Uma ladainha de fim de 2025
E assim chega o ano ao fim. Não foi para mim um bom ano, por diversas razões. Tive anos com acontecimentos piores, mas este ano fica-me na memória pela permanência de coisas más, desagradáveis, que sucederam, a mim ou em geral, pelo mundo. Não foi um ano de matar, mas de moer. Muito fino.
E no entanto, pessimista ou realista que sou - o tempo dirá qual - temo que seja apenas um prenúncio do que virá ou até mesmo um ponto alto. Já se tornou quase comum referir que as actuais gerações mais jovens serão as primeiras a ter uma vida pior que a dos pais. Isto certamente depende de onde se vive, mas em geral, pelo mundo, poderá ser verdade. E no entanto mesmo isso poderá subestimar aquilo que o futuro nos reserva a todos. Não quero ser exaustivo, porque não quero tornar esta entrada num testamento e, estando a escrever sensivelmente ao meio dia, quero acabar antes da meia noite. Deixo no entanto uma lista de assuntos que me tornam tão... céptico em relação a melhoras no futuro.
- A Guerra na Ucrânia. Está claro que Trump não irá ajudar a Ucrânia, no máximo irá vender-lhes armas a troco de acesso aos seus recursos, inaceitável para países que não estão entre a espada e a parede. E está também claro que a Europa não pode, nem quererá, assumir a defesa do país. O urso russo poderá acabar a engolir o seu vizinho, em forma de anexação ou à la Bielorússia. Nenhum dos casos será bom para a Europa.
- O Médio Oriente. O cerssar-fogo é apenas isso, um cessar fogo, e de pouca consequência quando continuam a surgir notícias sobre ataques israelitas ou do Hamas. E quando a Cisjordânia continua a ser alvo de tentativas de limpeza étnica. A região não mudará tão cedo.
- O Mundo está perigoso. Simplifico isto deixando a ligação para o post do Pedro de há 4 dias. Acrescento apenas: Sudão, onde os maiores massacres actuais continuam a suceder-se uns aos outros, com o sangue a ser visível do espaço. Iémen, onde a guerra continua há mais de uma década. Note-se que Sudão e Iémen são também locais onde as carbopotências da região gostam de lutar umas com as outras, mas claro, com o sangue de outros, especialmente de civis. E a isto ainda veremos um potencial conflicto entre Egipto, Sudão e Etiópia, devido à construção de barragens no Nilo.
- A Inteligência Artificial. A corrida ao ouro da IA é neste momento aquilo que em inglês se pode designar por pie in the sky, algo que os seus proponentes dizem prometer tudo, mas que para já só está a entregar dinheiro às empresas que vendem as pás e picaretas. E mesmo aqui poderemos ter actividades tão complexas que qualquer falha pode trazer todo o castelo de cartas para o chão. E, mesmo que tudo corra perfeitamente, fica depois a questão de para que servirá, uma vez que teríamos a IA a trabalhar com a IA, para usar IA, para servir a IA. Dinheiro seria irrelevante, só o poder interessa, e esse poderá estar concentrado num grupo excepcionalmente pequeno de indivíduos.
- Bilionários. Temos um que está a bom ritmo para se tornar o primeiro bilionário da história em terminologia portuguesa (significa, um bilião de dólares, ou em inglês, on trillion dollars). Isto é obsceno seja lá qual for a lógica que se aplique. Se a besta lá chegar, a sua fortuna (teórica, que isto é sempre teórico) poderia gastar mil dólares por minuto e demoraria quase 2 mil anos a gastar a sua fortuna. Se colocasse essa fortuna num monte de notas de 100 dólares, faria uma pilha de mil quilómetros de altura. E ele é só a figura mais obscena. O mundo não está melhor com tal concentração de dinheiro e mesmo Hayek (Friederich, não Salma, que é casada com um deles) provavelmente daria voltas no túmulo.
- Trump. Sejamos claros: os EUA são a maior potência económica, militar, e cultural do mundo. A deriva que aquele monte de esterco está a causar para um sistema autoritário, focado em homens brancos cristãos, só irá piorar quando a sua Gestapo privada, a ICE, aumentar o seu orçamento de tal forma que apenas 16 forças armadas no mundo inteiro terão orçamentos mais elevados. E isto em cima da corrupção a nível industrial (literalmente) que ocorre hoje em dia de forma quase diária. E ninguém se iluda, isto não mudará em Novembro. Os Republicanos encontrarão uma forma de evitar perder o Congresso.
Quanto a mim? Sendo Engenheiro Químico, trabalho numa indústria que está a deixar o continente e onde metade das posições que aparecem são ou comerciais ou na área da IA. As coisas não aparentam estar melhor para o futuro. Do ponto de vista pessoal poderiam andar melhor, mas não me posso queixar excessivamente, há muito quem esteja pior, como se prova com os milhares que ariscam a vida para vir para este continente.
Por isso não festejo muito o novo ano, tal como não lamento aquele que termina. Fazemos o que podemos, e esperamos que as coisas melhorem. Talvez uma esperança de tolos.
A quem aguentou a ladainha de lamentações, os meus agradecimentos e votos que, pelo menos em algumas coisas, eu esteja errado. Aos outros, uns simples e costumeiros votos de Bom Ano Novo e tudo de bom para 2026.
PS - e eu que me queixava de Pulido Valente e outras carpideiras. Não sei se é da idade, mas estou a tornar-me neles.




