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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.10.21

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Ivone Mendes da Silva: «Talvez o destino do Homem seja o fracasso, mas vou já avisando que isto não é um aforismo, é um estado de espírito.»

 

João Campos: «Quando vim viver para Lisboa há oito anos, ia para o Alentejo às sextas-feiras no antigo Inter-regional Barreiro - Vila Real de Santo António das 19h30. Nunca vi esse comboio vazio - entre estudantes, tropas, pessoas que precisavam de vir a Lisboa e de regressar no mesmo dia, e pessoas que pretendiam apenas passar o fim-de-semana na terra, era até frequente ter alguma dificuldade em arranjar lugar sentado. Esse serviço acabou há muito - e a CP dedicou-se com afinco a destruir o serviço Regional do Sul até ao ponto em que estamos, com uma ligação Faro-Setúbal em horários ridículos que não servem para estudantes, trabalhadores ou militares. Parece ser a estratégia da CP para encerrar serviços - mudam os horários até à inutilidade, para justificar o encerramento com a "fraca procura".»

 

João Carvalho: «O selvagem anormal que executou a chacina na Noruega regressa à ribalta. Desta vez, o nome do assassino que protagonizou o cobarde massacre protagoniza ainda uma longa metragem. Bem pode o realizador explicar o que quiser, que jamais deixará de ofender o senso comum.»

 

José António Abreu: «A uma conclusão já chegámos: os interesses cruzados de governantes, banqueiros e empresas várias (dos ramos da construção civil, do imobiliário, da gestão de infra-estruturas e de resíduos, das energias renováveis, etc.) tiveram um papel crucial na definição do trajecto que nos trouxe à situação de falência. Demorámos a atingi-la mas ainda bem que agora não restam dúvidas.»

 

Luís M. Jorge: «Um Governo que recebe a família Espírito Santo enquanto discute o Orçamento de Estado é um governo que reconhece, tão bem como o anterior, a voz do dono. E se eu puder chatear, chateio.»

 

Rui Rocha: «A redução da despesa por via do corte dos salários dos funcionários públicos será completamente imoral se fizer retardar um segundo que seja outras reformas estruturais do Estado. E acrescento que essa imoralidade será ainda mais grave se certos monopólios, mordomias e gastos supérfluos construídos à sombra do Estado se mantiverem.»

 

Zélia Parreira: «Sou funcionária pública, não consigo fugir aos impostos nem às deduções, nem a nada. Sou funcionária pública e trabalho para o meu país, para a minha comunidade, imbuída dum espírito de missão que só quem o tem pode compreender. Não me interpretem mal, mas não se atrevam a ter pena de mim. Sou uma pessoa muito forte. Tão forte que, mesmo sendo funcionária pública em Portugal, estou decidida a sobreviver.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.10.21

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Fernando Sousa: «Slavoj Zizek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar aos indignados do movimento Occupy Wall Street. "Não se apaixonem por vocês próprios, nem pelo momento agradável que estamos a ter aqui. Os Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como a nossa vida normal e quotidiana será modificada", avisou. “Dirão que estão a sonhar, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar tal como estão por um tempo indefinido, como acontece com as mudanças cosméticas”.»

 

João Campos: «Se a programação da RTP 1 é serviço público - com conteúdos noticiosos sofríveis, concursos de qualidade duvidosa, "ficção nacional", tertúlias da manhã e da tarde insípidas, novelas brasileiras, filmes repetidos e futebol - então o "serviço público" já está mais do que assegurado pela SIC e pela TVI. Privatize-se, pois, o primeiro canal, e imediatamente, que já vamos tarde.»

 

João Carvalho: «Mesmo algures na Indonésia, enquanto garotos sem futuro andam de bicicleta e operários alimentam em vão sonhos de escultores, até Buda perdeu a cabeça. Nunca a indignação colectiva foi tão global.»

 

José Gomes André: «O nosso tempo numa frase? A redução da existência à soma das acções individuais. Eu fiz isto, eu farei aquilo. Não admira que a filosofia esteja em crise. Não sobra tempo para pensar no meio de tantas experiências, de tantas acções

 

Leonor Barros: «Se tivessem resolvido isto e isto, talvez fosse mais fácil aceitar que não havia alternativa para a subtracção dos subsídios de férias e de Natal. Enquanto não o fizerem continuarei a achar que fui roubada e que são os papalvos de sempre a pagar.»

 

Rui Rocha: «A velha frase de Marx diz que o capitalismo vai enforcar-se com a própria corda. É bem possível. Mas importa também ter presente que o socialismo morreu de velho. Porque nunca foi capaz de produzir uma única corda que aguentasse o seu próprio peso.»

 

Eu: «Vários noticiários televisivos e radiofónicos revelaram-nos ontem a existência de manifestações de indignados "em todo o mundo". Isso seria, sem dúvida, uma boa notícia para o mundo. Acontece, porém, que a notícia não é verdadeira. Na China - o país mais populoso do planeta - não houve manifestações de indignados. Nem na Coreia do Norte. Nem no Vietname. Nem em Cuba. Nem no Zimbábue "socialista" do tiranossauro Mugabe. Nem na Guiné Equatorial. Nem no Iémene. Nem na Síria. Nem na Argélia. Nem na Bielorrússia, onde reina a última ditadura da Europa. Nem no Irão dos aiatolás. Nem sequer em Angola.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.10.21

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Ana Lima: «Sou uma daquelas idealistas que acham que o Estado tem uma função indispensável e importantíssima a desempenhar em sectores que os privados, porque não têm essa vocação, não conseguem abarcar ou, pelo menos, levar a cabo com os mesmos pressupostos.»

