Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

O ditador Putin e o amigo americano

Pedro Correia, 18.02.25

descarregar.jpg

 

A administração Trump prepara-se para proporcionar hoje, em Riade, um enorme triunfo diplomático à Rússia de Vladimir Putin, que há três anos lançou sobre a Ucrânia um ataque sem precedentes, desencadeando o mais sangrento conflito no continente europeu desde a II Guerra Mundial - com o propósito declarado de riscar o país vizinho do mapa dos Estados soberanos.

Convém lembrar que em Fevereiro de 2022 os blindados de Moscovo chegaram a 15 quilómetros de Kiev. Dissolver as instituições ucranianas, instalar no palácio presidencial um fantoche semelhante ao bielorrusso Lukachenko e eliminar o Presidente Volodimir Zelenski eram os objectivos do ditador russo.

Sem ter feito a menor concessão, graças apenas à benevolência de Donald Trump, Putin vê o novo-velho inquilino da Casa Branca reconhecer-lhe estatuto de líder credível e digno de confiança, indiferente ao facto de haver contra ele, desde Março de 2023, um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional. Indiferente também aos numerosos crimes de guerra cometidos pelas forças russas em território ucraniano. Em cidades-mártires como Butcha, Irpin e Mariúpol

 

Alguns, no conforto da Europa Ocidental, aplaudem. Alheios aos atentados aos direitos humanos cometidos na própria Rússia, onde Putin não hesita em assassinar opositores políticos. Enquanto vão pervertendo a palavra paz, associando-a ao carrasco de Alexei Navalny.

Argumentam que o fundamental é «haver um acordo». Como se fosse possível selar um acordo sobre o futuro da Ucrânia nas costas de Zelenski e com a total ausência de representantes da União Europeia, que nestes três anos enviou 145 mil milhões de dólares em assistência financeira, militar e humanitária a Kiev.

Falando em acordos, vale a pena mencionar duas datas:

5 de Dezembro de 1994. O dia em que foi assinado o Memorando de Budapeste. Honrando este compromisso, a Ucrânia entregou à Rússia todo o arsenal nuclear existente no seu território desde os tempos da URSS, em troca do reconhecimento da sua soberania e da sua integridade territorial. O acordo foi também subscrito por representantes dos EUA e do Reino Unido. Sabemos o que aconteceu depois. Em Março de 2014, Moscovo anexou a Crimeia e instalou governos de fachada, totalmente manobrados pelo Kremlin, nas províncias ucranianas de Donetsk e Lugansk.

12 de Fevereiro de 2015. O dia em que russos e ucranianos assinaram o segundo Acordo de Minsk, com mediação alemã e francesa. Kiev reconheceu a autonomia de Donetsk e Lugansk, em troca da promessa russa de respeitar a integridade territorial do país vizinho e retirar apoio militar aos separatistas. 

Sabemos o que aconteceu depois: Putin não respeitou nenhum dos compromissos. As últimas ilusões dissiparam-se em definitivo a 24 de Fevereiro de 2022.

 

Saia o que sair hoje de Riade, onde a União Europeia não comparece por óbvio veto de Moscovo, valerá coisa nenhuma. De caminho, desonra a administração norte-americana. Que em menos de um mês desde a entrada em funções já demonstrou viver num mundo às avessas: ameaça os históricos aliados de Washington e robustece os tradicionais inimigos dos EUA.

Antigos presidentes norte-americanos como John Kennedy e Ronald Reagan (que defenderam ao limite a "ilha" de Berlim Ocidental cercada por soviéticos como fronteira do mundo livre) e George Bush (que há 35 anos liderou uma coligação internacional, respaldada pela ONU, para libertar o Koweit invadido pelo Iraque) devem dar muitas voltas nas respectivas tumbas.

Dia após dia, Trump anda a trair o legado de todos eles.

Uma nova (des)ordem mundial

João André, 17.02.25

Há menos de duas semanas escrevi um comentário a um post do Pedro onde expressava o meu pessimismo relativamente a Trump e às consequências para Portugal e a Europa. O Pedro respondia que analisava (naquele caso) na perspectiva de cidadão português e expressava optimismo na resiliência europeia. Não voltei à discussão mas talvez uma nova reflexão faça agora algum sentido.

A verdade é que na presente estratégia trumpista (e da Heritage Foundation, que escreveu a estratégia, passo a passo) duas semanas são uma eternidade. Após a visita de Hegseth e Vance e algumas declarações extra de Trump, está neste momento claro qual a visão que a Casa Branca tem para o futuro. E passa por um elemento simples: a NATO é letra morta.

