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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.01.22

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Ana Vidal: «Habituados como estamos a que as televisões nos sirvam mortos e estropiados entre a sopa e o puré, políticos corruptos à sobremesa e catástrofes ambientais ao café, poucas notícias nos fazem já levantar a sobrancelha ou interromper um monocórdico "passa o sal". Mas hoje foi um desses dias de surpresa, de inusitada novidade: hoje assistimos, estarrecidos, à indesmentível cobardia de um comandante, chamado à pedra com todas as letras e aos berros por um capitão de porto.»

 

Ivone Mendes da Silva: «- Pedro Correia, I presume?

- I'm so sorry. Adolfo Mesquita Nunes.

- Don't be sorry: tomorrow is another day.

- Frankely, my dear, I'd prefer today.»

 

José António Abreu: «Poucas coisas nos incomodam tanto como o voluntarismo

 

José Navarro de Andrade: «Rapazes: viola ao saco; já nem na country music, último reduto das camisas de flanela aos quadrados, barba por fazer e cerveja bebida pelo gargalo, estaremos, daqui em diante, postos em sossego. Rendo-me.»

 

Leonor Barros: «O mundo insondável do futebol é isso mesmo, insondável. Para quem como eu continua a ver vinte e dois vestidos de cor diferente, é certo, mas ainda assim vinte e dois homens a correr atrás de uma bola, sem grande noção de passes, trivelas e outros truques de magia, o futebol é um mundo hermético. Um universo cheio de subtilezas mau grado a virilidade dos rapazes, prenhe de códigos a serem decifrados e dotado de uma linguagem muito própria

 

Luís Menezes Leitão: «O Governo desmentiu energicamente ter alguma coisa a ver com as nomeações para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Já Miguel Sousa Tavares, no Expresso do passado fim-de-semana referiu não acreditar que tivessem sido os chineses a dizer que "pala o conselho de supelvisão da EDP, não vemos ninguém melhol do que o Catloga, o Blaga de Macedo e a Celeste Caldona”. Pois eu acredito piamente na versão do Governo. E digo mais. Começa a tornar-se claro para mim que, depois da aquisição de uma empresa estratégica portuguesa, a estratégia dos chineses passou por lançar a confusão total em Portugal através das nomeações para a EDP.»

 

Rui Rocha: «Fustigado impiedosamente nos últimos dias (circunstância para a qual, reconheça-se, muito contribuiu), sempre apontado como o elo mais fraco do Governo, candidato permanente ao sacrifício numa eventual remodelação, o Álvaro obteve, ao princípio do dia de hoje, uma importante vitória pessoal. O acordo obtido na Concertação Social marca uma nova etapa nas relações do trabalho em Portugal.»

 

Eu: «E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O' Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais -- os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.01.22

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Ana Vidal: «De tanto ouvir Bach, acabou por especializar-se na arte da fuga. A última foi de si próprio.»

 

Leonor Barros: «Sempre me encanitou esta obsessão dos portugueses por bater records. Pais-natais, cachecóis, feijoadas, bolos-rei, paellas, narizes, sardinhadas, a lista é imensa e acredito que infindável. Portugal pode até candidatar-se para os mais peculiares ministros da Economia do mundo. O Pinho e o Álvaro são duas figuras impagáveis e não estivessem à frente do país, um tivesse estado, e ririamos desalmadamente, isto se fossem figuras dos Monty Python ou do Little Britain.»

 

Luís M. Jorge: «Álvaro Santos Pereira foi parar ao Governo porque tinha um blog e morava no Canadá. O método de recrutamento, embora singelo, foi bem intencionado: se ele tinha um blog sabia do que falava, certo? Certo. E se morava no Canadá, com certeza não devia ser ladrão.»

 

Rui Rocha: «O pensamento torna-se límpido. E até colorido e refrescante. O próprio ritmo da frase é outro. E assim, a todos aqueles que estão mortinhos por comentar este post dizendo que Cavaco podia ter feito mais com menos (isto é, mais correcção na utilização da língua com a palavra futuro a menos), digo que poder podia, mas que não era a mesma coisa. No fundo, não seria tão divina a comédia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.01.22

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José António Abreu: «Continuo a ouvir imensa música, até mais do que por alturas da minha adolescência, quando o dinheiro de que dispunha para a comprar era muito limitado, e continuo a procurar música nova, mas reduzi o grau de profundidade com que a ouço. E o mesmo acontece noutras áreas (na literatura, um pouco menos). A quantidade substituiu não a qualidade dos itens mas a da sua fruição; substituiu a profundidade da análise.»

 

Luís M. Jorge: «Os vates lamentam o apagamento do PS, como se um grande silêncio tivesse descido sobre a terra e numa perversão do um-dó-li-tá colasse por capricho as ventas dos cíceros e quintilianos socialistas. Enquanto o país tagarela, dezenas de almas aflitas perguntam ao vento: porque não falas, Seguro — e no dia seguinte, tendo Seguro falado lamentam, oh, porque não te calaste

 

Luís Menezes Leitão: «Em Portugal o Governo não tem estado infelizmente à altura da crise. Desbaratou todo o seu capital político em nomeações controversas enquanto as reformas marcam passo. Ao mesmo tempo o ministro das Finanças conseguiu o prodígio de já estar a falhar a meta do défice de 2012 em 0,9 % do PIB apenas duas semanas depois de o ano ter começado. Isto simplesmente porque se esqueceu de contabilizar os efeitos em 2012 da transferência dos fundos de pensões efectuada para salvar o défice de 2011.»

