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Delito de Opinião

Livrem-se

Pedro Correia, 10.05.21

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O senhor J. Paulo Rebelo, alegado secretário de Estado do Desporto, andou a dizer por aí que o Governo está preocupado com as manifestações de júbilo dos sportinguistas na mais que previsível comemoração do título de campeão nacional de futebol.

«Será muito difícil conter em absoluto manifestações de adeptos que naturalmente surgirão», concedeu o suposto governante em declarações a um canal televisivo. Admitiu que será muito difícil «neutralizar as manifestações» de júbilo. E adiantou que «o melhor é enquadrá-las», resta ver de que maneira. 

Não sei, neste contexto, o que significa a salazarenta expressão «conter em absoluto», não havendo sequer estado de emergência que permita «neutralizar» manifestações. Querem suspender de vez a Constituição da República? Tudo é possível.

Pela minha parte, venho solicitar ao dito cavalheiro para transmitir quanto antes ao primeiro-ministro, assumido adepto do Benfica, que nós iremos celebrar o título como quisermos, quando quisermos e onde quisermos. Na varanda, à janela, no estádio, na rua, na praia, na praça ou no jardim. Sem esquecermos as normas sanitárias mais elementares, mas sem escondermos a alegria, perfeitamente compreensível.

Ninguém irá impedir-nos, ninguém conseguirá «neutralizar-nos». Muito menos um antigo membro da desonrosa Comissão de "Honra" da recandidatura do senhor Luís Filipe Vieira, cujo grupo económico figura em segundo lugar na lista dos 20 maiores devedores do Novo Banco - com prejuízos pagos pelos contribuintes portugueses - e arriscava um pedido de insolvência quando anunciou que seria recandidato às eleições "encarnadas" de há sete meses.

Livrem-se de tentar condicionar-nos. E que isto fique registado em acta desde já.

À atenção do Diácono Remédios

Pedro Correia, 05.03.21

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A jornalista Liliana Valente assinou, no Expresso da semana passada, a melhor reportagem que já li sobre a angústia e até o pânico que a pandemia provocou nos bastidores do Governo. Contou, para o efeito, com a colaboração de vários membros do Executivo naquilo que deve ter sido um laborioso e paciente exercício de jornalismo desdobrado por vários meses.

Merece ser felicitada por este trabalho, sob o título "Um ano a governar em aflição", inserido em quatro páginas do caderno principal. Pode haver quem imagine ser fácil, mas garanto que não é. 

 

Esta reportagem suscita reflexões de diverso tipo. Desde logo porque, entre os depoimentos recolhidos, há quem assuma a existência no Governo de uma "ala mais sanitarista", composta até por "hipocondríacos que não deviam estar ao leme" em situação de pandemia. Isto estimula a curiosidade dos leitores: quem serão os membros desta ala?

Mas o depoimento mais interessante - e, este sim, identificado - surge da boca de Tiago Antunes, secretário de Estado adjunto de António Costa, que a dado momento declara o seguinte: "Muitas vezes foi preciso assustar as pessoas e explicar que as coisas estavam piores do que se imaginava, muitas vezes foi preciso antecipar a opinião pública e influir na psicologia colectiva."

 

Destaco as expressões "assustar as pessoas" e "influir na psicologia colectiva". Sugerindo evidente manipulação da opinião pública.

Apetece-me perguntar ao Diácono Remédios, que na sua recente carta aberta no Público veio em socorro do Governo Costa e a vergastar os jornalistas que ousam perturbar o sossego de Suas Excelências, se não vai escrever outra cartinha, agora a propósito deste assunto. Fico a aguardar.

Uma viagem ao outro lado

Paulo Sousa, 26.02.21

Hoje fiz uma viagem ao mundo das substâncias proibidas. Andava realmente necessitado de uma trip à antiga.

Para não me comprometer nem ao dealer a quem recorri, usei palavras codificadas.

- Orientas aí uma castanha? Ia bem com um cilindro mágico...

O tipo, com um ar mal estimado, olhou-me de cima a baixo, e com maus modos grunhiu:

- Sabes bem que não há material!

- Como é que não há? Tens o tapete no último degrau, meu! Eu conheço o sinal.

- Qual sinal, crxxxxlo? - Quase que ladrou. Anda tudo nervoso.

