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Delito de Opinião

Cá no nosso jardinzinho

Cristina Torrão, 03.09.25

A guerra*

José Meireles Graça, 29.06.25

De um lado temos uma democracia exemplar, com um líder eleito que os tribunais se permitem pôr a depor enquanto em exercício; e do outro um grupo terrorista, mesmo ao lado, que não admite qualquer oposição interna e se permite atacar o vizinho mais poderoso porque conta com um grande país, que o apoia e que explicitamente não reconhece a Israel o direito de sequer existir, comprometendo-se a, logo que para isso tenha poder, limpar a região de Judeus – infiéis à verdadeira religião, intrusos numa terra que não lhes pertence e aliados da América, o Grande Satã.

O grupo terrorista que governa Gaza lançou em 7 de Outubro de 2023 um ataque que provocou mais de mil mortos civis (e à volta de três centenas de militares), capturando cerca de 200 reféns (ou 250, em tudo o que diga respeito a este conflito os números variam consoante as fontes), que foram sendo libertados a conta-gotas por troca com prisioneiros palestinos em Israel, invariavelmente não cabeça por cabeça mas um múltiplo (às vezes mais do décuplo) de palestinos por cada refém israelita.

Alguns dos devolvidos foram-no no estado de cadáveres. E hoje ainda há reféns presos, dos quais se ignora quantos estão vivos.

Tínhamos portanto um bom (tanto quanto se pode falar de bons) nesta história e um mau.

De maus secundários há avonde, como o Hezbollah a Norte, no Líbano, ou os Houthis no Iémen, reconhecidos como terroristas por quase todas as capitais do execrado Ocidente, com o denominador comum de serem financiados pelo Irão, alguns países árabes e até noutro vizinho, a Cisjordânia, um governo relativamente hostil.

Mas o Irão é que é a sombra negra. Anda há muito tempo (o programa nuclear começou nos idos de 60, com o apoio dos EUA, na altura no contexto da Guerra Fria, mas evoluiu com o regime aiatolesco para mais do que prováveis intenções belicosas) com a jigajoga de, no meio de sanções, acordos, denúncias, avanços e recuos, desenvolver armas atómicas. E como Israel não pode ter a certeza, como tem em relação ao Paquistão, ou à Índia, ou à Rússia, ou até à Coreia do Norte, ou qualquer das outras potências que actualmente detêm a bomba, de que o regime iraniano não cometa a loucura de o tentar obliterar de uma vez, vive com a compreensível obsessão de liquidar as pretensões da teocracia iraniana.

De modo que reage taco-a-taco a ataques do Irão, que em Abril se fez lembrar com mísseis que despejou em Israel como retaliação a um ataque à embaixada iraniana na Síria, que por sua vez respondia a outras picardias. Quem começou o quê depende de quem conta a história e se forem especialistas vão muito lá atrás, até ao ponto em que quando chegam à raiz já o curioso esqueceu o início do conto.

Começou a guerra. E desta vez Israel tinha na presidência dos EUA um amigo, que como os antecessores não nutre pelo Irão qualquer simpatia mas ao contrário daqueles acredita instintivamente pouco no mérito de diálogos com gente abominável, de que desconfia. Aliás, que o amigo seja Trump, e não por exemplo Obama, é um adjuvante para a rejeição das esquerdas, de que se falará adiante – Trump não pode, por definição, ter razão em nada. De modo que Israel, tendo acumulado sucessos na eliminação de estruturas militares, membros da Guarda Revolucionária e cientistas ligados ao desenvolvimento da arma, acabou por tropeçar na incapacidade de chegar aos subterrâneos a grande profundidade onde se faz o processo de enriquecimento de urânio, percalço que a América resolveu com o expediente de para lá mandar bombas com a surpreendente inclinação de primeiro perfurarem e só depois, muito lá em baixo, explodirem. O qual desenvolvimento, segundo uns, já estava a 40%, segundo outros a 60% ou 80%, nuns casos a meses de chegarem à bomba, e noutros a anos.

Nada disto interessa, como aliás a maior parte das argumentações de um lado e outro, porque como é normal em guerras e talvez Ésquilo tenha dito, a primeira baixa é a verdade.

Estava o Irão a desenvolver a bomba atómica? Estava, hoje já poucos defendem o lero-lero de que os fins do programa eram pacíficos. Pode Israel confiar na sua sobrevivência com um inimigo declarado que não lhe reconhece o direito à existência, se este detiver uma arma letal cujo uso, mesmo com retaliação do mesmo tipo, permite a loucos suicidas e fanáticos pensarem que, porque Israel é minúsculo e com poucos cidadãos, e o Irão imenso e com nove vezes mais habitantes, um ficava deserto e o outro suficientemente funcional? Não pode.

De modo que saber se o programa foi atrasado um ano, cinco, dez ou vinte, interessa muito a analistas e pouco a pessoas de senso. O problema talvez venha a ser resolvido, se vier, com uma mudança de regime; e entretanto Israel continua em guarda, e a guerra pode continuar mas com baixa intensidade, por intermediários, ou renascer.

Mas coisa curiosa: Como se explica que num conflito cujo herói e vilão deveriam ser evidentes o mundo muçulmano não seja todo a favor do Irão, e no Ocidente nem toda as pessoas de direita estejam do lado de Israel, do mesmo passo que à esquerda quase toda a gente reza, salvo seja, pelo Irão?

O caso do mundo muçulmano é simples: nem o Irão é Árabe, nem a partilha de uma religião comum é pacífica porque entre xiitas e sunitas há tanto ódio e conflito como em tempos pregressos houve entre católicos e protestantes, nem as realidades geoestratégicas permitem a convivência sem rivalidade de vários poderes regionais. O pan-arabismo é uma miragem e os governos de vários países árabes só não confessam o seu desejo de que Israel ganhe porque não podem desagradar à rua que, essa sim, nutre um atávico ressentimento contra os infiéis do Ocidente que são mais ricos, mais poderosos e têm leis e costumes heréticos, não rezando a Allah, não aplicando a sharia e permitindo às mulheres escandalosas liberdades.