 

Fernando Sousa: «Não conheço a natureza das coisas, muito menos a do mal, mas sei, isso sei, o que é respirar em ambientes fechados ou ter de ouvir de manhã à noite  uma série de chatos de pai.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Quando a frota grega se aproximava de Tróia, fazia-o num movimento apenas perceptível aos ouvidos de Cassandra que via, como se fossem presentes, as noites futuras de cidade e o seu fim. À filha de Príamo tinha sido dado o poder de predizer o futuro, porém o deus Apolo, senhor dos oráculos, despeitado com a recusa da princesa em aceitar as suas atenções, fez com que a palavra dela, ainda que participasse da verdade, não fosse persuasiva.»

 

João Carvalho: «No poço da morte estamos todos nós, atirados para uma espiral de que não há memória. Só me falta perceber se aquele que está de gatas em cima do carro é quem eu penso. Se for, não admira que vá inseguro. Resta-lhe consultar as sondagens para saber se alguém acha que vai fermoso. Mas não me cheira.»

 

Leonor Barros: «Se és funcionário público, és um merdoso manga-de-alpaca, proxeneta de todos os trabalhadores honestos e cumpridores deste país. Não fazes nada, faltas sempre que podes, recorres a atestados médicos falsos, tens regalias sem limites, vais passar férias para as Caraíbas com o dinheiro do vizinho, tens casas, carros, telemóveis, ganhas acima da média e, mau, funcionário mau e ranhoso, filho da puta mor, culpado de todos os males deste país, tens o que mereces agora. Se te reduzem o salário é porque o mereces, se te roubam o subsídio de férias e subsídio de natal por tempo que se prevê indefinido, é bem feito. Querias o quê, ó chulo de merda?»

 

Patrícia Reis: «Agustina Bessa-Luís, que nasceu velha e morrerá criança, como dia, faz anos hoje. "O medo faz as pessoas extravagantes, mas não as faz originais," escreveu em tempos e ainda "Uma nação não nasce duma ideia. Nasce dum contrato de homens livres que se inspiram nas insubmissões necessárias ao ministério dos povos sobre os seus infortúnios".»

 

Rui Rocha: «A avaliação das marchas dos indignados em Portugal fica condicionada pela comparação com os protestos de 12 de Março. Menos manifestantes num contexto social e economicamente mais degradado do que o de então permitem a conclusão de que se tratou de um relativo fracasso. Por outro lado, não faltarão as críticas relativas à falta de consistência da manifestação. Que objectivos, alternativas e caminhos têm os manifestantes para propor?»

 

Teresa Ribeiro: «É bom que os donos do mundo não se esqueçam que apesar de serem o elo mais fraco, as pessoas são sempre os principais agentes da mudança. É com elas que se fazem as revoluções.»

 

Eu: «Agimos como ricos. Convencidos, de facto, que éramos ricos - a conversão do escudo em euro elevava-nos, sem aparente esforço, ao estatuto económico dos alemães. Em mil discursos falaram-nos das maravilhas do "investimento público", no prodígio das grandes infra-estruturas dignas de encher o olho: havia 20 mil novas rotundas para construir em vilas e cidades, havia novas habitações prontas a erguer no país dos 500 mil fogos vazios, indiferente à reabilitação urbana. E a "alta velocidade" ferroviária levar-nos-ia sem demora à Europa das luzes. Tudo isto enquanto fechavam fábricas, se abandonavam os campos, se desmantelava a frota pesqueira, se encerravam minas e explorações pecuárias, se descuidava o nosso vasto património florestal.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.10.21

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Laura Ramos: «Na verdade, ninguém está verdadeiramente interessado em saber porque é que os funcionários públicos são tidos pelo que são. Se estivermos em dia sim e tomados de complacência, vemo-los como uns pobres diabos. São aqueles cromos queirosianos de sempre, alheados de qualquer chama, brio ou ambição. Uns mangas-de-alpaca empedernidos e previsíveis, tecnicamente desclassificados e com cara de fraco ordenado (que em absoluto merecem). Mas se estivermos em dia não e tomados pelos azeites, o julgamento enfurece-se e vêmo-los com as cores fortes de uma caricatura de Bordalo.»

 

Luís Menezes Leitão: «Como não poderia deixar de ser, são naturalmente a Alemanha e a Comissão Europeia que já as aplaudiram entusiasticamente. Os cidadãos portugueses podem suportar todos e quaisquer sacrifícios, que o Governo será absolutamente insensível. Só importa proteger os interesses dos nossos credores. Portugal vai continuar na direcção do abismo, mas o Governo prosseguirá alegremente nesse percurso, estimulado pelas palmadinhas nas costas que vai recebendo dos nossos parceiros europeus.»

 

Patrícia Reis: «António Saraiva lembra que a situação do sector privado não é comparável à do Estado, que está obrigado a cortar na despesa, e nem todas as empresas privadas estão em dificuldade, tendo muitas já aplicado planos de saneamento e reestruturação.»

