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Delito de Opinião

O futuro já não é o que era

Pedro Correia, 20.05.21

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O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Esses dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura.

 

Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial.

A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.


“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho.

World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráqueos para satélites artificiais da Terra.

 

Esse tempo terminou.

A World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.

Um ponto de situação

Paulo Sousa, 13.05.21

Soube hoje pelo Contra-Corrente de José Manuel Fernandes na Rádio Observador, que a EU estima que dentro de vinte anos - que será aproximadamente quando a geração que nasceu com o actual regime político se começar a reformar - o valor das pensões será de cerca de 54,5% do último salário. Poucos anos depois este valor será reduzido para 48,2%, sendo actualmente de 74%. Se nos lembrarmos que estes valores são calculados sobre uma base salarial que já é baixa, será fácil antecipar uma subida significativa da pobreza no país.

Este é um assunto que é abordado com alguma frequência, mas não mobiliza vontade política suficiente para que sejam feitas reformas efectivas. O envelhecimento da população, que resulta de uma natalidade insuficiente, assim como de um aumento da longevidade, leva que este assunto se compare a uma bomba relógio, pois sabemos que irá explodir, só ainda não sabemos é quando.

A insuficiência da natalidade leva também a que os jovens tenham cada vez menor peso eleitoral, e isso acentua a dificuldade em tomar medidas para resolver este problema. Já aqui escrevi sobre isto, e de facto o futuro está demasiado ausente das escolhas política.

Soube, através do blog Tempo Contado de José Rentes de Carvalho que, na polémica Hungria e perante problemas da mesma natureza, os casais com quarto filhos ou mais estão total e vitaliciamente isentos de IRS. Esta é uma medida do género das que trocam impacto financeiro imediato nas contas públicas, por longevidade ao sistema. Abdica-se da disponibilidade no curto prazo em troca de um benefício futuro. É claramente um investimento. Dirão que cá não existe disponibilidade orçamental para uma coisa destas, mas bem sabemos que esse não é o ponto, pois dinheiro na mão da imensidão dos organismos do estado é o que não falta.

Os municípios nunca tiveram tanto dinheiro. Têm sido construídas vastidões de tretas sem jeito. São pontes pedonais, miradouros, ciclovias, baloiços ‘instagramáveis’, passadiços, rotundas, pavilhões multiusos, obeliscos, entre muitas outros devaneios com a desculpa de que é necessário desterroar os fundos europeus. Aqui em Porto de Mós, o anterior executivo municipal apostou o Joker dos fundos UE num arquivo municipal. Ao arquivo acrescentou um museu não comparticipado. Contas feitas o que afinal deixou foi apenas uma obra entregue a uma empresa falida e que cinco anos após o lançamento da primeira pedra ainda continua em bolandas.

Por motivo de rotina familiar, frequento a piscina municipal da Batalha. É óptimo que este tipo de infraestrutura exista também fora dos grandes centros, mas a realidade é que não é invulgar estarem no edifício mais funcionários do que utilizadores. Cada vez que não consigo deixar de ignorar o que está à frente dos olhos, lembro-me que existem no país quase trezentos municípios, que a pobreza aflige um quinto dos portugueses e que um terço dos pobres têm emprego.

E estamos assim.

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 15.03.21

Jovem do futuro,

Já te falei sobre termos sido durante umas semanas o pior sítio do mundo. Em cada dois minutos um português morria com covid. Esta tragédia fez do nosso país notícia em todo o mundo. Ao contrário do que ocorreu nas primeiras semanas da pandemia, desta vez a solidariedade europeia manifestou-se.

A força aérea alemã, a Luftwaffe que no passado espalhou o terror, desta vez enviou para Portugal médicos, enfermeiros e ventiladores. Traziam também uma mensagem do governo alemão: “É para isto que servem os amigos”. Os nossos governantes, que estavam preocupados apenas com os seus jogos de poder imediatistas, não conseguiram esconder o embaraço. A chegada de ajuda internacional era a confirmação do que já sabíamos, de que estávamos em mãos incapazes e arrogantes. Responderam que aceitavam a ajuda e que era apenas simbólica, e sem entendermos porquê não os deixaram entrar nos hospitais públicos. Quem sofria ao ver tantos de nós a tombar, sentiu vergonha pela soberba dos indigentes e aprendeu em silêncio a dizer Vielen Danke Deutschland.

Os nossos governantes que estavam apenas serodiamente preparados para passear o rótulo das tutelas que lhes distribuíram, e que nunca pensaram que alguma vez teriam de tomar decisões, andaram perdidos. Também já te falei disso. Desataram a levantar proibições e tomaram-lhe o gosto. Entusiasmaram-se com o super-poder que o vírus lhes trouxe e, sem explicação nem propósito, proibiram a venda de livros. As bibliotecas e as livrarias foram forçadas a fechar as portas.

Quem estava infectado perdeu o olfacto mas mesmo quem não estava deixou de poder sentir o aroma dos livros das livrarias. Eu gosto de cheirar os livros, e quem gosta de livros sabe bem do que estou a falar.

Desde há uns anos os livros começaram a ser vendidos entre as batatas e as garrafas de vinho nos hipermercados. Alguns eruditos ficaram incomodados com esta banalização, mas eu fiquei encantado por achar que era ali, entre os bens de primeira necessidade que eles deviam estar. Nunca antes os livros tinham estado tão perto de tanta gente.

Com estas interdições, levantadas por aparente espasmo muscular, o acesso aos livros foi vedado por uma fita plástica colorida. Quando, nos hipermercados entre as frutas e as bolachas, vimos fitas plásticas a interditar os livros, entendemos que estávamos perante a cena de um crime. Não de um crime em investigação, mas de um crime em curso. E foi assim, de olhos embaciados, de ombros descaídos, com os braços pendurados e sem saber onde pôr as mãos, que ficamos à volta das fitas plásticas que impediam o acesso aos livros. Ficamos só a olhar para eles. Sem sequer os poder cheirar.

Para assinalar as diarreias mentais dos nossos governantes, alguns supermercados retiraram os livros das prateleiras e preencheram-nas com rolos de papel higiénico.

O confinamento forçado, além de impedir a venda de livros, impediu a circulação de pessoas para fora do respectivo concelho de residência. Os cafés e os restaurantes foram também proibidos de nos alegrar os dias. Alguns barbeiros e gabinetes de estética passaram a trabalhar na clandestinidade. Em nome da saúde pública ficaram privados dos seus rendimentos. Este foi um sacrifício pelo qual nem os profissionais de saúde tiveram de passar.

O clamor de fundo ainda é pouco mais que inaudível, mas sem poder trabalhar, alguns lembrarão um adágio dos tempos difíceis do Estado Novo, em que Salazar terá dito que tinha livrado o país da guerra, mas não o livraria da fome. Os socialistas no poder não evitaram que nesta pandemia estivéssemos entre os piores e, não fosse a União Europeia, não nos livrariam da fome. Para muitos, nem os milhões despejados pela União Europeia impediram a privação alimentar.

Noutros países o estado apoiou as actividades que mais sofreram com o confinamento, como forma de os compensar do esforço feito pela segurança de todos. Cá não existe dinheiro para isso. Preferiu-se apostar tudo na salvação da TAP que está parada há meses. Se for cumprido o actual plano, o estado gastará com a TAP mais do dobro do que a NASA gastou para colocar um robô em Marte, mas como com eles as contas derrapam sempre, daqui a uns anos veremos a que planeta teríamos conseguido chegar com dinheiro ali consumido. Todos os regimes têm o seu Convento de Mafra.