Que a esquerda apoie o Hamas, sob a piedosa capa de em teoria achar a organização deplorável mas na prática lhe compreender as queixas, não deve surpreender: os habitantes de Gaza são pobres, os Israelitas ricos, Israel cria constrangimentos à vida na região em vez de aceitar com magnanimidade que os locais (ou melhor, quem os governa) se dedique tranquilamente a atentados, e historicamente o nascimento de Israel nunca deveria ter sido permitido, pelo menos ali. Talvez na Namíbia, hipótese que chegou a ser formulada mas os Judeus arrogantemente não aceitaram.

Empregados têm sempre razão contra os patrões; pobres contra ricos; fracos contra fortes; e países débeis contra poderosos, excepto se estes últimos tiverem como propósito realizar o céu na terra a golpes de igualitarismo, como sucedia com o sol da URSS que infelizmente se finou na última década do século passado.

Não é que faltem abusos e exacções, manchas no passado, males e tormentos; é que a superioridade moral de que a esquerda é, segundo ela, depositária, só se pode manifestar debaixo de bandeiras de causas e decerto não é uma causa defender quem é perfeitamente capaz de se defender a si mesmo.

E para certa direita há também o medo: a guerra pode evoluir para um confronto generalizado de resultados trágicos ou pelo menos penosos mesmo para quem nela não esteja envolvido, de modo que o melhor é adiar e, em vez de bombas, despejar perdigotos, aos quais se chama diplomacia – é o que tem feito a Europa.

Sucede porém que as guerras são admissíveis em dois casos: no de defesa contra ataques; e para prevenir outras maiores. Israel quer liquidar, ou ao menos enfraquecer, o Hamas, o seu inimigo à porta; e evitar que o seu principal inimigo distante tenha meios para cumprir a sagrada promessa de palestinizar todo o espaço do Jordão até ao Mediterrâneo.De modo que se pode estar a favor, ou contra, Israel; mas não se pode estar a favor defendendo que se lhe amarrem as mãos.

* Publicado no Observador

Reflexão do dia

Pedro Correia, 27.06.25

«A II Guerra Mundial dizimou os fracos e os fortes, o preço foi excessivo para todos e o advento das armas nucleares anunciava o fim da humanidade. Só os sobreviventes podiam ter o atrevimento de aspirar a tanto, abolir a guerra de agressão, submeter a força ao direito, conter os fortes, proteger os fracos.»

 

Sérgio Sousa Pinto, no Expresso

Ele não acerta uma

Pedro Correia, 24.06.25

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Agostinho Costa, o famigerado major-general pró-Moscovo, não acerta uma. Não apenas sobre a agressão de Putin à Ucrânia: anda ele, por exemplo, a proclamar desde o Verão de 2024 a iminente “conquista” de Pokrovsk pela tropa do Kremlin e os factos teimam em contrariar-lhe os desejos. O raio da cidade ucraniana nunca mais cai.

Muda o cenário do conflito, mas a sua capacidade de chutar para fora, sem acertar no alvo, continua igual. Desta vez foi a propósito da “operação militar especial” de Israel no Irão, com apoio dos EUA. Na CNN Portugal, lá estava ele a garantir que se tratava de mera fantasia noticiosa. «Jogos florais.»

Foi a 12 de Junho, já perto da meia-noite. Tendo a seu lado no estúdio Diana Soller, cuja sabedoria muito admiro e cujo estoicismo aplaudo. Não é fácil ouvir tanto dislate daquele parceiro de painel, semana após semana.

 

O que disse Costa nessa malfadada noite de Santo António?

«Tudo indica que isto [iminente ataque de Israel ao Irão] não passa de uma campanha mediática. Porque os ataques não se publicitam: fazem-se.»

(Pertinente alerta de Diana Soller: «A ideia de um ataque não deve ser inteiramente posta fora das hipóteses.»)

«(Indiferente ao alerta) Para se ter um ataque desta natureza é preciso capacidade para atacar infraestruturas que estão colocadas à profundidade de 700 metros em montanhas.»

(Outra pertinente advertência de Diana Soller: «Desde 7 de Outubro [de 2023] Netanyahu considera que o ambiente no Médio Oriente é insustentável e Israel, portanto, está disposto a ir mais longe.»)

«(Indiferente à advertência) Todo este burburinho, todo este alvoroço… surge porque a vida não está a correr mesmo nada bem a Netanyahu. Começou com o Catargate. E no Knesset o partido de [Avigdor] Lieberman devia ter apresentado uma proposta de dissolução do parlamento… vêm novas eleições, Netanyahu cai e vai direitinho sabemos para onde.»

«Nem Donald Trump pretende qualquer conflito no Médio Oriente nem Israel tem essa capacidade.»

«É a última coisa que Trump quer.»

«Se Israel tentar atacar o Irão, é capaz de se resolver o problema do Médio Oriente com a retaliação do Irão, que apresentou esta semana um míssil com ogiva de quatro toneladas e sabemos para onde está apontado.»

 

(Réplica final, sempre pertinente e já algo impaciente, de Diana Soller: «O senhor está sempre a inventar armas a aparecerem debaixo das pedras nos países dos quais gosta, mas isso não faz com que as armas apareçam nem que o Irão faça desaparecer Israel do mapa. Era o que o Irão gostava e o senhor também, mas isso não vai acontecer, é um cenário completamente irrealista.»)

 

Daí a cerca de duas horas, a realidade confirmava as palavras da especialista em relações internacionais e desmentia em toda a linha a delirante retórica do major-general.

Sem surpresa.

Slava Ukraini!

Pedro Correia, 09.05.25

Excelente intervenção de Sebastião Bugalho, em nome do PPE, na conferência ontem organizada pelo Parlamento Europeu para assinalar o 80.º aniversário do fim da II Guerra Mundial no nosso continente.

Assinalo alguns trechos:

«A Segunda Grande Guerra confrontou a humanidade com o desumano, o patriotismo com o fascismo, a verdade com a raiva.»

«Aqueles que resistiram à invasão estão aqui, aliados àqueles que jamais invadirão novamente. Aqueles que disseram "Nunca nos renderemos" estão aqui, lado a lado com aqueles que dizem "Lembraremos sempre".»