 

Rui Rocha: «A responsabilização, criminal se for possível, dos irresponsáveis que nos trouxeram até aqui (Sócrates, Jardins, Paulos Campos, Constâncios e por aí fora) é essencial para que possamos olhar-nos ao espelho sem nos envergonharmos. Para o passado, o jogo de sociedade só pode chamar-se crime e castigo. Mas, o jogo do futuro chama-se verdade e consciência. Está nas mãos de Passos Coelho e joga-se no tabuleiro das Parcerias Público-Privadas.»

 

Teresa Ribeiro: «Houve tempos em que os meus rendimentos bastavam para pagar as minhas contas correntes, as férias, pequenos luxos (trapos, jantarinhos e coisas assim). Agora verifico que o meu dinheirinho começa a faltar para estas minudências, mas em contrapartida paga ordenados milionários, férias de sonho, juros de empréstimos bancários, frotas de luxo, telemóveis topo de gama e roupinhas fashion a muito boa gente. Ah, e também os cachets chorudos dos "analistas" que vão à RTP dizer que andei nestes últimos anos a viver acima das minhas possibilidades. Subir na vida deve ser isto.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.10.21

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José António Abreu: «Quando uma empresa privada se encontra na falência, os funcionários dessa empresa sofrem. Quando um Estado se mostra incapaz de cumprir os seus compromissos financeiros, normalmente sofrem todos os cidadãos. Em parte, isto é compreensível: os trabalhadores do sector privado beneficiam de alguns serviços providenciados pelo sector público, sendo do seu interesse que eles se mantenham. Em parte, não é: uma parcela da população dispõe de garantias especiais, obtidas de forma coerciva.»

 

Luís Menezes Leitão: «O Governo decidiu seguir a via grega, repetindo medidas de austeridade sobre medidas de austeridade. Não há atitude mais irracional do que a de repetir sempre as mesmas medidas, na esperança de que algum vez conduzam a um resultado diferente. O resultado expectável e seguro disto é que daqui a um ano estaremos como na Grécia ou pior. E o meu receio não é que daqui resulte a queda do Governo. É que daqui resulte a destruição do país.»

 

Rui Rocha: «Num país em que o Estado está sem dinheiro para pagar salários, absolutamente dependente do financiamento estrangeiro, pretende-se investir exactamente o quê? E, já agora, não foi um certo tipo de investimento que, em boa parte, nos trouxe até aqui? O certo é que o dinheiro que temos não é nosso, é emprestado, e fazemos com ele o que nos mandam. Assim, o único investimento que pode chegar à nossa economia é o investimento directo estrangeiro.»

 

Teresa Ribeiro: «Na sua propaganda, o executivo gosta muito de falar de coragem ao anunciar as suas poupanças. Está no seu papel, mas eu não chamaria corajosas às reformas que se fazem sob coacção do exterior. Diminuir serviços, despedir pessoas, fechar empresas do Estado é consequência directa do cada vez mais polémico acordo que foi assinado com a troika. Só reconhecerei coragem a este governo se não se limitar a cumprir este caderno de encargos e ousar fazer as reformas para que os nossos amigos da UE se estão nas tintas, mas que são as únicas que poderão assegurar um futuro melhor a este país.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.10.21

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Ana Lima: «Lembram-se daqueles livros que, há alguns anos, toda a gente lia, do género "As Brumas de Avalon"? Pois foi exactamente naqueles ambientes que pensei ao visitar, no Inverno passado, esta quinta onde as árvores (pinheiros, carvalhos e castanheiros) se misturam com grandes penedos. A beleza do local, digo-vos, é imensa. O mesmo devem ter achado os habitantes da região que, há muito tempo, ali encontraram abrigos naturais. De facto, através de algumas sondagens arqueológicas, concluiu-se que aquele sítio teve ocupações humanas desde o início do Neolítico.»

 

José António Abreu: «Chega a grande velocidade num Audi prateado quarenta e cinco minutos depois da hora marcada. Avança de mão estendida e pede desculpa pela meia hora de atraso. Diz que estava numa reunião mais de cinquenta quilómetros a norte, onde reside e tem a sede do grupo, e que quando nos deixar há-de ir para um local a sul ainda mais distante, onde possui outra empresa.»

 

Luís Menezes Leitão: «O parlamento eslovaco cuida dos interesses dos cidadãos eslovacos e não quer saber do resto dos europeus. Talvez por isso fosse altura de o parlamento português se preocupar com os interesses dos nossos cidadãos em vez de tudo fazer para contentar os credores internacionais. Porque no resto da Europa ninguém se vai preocupar com a situação dos portugueses, como ninguém se preocupa hoje com a situação dos gregos.»

 

Eu: «Tanto se fala e se escreve sobre o pequeno mundo da política. Mas pouco se escrutina o pequeno mundo da cultura. Às vezes, no entanto, vale a pena reparar nele. Porque é uma outra forma de percebermos melhor uma certa maneira de ser e de estar em Portugal. Espreitem, por exemplo, a caixa de comentários deste texto da excelente Maria do Rosário Pedreira e vejam até que ponto se ramifica o fio de polémica nele desencadeado. Não me pronuncio sobre o fundo da questão, até por desconhecer as obras dos dois nomes mais mencionados, mas sugiro um olhar atento a muitos comentários aduzidos. Mostram-nos melhor que mil discursos o que somos e como somos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.10.21

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Ana Margarida Craveiro: «Agora que penso em SCUTs, lembro-me de outra coisa. Eu até posso concordar com o princípio do utilizador-pagador, mas gostava mesmo, mesmo era de saber que raio fizeram àquele imposto incluído na gasolina para pagar as SCUTs. É que, assim de repente, eu tenho ideia de já ter pago a porcaria das SCUTs vezes sem conta. Onde está esse dinheiro? Gastaram em quê, agrafos e clips?»