Primeiro vieram as declarações de Hegseth (segundo algumas notícias, algo diluídas da brutalidade inicial), que a Europa não mais seria o foco dos EUA, assim explicando que a defesa da Europa estaria a cargo dos Europeus, caso isso não fosse claro. Depois chegou Vance, que se apresentou numa conferência sobre segurança, falou durante 18 minutos sem tocar no tema, atacou a democracia europeia, demonstrou menosprezo pelo continente, foi embora assim que terminou, recusou reunir-se com o chanceler alemão sob o pretexto de não ir ficar no cargo muito mais tempo, e reuniu-se com a extremista líder da AfD que não tem a menor hipótese de ser eleita chanceler. De permeio surgiu uma declaração de Trump himself em que dizia querer procurar um processo de desnuclearização juntamente com China e Rússia. Por fim, há o facto de Trump querer ir debater o futuro da Ucrânia com Putin sem levar os ucranianos ou europeus em conta.

Ignorando o modo e focando-nos no conteúdo das mensagens, vemos aqui um tema essencial: os EUA vão dar prioridade a um mundo onde "might is right" ou, se quisermos, da lei do mais forte. Trump, já o sabemos, vê a política como transacional. Se não existe um quid pro quo - um toma lá dá cá em bom português - ele não está interessado. Trump quer portanto negociar com Putin, terminar a guerra, recuperar os recursos que puder, e deixar os ucranianos e europeus entregues a si mesmos. Note-se que nesta negociação Trump já disse que os ucranianos não podem esperar entrar na NATO nem recuperar as fronteiras de 2014 o que, mesmo que seja realista, é uma posição bizarra para iniciar negociações.

Excepto quando olhamos para o interesse de Trump: que quer ele em troca? Recursos minerais. O futuro da Ucrânia não lhe interessa, já que ele quer apenas e só acesso aos recursos do país. Já disse a Zelenskií querer condicionar ajuda futura ao acesso aos depósitos minerais em terreno ucraniano (especialmente terras raras, lítio, urânio, etc.), os quais estão parcialmente em territórios controlados pela Rússia. Disse inclusivamente que quer "tomar posse" de 50% desses recursos, como se fosse um extorsionista mafioso a dar a volta por Manhattan no início do século XX a exigir dinheiro em troca de protecção. Desta forma a sua posição ideal será a de "oferecer" à Ucrânia protecção em troca de pagamento e oferecer à Rússia o levantamento de sanções (e reentrada nos palcos internacionais) em troca de acesso aos restantes minerais (que obviamente se manteriam em mãos russas). O resto - reconstrução do país, defesa das fronteiras, defesa europeia - fica nas mãos de quem lá vive. O próximo passo será certamente a remoção de bases do continente. Se as eleições alemãs não correrem de forma que lhe agrade, as bases no país poderão muito bem ser as priemiras.

E quanto à desnuclearização? Do ponto de vista de Trump não faz sentido ter tantas armas nucleares quando existe redundância. Sendo uma mente que não entende subtileza, não percebe que as armas não foram todas criadas iguais e que muitas delas existem não para criar destruição mas para garantirem a possibilidade de retaliação ou "priemiro ataque" (First Strike). Se puder reduzir o arsenal nuclear, certamente que o irá fazer removendo muitas das armas do território europeu, assim ainda mais abrindo o flanco no continente. Além disso, um acordo deste género seria uma aceitação tácita que EUA, Rússia e China seriam as única potências internacionais e que cada uma teria a sua esfera de influência, na qual os EUA não interefeririam desde que possam beneficiar economicamente. Num tal cenário de desnuclearização (e note-se que a China provavelmente não reduziria o seu arsenal, antes o aumentaria para um nível semelhante ao americano e russo) os riscos de um conflito nuclear não diminuiriam (talvez se abrisse a possibilidade de vitória, algo impossível actualmente) e os riscos de conflito convencional seriam talvez superiores. E as probabilidades de China invadir Taiwan, EUA invadir Panamá e Gronelândia (o Canadá já duvido), e Rússia continuar a sua expansão para Oeste seriam muito elevadas.

