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O fim da geringonça

por Pedro Correia, em 03.05.19

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R.I.P.

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Gógol não era economista

por jpt, em 31.03.19

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Inúmeros políticos e assessores saíram à liça para defender o governo neste "affaire famigilia" (que já ecoa na imprensa estrangeira). Até o candidato socratista ao parlamento europeu veio, melífluo, dizer que "não mas enfim ..." (ler o texto ligado pelo Pedro Correia em postal abaixo). Os "comentadores" eixo-domaljugular já confirmaram que tudo está bem no reino. E, cerveja para cima do bolo, Pacheco Pereira reduz as críticas ao emaranhado do governo português à incapacidade geral em criticar as políticas económico-financeiras do PS. Ou seja, na visão do meu antigo professor, um tipo como eu, e nisso parecido com tantos outros, que não estudou economia não tem o direito a interrogar-se ou indignar-se. Mesmo que tenha a ideia de que alguma coisa não correrá bem, que tenha a sensação que este texto de Joaquim Miranda Sarmento é capaz de ser um bom diagnóstico da situação económica nacional, para Pacheco Pereira isso não chega: não sendo eu capaz de escrever a crítica e/ou melhorá-la ou sustentá-la, tenho que me ir calando. Nos tempos em que ele, Pacheco Pereira, nos ensinava a isto chamava-se "economicismo". Mas enfim, os tempos mudam, e há que adaptar as ideias aos novos ares. 

Portanto, irrito-me com coisas? Vejo-as como denotativas do actual "estado da arte", como aquilo do secretário de estado de defesa do consumidor continuar a exercer funções, apesar de querer o namorado capitão como motorista, decerto - é a única razão que consigo perspectivar para tal inaudita pretensão - para lhe possibilitar sexo durante as horas de expediente, tendo-o ali a pénis de semear, por assim dizer? Que me desirrite, dirá o professor Pacheco Pereira, que tivesse eu ido estudar Economia ...

Ocorre-me que Nikolai Gógol não era economista. E que está o meu país cheio de avatares de Tchítchikov. E, também, que o meu antigo e respeitado professor já desapareceu há muito tempo. Ficou só isto.

 

"Resumindo, eis o nosso herói [Tchítchíkov] em pessoa, tal como é! Mas talvez me exijam que o caracterize definitivamente com um único traço: quem é ele, em termos de moral? É claro que não é um herói cheio de perfeições e virtudes. Quem é então? Um canalha? Mas porquê canalha, logo assim de repente, por que teremos de ser tão severos para com o nosso próximo? Hoje em dia já não existem canalhas entre nós, há apenas pessoas bem-intencionadas, amáveis; talvez se encontrem só duas ou três susceptíveis de darem a cara ao opróbrio e à bofetada pública, e mesmo estas falam de virtude. A um homem assim seria mais justo dar-lhe outro nome: homem prático, homem granjeador. A aquisição é que tem culpa de tudo: por causa dela é que foram feitas as coisas que o mundo chama de pouco limpas. É verdade, há neste carácter qualquer coisa de repugnante, e ao mesmo leitor que, nos caminhos da sua vida, tem amizade com um homem assim, que come à mesma mesa com ele e partilha gostosamente com ele as suas horas de lazer, olhará para ele de esguelha se tal homem lhe aparecer na qualidade de herói de um drama ou de um poema. Ora sábio é aquele que não desdenha carácter nenhum, mas, fitando nele o olhar perscrutador, o investiga até às causas primeiras. São rápidas as metamorfoses do ser humano: de um momento para o outro cresce no seu íntimo um terrível verme que canaliza para si, arbitrariamente, todos os sucos vitais. Por mais de uma vez tem acontecido que não só uma forte paixão, mas mesmo uma minúscula paixoneta por uma insignificância qualquer cresça e invada todo o ser humano nascido para verdadeiras façanhas, fazendo com que esqueça as suas obrigações sagradas e veja em ninharias a sua grande e sagrada vocação. Não têm conta, como as areias do mar, as paixões humanas, e todas diferentes umas das outras; e todas elas, baixas ou nobres, no início obedecem ao homem e só depois se tornam os seus terríveis senhores. Bem-aventurado aquele que escolheu para si, de entre todas, a mais bela das paixões: a cada hora e a cada minuto que passa cresce e multiplica-se a sua desmedida bem-aventurança e cada vez ele entra mais fundo no infinito paraíso da sua alma. Há porém aquelas paixões que não são escolha do homem. Nasceram com ele e com ele hão-de morrer, o homem não tem forças para fugir delas. Guia-as uma vontade superior, existe nelas um princípio que perpetuamente nos chama, que não se cala em toda a nossa vida. São destinadas a cumprir uma grande missão na terra: seja na forma de uma imagem sombria, seja levantando voo como fenómeno radioso que alegrará o mundo - dos dois modos, foram chamadas à vida em prol de um bem que, para o homem, é incompreensível. Ora então, no nosso Tchítchikov a paixão que o move não depende dele e, na sua fria existência, talvez já durma aquilo que mais tarde ou mais cedo lança os homens de joelhos perante a sabedoria dos céus. (...)

