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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.07.21

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João Carvalho: «Hoje, no limite do prazo, ficou decidido que o BPN será adquirido pelo BIC. Não é a primeira vez que uma operação de suma importância se concretiza num domingo: ficou conhecido, há uns anos, o caso de um curso de Engenharia, cadeira de inglês técnico incluída.»

 

Eu: «Em sucessivos canais televisivos de notícias, os participantes de programas consagrados ao "debate político" têm anunciado aos portugueses que irão de férias durante todo o mês de Agosto, regressando apenas em Setembro. Num país em crise, com um governo recém-empossado, numa altura em que a política necessita mais que nunca do escrutínio público e quando o próprio Parlamento resume a duas semanas o seu período de férias, os referidos programas não abdicam de um longo descanso estival e os seus comentadores encartados já se encontram a banhos, como se este fosse um Verão igual a qualquer outro.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.07.21

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Ana Vidal: «Infelizmente, existem loucos, fanáticos e psicopatas em todas as ideologias políticas. Breivik pertence à extrema direita (Hitler fez escola, este caso é mais uma triste prova disso), mas também podia ser da extrema esquerda e escolher outros alvos (seguindo o mestre Estaline) com o mesmíssimo objectivo, mas de sinal contrário. O que quero dizer é que recuso acreditar que por detrás deste grau máximo de malignidade não esteja um muito sério distúrbio mental.»

 

João Carvalho: «O funcionamento é muito simples: os óculos integram duas lentes sobrepostas para cada olho e a haste central por cima do nariz, que faz a ligação entre as duas molduras duplas, possui um mecanismo básico com um "pinchavelho" que serve para aproximar ou afastar, progressivamente e em movimento contínuo, as lentes exteriores das lentes fixas interiores.»

 

Patrícia Reis: «Vi a minha mãe chorar três vezes. Uma num funeral. Uma em Ouro Preto, durante o Festival Literário, quando José Luís Peixoto disse o poema "Cinco à Mesa" e, por fim, ontem quando Jamie Cullum tocava com a felicidade estampada no rosto. Numa vida qualquer podia ser ela. Qualquer coisa a arrebatou a música, essa possibilidade maior, e o pensamento: podia ser eu.»

 

Eu: «Há em Portugal uma espécie de pudor atávico em praticar a arte do conto - característica que felizmente tem vindo a dissipar-se nas duas últimas décadas, com nomes que vão de Mário de Carvalho a Rui Zink. Entendido como género "menor" pela generalidade dos exegetas lusos de matriz universitária, o conto foi sendo considerado uma espécie de parente pobre da nossa literatura. Quem o cultivava quase tinha de pedir licença prévia para o efeito.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.07.21

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João Carvalho: «Branca por fora e por dentro, a "coisa" parece uma placa de esferovite caída no intervalo entre dois prédios. Contudo, como exercício de arquitectura, deve reconhecer-se que é invulgar. O morador só não pode adoecer, porque o sobe-e-desce escadas, se já não é fácil em habitações normais com mais do que um piso, neste caso limita perigosamente o próprio e até quem chegar de fora para lhe deitar a mão.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Houve alguma investigação sobre Bernardo Bairrão ou as suas ligações empresariais autorizada por algum membro do Governo da República? Se sim, quando, quem conduziu essa investigação, com que objectivo e quem a autorizou?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.07.21

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Ana Margarida Craveiro: «O que há de errado na seguinte frase? "No próprio sábado, último dia em que foi secretário-geral do PS, Sócrates também não quis atrasar-se nos detalhes e mandou o motorista do partido regressar com o carro de Espanha - onde tem estado a acompanhar o irmão em tratamentos médicos - à sede nacional." (Sábado de hoje)»

 

Ana Vidal: «Conhecendo um pouco (só um pouco, e já é muito) do pensamento de Clarice Lispector, e a avaliar pela belíssima metáfora deste texto, aposto que ela não subscreveria esta aberração que dá pelo nome de acordo ortográfico. Não me parece que a grande Clarice gostasse de ver o seu desafiante ginete transformado numa insípida e amorfa pileca

 

João Carvalho: «A escolha do líder parlamentar socialista poderá ficar adiada para Setembro, o local para realizar o congresso do PS de 9 a 11 de Setembro ainda está a ser pensado, o espaço na Assembleia da República onde se reúne o grupo parlamentar socialista poderá ser transformado no gabinete do novo secretário-geral junto do Parlamento, a liberdade de voto dos deputados do PS prometida por António José Seguro poderá esbarrar na resistência de alguns parlamentares socialistas e até gerar cisões. Isto e mais uma mão-cheia de detalhes constituem agora o pack de preocupações do PS para o Verão.»

