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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (65)

Batalha de Alvalade

Cristina Torrão, 12.12.25

Dom Dinis Papel (2).JPG

Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, a fim de reunir os seus apoiantes e apoderar-se do trono à força.

Ao saber que o filho avançava em direcção a Lisboa com a sua hoste, D. Dinis, auxiliado pelos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil. Mas a refrega foi impedida por intervenção de D. Isabel. Diz-se que se interpôs entre os dois exércitos, no meio do campo de batalha. 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Dei a minha versão dos acontecimentos, no romance sobre D. Dinis:

 

Soaram as trombetas e os anafis, deu-se ordem de disparo, abrindo as hostilidades. Voaram as primeiras setas dos archeiros de Dinis por cima do campo e não tardou que uma chuva delas, vindas do adversário, caísse em cima dos seus homens, que se protegiam com os escudos.

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. Viu a cruz em primeiro lugar. Devia ser enorme, mas era transportada por um único cavaleiro. À frente deste, vinha mais alguém. Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do fogo das setas.

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

Também do outro lado teria sido dada ordem semelhante, pois os projécteis deixaram de cruzar os céus. Estabeleceu-se o silêncio sobre a planície. Dinis mandou cavaleiros ao encontro de Isabel e seu acompanhante. Constatou que o príncipe fizera o mesmo. Cavaleiros de ambos os lados aproximaram-se das duas figuras solitárias.

 

O acompanhante de D. Isabel era o bispo de Lisboa, D. Gonçalo Pereira. Enquanto a rainha seguiu os cavaleiros do príncipe, pois decidiu falar primeiro com o filho, o bispo acompanhou os de D. Dinis. Chegado à presença do rei, o prelado relatou:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço. E ela assim comigo falou:

- D. Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade. Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência.

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem guerreiros…

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz.

Mostrou-me a enorme cruz, transportada por quatro criados. 

Ainda me recordo de pensar ter D. Isabel endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim. Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados pelos quatro serviçais e mais dois com lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, D. Isabel disse que apenas eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas. Os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, D. Gonçalo, e vede como Deus a faz leve.

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la. Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé!

A minha montada seguia a de D. Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, voando em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso nunca haver sentido tanto medo na minha vida. Bradei:

- Morreremos, é o nosso fim.

- Fechai os olhos, D. Gonçalo, e rezai.

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava haver chegado a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive. De repente, dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente mui pesada. Não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui, no abrigo da vossa tenda».

 

A pedido da mãe, o príncipe concordou em desistir dos seus intentos, mas declarou não mais desejar falar com o pai, nem encontrar-se com ele.

Em Fevereiro seguinte, D. Dinis dirigiu-se a Santarém, onde o príncipe se havia recolhido, apenas para sofrer grande humilhação. As portas da cidade mantiveram-se fechadas, barrando a entrada ao rei de Portugal. Houve combates, em redor das muralhas, e, a 26 de Fevereiro, conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe. D. Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

Um ano com D. Dinis (58)

Cortes de Lisboa de 1323

Cristina Torrão, 17.10.25

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Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante D. Afonso, o herdeiro de D. Dinis. E reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada.

O infante D. Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros a ele doados pelo pai de ambos. Estas suas pretensões foram, porém, desleixadas, tratou-se de outros assuntos, acabando com a paz frágil, negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos.

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente, perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se haver exagerado na sua protecção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir o voltar de costas do seu herdeiro àquela assembleia.

No fim do dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a ruptura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com ele.

Não obstante o arrependimento, o rei não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

Um ano com D. Dinis (41)

Guerra Civil de 1320/25

Cristina Torrão, 01.06.25
 

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D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis

 

A 1 de Julho de 1320, D. Dinis apresentou o seu primeiro manifesto contra a revolta do filho, o futuro D. Afonso IV. Durante a guerra civil, que se verificou entre o Rei Lavrador e o seu herdeiro, D. Dinis apresentou três manifestos.

O primeiro foi lido nos paços reais da alcáçova de Santarém e incluía várias queixas do rei contra o filho, acusando-o de ingratidão. Porém, o mais importante foi a apresentação de provas documentais, desmantelando duas acusações graves feitas pelo infante: seu meio-irmão Afonso Sanches tê-lo-ia mandado envenenar e o pai prepararia o seu afastamento do trono, tendo pedido ao papa a legitimação do mesmo Afonso Sanches.

Alguns momentos marcantes da guerra civil de 1320/25:

- Em Março de 1321, partidários do príncipe assassinaram D. Geraldo, bispo de Évora, junto da Igreja de Santa Maria de Estremoz. D. Geraldo estava, desde 1317, autorizado a excomungar os adversários do rei.

- Em Abri de 1321, o príncipe D. Afonso assumiu o controlo de Leiria e a 15 de Maio, D. Dinis apresentou, em Lisboa, o segundo manifesto contra o filho e seus partidários.

- No Verão de 1321 (altura do desterro de D. Isabel em Alenquer, por D. Dinis a acusar de pactuar com o filho) o príncipe D. Afonso tentou debalde conquistar Santarém e Tomar (a alcáçova de Santarém é recuperada por D. Dinis e o Mestre da Ordem de Cristo fechou a fortaleza de Tomar ao infante).

- Em Setembro de 1321, Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, enviou Frei Sancho a Portugal, a fim de reconciliar o pai com o filho, mas o prelado nada pôde fazer.

- A 9 de Dezembro de 1321, houve um grande terramoto em Lisboa, interpretado como castigo de Deus pelos desentendimentos entre pai e filho.

- A 17 de Dezembro de 1321, D. Dinis apresentou o terceiro manifesto, desnaturando o filho e considerando traidor quem o seguisse.

- A 31 de Dezembro de 1321, o príncipe D. Afonso apoderou-se de Coimbra, pelo que foi cercado por D. Dinis, a 7 de Março de 1322.

- Em Janeiro de 1322, D. Dinis recuperou Leiria e castigou duramente os traidores, refugiados no mosteiro de Alcobaça. Nesta altura, o infante D. Afonso ocupou os castelos de Montemor-o-Velho, Feira e Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, onde se lhe juntou o conde Pedro de Barcelos (seu meio-irmão).

- Em Maio de 1322, há um acordo de paz em Leiria. D. Dinis foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa e fez segundo testamento. O seu estado melhorou no início de 1323, mas a paz foi quebrada depois das Cortes de Lisboa, em Outubro deste ano, com D. Afonso decidido a apoderar-se à força do trono. Por intervenção de D. Isabel, não chegou a travar-se a batalha no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

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 Dona Isabel na Batalha de Alvalade