 

Cláudia Köver: «Entre vizinhos todos conheciam a Dona Esmeralda, que se queixava dos buracos das toupeiras. Tinha olheiras de quem passava à noite à coca e comichava do nascer ao por do sol. E, todos os dias, a vizinhança prestável, fazia o frete de ajudar na caçada cega.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Como as coisas do quotidiano me enfadam, dou comigo, amiúde, a pensar em figuras mitológicas e nas suas histórias. Claro, bem sei que pensar em mitos é outro modo de pensar no quotidiano, essa Hidra de muitas cabeças que retornam, inesperadas, em cada esquina dos dias úteis. Andava eu à procura de umas imagens de Orfeu, quando vi Eurídice que caminhava silenciosa atrás dele num quadro de Poussin.»

 

Luís Menezes Leitão: «É tempo de pôr um fim à cobrança de impostos ilegais. As câmaras municipais, e Lisboa deveria servir de exemplo, têm que aprender a viver dentro das suas possibilidades. Os contribuintes não têm que pagar o despesismo municipal. Já basta terem que suportar o despesismo do Estado central.»

 

Patrícia Reis: «Agora não se pode fazer nada, o pensamento era circular. A mulher deitou-se para o outro lado. Devagar, consciente de cada centímetro do corpo. Se fosse uma peça de mah jong bastaria encontrar o par e desaparecer. A cama estava vazia. A mulher tentou ligar a televisão, ciente de que seria uma tarefa impossível. Em vez de maldizer a quantidade de comandos, a box, o raio, limitou-se a ficar quieta. O pior de tudo é que ficar quieta também não era uma opção. Suspirou baixinho. Ouviu o vizinho de cima na casa de banho e os saltos da mulher para trás e para a frente. De resto, o silêncio permanecia, menos no corpo.»

 

Eu: «O drama de Amanda Knox serve para confirmar - partindo do princípio de que isto ainda é necessário - a brutal desumanidade da pena de morte, vigente em países como a China, o Irão e os EUA. Porque torna irrevogável o erro judiciário, presente no quotidiano dos tribunais de todo o mundo. Pior que um erro grave, só mesmo um erro irreparável.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.10.21

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Ana Margarida Craveiro: «Senhor doutor, as eleições na Madeira, em que estava tão envolvido, não são na próxima semana, foram ontem!»

 

Cláudia Köver: «Voltaríamos a encontrar-nos em Bruxelas, há cerca de um ano. Desta vez colocámos de parte os projectos, dividimos antes uns chocolates belgas e umas cervejas sem álcool (Anna estava grávida e nós - dez pessoas de oito nacionalidades diferentes - fomos na conversa). Aí, ouvimos em primeira mão as histórias e vimos as fotografias da viagem de oito meses que se conta de forma pessoal e carismática neste blogue.»

 

Emanuel Lopes: «Murtosa podia perfeitamente integrar o concelho de Estarreja, integrando também a freguesia de S. Jacinto (cuja única ligação directa à sede de concelho é por água), Mira podia ser dividida entre Vagos e Cantanhede. Bastava um pouco de estudo e reduziam para 200 o número de concelhos, sem precisar de mexer em muita coisa.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Senti-me um pouco desconfortável. Mas, sem que tivesse tempo para responder o que quer que fosse, pôs-me o cartão nas mãos e disse o código. Consulta de movimentos, retirar o talão, procurar o registo do que pretendia. Não pude, como é óbvio, deixar de ver o saldo. Um montante desaconselhável a olhos alheios.»

 

João Carvalho: «As eleições de ontem [na Madeira] decorreram num clima que foi tudo menos "normal", pelos motivos que todos sabemos. Tão longe do padrão habitual andou a campanha eleitoral que antecedeu estas eleições que até deu para ver com fartura o crescente nervosismo do líder regional laranja atrás dos seus eleitores: todos os dias com mensagens novas que procuravam diluir os excessos da véspera e todos os dias sem saber se devia prosseguir as inaugurações para mostrar a obra feita ou esquecer as inaugurações para não lembrar a despesa feita.»

 

José António Abreu: «Honestamente, Leslie Feist até consegue que se perdoe ao Canadá ter dado Céline Dion ao mundo. E sou só eu a pensá-lo ou uma mulher fica automaticamente (mais) atraente tocando guitarra? É uma declaração de confiança e um desafio.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Se os centros comerciais têm algumas vantagens evidentes, as zonas comerciais tradicionais têm também os seus atractivos, que, se bem capitalizados, podem render até mais, como creio que o futuro próximo vai demonstrar.»

 

Patrícia Reis: «O miúdo perguntou qual é a diferença entre o PSD e o PS. Fiquei a pensar naquilo e depois concluí que na verdade, bem vistas as coisas, os partidos são uns empregos e ponto. Disse-lhe: as diferenças são poucas, há pessoas melhores e piores em ambos os partidos. O miúdo adiantou-se: Mas quem manda é a Alemanha, não é? Por esta altura, aproveitei para falar de uma coisa mais interessante, uma qualquer, até o novo jogo da Fifa e todos sabem o que eu odeio futebol.»