 

Ora o que é penoso não é a possibilidade de alguém ficar desagradado com o nosso herói, mas, pelo contrário, a insuperável certeza, bem enraizada na alma, de que, com este mesmo herói, com este Tchítchikov, os nossos leitores poderiam ficar agradados. Se o autor não tivesse espreitado tão fundo na alma dele, se não tivesse içado do seu íntimo aquilo que, fugaz, se esconde da luz, se não lhe tivesse desvendado aqueles seus mais secretos pensamentos que a ninguém se confiam, se apenas o tivesse mostrado tal como ele se apresentou na cidade, ao Manílov e aos outros, ah, então toda a gente ficaria contentíssima e tomá-lo-ia por pessoa interessante. (...) Sim, meus bons leitores, não vos apetece ver a miséria humana a descoberto. Para quê, dizem os senhores, será que vale a pena? Não saberemos já que existem muitas coisas estúpidas e desprezíveis nesta vida? Já sem isso nos acontece muitas vezes assistir àquilo que não agrada a ninguém. É melhor mostrar-nos o belo, o admirável. Faça, antes, com que esqueçamos! "Para que me dizes, meu amigo, que as coisas andam mal na minha herdade?", diz o proprietário rural ao seu feitor. "Sei tudo isso muito bem, meu amigo, será que não tens mais nada do que falar? Deixa-me na ignorância, deixa-me esquecer, e então serei feliz." Sendo assim, aquele dinheiro que serviria para, de algum modo, corrigir as coisas, é gasto nos vários meios de procurar o esquecimento. A mente, que talvez pudesse descobrir ainda alguma fonte de grandes recursos, adormece e não tarda, toda a herdade é vendida em leilão e o proprietário, na miséria, vai por esse mundo fora em busca de esquecimento, com a alma pronta a cometer baixezas que, outrora, até o assustariam.

 

O autor ouvirá também acusações da parte dos assim chamados patriotas, desses que, até agora sossegadinhos nos seus recantos, se dedicam a coisas de outro género, amealhando o dinheirinho, assegurando o seu bem-estar à conta dos outros; ora, mal acontece alguma coisa insultuosa para a pátria, na opinião deles, mal aparece algum livro que revele uma verdade amarga, saltam de todos os seus cantinhos (...) e soltam o grito: "Admite-se trazer estas coisas à luz do dia, gritá-las aos quatro ventos? É que tudo isto nos diz respeito, é nosso - e então será bom alardeá-lo? O que dirão os estrangeiros?" (...) uma modesta resposta às acusações de alguns patriotas ardentes que, até determinado momento, se dedicam sossegadamente a uma qualquer filosofia ou a fazerem crescer os seus capitais à custa da pátria ternamente amada e que, em vez de pensarem em não fazer o mal, pensam só em que ninguém diga o que fazem mal. Mas não, não é o patriotismo a causa das acusações, há outras coisas por trás. Por que querem esconder a palavra?"

(Nikolai Gógol, Almas Mortas, Assírio & Alvim, 2017, 284-288. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

(Ilustração "A Chegada de Tchítchíkov à Cidade de N", de Marc Chagall, 1923).

