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Andei com afazeres pessoais e sem tempo para parvoíces, por isso foi engraçado espreitar os desenvolvimentos no futebol europeu e descobrir (uns dias tarde) que Rúben Dias tinha ido para o Manchester City e que Otamendi tinha seguido na direcção oposta. Tirando questões desportivas para o lado (como o facto de os centrais do meu Benfica terem agora uma média de idades superior à da mãe de Eusébio), achei engraçada a discussão que li nos posts de alguns amigos sobre se tinham sido duas vendas (Dias para um lado e Otamendi para o outro) ou uma troca (vendendo Dias por dinheiro e Otamendi).

Ora, sem querer estar a fazer afirmações peremptórias sobre a gestão dos dois clubes, deixo aqui a explicação para serem duas vendas e porque razão resultaram em lucro para ambos os clubes.

Ponto 1) Dias foi vendido por 56,6 m€ e assinou contrato por 6 anos. Otamendi foi vendido por 15 m€ e assinou por 3 anos.
Ponto 2) os clubes usam a amortização do valor da aquisição do jogador ao longo do contrato nas suas práticas de contabilidade. Isto significa que Dias custa cerca de 9,5 m€ por ano ao Man City e Otamendi 5 m€ por ano ao Benfica.
Ponto 3) o dinheiro recebido pela transferência é imediatamente contabilizado. Ou seja, o Benfica recebeu 56,6 m€ e o Man City 15 m€.
Ponto 4) Os valores para 2020 foram então 1) para o Benfica, de 56,6 m€ de redimento e 5 m€ de custos, i.e., 51,6 m€ de lucro e; b) para o Man City, de 15 m€ de rendimento e 9,5 m€ de custos, i.e., 5,5 m€ de lucro. Isto, claro, ignora a questão da amortização das transferências anteriores, especificamente da de Otamendi para o Man City (já lá chego).

Temos então que ambos os clubes lucraram. Claro que para 2021 ambos irão ter gastos, mas isso gere-se nessa altura, usando outras transferências.

O mesmo aconteceu na "troca" de Arthur e Pjanić entre Barcelona e Juventus. O primeiro foi para a Juventus por 72 m€ e o segundo para o Barcelona por 60 m€. Teoricamente isto resultaria num gasto líquido para a Juventus de 12 m€, mas não. Pjanić assinou por 4 épocas (custo de 15 m€ por época) e Arthur por 5 anos (14,4 m€ por ano). Isso significa que o Barcelona lucrou 57 m€ e a Juventus 45,6 m€. Isto sem contabilizar o valor residual dos contratos (já lá vou). Isso foi fundamental para o Barcelona poder equilibrar as contas e não entrar em conflito com o Financial Fair Play da UEFA.

O valor residual é outra história. Vamos usar Pjanić. O custo da sua transferência, por época, é de 15 m€. No entanto, ao fim de 2 anos, o seu custo residual é de 30 m€ (dos 60 m€ iniciais, 2x 15 m€ foram já pagos). Se nesse momento assinar um novo contrato por mais 2 anos, os 30 m€ residuais são distribuídos pelos 4 anos do novo contrato, trazendo assim os custos para 7,5 m€ por ano (alguns clubes oferecem novos contratos aos seus jogadores mais caros também por isto). Se no final dos 2 anos do novo contrato (4 no total) ele for vendido, os 15 m€ de valor residual têm que ser contabilizados como custo.

Isso significa que os meus cálculos acima da troca "Dias/Otamendi têm que ser revistos. Dias subiu pela formação, pelo que estes custos são insignificantes. Já Otamendi custou 44.5 m€ ao Man City em 2015. Não sei quantos contratos terá assinado, mas vamos assumir que apenas assinou uma extensão de 3 anos após 3 anos do contrato inicial. Nesse caso o custo residual foi de 5,8 m€. Fazendo assim as contas, a troca de Dias por Otamendi custou (contabilisticamente) uns 300 mil € ao Man City. Isto sem contabilizar salários, prémio, bónus e comissões, claro.

Isto tornou-se técnico, é certo, mas é curioso e faz-nos pensar. Uma das razões porque os grandes clubes continuam a dominar financeiramente poderá ser não só pelo seu poder financeiro inicial, mas também porque conseguem mais facilmente atrair gestores e contabilistas criativos que mantêm as contas em terreno positivo, mesmo quando os gastos são elevados. E não se pense que se trata apenas dos grandes clubes: todos o fazem, mas alguns são mais criativos que outros. Tudo isto me faz pensar que as universidades poderiam incluir transferências de futebolistas nas aulas de gestão financeira. Tenho a impressão que acordaria alguns alunos.

Sem cinema nem futebol

por Pedro Correia, em 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Ronaldo, o belo psicópata

por João André, em 14.09.20

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Quando Ronaldo alcançou na semana passada os 101 golos em jogos internacionais (apenas a 8 do recorde absoluto de Ali Daei), lembrei-me deste artigo de 2019 sobre Federer, Nadal e Djokovic. E lembrei-me dele essencialmente porque numa carreira da selecção já com 17 anos, Ronaldo marcou 46 dos 101 golos desde 2016 (e 2020 mal conta para isto), ou seja, depois dos 30. Se recuarmos a 2013, quando tinha 28 anos quando atingiu o que seria o pico para a maioria dos jogadores na sua posição, marcou 64 golos (e ainda houve o período em que não jogou muito pela selecção), ou seja, mais de 60% dos golos.