 

Rui Rocha: «Caro Francisco Louçã, Imagino-o  a viver um momento difícil depois dos resultados eleitorais na Madeira. Não deve ser fácil ficar atrás do Partido da Terra. E do Partido dos Animais.  Mas, que diabo, homem. Anime-se, vá. Eu bem sei que perdiz derreada perdigotos guarda. Mas, não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera. E o meu amigo bem sabe que o primeiro milho é para os pardais.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.10.21

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João Campos: «O Lourenço tem razão quando diz, face às reacções à morte de Steve Jobs, que "desde a morte da Princesa Diana não via tanta beatice." É certo que Jobs foi inovador e um visionário, e que a sua morte prematura é sempre de lamentar. As reacções, essas, fazem-me ficar muito curioso quanto aos epitáfios que Bill Gates um dia receberá.»

 

João Carvalho: «Ao partir da grande estação central de Pequim, o TGV chinês tem dois destinos possíveis, um dos quais é doméstico: Xangai. O outro destino provável é, obviamente, Madrid. Tempos houve em que todos os caminhos iam dar a Roma. Hoje em dia, como em Portugal bem se sabe, todos os caminhos-de-ferro vão dar a Madrid. O mundo mudou muito...»

 

José António Abreu: «Olhar um cão nos olhos faz-me sentir melhor do que sou. Olhar um gato nos olhos não me faz sentir pior do que sou porque o olhar dos gatos não admite desvios em relação à realidade. O olhar dos gatos é objectivo. Mesmo nas alturas em que contemporizam (e fazem-no por vezes, com as pessoas que lhes merecem alguma consideração) não escondem que o fazem. O olhar de um gato é parecido com o de uma mulher que se sabe extraordinariamente atraente quando perante um homem sem encantos físicos ou materiais mas deixa ainda menos margem para devaneios. Atira-me para o sítio certo, faz-me sentir exactamente como sei que sou.»

 

Luís M. Jorge: «Algo fascinante se passou no território: o colapso do PS, o desaparecimento do Bloco, o triunfo absoluto do PP não ocorrem sem um vasto desequilíbrio entre méritos e mediocridades várias.  Gostaria muito de ter observado o quartel-general de Paulo Portas durante esta campanha.»

 

Rui Rocha: «O actual Procurador Geral da República completa hoje mais um ano de mandato. A principal atribuição do cargo é promover a defesa da legalidade democrática. Cinco anos depois, pode afirmar-se que Pinto Monteiro não cumpriu os aspectos essenciais da missão que lhe foi confiada. A vaidade pessoal que nunca conseguiu disfarçar é inversamente proporcional à eficácia que demonstrou no exercício das suas funções. O seu nome ficará associado a um período em que a investigação criminal se constituiu como roda da engrenagem política.»

 

Eu: «Alberto João Jardim vence, ainda com maioria absoluta de mandatos mas já sem maioria absoluta no voto popular. Perde oito deputados, recua 16 pontos percentuais. Ao contrário do que pretendia, o Governo de Lisboa não levou sova alguma dos eleitores da Madeira. Pelo contrário, Pedro Passos Coelho viu reforçado o seu capital politico ao ter sido o primeiro chefe do Governo português a enfrentar directamente o senhor do Funchal. Com firmeza e sem rodeios.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.10.21

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Ana Vidal: «Não sei o que se passa com o jornal i. Folheei-o ontem e fiquei abismada com o mar de erros ortográficos e de sintaxe, gralhas, pontuação miserável e frases sem nexo. E tudo isto num só artigo de duas páginas, que mostra bem não ter sequer passado pelos olhos de um revisor. Dizem-me que o jornal vai acabar em breve. Não me lembro de que fosse tão mau da última vez que o li em papel, de onde deduzo que já está mesmo na recta final e ninguém se importa com a fama que deixa para trás. É pena.»

 

João Carvalho: «Gostei de perceber que a Fundação Mata do Buçaco ainda anda às voltas com eventuais projectos de financiamento próprio, sendo Portugal o único país do mundo em que há fundações que são criadas sem capital próprio para aplicar e multiplicar, as quais sobrevivem à custa do Orçamento do Estado, como é o caso da Fundação Mata do Buçaco.»

 

Rui Rocha: «As estimativas elaboradas pelo governo de Sócrates pecaram sempre por defeito. No caso do aeromorto de Beja, o número de passageiros previsto para 2009 era de 178.000 (cento e setenta e oito mil). Imagino-os, aos irresponsáveis pelos estudo de viabilidade, a discutir, noite dentro, o modelo de previsão e os seus resultados. 100.000 (cem mil) terá dito um. 200.000 (duzentos mil) terá gritado outro. Nem pensar, são 180.000 (cento e oitenta mil) ter-se-á indignado um terceiro.»

 

Teresa Ribeiro: «O doutor é o electricista que eu chamo a casa para pequenas reparações. É muito apessoado, o doutor, daí que lhe tenha posto esta alcunha. Sempre que lhe telefono faz-se rogado. Lembra-me que só aceita o serviço por ser para mim, porque a vida dele não é fazer biscates. Não precisa. O doutor ganha mais que muitos doutores, pois tem um bom emprego: trabalha como electricista no metro.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.10.21

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João Carvalho: «Moody's corta 'rating' a nove bancos portugueses», conforme se lê logo no título da notícia. Mas há mais bancos portugueses? O jornalista não o diz. Ficamos sem saber se há bancos que escaparam ou se a Moody's cortou o rating a todos os bancos portugueses. O que é bastante diferente, excepto para este jornalismo feito à pressa.»