 

José António Abreu: «A Noruega fez-me voltar a BallardNuma sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível. Aparentemente, não existem sociedades mais saudáveis do que as nórdicas. Nível de vida invejável, civismo exemplar, protecções sociais generosas. Contudo, os nórdicos são conhecidos pela taxa de suicídios (ainda que, à la Liberty Valance, o mito possa ter-se sobreposto à realidade), e, com certa frequência, surgem da Escandinávia notícias de matanças aparentemente aleatórias ou, como no presente caso, na sequência de planos minuciosos.»

 

Patrícia Reis: «E agora, mãe? Quando sair da escola vou fazer o quê? E como é que vamos sair da crise? E se acontece alguma coisa como na Noruega? Ou se temos células terroristas em Portugal? E aquele miúdo que desapareceu aos 11 anos e estava só a andar de bicicleta? E o que é a hepatite? E mata mais que a sida? E como é que temos filhos se temos de usar preservativo? E se for um falhado e ficar na caixa de hipermercado com autorização para ir à casa de banho de quatro em quatro horas? E se Deus não existir? E se Deus existir e andar a espreitar os meus gestos? E agora, mãe?»

 

Rui Rocha: «Parece-me completamente deslocado que, no tratamento mediático dos crimes imputados a Francisco Leitão, se faça invariavelmente referência ao nome de fantasia - Rei Ghob - e não ao nome verdadeiro. Não me parece que os meios de comunicação devam fazer eco da fantasia destruidora congeminda pelo monstro, até para não estimular a vertigem da desgraça de outros que andam por aí prontos para cerregar no gatilho.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Talvez que Paulo Portas, sendo um homem educado e inteligente, possa "sugerir" a substituição da dita pelo "nosso" Adolfo. Sempre teria outro nível. E o Adolfo não precisa de saltos altos para dar nas vistas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.07.21

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Ana Lima: «Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes. Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.»

 

João Campos: «O que falta à política - e, de certa forma, à sociedade portuguesa - não é seriedade, rigor, honestidade ou habilidade. Quer dizer, também falta um pouco disso tudo, mas falta ainda mais do que isso. Falta espinha dorsal.»

 

Laura Ramos: «Volta, João Pedro George, acidental biógrafo de Luís Pacheco. Fazes-me falta

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.07.21

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João Carvalho: «O programa matinal da RTP-1 Bom Dia Portugal tem um apontamento chamado "Bom Português". Ensina (?) a escrever em conformidade «com o novo acordo ortográfico». Por exemplo:

– "hectare ?"
– "hetare ?"

Depois de testar gente na rua, o apontamento diz como é e conclui invariavelmente que «assim se escreve em bom português». Porém, valia a pena que o(s) autor(es) do apontamento e toda a hierarquia da RTP Informação soubessem escrever bom português: não existe um espaço antes de um ponto de interrogação (ou ponto de exclamação, ou vírgula, ou ponto final, ou ponto e vírgula, etc.) — bom português é saber escrever: "hectare?" Este é um erro que a RTP ensina (?) diariamente no seu mau português escrito.»

 

Leonor Barros: «68 estouvadas, delirantes, desmioladas e pujantes primaveras. Aguenta firme, miúdo. É só rock n'roll mas nós gostamos.»