Podemos escrever muito sobre os motivos: a forma como a selecção melhorou em pessoal e em orientação técnica, podemos referir a ética e as qualidades únicas de Ronaldo, a sua inacreditável capacidade física mesmos aos 35 anos e até a forma como soube adaptar o seu jogo, minimizando-o mas tornand-se mais focado e excepcionalmente eficaz a marcar golos. Eu prefiro referir a sua fome e aquilo que nos diz.

É comum referir a forma como Ronaldo trabalha imenso, tem cuidado com o seu corpo e a vontade que continua a ter de vencer. Falar disso como se fosse excepcional é no entanto errado: não creio que o seja. Ronaldo é um ser humano excepcional, mas as suas características mentais provavelmente são comuns a vários outros desportistas, alguns dos quais poderão não passar da mediania mas só atingirão tal nível precisamente devido a esse desejo e dedicação. Gosto sempre de me lembrar de António Pereira, que conseguiu um recorde nacional e o 11º lugar nos Jogos Olímpicos de 2008 nos 50 km marcha e que se preparava apenas após passar pelo menos 8 horas por dia na sua profissão de electricista e que teria recebido como apoio apenas um par de sapatilhas oferecidas pela sua autarquia (cito de memória). Talvez a sua dedicação e fome não fossem menor que a de Ronaldo, mas os seus meios, especialmente físicos, eram-no certamente.

No entanto Ronaldo tem um aspecto que o distingue: apesar de continuar a vencer troféus e a arrecadar prémios individuais, a sua fome de mais não diminui. É comum ver equipas de enorme qualidade a perderem capacidade de vencer à medida que os seus jogadores "enchem a pança" e, apesar de a sua qualidade desportiva não ser menor, deixarem de conseguir competir como no passado. Alex Ferguson durou imenso como treinador (manager seria mais correcto) do Manchester United precisamente porque sabia ser necessário renovar a equipa (além de tomar decisões difíceis quando necessário). Ronaldo é dos poucos jogadores que nunca parecem satisfeitos com o que alcançaram e querem sempre mais, mesmo que seja do mesmo.

Federer, Nadal e Djokovic têm vindo a dominar o ténis nos últimos 15 anos, mais ou menos. E têm cada um mais Grand Slams que qualquer outro jogador. Independentemente de como eles sejam vistos por cada observador no que diz respeito às suas posições nas listas dos melhores de sempre, não há quaquer dúvida que a sua fome de títuos é verdadeiramente inacreditável. É verdade que cada um teve períodos de seca. Federer abrandou para passar mais tempo com a família, Djokovic para fazer o mesmo e reencontrar a sua fome de títulos e Nadal por motivos físicos, mas cada vez que qualquer um deles entra no court, os seus adversários sabem que estão a lutar para sobreviver e que qualquer erro será severamente punido.

No artigo acima, refere-se que um psicólogo desportivo considera os 3 como psicópatas, mas "em bom". Não entro nos detalhes, porque farei asneira num campo que não domino, mas a ideia é interessante, porque de facto, além das características físicas, aquilo que muitos dos grandes desportistas da história parecem partilhar é uma fome insaciável e uma capacidade de punir quaisquer lapsos de concentração.

Ronaldo parece ser um deles. A forma como é determinado a vencer todo e qualquer troféu, todo e qualquer jogo, todo e qualquer duelo individual, toda e qualquer jogada, evidencia uma pessoa com algum tipo de diferença na forma como o seu cérebro funciona. Parece ser alguém que quer esmagar o adversário, não porque tenha prazer na humilhação, mas porque retira prazer na forma como vence tudo. Num artigo que li, outros jogadores da selecção comentam como ele tem essa atitude competitiva mesmo a jogar ténis de mesa ou cartas. O recente "hagio-documentário" sobre Michael Jordan, The Last Dance, apontava para o mesmo tipo de comportamento pela antiga estrela dos Chicago Bulls.

Por isso mesmo, ainda que os seus dotes físicos estejam em declínio, a sua mentalidade levá-lo-à a procurar sempre mais. Talvez um dia isso o leve a procurar objectivos dolorosamente fora do seu alcance, talvez um dia vejamos Ronaldo a arrastar-se pelos campos em busca de duelos que possa vencer, nem que seja um raro golo ou um raro drible. Não o creio: Ronaldo demonstrou já ser inteligente o suficiente para saber que terá que se retirar. E, seja como for, há sempre outro tipo de desafios para focar a sua determinação.