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Virar a página da austeridade (II)

por Diogo Noivo, em 30.11.18

Já o referi aqui: ferrovia num caos sem precedentes, degradação das condições de segurança interna a um nível do qual não há memória no período democrático, hospitais a viver uma época especialmente penosa, e a maior carga fiscal dos últimos 22 anos. Ficámos hoje a saber que, por ordem do Governo, os alunos com maiores dificuldades económicas só receberão metade das bolsas de mérito que deveriam ser entregues no 1º período. Ainda bem que virámos a página da austeridade e que o “muro” já não existe.

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Virar a página da austeridade

por Diogo Noivo, em 15.11.18

1. Sou passageiro da CP há pouco mais de duas décadas. Exceptuando os períodos em que residi no estrangeiro, fui sempre utilizador dos caminhos de ferro nacionais. Nunca os vi tão mal. Os atrasos e as supressões de comboios na área metropolitana de Lisboa são diários (pelo que leio, no resto do país é igual). Consequentemente, os comboios que circulam vão a rebentar pelas costuras, sendo cada vez mais normal não conseguir entrar e ter de esperar pelo comboio seguinte. Perante a falência real do serviço prestado, aqueles que têm responsabilidades políticas falam na redução do preço dos títulos de transporte, demonstrando assim que estão completamente alheados das dificuldades diárias do cidadão comum.

 

2. No que respeita à segurança de pessoas e bens também não há memória de uma época tão lamentável. Os fogos florestais mataram como nunca e no rol de causas consta o fracasso técnico do Estado (do fracasso político é melhor não falar). O roubo de Tancos é em tudo semelhante: fracasso técnico do Estado e do fracasso (e desfaçatez) político é melhor não falar. As Forças de Segurança, PSP e GNR, atravessam um momento de carência especialmente duro, como ficou bem ilustrado num trabalho recente da SIC. Já o trabalho notável do Ministério Público e da Polícia Judiciária será recompensado com um corte orçamental no próximo ano.

 

3. A carga fiscal não diminuiu, apenas foi organizada de forma diferente. Estamos com a carga fiscal mais elevada dos últimos 22 anos.

 

4. A prometida descentralização é destratada com medidas ad hoc a raiar da infantilidade, algo de resto patente na novela Infarmed. Sobre o estado da arte das assimetrias regionais vale muito a pena ler este artigo de Luís Aguiar-Conraria.

 

5. O ano de 2017 foi o annus horribilis dos Hospitais com cerca de 300 milhões de euros em EBITDA negativo. A falta de profissionais no sector é gritante, as listas de espera vergonhosas e a ineficiência do Serviço Nacional de Saúde atingiu um patamar do qual já não havia memória. Além dos problemas sistémicos existem problemas graves de dignidade plasmados na vergonha sem nome de ter uma ala pediátrica com serviço de oncologia a funcionar num contentor.

 

6. Mais assuntos podem ser acrescentados, mas estes bastam para demonstrar que o “virar da página da austeridade” e a “queda do muro” não nos deixaram melhor. Pelo contrário. Por isso, é de perguntar onde andarão as vozes corajosas que entoaram “grandoladas” entre 2011 e 2015, onde andarão os indignados, onde andarão os que gritavam “as pessoas primeiro”. Não quero acreditar que a revolta do passado fosse apenas um produto artificial gerado por convicções puramente ideológicas.

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Eleições à vista?

por Luís Menezes Leitão, em 30.09.18

Ontem foi Jerónimo de Sousa a dizer que era preciso um novo governo. Hoje é Catarina Martins a ameaçar votar contra o orçamento, a menos que Costa cumpra uma exigência impossível de cumprir. Parece manifesto que os queridos parceiros da geringonça já querem abandonar rapidamente este barco. Resta agora saber se Rui Rio vai querer assumir-se como muleta deste governo ou dá a Costa o destino que a sua votação eleitoral em 2015 lhe deveria ter traçado desde o início. Mas com as constantes demissões que a sua estratégia de ligação ao PS está a causar no PSD, não me parece que Rui Rio tenha grande alternativa. Está hoje na mesma posição de Passos Coelho, que também apostou inicialmente na colaboração com Sócrates, e a quem disseram que ou havia eleições no país ou havia eleições no partido. Claro que as eleições no país neste momento podem ser um maná para António Costa, que seguramente não deseja outra coisa, e uma tragédia para os restantes partidos. Só que é uma tragédia inevitável. Marcello Caetano, também ele uma personagem trágica, disse uma vez que é um erro pensar que se pode deixar de ir a Alcácer-Quibir. O destino está escrito nos astros.