 

Eu: «O nosso leitor número dois milhões acaba de nos fazer uma visita. Foi aqui recebido como os restantes 1.999.999: sempre com cortesia e até com carinho. Porque o DELITO DE OPINIÃO não seria o que é sem os seus leitores. Mesmo daqueles que protestam, que se irritam e às vezes nos irritam. Por isso fazemos questão de responder a todos quantos nos comentam.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.01.22

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Ana Vidal: «Segundo Eduardo Catroga - que aparentemente ninguém consegue calar - foi essa a lógica que presidiu à escolha das nomeações na EDP. Se é assim, sugiro esta espécie de Dona Urraca do carnaval de Loulé para a próxima privatização. Não se pode dizer que não é uma cara conhecida

 

Leonor Barros: «Vida de professor é feita de papéis, papelinhos, destacáveis, comprovativos e tudo o que tenha a ver com papeladas, burocracia sem fim. Nos intervalos de tudo isto sou professora e faço aquilo devia fazer e que o tempo em volta dos papéis me rouba.»

 

Luís M. Jorge: «É a confissão da semana nos blogs liberais. De um dia para o outro a direita portuguesa encheu-se de cheerleaders loiras e alheadas.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.01.22

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Ana Vidal: «Acabo de receber, de uma amiga escritora brasileira, este video sobre o encerramento da Livraria Camões do Rio de Janeiro, uma importante ponte cultural entre os nossos dois países.»

 

Cláudia Köver: «Não sei o que me espera nos próximos dias em Lisboa (no livro, digo eu), mas sei que sempre que estou “lá por fora” sinto a falta desta cidade e de muita coisa que se representa neste livro: o vintage, o velho, o local remoto, romântico e por vezes esquecido e abandonado pelos seus próprios habitantes.»

 

José António Abreu: «Rotunda da Boavista, há cerca de uma hora. Um Ford Focus encontra-se parado na faixa interior, junto ao passeio. Lá dentro, um casal de idade. O homem, sentado atrás do volante, tem o braço esquerdo de fora, tão estendido quanto lhe é possível. Agarra pelos fundos um saco plástico que começa a sacudir. Caem bocados de pão no piso empedrado. De imediato, alguns pombos surgem junto ao carro. O trânsito não é intenso e os outros condutores vão-se desviando. Ninguém apita.»

 

Leonor Barros: «Nunca devia ter ouvido o meu pai, a minha mãe, os meus professores. Para quê queimar as pestanas? Mais vale ser motorista. Das pessoas certas, obviamente.»

 

Patrícia Reis: «O ordenado de Eduardo Catroga equivale a 7 anos de ordenado mínimo. O valor de mercado do senhor não sei, mas deduzo que o mesmo só possa ser avaliado se tiver um chorrilho de ofertas para trabalhar aqui e ali. Será o caso? Duvido muito.»

 

Rui Rocha: «E assim, de repente, parece-me que o Natal já foi há muito, muito tempo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.01.22

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Ana Margarida Craveiro: «Se eu for reformada, posso perfeitamente continuar a trabalhar, e auferir um salário, que acumulo com a minha pensão. Se eu for bolseira, estou impedida de ganhar mais um cêntimo que seja, e dependo em absoluto do grande e magnífico Estado. Se esse mesmo Estado, por algum motivo, congela o meu pagamento, paciência. Espera uns meses, pode ser que passe. Mas entretanto, vai pedindo dinheiro emprestado, que ganhar dinheiro a trabalhar não é para todos. A minha overdose de qualificação trama-me.»

 

José Navarro de Andrade: «Monica Ali não é a melhor escritora do mundo. Se o seu primeiro romance, “Brick Lane”, teve um êxito estrondoso e levantou uma acesa polémica entre a comunidade bangladeshi no Reino Unido, à qual ela pertence e cujo quotidiano desenraizado é minuciosa e conflituosamente descrito no livro, já a segunda obra publicada por Ali intrigou os literatos e o público. Chama-se “Alentejo Blue” e decorre nessa estranha e despovoada charneca, perdida no extremo sudoeste da Europa.»

 

Rui Rocha: «Tenho, desde muito pequeno, a mania de associar músicas, videoclips ou filmes às mais diversas situações. No momento actual da vida política, o primeiro impulso é o de ilustrar certas nomeações com o Boys Don't Cry dos The Cure. Todavia, analisados os clips disponíveis no Youtube, parece-me que a coisa não funciona. O Roberth Smith é demasiado soturno para ilustrar a felicidade de pessoas que estão bem na vida. E a letra também não ajuda.»