E no que ficamos na Europa? Bom, como o Pedro diz noutro comentário no post, abre a possibilidade para a Europa finalmente fazer aquilo que já deveria ter feito há décadas (e perdeu a oportunidade de fazer no período de Trump45) e criar um sistema de defesa europeu. Isto não significa simplesmente aumentar os gastos em defesa. Significa também criar todo um sistema para poder sustentar a defesa. Diz-se habitualmente que o Pentágono tem a maior burocracia do mundo mas, mesmo que seja excessiva, é indicativo daquilo que a Europa tem que construir. Tem que criar um conceito, um sistema de liderança, de harmonização entre as diferentes forças armadas europeias, uma burocracia, processos de investigação e desenvolvimento, fomentar a indústria de armamento europeia, criar processos de compras de equipamento (não só de armas mas também de material extra - tendas, rações, roupas, veículos, etc.) e implementar uma forma de treinos conjuntos e criação de doutrinas conjuntas. Tudo isto é uma oportunidade, mas também demora muito tempo, custa capital financeiro, político e humano. E é muito difícil de vendar a uma população a quem não se é sincero sobre os problemas reais.

E o capital financeiro traz-me a um ponto no qual discordo algo da posição do Pedro. Ele escreveu a certo ponto «a Europa resistiu a um milénio de guerras violentas, epidemias mortíferas, catástrofes de todo o género» no que dá a entender que a resiliência europeia pode resistir a tudo isto novamente. Nisto deixo as minhas reflexões: a "Europa" não sovreviveu a nada disso. A "Europa" não existia, era um aglomerado de reinos, impérios, terras vistas como bárbaras, múltiplas religiões (que mesmo quando cristãs não impediam o morticínio) e era, essencialmente, o território menos interessante do mundo conhecido. A Europa é uma zona geográfica com pouco interesse. Não é particularmente fértil, rica em minerais, recursos naturais de outros tipos (madeira, especiarias) e tem pouco espaço disponível. É por isso que não era tão invadida como o Norte de África ou a Ásia. Tudo mudou com o período de conquistas ultramarinas (aquilo a que se chama habitualmente de "Descobrimentos") e expoliação dos recursos locais. Com o fim da época colonial, sem o guarda-chuva americano, sem recursos naturais significativos, sobra apenas o avanço tecnológico que o continente ainda tem sobre a maioria do mundo e a sua população (que é provavelmente a mais educada).

Como avançar? Sinceramente, o facto de não termos muitos recursos naturais poderá ajudar, dado que Putin não terá interesse no território europeu. O seu interesse expansionista está em obter os territórios que ele reclama serem "historicamente russos" (na mesma lógica com que Portugal poderia reclamar Angola como "historicamente portuguesa") e em criar zonas tampão entre a Rússia e uma região que lhe seja hostil. Aqui, se Trump criar realmente um mundo de esferas de influência onde a Europa seja ignorada, Putin poderá de facto ter pouco interesse em invadir muito mais. Ainda assim, o melhor cenário talvez seja os Europeus regressarem a África, desta vez sem se darem a poses ou atitudes sobranceiras, e criar parcerias reais e honestas. A Europa poderia obter os recursos e a África apoio para o seu desenvolvimento económico, humano, e tecnológico. A tal oportunidade de que o Pedro falava.

O problema é o que acontece até lá. A união na Europa é ténue - para ser diplomático - e será difícil ver Orbán, Meloni, Wilders, potencialmente Le Pen, Fico, e outros a apoiar tais acções. Por outro lado, imaginando que de facto a Europa decidiria colocar tropas na Ucrânia, que aconteceria quando Putin atacasse? Talvez nem atacasse as forças europeias, apenas as ignorasse e atacasse as ucranianas. Que fariam os europeus? Responderiam? Atacariam território russo? Fariam como as tropas neerlandesas em 1995 em Srebrenica? E se as forças europeias fossem atacadas directamente? Que fariam sem a ameaça do envolvimento americano? Alguém julga que Trump sancionaria uma resposta americana à invocação do famos artigo 5 do tratado da NATO?

Por isso me mantenho pessimista. Trump não quer saber e deixou-o claro. Talvez esteja a esperar um pouco antes de apertar ainda mais porque não tem o seu gabinete completamente formado, mas não irá tardar muito. Os EUA irão recuar dos palcos mundiais e concentrar-se-ão apenas no seu quintal (continente americano) e no que poderão obter economicamente. O resto do mundo que trate de si. Não discuto aqui se isso faz sentido para os EUA embora aminha opinião seja fácil de discernir, mas apenas nas consequências. Os EUA a controlar América do Norte e do Sul, China a controlar o sudeste asiático e parte de África, Rússia a controlar a Europa de leste, parte do Médio Oriente e algumas zonas de África, e restos para países/regiões como Índia, Europa e quem mais o conseguir.

A saída para isto estará nos EUA e na capacidade dos americanos de evitarem tal destino (que lhes seria adverso), mas da forma como as coisas avançam, não sei se Trump e o seu aparelho lhes dará essa escolha. Só que isso é assunto para outro post e este já vai longo demais.