 

Rui Rocha: «A propósito dos acontecimentos dramáticos na Noruega, está a ser disputado, mais uma vez, um jogo de tabuleiro. O seu nome técnico é imputação de terroristas. Mas, a designação popular também pode ser arremesso de loucos ou de desequilibrados. Neste jogo, tal como no xadrez e nas damas, existem peças brancas e peças mais escuras. Alguns que se dizem de esquerda, atacam com os terroristas brancos. Outros, que se arrogam de direita, atacam com os terroristas mais escuros. Dizem que o jogo foi inspirado pelos festivais, muito comuns em cidades do Sul de Espanha, de moros y cristianos. É um jogo peculiar. No final da partida, cada um dos jogadores fica convencido de que ganhou. Mas, na verdade, este é um jogo em que todos perdem.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O melhor mesmo é renunciar desde já. Sempre evitará ficar com o mesmo estatuto daquele rapaz amigo de Paulo Portas que agora também vai para administrador da CGD e que ficou famoso pela conviccção com que dizia querer aumentar o território de Portugal continental até aos Açores à custa da ZEE, fazer um Museu da Bíblia e uma Disneylândia no Sul de Portugal.»

 

Eu: «“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, [Cesare] Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.07.21

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José António Abreu: «A pose típica do turista é de costas para o que quer que seja – igreja, praça, quadro, paisagem – que o levou até ao local. A putativa atracção fica assim por trás, mais ou menos focada, mais ou menos bem exposta, consoante a capacidade do fotógrafo, as características do sensor de imagem e a inteligência dos algoritmos da máquina. Para quase toda a gente, o importante é a própria presença – cá estou eu em frente àquilo. É ser capaz de provar a si mesmo e aos outros ter estado lá – junto daquele segundo plano

 

Laura Ramos: «Vale a pena ir ver João Penalva, no CAM. Texto e imagem. Ou imagens apenas, daquelas para as quais fazemos um conto imediato, quebrando o seu silêncio petulante. Não percam esta viagem, da qual se volta diferente.»

 

Leonor Barros: «Algures num tempo passado quando eu era ainda uma activista convicta no Bookcrossing alguém se terá mostrado muito admirado por eu gostar de José Saramago e de António Lobo Antunes ao mesmo tempo. Este categorização da vida e esta necessidade de viver em alternativas, ou um ou outro, e a preto e branco foi algo que sempre me intrigou. E muito. Nenhum deles se exclui e não há nada num que me faça odiar o outro.»

 

Patrícia Reis: «Da cidade pouco ou nada se sabia. Os velhos tinham morrido. A memória perdera-se em buracos profundos, como pedaços esquecidos de um jogo qualquer, uma peça infantil.  A mulher grávida seria uma excepção, sim, mas poucos o saberiam. Ou se importariam com isso.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Os acontecimentos de Oslo, como os que ocorreram há dois dias no Texas, num casamento, ou os que com cada vez maior regularidade acontecem por esse mundo fora, da Finlândia ao Brasil, da Bélgica às Filipinas ou dos Estados Unidos à Alemanha ou a Inglaterra, sem esquecer Portugal, para além da natural comoção que provocam, em especial quando são visadas crianças, idosos, gente indefesa, continuam a ser incapazes de gerar um movimento à escala global contra o acesso fácil e em massa a armas de fogo e a materiais explosivos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.07.21

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Ana Lima: «Há que alimentar as audiências, dando-lhes produtos cada vez mais sofisticados, aumentando mais e mais esse controle. Neste novo programa não é o comportamento dos concorrentes que é observado. Aqui ele é determinado de fora, conferindo a quem está do outro lado, sentado em casa, o poder de mandar. A definição de espectador não servirá mais para designar este novo conceito.»

 

José António Abreu: «Detesto Lady Gaga. Mas há umas semanas, num segmento que o Sixty Minutes lhe dedicou e no qual teve atitudes tão ridículas como aparecer ao repórter quase nua porque naquele dia «não lhe apetecera vestir-se», admirei a consciência que ela tem da forma como é encarada ao afirmar que os media e muito público lhe seguem os passos esperando assistir à sua queda. Querendo estar lá quando exagerar, quando algo de horrível lhe acontecer. Quando morrer. Mas, acrescentou, sabe perfeitamente o que faz e não lhes (nos) vai dar essa satisfação.»