 

Eu: «"Não existem desempregados, existem pessoas que estão no desemprego", afirmou Zapatero em Fevereiro de 2008. Valeu-lhe de pouco a aula de correcção política que ministrou aos compatriotas. Ao abandonar o poder, há poucos dias, deixou ao sucessor -- o conservador Mariano Rajoy, vencedor incontestado das legislativas de 20 de Novembro -- um legado nada invejável: cinco milhões de desempregados (perdão, de pessoas sem emprego), o que corresponde a 21,5% da população activa e é a maior cifra do género desde que há registos oficiais em Espanha. Há hoje cerca de milhão e meio de lares espanhóis em que marido e mulher estão simultaneamente desempregados. E 48% dos menores de 30 anos não consegue encontrar trabalho por lá nos dias que vão correndo.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 11.01.22

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Ana Margarida Craveiro: «Podemos decidir, só pela idade, se uma pessoa "merece" sequer a escolha de um tratamento? Então, que pensar de idosos tão famosos e activos como Gentil Martins, Mário Soares, ou Manoel de Oliveira?»

 

Ana Vidal: «Não é que eu esperasse muito da Lusa, mas aqui está mais uma prova de como os critérios editoriais têm vindo a mudar em Portugal nos últimos anos. Admito, por razões orçamentais, que sejam fundidas as secções "lusofonia" e "internacional" numa única editoria, mas que se extinga liminarmente a de "cultura", passando os seus elementos para a de "sociedade", diz tudo sobre o que é realmente importante para quem escolhe as notícias que nos faz chegar. Espera-nos, provavelmente, uma cultura cor-de-rosa.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Sempre que leio uma notícia como a que hoje vinha no Correio da Manhã a dizer que "quinze mil docentes reformados custam ao Estado cerca de vinte e seis milhões de euros", fico um pouco baralhada. "Custam"? Mas então nós não andamos a descontar, para ter direito à reforma? A reforma não será a contrapartida do que entregámos para ela? Claro que eu sou paga pela geração seguinte, como a geração anterior foi paga por mim.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Para Heidegger a angústia é um sentimento solitário. É certo que se refere a outro tipo de angústia, mas teria mudado de ideias se conhecesse uma única destas figuras que, visitadas pela desventura, sentem necessidade de gritar às mulheres de Corinto, que é como quem diz a todas as que encontram, as inaudíveis vinganças que vão congeminando. A expressão desta angústia não tem nada de solitário.»

 

José António Abreu: «As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.»

 

José Gomes André: «Um resumo das contendas no Iowa e New Hampshire? Romney venceu em ambos os Estados e consolidou o seu estatuto de favorito. Tem consigo os independentes e os Republicanos moderados, e até boa fatia dos conservadores, que já perceberam ser Romney o melhor posicionado para enfrentar Obama. Os adversários e os media da Direita "Tea Party" continuam a apontar-lhe falhas, mas não têm aparecido adversários à altura. Só um cataclismo eleitoral poderia afastar Romney da nomeação.»

 

José Navarro de Andrade: «A sala do institucionalíssimo Barbican Center de Londres esgotou os 1949 lugares, a orquestra da BBC apresentou-se na máxima força e em plena forma, a televisiva BBC 4 transmitiu em directo, o comentador inicial está visivelmente entusiasmado com o que se vai seguir. Tudo isto para experimentar, decerto mais do que ouvir, o célebre 4’33’’ de John Cage, uma composição que embora curta parece enorme e poucos ousam incluir no seu repertório. Começa a ser longínqua esta noite de Janeiro de 2004.»

 

Luís M. Jorge: «Há aqui uma resistência à vergonha de que os nossos jornalistas aparentemente não suspeitam, enquanto promovem mandarins a senadores.»

 

Rui Rocha: «Sempre fui um tipo de convicções. De levar as coisas até ao fim. Já em criança era assim. Recordo-me de ter para aí cinco anos e de, indignado com um episódio doméstico, ter decidido sair de casa. Sem contemplações, abri a porta e fiz-me à estrada. Ainda dei uns bons 50 passos. Acreditem ou não, fui para lá da casa da Rosa da Russa. Na verdade, foi já pertinho do cruzamento do Sisto que decidi, de forma irreversível e irrevogável, voltar para trás. E mantive-me inflexível. Contra tudo e contra todos. Estava cheio de saudades da minha mãe.»

 

Eu: «Começo a simpatizar com o aborto ortográfico. Porque nos permite momentos de incomparável humor, ainda que involuntário. Reparem só neste, proporcionado por uma entrevista da bela actriz Joana Santos ao suplemento 'Atual', do semanário Expresso. "Quando era miúda, sonhei ser mil e uma coisas. Quis ser arqueóloga, arquiteta...", disse ela. Na peculiar ortografia adoptada pelo jornal, até parece ter dito algo diferente.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 10.01.22

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Ana Margarida Craveiro: «Eu não gosto de futebol. Não gosto, e não vejo. Mas respeito quem gosta. Eu gosto de ler, e compro bastantes livros. Não me sinto culpada por gastar dinheiro em livros. É meu, e ninguém tem nada a ver com isso. Não tiro a ninguém para fazer as minhas comprinhas. Dizem-me que a selecção portuguesa de futebol é paga por mim, e não quero acreditar. Não sei que raio de serviço ou bem público é que a selecção de futebol, uma equipa como qualquer outra, representaria.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Mário Soares rejeitou, hoje, à tarde, "uma situação de dependência" de Portugal face à troika, desejando que o país saiba "bater o pé quando é preciso". Pergunto: qual pé? O direito ou o esquerdo? Qual deles bateu Soares quando o FMI cá esteve, no seu tempo?»

