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A resistência à escravidão

por Pedro Correia, em 12.05.19

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Bloqueio a Berlim decretado por Estaline durou quase um ano: terminou a 12 de Maio de 1948

 

Faz hoje 70 anos, Berlim foi libertada. Não pelo solo, mas pelo ar. Foi um marco na história da liberdade na Europa. Estranhamente - ou talvez não - um marco de que pouco se fala hoje. 

A cidade estava dividida desde 1945, quando o Exército Vermelho se apoderou da metade oriental da Alemanha enquanto as divisões blindadas ocidentais anexavam a parcela mais ocidental do país, conduzido à derrota por Adolf Hitler. As cimeiras de Ialta e Potsdam, em 1945, repartiram o território alemão em quatro grandes áreas de influência tuteladas pelos vencedores da II Guerra Mundial, aplicando-se a mesma regra para Berlim, capital do defunto III Reich. A Alemanha, mergulhada em cinzas e escombros, tornou-se um país ocupado. À mercê de um novo conflito, desta vez ideológico: de um lado os Estados Unidos, o Reino Unido e a França – democracias liberais; do outro, a URSS de cariz totalitário. Como Winston Churchill alertou em Março de 1946, uma Cortina de Ferro fracturara o continente europeu. Do lado de lá, imperavam as legiões de Estaline.

O ditador soviético quis transformar a Alemanha num Estado-satélite, sem verdadeira soberania. Enquanto as potências ocidentais apostavam na reconstrução de uma Alemanha próspera para evitarem os erros cometidos no final da I Guerra Mundial, quando a miséria e o caos social fizeram chocar o ovo da serpente de onde emergiu o regime nazi.

 

Enclave ocidental


Berlim, naquele ano de 1948, permanecia sob ocupação militar. Dividida em quatro zonas. Três quartos da cidade funcionavam como autêntico enclave ocidental em território comunista – ilha democrática no imenso império vermelho. A 7 de Junho, as potências ocidentais anunciaram a intenção de unificar as áreas territoriais sob a sua jurisdição – formando aquilo que seria a República Federal da Alemanha a partir do ano seguinte. No dia 20, entrava em circulação uma nova divisa monetária, o marco alemão, substituindo as senhas de racionamento que vigoravam desde o fim da II Guerra Mundial. Tudo à revelia de Moscovo.

Era um equilíbrio precário entre os antigos aliados que prometia não durar muito. E assim foi: a 24 de Junho, Estaline ordenava aos seus efectivos militares o encerramento compulsivo das vias de acesso a Berlim Ocidental tanto por estrada como pelas linhas férreas que conduziam a Hamburgo e Munique, bloqueando igualmente os canais fluviais: 2,2 milhões de pessoas viram-se privadas, de um dia para o outro, de alimentos. A cidade apenas produzia 2% daquilo que comia, dependendo quase em exclusivo do exterior para esse efeito.

Num primeiro momento, a administração norte-americana hesitou. Alguns conselheiros do Presidente Harry Truman não queriam arriscar um conflito declarado com os soviéticos, anteriores aliados de Washington na guerra contra a Alemanha nazi, nem socorrer aquela população, que escassos anos antes vitoriava Hitler e diabolizava os EUA.

 

A maior ponte aérea


Truman não escutou tais vozes. Estava convencido de que se Berlim caísse por inteiro nas mãos dos soviéticos, os EUA perderiam rapidamente o domínio de todo o território alemão.

A 26 de Junho o inquilino da Casa Branca ordenou o início da Operação Vittler – que viria a transformar-se na maior ponte aérea destinada ao transporte de carga humanitária. Usando para o efeito três corredores aéreos, com 32 quilómetros de largura, a partir de Hamburgo, Hannover e Frankfurt, na Alemanha Ocidental.

O desafio foi imenso: nunca tinha sido montada uma operação deste género, para fins civis, em toda a história da aviação. O general Lucius Clay (1898-1978), comandante militar norte-americano na Alemanha, foi o artífice supremo deste imenso aparato logístico que viria a mobilizar um total de 277.569 voos rumo. «Ninguém nos expulsará de Berlim», garantiu.