 

Patrícia Reis: «Da cidade pouco ou nada se sabia. Os velhos tinham morrido. A memória perdera-se em buracos profundos, como pedaços esquecidos de um jogo qualquer, uma peça infantil.  A mulher grávida seria uma excepção, sim, mas poucos o saberiam. Ou se importariam com isso.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O que aproxima esses actos é o mesmo que nos transforma em bestas. A violência. O extremismo, a cegueira ideológica, é a máscara que permite chegar ao fim o que devia morrer à nascença.»

 

Eu: «Era já também então evidente, para quem soubesse olhar, por que motivo [António José] Seguro partia em vantagem perante qualquer outro adversário interno: enquanto Sócrates domava o partido, e o vergava ao seu mando, do deputado natural de Penamacor e eleito por Braga partiram iniciativas que o distinguiram e enobreceram. Como o seu voto solitário contra o novo regime de financiamento dos partidos políticos que permitia o regresso dos homens cheios de malas com "dinheiro vivo". E a sua firme oposição, também na Assembleia da República, à quebra de uma das mais emblemáticas promessas eleitorais de Sócrates: a realização de um referendo europeu, rapidamente metida na gaveta quase sem um sobressalto entre os socialistas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.07.21

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Leonor Barros: «Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy [Winehouse] também?»

 

Patrícia Reis: «Cometo erros por falta de tranquilidade. O que é a tranquilidade? O nosso mundo está partido aos pedaços, tem brechas brutais que se agravam a cada hora de um relógio que não nos pertence. Estamos em colisão, em extinção, ameaçados. Relacionar-se-á com amor? Duvido. O amor morre de repente. Quando damos por isso, foi-se. Partiu numa direcção estranha e desconhecida.»

 

Eu: «Há quem desvalorize os westerns de John Ford, sobretudo os protagonizados por John Wayne. Só pode ser alguém que não ama o cinema ou jamais viu Cavalgada Heróica, Os Dominadores ou O Homem que Matou Liberty Valance - obras-primas de todos os tempos. E que certamente não conhece A Desaparecida, talvez o mais belo filme de sempre. Western? Sem dúvida. Mas muito mais que isso: uma imensa parábola sobre a vida. Wayne, no papel de Ethan Edwards, é o desencantado herói desta película que nos fala de amor e ódio, orgulho e preconceito, vingança e perdão, guerra e paz. Ethan já viu tudo, não esqueceu nada. Defendeu uma bandeira, conheceu a inapelável dor da derrota, aprendeu que a fama é ilusória, tornou-se um cavaleiro sem lema nem destino, convicto apenas da sua própria solidão.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 22.07.21

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José António Abreu: «Nenhuma característica física tem este poder, ou pelo menos não o tem eternamente. Degenerescências médicas à parte, ainda que por vezes abalada pelas dificuldades da vida, a funny mind consegue resistir à passagem do tempo. Mais: nas mulheres como nos homens, revela-se extremamente útil para aprender a relativizar os seus efeitos, limitando-os ao plano físico.»

 

Rui Rocha: «Antes que apareça por aí a brigada do socrático, convém esclarecer que os erros de Passos Coelho não desculpam ou justificam, por um momento que seja, o desastre da governação do dito cujo. E que, se Passos Coelho vier a falhar (coisa que sinceramente não desejo e não percebo como pode alguém desejar), teremos de arranjar outro/a, que jamais será Sócrates, que erre melhor ou que minta com mais respeito.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Os sinais positivos dados para a opinião pública e que resultaram de uma alteração de hábitos injustificáveis no quadro das nossas finanças públicas - cartões de crédito, utilização de carros oficiais fora do serviço, viagens em executiva para percursos reduzidos, entre outras - , aparecem agora com toda a nitidez como medidas desgarradas e parcelares. A decisão, rídicula, de aumentar a temperatura do ar condicionado e eliminar gravatas porque a ministra é friorenta, será uma delas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 21.07.21

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Ana Cláudia Vicente: «Ainda que este seja o pretexto, não se pode dizer que a questão não seja polémica, intra e inter géneros. Não há muito tempo (mentira, para aí há um ano) eu e a Ana Margarida aqui do DELITO dirimimo-la à saída de um convívio blogueiro, inconclusivamente. A minha posição é a seguinte (para além de sentada a escrever): é possível trajar um fato sem gravata sem que este pareça órfão, mal enjorcado, foleiro.»