- Eu conheço o sinal. Sou amigo do gajo que espetou um prego no pé. - Tinham-me garantido que dizer isto era suficiente. Pelo encarquilhar e insuflar da máscara deu para ver que ele estava quase a hiperventilar.

- Mostra o papel!

Meio a tremer e já com grossas gotas de transpiração a correr pela testa mostrei-lhe a nota. Fui novamente avaliado com desprezo.

- Então querias uma castanha e um cilindro? Um speedball, hãa?

- Ya! - pareceu-me uma resposta que um entendido daria.

- Não há garrafas de água. Ficas-te com uma bica e não digas que vais daqui.

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O frio e a culpa

Paulo Sousa, 10.02.21

O que é que de diferente ocorreu entre a vaga inicial da pandemia e as últimas semanas, que explique a enorme diferença das estatísticas da covid?

Sem precisar de recorrer aos registos meteorológicos, basta recordar como tem corrido o tempo, para concluir que o primeiro confinamento coincidiu com o início da Primavera, e por isso com temperaturas mais amenas. Pelo contrário a elevada taxa de infecções e de mortalidade ocorreu durante as semanas mais frias e húmidas do ano.

Não é bruxedo, pois a ciência explica com clareza que “como consequência das situações de frio intenso, são produzidas alterações no organismo que facilitam o aparecimento de doenças como a gripe e outras infecções respiratórias (pneumonia, bronquite, entre outras) bem como o agravamento das doenças crónicas". Esta citação foi retirada do site da DGS.

E como é que os portugueses vivem e lidam com o frio durante o inverno?

De acordo com esta reportagem da RTP, 24% dos portugueses vive em casas húmidas e com infiltrações, e esta percentagem é o dobro da média europeia. Como se não chegasse, dois milhões de portugueses não conseguem manter a sua casa quente, e neste indicador somos o quarto pior país europeu. A proximidade desta percentagem com a cifra dos cerca de 20% de portugueses que vive na pobreza não será coincidência.

Se a isto juntarmos o quarto mais alto custo da energia da UE, podemos com facilidade traçar uma linha que parte do enfraquecimento do organismo causado pelo frio e humidade, que passa pelas habitações fracamente isoladas, pelo custo incomportável para muitos em aquecê-las e que termina num cocktail mortífero que fez disparar a mortalidade a níveis nunca vistos desde há cem anos.

Este governo, que está ligado à nossa estagnação económica dos últimos 20 anos e por isso à pobreza de um quinto dos portugueses, assim como aos negócios nunca explicados por detrás da nossa excêntrica factura energética, tenta, qual junkie inimputável, sacudir as responsabilidades e diz que a culpa de nos termos tornado no pior sítio do mundo é dos portugueses.

A "colaboração" alemã vs o Covid-19

jpt, 04.02.21

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O governo estará exaurido. E é óbvio que perdeu o tino, neste escandaloso descalabro face à pandemia - mesmo que se deva reconhecer o evidente, que a disseminação viral muito independe de medidas executivas. Vive, como sempre, da propaganda - dominante na imprensa, via jornalistas e académicos, economicamente dependentes e sociologicamente próximos deste PS. E reproduzida nestas redes sociais, muito pelo universo clientelar da função pública (como abaixo referi, académicos do Estado a promoverem em Janeiro de 2021 a ministra da Saúde como "Super-Marta" é do mais sabujo que se pode ver na história pós-25 de Abril).
 
O governo sobrevive, mascara a sua tibieza incompetente, no pulsar propagandístico, no controlo da informação, no moldar das sensibilidades. Este caso da forma como é noticiada a ajuda alemã ao combate ao Covid-19 - morto que está o mito do "milagre que é Portugal", da quase-imunidade por via da vacina da BCG, de Champions League, Formula 1 e múltiplos jantares de Natal feito - é típico. E gritante.
 
O que o governo anuncia? Não que solicitou ajuda a um país aliado para debelar um momento extremamente gravoso. O que é perfeitamente curial, até obrigatório. Mas que aceitou a colaboração de um outro país, deixando entender que a iniciativa é até mesmo alheia.
 
Isto é execrável. É a gente que governa.
 

Os negacionistas bolsonarescos

Pedro Correia, 28.01.21

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Faz amanhã um ano: foi a primeira menção ao novo vírus que vinha da China registada no meu diário.