Este abastecimento aéreo da população cercada foi um sucesso, rapidamente difundido nos documentários de actualidades exibidos diariamente nas salas de cinema um pouco por todo o mundo. Tornando-se assim num inesperado foco de propaganda americana em socorro de cidadãos em risco, enquanto os soviéticos eram apresentados como seres impiedosos, capazes de condenar homens, mulheres e crianças à fome e ao frio.

 

O argumento atómico


Estaline ainda ponderou encerrar unilateralmente os corredores aéreos. Truman dissuadiu-o, fazendo sobrevoar sobre a Alemanha dois bombardeiros B-29 – as chamadas “superfortalezas” – idênticos aos que em 1945 lançaram as bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui. A URSS ainda não dispunha de arsenal nuclear, o que limitava a capacidade de manobra do dirigente soviético, com noção exacta das distâncias geográficas: uma bomba despejada sobre Berlim teria efeitos inevitáveis em Moscovo, a 1854 quilómetros de distância.

Perdida a batalha da propaganda, confirmada a resistência da população de Berlim e a intenção de Washington de prosseguir a ponte aérea – na qual também participou a Real Força Aérea britânica – Moscovo cedeu. A 11 de Maio de 1949, era anunciada a reabertura das ligações por estrada e via férrea entre Berlim e a Alemanha Ocidental, através de território controlado pelos comunistas, com efeitos logo após a meia-noite. Mas os voos de abastecimento prosseguiram até final de Setembro: havia que salvaguardar reservas suficientes na cidade para a hipótese de haver novo cerco.

Berlim estaria em foco noutros dramas – o maior dos quais ocorrido a 13 de Agosto de 1961, quando Moscovo ordenou que toda a parcela ocidental da cidade ficasse cercada por blocos de betão numa desesperada tentativa de drenar a contínua fuga de cidadãos do Leste para o Ocidente: erguia-se assim o tristemente célebre Muro. Símbolo máximo da Guerra Fria, emblema de um sistema político que entraria em derrocada definitiva em Novembro de 1989. Derrubado pela própria população de Leste, que nunca desistiu de perseguir a liberdade.

 


A ajuda que vinha do céu

 

Apesar da ponte aérea, a população de Berlim Ocidental passou por inúmeras privações entre Junho de 1948 e Maio de 1949. Faltava a energia para o abastecimento de fábricas e lares. Nesse Inverno vários habitantes mais idosos morreram devido ao frio. A iluminação pública esteve quase sempre racionada. E chegou a ser ordenado o corte de milhares de árvores para acender lareiras na cidade sitiada.

Nesses meses, muitas das crianças da cidade acorriam a toda a hora às vedações do velho aeroporto de Tempelhof e do novo aeroporto de Tegel (inaugurado em Dezembro de 1948), onde era constante o movimento das aeronaves ocidentais. Os miúdos dessa geração habituaram-se a brincar com aviões de papel, de lata ou de madeira – muitas vezes feitos por eles próprios. Cada qual, à sua maneira, simbolizava a resistência à escravidão.

A importância do segredo

por Alexandre Guerra, em 16.10.18

Para os saudosos da Guerra Fria, os tempos que se vivem actualmente no sistema internacional são de anarquia total ao nível da comunidade de intelligence militar e paramilitar, mergulhada numa lógica de far west, onde se dispara primeiro e se pergunta depois, mesmo que em plena luz do dia, à vista de todos. A arte do segredo está a perder-se, porque, para se defender os interesses do Estado, já não é preciso fazer o “trabalho sujo” no obscurantismo das relações internacionais. Não se temem as consequências e tudo pode ser feita às claras ou com um grau de displicência que envergonharia qualquer agente da "velha guarda" do KGB ou da CIA. Como referia Ferreira Fernandes na sua última crónica no DN de domingo, “o mais interessante é a generalização dessa linguagem de mata e esfola”, protagonizada por alguns líderes mundiais, nomeadamente por aqueles que estão à frente da Rússia e dos EUA, as duas super-potências que outrora dividiram os desígnios do mundo.