 

José António Abreu: «Exigimos da Alemanha que siga os nossos padrões e, como qualquer rufia cheio de razão, encaramos mal manifestações de resistência. Compreende-se: os desmancha-prazeres são do mais irritante que existe. Anda lá, Angela, oferece-me a Leica.»

 

Leonor Barros: «Enquanto o povo se esmifra para fazer render ordenados, há quem esteja tranquilamente acima destas afliçõesEste país não tem jeito.»

 

Patrícia Reis: «Não aguento mais a palavra crise e quero mandar tudo à merda, mas depois não posso porque tenho dois filhos e uma empresa e, por isso, terei de andar no mundo. Este é um desabafo que não serve a ninguém, não é delito, nem opinião. É terapia. Desculpem lá.»

 

Rui Rocha: «Tomando o Porto como referência, concluiremos que existem, num raio de 100 quilómetros, cinco Universidades públicas: a do Porto, a de Coimbra, a de Aveiro, a do Minho e a de Trás-os-Montes e Alto Douro. As cidades onde estas Universidades se localizam estão ligadas entre si por auto-estrada. Para todas existe transporte em autocarro. E entre a maior parte delas existe uma rede de transporte ferroviário.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Já não me parecia bem antes de saber os números. Agora que me dizem que da Comissão Parlamentar de Obras Públicas "quase metade dos deputados eram administradores de empresas privadas de obras públicas" e que "um terço dos deputados da anterior legislatura - 70 dos 230 - tinham também assento em empresas do Estado", quero saber quem são eles, quais os partidos a que pertencem e quais são as empresas em causa. Por razões de higiene pública. Nada mais.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.07.21

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Laura Ramos: «A Câmara Municipal de Lisboa vota hoje a proposta final da reforma administrativa que irá reduzir as actuais 53 freguesias do concelho para apenas 24, propondo novos nomes. Boas novas para um melhor governo da cidade. A nota dissonante? A previsão de um reforço financeiro superior a 40 milhões de euros, como contrapartida da transferência de novas competências para as Juntas de Freguesia. Em Portugal não se consegue reformar sem milhões?»

 

Rui Rocha: «Pelas alminhas, não nos metam em mais certames, provas desportivas, capitais, exposições ou eventos de âmbito europeu ou mundial nos próximos 20 anos. E, depois disso, que o primeiro a realizar-se seja Portugal - Capital Galáctica do Bom Senso. Até lá, fiquemo-nos pela Feira do Oculto de Vilar de Perdizes.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «De um Presidente da República que se diz de todos os portugueses mas que só sabe condecorar e nomear amigos, acarinhar gente das suas relações e membros do seu partido, fora outros juízos, dir-se-á que tem vistas curtas. Mas não deixa de ser notável que depois da atribuição da condecoração do 10 de Junho, pelos extraordinários serviços que o País ainda espera que ele dê a conhecer, a rifa voltasse a sair à Dr.ª Manuela Ferreira Leite, agora feita chanceler das ordens nacionais em substituição de Mota Amaral.»

 

Eu: «Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado? Faltam-nos estadistas como Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide de Gasperi ou Konrad Adenauer. Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos - não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 19.07.21

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Ana Margarida Craveiro: «Hoje, descubro pelo telejornal que uma empresa transportadora despediu 136 homens e mulheres por sms. Assim, sem qualquer espécie de dignidade. Como se todos, administradores e trabalhores, fossem bestas não humanas. E a morte de Maria José Nogueira Pinto, e o seu sentido de justiça, parece ainda mais triste.»

 

Rui Rocha: «A posição de [Noam] Chomsky constitui um tiro na barcaça do narcisismo-leninismo protagonizado por Chávez. É claro que restará sempre uma esquerda festiva pronta para celebrar os carnavais de Caracas. Mas, o distanciamento de intelectuais como Chomsky retira ao regime qualquer chancela de validade ideológica.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A Câmara de Faro e a Fagar, empresa municipal, encontraram uma solução mais engenhosa: inundar a cidade de pinos. E foi de tal forma que até os foram colocar à saída de garagens. Pois é, acontece, já não para se disciplinar o estacionamento desordenado, mas certamente para dificultarem as manobras de entrada e saída àqueles felizardos que as têm.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.07.21

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Ana Margarida Craveiro: «Perdoem a publicidade institucional, mas parece-me uma boa oportunidade para uma discussão menos mitológica.»