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A geringonça da hipocrisia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.18

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O que caracteriza a geringonça é de facto a sua refinada hipocrisia. Dizem que andam a tentar combater a especulação imobiliária, enquanto se dedicam a ela nos seus negócios privados. Depois de António Costa ter conseguido o enorme prodígio de ganhar 100% na venda de um imóvel no prazo de um ano, enquanto exerce as funções de primeiro-ministro, agora é este rapaz que ultrapassa todos os recordes, comprando um imóvel por 347 mil euros e a seguir pondo-o no mercado por 5,7 milhões. Isto por parte de quem andava a dizer à boca cheia, que Lisboa é uma cidade cada vez mais para ricos e menos para lisboetas. Ele lá saberá do que fala. Estranha-se é que não tenha apresentado o seu passado como investidor imobiliário quando se candidatou no programa do Bloco de Esquerda a Lisboa, onde seguramente teria tido um resultado eleitoral diferente. A hipocrisia e a fraude política estão de facto no coração da geringonça.

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Assis tinha razão

por Pedro Correia, em 13.07.18

No fundo, Augusto Santos Silva vem dizer agora o que Francisco Assis já dissera em 2015: há incompatibilidades genéticas entre os parceiros da geringonça. Face aos compromissos europeus e à gestão das finanças públicas, pedras angulares de qualquer governação.

A grande alteração de contexto é a perda gradual e constante do PS nas intenções de voto, confirmada a cada sondagem de há um ano para cá. Felizmente para António Costa, existe  Rui Rio - sempre incapaz de lhe fazer uma crítica, sempre pronto a amparar-lhe a queda.

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A geringonça espanhola.

por Luís Menezes Leitão, em 01.06.18
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Aquando das últimas eleições espanholas, tive um almoço com um colega espanhol em Lisboa. Iniciámos a refeição com uma sopa à alentejana e a certa altura perguntei-lhe se a Espanha poderia imitar Portugal com Pedro Sanchéz a criar uma geringonça espanhola para derrubar Rajoy. A resposta dele foi a seguinte: "A geringonça portuguesa é como esta sopa à alentejana. Alimenta, mas não tem muitos ingredientes. A nossa geringonça seria uma verdadeira sopa à espanhola, com imensos ingredientes, entre os quais os partidos independentistas. E estes exigiriam cedências inaceitáveis ao governo espanhol para lhe dar o seu apoio. O PSOE não tem condições para alinhar nisso".

 

Esse vatícinio verificou-se e não só Rajoy manteve o governo, como também lançou uma guerra sem quartel aos independentistas catalães, com o apoio entusiástico de Albert Rivera e também um apoio sem reservas de Pedro Sánchez, que sabia ser a luta independentista catalã muito impopular no resto da Espanha. Rajoy desencadeou assim uma luta acesa contra a Catalunha, mantendo o art. 155 até ao limite, governando a região com quatro deputados, rejeitando as decisões do parlamento catalão, recusando ministros do governo, etc., etc. Só que aí perdeu o seu apoio parlamentar, uma vez que o ódio que causou aos independentistas catalães e por arrastamento aos nacionalistas bascos foi de tal ordem que a estes partidos passou a bastar um simples estender da mão de Pedro Sánchez para lhe darem o seu apoio.

 

Quando saiu a sentença do caso Gürtel, Pedro Sánchez, em queda sucessiva nas sondagens, viu chegada a sua oportunidade. Lançou uma moção de censura construtiva que facilmente lhe permitiu chegar à nomeação como primeiro-ministro de Espanha. Rajoy bem falou num governo de Frankenstein, imitando a reacção de Passos Coelho ao diabo que a geringonça traria, e Albert Rivera desesperou por não haver eleições, quando todas as sondagens lhe estão a dar o primeiro lugar. Mas, na política como na guerra, quem com ferros mata com ferros morre, e quem se lança com fúria cega ao combate numa frente, pode muito bem desguarnecer a rectaguarda. Hoje o ataque de Pedro Sánchez, que muitos davam como acabado, foi mortífero, lançando um ataque certeiro aos partidos à sua direita.