Quem brinca com o fogo pode queimar-se

Pedro Correia, 23.01.25

PanamaCanalSSAncon1914FirstShipThru2-730x410.jpg

Abertura do Canal do Panamá, em 15 de Agosto de 1914

Donald Trump não perdeu tempo: no próprio discurso da tomada de posse, na segunda-feira, deixou bem claro que pretende repor o Canal do Panamá sob a tutela de Washington. Alegando que é uma obra de engenharia dos EUA, que de facto assumiram entre 1904 e 1914 a edificação desta rota marítima artificial entre o Mar das Caraíbas e o Oceano Pacífico por onde hoje circula cerca de 6% do comércio mundial. Mas não é menos verdade que Washington abdicou voluntariamente do exercício da soberania no canal em 1977 com a assinatura dos tratados Carter-Torrijos, que concediam à República do Panamá a plena jurisdição da zona a partir de 1999, como veio a acontecer.

O novo-velho inquilino da Casa Branca parece mesmo disposto a mandar às malvas o direito internacional, tal como aconteceu com o ditador russo ao ocupar parcelas da Ucrânia. Será que isto legitima a partir de agora também a França e o Reino Unido a "reconquistarem" o Canal do Suez, inaugurado em 1869 e nacionalizado pelo Governo egípcio em 1956 apesar dos protestos de Paris e Londres?

Já que o mapa geopolítico anda a ser "redesenhado", perante o aplauso de uns quantos, convém não deixar o Suez de fora. Até por ali fluir cerca de 12% do comércio internacional - dobrando a percentagem do Canal do Panamá.

Este é o problema de quem semeia ventos: deve preparar-se para colher tempestades. O efeito de contágio é fatal: basta o rastilho de uma fogueira para que ela se multiplique por cem ou mil. E há sempre a hipótese de os tiros fazerem ricochete - mesmo que por enquanto não passem de tiros verbais.

Gronelândia, Canadá e Panamá

Paulo Sousa, 11.01.25

Trump comporta-se tal e qual, mas mesmo tal e qual, como um grunho boçal. As parecenças são tão grandes que é fácil concluir que muito provavelmente será realmente um grunho boçal.

Com os anos que já levo disto, já me cruzei com outros grunhos boçais bem sucedidos. Digo isto salvaguardo a óbvia diferenças da escala de comparação entre uns empresários/proprietários tugas e um empresário/proprietário norte-americano que mais tarde se tornou Presidente dos EUA. Mas um grunho boçal, independentemente da respectiva escala, nunca deixará de ser grunho boçal.

Por vir a propósito, remeto nesta altura ao excerto da maravilhosa canção “O Desafinado" de João Gilberto, em que ele diz: “o que você não sabe nem sequer pressente, é que os desafinados também têm coração”. Não trago isto à conversa por me preocupar minimamente com os assuntos de coração do presidente de turno dos EUA, mas aceito que mesmo um grunho boçal pode saber mexer-se numa mesa de negociações.

A velha ordem liberal, que desde o fim da 2GM nos trouxe até à actualidade, está realmente velha. Desde há algum tempo que potências suficientemente poderosas apostam todas as fichas em acabar com ela para depois redesenhar as novas regras do jogo. Os EUA, enquanto lideres da velha ordem, poderiam reagir a esta ofensiva de duas formas, ou recorriam às regras ainda em vigor, assentes no direito internacional, algo que as potências desafiadoras pouco consideram, ou poderiam ir a jogo e mostrar que se a parada subir têm algo a dizer.

Podemos resumir o mandato de Biden, que entretanto termina, como uma tentativa de pôr em prática a primeira opção. Os resultados nem foram satisfatórios para o mundo, nem dissuasores para as potências desafiadoras. Como é que então se poderia concretizar a segunda?

A China ambiciona dominar Taiwan, e a Rússia quer a Crimeia e o Donbass, então e se os EUA passarem a dominar o Árctico, o acesso deste até ao Atlântico, as terras raras do subsolo da Gronelândia e o atalho navegável entre as duas Américas? Como disse, à luz da velha ordem este não é um cenário razoável, mas, e aqui lanço o desafio de nos colocarmos nos pés das potências desafiantes, será que valerá mesmo a pena avançar para um jogo em que se troca uma pequena ilha, uma província ucraniana e uma península de um mar interior, por uma mão cheia ases e manilhas de naipes valentes? Não duvido que nesta altura do jogo a última coisa que as potências desafiadoras desejavam era terem de defrontar um jogador imprevisível com fama de não recear paradas altas. A grunhice e a boçalidade são dois passarinhos a voar no canto da fotografia.