 

José António Abreu: «Em princípio, estou-me nas tintas para a composição dos órgãos sociais de uma empresa privada. Mas não se essa empresa for a EDP.»

 

José Gomes André: «Há uns dias, face ao défice de 4,5%, o PS indignava-se com o excedente orçamental. Agora, apelida o défice de 5,4% de "desvio colossal" (João Galamba) e pede explicações ao Governo. Em que ficamos?»

 

José Navarro de Andrade: «Um clássico não é só aquilo que não morre ou que continua a surpreender-nos. É sobretudo, creio, uma obra que nos dá a sensação de ainda não estar totalmente ao nosso alcance. Por exemplo um sermão do padre António Vieira. É claro que a cultura ajudará a entender as circunstâncias em que aquelas palavras foram escritas, a quem se dirigiam e o que procuravam obter. Tudo isso enriquece a leitura e dela se retirará maior prazer. Mas poderá empobrece-la se não formos também capazes de retirar o dito sermão às leis da gravidade, atirando-o ao ar a ver se ele flutua através dos tempos.»

 

Leonor Barros: «Diz que afinal não serão necessárias medidas adicionais de austeridade. Entendam-se que tenho que fazer do andar a postar e além disso este coração que às vezes vos escreve é fraco e o stress mata. Ó se mata.»

 

Rui Rocha: «Autoridade da Concorrência admite abrir inquérito a eventuais práticas de concorrência desleal entre lojas maçónicas.»

 

Eu: «Em 2012 só lerei clássicos. Totalmente nas tintas para as "novidades" editoriais. Sobretudo quando escritas no aberrante aborto ortográfico.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 09.01.22

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Ana Lima: «Clint Eastwood tem 81 anos e não precisa de Photoshop. Não são as suas rugas que nos mostram a sua grande sabedoria. Mas elas aí estão para nos lembrar que já é longa a história de uma vida que nos tem dado tanto. E ninguém discordará que é assim que nós o queremos ver!»

 

Ana Vidal: «CARPE DIEM, tinha ela escrito na t-shirt, em letras fluorescentes. Mas o latim não era o seu forte, traduzira mal o lema: tudo o que fazia dos seus dias, era carpi-los.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Lembram-se de ter ouvido falar do sistema de troca directa? Ou seja, dum sistema em que eu preciso de algo que X tem e X precisa de algo que eu tenho? Então trocamos entre os dois e não gastamos dinheiro. Ou, quando muito, gastaremos muito menos!Ora em Portugal, já há uma empresa responsável por gerir este comércio recíproco multilateral. Chama-se Rede Barter, nasceu em 2010, da cabecinha de quatro pessoas que se juntaram para o efeito e já tem setenta clientes.»

 

José Navarro de Andrade: «A economia portuguesa está em crise desde que António Guterres viu o abismo e se evadiu da governação, ou seja, desde 2001 – eis aqui um pormenorzito que tem andado esquecido. Ora quando a economia espirra, a televisão que vive da publicidade apanha uma pneumonia, pelo que tanto a SIC como a TVI, e os grupos de mídia a que pertencem, têm andado com o coração nas mãos desde então.»

 

Leonor Barros: «Depois do rapinanço aos ordenados desde Janeiro do ano passado, dos subsídios de férias e de Natal, o aumento do IVA e de tudo o que é coisa que se possa comprar, não sei o que nos resta mais. O ar que respiramos talvez. Não param de me surpreender, senhores governantes, e não é pela positiva.»

 

Rui Rocha: «Almoçámos em Amares. O restaurante é um velho conhecido. Sem pretensões e com preço a condizer. Durante um par de anos, foram-nos apetecendo outras baixelas. Agora, que temos um futuro glorioso perdido algures no passado, impõe-se o regresso a porto seguro. Pronto, porra. A uma conta que não se aproxime dos três dígitos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 08.01.22

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José António Abreu: «Há – ou (e isto diz tanto sobre mim) desconfio que haja – quem me considere introvertido. E também quem me considere extrovertido. Se introversão é interiorizar e não exprimir, os primeiros estão enganados. Se extroversão é manifestar abertamente tudo o que se sente, os segundos também. A melhor forma de me descrever talvez seja dizendo que sou extrovertido para dentro. Com frequência, isso nota-se de fora.»

 

Patrícia Reis: «Sherlock Holmes para aquecer, depois a Carnificina de Deus e, para terminar, A Toupeira. Seis horas de cinema. Três filmes completamente diferentes, todos bons, com actores de qualidade, bons diálogos, edição e montagem de se tirar o chapéu e bandas sonoras a condizer (confesso que a última, de Alberto Iglezias, é a minha preferida).»