Revisito hoje essas linhas que escrevi em 29 de Janeiro de 2020: 

«Epidemia de gripe, já conhecida como coronavírus, começou na China, onde já provocou dezenas de mortos, e vai alastrando para outro países.

A palavra CORONAVÍRUS, desconhecida até agora, incorpora-se no vocabulário comum.»

 

Tão simples como isto. Cinco linhas escritas num caderno sem imaginar como estava a começar o maior pesadelo da nossa vida colectiva. 

Esse era um tempo em que ainda imperava em Portugal o negacionismo oficial, em que sucessivos responsáveis emitiam declarações boçais negando as evidências, em que abundava por cá o bolsonaresco «é só uma gripezinha». E havia até quem vislumbrasse na desgraça dos chineses uma despudorada oportunidade de negócio para os exportadores nacionais.

 

Foi um tempo em que Graça Freitas - então, como agora, responsável máxima da Direcção-Geral da Saúde - declarava: «A natureza é assim, aparecem novos vírus. (...) Não há grande probabilidade de chegar a Portugal: mesmo na China o surto foi contido.» Enquanto tranquilizava os compatriotas quanto à «fraquíssima possibilidade» de transmissão do vírus de pessoa para pessoa. «Neste momento não há nenhum motivo para alarme nem sequer para alerta», assegurava a directora-geral a 15 de Janeiro.

Foi um tempo em que Maria do Céu Albuquerque - então, como agora, ministra da Agricultura - apareceu com ar jubiloso perante os jornalistas dizendo acreditar que as exportações portuguesas poderiam beneficiar muito com a crise registada na China, numa altura em que o vírus já ali havia provocado pelo menos 500 mortos. O coronavírus «pode ter consequências bastante positivas» para o nosso sector agro-alimentar, declarou a ministra a 5 de Fevereiro.

Foi um tempo em que Jorge Torgal - então, como agora, porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública e nessa qualidade um dos principais conselheiros da ministra que tutela o sector - declarava sem rodeios que o novo coronavírus era «menos perigoso do que o vírus da gripe». Palavras proferidas numa entrevista ao Jornal de Notícias a 28 de Fevereiro. Quando já havia 2800 mortos e 82 mil pessoas infectadas em mais de 40 países.

Era um tempo em que João Matos Fernandes - então, como agora, ministro do Ambiente - dedicava uma das habituais acções de propaganda do Governo a apregoar as virtudes higiénicas de um produto no metro de Lisboa com a graça e o garbo de um charlatão de feira. «Existe um produto muito eficaz, um produto que mata todos os micro-organismos e, portanto, bactérias e vírus, e que consegue durante um mês essa mesma segurança. Há uma película que é formada em torno das superfícies onde ele for aplicado», declarou o governante a 15 de Março, perante um batalhão de cordatos jornalistas.

Era um tempo em que António Costa - então, como agora, primeiro-ministro - nos tranquilizava garantindo solenemente que «até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar nada». Palavras com data de 23 de Março, portanto muito antes da situação actual, em que o Governo já admite enviar doentes portugueses para hospitais estrangeiros.

 

Estas declarações - nuns casos vergonhosas, noutros simplesmente caricatas - foram pouco depois varridas para debaixo do tapete. Como se nunca tivessem existido. Mas existiram - e influenciaram muitos de nós nessas semanas iniciais. Todas procurando desvalorizar a tempestade que aí vinha. Por irresponsabilidade, ignorância ou estupidez.

Política, pandemia e SNS: estamos num «carro desgovernado»

Pedro Correia, 18.01.21

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«A situação actual compara-se a um carro desgovernado. (...) Não tenho dúvida nenhuma de que o SNS e o sistema de saúde no seu conjunto, incluindo o sector social e o sector privado, estão a atingir limites preocupantes.»

 

«Se dependesse de mim, as escolas teriam sido fechadas. Se dependesse de mim, eu não teria esperado pelo dia 12, pela reunião do Infarmed, e teria tomado as medidas no dia 2 de Janeiro. Se dependesse de mim, nesta fase em que estamos a caminhar em direcção a uma parede, eu não teria um discurso tão soft, tão macio.»

