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Delito de Opinião

Maldita Gente Má

jpt, 25.05.25

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Resha'im Arurim (Maldita gente má) - é uma imprecação celebrizada do folhetim televisivo Shtisel.)

Consciente de que o bater das minhas asas de borboleta não iria amainar o furacão em Israel, prometi-me não blogar sobre aquilo. Deixei apenas o postal “Are you out of your fucking mind?” em 4.11.23, face à desvairada reacção israelita ao miserável atentado sofrido. Ponto final parágrafo.

Mas posso falar sobre Portugal. Neste nosso país, atrapalhado por várias coisas, entre as quais a estridente cacofonia dos mariolas comentadeiros - alguns deles germinados na velha "blogosfera" mas não só - ainda há um ou outro "intelectual público" que justifica seguir. Entre esse reduzido núcleo realça-se António Barreto, que segue qual nosso "fio-de-prumo" - e cujos textos de opinião em jornal são sempre transcritos no blog Sorumbático.

Após estas eleições lembrei-me dele, por duas razões de curto prazo:

1. A primeira pois na véspera da votação ele publicara no “Público” este “Lembretes”. No qual sublinhou que durante a campanha nenhum partido elaborara sobre política externa, denotando a vacuidade em que vegetam, concluo eu…

Nesse texto foi cristalino sobre a situação em Israel. E não lhe foi preciso embrulhar-se com um cachecol a la palestiniano:

Os movimentos Hamas, Hezbollah, Estado Islâmico ou Daesh, Hutis e outros grupos terroristas, assim como alguns Estados da região, seguramente o Irão e parte do Iémen, declaram expressamente que lutam pela liquidação do Estado de Israel e pela expulsão dos Judeus ou Israelitas da região. Nunca o esconderam. Nunca usaram subterfúgios ou metáforas. Por isso Israel tem todo o direito e dever de lutar pela sua vida e pela sobrevivência. Após as agressões de 7 de Outubro de 2023, Israel decidiu justamente retaliar. Tratava-se de punir os agressores, recuperar os reféns e sobretudo derrotar o Hamas. Ao fazê-lo, Israel decidiu também agredir apoiantes do Hamas, seja o Líbano e o Irão, seja o Iémen e a Síria, ou ainda o Hezbollah e outros terroristas. A ofensiva israelita atingiu dimensões e natureza totalmente desproporcionadas, configurando mesmo uma intenção deliberada para eliminar todas as expressões políticas dos palestinianos na região, em particular na Cisjordânia e em Gaza. As cidades arrasadas e mais de 50.000 palestinianos mortos configuram um massacre de população absolutamente inaceitável que nem sequer o argumento de sobrevivência de Israel justifica. Outros meios e outras acções haveria para atingir os mesmos fins. (…)”.

Isto é-me mais significativo após as eleições. Quanto tantos (e até eu) resmungam(os) contra o enorme painel de deputados eleitos do CHEGA, justificadamente previstos como desprovidos de bom-senso e cultura, e até de educação, que lhes permita exercer funções políticas com um mínimo de pertinência.

Ora acontece que entre os milhares das minhas ligações-FB (os ditos “amigos”) consta um deputado do PSD, Carlos Reis, que decerto não será excêntrico ao sentir geral das suas hostes. Este, em plena campanha eleitoral, fez-se publicar um longo e enfático ditirambo dedicado a Israel e seu rumo actual. Fazendo "tábua rasa” de quaisquer preocupações humanitárias ou políticas. Certo que concede dever Israel atentar nas condenações internacionais que vem sofrendo, mas… deriva para considerar que tem aquele país muitas justificações para o que anda a fazer. E não deixa de arrolar, em prol da política israelita, vários argumentos entre os quais - sabe-se lá porquê - os peculiares padecimentos dos homossexuais nos países vizinhos (talvez não em Gaza, pois aí estão mesmo é a ser bombardeados). É esta uma pobreza de irreflexão e de insensibilidade. E foi elevada a parlamentar.

Enfim, esta é a qualidade e a mundividência do pessoal político que nós elegemos. E em vez de andarmos a querer lapidar (ou mesmo “a matar” como clamava um comentadeiro televisivo) os do CHEGA seria melhor educar os dos partidos democráticos. Ou seleccioná-los melhor.

Imagem de Rumo à Liberdade

2. A segunda razão é por ter visto esta semana na RTP os dois episódios do documentário “Rumo à Liberdade” de António Barreto. (Podem ser vistos na RTP Play: 1 (52 minutos)2 (55 minutos). O primeiro apresenta o estado do país no ocaso do Estado Novo. O segundo é sobre a revolução de 1974 e o processo subsequente. Um programa excelente. Um registo pausado, texto equilibrado - não é um panegírico celebratório -, bela selecção de arquivo filmíco.

Diante desta mole de um 1 milhão e 300 mil votantes na auto-reclamada “direita” - de facto uma extrema-direita polvilhada de explícitos saudosistas do Estado Novo e do Império colonial - não se a deve reduzir a uma amálgama de “fascistas”.