 

Teresa Ribeiro: «Não estará na hora de começar a transferir as poupanças para debaixo do colchão

 

Eu: «Quer renove ou não a maioria de que dispõe na Assembleia Legislativa Regional, num aspecto Jardim já perdeu: ao transformar esta campanha num plebiscito implícito às medidas de austeridade impostas a Portugal pelas instituições internacionais, parte derrotado. Porque o memorando de entendimento não é referendável e os 6,3 mil milhões de euros que a Madeira mantinha como dívida oculta lhe retiram qualquer margem de manobra à mesa de negociações -- seja em Lisboa, seja em Bruxelas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.10.21

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Ana Lima: «Há uns dias falou-se bastante, por aqui, do acordo ortográfico. Pondo de parte, agora, a questão básica da existência do acordo (em relação à qual tenho muitas dúvidas, embora tenda a considerá-lo mais negativo do que positivo), tenho pensado bastante, nos últimos tempos, com o início do ano escolar, na forma como a sociedade em geral e a escola em particular irão lidar com a situação inédita, para muitos de nós, da coexistência simultânea de duas grafias e do surgimento constante de dúvidas concretas na aplicação do acordo.»

 

João Carvalho: «O erro é de palmatória. Longe vai o tempo em que a SONAE Distribuição tinha uma direcção de marketing exigente, que punha qualquer agência a deitar fumo pelas orelhas, se quisesse ficar com a conta do Continente. Adivinha-se que esta falta de exigência hoje em dia nada augura de bom.»

 

Luís Menezes Leitão: «Alguém um dia há-de conseguir explicar porque é que os bancos são o único negócio que nunca pode falir. Se as empresas tomarem decisões de investimento erradas, vão implacavelmente à falência. Se forem os bancos, cá estarão os contribuintes para suportar os prejuízos. E toda a gente sabe o que isto significará no futuro para os contribuintes: aumentos de impostos, cortes de salários e perda de pensões. Até quando iremos continuar neste ciclo infernal?»

 

Rui Rocha: «Um poeta é, antes de mais, um visionário. Vê, no presente, como se sentisse. E sente o futuro como se o visse. Para além disso, acontece-lhe escrever em verso. Pouco li de [Tomas] Tranströmer. Mas, é bem possível que o Nobel esteja em boas mãos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.10.21

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Ana Cláudia Vicente: «Domingo passado, rés do almoço, calor e entradas. Chegada ao artigo do Nicolas Veron engasguei-me, tive de poisar a malga dos tremoços que estava a monopolizar com pouca vergonha, atirei o jornal ao chão, fui buscar a máquina, cheguei-lhe a dita malga e tirei provisoriamente as minis das legítimas mãos dos outros convivas.»

 

Cláudia Köver: «Viver numa cidade na qual não compreendemos a língua é como ser surdo quando se está apto a ouvir.»

 

João Campos: «Monarquia, para mim, só é indispensável nas grandes narrativas de fantasia épica. Os Reis de Gondor, em Tolkien, ou de Westeros, em Martin, só poderiam ser reis, nunca presidentes. Na vida real, ambos os regimes têm vantagens e desvantagens, pelo que não vejo que diferença faz, em termos nacionais ou internacionais, termos um Rei ou um Presidente.»

 

João Carvalho: «Nada tenho contra a Monarquia. Contudo, parece-me exagero que se reconheça feriado em Portugal o dia do enésimo casamento da duquesa de Alba em Espanha. Mesmo que seja pelas boas relações ibéricas e por muito que a senhora possa ser centenária. Não é má vontade minha, não, mas aquele pelo de caniche electrocutado no toutiço faz-me impressão. Enfim: que os noivos vivam felizes para sempre. Se lá chegarem.»

 

José António Abreu: «Sou republicano, adoro ouvir os discursos de Cavaco e ainda hei-de aproveitar o dia para visitar os jardins do Palácio de Belém. Mas acho que este feriado não faz sentido.»

 

Laura Ramos: «Não sou monárquica, em sentido corporativo. Mas votaria claramente a favor de um regime monárquico, porque, entre muitas outras razões, é o que melhor serve a estabilidade e o que mais respeita a matriz identitária de um país, algo de que precisaremos cada vez mais nesta Europa em desconstrução.»

 

Rui Rocha: «O dinheiro chinês compra quem estiver disponível para ser comprado. Jacob Zuma vendeu-se. No país de Mandela, o actual Presidente deu cobertura a um oportuno calvário burocrático que impediu o Dalai Lama de entrar na África do Sul para participar na comemoração do 80º aniversário do Prémio Nobel da Paz, Desmond Tutu.»

 

Teresa Ribeiro: «- Hum... acho que já não tenho idade para isso. Mas gosto daquele ali. Quanto custa?

- O espírito de poupança é muito retro, mas efectivamente voltou a usar-se e está muito em conta. Não sei se será adequado para uma festa, mas... quer que embrulhe?