«Devemos dizer [ao povo ucraniano] que a sua luta já foi a nossa, que a sua vitória será a nossa paz. Eles podem não ser nossos pais ou nossos filhos, mas são nossos irmãos. Nossos irmãos de armas e de direitos. Nossos irmãos na sua esperança e na sua resistência.»

«Hoje é a sobrevivência da liberdade e da democracia que está em jogo no nosso continente. (...) Que o fogo da memória acenda esta causa comum. Que as palavras "Dia da Vitória" também signifiquem - mais cedo do que tarde - "Slava Ukraini!"»

O tempo de todos os perigos

Pedro Correia, 28.03.25

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Passo por uma das livrarias que mais frequento e reparo nestes livros em destaque. Todos com um traço comum: falam-nos de um mundo cada vez mais perigoso. Um mundo onde voltou a banalizar-se a palavra guerra - até nesta Europa que alguns imaginávamos imune a novos conflitos armados, iludidos pela ordem internacional nascida dos armistícios de 1945 e embalados pela utopia da paz perpétua.

 

A verdade é que estamos no quarto ano consecutivo de guerra no continente europeu - por enquanto apenas na extremidade oriental, com a martirizada Ucrânia a sofrer sangrentas investidas diárias do inimigo moscovita. Mas acumulam-se outros sinais preocupantes. Aumento intensivo do orçamento nos Estados membros da União Europeia para despesas ligadas à segurança e à defesa. Rearmamento alemão, agora consagrado em revisão constitucional. Prestação de serviço militar obrigatório reponderada ou já reposta em países como Finlândia, Suécia, Polónia e Estados bálticosClivagem evidente entre os EUA e o pilar europeu da NATO, com ameaças directas da administração Trump a alguns dos seus parceiros na Aliança Atlântica, como o Canadá e a Dinamarca, enquanto o chefe da Casa Branca declara abertamente a intenção de anexar a Gronelândia.

Que mais?

Proposta de Emmanuel Macron para garantir a força nuclear francesa como elemento dissuasor face às crescentes ameaças da Federação Russa. Balcãs e Cáucaso sacudidos por ruidosas manifestações de rua em países tão diversos como Sérvia, Bósnia, Roménia, Bulgária e Geórgia. Turquia em convulsão enquanto Erdogan implanta uma ditadura sem disfarce algum. Expansionismo neo-imperial de Moscovo projectando sombras sinistras do Báltico ao Mar Negro, com Putin indiferente às centenas de milhares de vítimas que já causou. Pequim cada vez mais disposta ao assalto bélico a Taiwan, enquanto disputa águas territoriais com Vietname e Filipinas. O tirano da Coreia comunista multiplicando ameaças contra o vizinho do Sul, entre alusões contínuas ao holocausto atómico.

 

Não posso criticar. Também eu, se fosse editor, daria primazia absoluta a estes livros.

Execrável

Pedro Correia, 01.03.25

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«Zelenski recebeu orientações da Casa Branca para dress code: "O senhor apresenta-se aqui de fato e gravata." Zelenski voltou a aparecer vestido à Chuck Norris. Vimos como é que Trump ficou irritado logo à chegada. Se a senhora me convida para ir a sua casa, no mínimo ponho uma camisa por respeito pelo anfitrião. Se lhe foi definido um dress code, no mínimo era isso que Zelenski devia ter feito. São normas de boa educação, decoro e diplomacia. Senão, pode ir de chanatas e calções, não é? Se o anfitrião definiu como é que ele deve ir, é assim que ele deve ir...»

 

«Quem atiçou J. D. Vance foi Zelenski, que lhe perguntou se já tinha ido à Ucrânia, se conhecia a realidade... Depois ouviu o que não gostou.»

 

«Alguém que vai a um país que é o seu principal doador para assinar um acordo que representa a sobrevivência do [seu] país não se pode comportar desta maneira. Não pode levantar a voz aos Estados Unidos.»

 

«Zelenski demonstrou uma insolência inqualificável para um país que está numa crise existencial e em vias de ser ocupado pelos russos.»

 

Major-general Agostinho Costa, hoje, na CNNP. O mesmo que, na mesma estação, afirmou a 28 de Fevereiro de 2022: «Estou convencido que o senhor Zelenski já não está lá [em Kiev]. Senão a gente via-o na rua. Já não está lá. Está certamente em Lviv.» 

24 de Fevereiro

Pedro Correia, 24.02.25

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Estamos a 24 de Fevereiro: é dia de honrar a memória dos mártires ucranianos. Centenas de milhares de pessoas, incluindo numerosos civis, assassinadas às ordens de Vladimir Putin. Os sinos dobram por elas.

É também o dia de evocar os milhares de cidadãos russos que o tirano do Kremlin enviou para a fogueira homicida da guerra. Cerca de um milhão de vítimas - entre mortos, feridos e desaparecidos - na tentativa frustrada de "conquistar" e anexar a Ucrânia, iniciada faz hoje três anos.

Desde então, os sipaios de Moscovo conseguiram avançar apenas cerca de 40 km em terreno devastado e despovoado, sem valor estratégico. Sem capturarem uma só capital de província. Sem exibirem superioridade terrestre e marítima. Forçados a recuar após terem estado a escassa distância de Kiev na primeira fase do conflito. Humilhados quando o mundo soube que as forças ucranianas, num fulminante contra-ataque, penetraram em solo russo, apoderando-se de 560 km² na região de Kursk. Foi há seis meses, em Agosto passado, e continuam lá. 

Trágica ironia da História: ninguém até hoje, neste século, vitimou tantos russos como o próprio Putin.

O rolo compressor de Putin

Pedro Correia, 21.02.25

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Oiço falar muito em "paz" por estes dias. Não há palavra tão pervertida como esta: já Orwell havia lançado o alerta nos anos 40.

Vladimir Putin não quer acabar com a guerra na Ucrânia. Quer a Ucrânia, ponto.