 

É muito provável que tudo isto acabe mal e que a tal sopa à espanhola seja um caldo bem grosso, totalmente indigerível para Espanha. Mas neste momento o cozinheiro acaba de demonstrar que a mesma pode ser preparada para ser servida. A geringonça também foi possível em Espanha.

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PCP sensacional

por Diogo Noivo, em 02.03.18

Roubando, com a merecida vénia, o título de uma maravilhosa série de posts no Malomil, Portugal é sensacional. Não são as praias, nem a gastronomia, nem o clima, nem a História, nem a bola. São as pérolas. Olhando com atenção descobrem-se pérolas raras, preciosidades que, não sendo endémicas, têm no nosso país um brilho especial. Hoje, a concha é o Diário de Notícias e a pérola um artigo de Jorge Cordeiro, distinto militante do PCP.

Logo à cabeça do texto, Jorge Cordeiro diz ao que vem: “A vertigem de elogios, dignos de evocações póstumas, sobre o legado governativo de Passos Coelho deixa antever o pior.” Numa palavra, medo. Para Cordeiro, algo de nefasto se avizinha. Mas medo de quê? De que exista no sistema político nacional um partido que, por razões ideológicas, se recuse a condenar os brutais ataques com armas químicas na Síria? De que exista em Portugal uma força política cuja adesão aos valores e aos princípios de um Estado de Direito Democrático é de tal forma débil que se recusa a censurar as atrocidades cometidas pelo totalitarismo vigente na Coreia do Norte? De que na Assembleia da República tenha assento uma bancada de tal forma dominada pela cegueira ideológica que é incapaz de aprovar um voto de pesar – note-se bem, de pesar – por um dos mais importantes empresários portugueses? De que, perante a calamidade humanitária e o autoritarismo do regime venezuelano, haja em Portugal quem alinhe com Nicolás Maduro? Não. Nada disto. Para Jorge Cordeiro, o problema está num eventual regresso ao “arco da governação” e na manutenção dos “dogmas neoliberais” – críticas a dogmas vindas do PCP é como ter Bruno de Carvalho a queixar-se dos excessos de linguagem no futebol português. Mais preciosa (e rara) que esta pérola só mesmo a normalidade com que, ano após ano, convivemos com este radicalismo.

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Merece uma condecoração

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.01.18

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Não tem sido muito falado, mas espero que o Comité Central do PCP, depois da ajuda dada pelo anterior líder do CDS-PP ao governo revolucionário do Comandante Maduro, tenha lá guardada uma Ordem de Lenine para premiar a camarada Assunção Cristas pelo notável impulso que tem dado à renovação das ideias herdadas do passado. Não é todos os dias que o Governo de António Costa tem uma ajuda destas: 

mais importante do que saber quem fica em primeiro lugar nas eleições, o que é importante é saber que partidos é que conseguem ter uma maioria parlamentar de, no mínimo, 116 deputados” 

O que vale é que o Ferrari do Vitória já entrou no cone de ar e sempre poderemos ter a certeza de que a realidade ainda é o que era.

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Descubra as diferenças

por Pedro Correia, em 11.12.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

 

«Não precisamos da direita para governar mas pode vir a acontecer.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista à TSF

9 de Dezembro

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Dez meses é muito tempo

por Pedro Correia, em 28.11.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

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A pergunta que se impõe

por Diogo Noivo, em 23.11.17

 

"Em finais de 2015 havia alternativa, íamos virar a página da austeridade, era todo um mundo novo que se prometia, feito de mais dinheiro no bolso de todos, porque o anterior Governo era um malvado que, vá-se lá saber porquê, queria tirar-nos o dinheiro todo e estava sempre a falar no défice das contas pública e na dívida. Havia dinheiro a rodos e ai de quem se atrevesse a alertar que não era possível. Seria devidamente insultado e perseguido pela turba anónima das redes sociais, classificado de “pafiano” ou educadamente insultado como “liberal”.