 

Este tipo de discurso irresponsável e inconsciente, conivente com práticas imorais e ilegais que são concretizadas quase sob os holofotes da opinião pública, contribui para um sentimento de impunidade no seio das comunidades das “secretas” mundiais. Retomando as palavras de Ferreira Fernandes, “peguemos no caso dos dois espiões russos que foram a Inglaterra matar um ex-colega que se passara para o outro lado. Foram a casa dele em Salisbury, envenenaram o que tinham para envenenar e regressaram a casa. Não se importaram de deixar pistas. Suspeitos, aparecem na televisão russa oficial com historietas despudoradas de terem ido a Salisbury invocando dados turísticos que vinham na Wikipédia. Tão descuidados, deixaram que os seus nomes reais aparecessem: são agentes da inteligência militar russa (GRU). Entretanto, outros espiões russos são apanhados em Haia, Holanda. Com sofisticação dos aparelhos faziam pirataria informática a partir de um carro estacionado frente à OIAC, organização que combateu as armas químicas. Fora a OIAC que provara a origem russa do veneno usado em Salisbury. Ora, os espiões russos de Haia eram um livro aberto: até faturas de táxis eles tinham de corridas apanhadas à porta da sede moscovita do GRU”.

 

Esta passagem da crónica de Ferreira Fernandes é elucidativa do que se passa hoje em dia no sistema internacional, onde as “covert operations” deram lugar a acções semi-clandestinas, sem que haja particular preocupação de se evitar embaraços político-diplomáticos. As estas duas histórias, outras tantas podíamos aqui referir que foram identificadas nos últimos tempos, sendo que a mais recente é de tal maneira inverosímil pelo seu grau de descuido e de incompetência, que custa a acreditar que tenha acontecido como tem sido noticiado. Caso se confirmem as notícias que têm vindo a público e a tese avançada pelo Governo de Ancara, o assassinato de Jamal Khashoggi, jornalista crítico do regime de Raide, dentro do consulado árabe na capital turca, sob o ponto de vista realista e maquiavélico, é um dos maiores desastres da história dos serviços de intelligence. Por um lado, além da óbvia questão moral, colocará um problema muito complicado a Washington e, por outro, expõe o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (e líder “de facto”) ao julgamento público de ter “ido longe demais” no silenciamento dos seus opositores.

 

No sistema bipolar de Guerra Fria, as regras vigentes no sistema internacional eram claras e seguidas à risca pelos diferentes actores estatais. Dificilmente haveria espaço para “rogue killers” actuarem por sua conta e risco. Ninguém aprovaria uma operação com impacto sistémico sem que Moscovo ou Washington soubessem. Era impensável que serviços secretos de um qualquer país ousassem dar luz verde a uma “covert operation” sem que estivesse enquadrada nos interesses do “tabuleiro” sistémico bipolar (Israel foi sempre uma excepção na arquitectura da espionagem internacional).

 

Esse secretismo contribuiu para um equilíbrio sistémico que, com mais ou menos desanuviamento, com mais ou menos crise regional, evitou um novo conflito mundial. Na defesa dos seus interesses, Washington e Moscovo agiram, muitas vezes, à margem do quadro legal internacional e dos princípios éticos e morais, refugiando-se no obscuro mundo da espionagem. Essas operações e acções ficaram longe dos olhares da opinião pública, a quem o que interessava mais era a manutenção dos estilos de vida das suas sociedades.

 

Tal como nas relações sociais entre pessoas, também nas dinâmicas entre Estados, se, por um lado, nem tudo deve ficar no secretismo, também não se deve (e pode) meter tudo às claras, correndo-se o risco de se fomentarem crises político-diplomáticas, e até mesmo militares, que comprometam o status quo e, em última instância, a paz e segurança das pessoas. É por isso que a gestão do segredo continua a ser um factor fundamental na estabilidade das relações internacionais, porque, a partir do momento em que se instala nas sociedades a percepção de que tudo vale, de que ninguém respeita uma certa ordem tácita, a sensação de insegurança aumenta, abrindo caminho para a penetração de ideias políticas que sustentem a chegado ao poder de lideranças mais musculadas e autoritárias. Ou seja, será a altura em que os cidadãos das democracias preferirão sacrificar as suas liberdades e garantias em prol da segurança.


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