Geopolítica de balcão - II

Paulo Sousa, 29.04.22

- A Rússia de Putin ou nos manda todos para o galheiro, ou então não tem salvação. 
- Oh Bruno, traz mais duas mines.
- Ou morremos todos, ou aquilo fica entregue aos Kadiroves desta vida. Aquilo é malta que tropeça em ogivas nucleares e há lá uns que até se pintam de as poder vender aos amigos do Allahu Akbar.
- Pois, se calhar é!
- Sabes que um dos problemas destes líderes lunáticos, não é o único, mas é um dos, é a sucessão.
- Queres tremoços?
- A seguir ao gajo, quem é que toma conta daquela capoeira?
- Viste o jogo do Porto?
- É que aquilo são cento e quarenta e tal regiões autónomas e republicas e nunca mais se entendem. Até o Japão já anda a reclamar una calhaus no meio do mar.
- Queres Sagres ou Super Bock?
- Sagres!

Geopolítica de balcão - I

Paulo Sousa, 07.04.22

Depois de na pandemia todos termos descoberto a nossa costela de epidemiologistas de bancada, agora, durante a guerra curso na Ucrânia, qualquer um de nós pode, de barriga encostada ao balcão, debitar teorias geopolíticas e projectar o mundo pós-conflito ucraniano.

Assim, enquanto trinco um palito, cá vai:

A Ucrânia em troca da paz possível, terá de ceder território. Olhando para como tem decorrido a guerra, Odessa poderá ficar como o único acesso do país ao Mar Negro. Será que as tropas russas, estacionadas há décadas na Transnistria, poderão pressionar o flanco ocidental deste porto ucraniano? Perante esta possibilidade, e dada a sua falta de continuidade territorial com a Rússia e as naturais dificuldades logísticas que isso acarreta, como reagiriam as autoridades moldavas? Aproveitariam a oportunidade para recuperar o controle do território que lhes é internacionalmente reconhecido?

Sobre o que não há dúvidas é que a Rússia já está e sairá desta conflito diplomática e economicamente isolada, e isso vai perdurar durante muito tempo. Não sabemos como é que o regime de Putin irá envelhecer, mas sendo ele um septuagenário, mais ano menos ano, vamos todos recordar mais uma vez que um dos problemas das lideranças fortes é exactamente a sucessão. Em qualquer cenário, a dependência russa do vizinho chinês irá acentuar-se.

A U.E. vai investir fortemente na reconstrução ucraniana e sofrerá a tentação de fazer vista grossa ao cumprimento dos princípios de estado de direito como critério de adesão, sem esquecer que a Turquia já deu sinais de que a sua própria adesão poderá regressar a breve prazo à mesa diplomática.

A defesa europeia será um assunto a que nenhum estado-membro se poderá furtar e o Serviço Militar Obrigatório irá passar a fazer parte do glossário dos jovens europeus.

Quem terá a chave do jogo não serão os EUA nem a U.E., mas sim a China. A minha aposta vai no sentido de que Xi Ji Ping nunca permitirá que Putin se aproxime dos botões nucleares. A necessidade de crescimento económico por parte do regime chinês, assim como a vontade de manter uma imagem global de respeitável parceiro e de convicto cumpridor da ordem mundial, nunca o permitiriam. Arrisco até a dizer que o cenário que mais agradará aos chineses será aquele em que o mundo fique a acreditar que foi a China que nos salvou a todos de uma catástrofe nuclear. Nessa linha, o cenário do pós-guerra será favorável aos chineses, pois além do reforço reputacional, o seu ascendente na Eurásia será inegável. Ao permitir-se manter um rottweiler a este, e outro a oeste, com a Coreia do Norte e a Rússia pela trela, a China poderá assustar toda a sua alargada vizinhança quando bem entender, sem que tenha de deixar de negociar respeitavelmente com todos.

Agora vou ali beber mais uma mini e pedir para encherem o pires dos tremoços.

- Oh Bruno!!

ADENDA

E mais outra.

A chamada Primavera Árabe iniciou-se em Dezembro de 2010 numa manifestação de desespero de um tunisino perante a subida dos preços dos cereais, que o impedia de conseguir alimentar a respectiva família. Para quem se der ao trabalho de recuar na linha do tempo que antecedeu esta revolução, procurando uma razão para tais subidas de preços, irá notar que no Verão desse mesmo ano extensos incêndios na Rússia destruiram 25% dos seus campos de cultivo de cereais.

Podemos a partir daqui projectar o que se irá acontecer nas regiões mais pobres do mundo?