- Pode ser.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.10.21

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João Carvalho: «Percebe-se agora melhor por que razões o poder local precisa de mudar, depois da discussão do tema ontem à noite na RTP. É uma necessidade que já se arrasta há muito e que urge reparar de raiz e a partir de um novo mapa. A discussão de ontem provou amplamente o quanto o poder local está enquistado, como se viu pelos muitos dinossauros nervosos presentes numa plateia com contornos assustadores de parque jurássico.»

 

José António Abreu: «Estou a ver o 'Prós e Contras' sobre a reforma da Administração Local há três quartos de hora. Quase todos os autarcas presentes – oh, surpresa – estão contra. Um até conseguiu defender a regionalização (e obteve um aplauso da audiência). Apenas o Presidente da Câmara das Caldas da Rainha referiu o óbvio: por falta de dinheiro, a mudança não é opcional.»

 

Laura Ramos: «Muitos fazem, e fizeram, obras notáveis. Mas outros tantos líderes tornaram-se, passada a frescura inicial, numa das forças mais conservadoras deste país. Como se a bandeira de eleitos lhes desse uma virtude original e lhes outorgasse o direito de passar ao lado do estatuto de administradores nacionais e das urgentes reformas que se nos impõem.»

 

Rui Rocha: «No estado actual do país, existe uma única razão para assinalar o 5 de Outubro: o facto de não sermos uma monarquia. A república, esta que temos, exala um insuportável cheiro a bafio. Mas, não a trocava pelas lantejoulas e o néon de uma qualquer ideia de predestinação. Isto dito, neste preciso momento, não há nada mais a comemorar e há tudo para reflectir. O decoro imporia que o dia de amanhã se passasse em recolhimento e  meditação. E, sobre o ruído obsceno das fanfarras e o semblante soerguido dos altos dignitários, melhor seria que se impusesse o silêncio da contrição e um piscar de olho honesto ao futuro.»

 

Eu: «Alguns dos escritores portugueses actuais apressam-se a chegar em primeiro lugar à escrita em "acordês", esquecendo as responsabilidades que têm na defesa da norma ortográfica clássica, baseada na etimologia, como sucede na generalidade das línguas cultas. Que contraste entre este conformismo dos nossos dias e a oposição tenaz que alguns dos nossos maiores escritores do século XX, como Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vergílio Ferreira, moveram ao famigerado "acordo" de 1990. Honrando uma longa tradição de rebeldia, iniciada por Fernando Pessoa e outros membros da geração Orpheu contra a reforma ortográfica de 1911.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.10.21

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J. M. Coutinho Ribeiro: «Tenho como válido que os poderosos não devem deixar de ser perseguidos criminalmente porque são poderosos - trata-se de cobardia da Justiça; mas também não devem ser perseguidos porque são poderosos - trata-se de perversão do sistema. Os poderosos devem ser perseguidos se (e porque) praticam crimes, em igualdade de circunstâncias com os demais cidadãos.»

 

João Carvalho: «A uma semana das eleições regionais, o líder do CDS-PP da Madeira contou com a presença do seu líder nacional e disse, para quem quis ouvi-lo e com as palavras todas, que parte das verbas tranferidas de Lisboa para a reconstrução da ilha após a catástrofe foi desviada para as vistosas iluminações de Natal e para o Carnaval (imagino incluído o desfile pseudo-brasileiro que costuma abrilhantar a tradição madeirense).»

 

José António Abreu: «Com os anos, a nossa infância vai-se transformando numa realidade estranha, num amontoado de recordações que parecem falhar o essencial. Por exemplo: como fazer corresponder ao adulto que somos os indícios da criança que fomos?»

 

Luís Menezes Leitão: «Confesso que, assistindo ao falhanço total do programa da troika na Grécia, fico preocupado que se insista em que essa via continua a ser a mais adequada para Portugal. Conforme tenho salientado, a definição perfeita de irracionalidade é repetir várias vezes o mesmo comportamento, esperando que ele alguma vez conduza a um resultado diferente.»

 

Rui Rocha: «Nas ciências sociais, a uma tese sucede, mais das vezes, a sua antítese. A uma visão da sala de aula em que o professor era o protagonista principal, o eduquês respondeu com a sobrevalorização do papel do aluno. À visão da escola como ensino, veio contrapor uma abordagem centrada num certo conceito de aprendizagem. Estará talvez na altura de compreendermos que urge fazer a síntese. Aprender exige esforço, memorização e compreensão de conceitos abstractos. E o papel do professor é fundamental. Mas não pode ser só isso.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.10.21

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Ivone Mendes da Silva: «Adriana ficará presa na sua idade de ouro, enquanto o detective que o pai da noiva americana contratara para seguir a noite de Gil se vê perdido em Versalhes, na Galeria dos Espelhos. É Paris mas podia ser Xangai. Quando o cinema não for um jogo de espelhos, mais vale ficar em casa.»

 

José Gomes André: «Se há coisa de que tenho pena é o cinismo que traz a idade. Tenho saudades do tempo em que acreditava que tudo era possível, que podia mudar o mundo, que não havia limites para o meu engenho e perseverança. Ganha-se em maturidade o que se perde em sonho.»

 

Leonor Barros: «Sessenta aninhos, meu rico menino [Sting].»

 

Luís M. Jorge: «A opinião está barata, como qualquer produto em mercados saturados, mas a esperança não. Talvez não possamos mudar a realidade, mas está ao nosso alcance mudar alguma coisa em nós. Podemos ser um pouco mais observadores, um pouco mais capazes, e tentar fazer coisas que ainda não fizemos.»