Em finais de 2017 estamos a ser acusados de viver na ilusão de que é possível dar tudo a todos, porque afinal não é. E não é por maldade, é porque afinal, pasme-se, não há dinheiro e não é possível apagar o passado, eliminar a crise e a troika. Mas isso não era exactamente o problema de 2015?"

 

Helena Garrido, "(Des)ilusões de ricos pobres", Observador (23.11.2017)

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Gestão do curto prazo

por José António Abreu, em 24.10.17

Senão vejamos: quando pegamos nas medidas tomadas pelo governo em 2017 e excluímos as rubricas de “poupanças nas despesas de funcionamento” que nunca são explicadas, e portanto são extremamente genéricas, temos que, sem o efeito da poupança dos juros, o défice estrutural em 2017 manter-se-ia igual a 2016 (cerca de 2%) e não em 1.8% apresentados pelo governo. Com a redução dos juros, o défice estrutural reduz-se em cerca de 0.1 p.p..

[...]

E para 2018? Para 2018 vamos assistir a uma manutenção do défice estrutural em 2%, novamente à custa da redução dos juros. Repetindo o exercício anterior, em 2018 as medidas tomadas fazem a receita cair 100 M€ e a despesa aumentar 460 M€. Isto daria um agravamento do défice estrutural em 0.3 p.p. Contudo, uma poupança de juros na ordem dos 400 M€ permitirá manter o défice estrutural estável (mas não reduzi-lo como o governo afirma).

Note-se, assim, que sem a redução dos juros o défice estrutural em 2018 atingiria um valor próximo de 2.5% (sendo que em 2016 estava em 2%). As medidas tomadas por este governo representam já um agravamento do défice estrutural em mais de mil Milhões de Euros. Por agora não se nota: o crescimento económico permite esconder esta realidade. O problema vai ser quando tivermos de enfrentar uma nova recessão.

Da análise de Joaquim Miranda Sarmento, no Eco.

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É isto

por José António Abreu, em 19.10.17

[...]

O que se está a passar na nossa vida enquanto comunidade é assustadoramente preocupante. A grande massa de eleitorado urbano satisfaz-se com um bodo aos pobres, na dimensão suficiente para ir fazendo uns fins-de-semana prolongados e uns jantares fora. Dentro desse grupo merecem um tratamento especial os funcionários públicos, pela sua dimensão, e os pensionistas, com especial relevo para os que ganham mais e têm acesso ao espaço público. A estratégia é tão simples e fria quanto a de uma empresa que define um objectivo de mercado. Tudo o resto, como não faz mexer o ponteiro das vitórias eleitorais, não existe.

Os últimos orçamentos do Estado foram pensados nessa lógica. Se o país fosse uma empresa podia dizer-se que na era da troika fomos geridos pelo administrador financeiro e nestes últimos dois anos pelos responsáveis da área comercial e do marketing. Tudo o que não se vê ou que esteja protegido dos olhares externos pode ficar com menos dinheiro. E assim se faz dinheiro para acabar com os cortes dos salários da função pública rapidamente, ao mesmo tempo que se reduz o défice público.

São escolhas políticas apresentadas como uma opção pelas pessoas, pela coesão social, pelo combate à  pobreza e pela promoção da igualdade. Quem o diz assume-se até como tendo o monopólio destes objectivos, como se todos os outros fossem contra valores que são (ou deviam ser) os alicerces da nossa sociedade.

O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

[...]

Um texto dolorosamente certeiro de Helena Garrido, no Observador. Convém lê-lo na íntegra

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O «fim» da austeridade, o início das mentiras