Ao mesmo tempo, começaram a chegar as vacinas. O ritmo a que chegavam era muito inferior às nossas expectativas e necessidades. Os mais vulneráveis, os velhos e os doentes, foram os primeiros a serem vacinados. Mas desde o início que as filas começaram a ser furadas por penetras armados em chico-espertos. No teu tempo ainda se usa a expressão chico-esperto? Mesmo que já não se use, de certeza que se me estiveres a ler em Portugal, existe um perto de ti. O chico-esperto é egoísta, despreza o colectivo e, dê por onde der, acaba sempre por arranjar uma maneira de passar à frente dos outros e de se safar. Quando exposto e desmascarado arranja uma interpretação criativa das regras e, se tal for necessário, será suficientemente criativa para conseguir exactamente o contrário daquilo que se pretendia quando estas foram estabelecidas. O chico-esperto é um perito em sobrevivência. Mesmo que tenha de enganar e sacrificar uma aldeia ou um bairro cheio de gente decente, ou até uma geração inteira, ele irá safar-se. É uma habilidade socialmente perversa.

Portugal comporta-se na UE como um chico-esperto, mas no nosso caso também se pode designar por toino-habilidoso. Somos governados por um toino-habilidoso que é uma versão pós-moderna de um chico-esperto. Assim, alguns chico-espertos, protegidos pelo toino-habilidoso, furaram as filas dos prioritários e receberam a tão esperada picadela nos seus espertos e habilidosos tríceps, muito antes da vez que lhes competia.

Quando esses abusos começaram a ser conhecidos, justificaram-se chico-espertamente dizendo que como o frasco da vacina continha cinco doses, havia por vezes sobras e para não serem desperdiçadas acabaram por as desviar para si, ou para os seus amigos, ou até para os donos das pastelarias que frequentavam. E assim, com a maior desfaçatez, tentaram convencer o país que as vacinas, que sabíamos serem tão raras, afinal sobravam abundantemente todos os dias.

Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando. O ritmo de novas infecções foi seguido, com algumas semanas de atraso, pelos números dos internamentos e dos óbitos. Quando as novas infecções sobem, já sabemos que poucos dias mais tarde os hospitais entrarão em ruptura e, ainda antes dos hospitais começarem a vagar, conseguimos saber que o ritmo de infecções já baixou.

As escolas vão reabrir, pouco a pouco, começando pelos mais novos. Vamos ver se o natural aumento de casos, que se seguirá, será comportável pela capacidade hospitalar.

Depois de um inverno muito rigoroso e inesquecivelmente difícil, todos ansiamos que o renascimento que a Primavera traz à natureza seja alargado à situação que estamos a atravessar.

Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 28.01.21

Jovem do futuro,

Olá de novo, quero continuar a contar-te o que tem acontecido nestes dias da pandemia. Estamos agora no final de Janeiro de 2021.

Voltei a ler o que te escrevi em Setembro do ano passado e já sinto saudades daquele fim de Verão em que, mesmo indo de máscara para todo o lado, conseguimos ter alguma normalidade. Nessa altura ainda havia sol para ir à praia e chegamos a ir a restaurantes.

Quem teve dinheiro e tempo para isso, no Verão gozou férias. Muita gente, com receio de voltar a andar de avião, redescobriu Portugal. O turismo interno animou-se com turistas nacionais. Foi como um acto de introspecção dos portugueses, que redescobriram as suas próprias paisagens. Quando regressaram a casa, entenderam melhor o encanto que os estrangeiros sentem pelo nosso país. Sem este vírus aberrante isso não teria acontecido. E tão bonito que é o nosso território. Se fosse habitado por outro povo, não seria igual. Se somos parte do chão que pisamos, este chão também é o que é por causa daquilo que somos.

Houve dias de sol com brisas agradáveis. Quase que nem nos rimos quando os nossos governantes se vangloriaram pelo milagre e pela sorte de sermos governados por gente experiente. Graças a eles, disseram, e com o nosso apego à ordem, tudo tinha sido menos gravoso que noutras paragens.

Enquanto se bajulavam, inchados sob os holofotes, os virologistas alertavam que o pior estava ainda para vir. Enquanto noutros países se delineavam planos para o inverno, cá afirmava-se, insistia-se e repetia-se o desprezo oficial pelas estruturas privadas de saúde.

Depois das celebrações religiosas e festas populares terem sido proibidas, a festa dos comunistas na Atalaia reuniu várias dezenas de milhares de pessoas. Para lá chegarem os participantes atravessaram ruas e avenidas onde todo o comércio estava impedido de abrir a porta, para que a pandemia fosse travada. Os comunistas podiam ter aproveitado o ascendente de que gozavam sobre o governo para melhorar a vida dos portugueses, mas gastaram todo o capital político nesta exibição arrogante de poder.

O governo engoliu esta insolência com a tolerância de quem está na posição mais fraca. Este episódio mostrou para quem quis ver, como o destino do nosso país depende nestes dias dos caprichos dos marxistas.

Da última vez que os socialistas saíram do poder precisamos de uma troika, mas da próxima, precisaremos de uma perestroika.

A escola arrancou como sempre no final do Verão. A apreensão era geral. Ao contrário dos seus alunos, muitos professores pertenciam ao chamado grupo de risco. Como é que iriam coexistir estes dois grupos com tamanhas diferenças perante a ameaça? O primeiro período correu exemplarmente. Durante algum tempo tentaram recuperar as falhas do ano anterior, quase todo leccionado à distância, e seguiram em frente.

Os professores só faltaram quando, na dúvida, lhes era recomendado o isolamento profiláctico ou quando testaram positivo. Logo após cumprida a quarentena obrigatória, regressaram às salas de aula, mostrando-se assim, e mais uma vez, à altura das responsabilidades.

Os alunos também se adaptaram. Andaram sempre de máscara que só tiravam durante as refeições. Nos intervalos juntaram-se nos habituais grupos de amizades que raramente coincidem com a disposição da sala de aula. Entre eles falaram, com a voz abafada pela máscara, do que é normal que falem, do mundo que descobriam e trocaram perguntas sobre a vida, recorrendo às formas de expressão normais para a sua idade.

Quando as temperaturas começaram a descer, o número de infectados começou a subir, e número de mortos não demorou também a aumentar. A segunda vaga chegou acompanhada com várias semanas de chuva, seguida de frio e gelo. E novamente de mais chuva. Os pobres sofrem sempre mais no tempo frio e este está a ser um inverno particularmente forte, especialmente forte para com os mais fracos.

Pelo menos, depois de alguns meses de folga nas infecções, já não seríamos apanhados de surpresa. Houve quem acreditasse nisso.

Ainda a maré estava a começar a subir e já os nossos governantes começaram a falar em salvar o Natal, criando de imediato a ideia que nessa altura iria haver uma maior tolerância nas deslocações e nos ajuntamentos familiares. Fizeram isso ignorando as recomendações científicas, pois talvez tenham acreditado que o vírus também parava durante as nossas festividades.

Claro que foi agradável ouvir isso. Pelo menos teríamos um Natal em condições junto dos nossos idosos que viviam isolados há tantos meses. Quem é que se podia opor a notícias tão boas?

Ao mesmo tempo começaram a ser administradas as primeiras vacinas. Só de nos imaginar a todos vacinados … até nos permitimos a inspirar um profundo folgo de esperança.

O Pai Natal este ano iria trazer as vacinas. No Natal celebrou-se o que sempre se celebra, uma nova vida, um novo alento. Umas mais do que outras, as mesas encheram-se, e à volta delas celebrou-se e brindou-se. Como foi bom poder fazer uma trégua a meio da batalha.

Enquanto isso, nos países europeus que deram ouvidos à ciência, o confinamento foi mais apertado do que nunca e as festividades foram proibidas.