O seu vassalo Dmitri Medvedev, sem rodeios, já declarou que a Ucrânia, como Estado, deixou de existir em 1925 e não faz sentido manter-se como entidade soberana. Digam o que disserem a Carta da ONU, a Acta Final de Helsinquia aprovada em 1975 e os tratados subscritos pela própria Rússia.

 

Putin não agrediu a Ucrânia por uma questão de território. A Rússia ocupa um oitavo da área terrestre do planeta. Em 80% desse espaço não vive ninguém.

A questão é geopolítica. Putin ambiciona reconstruir o império russo, crente de que só isso permitirá restaurar a influência de Moscovo à escala global.

É conhecida a frase dele, proferida em 2005, sobre o fim da União Soviética, que a seu ver foi «a maior catástrofe do século XX».

Esta frase é todo um programa. Só não vê quem não quer.

 

O ditador moscovita não se deterá neste desígnio, que ameaça engolir a actual Europa Central e de Leste.

Já o fez na Bielorrússia, em parte da Geórgia e em parte da Ucrânia. Tentou o mesmo na Moldávia, tendo sido travado porque os ucranianos lhe fecharam o caminho.

A ideia quase angelical que desta vez Putin irá satisfazer-se se lhe derem "face" é a negação das lições da História.

Sabemos o que aconteceu depois de Chamberlain e Daladier terem dobrado a cerviz a Hitler em Setembro de 1938, dando-lhe também face: a propalada "paz" serviu apenas de via-rápida para acelerar a guerra.

 

Sem dissuasão militar, Putin intensificará o rolo compressor. Tarde ou cedo, tal como Hitler, inventará outro pretexto para novas acções de "conquista".

Com esta agravante: uma Ucrânia absorvida pela Rússia, com o seu território, os seus meios logísticos, as suas vias de comunicação, as suas riquezas naturais e parte da população transformada em carne para canhão do Kremlin tornaria ainda mais perigoso o ditador. E mais ameaçador cada pacote de novas exigências de Moscovo.

Convém não esquecer: o tirano do Kremlin protagoniza desde 2022 o maior acto de guerra registado no nosso continente desde a II Guerra Mundial. Impedi-lo de cometer novas carnificinas não é opção facultativa: é um imperativo de sobrevivência para a Europa livre.

O caos e as garantias de segurança

Paulo Sousa, 17.02.25

Pelo que já fomos vendo, levar Trump à letra é uma excelente maneira de andar sempre com a cabeça às voltas. Esse é o seu modo de acção. A técnica passa por deixar o opositor atordoado com as primeiras declarações, para depois recuar um pouco e ainda assim conseguir muito mais do que aquilo que conseguiria num processo linear de negociação. Nunca ninguém o viu incomodado por não concretizar nenhuma das suas declarações bombásticas. A paz em 24 horas, o inferno na terra se os reféns não forem entregues ou o encorajamento à invasão a países da Nato que não invistam o suficiente em defesa... são alguns exemplos, entre muitos outros. A atoarda é dita, é comentada de imediato, para logo depois ser abafada pelas declarações seguintes. Lançar o caos é uma forma de manter a iniciativa, deixando os restantes agentes em reacção permanente e desarticulando assim toda a oposição que se lhe possa ser feita. Antes de a poeira assentar, outra declaração é publicada e uma outra logo de seguida. Os demais agentes queimam os fusíveis com a sobrecarga e, à beira do colapso mental, ficam em ponto de caramelo para aceitar as novas condições, que lhe são simplesmente transmitidas. Putin é outro mestre desta forma de actuação.

Esta abordagem pode trazer-lhe vantagens nos seus objectivos no prazo deste mandato, que será o seu último, mas alimentarão uma profunda desconfiança perante os EUA, algo que não sendo novo noutras paragens do mundo, ganhará, e já está a ganhar, outra dimensão na Europa.

Quase a chegar ao terceiro ano de conflito de grande escala, a Rússia perdeu largas centenas de milhares de soldados, uma infindável quantidade de material militar, tem a sua economia em grande fragilidade, com elevadas taxas de juro e uma inflação de dois dígitos elevados. Está, como nunca esteve, dependente da China, a sua antiga rival. Por tudo isto, não terá condições de no futuro imediato se lançar noutra loucura bélica. O acordo que estará a ser definido nestes dias, terá de incluir garantias de segurança para a Ucrânia e não é viável contar com uma capacidade militar europeia dirigida a uma só voz. A natureza política deste grupo de estados não permite a existência de uma liderança que tome decisões da natureza militar, nomeadamente em termos operacionais. Nunca um chanceler alemão, um primeiro-ministro inglês ou o presidente francês teriam legitimidade política para decidir enviar uma unidade portuguesa, espanhola ou italiana para uma qualquer linha da frente. A solução que possa garantir uma paz duradoura na Europa passará pela inclusão da Polónia e/ou da Ucrânia no restrito clube nuclear, o que me parece um cenário aceitável e bastante razoável.

O fim de um regime que já ninguém apoiava

João Pedro Pimenta, 09.12.24

Ontem os rebeldes sírios tinham tomado Homs e estavam literamente, na "estrada de Damasco". Hoje acorda-se com a notícia da tomada da capital, quase sem resistência, e com a queda do regime e fuga do clã Assad e estado maior (tiveram mais sorte que Saddam e Kadhafi). De há uns anos para cá ficou a ideia de que o regime baathista/assadista tinha ganho a guerra e dominado os seus inimigos, pelo menos em boa parte do país. Em poucas semanas o jogo virou e o regime caiu. O que vem aí pode não ser bom; o que acabou não era de certeza absoluta.

Mas isto serviu para uns tira-teimas: o regime de Assad, que muitos garantiam ser imensamento apoiado pelo povo sírio, caiu quase sem ninguém que o defendesse. Viu-se o "apoio popular": uma enorme farsa, mantida pela violência. Só era sustentado pela ajuda iraniana e pelo Hezbollah, que severamente macerados por Israel não lhe puderam agora acudir, e pela Rússia, que virada totalmente para a guerra na Ucrânia também se viu impotente. É a confirmação de que a Rússia, como já se tinha visto ao falhar à Arménia pelo Nagorno Karabakh, não tem capacidades reais para acudir em vários tabuleiros e que é uma potência com pés de barro. Aliás, depois dessa guerra com a Arménia (que por causa disso se virou para ocidente), é o segundo triunfo dos proxys da Turquia sobre os da Rússia.