por José António Abreu, em 18.10.17

Governo falseou dados das listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde. Entre 2014 e 2016, o tempo de espera subiu, o número de cirurgias desceu. Em 2016, 2605 pessoas morreram à espera de cirurgia.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da Geringonça, recuperado dos tempos de Sócrates, no qual tudo é perfeito, ainda que tenha ser à força. Muitos parecem acreditar que António Costa é, no que respeita ao estilo de governação, diferente do homem que teimou numa ilusão até ao instante em que o dinheiro acabou. Infelizmente, é igual. O roubo de Tancos e os incêndios mostraram amplamente a sua incapacidade para assumir erros, a sua indiferença pelos portugueses (que não pela opinião que os portugueses têm dele) e o despudor com que transforma os próprios correligionários em escudo pessoal (por muitos erros que tenha cometido, a Ministra da Administração Interna poderia ter sido poupada à humilhação de, na prática, se ver demitida pelo Presidente da República). Esta notícia - que certamente não irá incomodar os parceiros da Geringonça, outrora tão vocais acerca de situações menos graves - revela a sua disponibilidade para usar absolutamente todos os truques, de forma a manter as ilusões e se agarrar ao poder. E que possa não ter partido dele a indicação concreta para maquilhar os números pouco importa: em ambientes malsãos, pejados de yes men, nos quais as aparências são tudo, as estruturas fazem o que sentem ser necessário fazer.

Enfim, talvez nada disto interesse no país em que Isaltino é eleito e Sócrates ainda recebe aplausos. Talvez até constitua motivo para felicitações. Num país decente, porém, depois da forma vergonhosa como geriu o caso dos incêndios, seria razão bastante para conceder a António Costa o mesmo género de férias forçadas com que ele presenteou Constança Urbano de Sousa. Em Palma de Maiorca, como quando pretendeu escapar à polémica de Tancos, ou noutro lado qualquer.

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Grau Zero

por Diogo Noivo, em 16.10.17

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Do relatório de investigação ao sucedido em Pedrógão Grande sobrevém uma grande conclusão: o Estado falhou. E falhou clamorosamente. Falharam os responsáveis da Protecção Civil nomeados pelo actual Governo. Faltaram os meios aéreos. Não foi equacionada a retirada de moradores no devido tempo. Foi suspensa a fita do tempo que permite registar as ocorrências e que, por isso, é essencial a qualquer investigação - o que sugere intenções pouco salubres do ponto de vista democrático. Atrapalharam as entidades oficiais e os responsáveis políticos que se acotovelaram no centro de comando. Falhou o Ministério da Administração Interna porque não soube ler os indicadores que pediam a antecipação da Fase Charlie. A lista é longa e penosa.

O fracasso do Estado tem responsáveis técnicos e responsáveis políticos. Os técnicos serão demitidos, mas os políticos mantêm-se aferrados à cadeira, como é fácil de perceber pelas declarações recentes da Senhora Ministra da Administração Interna e do Senhor Primeiro-Ministro.

 

Para avaliar as condições de Constança Urbano de Sousa para manter-se na tutela da Administração Interna o relatório sobra. O facto de se tratar do incêndio mais mortífero de que há memória chega para que a MAI, com ou sem responsabilidades de ordem técnica, abandone o ministério. Se este argumento não convencer, veja-se o comportamento da MAI em relação aos incêndios: no primeiro ano andou em parte incerta até emergir numa festa do social; no segundo ano, com recordes de área ardida e de mortos, a primeira despesa política foi feita pelo Secretário de Estado da Administração Interna, homem que foi literalmente empurrado para fora da fotografia quando a Senhora MAI se deslocou ao terreno. Tanto no primeiro ano como no segundo, passados os momentos de emergência, a ministra desdobrou-se em declarações tão tontas como lamentáveis. A partir daqui, foi o caos. Os serviços do MAI entraram em roda livre e a Ministra mostrou não ter capacidade (e autoridade) para trazê-los à ordem e impor um módico de decência institucional.

 

Ontem o país voltou a arder. Estará a arder como nunca. E há novamente vidas perdidas – o número exacto é um mistério porque às 10 da manhã de hoje a Protecção Civil reconheceu não saber quantas pessoas morreram.

Ontem, em declarações à RTP, a Senhora MAI atribuiu responsabilidades ao clima e aos comportamentos dos portugueses, um povo que teima em não aprender. Já sobre a aprendizagem do Ministério nada disse. Nada há a reportar sobre as lições de Pedrógão. Nada há a dizer sobre o facto da Protecção Civil estar com um comandante interino há mais de um mês. Nada há a dizer sobre a capacidade do dispositivo. O Primeiro-Ministro, à semelhança do que fez quando era autarca de uma Lisboa submersa, entrega o país ao peso do inevitável.