 

«A indisciplina não resulta apenas do facto de os portugueses não serem agora os heróis de Março. Em Março éramos todos heróis e o melhor povo do mundo - e agora somos todos mal-comportados... Não. As pessoas, genericamente, aderem, cumprem, mas estão cansadas, estão exaustas.»

 

«Choca-me e custa-me muito ver o peso da mortalidade [por Covid-19] e ver Portugal neste primeiro lugar, que é o pior primeiro lugar que poderíamos ter em qualquer área.»

 

«Uma das razões que levam ao desânimo e até ao desencanto e à frustração mesmo dos profissionais da saúde é dizer-se que a democracia não pode ser parada por uma crise como a que estamos a viver. Isto não é respeitar a democracia. Porque o valor máximo, em democracia, é o respeito pela vida.»

 

«Creio que os portugueses não estão a dar atenção nenhuma às campanhas políticas e aos debates. Neste momento a preocupação dos candidatos devia ser visitar hospitais e ver as condições em que os profissionais da saúde e os bombeiros estão a trabalhar.»

 

«Qual é a prioridade do País neste momento? Diminuir esta propensão para o descalabro do Serviço Nacional de Saúde e para o número de mortos.»

 

Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, esta noite na TVI

Janeiro negro: retrato do País em títulos do "Expresso"

Pedro Correia, 16.01.21

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«Governo preparado para manter restrições até à Primavera»

Nos próximos dois meses vão morrer tantas pessoas como nos últimos dez.

 

«Lisboa no limite, Centro e Alentejo mal e Norte a piorar»

Situação de pré-rotura de muitas unidades do Serviço Nacional de Saúde está a agravar-se devido à pandemia.

 

«Hospital de campanha fechado há meses por falta de médicos»

Unidade de contingência, com 58 camas, está no estádio Universitário desde Junho e nunca foi utilizada.

 

«DGS selecciona cancros que não podem ficar por operar»

Documento define prioridades entre doentes com intervenções inadiáveis face ao fecho de blocos operatórios.

 

«Portugal é o quarto país da Europa com as casas mais frias»

Nesta lista, só Bulgária, Lituânia e Chipre estão pior que nós.

 

«Aquecer a casa na vaga de frio: são 36 cêntimos por hora»

Consumo global de electricidade cresce 10% este mês, mas subida do consumo doméstico pode ser ainda maior.

 

«Imigração cai 9% em ano de pandemia»

Em 2019, estrangeiros haviam contribuído para 12% dos nascimentos em Portugal, atingindo um peso inédito na natalidade.

 

«Investimento público foi a grande vítima do défice zero»

Milhões de euros gastos pelo Estado não chegam sequer para compensar o desgaste das infra-estruturas.

 

«PIB pode cair até 7% este trimestre»

Caso as estimativas se confirmem, a economia portuguesa terá encolhido 8,2% no ano passado.

 

«Marcelo volta à rua sob tutela da DGS»

Presidente da República já fez mais de 80 testes à Covid-19.

 

«Assembleia da República reduz trabalhos»

Parlamento volta a realizar apenas dois plenários por semana, mantendo a redução do número de deputados por sessão.

 

Coincidências

João Sousa, 05.01.21

Há dias, Catarina Martins lamentou, a propósito da polémica que está a rodear o procurador José Guerra, que "informações falsas em currículos sejam situações comuns de mais em Portugal". Catarina Martins surpreendeu-me: talvez com a sua acutilância ainda tolhida pela digestão das pesadas ceias natalícias, ela, que tantas vezes no passado se mostrou rápida e sinuosa nos saltos de lógica, escolheu agora um simples "informações falsas em currículos são demasiado comuns em Portugal" para se lamentar.

Acontece que Catarina Martins, muito cirurgicamente, está a cometer um erro de análise.

O que aqui está em causa, ao contrário do que ela diz, não é o frequente (na nossa política) embelezamento do  próprio currículo. O que aconteceu não foi um político anunciar-se engenheiro quando não passa de um licenciado, fazer exames por fax, completar licenciaturas com equivalências, conseguir o canudo dias antes de ser nomeado para cargos públicos que o exigem, ou fazer cursos de qualidade manhosa. O próprio José Guerra já declarou não ter tido nada que ver com a tal carta enviada pelo Estado português. O que aconteceu, e que já está a ser discutido na Europa civilizada, foi o Estado português ter enviado, como justificação da sua não aceitação da escolha feita pelo comité europeu de selecção, uma carta onde embelezou o currículo do "seu" nomeado.