Ainda havia umas fatias de bolo-rei por comer e logo começou a haver notícias sobre as mutações do vírus. Registou-se uma nova estirpe no Reino Unido, pouco depois surgiu uma mutação brasileira e também uma sul-africana. Quantas mais iriam ainda aparecer? Será que o vírus se iria tornar mais ou menos agressivo? E será que as vacinas, ainda antes de serem distribuídas, já estariam obsoletas?

Enquanto tentávamos entender o que se estava a passar, os números dos infectados dispararam. De 1.500 infecções diárias, chegamos às 15.000, em menos de um mês. Como cerca de um por cento dos infectados necessitam de assistência hospitalar, todos os dias chegam mais de 150 doentes em risco de vida aos hospitais. Em poucos dias as ambulâncias começaram a esperar cada vez mais tempo nas filas para conseguirem entregar os doentes nas urgências. Por vezes, cada vez com maior frequência, começaram a seguir dessas filas para a morgue. O número de óbitos disparou. Neste momento morrem com Covid mais de 10 portugueses por hora e já foram registados mais mortos pelo vírus, do que na Grande Guerra e na Guerra do Ultramar juntos.

Alguns hospitais tiveram de adquirir câmaras frigoríficas para conseguir gerir a tenebrosa logística de tantos cadáveres. As estruturas privadas de saúde afinal revelaram-se necessárias, mas o apego à ideologia e a recusa, até à última, em recorrer a elas, custou a vida a demasiados portugueses. Já te falei da força que os marxistas hoje ainda têm, não foi?

As estatísticas internacionais desta pandemia dizem-nos que Portugal é nestes dias o pior sítio do mundo.

Quem morre infectado é despachado, sem vestes dentro de um saco de plástico. Os cangalheiros, em vez do habitual fato preto, envergam agora fatos brancos de protecção biológica, com máscara, óculos especiais e botas de borracha. As cerimónias fúnebres estão limitados a um número muito restrito de pessoas, definido por cada autarquia.

O que seria de nós sem os cangalheiros? O que será de nós se os coveiros sucumbirem?

Quem sofre ataques cardíacos, acidentes ou outras complicações graves de saúde, tem medo de ir para o hospital e demasiada gente, que em tempos normais teria sido salva, acabou por falecer em casa. Para os condutores e assistentes das ambulâncias de emergência médica, tornou-se normal transportarem apenas cadáveres. Ninguém ficará surpreendido com futuras sequelas de choque pós-traumático entre os profissionais de saúde.

Foi neste ambiente que se realizaram as eleições. O governo lembra-nos diariamente do nosso dever de ficar em casa para evitar mais contágios, para no minuto seguinte nos lembrar que votar é um dever cívico. Desde que a pandemia foi declarada, mais de 75 actos eleitorais foram adiados pelo mundo fora, mas cá as decisões importantes demoram a ser tomadas, e se forem mesmo muito importantes, o mais provável é que não sejam tomadas de todo.

Um dos candidatos que se apresentou a votos, irrita bastante os nossos governantes, assim como as pessoas normais. Diz palermices e é agressivo. Mesmo assim, não pelo que diz, mas apesar do que diz, e apenas porque irrita a situação, acabou por ter bastantes votos. Quem votou nele ficou satisfeito por ver como o seu voto conseguiu irritar os nossos governantes.

O vencedor é o mais completo retrato do nosso regime, e por isso faz sentido ter ganho. É filho da nomenclatura do regime anterior, mas desde os primeiros instantes do que temos, esteve envolvido em tudo o que nos levou ao ponto em que estamos.

Mesmo após 20 anos de estagnação económica, os políticos no poder continuam a pensar que criam riqueza por decreto, e que se assim o entenderem, à força da lei farão os leões voarem e as zebras rugirem. Eu quando os escuto com atenção só oiço zurrar.

Demasiada gente pensa que ao fazer por ignorar as mudanças as consegue evitar, mas esse é um erro antigo da humanidade, para o qual não existe bom senso que impeça que se repita.

Lá fora o tempo continua de chuva. Os últimos dias foram de um burranho que, juntamente com as notícias, nos encharcaram a alma e os olhos. A chuva não se distingue do nevoeiro, tal e qual como aquela que terá caído nos Invernos das pestes medievais.

É um luto permanente.

Quando numa saída para comprar víveres, pela voz, fisionomia ou pelos movimentos, reconhecemos um amigo, sorrimos por detrás de duas máscaras sobrepostas, chocamos com as nozes dos punhos resguardados dentro de luvas de protecção e dizemos, como quem quer garantir: Enquanto não piorar, aguentamos!

Para memória futura

Paulo Sousa, 17.09.20

Jovem do futuro,

Escrevo-te este texto no mês de setembro do ano 2020. Poderia dizer que te escrevo a partir do ano da pandemia, tal como se estivesse em 1939 te poderia dizer que te escrevia do ano da guerra, mas como esta durou até 1945, e por não te querer faltar à verdade, digo-te apenas que te escrevo do ano em que a pandemia foi declarada.

Olhando para o que vivemos desde o início da passada primavera, posso contar-te que tudo começou do outro lado do mundo, lá no extremo oriente onde as doenças respiratórias são frequentes. Mas na Europa desde há cem anos, desde a Gripe Espanhola, que nada desde género cá chegava. Os sofisticados níveis sanitários desta ponta da Eurásia explicavam a nossa falta de comparência nessas ninharias que só afligiam os países do terceiro mundo. Apesar dos primeiros casos terem já sido registados no final de 2019, a nossa surpresa foi total.

Este vírus, um Corona, apresentou-se com um leque de características que abalaram o mundo em que vivíamos.

Se consultares os dados de mortalidade desta época poderás achar que estou a exagerar. Escrevo-te no início do que será a segunda vaga da pandemia, mas de facto até agora a mortandade não é comparável a outras pestes e pragas. Mas não te esqueças que noutros tempos estes fenómenos, por não terem explicação racional, acabavam por serem justificados como sendo castigos transcendentais. Como nos dias de hoje a ciência já praticamente expulsou o transcendental da esfera de cada indivíduo, ficamos sem saber bem o que pensar.

Importa lembrar que a pandemia anterior deixou o nosso país numa quase guerra civil, a que se seguiu uma longa ditadura. A actual democracia é já uma quarentona que apesar de ser democraticamente jovem já tem rugas, vista cansada, pernas pesadas, triceps flácidos e no cabeleireiro manda disfarçar os cabelos brancos. Mesmo sem ter com que pagar o serviço insiste em deixar gorjeta. Três falências financeiras já ninguém lhas tira do curriculum.

Ainda antes da pandemia, um quinto dos portugueses vivia na pobreza. Os pobres são os esquecidos do regime, passam frio de inverno, têm ratos a passear à porta da cozinha e não têm férias para gozar. Os valores humanistas apregoados pela esquerda que governa contrastam com esta realidade que persiste.

Uma vez por ano celebra-se a liberdade e finge-se que os pobres são livres. O que não é verdade, pois estão aprisionados pelos impostos que incidem sobre os seus contratos de trabalho e que, de tão pesados, afastam possíveis alternativas de emprego ou o emprego em si mesmo. Os governos garantem que se conseguirem cobrar mais impostos irão resolver o problema e assim vivemos num eterno ciclo de impostos altos e de pobreza duradoura que se autoalimenta.

Os partidos mudaram mas para pior. Trocaram os operários por minorias identitárias escolhidas a dedo. Outros preferem os animais às pessoas. Mas nenhum representa os pobres, que não sendo poucos, são uma minoria demasiado grande para ter importância. A abstenção é coisa de gente deplorável e os jornais estão tão falidos quanto a classe dominante podia desejar.

