculpa por, também eu, participar dessa cobardia. À família e aos amigos do João, um enorme abraço.»

 

Ana Vidal: «Um dia, a amizade passou de virtual a real, carne e osso a confirmar a empatia e a confiança. Foi um anfitrião insuperável nas suas ilhas de adopção, territórios mágicos a que me rendi sem retorno desde o primeiro olhar, e a que voltei e voltarei sempre que a vida mo permitir. A última vez que o vi foi no Porto, já em tratamento e consciente do seu estado grave. Tomámos um café, conversámos e rimos como se tudo estivesse bem, e não pude deixar de reparar no estoicismo de quem tudo fazia para manter o prumo e não dar o flanco à doença. Quando me despedi, apesar dos meus protestos fez questão de me acompanhar ao carro e abrir-me a porta, galante como sempre. Sorridente, espicaçou-me com o seu tema preferido pela última vez: "O que é que pensas, que eu sou um desses mouros que não sabem comportar-se com uma senhora? Aqui no Porto ainda há cavalheiros, ora essa!"»

 

João André: «Depois de me ter apresentado não mais tive tempo de escrever. Foi portanto assim como que um choque ver os posts do Pedro e da Laura. Não conheci o João e tenho pena de não o poder vir a conhecer. Conheço dele estes postais, sempre deliciosos, que nos foi deixando. Para os amigos poderá saber a pouco. Para os leitores são pérolas.»

 

Luís Menezes Leitão: «Com a fuga de Sócrates para Paris, após a quase-bancarrota do Estado, o PS atirou-se para os braços de Seguro, uma versão socialista de Passos Coelho, mas é evidente que o partido não está pacificado. A única razão para Seguro ainda não ter caído é a obsessão de António Costa pela destruição de todas as vias de trânsito em Lisboa, em ordem a transformar a cidade num paraíso para as ciclovias. No dia em que António Costa achar que já construiu ciclovias suficientes em Lisboa, Seguro bem pode apanhar também uma bicicleta e ir pedalar para outro lado.»

 

Marta Spínola: «O momento em que chego ao DELITO - vivemos tempos conturbados mas desses não falarei, já basta a realidade. O virtual serve-me de descanso e recreio - é aquele em que me encontro a tomar conta de um bebé (não meu, filho de amigos) no meu dia-a-dia, vivo a temporada de prémios de cinema, e a que espero seja a recuperação pós-crise da equipa de futebol do meu clube. Vivo mais coisas, mas ficam estas para o primeiro retrato.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.01.23

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Adolfo Mesquita Nunes: «Do que se falou e de quem por lá passou, naquele dia de Reis, prometeu-se o segredo, que agora cumpro, deixando esta acta confundir-se com uma mera lista de presenças em casa da vital Ana. E que isto sirva de lição aos faltosos. Acabou-se isso de faltar e ficar a saber tudo pelas actas. Ah. E o almoço foi um caril, que estava daqui.»

 

Laura Ramos: «A las cinco de la tarde. Eran las cinco en punto de la tarde. Un niño trajo la blanca sábana a las cinco de la tarde. Una espuerta de cal ya prevenida a las cinco de la tarde. Lo demás era muerte y sólo muerte a las cinco de la tarde. El viento se llevó los algodones a las cinco de la tarde. Y el óxido sembró cristal y níquel a las cinco de la tarde. Ya luchan la paloma y el leopardo a las cinco de la tarde. Y un muslo con un asta desolada a las cinco de la tarde.»

 

Eu: «O João Carvalho, o meu amigo que hoje partiu, foi uma das pessoas mais atenciosas que conheci. Nunca se esquecia de assinalar os aniversários dos colegas, mesmo daqueles que não chegou a conhecer pessoalmente dada a sua localização geográfica - alternadamente nos Açores ou no Porto - o impedir de participar, em regra, nos nossos regulares jantares de convívio. Chegou no entanto a deslocar-se propositadamente de Ponta Delgada a Lisboa para não falhar um animado repasto natalício desta tribo, convicto - e cheio de razão - que os laços de amizade são um dos nossos bens mais preciosos. E poucas pessoas sabiam fazer amigos como ele.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.01.23

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Ana Margarida Craveiro: «Em tempo de especialistas instantâneos, torna-se ainda mais necessário separar o trigo do joio. Pedro Pita Barros é professor de Economia, e tem dedicado especial atenção ao tema da saúde. Antes dos habituais bitaites, convinha ler o que Pita Barros escreve sobre o famigerado relatório do FMI, por exemplo.»

 

Gui Abreu de Lima: «Já te imaginaste assim? A sentir o abandono. Pedra a pedra, sem nadinha que escorregue, pise, poise. Encontravas-te comigo num lugar que escolherias. Eu ia, corria, escada abaixo, rua acima, sem certeza desse sítio, que me havias de dizer. Já te imaginaste. Eu ainda por saber o que era ter-te só para mim.