Mas seria positivo mostrar-lhes a miséria e a vilânia, a repressão, a corrupção, a ignomínia colonial que reinavam no país - dissecadas no primeiro episódio deste documentário. Pois é dessa infecta situação de que esses seus deputados CHEGA agora eleitos têm saudades. Como o mostram nos seus estuporados, anacrónicos, revanchistas clamores contra os “abrileiros”.

O país não melhorará com essa tralha de gente, esta “Maldita Gente Má”. E também não com a gritaria falsária do “isto são 50 anos de corrupção”, um “dantes é que era bom”. Ir por aí (como tantos estão a ir) não será mais do que isto:

La cigarra que vota al insecticida, una fábula política brasileña aplicada  a España

Mas será que as gerações mais novas terão paciência para pausados documentários com episódios de cerca de uma hora?

Obsceno

Pedro Correia, 27.02.25

Este vídeo que o novo-velho inquilino da Casa Branca partilhou na sua rede digital sobre Gaza "reconstruída" e transformada na putativa "Riviera do Médio Oriente" só merece um qualificativo: obsceno.

Obscena, a visão mercantilista do esbulho programado e glorificado.

Obscena, a concepção neocolonialista da administração norte-americana, cobiçando eventuais lucros futuros à custa da martirizada população palestina, que - Trump dixit - deve ser «expulsa» para outras paragens. 

Obscena, a fita «gerada por inteligência artificial» de um Elon Musk emulando o cocainado Leonardo di Caprio no filme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Lançando ao ar muitas notas de dólar, símbolo supremo do domínio sobre os indígenas, tributo despudorado ao deus-dinheiro.

Obscena, enfim, aquela estátua de Donald Trump banhada em ouro. Que logo associamos ao bezerro de ouro imortalizado na Bíblia.

Êxodo, 32: «Todos tiraram as argolas das orelhas e levaram-nas a Aarão. Ele recebeu tudo aquilo, deitou o ouro num molde e fundiu um bezerro de metal. E todos exclamaram: "Povo de Israel, aqui tens os teus deuses, que te fizeram sair do Egipto!" Quando Aarão viu isto, construiu um altar em frente do bezerro e disse em voz alta: "Amanhã haverá festa em honra do Senhor. No dia seguinte, de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de acção de graças. O povo sentou-se a comer e a beber e depois começaram a divertir-se.» 

Versículos que estes alegados cristãos embalados pela embriaguez da suposta lei do mais forte parecem desconhecer por completo. Ou escarnecer deles, na alucinada vanglória que se apossou deles desde 20 de Janeiro.

Israel e Gaza: Are you out of your fucking mind?

jpt, 04.11.23

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Resha'im Arurim (Maldita gente má) - é uma imprecação celebrizada do folhetim televisivo Shtisel

Não sou muito versado em línguas bárbaras, imunes ou demasiado afastadas do latim - ainda que por vezes com este algo mescladas. E detesto a mania dos estrangeirismos - os anglicismos de agora, os galicismos de antanho -, que sendo uma arrivista estratégia pessoal de "distinção" é também, o que é muito  pior, uma estratégia empresarial de obscurecimento de realidades lesivas dos incautos monoglotas - e que melhor exemplo actual desse aldrabismo do que o uso  bancário do termo "spread"?

Mas ainda assim há momentos em que termos ou expressões idiomáticas se impõem, pelo seu conteúdo ou ênfase tornando-se inultrapassáveis para descreverem alguma realidade insuficientemente descrita pela nossa língua. Por exemplo, alguém poderá compreender a política do primeiro quartel do XXI português sem utilizar o galicismo - de origem norte-americana, ao que consta - "bobo" (bourgeois-bohème)?

Vem-me isto a propósito da situação em Gaza. Não tenho grande apreço pelas teorias conspiratórias - e contra elas sempre me procuro disciplinar. Seja como for, a verdade é que naquele Israel, um nicho com um quarto do tamanho do "pequeno" Portugal, se congregam as atenções de imensa Resha'im Arurim, essa maldita gente má. Residentes, vizinhos. E poderosos "influencers", mais um anglicismo aproveitável. Pois não recuso a hipótese de que o inopinado ataque aos israelitas não teve como única causa o exaspero da teodiceia fascista do Hamas. Deixo aos especialistas - que são muitos - levantar as hipóteses da influência no acontecido daquele mudo conflito (extra-futebolístico) entre Catar e Arábia Saudita. E da coalizão multicultural entre Teerão e as estepes siberianas, estas envoltas num longínquo e atabalhoado guerrear. 

Mas para além de tudo isso - ou melhor dizendo, também por causa de tudo isso -, ao assistir-se a esta "operação militar especial" de Israel na Faixa de Gaza um tipo  só pode perguntar, invectivar, às gentes israelitas "Are you out of your fucking mind?" - pois não há em português expressão com celsitude e ênfase comparáveis.