Os turcos são os grandes vencedores do momento, mas Israel também colhe os louros. O Irão e a Rússia são os grandes derrotados. Veremos o que ganhará ou perderá o Ocidente, já que os curdos, que apoiam, serão com certeza hostilizados pelos pró-turcos, apesar de também eles terem conquistado território e material militar.

Tudo isto, curiosamente, num dia de grande significado para a França, antiga potência administrativa da Síria. Fica-se com a dúvida se o pais se manterá ou se é mesmo para dividir, como aliás era o plano em 1920.

Pode ser uma ilustração de 1 pessoa e a texto

O escalar da guerra na Ucrânia e o precedente da Coreia.

Luís Menezes Leitão, 20.11.24

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A 25 de Junho de 1950 as tropas da Coreia do Norte invadiram a Coreia do Sul, tendo um avanço arrasador, que lhes permitiu em menos de quatro meses tomar Seul e cercar as tropas americanas e sul-coreanas em Pusan no leste do país. Só que as forças americanas eram lideradas por um génio militar, o General Douglas McArthur que em 15 de Setembro determinou a saída de tropas de Pusan e um posterior desembarque no porto de Incheon, na costa oeste, cercando assim as tropas norte-coreanas. Em consequência, não só toda a Coreia do Sul foi libertada, como também Pyongyang caiu, tendo as tropas americanas chegado às fronteiras da China.

O problema é que a China não gostou de ver essas tropas nas suas fronteiras e decidiu intervir no conflito, fazendo o seu exército invadir a Coreia. McArthur percebeu que não conseguia vencer o exército chinês no terreno, pelo que propôs a Truman atacar a China no seu próprio território, eventualmente com bombas atómicas. Truman, no entanto, recusou essa escalada, demitindo de imediato McArthur. Na altura afirmou que a sua estratégia era limitar a guerra à península da Coreia e que, se o General McArthur não concordava com essa estratégia, não podia continuar no cargo. E assim um armistício foi assinado três anos depois do início do conflito, com a fronteira entre as duas Coreias a ficar, com algumas modificações, no paralelo 38, onde anteriormente se encontrava.

Por esse motivo, durante toda a guerra fria, se adoptou a regra de que as superpotências não se enfrentavam directamente, combatendo apenas em territórios delimitados. Foi assim no Vietname, Angola ou Afeganistão, em que as guerras no terreno, por muito duras que fossem, nunca conduziram a um conflito global.

Na Ucrânia, pelo contrário, vemos Joe Biden, a semanas de deixar a Casa Branca, e com as suas faculdades mentais  visivelmente deterioradas, a permitir o lançamento de mísseis americanos contra território russo, abandonando assim qualquer estratégia de limitar a guerra à Ucrânia. Como é óbvio, a partir do momento em que isso acontece, a guerra pode alastrar a todo o lado, não espantando por isso que a Suécia e a Finlândia já estejam a preparar os seus cidadãos para essa eventualidade.

Corremos assim o risco de não escapar a uma guerra global no primeiro quartel do séc. XXI, como aconteceu no primeiro quartel do séc. XX. Na altura, também foram uma série de decisões pouco pensadas que atiraram o mundo para o apocalipse.

Março, o mês de Martius ou Marte

Maria Dulce Fernandes, 01.03.24

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"Antes de o antigo calendário romano ser actualizado para incluir os meses de inverno de Janeiro e Fevereiro, o ano começava em Março. Nomeado em homenagem a Marte, o deus romano da guerra, Março era a época do ano na Roma antiga em que as campanhas militares podiam recomeçar à medida que os dias inclementes do inverno passavam.

É tudo uma questão de clima. A frase “entradas de leão e saídas de cordeiro” é frequentemente usada para se referir a este mês. A neve e o frio arrepiante no início de Março muitas vezes dão lugar a temperaturas mais altas que permitem que os primeiros botões de flor do ano apareçam assim que Abril chega. No entanto, há momentos em que o clima dos finais de Março faz duvidar que dias mais quentes estão para chegar. Segundo o folclore, os “dias emprestados” ocorrem quando chove durante os últimos três dias do mês, porque Março pediu emprestado as chuvas de Abril, mês chuvoso por tradição. Em comparação, os primeiros três dias do mês são referidos como “dias cegos”, período durante o qual os agricultores devem evitar semear as suas terras. As chuvas durante os "dias cegos" são consideradas  presságio de uma colheita fraca no final do ano.

O mês esteve ligado à renovação das campanhas militares após o inverno e aos preparativos para novas expedições militares. Além disso, Março foi sempre um período de abundantes festivais e folias dedicadas à guerra e ao poder militar. É também um mês de transição, pois o clima começa a aquecer e as plantas e os animais despertam do sono invernoso."

É importante acordar e nada melhor do que acordar a tempo e horas e Março é um excelente mês para o despertar dos sentidos e fazer mexer os sentados.

(Imagem Google)

É Natal. Pás na terra.

Paulo Sousa, 19.12.23

Mortes evitáveis incomodam-nos a todos. Quem de bons sentimentos consegue ficar indiferente perante a morte de inocentes ou, mesmo de patifes, que pudesse ser evitada? Apenas para os mais simplistas o mundo é dividido entre pessoas boas e pessoas más. Eu não vou nessa. Todos somos bons e maus, uns maioritariamente maus e outros o seu contrário. Mas todos bons e maus. Mesmo nos sítios onde só se fazem boas coisas e se reúnem boas pessoas com bons sentimentos, residem maus fígados, recalcamentos quase esquecidos, pequenas arrogâncias disfarçadas e, o pior de tudo, a indiferença. Dante, na sua viagem pelo inferno acompanhado por Virgílio, encontrou no último círculo, naquele onde só existia o breu sem estrelas, onde se ouviam gritos de dor, de raiva e de medo, sobrevoado por nuvens de insectos venenosos, encontrou aqueles que nunca se tinha movido para fazer o bem ou o mal.