As falências de bancos dos últimos anos foram somente parte de uma imensa destruição de riqueza que apenas teve consequências nas algibeiras dos contribuintes que através do Orçamento de Estado tiveram de assumir os seus custos infinitos. A acompanhar este empobrecimento colectivo, os serviços públicos degradaram-se.

Quem tiver dinheiro para isso, paga para ter assistência médica prestada por privados. Os servidores públicos têm um sistema autónomo de saúde que lhes garante serem assistidos pelos mesmos privados. A restante população sujeita-se a listas de espera inexplicáveis e até a morrer enquanto aguarda por uma cirurgia que não será feita a tempo.

A justiça inverteu o ónus da prova na cobrança de impostos e é vergonhosamente impotente perante os bem identificados criminosos que nos roubaram a todos.

Por sorte calhou-nos este canteiro no fim do mapa, quase sempre fora das rotas dos impérios continentais e que permitiu que sejamos uma nação antiga. A geografia arredou-nos assim do centro das disputas de poder e também fez do nosso país um Estado-Membro da União Europeia. É em resultado da geografia, e não por qualquer mérito próprio, que recebemos milhões de metros cúbicos de impostos cobrados nos países ricos do norte e do centro da UE. Enquanto o fluxo de dinheiro europeu não for interrompido o regime irá aguentar-se. De resto lidamos bem com a mediocridade de quem aceita as esmolas como modo de vida.

Foi neste cenário de total dependência económica e de marasmo moral que entrámos nesta pandemia.

No início sabíamos apenas que o vírus era, e continua a ser, muito contagioso. Pode ter até duas semanas de incubação e mesmo antes de a pessoa infectada sentir qualquer sintoma pode estar já a contaminar quem o rodeia. Qualquer amigo, apenas conhecido ou até desconhecido que não apresente qualquer sintoma, pode ainda assim estar infectado e contagiar-nos. Sabendo isso é normal que desconfiemos de todos. Por isso, por medo, banimos o contacto físico, deixamos de dar apertos de mão, beijos no rosto e também de dar abraços. Quer dizer, não totalmente, pois por vezes transportamos o vigor com que queríamos esmurrar esta doença e convertemos esse impulso num abraço inteiro e apertado a alguém que nos é querido. Há coisas e momentos pelos quais continua a valer a pena correr riscos.

Será que, depois de terminada esta provação, nos voltaremos a cumprimentar como antes?

O medo do contágio, e as primeiras imagens chegadas da região de Milão com camiões militares cheios de caixões, levou a um auto-confinamento tão rápido que antecedeu até a declaração do estado de emergência pelo governo. A brusca mudança de hábitos retirou os clientes dos restaurantes, cafés, bares, salas de cinema, discotecas, espaços de espectáculo e de cultura, levou ao cancelamento de festas populares, de festivais de verão, de viagens aéreas e de estadias turísticas. O tráfego aéreo foi reduzido em mais de 90% e os aviões ficaram estacionados nos aeroportos. A quebra de riqueza que resultou desta paragem brusca foi imediata e ainda não sabemos ao que nos irá levar.

Quem por razões profissionais e ou financeiras o pôde fazer, ficou em casa. As famílias passaram muito mais tempo juntas. Essa mudança fez com que algumas ficassem mais unidas, mas outras, e pelo mesmo motivo, desfizeram-se.

Os profissionais de saúde foram os primeiros a lidar directamente com o pesadelo. O norte de Itália foi o primeiro grande foco europeu. Os médicos e enfermeiros que estiveram na linha da frente tiveram de recorrer aos protocolos da medicina de guerra, em que por falta de equipamentos suficientes tiveram de definir critérios de escolha para prestar socorro a um jovem saudável deixando de lado um velho, ou até um jovem não saudável. Os ventiladores tornaram-se no aparelho mais desejado. Em resposta a isso e em poucos dias milhares de engenheiros colaboraram on-line para desenvolver novos modelos de fácil produção e de menor custo. Excluindo egoísmos pontuais, respirou-se um sentimento de partilha e de união perante este este inimigo invisível.

As escolas passaram a funcionar à distância através da internet, algo impensável há poucos anos atrás. Mas as queixas desta solução foram muitas. Demasiados alunos não tinham forma de assistir e, como sempre, os mais pobres ficaram em desvantagem. Excluindo egoísmos pontuais, os professores mostraram espírito de missão. Deram o seu melhor para não deixar os seus alunos sem aulas. As aulas não presenciais exigiram-lhes muito mais horas do que seria necessário no mundo pré-covid. Os alunos adaptaram-se igualmente. As redes sociais colmataram parte da ausência forçada, mas demasiadas coisas no mundo escolar foram interrompidas.

Durante o confinamento, as varandas dos prédios urbanos ganharam uma nova vida. Dali se aplaudiu em reconhecimento os sacrifícios dos profissionais de saúde, dali se cantou em coro com desconhecidos e dali se fizeram incríveis concertos para os vizinhos igualmente aprisionados. Quando nos emocionámos perante os vídeos incríveis de eventos avulsos que chegaram até nós pelos ecrãs dos telefones e dos computadores, descobrimos que se conseguimos colaborar em manifestações que não são mais do que arte espontânea e colectiva, se conseguirmos sorrir enquanto este pesadelo nos agride, então ainda há motivo para ter esperança.

Houve também uma outra casta de heróis quase esquecida. Os supermercados continuaram a funcionar, as suas prateleiras continuaram a ser abastecidas com verduras produzidas pelos agricultores e transportadas pelos camionistas. Estas foram as humildes obreiras que para continuar a abastecer a colmeia não se puderam dar ao luxo de se fechar em casa nem de ir cantar para a varanda. Sabe Deus o medo com que tiveram de lidar para que os circuitos de abastecimento não fossem interrompidos. E assim evitaram o caos. Se alguém lhes perguntar o que fizeram ou porque o fizeram, dirão apenas que fizeram o que tinha de ser feito, e isso para mim é a definição de coragem.

Pouco tempo depois, entendemos que o confinamento nos poupava da doença, mas em contrapartida arrastaria multidões para o desemprego e para a fome. Perante isso digerimos o risco e seguimos em frente. As máscaras de protecção tornaram-se omnipresentes e passaram a esconder os dentes careados e falhos dos pobres assim como os lábios das mulheres bonitas. Com elas postas, com os seus elásticos nas orelhas, aprendemos a sorrir com os olhos.

Triste foi ver os nossos governantes a fingir que sabiam o que fazer. É claro que não sabiam, nem podiam saber. Ninguém nunca poderia estar preparado para uma pandemia como esta. Mas como o fingimento é o seu modo de estar na vida e como só sabem representar, acabaram por dizer coisas completamente opostas com poucas horas de diferença, sempre com o mesmo ar confiante.

Felizmente em grande parte da Europa, é-nos permitido gozar com os políticos. Os políticos portugueses, em particular, são incansáveis em ridicularizar-se a si próprios, assim como ao regime de que fazem parte e que representam. Às vezes são tão risíveis que parecem estar apenas apostados em nos entreter pelas gargalhadas que provocam. Acabam até por nos aliviar da pressão causada pela incerteza. Se se assumissem como palhaços, que é o que são, perderiam a graça.

Gostava de saber como são os líderes do teu tempo. Nunca li nenhuma história de ficção científica em que se vivesse em democracia. Será que os tiranos conseguirão triunfar?

Enquanto isso, e indiferente a tudo isto, a natureza manteve o seu curso. Os pássaros continuaram a nascer nos ninhos, e a cantar nas árvores. Os ratos e os corruptos continuam longe da extinção. Os golfinhos continuam a deslizar pelas águas do mar onde os microplásticos são cada vez mais. E os bebés continuam a nascer. Como eles irão querer melhorar o mundo que receberam, continuamos com motivos para ter esperança.

