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Em Guadalajara já saberão disto?

por Pedro Correia, em 26.11.18

 

Obra de arte desaparece do Mosteiro de Alcobaça.

 

Levar o desaforo para casa

por Pedro Correia, em 26.11.18

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Graça Fonseca, a recentíssima titular da pasta da Cultura, acaba de deixar bem claro, no México, o que pensa dos periódicos que por cá se publicam: «Uma coisa óptima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses», disse sem pestanejar, como se vivêssemos num tempo anterior à generalização da Internet. Acontece que esta ministra - a terceira a assumir a pasta da Cultura em três anos de "geringonça" - tutela também a comunicação social pública, designadamente a RTP e a agência Lusa.

A frase que proferiu no estrangeiro, mais do que ser profundamente deselegante, roça o insulto à generalidade dos profissionais portugueses do sector. A cidadã Fonseca tem todo o direito de se vangloriar, alto e bom som, de prescindir da leitura dos jornais, instituídos do dever deontológico de escrutinar o poder político. Mas a ministra de uma democracia liberal como é a nossa devia abster-se destas declarações, próprias de alguém com um perfil inadequado às funções que desempenha.

Noutros tempos, com outros editorialistas, tais declarações mereceriam um coro indignado da classe jornalística. Ainda recordo as vergastadas que Cavaco Silva recebeu, enquanto primeiro-ministro, por dizer que não dispensava mais de cinco minutos diários à leitura dos jornais: anos depois ainda lhe cobravam o desaforo em letra de imprensa.

Vou esperar agora pelas reacções dos opinadores de turno nos diários e semanários que vão restando. Mas esperarei sentado, numa cadeira bem confortável: comer e calar, por estes dias, é a atitude corrente nas redacções. A ministra, que anda há vários anos na política e é muito próxima de António Costa, sabe isso melhor que ninguém. Hoje, no jornalismo de orelha murcha e rodinhas baixas que genericamente se pratica, o desaforo leva-se para casa.

A condessa de Abranhos.

por Luís Menezes Leitão, em 07.11.18


Depois destas declarações da Ministra da Cultura, a prometer que o Museu de Évora vai "tornando-se no primeiro Museu Nacional a sul do Sado", só me apetece recordar a célebre personagem ministerial criada por Eça de Queiroz:

"Outra circunstância que torna mais admiráveis esses serviços, é o facto do Conde – tendo dado todo o seu tempo ao estudo das questões sociais – jamais se ter ocupado do conhecimento subalterno da geografia. Segundo ele dizia, nunca pudera reter todos esses nomes esquisitos e bárbaros de rios, cordilheiras, vulcões, cabos, istmos! Assim, por exemplo, nunca compreendeu, confessou-mo muitas vezes, esses cálculos estranhos de graus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação (…).

Uma ocasião, na Câmara, ele falava de Moçambique como se considerasse essa nossa possessão na costa ocidental da África.

Alguns deputados mais miudamente instruídos desses detalhes, gritaram-lhe com furor.

– Moçambique é na costa oriental, Sr. Ministro da Marinha!

A réplica do Conde é genial:

– Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!

Esta réplica vem mais uma vez provar que o Conde se ocupava sobretudo de ideias gerais, dignas do seu grande espírito, e não se demorava nessa verificação microscópica de detalhes práticos, que preocupam os espíritos subalternos".

EÇA DE QUEIROZ, O Conde de Abranhos.



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