As placas tectónicas e as reformas por fazer
Numa zona de convergência tectónica verifica-se uma enorme pressão que empurra as placas umas contra as outras. De acordo com a diferença de densidades, uma delas pode acabar por se afundar por baixo da outra ou podem elevar-se e criar montanhas e cordilheiras. Estes movimentos são muito lentos e seriam necessários milhões de anos para observar a sua acção, mas é possível ver os seus efeitos na crosta terrestre, bem como nos momentos de ajustamento, que correspondem aos sismos. Salvo as excepções das zonas sísmicas muito activas, os sismos frequentes e de pequena intensidade provocam abalos menores e causam menos estragos. Quando os materiais são menos flexíveis, os sismos quando ocorrem manifestam-se com uma enorme intensidade.
Também por não estar qualificado para isso, não pretendo aqui dar nenhuma aula de Geologia, mas lembrei-me disto no dia da Greve Geral. Para além das leis laborais podia falar também da reforma do sistema de pensões, da saúde, da justiça ou dos serviços públicos em geral.
Vejamos este exemplo que não abre telejornais. Os registos públicos estão atrasados muitos e muitos meses, o que leva, por exemplo, a que uma empresa criada “na hora” tenha de esperar oito, nove ou até dez meses por um registo. O país tenta arrastar-se subjugado a uma lenta e permanente greve de zelo nos registos públicos.
Quando os notários eram funcionários públicos, esperava-se meses e meses pela marcação de uma escritura. Depois de 2004, esse serviço passou a ser prestado por privados que funcionam em concorrência. São conhecidos prejuízos decorrentes desta mudança? Esta é uma pergunta retórica, pois quem presta este serviço assume-o com grande responsabilidade, e com o saudável estímulo de quanto mais trabalhar mais ganha. Porque não fazer o mesmo com muitos outros serviços públicos?
Ontem fui fazer análises ao sangue. Este é um serviço regulado e tabelado pelo estado, sendo prestado por privados em regime de concorrência. Antes do final do dia já tinha os resultados no email. Algo idêntico poderia ser alargado aos médicos de família e a outros serviços do SNS.
Reformas nesta linha teriam um benefício comum inquestionável, sendo que haveria quem perdesse rendas garantidas. A normal rotina, essa empedernida instituição, seria também abalada.
É bonito dizer-se que, além de uma história partilhada, os países têm também um destino comum. Por vezes alguns querem agarrar-se tanto ao passado, que o confundem com o presente e isso faz mal aos cidadãos e ao país. As reformas, mais do que necessárias, seriam comparáveis aos pequenos sismos que, além do susto, não causam danos. O mundo está em permanente mudança e avança implacável como uma placa tectónica. Podemos fingir que tudo continua como dantes, que o código do trabalho herdeiro do governo de Maria de Lurdes Pintasilgo é a obra-prima, o ponto cimeiro da civilização ocidental, e isto vai lá é ainda com mais greves gerais, mas quem insiste nisso faz lembrar aqueles palermas que quando alguém lhes aponta para o firmamento, ficam a olhar para a ponta do dedo.
O código do trabalho que temos criou um mercado profundamente fracturado. Quem está dentro do sistema está de pedra e cal e nunca poderá ser despedido. Pode roubar o patrão, prejudicar o negócio do qual os dois dependem, tratar mal os clientes, ajudar deliberadamente a concorrência, violar segredos da empresa e, mesmo que a sua culpa seja provada em tribunal, ainda tem a última palavra sobre a sua reintegração na empresa após o processo em tribunal. E esta afirmação pode ser validada até pelo teste do absurdo. Um professor foi condenado pela pratica de 62 crimes de abuso sexual e mesmo assim não pôde ser despedido. Por sua vontade, regressou à vida escolar e cabe agora ao seu empregador arranjar uma forma de que o mesmo não tenha contacto com os alunos.
Depois há também aquele desafio às leis da Matemática. Um bolo cortado em 14 fatias é maior do que se for cortado em 12. E os bancos de horas? Cruzes canhoto!
Aproximamo-nos de uma eleição para os órgãos dirigentes da UGT, o que fez da greve geral da semana passada um notável momento de pré-campanha, além do facto deste governo ser rotulado de direita, o que por si legitima qualquer greve. Nem entendi quais os engulhos que levou aos queixosos a chegarem a esta “forma de luta”.
Dizia eu que o mercado de trabalho está profundamente fracturado. E porquê? Porque quem não está efectivo no quadro de pessoal de um empregador, público ou privado, resta-lhe ficar com as sobras. Os recibos verdes, que já se institucionalizaram como falsos ou verdadeiros, servem para dar a volta ao texto e para corrigir a rigidez legislativa do sistema principal. É a velha lógica do patrícios e dos plebeus.
Acontece que muitos destes plebeus pertencem esmagadoramente à faixa etária dos que nasceram depois de Abril. Além de vítimas deste desequilíbrio que lhes marca toda a carreira, quando se reformarem irão receber metade ou menos do seu último salário. Eles é que são os plebeus, os esquecidos do sistema.
É normal que os que conseguiram um bom lugar no sistema só conheçam pessoas com quem partilham a sua própria realidade e isso limita-lhes o entendimento. Conhecem também gente nova, mas apenas os que lhes são próximos e a esses ajudam-nos directamente com transferências directas. E é por estarem demasiado próximos do objecto em causa que não o conseguem ver na devida amplitude. O futuro dos jovens, e dos que nunca conseguiram aceder aos lugares cativos da bancada, deveria estar assegurado pelo normal funcionamento do país e não pelos favores que só alguns conseguem.
E é nesta falta de harmonia que as sociedades deslaçam.
Felizmente a democracia que temos é suficientemente funcional para dar voz aos plebeus e ninguém duvida que há plebeus irritados. E estão irritados exactamente por demasiadas destas e outras injustiças que persistem e nunca mudam.
A realidade altera-se e o mundo avança. Quem não aceitar pequenos e frequentes ajustamentos, terá de estar preparado para um sismo maior, daqueles que conseguem sacudir os prédios e deixar-lhe os alicerces à vista.
Como em tudo nestas coisas, a dúvida não se prende com o "se", mas com o "quando".











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