Eu, continuo a questionar-me se a beleza se esgota nos olhos de quem a contempla e nos ouvidos de quem a escuta ou, pelo contrário, reside nas mais pequenas partículas das coisas belas. Se o nosso código genético é 98% idêntico ao dos macacos, em que escala atómica é possível definir uns olhos bonitos?

O pôr do sol, esse, continua a ocorrer a oeste. Ao longo da maior parte da linha da costa continental do nosso território, isso faz com que o sol desapareça no mar. Poder assistir a esse momento fugaz continua a ser um privilégio, desperdiçado com indiferença.

Dedicado às beatas do regime

Paulo Sousa, 22.04.20

Depois do meu texto anterior relativo aos velhos marretas que “orgulhosamente sós” e do alto da sua bancada insistem, de dedo em riste e voz grossa, em mostrar aos portugueses que lhes devemos obediência e gratidão pelo regime que temos, achei que importava acrescentar algumas considerações.

Afirmo que desde a sua criação e consolidação, o actual regime constituiu um tremendo avanço em relação ao anterior, que só pelo facto de ser uma ditadura fazia dele algo execrável, desprezível e anacrónico.

A democracia razoavelmente decente que temos, constitui um patamar de evolução abaixo do qual o país nunca poderá regressar. 

O primado da liberdade nas suas diferentes vertentes, do respeito pelos direitos humanos, com especial enfoque pelos direitos das mulheres e das minorias, não é nem nunca deve ser um luxo da situação, mas apenas uma base de decência mínima.

Eu, que ainda usava fraldas quando a nossa democracia liberal foi instituída, cresci a acompanhar a sua evolução. Na escola primária cantei o hino da época de “Uma gaivota voava, voava, somos livres”, cheio de significado para quem nos ensinava a letra, mas banal e repetitivo para quem o aprendia. Para a minha geração essa liberdade, felizmente, foi sempre um dado adquirido. Pode incomodar os mais ortodoxos, mas a banalidade e indiferença das gerações mais novas perante as conquistas de Abril são o indicador maior do seu sucesso.

Para a minha geração, e para os mais novos que eu, a paz, a inexistência de censura formal, as eleições livres, as fronteiras abertas, mas também a constituição, a república, a separação do estado e da igreja, o conceito de propriedade privada, assim como o sistema heliocêntrico, são tudo conquistas do passado. Todos nós, sem excepção, temos uma dívida moral para com aqueles que contribuíram para o mundo que hoje temos, desde Galileu Galilei, a Magalhães, a Darwin, a Pasteur e a Salgueiro Maia.

Por isso, quando digo que está a chegar a hora de exigirmos mais e oiço de imediato as forças conservadoras da actualidade, a que chamo de beatas do regime, a chamaram-me facho, acabo por achar piada, pois sem darem por isso imitam as reacções das beatas do Estado Novo quando alguém exigia o fim da guerra colonial e uma democracia ocidental. Claro que já não me podem mandar prender por delito de opinião, mas isso agora é apenas normal.

Cresci e vivo em liberdade e por isso recuso-me a não poder exigir mais crescimento económico e mais oportunidades para os jovens. O actual sistema de reformas foi desenhado num Portugal com uma estrutura etária completamente diferente e há muito que deixou de ser sustentável. Isto é público e sabido e só não foi ainda corrigido por puro calculismo eleitoral. E não são as reformas miseráveis das pessoas simples que ferem o sistema, mas sim as muito elevadas que são imensas. Já aqui falei disso.

Para os que estão bem estacionados na pirâmide do regime e que insistem que o que temos é perfeito, eu lembro-lhes que um quinto dos portugueses vive na pobreza e os seus filhos não podem aspirar a muito mais do que isso. Estes portugueses não têm voz e não sentem que ir votar faça a diferença. A abstenção é a prova de que a linguagem dos políticos não consegue fazer-se ouvir fora da bolha onde vivem.

Lembro-lhes também o sufoco financeiro que os jovens sentem em tornar-se independentes dos seus pais, lembro-lhes que temos uma justiça labiríntica onde só os poderosos sabem navegar, lembro-lhes que as várias falências do país não são obra do destino, lembro-lhes que cada bébé que nasce hoje deve dinheiro suficiente para comprar um chaimite daqueles ilustram o 25 de Abril, e lembro-lhes que a dimensão da imigração dos anos 60 era um indicador tão fidedigno dos desequilíbrios do Estado Novo como o é do actual regime.

Por tudo isto, só quem vive alienado não reconhece que entre o regime e demasiados portugueses existe um vazio que politicamente alguém irá preencher.

Insistir em chamar facho a quem diz que o que temos não é suficiente é negar a realidade, é adiar reformas e alimentar radicalismos.

Os inimigos do futuro

Paulo Sousa, 20.09.19

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Um dos livros de Daniel Innerarity, filosofo e ensaísta espanhol, elabora sobre a nossa relação com o futuro. O seu título é 'O futuro e os seus inimigos' e a edição é da Editorial Teorema.

Este é um livro marcante pela abordagem que faz a algo a que todos aspiramos, o futuro, mas que não tratamos devidamente. Falta futuro no discurso e na acção política e falta futuro na escolhas dos eleitores.

Na sociedade do consumo imediato em que vivemos, a incerteza do amanhã é esmagada pelo imediatismo de curta perspectiva, que se verifica nas decisões individuais e colectivas.

Os ciclos eleitorais são demasiados curtos para dar a devida importância ao futuro, e são demasiado longos para corrigir os erros de avaliação eleitoral. É também deste equilíbrio que o futuro da democracia dependerá, especialmente quando é confrontada com os resultados obtidos por regimes totalitários que esmagam a oposição, erradicam o debate e a negociação.

Quando a próxima sondagem se torna mais importante que a próxima geração é natural empurrar responsabilidades para o futuro mais ou menos distante. Cada vez que os responsáveis políticos endividam as suas comunidades ou os seus países a prazo alargado, para concretizar obras não produtivas comportam-se como uns okupas do futuro. Entre a liberdade de acção das gerações futuras e o fascínio imediatista da inauguração com uma placa com o seu nome gravado, os políticos preferem, sem pudor, a segunda.

O colonialismo territorial de outros tempos foi assim substituído por um colonialismo do futuro que absorve e parasita o seu tempo. O benefício que, no passado, se pretendeu usufruiu sobre os ‘de fora’, é exercido hoje sobre os ‘de depois’.

Os ataques do presente, seja sob a forma de endividamento ou de poluição, desrespeitam os ‘agoras’ dos outros e fazem do futuro uma lixeira do presente.

Jefferson, no séc XIX, questionou-se se não se deveriam aprovar todas as leis ao ritmo de cada geração. Se cada uma era como se fosse uma nação diferente deveria ter a legitimidade de tomar decisões, sem no entanto poder obrigar as seguintes.

A crescente dimensão do grupo de eleitores de terceira idade dentro do universo eleitoral alimenta também este processo. Antecipar uma reforma é sobrecarregar um sistema que não sabemos se será sustentável no futuro, mas, perante os abusos descabidos todos encolhemos os ombros. Quem não faria o mesmo? Exigir aumentos das reformas é normal, pois tem de se acompanhar o aumento do custo de vida. O futuro fica para depois.

Se nada for feito para interromper esta lógica, desprovida de ética, o futuro terá cada vez menos peso político.

A ideia da responsabilidade está essencialmente virada para o passado. Temos de prestar contas pelo que fizemos ou deixamos de fazer, mas quanto às responsabilidades futuras, essas são sempre envolvidas na incerteza do amanhã desconhecido.