 

Rui Rocha: «Durante muito tempo, com Postiga e Djaló, o Sporting jogou com 9. Agora, jogar com 10 é uma bricandeira de crianças.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.10.21

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Ivone Mendes da Silva: «Por razões que não vêm agora ao caso, estive, durante a tarde, a braços com a tragédia Alceste de Eurípides. Apresentada nas nas Dionísias Urbanas de 438 a.C., o seu plot é conhecido: por determinação dos deuses, o rei Admeto só poderá evitar a morte iminente se alguém se sacrificar em seu nome. Os pais, conquanto sejam idosos, recusam-se a abreviar o tempo de vida que lhes resta e só a mulher, Alceste, se dispõe a substituí-lo na morte. Héracles, a caminho do seu 8.º trabalho, é recebido por Admeto apesar do luto em que o palácio mergulhara. Para recompensar o rei pela obediência às leis da hospitalidade num momento tão difícil, traz Alceste da morte para o amor.»

 

Patrícia Reis: «Já li e reli estes onze contos. Na minha opinião há uma ligação entre eles, ténue, como um fio invisível e quase divino. As personagens são de uma construção forte e nada próxima do banal. Não há banalidade na literatura de Agualusa.»

 

Rui Rocha: «Os sucessivos buracos nas contas públicas, o apertão orçamental que aí vem e o contexto internacional pouco favorável, traçam um quadro negro para os próximos anos. Há tempos, António José Seguro perguntava, a propósito da situação da Madeira, quem paga a irresponsabilidade? É uma pergunta pertinente que, todavia, deve ser feita com âmbito mais geral: quem paga anos e anos de gestão vergonhosa do país e das contas públicas? Na verdade, trata-se de uma questão retórica. Já sabemos que quem paga somos nós. Os do costume.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.09.21

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Ana Vidal: «A monotonia é uma cena que não nos assiste, como diria o mais recente herói das estradas portuguesas.»

 

João Campos: «A estrutura narrativa é outro dos pontos fortes de A Game of Thrones, com a estrutura por capítulos a abdicar dos narradores de primeira ou terceira pessoa convencionais. Cada capítulo do livro tem como título o nome de uma personagem, e é narrado de acordo com o ponto de vista dessa personagem. Esta estrutura pode parecer estranha ao início, mas revela-se surpreendentemente dinâmica à medida que a história progride, dando protagonismo a vários personagens em localizações distantes. Sem esquecer, claro, que diferentes personagens encaram as situações de formas distintas, e também isso é visível ao longo da narrativa.»

 

João Carvalho: «Ao fim de oito anos, vá lá, é justo permitir que um homem isaltine de vez, sem continuar ainda sujeito à instabilidade de ser posto dentro e voltar a sair. Alimentar tamanha intranquilidade num homem que anda há oito anos a dizer que está de consciência tranquila só prova como é difícil isaltinar em Portugal.»

 

Luís Menezes Leitão: «Quando o acordo ortográfico foi assinado, estava previsto que só deveria entrar em vigor quando fosse ratificado por todos os Estados de língua oficial portuguesa. Quando se percebeu que isso não iria acontecer, decidiram os Estados que o ratificaram passar a aplicá-lo após três ratificações: as de Portugal, do Brasil e de Cabo Verde. Em consequência os outros países que falam português continuarão a escrever à moda antiga e a ortografia da língua portuguesa variará totalmente de país para país. Era difícil conceber disparate maior, que conseguisse causar mais dano ao papel da língua portuguesa no mundo.»

 

Rui Rocha: «A forma como os portugueses conduzem em rotundas é a prova evidente de que alguns problemas do país são insolúveis. E não é por falta de oportunidades. O que mais há por aí  são rotundas para podermos treinar.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.09.21

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Fernando Sousa: «Mas o que é que Alessio Rastani disse para provocar tanta celeuma? Que está a fazer muito dinheiro, que adora esta recessão e que sonha todos os dias com outra? Que se está nas tintas para o euro? Que é a Goldman Sachs que manda no mundo? O que é que aqui é notícia? O despudor? Eheheheheh…»

 

José António Abreu: «A irlandesa Lisa Hannigan foi uma das duas descobertas que fiz através do filme Ondine, de Neil Jordan (sendo a outra, evidentemente, a polaca Alicja Bachleda). Isto não deixa de ser estranho, considerando que Lisa participou no álbum O, de Damien Rice, a que há uns anos dediquei muitas horas de atenção. Sou mais uma vez forçado a reconhecer que a minha capacidade de retenção de informações importantes já teve melhores dias mas, enfim, antes tarde do que nunca.»

 

Rui Rocha: «Tenho as minhas embirrações. Por definição, estas existem mesmo que os destinatários não tenham culpa nenhuma. Caso contrário, não seriam embirrações, mas acusações objectivas fundamentadas com factos. No futebol, por exemplo, tinha uma grande embirração com o Postigó, etiqueta  colectiva que utilizava para designar a soma nula do contributo futebolístico do Postiga e do Djaló. E seria sempre assim mesmo que, por alinhamentos improváveis dos astros, um dia viessem a transfigurar-se em utilizadores da bola com aceitável proficiência. O mesmo se passa, na música, com o Sérgio Godinho. Não adianta. Não é tanto o facto de eu não gostar das músicas dele. É que fico sempre com a impressão de que as músicas dele não gostam de mim.»