 

Eu: «Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.07.21

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Fernando Sousa: «O primeiro livro que folheei, não sei com que idade, foi um de pano – O Preto da Guiné. Quando tinha oito anos deram-me um de poemas, que li e reli, até que me escapou das mãos quando tomava banho. Lia de dia e de noite, com uma lanterna debaixo dos lençóis. Sonhei com Grichka e o seu Urso, andei na garupa do Cavaleiro Andante, acompanhei até aos últimos suspiros o Major Alvega e O Último dos Moicanos, emocionei-me com Beau Geste, de P. C. Wren, fui duende numa história de Selma Lagerloff. Desci ao centro da Terra com Júlio Verne. E, claro, fui o sexto companheiro dos Cinco, entre bolachas e limonadas – foi a única vez na vida que engordei.»

 

Eu: «Algumas das frases mais extraordinárias do cinema passaram à linguagem comum, o que é uma outra forma de confirmar a perenidade dos filmes. Lembramo-nos sem dificuldade de várias delas. Umas são simples interjeições, outras aludem a um nome próprio – e há também autênticas pérolas de sabedoria, algumas com carga irónica, outras bastante mais sérias.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.07.21

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João Carvalho: «Com um ex-primeiro-ministro em Paris, um ex-ministro em Nova Iorque e um ex-ministro em Pequim, assistimos aos primeiros sinais de que Portugal talvez se safe — não tanto pelo prestígio que eles levam, mas pela distância que os separam de nós.»

 

José António Abreu: «Com a imagem de um homem utilizando um velho Fiat Seicento como se fosse uma scooter numa auto-estrada entupida de veículos ainda fresca na cabeça, faço questão de entregar o automóvel na Hertz imediatamente após entrar na cidade. Enquanto arrasto a mala pelas ruas constato que poucos passeios têm rampas e que a cor dos semáforos é apenas uma sugestão de comportamento. Ainda não o sei mas esta primeira e nada original imagem de Roma vai marcar tudo o resto.»

 

Patrícia Reis: «A escritora Tânia Ganho - Porto Editora - ganhou um concurso de contos no Brasil (o prémio é em dinheiro! Yupie!) e é preciso divulgar para que se saiba que a literatura portuguesa está bem de saúde.»

 

Rui Rocha: «Já é do domínio público que Assunção Cristas deu ordens para recolher todas as gravatas em circulação no MAMAOT. (...) Daniel Campelo, Secretário de Estado de Não Sei Bem o Quê, terá mostrado receptividade à medida desde que, em contrapartida, seja assegurada a viabilidade de uma fábrica de Ponte de Lima com uma produção anual estimada de 207 gravatas.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Vou esquecer que Francisco Assis foi líder do grupo parlamentar do PS, membro do secretariado de José Sócrates, figura de proa das anteriores legislaturas e seu apoiante no já esquecido XVII Congresso que catapultou o PS para o pior resultado dos últimos 20 anos, garantiu a perda de mais de um milhão de votos e entregou a maioria absoluta de 2005 à maioria PSD/PP que agora, com toda a legitimidade, nos governa.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.07.21

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Ana Vidal: «O Gambrinus festeja 75 anos e continua em grande forma, como sempre.»

 

Rui Rocha: «Os pais destas crianças são os filhos do facilitismo que atravessou o final da década  de 80 e a década de 90 do século XX. Fazem parte do exército dos que entraram para pseudo-universidades com notas negativas, dos que encontraram um emprego (sem nada fazerem para o merecer) na crista da onda de uma expansão económica insustentável e que, contra toda a probabilidade, foram até promovidos porque o Estado e as empresas cresceram e era preciso promover alguém.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Acredito que a candidatura de António José Seguro seja capaz de trazer e enquadrar um maior número de pessoas, reforçando a diluição das fronteiras entre os militantes e os eleitores, de maneira a que estes possam participar num processo de reconstrução colectiva encabeçado pelo PS.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.07.21

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Ana Vidal: «O sr. Ramires tem a melhor fruta de Sintra. É impossível passar-lhe à porta e não entrar por ali dentro em absoluto êxtase olfactivo, logo seguido de uma degustação compulsiva, patrocinada pelo sorridente proprietário das grades que exibem aquelas incontáveis e luzidias maravilhas. Mas os talentos do sr. Ramires vão muito para além de saber escolher boa fruta: como qualquer português que se preze, percebe de tudo um pouco e debita, solenemente, sábios conselhos aos fregueses sobre qualquer assunto que os atormente, desde a insolvência financeira às dores nas cruzes.»