 

Rui Rocha: «Se tivesse de decidir entre a Maçonaria e o Opus Dei, escolhia a Olivedesportos. Aquela coisa do cilício parece-me desconfortável e o avental, apertando menos as carnes, tem, convenhamos, o seu quê de ridículo. Para além do mais, dizem-me que para pertencer à irmandade dos Oliveiras já não é obrigatório usar bigode.»

 

Teresa Ribeiro: «Os filmes da chamada idade de ouro do cinema português sempre me fascinaram. Com eles tive acesso ao Portugal pobrezinho, saloio e pacato que só conhecia das histórias que os meus pais  e avós me contavam. O país anacrónico dos namoros de janela, tão diferente das referências que o cinema de Hollywood me dava, em criança, sobre o que era a vida nos anos 30 e 40, revelou-se-me nas cenas românticas de O Pátio das Cantigas

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.01.22

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João Campos: «Há alguns meses, comprei uma antologia de contos intitulada Legends, de 1998. Editada por Robert Silverberg, Legends junta contos de fantasia de alguns dos melhores escritores do género da actualidade. Entre estes figuram, por exemplo, George R.R. Martin, autor da consagrada série A Song of Ice and Fire - o conto The Hedge Knight foi o que me levou a comprar a antologia, e só por si vale os sete euros e vinte cêntimos que custou o livro - ou Robert Jordan, falecido em 2007, autor da série The Wheel of Time. E, claro, Terry Pratchett, com um conto saído directamente da série de fantasia que o celebrizou - Discworld

 

José Navarro de Andrade: «As empresas de televisão que vivem dos ingressos publicitários aprestaram-se para 2012 na expectativa de ser o pior ano das suas vidas. O investimento mergulhou a pique no último semestre, depois de vir descendo consistentemente no último ano e tudo indica que poderá piorar em 2012. Agora, estão à bica de ver esfumar-se, do dia para a noite, mesmo que temporariamente, 18% das audiências – uma brutalidade!»

 

Patrícia Reis: «O blog do Miguel Carvalho lê-se como um romance em directo da vida dele e a vida dele pertence, um pouco, à nossa, tanto nos medos quanto nas perguntas, nos gostos e paladares, nas memórias das músicas de outrora ou acabadas de descobrir.»

 

Rui Rocha: «O único segredo a que um político deve estar obrigado é o que é imposto pelo interesse do Estado, na interpretação que lhe é dada pelos cidadãos que representa. E o único segredo que um magistrado deve aceitar é o devido à justiça.»

 

Eu: «Para manter a tradição, aqui no DELITO elegemos aquele que para nós foi o melhor blogue do ano que acabou. E a escolha recaiu num blogue individual: Meditação na Pastelaria, de Ana Cristina Leonardo, recolheu quatro votos. O segundo lugar, com três votos, coube a outro blogue individual: Lei Seca, de Pedro Mexia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.01.22

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Ana Vidal: «À atenção da Dra. Assunção Esteves, algumas dicas úteis para reconhecer um maçon.»

 

João Carvalho: «Mouzinho [da Silveira] foi uma figura de proa do Liberalismo e até do Portugal que temos hoje. A sua reforma administrativa era totalmente irrealista na dimensão, mas foi em frente com alterações insuficientes e ainda agora está por corrigir. Contudo, a sua construção de raiz de uma nova Justiça independente revelou um trabalho sem paralelo que ainda prevalece e que já então colocava Portugal entre os países mais avançados, segundo um regime com um sistema judicial que ainda é comum aos Estados civilizados.»

 

José Navarro de Andrade: «Num país laico como a América – ah pois é! – O gesto deste devoto filho de missionários batistas provocou enorme celeuma. Uns execraram-no e troçaram dele, porque (re)afirmam que bola é bola, mesmo quando seja oval, Deus é Deus e a América está muito bem sem misturas; outros cantaram hossanas, porque não se cansam de (re)afirmar que nunca é demais agradecer o facto de Deus ter abençoado a pátria dos livres, lar dos bravos.»

 

Patrícia Reis: «Descascar uma romã, escolher 3 bagos, trincar cada uma e dizer: Gaspar, Melchior e Baltazar, valei-me desta semente para ter e para dar. Colocam-se as 3 bagas numa nota de qualquer valor, dobra-se o mais possível e guarda-se na carteira. No ano seguinte repete-se.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.01.22

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João Carvalho: «Se o DELITO DE OPINIÃO tem sido bem sucedido nestes três anos, não há-de ser um disparate acreditar que a sua imagem gráfica contribuiu para essa boa receptividade. As alterações agora introduzidas podem ajudar a melhorar um pouco essa imagem, aqui e ali, mas não necessariamente em toda a sua extensão. Um dos detalhes é o fundo branco dos textos, que passou a ser igual ao dos outros todos e deixou de distinguir o DO. Sem qualquer maldade da minha parte, deixo-vos um desafio: quem concordar comigo a favor do tom avelhado geral anterior que ponha um braço no ar. Pode ser que volte tudo atrás no próximo aniversário.»