No Natal celebramos coisas boas, coisas positivas, celebramos o bem, a renovação, um novo recomeço. O mal não é perdido nem achado no Natal. Todos os o querem esquecer e dele se afastar. No Natal, paz na terra, diz-se.

Apesar disso, as notícias entopem-nos com guerras incómodas. Do alto de mais de setenta inéditos anos de paz na Europa, já são poucos os que se recordam da última guerra. Só gente antiga, e documentários, nos podem contar histórias de guerra na primeira pessoa. Viver em cima de quase oitenta anos de paz, rodeado de dezenas de conflitos, é quase como como aquele tipo que, no seu carro novo, passeia na única rua transitável de um bairro de lata. Incomoda? Pois é claro que incomoda. No bairro da lata, há sempre um rufia maior que por não ter nenhum carro para passear, sente-se aliviado em apedrejar o carro do outro. Qual é o bom e o mau nesta história? Uns dirão que a miséria é a caixa de Petri onde se cultivam os maus sentimentos, a inveja, a ira e até o ódio. Outros dirão que o tipo do carro novo se tivesse noção nunca iria passear para aqueles lados (mesmo que seja naquela rua que ele reside) sujeito a acordar a inveja e os maus fígados dos demais.

Há uma visão que distingue a esquerda da direita pela forma como se considera o ser humano no mundo. A esquerda acha que o humano é essencialmente bom, mas estragado pela sociedade e, pelo contrário, a direita não duvida que todos transportam dentro de si uma dose de maldade e que por isso têm de ser moldados pela sociedade de forma a impedir males maiores. A esquerda aspira por mudar a sociedade e a direita a manter a sua coesão. Em Portugal existe ainda uma visão classista da coisa que leva a que o voto seja condicionado pelos interesses imediatos do eleitor, que assim se preocupa mais com o seu umbigo do que com a sociedade.

É preferível impedir o tipo do carro novo de circular ou o rufia maior de apedrejar o seu carro?

Não procuro aqui dar respostas a esta questão, pois é inegável que a resposta de cada um seja condicionada pelo lado com que mais se identifica. Qual de nós escolheu em que lado da barricada ia nascer? Em que geografia? Com que cor de pele? Com que nível conforto físico ou emocional? Acredito profundamente que o mais razoável é ser tolerante e colaborativo, mas como levar na tromba é aborrecido, o melhor seria mesmo ter umas forças armadas capazes e bem equipadas.

As notícias, dizia, entopem-nos com guerras incómodas. Em todas as que são faladas, existe ali sempre a mácula do tipo do carro novo. Tentam convencê-lo de que tem de expiar o pecado de viver em paz e ser razoavelmente próspero. Quem é que o mandou? Agora tem de se aguentar.

Algumas guerras, porém, não se enquadram na mácula do tipo do carro novo e por isso não aparecem nas notícias. Não cabem na narrativa do ocidente decadente, culpado, provocador e … próspero.

Para além das guerras mais mediáticas em curso, na Ucrânia e Israel, decorrem pelo mundo algumas dezenas de conflitos armados que aqui vou tentar elencar. Espero não deixar nenhum para trás.

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O Ocidente sob fogo no sofá

Pedro Belo Moraes, 27.10.23

Habituados ao fast food, os ocidentais só toleram a fast war. Viciados na transacção de emoções, na partilha de sentimentos, os ocidentais pululam entre Apps. Num dia ficam esmagados pelos pushes da torrente de notificações que dão acesso às imagens horríficas do terror do Hamas no dia 7 de Outubro; nos outros indignam-se, revoltam-se, enfurecem-se com a operação militar israelita que “ocupou” a miríade de Apps.

De palas nos olhos, os ocidentais passam a ver apenas a destruição de Gaza e o drama humano por ela provocado. E a emoção mais recente é a que os move. Comove. E tudo à distância de um clique num ecrã do telemóvel ou do lesto polegar carregando nas teclas do comando remoto do televisor. E o comando ser remoto é o eufemismo disto tudo.

É o Ocidente no sofá. Sempre descansado porque mero mirone a salvo das injustiças que o ofendem. Insurgido com as atrocidades cometidas sobre inocentes, claro!, mas raras vezes assustado, raríssimas vezes vislumbrando que a peça que o ofende é, apenas e só, uma pequena parte de um puzzle que uma vez construído - e o dito está em construção - destruirá a ordem mundial que nos coloca a nós Ocidente como a única representação dos valores da tolerância, liberdade, democracia, diversidade. Os mesmos que estão sob fogo porque como as normas que nos regem há séculos o Ocidente está sob fogo. E tem de se defender.

Mas voltemos às emoções. Lembremo-nos da comoção geral nos Parlamentos vários, muitos, das democracias liberais, de cada vez que foram bradadas declarações do tipo: “Os ucranianos estão a lutar por nós.”; “É a Ucrânia que combate aquele que ameaça o nosso estilo de vida.”; “Uma vez derrotadas as forças de Kiev, o imperialismo vai querer expandir-se Europa fora.” Tudo isto, claro, replicado, retuitado, reencaminhado redes sociais fora. A necessária e tão desejada ração de emoção servida minuto-a-minuto, hora a hora. Like it!

Não tenhamos dúvida: como os ucranianos, também os israelitas estão a defender-nos. A destruição de uns e outros faz parte de um puzzle. A invasão russa da Ucrânia e o ataque do Hamas a Israel (a única democracia liberal da região) fazem parte de um plano que tem como objetivo primeiro e último destruir o referencial de civilização que é o Ocidente.

Os que nos ameaçam e acossam, os nossos inimigos, são os mesmos numa guerra e noutra. Uns às claras, outros na sombra, juntos compõem um eixo anti-Ocidente, anti-democracia liberal. Reúnem-se, negoceiam, recebem-se com honras de Estado o presidente que se eterniza no poder e invade um país soberano; as lideranças do regime dos ayatollah detentores do poder supremo; os obreiros da aparente benevolente mas omnipresente e poderosa nova rota da seda. Todos estão às claras ou na sombra por detrás das duas guerras que emocionam, comovem e revoltam as sociedades ocidentais.