Admito que tenho atravessado esta polémica com alguma indiferença - não por achar que não tem importância, mas por já não me conseguir surpreender com o que é "apenas mais uma" questão mal explicada. Contudo, movido pela curiosidade, fui pesquisar o que já foi publicado sobre estes personagens. Fosse eu pessoa maldosa ou desconfiada, ficaria preocupado. Não o sendo, presumo tratar-se apenas de um imenso rol de coincidências.

É coincidência, seguramente, que o irmão de José Guerra tenha sido quem viabilizou, enquanto presidente do Instituto de Conservação da Natureza, a construção do Freeport.

É coincidência, de certeza, que José Guerra tenha sido nomeado pelo governo de José Sócrates para o Eurojust quando "já decorriam investigações à viabilização e implantação do outlet em Alcochete".

É coincidência que um dos seus colegas no Eurojust tenha sido José Lopes da Mota, suspenso por 30 dias em 2009 por pressões exercidas sobre os procuradores que investigavam em Portugal o caso Freeport.

Só pode ser coincidência, estou seguro, que Van Dunem tenha sido, em 2009, "o único elemento do órgão disciplinar do Ministério Público a votar contra a penalização de José Luís Lopes da Mota" (e nomeou-o, há seis meses, para seu conselheiro com a missão de "apoiar a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia").

É coincidência, só pode ser, que o júri constituído dentro do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para avaliar as candidaturas a este cargo de procurador europeu apenas tenha definido o valor de cada um dos critérios de avaliação depois de saber quem eram os candidatos. E só pode ser coincidência que um desses critérios fosse interpretado de forma suficiente livre  para dar vantagem a José Guerra: "(...) os conselheiros decidiram que, para o concurso de procurador nacional na Procuradoria Europeia, o critério da "experiência como magistrado do Ministério Público" seria interpretado no sentido da "antiguidade na magistratura". Ou seja, por exemplo, um procurador com 20 anos de carreira, mesmo que 15 fossem passados nos Tribunais de Família e Menores, seria considerado como tendo mais experiência do que outro com 10 anos de serviço, nem que todo este tempo fosse a investigar fraudes com fundos europeus. Curiosamente, esta interpretação foi ao encontro do candidato José Guerra, que ocupa a 21ª posição na lista de antiguidade, enquanto Ana Carla Almeida está na 22ª."

Só pode ser coincidência que o júri europeu tenha ignorado a classificação dada pelo júri do CSMP e tenha escolhido, para um organismo destinado a investigar crimes económicos no espaço europeu, a procuradora Ana Carla Almeida por causa da sua maior experiência em... investigação de crimes económicos.

E que outra coisa pode ser senão coincidência que Ana Carla Almeida, tão energicamente (e atabalhoadamente) preterida pelo governo português em favor do seu special one José Guerra, seja a procuradora que, em Setembro de 2019, avançou com buscas à ANPC e ao MAI por suspeitas de favorecimento a uma empresa do marido de uma autarca do PS no caso das "golas da Protecção Civil", e seja também a procuradora do processo que envolve suspeitas de fraude em fundos europeus relacionado com a empresa Go Big or Go Home, que pertenceu a um antigo secretário de estado socialista?

Sim, tudo isto são coincidências. Que outra coisa havia de ser? Alguns, encostados a um certo poder, serem protegidos e premiados - e outros, que se metem com ele, levarem? Não: recuso-me a acreditar nisso. Afinal, estamos num Estado de Direito e somos um país da Europa, não é?