 

José António Abreu: «Veste uma t-shirt preta com a frase Don't Give Up estampada na parte frontal. As letras, douradas, constituídas por pontos individuais, brilham ao serem atingidas pelas luzes do bar quando ela se move. Penso em Kate Bush mas apenas durante um instante. Aproximo-me. Meto conversa. Não se mostra interessada. Insisto. Adaptando uma frase de uma das melhores letras que Bono alguma vez escreveu, digo-lhe: «You lips say one thing, your t-shirt something else.» Sorri. Murmura: «A t-shirt é emprestada.» Mas deixa-me pagar-lhe uma bebida.»

 

Patrícia Reis: «Não são apenas os diálogos, a fotografia, os enquadramentos, os actores... é tudo. Um filme que me dá alguma esperança.»

 

Rui Rocha: «Mais um copo e ainda acabava a ver Zorrinhos cor-de-rosa.»

 

Eu: «Os motoristas de táxi que andam a pedir "um novo Salazar" enquanto passam os sinais vermelhos.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.01.22

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Adolfo Mesquita Nunes: «Um dia, sem mais nem porquê, percebi que o limão reunia o meu cheiro favorito, a minha cor favorita e, como se já não bastasse, o meu sabor favorito. Com tanto favoritismo, habilito-me a acabar afogado num copo de gin tónico na minha próxima reencarnação.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não são só os políticos a seguir a doutrina de Frei Tomás. Os empresários copiam-lhes o exemplo. Se analisarmos o PSI 20, não é preciso dizer mais nada sobre lições de moral...»

 

João Campos: «Concedo que a pirataria possa ser um problema (pessoalmente acho que a questão está hiperbolizada), mas o problema não será resolvido se se despejar sobre ele terabytes de disparates.»

 

João Carvalho: «Entre os transportes, o autocarro nem sempre é dos mais rápidos. Mas tem um invejável arranque...»

 

José António Abreu: «É uma cobardia atacar os que são demasiado fracos para se conseguirem fazer ouvir.»

 

Rui Rocha: «Cidadãos indignados apelam ao boicote aos Supermercados Pingo Doce e aconselham a compra de produtos nacionais nas Lojas Mozart.»

 

Teresa Ribeiro: «Se em Portugal, à revelia do seu credo liberal, o governo não tem feito outra coisa senão agravar os impostos, já agora bem podia fazer como na Suécia, pôr o coração ao alto, abdicar de alguns pruridos quanto à protecção de dados e fazer um verdadeiro controlo do incumprimento e evasão fiscal.»

 

Eu: «A democracia chega enfim ao Magrebe e ao Médio Oriente? É cedo para avaliar, embora na Tunísia tenha já ocorrido a primeira eleição democrática desde a independência do país, em 1956 -- uma eleição que ocorreu de forma transparente, pacífica e muito participada. Este movimento, que muitos analistas baptizaram de 'Primavera árabe', foi o acontecimento político internacional de 2011 segundo a maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.01.22

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Adolfo Mesquita Nunes: «Gosto muito da noção de recomeço. A coisa talvez me venha da educação católica ("a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias", escreveu Sophia) mas ficou para além dela. É por isso que aproveito todos os pretextos para ensaiar, ou legitimar, um recomeço. A passagem de ano é apenas um deles, e o menos original.»

 

Ana Lima: «Ontem de manhã, por ter de esperar a minha vez num consultório, dei por mim a ver um programa de televisão (vi agora numa pesquisa que se chama "Cartas da Maya - O Dilema") no qual a taróloga Maya respondia às dúvidas de uma senhora que tinha ligado para o canal através de um número de telefone começado por 760. (...) Confesso que fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, por parte da tal senhora, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: "é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios". E, pelos vistos, há várias "consultas" deste género por programa.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Portugal precisa de encontrar um rumo de justiça. E perceber que os sacrifícios não podem ser pedidos a todos igualmente. Este é um domínio onde a igualdade tem mesmo que ser substituída pela equidade.»

 

João Carvalho: «Os transportes podem ser como os cozinhados: uns são picantes, outros não...»

 

José António Abreu: «Como é que uma pessoa pode ser optimista se o ano da maior crise económica das últimas décadas, para além de ter menos feriados para todos e menos salário para alguns, taxas mais elevadas nos serviços públicos e bilhetes mais caros nos transportes públicos, ainda é bissexto?»

 

José Navarro de Andrade: «Até o comunismo do Império do Meio parece bem estranho ao nosso, tendo já sido capaz de trocar os olhos a Estaline, Brejnev, Durão Barroso (duas vezes) e George Bush. Acontecem coisas, por exemplo em Xangai, que os vizinhos coreanos nem sonham e os amigos cubanos sonham mas não pensam.»

 

Luís M. Jorge: «Chateia-me ver todos os dias o Crespo à conversa com uns senhores muito bons que esperam de mim uma vocação para o sacrifício enquanto acumulam prebendas ou aproveitam as vantagens da concorrência fiscal. É um problema que eu tenho: não gosto de ser espoliado por hipócritas.»

 

Luís Menezes Leitão: «Perante estas notícias que constantemente surgem, os diversos governantes da Europa limitam-se a fazer discursos apelando à mobilização dos cidadãos. A mim lembram-me aqueles que continuaram a tocar violino enquanto o Titanic se afundava.»