Mas um dia o futuro será presente, e os dos futuro, aprisionados pela vaidade dos do passado, saberão identificar os seus tiranos e dar-lhe o devido lugar na memória que será a deles e que é a memória futura.

Um destes dias, num futuro próximo, gostaria de falar sobre o futuro que o regime de Abril tem para oferecer aos portugueses que nasceram depois dele.

2017 e o futuro radioso

José António Abreu, 30.12.17

 

«Sabes qual é o primeiro objectivo de qualquer consultor?»

«Reduzir custos ao cliente?»

«Não sejas ingénuo.»

«Então qual é?»

«Descobrir formas de prolongar o contrato de consultoria.»

 

Ora portanto: em 2017, funcionários públicos e pensionistas continuaram a recuperar rendimentos, mas nas escolas a comida surgiu crua ou com lagartas, nas penitenciárias os almoços e jantares foram diminuindo de tamanho, nos hospitais agravaram-se as condições de salubridade e aumentaram as listas de espera para cirurgias urgentes, nas vilas e aldeias a Protecção Civil não conseguiu evitar a morte de mais de uma centena de cidadãos, nos quartéis os militares foram incapazes de evitar roubos de armas, nas instituições de solidariedade social cometeram-se desvios de fundos públicos sem que, não obstante a existência de denúncias, a tutela se desse ao incómodo de averiguar, e nos bancos continuou a meter-se dinheiro público, ainda que num caso - como os socialistas gostam - por portas travessas.

Também em 2017, categorias variadas de funcionários públicos nada incomodados com as irrelevâncias mencionadas no parágrafo anterior lembraram-se de começar a lutar com o governo por «direitos» (leia-se: dinheiro) que até 2016 o governo parecia achar não apenas justos, mas benéficos para a economia (agora parece só achá-los justos). Patrocinada pelo PCP através da CGTP, a luta deverá continuar em 2018 e ser bastante divertida, mas potencialmente muito cara, para quem está de fora.

Do lado das coisas que não aconteceram em 2017 conta-se, por tradição nacional e para não perturbar Catarinas e Jerónimos, a implementação de reformas que todos (enfim, todos os que ideologicamente se situam fora da extrema esquerda) sabem ser indispensáveis, e que todos (ver parêntesis anterior) também sabem que seriam menos dolorosas de realizar em época de crescimento económico, ainda que esse crescimento ronde os 2%, muito abaixo dos cerca de 3% da vizinha Espanha ou dos valores que seriam de esperar em qualquer economia minimamente equilibrada saindo de uma fase de correcção das contas públicas durante a qual o PIB contraiu 8% (convém ter presente que, neste caso, 2 não chega a uma quarta parte de 8, pelo facto de o denominador ter ficado mais baixo*). E, todavia, as exportações de bens e de serviços mostram-se excelentes, não obstante os recentes e tristes problemas com o pernil de porco destinado a um dos países-modelo do Bloco e do PCP, facto que só pode deixar um indivíduo a ponderar o que diabo travará Portugal. O clima, talvez. O excesso de eucaliptos. A venda de salgadinhos nos hospitais.

Enfim, continuemos, que é forçoso reconhecer um inegável mérito à Geringonça: em 2017, tornou abundantemente claro que o primeiro objectivo do Estado é alimentar o próprio Estado. (A anedota do início perde alguma piada ao chegar aqui, não perde?)

 

E o futuro? Quais as perspectivas para 2018, 2019, 2020, e por aí fora? Numa palavra, sublimes, que Centeno lidera o Eurogrupo, a Alemanha está com governação suspensa e até as agências de notação vêm subindo os ratings da república para níveis de 2010. Há uma nuvenzita negra, uma manchinha no radar, mas poucos a referem, até para evitarem imediatas acusações de «pessimismo» e - pior ainda - de «passismo» (um termo que 2018 poderá não conseguir apagar do léxico nacional). Eu - garanto - vou fazê-lo exclusivamente por motivos de sistematização: o que acontecerá a um país com o nível da dívida pública portuguesa (em queda apenas ligeira) e o nível de encargos do Estado português (entre já assumidos e previsíveis, com tendência para subida), quando a economia mundial abrandar, especialmente se abrandar muito (se houver um crash bolsista, por exemplo)? O que fará um governo com as contas públicas novamente desequilibradas e dificuldades de financiamento externo? Na verdade, é facílimo antever o primeiro passo: subirá ainda mais os impostos, estrangulando ainda mais empresas e cidadãos, e lançando novamente milhares de funcionários do sector privado no desemprego. Mas, porque fazê-lo nem sempre aumenta as receitas e invariavelmente aumenta as despesas do Estado, é capaz de não chegar. Com ou sem programa de assistência internacional, pode ser necessário cortar pensões, bem como salários no sector público, de forma ainda mais brutal do que na última ocasião (a vitória de Pirro que as «devoluções» rápidas e a garantia de «progressões» constituiriam para professores, enfermeiros e demais funcionários do Estado), ou até avançar para despedimentos no sector público (o horror, o horror). Ou então, chegados a esse improvável cenário, talvez possamos ser verdadeiramente criativos e salvaguardar os direitos dos trabalhadores ligados ao Estado libertando os presos, obrigando os alunos a trazerem refeições de casa, equipando os militares com fisgas e encerrando os hospitais.

Vai-se a ver e nessa altura, ainda que com milhentas ressalvas de temporalidade, o Tribunal Constitucional aceitará tudo. E o Bloco de Esquerda, enquanto parceiro de uma coligação governamental maioritária, imitará os parceiros do Syriza e, como ainda agora fez nas alterações à lei do financiamento partidário, aceitará o contrário do que jura defender.

Mas de momento corre tudo bem e, porque outra coisa não merecemos, assim continuará. Um excelente ano de 2018 para todos.

 

* Perdoe-se-me a nota presunçosa, mas a matemática não é o ponto forte nacional, como a generalidade das estatísticas e três bancarrotas em cerca de 30 anos confirmam.

Casas no lugar de muros

João André, 17.02.16

A crise dos refugiados está a demonstrar a mentira da solidariedade europeia. Os austríacos acolheram enquanto foi politicamente vantajoso e A Fotografia circulava. Agora fecham as portas. Os alemães foram arrefecendo o entusiasmo e agora andam a tornar-se algo gélidos em relação ao tema, especialmente depois do Ano Novo, quando vários ilegais e requerentes de asilo roubaram e assediaram sexualmente diversas mulheres em Colónia. O pior é mesmo a atitude dos países de Visegrád, que numa tentativa de mostrar músculo (em alguns casos devido a eleições próximas), querem fechar fronteiras para impedir a entrada de pessoas que lá não querem ficar.

 

Sejamos honestos: fechar as fronteiras não resolverá o problema. Há centenas de milhar (senão milhões) de pessoas em trânsito pela chamada "rota dos Balcãs" que não deixarão de avançar mesmo que lhes fechem as portas. Se os muros forem construídos irão usar traficantes, destruir o muro onde puderem, saltá-lo, contorná-lo ou simplesmente subornar quem possam. Se necessário voltarão ao Mediterrâneo e procurarão um porto de entrada mais a leste. Ou irão simplesmente ficar por onde estão, indesejados, escorraçados e sem quaisquer perspectivas.

 

Só que, e é aqui que está o problema, eles arriscarão tudo, até mesmo viver nas ruas de Atenas, Skopje, Belgrado ou outras, porque a situação será sempre melhor que aquela que deixaram para trás. Viver nas ruas mas em paz é melhor que viver nas ruas de um país em guerra. Arriscar fome e maus tratos é melhor que arriscar a vida ou tortura. Estas são pessoas que deixaram tudo o que tinham para trás e arriscaram um percurso extremamente arriscado para procurar outra vida, qualquer que fosse. Por vezes fizeram-no sabendo que arriscavam também filhos pequenos.