Não há coincidências. Não há.

As repetidas barbaridades cometidas pelo Hamas no interior de casas onde executaram com fúria famílias inteiras, violaram mulheres, degolaram bebés, e nas ruas onde espancaram homens até à morte e cujos cadáveres sobre os quais cuspiram com raiva e não menos desprezo, e mais ainda o massacre levado a cabo num festival igual em música, idêntico no espírito e na liberdade que sentimos nos festivais em que estivemos inteiros e seguros; tudo isso, tudo isto, no seu horror mais íntimo que acabou por provocar um grito de terror mundial, tudo isto coincidiu com a proximidade da assinatura de um acordo de normalização das relações entre Israel e Arábia Saudita. Uma aproximação geopolítica, geoestratégica que ameaçava de morte o plano de poder regional do Irão, essa teocracia que – rufem os tambores! – é o grande financiador do Hamas. E também não há coincidências quando a Rússia quis aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU sem condenar o acto terrorista do Hamas. E não é mesmo coincidência a dependência russa dos drones iranianos na guerra da Ucrânia. Facto que coincide com outro: Irão e Rússia vêem nos EUA o Grande Satã. Expressão que não tenho tempo para traduzir para mandarim, mas que estou seguro será dita à boca cheia nos gabinetes de Pequim.

Sim, o Ocidente extravasa o mero hemisfério ocidental. É a NATO, a UE, e está na Austrália, no Japão, na Coreia do Sul, as democracias liberais na Ásia, etc. E não disputa o domínio dos EUA. Antes aceita que o Ocidente domina os valores que não são respeitados por quem disputa a civilização ocidental, desprezando a liberdade religiosa, os direitos das mulheres, a liberdade de imprensa, a democracia, a tolerância, a defesa das minorias.

Os ocidentais produzem e consomem muito entretenimento sobre ameaças terroristas ou conspirações de países e protagonistas com planos maléficos para destruir a antiga ordem mundial, fazendo nascer uma nova na qual são a força dominante.

O entretenimento é tanto melhor quanto mais verosímil for. Quem o consome sabe-o mas fica-se pelas pipocas. Quanto muito, entre tramas, passa para as bolachas e chocolates e, na medida do possível, mexendo-se pouco, pouquíssimo do sofá. Isso, quanto muito, fará para receber à porta de casa um Glovo ou um UberEats, pedidos feitos na App e pelos quais esperará enquanto recebe e abre as notificações dos horrores cometidos porque foi atacado e ataca. De verdade. Enquanto se comove com o drama de quem trava uma guerra existencial contra quem não lhe reconhece a existência. O direito a existir.

Convençamo-nos e preparemo-nos: não há fast-war. As guerras que existem não acabam, não se resolvem mudando de canal de TV ou apagando as notificações no telemóvel. E quem lançou os dois conflitos sangrentos que hoje minam a estabilidade mundial despreza as cadeias de fast-food e mais que isso considera abjectas as fast war. Mas amam as longas. As guerras que travam e alimentam são antigas, longas e preparadas. As que grassam no Médio Oriente e no Leste da Europa são disso exemplo.

E nós, Ocidente, temos de nos preparar e acordar para isso mesmo. Não podemos mais continuar apenas no sofá.

 

(Artigo de opinião publicado no dia 20 de Outubro na página da CNN Portugal)

O drama esquecido dos arménios

João Pedro Pimenta, 21.10.23

O Pensamento da semana passada relembrou, por uns momentos, o que se passa no Nagorno-Karabakh. Com os dramáticos acontecimentos em Israel, mesmo o conflito entre a Ucrânia e a Rússia passou para segundo plano, quanto mais o dos cumes das montanhas do Cáucaso.

E precisamente, o Cáucaso é das regiões a que mais limpezas étnicas tem assistido no último século. Se os Balcãs são de tal maneira divididos e confusos que até emprestaram o seu nome a uma expressão geopolítica, então aquela região montanhosa encravada entre os velhos impérios e actuais potências da Rússia, Turquia e Irão e entre os mares Cáspio e Negro é-o ainda mais. Sob o domínio dos russos coexistem inúmeros povos e línguas, como os chechenos, os circassianos (estes dois, sobretudo o segundo, foram alvo de violentos crimes e até mesmo de tentativa de genocídio por parte dos russos), os tártaros, os ossetas, os calmuques - que vivem na única região de maioria budista na Europa - e tantos outros. Abaixo, as nações independentes: Geórgia (com a Abecásia), Arménia e Azerbaijão).

O que se passou no Nagorno-Karabakh recordou-me este post que aqui escrevi há ano e meio e que relata outra limpeza étnica naquela região que pouca comoção trouxe ao Mundo. Na altura, os georgianos foram mortos ou expulsos da território da Abecásia, onde em certas partes constituíam a maioria. Agora, talvez com menos violência e menos vítimas, os arménios são forçados a deixar aquela região que a tantos combates ferozes tem assistido nas últimas décadas e a extinguir com efeitos a partir de Janeiro a não reconhecida República de Artsakh.

Atribuir "razão" territorial e política a qualquer um dos povos é tarefa complicada. Talvez se tenda, nos países ocidentais, a simpatizar-se mais com os arménios. De facto, a constituição daquele enclave parece ser mais um dos artifícios típicos na URSS para se dividirem povos e territórios e impedir assim a invocação das suas consciências nacionais e que tantos problemas tem causado desde a sua implosão, de que são exemplo as sucessivas guerras no Cáucaso russo e georgiano.

Seja como for, e mesmo não reconhecendo a soberania daquele território, há que reconhecer a limpeza étnica levada a cabo pelo Azerbaijão. Se a Arménia tinha saído vitoriosa nos anos noventa, em 2020 os azeris atacaram de surpresa, bem apetrechados com material do seu vizinho e mentor, a Turquia, sobretudo com drones que foram de grande utilidade e que serviriam de treino para a posterior guerra na Ucrânia, e obtiveram uma vitória rápida e retumbante, que lhes permitiu cercar totalmente o território de Artsakh, a começar pelo corredor de Lachin, que ligava este à Arménia, que ficou a cargo de uma força de paz russa.