 

Teresa Ribeiro: «Nada como um estudo comparativo da UE para se perceber em que estão a destacar-se os lindinhos da troika.»

 

Eu: «"Crise? Que crise?", perguntavam os Supertramp no título de um álbum muito escutado na década de 70. No Portugal dos nossos dias, ninguém precisa de perguntar se há crise: ela está hoje bem evidente, aos olhos de todos, mesmo daqueles que procuraram negá-la até ao último minuto. A palavra crise terá mesmo sido a mais pronunciada entre nós ao longo de 2011, sobretudo a partir do momento em que o anterior Governo, liderado por José Sócrates, solicitou assistência de emergência a um trio de entidades supranacionais: a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.01.22

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Ana Vidal«Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Tenho um enorme orgulho de ser portuguesa, mas isso não invalida que critique a terrinha sempre que isso me parece justo. Porém, aviso já, gosto tanto de Portugal que chego a gostar dos seus defeitos...»

 

Ivone Mendes da Silva: «Há um submundo assustador a viver nas caixas de comentários dos jornais online. Não têm nome, apenas nicks pouco recomendáveis  e um perverso gosto pelo anonimato. Escrevem em maiúsculas, com a morfossintaxe de um Átila e a coprolalia de um paciente de Tourette no grau máximo. Os outros são todos, no mínimo, gatunos, uma corja, quando aparece algum mais letrado a exprimir-se. Eles, os comentadores, são honestos, sérios e clarividentes. Só é pena que não saibam escrever.»

 

José António Abreu: «A imagem da Apple como empresa «boa» e de Steve Jobs como personificação do empresário/gestor ideal confunde-me há anos. E confunde-me ainda mais a aparente simpatia da esquerda por uma e outro. Não se trata apenas do facto dos produtos serem caros e operarem em sistemas tão ou mais fechados que os da concorrência (desde logo, que os da «maléfica» Microsoft). Não se trata somente do mau génio de Jobs que, noutra empresa qualquer, o teria transformado num «patrão» prepotente.»

 

Luís Menezes Leitão: «Foi há dez anos, no início de 2002, que recebemos as primeiras notas e moedas de euros, embora o euro já existisse como moeda escritural desde 2000, funcionando as antigas moedas nacionais como suas divisões. Lembro-me perfeitamente da euforia com que os euros foram então recebidos pelos portugueses, que passariam a ter uma moeda aceite em toda a Europa. O problema foi o que veio a seguir. Os preços dos produtos dispararam, mas ninguém deu por isso, deslumbrado com o crédito fácil que a baixa das taxas de juro tinha proporcionado. As pessoas endividaram-se brutalmente, ficando completamente arruinadas.»

 

Rui Rocha: «O ano de 2012 trará muitos motivos para alarme. Não faltarão manchetes deprimentes para fazer ao longo dos próximos 364 dias. Por isso, não é aceitável que se embarque no alarmismo sem fundamento, reproduzindo para os leitores ondas de angústia que a situação concreta noticiada não justifica.»

 

Eu: «Chego ainda a tempo de deixar aqui a minha singela homenagem a cinco colunistas do Diário de Notícias, que tornaram evidente a sua opção de continuar a escrever nos termos da ortografia clássica, contrariando as novas directrizes da casa, que abraçou o 'acordo ortográfico' -- bem patente em palavras como 'ator', 'adota', 'reativados', 'projeto' e 'arquitetura', já estampadas em títulos da edição de hoje.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.01.22

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Ivone Mendes da Silva: «Que silêncio. Devo ser a única pessoa acordada nesta casa. Ficava-me bem fazer umas profundas considerações sobre o ano que começa. Ficava, mas não vou fazê-las. Não quero considerar.»

 

José António Abreu: «Decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme. Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.»

 

Laura Ramos: «Acredito que a saúde em Portugal tem um lastro de qualidade suficiente para aguentar o embate, se houver coragem para distinguir o essencial do acessório.»

 

Eu: «Ilustre desconhecido da generalidade dos portugueses até há seis meses, o ministro das Finanças [Vítor Gaspar] tornou-se uma figura dominante da cena política nacional no último semestre de 2011, suplantando todos os outros protagonistas, na opinião da maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, na já tradicional votação em jeito de balanço do ano que terminou. Pelas severas medidas de austeridade que determinou em resposta à situação de emergência que levou o anterior Executivo a solicitar auxílio internacional. E também pelo seu original estilo de comunicar com os portugueses. Inconfundível, embora não inimitável.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.12.21

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João Carvalho: «De acordo com um velho calendário Maya de previsões, o ano que vai entrar não augura nada de bom. Porém, para mim, a civilização Maya é um logro. Maya é só uma cartomante e palpita-me que nem sequer adivinhou como garantir o seu próprio futuro sem ser a deitar cartas. Por isso, esqueçam as previsões e façam o seguinte: tentem que 2012 seja um ano mais ou menos jeitoso para todos. São os votos de felicidade que vos dirijo. A vossa sorte será a minha.»