 

João Campos: «Fiquei com a sensação de ter visto António Costa no Estádio da Luz durante o jogo entre o Benfica e o Porto. Pergunto-me se foi lá ver a bola ou planear uma ciclovia pelo meio do relvado.»

 

Patrícia Reis: «Os dias correm. O tempo corre. Isto depois tudo junto dizem são anos. E que, como as crianças, é uma inevitabilidade biológica: passa, cresce e depois mingua. A minha bisavó dizia que eu crescia e ela minguava. Eu tinha quatro, cinco, seis. Não sei. Ela morreu a dormir, foi o que me disseram, não sei se é verdade, porque se mente às crianças sobre a morte, porque todos mentimos, num momento ou outro. Às crianças e aos adultos e à imagem que o espelho nos devolve

 

Teresa Castelo: «Nunca entendi a necessidade de um acordo ortográfico internacional quando ainda nem sequer se fez um acordo nacional que corrija as assimetrias que existem de Norte a Sul como por exemplo, aquela coisa da troca dos bês pelos vês. Faz mais sentido a fêmea do boi ser a baca do que o cidadão do Egito ser o egípcio, pois se a regra é mandar tirar o que não se pronuncia (que neste caso até se pronuncia) não se entende porque é que não se manda escrever o que se pronuncia e não se acaba com a ditadura dos vês imposta há séculos ao povo do Norte em directa contradição com o que falam.»

 

Eu: «Eis o motivo por que gosto tanto dos filmes de John Huston: são histórias de gente que fracassa, de pessoas desamparadas da sorte, que tudo tentam para afinal nada alcançarem - como os garimpeiros d'O Tesouro da Sierra Madre, os solitários cowboys urbanos d'Os Inadaptados ou o cônsul consumido pelo álcool e por uma paixão impossível na brilhante adaptação homónima para a Sétima Arte daquele que é talvez o mais belo de todos os romances - Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.01.23

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Ana Vidal: «Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança - mas eu sou uma optimista, já se vê - de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não gosto do cartaz que publicita a referida exposição. Tem muito grafismo, o que o torna, a meu ver, pouco apelativo. Mas a exposição merece uma visita atenta e é uma homenagem merecida a Nuno Portas.»

 

José Gomes André: «É conhecido o episódio que rodeia a publicação de A Interpretação dos Sonhos: apesar de impressa em finais de 1899, apresentaria na página inicial a data de 1900. Freud assim o impôs ao editor, pois considerava o seu trabalho científico uma descoberta fundamental, própria da revolução que o novo século anunciava. Nesse conjunto de folhas que chocava os salões vienenses encontrava-se uma terrível denúncia do âmago humano, que trazia consigo uma derradeira revelação. Na verdade, o universo fora desvelado – antes preso em esferas circulares finitas, depois inabarcável pelo limitado olhar humano. O homem fora desvelado – descendente de um peludo piteco. A alma, contudo, permanecia por desvelar. Freud deu esse passo, e com ele destruiu a supremacia antropológica

 

Eu: «Insuspeito de me identificar com o PCP, devo no entanto prestar homenagem aos comunistas: só eles reagiram ao facto de o Fundo Monetário Internacional ter elaborado um relatório sobre Portugal que chegou ao nosso País sem uma tradução em português. Como se fizesse parte dos deveres constitucionais cá da pátria dominar o idioma do Tio Sam. "Os deputados da República [Portuguesa] têm como língua de trabalho o português", declarou o comunista Manuel Tiago na Assembleia da República, lembrando o óbvio, que por vezes parece esquecido. Poderia ter até acrescentado que o artigo 11º, nº 3, da nossa lei fundamental especifica que "a língua oficial é o Português". Porque um país como o nosso, com uma identidade cultural sedimentada há nove séculos, não pode ser confundido com uma empresa exportadora ou uma companhia aérea.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.01.23

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Ana Margarida Craveiro: «A tal deputada que conduz com valentes copos em cima já se demitiu?»

 

José Navarro de Andrade: «É aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.»

 

Leonor Barros: «O belíssimo relatório do FMI, recebido com um sorriso acolhedor por um tal de Carlos Moedas e aclamado como um bom relatório pelo roedor-mor, baseia-se afinal em pressupostos errados, diz agora o  Ministro Mota Soares. Vejam se se entendam antes que tenhamos fugido todos a esta cambada e não tenham mais ninguém a quem extorquir euros e pagar a crise ou o empréstimo ou seja lá o que for em que empregam o que nos sacam.»

 

Eu: «Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão "cultural" dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz - algo que soa a um inaceitável primitivismo.»