 

A demissão de Constança Urbano de Sousa não deverá ocorrer por força da calamidade dos incêndios, mas sim como consequência da forma calamitosa como geriu (e gere) politicamente o assunto. A permanência de Constança Urbano de Sousa no MAI é uma bizarrice inenarrável que certifica o grau zero do Governo em matéria de segurança interna: falta autoridade, decoro e respeito institucional. Aqui chegados, António Costa não pode assobiar para o lado.

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Entre Orwell e Voltaire

por José António Abreu, em 16.10.17

(...) Costa é pragmático: "Nada é perfeito." Mas tendo em conta que "dos 523 fogos deste domingo 400 foram extintos", há que relativizar e "analisar as coisas como elas são".

 

Relativizemos, então. Relativizemos os pelo menos 75 mortos num único ano. Relativizemos o valor excepcionalmente elevado de área ardida por incêndio, sinal de que a resposta às deflagrações está a ser tardia e incompetente. Relativizemos o facto de já em 2016 os dados terem sido negativos. Relativizemos as regras rígidas (o relatório sobre as falhas do SIRESP menciona a não utilização de um helicóptero que se encontrava a 42 km de distância de um incêndio por o limite autorizado ser de 40 km), o centralismo que tolhe a acção de quem está no terreno (veículos e bombeiros ficam nos quartéis à espera da ordem para avançar proveniente de Lisboa), e a incompetência de quem apenas foi nomeado por ter cartão partidário, tudo indícios não apenas da apropriação do Estado por parte do PS mas da austeridade encapotada que vai destruindo os serviços às populações em prol do rendimento de funcionários e apaniguados. E relativizemos ainda a tendência para a desculpabilização de António Costa (isto quando não se entrega a basófias deslocadas), da sua Ministra da Administração Interna (hiper-competente a afastar responsáveis de organismos suficientemente ousados para emitir pareceres técnicos contestando as posições do governo) e dos parceiros de Geringonça (outrora tão lestos a disparar acusações). Já vimos isto com Sócrates, voltamos a vê-lo com o seu mais perfeito acólito: vivemos no melhor dos mundos possíveis e pretender outra coisa só pode constituir desvio psiquiátrico ou má vontade.

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De Sócrates ao futuro

por José António Abreu, em 12.10.17

1. Há o processo criminal. Esse fica para a Justiça.

2. Há o conluio entre o Estado e grupos privados, quase inevitável num país em que os políticos fazem questão de garantir que o primeiro é indispensável para tudo. As tímidas tentativas de Passos Coelho (que não do PSD) para mudar a situação estão hoje anuladas. Tal como o próprio Passos.

3. Há a cegueira dos compagnons de route, entretanto de regresso ao poder. Ou - acreditando eu não estarmos perante almas ingénuas - os interesses próprios que os levaram a fechar os olhos a todos os indícios. Os mesmos interesses, de resto, que se sobrepuseram aos do país após as eleições de 2015 e levaram à constituição da Geringonça.

4. Há os tiques intervencionistas e autoritários, que António Costa, Augusto Santos Silva, Carlos César, Eduardo Ferro Rodrigues, João Galamba et al - de Catarina Martins, das manas Mortágua ou de Jerónimo de Sousa outra coisa não seria de esperar - mantêm vivos e nem tentam esconder.

Pouco importa; a acreditar nas sondagens, os portugueses apreciam gente oportunista e autoritária. Têm-na tido - e continuarão a tê-la - em abundância. Considerando os resultados de Narciso Miranda, Valentim Loureiro e Isaltino Morais nas últimas eleições autárquicas (16,2%, 19,9% e 41,7%, respectivamente), e a insignificância comparativa dos desvios em que estiveram ou poderão ter estado envolvidos, arrisco-me a extrapolar que o próprio Sócrates ainda poderá ser eleito Presidente da República. Em 2026, talvez. Ou, no máximo, em 2031.

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Lalálalálalála-Lalálalálalála

por Rui Rocha, em 30.06.17

Paiol sem vigilância
Siresp sem antena
Camião sem frio
Kamov que não levanta
Somos assim eu e você

Por que é que tem de ser assim
Se a austeridade já teve fim
Nem mil grilos falantes
Vão falar por mim

Lalálalálalála-Lalálalálalála

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