Sabe-se o que aconteceu depois: as forças do Azerbaijão lançaram em Setembro deste ano uma ofensiva que rapidamente ocupou aquele território e desarmou as de Artsakh, isoladas e sem a possibilidade de reforços da Arménia. Esta, sem auxílio e sem poder, por sua vez, ajudar os arménios de Artsakh, teve de aceitar um cessar-fogo e as suas consequências. Pelo meio, ainda houve um ataque a uma viatura militar russa, que resultou na morte dos seus ocupantes. A Rússia, principal membro da OSTC, uma organização militar a que também pertence a Arménia, reagiu com apatia e escusou-se a defender a sua correligionária, em grande contraste com o apoio da Turquia ao Azerbaijão.

Nagorno-Karabakh - The Latest News from the UK and Around the World | Sky  News

Desde então, a grande maioria da população arménia do Nagorno-Karabakh/Artsakh abandonou o território, temerosa do novo ocupante. A caravana de cerca de uma centena de milhar de pessoas que fugiu rumo à Arménia recordou as grandes levas de trocas de povos do pós-II Guerra. O Azerbaijão conquistou aquele território e olha agora para o que o separa do seu enclave de Naquichevan, na fronteira com o Irão (e a única parcela de território que confina com a aliada Turquia), com mal disfarçada ambição, o que pode significar novo conflito no horizonte.

Map of the recent developments in the Armenia - Azerbaijan conflict :  r/MapPorn

A Arménia, com pouco apoio no Ocidente, salvo o da França, onde existe uma importante comunidade de arménios, e sobretudo sem o suporte da Rússia, que seria o seu protector mas que não quer entrar em conflito com a Turquia, vê-se assim ameaçada de novo e começa a olhar de soslaio para a UE. E a Turquia de Erdogan marca pontos estratégicos e consegue fazer a Rússia acobardar-se. Esta provou que não só não é de confiança para com os que deveriam ser os seus aliados (um aviso para África?), já que nem os membros da própria organização de defesa podem contar com o seu auxílio, como mostra as suas limitações bélicas. Tão empenhada está na Ucrânia que não se pode estender a outras paragens, a não ser com mercenários.

E assim, no espaço de um mês, voltamos a ver os dois povos que sofreram os piores genocídios do século XX a serem butalmente atacados ou sujeitos a limpeza étnica por expulsão: os judeus e os arménios. Os ciclos da História repetem-se com arrepiante dramatismo.

Dia 500

Pedro Correia, 09.07.23

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Foto: Beata Zawrzel / NurPhoto

 

Ontem foi o dia 500 da guerra soviética que a Rússia de Putin trava em solo ucraniano. Uma invasão iniciada há quase 17 meses, em grosseira violação do Direito Internacional - desde logo a Carta das Nações Unidas.

Segundo a Comissão de Direitos Humanos da ONU, os esbirros às ordens do ditador moscovita - incluindo a tenebrosa legião Wagner, agraciada com quase mil milhões de euros do Estado russo, segundo confessou o próprio Putin - já assassinaram pelo menos nove mil civis na Ucrânia. Incluindo crianças e até bebés.

Crimes de guerra, crimes contra a Humanidade. Em cidades como Butcha, Irpin e Mariúpol, reduzidas a escombros. Atrocidades de todo o tipo. Desprezo absoluto pela vida humana. O déspota do Kremlin responderá perante a justiça por este genocídio premeditado na nação vizinha. Estou cada vez mais convicto disto.

Slava Ukraini!

Ler (22)

Da espantosa actualidade de Tolstoi

Pedro Correia, 17.06.23

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Como relatei aqui, tracei como uma das minhas metas de leitura para 2023 a visita, já tardia, a este monumento literário que é Guerra e Paz. Cumprindo, como patamar mínimo, um capítulo por dia: assim chega-se lá.

Pelo menos a meio já cheguei. A meio do romance, o que significa também a meio do segundo dos três volumes. Mais de 600 páginas ficaram para trás. Com 109 personagens até ao momento, se as contas não me falham. Entre elas, o próprio Napoleão Bonaparte - além do imperador russo, Alexandre.

Como também já assinalei aqui, é um romance que exige ser cartografado. Temos de ir elaborando um quadro com as figuras principais e secundárias, que vão entrando e saindo: só assim evitamos perder-nos no imenso emaranhado do enredo. 

 

Regresso ao tema só para assinalar um trecho que ontem li, na página 215 deste segundo volume, a propósito da brutal ofensiva napoleónica contra os russos em 1812. Mesmo à entrada do Livro Três (são quatro no total, com 15 partes). 

É o que passo a transcrever - com a devia vénia à memória do tradutor, o filósofo José Marinho:

«No dia 12 de Junho, os exércitos da Europa Ocidental atravessaram a fronteira e a guerra começou: quer dizer que se deu um acontecimento contrário à razão e a toda a natureza humana. Alguns milhões de homens cometeram uns contra os outros quantidade tão considerável de crimes, enganos e traições, roubos, pilhagens, incêndios e morticínios, como a história de todos os tribunais do mundo não comporta durante séculos; e, entretanto, as pessoas que cometiam esses crimes não os consideravam como tais.»

É espantoso, o poder sugestivo da grande literatura. Podemos ler estas linhas, escritas há 160 anos, como se retratassem a guerra que desde 24 de Fevereiro de 2022 dilacera a fronteira oriental da Europa. Com a diferença de que os russos, em vez de agredidos, são desta vez os agressores.

Num acontecimento contrário à razão, como Tolstoi tão justamente escreveu. 

 

O escritor chegou a pensar num título muito diferente para esta obra-prima: Tudo Está Bem Quando Acaba Bem era o que tinha em mente. Optou pela versão mais concisa e solene, sem pista alguma para o desfecho.

Da ficção para a realidade, anseio para que possa ser este o título de um futuro romance em torno da dramática guerra de libertação que os ucranianos hoje travam na sua própria terra. Tudo está bem quando acaba bem.

E que o fim demore menos do que o da Guerra e Paz