O Brasão Dourado

jpt, 04.01.21

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Antes de tudo quero dizer que cá em casa tenho uns bibelots iguaizinhos aos da ministra. Depois será interessante dizer que em 2015 o novo governo encontrou o país algo em alvoroço: enormes trapalhadas com os grandes bancos privados e suas algo esconsas ligações à banca pública e ao poder político, as quais devastaram as finanças estatais; o antigo primeiro-ministro acusado de crimes gravíssimos. Ainda assim o Presidente eleito era íntimo do banqueiro cerne daquele rombo financeiro e o novo governo encheu-se de antigos colegas do ex-primeiro-ministro, como se nada tivesse acontecido, entre a usual e curial presunção de inocência do réu Sócrates e a extraordinária presunção da candura generalizada da elite do PS. Nesse ambiente, mais que não fosse, seria de esperar que o poder político procurasse com denodo reforçar a confiança do país na sua justiça, ser nesse âmbito mais ainda do que "mulher de César", no hastear da bandeira da radical separação de poderes, da não intromissão governamental no reino da Justiça. Sarar, por assim dizer, as feridas de parte substancial da população, magoada com o socratismo e seus elos com Espírito Santo, descrente face à imagem da costumeira impunidade jurídica dos poderosos. Tal não veio a acontecer. E o afã em afastar (por "tradição", disse-se com impudicícia) a anterior Procuradora-Geral mostrou bem esse sentimento de desnecessidade em religar a sociedade - em afivelar a justeza do comportamento governamental -, objectivo irenista afinal tão propalado pelo presidente Sousa quando abordando temáticas mais comezinhas do que as ligações do seu íntimo Espírito Santo com o partido charneira da então "geringonça".

Entretanto o tempo longo vai passando. Espírito Santo e tantos outros seus colegas cruzam em paz os seus "anos dourados". O engenheiro Sócrates, ainda que já descrente em vir a ascender a Belém, torna-se um freguês jagoz, sem mais. Os seus antigos colegas e/ou subordinados, governam, sem qualquer rebuço. Ou seja, o regime manteve-se, impune - e até hierático, apesar do popularucho toque do seu presidente. 

Este caso do envio do procurador Guerra para a Europa é demonstrativo da soberba governamental, da cegueira face às chagas que existem, uma descrença social que não se cura com "selfies" de Sousa. O ministério da Justiça entendeu nomear Guerra, ao invés do pretendido pelas instâncias europeias - e reclama ter feito isso por acordo com órgãos corporativos nacionais. Mas para fazer essa proposta "doirou o brasão" do procurador preferido, falseou informações oficiais sobre o seu percurso. A ministra nega a relevância do facto, tudo reduz a um "lapso". Depois, decerto que pressionada, aceita a demissão do seu director-geral responsável pelos serviços que promoveram o documento falseado. Este demite-se invocando a "responsabilidade republicana", a de assumir as falhas dos serviços que dirige. E deixa referido que apresentara o tal documento à ministra antes de o enviar, que ela teve conhecimento (compreensivo, entenda-se) do seu conteúdo. 

A bofetada é gigantesca. Só menor do que a indignidade governamental. Isto até arrepia.

Adenda: o comunicado da DGPJ que explicita que o documento falsário foi do conhecimento do Gabinete da Ministra foi apagado do sítio do Ministério da Justiça. Isto é uma vergonha, patética.

Crime de falsas declarações

Paulo Sousa, 01.01.21

Para nos aliviar os quase mono-temáticos telejornais destes tempos de pandemia, e mesmo com a transmissão em directo dos foguetes de Ano Novo pelo mundo fora, a embrulhada da semana foi até refrescante.

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Imagem SIC

Já sabíamos que o governo escolheu o magistrado José Guerra para a futura Procuradoria Europeia, preterindo assim a candidata seleccionada pelo Comité de Selecção Internacional, Ana Carla Almeida. Havia algo que não batia certo nessa decisão, mas agora o Expresso e a SIC noticiaram que o Ministério da Justiça recorreu a dados falsos para justificar a sua improvável decisão.

A comoção nas redes sociais e nos corredores da política não se fez esperar. Rui Rio, líder da oposição por inerência, achou o caso tão grave que até teve o arrojo e a desfaçatez de criticar o governo.

No ar fica a dúvida se na hierarquia da gravidade destes “lapsos”, mentir à EU será mais ou menos grave do que mentir aos portugueses.

Estranha forma de governar

Pedro Correia, 03.11.20

"Se formos de Ferrari poderemos ir rezar pelos nossos mortos?"

jpt, 27.10.20

(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

 
 

O estado da arte

jpt, 25.10.20

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Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. E recomendo-a, pois é uma boa descrição do actual "estado da arte" português. Trata-se de "O Torso Dispensável".

(Como o texto tem acesso reservado a assinantes poder-se-á ler uma transcrição parcial, mas quase completa, aqui.)