 

Fechar as portas não ajuda e só destruirá a UE. Os refugiados acumular-se-ão por uns tempos na Grécia antes de começar a tentar outros pontos de entrada. A Grécia colapsará sob o peso da hipocrisia europeia e deixará a UE - no que será o primeiro passo para a sua desintegração. Os refugiados procurarão outros pontos - talvez entrem na Bulgária através da Turquia; talvez procurem caminhos pela Albânia (onde há imensas máfias prontas a lucrar) mesmo sendo muito mais arriscado; outros irão em barcos até à Itália, Croácia ou França. Barcos afundarão (ou serão afundados), pessoas morrerão em passagens traiçoeiras por montanhas e vales, outras serão assassinadas por criminosos ou simples gangues racistas.

 

À medida que este processo continua, os refugiados reduzir-se-ão. A Grécia terá deixado a UE - porquê ficar se só recebe ordens de todo o tipo e é deixada para se afogar sem ajuda? - e outros países (talvez a Croácia, talvez a Bulgária) começarão a ser questionados. Se a solidariedade quebra por um membro porque não quebrará por outro? O processo continuará e a UE começará a criar as famosas duas (ou mais velocidades) que deixarão inclusivamente os países de Visegrád para trás. Com o tempo voltaremos a uma CECA com mais um ou outro membro e o projecto europeu morrerá a sua morte lenta.

 

Este cenário não é inevitável nem que os muros sejam construídos, mas não consigo deixar de pensar que será muito provável. Os europeus têm sido sempre muito criativos com as suas fugas para a frente, mas têm-no feito esquecendo a pura natureza humana, aquela que não cabe numa folha de Excel ou slide de Powerpoint. Pessoas em sofrimento arriscarão tudo quanto podem para melhorar a sua condição, nem que seja um poucochinho que seja. Fechar-lhes a porta e não os integrar (o que faria até sentido economicamente) não é só desumano (sabendo que morrerão em largos números): é estúpido por arriscar o próprio futuro.

 

No fundo, é uma questão de construir casas em vez de muros. Os custos seriam semelhantes e os lucros muito superiores. Talvez isso venha a ser percebido.

Já não nos ouve, mas ainda o poderemos ouvir

João André, 11.01.16

Though I'm past one hundred thousand miles

I'm feeling very still

And I think my spaceship knows which way to go

Tell my wife I love her very much, she knows

Ground Control to Major Tom

Your circuit's dead, there's something wrong

Can you hear me, Major Tom?

Can you hear me, Major Tom?

Can you hear me, Major Tom?

 

Nasceu no século XX um dos maiores nomes da música do século XXI. Nunca esteve à frente do seu tempo: ele fez o tempo seu. Depois de passar a vida a mostrar-nos o futuro, deixa-nos agora. Ouçamo-lo, sem parar, em loops infindáveis.

Alguns países adiam-se, outros destroem-se

Sérgio de Almeida Correia, 14.04.14

"O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas, e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação." - Maria do Mar Pereira, 32 anos, professora na Universidade de Warwick (Reino Unido), vencedora do Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014, Público, 14/04/2014

 

Enquanto isso, em Macau, Nuno Crato discute, à porta fechada, o futuro da Escola Portuguesa. E promete reforçar a cooperação com o Instituto Politécnico de Macau para criar mais oportunidades para os estudantes aprenderem a língua portuguesa. Tudo se conjuga, pois, para que as promessas continuem e os poucos recursos que temos prossigam a sua saída pela janela mais próxima sem qualquer garantia de retorno.

Zoom

Teresa Ribeiro, 06.05.13

O caso do espanhol a quem foi retirada uma prótese do joelho por falta de pagamento permite-nos obter um plano aproximado do futuro do SNS. Como o sapo de momento não me deixa fazer o link, espreitem assim: www.publico.pt/mundo/noticia/hospital-espanhol-retira-protese-a-doente-por-falta-de-pagamento-1593472. E digam lá, ó amigos anti-estatistas, se vos parece bem.

Vêem-se gregos, os cipriotas ...

jpt, 18.03.13

 

Viajei no Chipre em 1982, o primeiro inter-rail. Ficou-me uma imagem meio esbatida, pelo tempo e não só. Lembro o Muro de Nicósia, que achei pouco imponente e bem estranho (até porque na altura os "turcos" infiéis não eram os inimigos, estes vinham mais do norte), o alegre convívio júnior, até esfuziante, uma fome combatida a cervejas e muito ocasionais spaguetis e estes magníficos mosaicos de Paphos. Foi uma semana, depois voltámos à Grécia, inebriados pela história no Peloponeso, e pela fome vivida e as cervejas bebidas.

Pelo Chipre e cipriotas ficou-me este carinho, de memória. Agora vejo que lhes esbulharam as poupanças. Não sei que lhes terá acontecido e o que terão feito para se chegar a este desenho. Cheira-me que é o princípio do fim. Do quê não sei, mas de alguma coisa será. Não que me surpreenda, cá por casa muito disso se falou há uns dois anos. Emigrantes remediados, pequeninos aforradores, pensámos que o dinheiro (a moeda) entregue à guarda dos gabirús poderia desaparecer. Nas conversas amigos mais sábios na vil matéria aconselhavam: compra dólares, não os guardes em Portugal (e arredores).

Ora aí está. Hoje vê-se grego o cipriota e eu não disse nada ... amanhã ver-se-á grego o búlgaro e eu não direi nada ... depois de amanhã, ver-se-á grego o ... É ir ler o Brecht, que tem uma ladaínha dessas.

Solução? Simples. Ponham o dinheiro no estrangeiro, mesmo que seja pouco. Num estrangeiro. Escolham bem. Façam como os gabirús. E, se puderem, vão atrás dele. Não deles. Dele.

Ou lá terá que ser?

Gui Abreu de Lima, 12.03.13

Na mesma semana em que compro um livrinho que integra um conjunto de intervenções e reflexões de Noam Chomsky, dirigidas ao movimento Occupy, que em Setembro de 2011 se manifestou em Nova Iorque, dou conta que em Lisboa se convocam consecutivas assembleias abertas de discussão sobre o futuro da democracia e, esta manhã, do discurso de um participante no Fórum TSF, que traçava, seguríssimo, o seu plano de salvação. Espanta-me a coincidência de, numa meia dúzia de dias, em lugares diferentes, a mesma canção ecoe. Chomsky, assumindo a enorme dificuldade (ou mesmo a impossibilidade) de inverter o sentido do poderoso sistema montado nos EUA e em outros países, baseado em políticas neoliberais e de austeridade, escudadas nos défices e negligenciando a dignidade dos homens, apela à união de todos os que por elas se vêem sufocados, mesmo que não tenham soluções; a agenda das reuniões populares no Rossio lembra que "só com a nossa participação e empenho a democracia poderá ser a arma que nos permitirá ser donos do nosso futuro e de termos uma palavra que seja escutada e respeitada por aqueles a quem confiarmos a responsabilidade de executar aquilo que forem as decisões dos cidadãos"; e o ouvinte radiofónico, perante o auditório, desenrola exactamente a mesma opinião - nada nos tirará desta "roda" se não nos juntarmos em comunidades que se apoiem mutuamente e se bastem no essencial a si próprias, à margem dos poderes instituídos e dos partidos políticos que nos voltam as costas.
Levará tempo, será doloroso, mas como em outras épocas em que a desigualdade excedeu todos os limites, a acção popular acabará por influenciar o caminho destas democracias ocidentais que dividem a sociedade em dois grupos percentuais esquisitos: 1% de abastados e 99% de miseráveis. Será?