 

Rui Rocha: «A submissão ao dogma da produtividade no trabalho tem, reconheça-se, o seu quê de indignidade. Justifica-se, assim, a  luta contra a exploração do homem pelo homem que uma parte da esquerda incorpora na sua prática e que uma outra parte da esquerda integra, com sentido prático, no discurso. Vivemos, todavia, tempos de pragmatismo. O regresso à ideologia far-se-á oportunamente. E um dia, eventualmente, os próprios sindicatos poderão deixar de ser meros angariadores de cotizações dos filiados. Até lá, o combate contra a produtividade deve fazer-se com mais subtileza e argúcia. Atacando-se o sistema por dentro, de forma não ostensiva, mas igualmente eficaz.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Sublinho a necessidade do primeiro-ministro esclarecer rapidamente de onde resulta o "desvio colossal" que confidenciou, entre portas, aos membros do seu partido, mostrando quais os números em que se apoia e em quê que isso se traduz, já que é fundamental sabê-lo para que se possa concluir a "accountability" do anterior Governo e começar a olhar o futuro.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.07.21

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Ana Lima: «Imigração é... (...) Um espaço comum, ao fundo, despido de tudo, com um só banco. Um homem sentado nesse banco segurando um prato numa mão e um garfo na outra. A solidão desse homem que faz a sua refeição pensando talvez em algum sítio muito, muito longe.»

 

Rui Rocha: «Em tempo de férias, e com os bolsos com mais ar do que aquilo que seria recomendável, é sempre importante ter em conta o custo de vida em diversas cidades mundiais. Os dados da tabela foram hoje publicados pela Mercer e podem obter-se mais detalhes aqui. Tal como já aconteceu em anos anteriores, Luanda  continua ser a cidade mais cara do Mundo. Nenhuma cidade portuguesa consta entre as 50 mais caras.»

 

Eu: «José Sócrates foi o maior derrotado do debate desta noite entre os dois candidatos à liderança do PS, na SIC Notícias: o seu nome esteve ausente da discussão entre António José Seguro e Francisco Assis, o que revela bem até que ponto o legado do governo derrotado nas urnas a 5 de Junho é incómodo para o PS.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.07.21

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Cláudia Köver: «E eu que achava que podia continuar a vangloriar-me perante os meus amigos e colegas austríacos, alemães, suíços, suecos, romenos e até búlgaros, que apesar de uma gigantesca dívida pública regressava a um país cujas temperaturas de verão oscilavam entre os 27 e os 30 graus. Mas, já nem isso Portugal - que agora mais parece o nordeste brasileiro no início do inverno – me tem para oferecer. Mais uma praga socrática?»

 

Rui Rocha: «Com o novo acordo ortográfico, um vintém-de-santo-antónio passará a ser um vintém de Santo António. Mas,  um acordo cretino é um acordo cretino e há coisas que não mudam.»

 

Eu: «Seria bom que todos os jornalistas reflectissem profundamente neste caso: o News of the World violou regras básicas da profissão ao pactuar com crimes e cometer outros. Infelizmente, era premiado por uma multidão de leitores que devorava com avidez esta edição dominical do Sun: em média, o jornal vendia 2,8 milhões de exemplares. Mais lamentavelmente ainda, muitos proprietários de jornais - e, pior que isso, muitos jornalistas - defendem este modelo de imprensa. Em nome das tiragens, das audiências, do "sucesso". Esquecendo que o verdadeiro jornalismo é o que cumpre as regras deontológicas, contribui para uma sociedade mais adulta e torna o público mais esclarecido. O resto resume-se a uma palavra: lixo.»