 

Rui Rocha«Em declarações proferidas algumas horas antes de tomar posse, o ano 2012 afirmou que as medidas serão suas mas as dívidas são dos anos anteriores.»

 

Teresa Ribeiro: «O melhor é ser pragmático, tirar as pedras do sapato, escolher uma nuvem e deitar mãos à obra. O Pessoa percebia disto. Sigamo-lo em 2012.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.12.21

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Ana Margarida Craveiro: «Nas primeiras aulas de condução que tive, o instrutor disse-me que tinha uma bomba nas mãos. Uma bomba que me matava a mim, e aos outros. Infelizmente, raramente vejo essa consciência à minha volta.»

 

Ana Sofia Couto: «Comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos.»

 

Ana Vidal: «Lá porque estamos em crise, não deixe de festejar a passagem de ano com todos os matadores. Aqui está a minha sugestão: uma receita de lagosta a la troika para o seu réveillon. À sua!»

 

João Campos: «Carnage - em português, O Deus da Carnificina -, de Roman Polanski, é em certa medida o oposto de muitos dos filmes que podemos ver hoje em dia: actores de qualidade misturados com actores com menos qualidade em produções feitas para mostrarem grandes cenários (normalmente feitos em computador) pirotecnia, efeitos especiais e cenas de acção e suspense que querem ser muito originais mas que acabam por ser invariavelmente iguais. E é justamente por ser o oposto dessa tendência que Carnage é um filme excelente e refrescante.»

 

João Carvalho: «Mais um "milagre" do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de "restabelecida a ordem" por via do computador.»

 

José António Abreu: «O Mapa e o Território é um Houellebecq com o desencanto de sempre, com referências à decadência do corpo, à incapacidade de manter relações afectivas prolongadas, à vacuidade que tomou de assalto a vida diária, ao primado do dinheiro e do show-off, mas mais suave, mais irónico do que obras anteriores. É um livro em que Houellebecq tira um prazer evidente de se inserir na trama e de se descrever com todos as idiossincrasias de que é acusado.»

 

Luís M. Jorge: «Para alguém que — como eu — nem sequer tem carta de condução, o que se passa nas estradas portuguesas é um genocídio. Pior que isso, é uma orgia de parolos montados em altas cilindradas, psicopatas do tuning e espectadores da TVI.»

 

Rui Rocha«Não sei se também vos aconteceu... No meu caso, antes de aprender a ler, os nomes de algumas pessoas soavam de maneira bem diferente daquela que vim a descobrir ser a forma correcta de os escrever. Por exemplo, para mim, Zeca Afonso era Zé Cafonso. Lembro-me também do Omar Xerife (na minha imaginação de menino, naturalmente, um herói do velho oeste) ou do Igreja Isqueiro (Igrejas Caeiro). A maior desilusão foi todavia o Sam Peque em Paz. O nome real de Sam Peckinpah não lhe servia nem para moço de recados.»

 

Eu: «Um ditador devia ser sempre apelidado de ditador. Mas se for um ditador de esquerda é legítimo que receba um indulto jornalístico? Deixo a pergunta à consideração de quem quiser pronunciar-se. A resposta, para mim, é óbvia.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.12.21

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Ivone Mendes da Silva: «Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose.»

 

João Carvalho: «Não tenho a certeza, mas parece que esta foto não é do funeral do querido ditador norte-coreano. Se fosse, aquele ciclista refractário que acabou de fugir da coluna já estaria, no momento da foto, a ser mortalmente alvejado por um agente da autoridade em julgamento supersumário feito a olho. Ainda assim, vou falar com o camarada Bernardino Soares para tirar dúvidas.»

 

José António Abreu: «Há muitos anos que Houellebecq, o escritor, se transformou numa personagem e ele sabe-o. Raramente os seus livros foram lidos pelo que pretendiam dizer e ele sabe-o. Chegou a referi-lo em entrevistas, explicando que as críticas negativas o chateavam acima de tudo por, centrando-se nele próprio – e, no fundo, muito mais na personagem Houellebecq do que nele próprio – e nas componentes de choque que os livros incluíam – misantropia, sexo, niilismo –, passarem ao lado daquilo que os livros efectivamente procuravam transmitir.»

 

Laura Ramos: «- Não achas que o TGV protegeria os portugueses do risco de assaltos como este?
Não tarda nada e a vida estará para os novos Bonnies&Clydes, que farão parar qualquer inocente comboio alfa...
É  que é pendular! Quero dizer: patibular.»

 

Rui Rocha«É evidente que a doença de [Hugo] Chávez, para o tomarmos como exemplo, é um assunto fundamental para a Venezuela. Sem Chávez não há chavismo. Uma doença grave do autor de tal programa político pode implicar uma mudança fundamental da situação do país. O que está em causa, todavia, é transformar uma doença real numa encenação teatral destinada a fortalecer a posição do tiranete e a abafar a oposição interna. Fazer de uma doença um golpe publicitário não é, na Venezuela, uma cabala perpetrada pelos inimigos do socialismo populista e delirante de Chávez. É o exemplo último da farsa em que Chávez converteu o debate político no seu país.»

 

Eu: «Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar - património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.»