Portugal, 2015

Rui Rocha, 03.12.12

Chegámos ao debate sobre o Estado Social sem que previamente se tenha discutido de forma séria a necessidade de expurgar a administração central e local do desperdício, das redes clientelares e das correspondentes ineficiências. Os partidos do arco da governação (ou do arco do memorando) paralisam a discussão apontando a evidência de que as grandes rubricas da despesa são os custos com pessoal e as prestações sociais. Ora, se isto é verdade, tal não implica que não exista uma precedência natural (e ética) que impõe que postos de trabalho e dimensão social só possam ser atingidos depois, e nunca antes, de ser racionalizada (que não racionada) a máquina do Estado. Os restantes partidos da esquerda, ou do arco da velha, apresentam um condicionamento que os impede de discutir em bases sérias qualquer aspecto relacionado com a dimensão e as funções do Estado: tudo no Estado é bom, incluindo o que é mau. À direita, a ala liberal padece de atavismo inverso: tudo é mau no Estado, incluindo o que é bom. O resultado de tudo isto é um bloqueio no debate que não impede o curso inexorável dos acontecimentos. Endividado e dependente de uma economia incapaz de contrariar a hemorragia, o Estado português embaterá na realidade e ver-se-á obrigado a reduzir drasticamente a despesa. Os interesses instalados e o viés ideológico à esquerda e à direita terão impedido, por essa altura, qualquer reestruturação racional que liberte o país das clientelas incrustadas na máquina do Estado (vejam-se, a título de meros exemplos, a resistência consentida por Relvas a qualquer reorganização ao nível dos municípios ou a permanência dos lobbies universitários que acabam de impor a sua vontade em prejuízo do financiamento do ensino básico e secundário). Isto é, os portugueses passarão de uma situação em que beneficiavam de uma protecção social que aspirava a ser de tipo escandinavo (passe o exagero) suportada por uma economia periclitante, para uma outra em que uma contribuição fiscal de nível escandinavo (sem exagero) terá como contrapartida uma protecção social miserável. Teremos então o pior de dois mundos. Um Estado ineficaz e capturado por interesses que é incapaz de oferecer qualquer contrapartida. Um Estado ávido de impostos que servirão para pagar boys, rotundas, iluminações de Natal e rendas de empresas de regime, mas já não pensões, subsídios de desemprego ou a instrução dos nossos filhos. Um Estado incapaz, sequer, de cumprir razoavelmente qualquer das suas outras funções essenciais. Portugal, em 2015, não será apenas um Estado falido. Ter-se-á tornado, entretanto, um Estado imoral.

Da inutilidade dos livros

José António Abreu, 13.10.12

Numa espécie de resposta à pergunta deixada pelo Rui Rocha:

 

Duas raparigas de mini-saia sentam-se entre espelhos e sorrisos, de unhas pintadas de cinco cores diferentes, embora iguais nas mãos e nos pés, expostos, como gemas polidas, nas sandálias com um palmo de salto. Encomendam saladas e desembainham os smartphones. Não trocam palavra. Teclam em silêncio, nos seus iPhones, não se sabe o quê. Mensagens, números?

A chegada da comida desperta-lhes sorrisos. Debicam com pauzinhos, mergulham de novo nos telemóveis. Uma delas sabe inglês suficiente para perceber a pergunta – Já leram Mo Yan, que acaba de ganhar o Nobel da Literatura?

“Quem? Yang? Shang? Ichan? Não sei o que é. Um escritor?” O café fica no interior do Centro Comercial KK, que ocupa cinco andares de um edifício de 100, todo em vidro e luzes que acendem e apagam formando as palavras e números de anúncios de empresas e produtos, ao longo dos 442 metros de altura da frontaria.

“Shong? Bem, nós não costumamos ler livros”, explica Liu, aka Jane, falando pelas duas. Ou mais. O café está cheio de jovens com roupas estudadamente modernas e caras, agarrados aos telemóveis ou tablets. “Quando andava a estudar só tinha tempo para ler os livros da escola. Agora que já trabalhamos, usamos os tempos livres para vir ao centro comercial, ou jogar no telemóvel”, continua Jane (na China, os jovens que aprendem inglês adoptam um nome inglês).

Liu (jane) e Song, de 22 e 21 anos, trabalham num SPA. Vieram para Shenzhen há dois anos. Na aldeia-natal de cada uma, nas províncias de Hunan e Hubei, os pais dedicam-se à agricultura. Nos primeiros tempos na grande cidade, as duas raparigas trabalharam numa fábrica. Depois subiram na escala social. Agora têm dinheiro para estar no centro comercial. Um nome. Só um nome de um escritor chinês: “Não sei. Mao Zedong?”

Amy, 25 anos, Relações Públicas numa grande empresa de telemóveis, a Huawei, tem a mesma dificuldade em nomear um escritor. “É mais fácil jogar jogos. Os livros são muito complicados”.

Zheng, 24 anos, finalista de Medicina em Nanjin, também nunca ouviu falar do nome. Nem num nem no outro. “Prémio quê? Não sei o que é”. Tirando os compêndios clínicos, Zheng orgulha-se de nunca ter lido um livro.

Shenzhen é uma cidade recente. Há 30 anos um pequena aldeia, hoje tem 14 milhões de habitantes, graças às reformas de Deng Xiaoping e à criação de uma Zona Económica Exclusiva. Representa a nova China, eufórica com o desenvolvimento. Em toda a cidade, é possível visitar centenas de centros comerciais, e milhares de lojas de telemóveis baratos, mas não assistir a um concerto ou peça de teatro. Shenzhen não parece precisar de vida cultural.

“Mo Yan? Conheço sim. Escreveu livros sobre o período da guerra com os japoneses”. Yang Woo, 59 anos, é oriundo de Guangzhou, a antiga Cantão, e proprietário, em Shenzhen, de um restaurante de peixe na Avenida Huaqiang, a Meca da electrónica. Admite sem problemas que deve o seu êxito empresarial muito ao facto de ser membro do Partido Comunista. “Mo Yan é um escritor muito interessante, que promove os valores da harmonia. Se o Nobel é importante? Não. A China não precisa disso”.

Reportagem de Paulo Moura, no Público de ontem.

 

Ou, em meia dúzia de palavras: capacidade de concentração, de elaborar raciocínios ponderados, de enfrentar o silêncio e a solidão. No fundo, de desacelerar e pensar. Consigam lá isto com a internet.

Os cargos públicos e as redes sociais

José Maria Gui Pimentel, 19.06.11

 

 

Dentro em breve (eu diria uma década, mas a prudência obriga-me a ser menos preciso) começarão a chegar a cargos públicos (particularmente aos cargos políticos) jovens que já viveram plenamente a era das redes sociais. Esses incautos jovens adultos verão os jornais pejados daquilo que foram colocando nas redes sociais durante os seus anos de anonimato: fotografias de bebedeiras ou em posturas menos ortodoxas, comentários com palavrões, racistas, homofóbicos… Enfim, a antítese da postura politicamente correcta que esses jovens políticos quereriam passar. Esta primeira leva será a principal, porém também a única vítima do efeito das redes sociais: os mais desprevenidos verão as suas ambições políticas coarctadas, ou, mesmo, impossibilitadas. Já com as levas seguintes, a situação tornar-se-á tão transversal e comum que passará a ter tanta atenção quanto as fotografias de políticos em calções de banho, que há umas décadas eram impensáveis e hoje são indispensáveis no Verão.