Costa, Ventura, Vieira e Benfica

por Pedro Correia, em 14.09.20

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Vieira e Ventura: o criador e a criatura

 

Não sei se é a primeira vez que um chefe do Governo no activo integra a "Comissão de Honra" de um candidato à presidência de um clube de futebol. Mas é a primeira vez que surge na "Comissão de Honra" de um candidato arguido em processo-crime por grave suspeita de fraude fiscal (que resulta da Operação Saco Azul) e está indiciado noutros processos, nomeadamente por suspeita de corrupção, no âmbito da Operação Lex, que enviará para o banco dos réus pelo menos dois juízes, incluindo o ex-desembargador Rui Rangel.

 

Monumental escorregadela de António Costa, que noutras circunstâncias foi precavido ao ponto de ter recomendado aos seus ministros que «nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo» e fez até aprovar um código de conduta que impõe aos membros do Executivo que devam «abster-se de qualquer acção ou omissão, exercida directamente ou através de interposta pessoa, que possa objectivamente ser interpretada como visando beneficiar indevidamente uma terceira pessoa, singular ou colectiva»?

É óbvio que sim. O primeiro-ministro estava consciente dos potenciais danos deste apoio, mas confiou que só causaria brevíssima celeuma, logo sepultada na espuma dos dias. Ter-se-á tratado, em larga medida, de um risco assumido: Costa quer fazer marcação cerrada a André Ventura em matéria de benfiquismo militante, consciente de que o maior clube desportivo português pode ser um baluarte eleitoral em terreno político.

Não por acaso, Ventura é um dos raros opositores ao Governo que tardam a pronunciar-se sobre o apoio do primeiro-ministro ao presidente do SLB, a quem o actual líder do Chega deve tantos favores. Ao ponto de poder dizer-se que Ventura, iniciado nas lides mediáticas como escrevinhador do jornal do Benfica e comentador da Benfica TV, é uma criação de Vieira.

 

Acontece que Costa menosprezou a capacidade de indignação dos portugueses. Ao aceitar tornar-se "testemunha abonatória" de Vieira (tradução prática da inclusão do seu nome na tal "Comissão de Honra"), o chefe do Governo desautoriza as tímidas medidas legislativas anticorrupção anunciadas há dias pela ministra da Justiça e caminha sobre uma camada de gelo muito fino: Vieira integrou a lista dos maiores devedores do BES, causou perdas de 225 milhões de euros ao Novo Banco (de acordo com a auditoria feita pela Deloitte a esta entidade financeira) e poderá estar envolvido com a desacreditada construtora brasileira Odebrecht, implicada no escândalo Lava Jato.

Não faço ideia o que Vieira lhe terá dito como expressão do agradecimento pelo apoio do chefe do Executivo nesta campanha eleitoral em que enfrenta pelo menos três adversários à presidência do Benfica. Mas esta inconcebível trapalhada fornece um poderoso argumento à candidata presidencial Ana Gomes, que faz do combate à promiscuidade entre política e futebol uma das prioridades do seu discurso. Se Costa supunha que a polémica passaria depressa, enganou-se em toda a linha.

... e é isto.

por João Sousa, em 12.09.20

 

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Será falta de noção da responsabilidade dos cargos que ocupam? Será falta de vergonha? Será a convicção de um poder absoluto que lhes permite tudo?

Ou será uma combinação de todas as anteriores?

 

PS: e não esquecer que naquela "comissão de honra" também está o presidente da Câmara do Seixal - igualmente merecedor das perguntas que fiz.

O Bayern Munique venceu a Champions na Luz

por João Campos, em 23.08.20

Espero que os nossos profissionais de saúde - excepto os cobardes, claro, esses ingratos - tenham apreciado o seu "prémio merecido".

Frases de 2020 (24)

por Pedro Correia, em 12.08.20

 

«O Benfica vai jogar o triplo, vamos arrasar.»

Jorge Jesus, neobenfiquista, ao ser reapresentado como técnico do SLB cinco anos depois de ter sido de lá corrido

Faria rir se não fosse obsceno

por Pedro Correia, em 06.08.20

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Esta imagem mostra o requintado interior do Bombardier Global 5000, o jacto privado com 16 lugares utilizado por Luís Filipe Vieira para ir buscar ao Brasil a mais recente equipa técnica contratada para o futebol do seu clube. 

Este "saltinho" ao Rio de Janeiro - por mero capricho do presidente encarnado, em desespero perante a perspectiva de ser derrotado nas urnas em Outubro - terá custado a Vieira a módica quantia de 230 mil euros. Ou antes: terá custado ao clube, pois a verba há-de ser inscrita numa qualquer rubrica do orçamento chumbado pelos sócios da agremiação encarnada. 

Transformado em mordomo do novo técnico, Vieira promete pagar-lhe - apesar do chumbo orçamental - uns modestos 7 milhões de euros só em salário bruto anual, acrescidos de pelo menos 100 milhões de euros em jogadores que constam da lista de compras do treinador, sempre extensa e muito dispendiosa. Tudo isto, note-se, em tempos de grave crise pandémica e num cenário de abrupta quebra de receitas geradas pelo futebol, num país mergulhado na maior queda do PIB alguma vez registada em ciclo trimestral.

Mesmo assim, Vieira ainda se atreve a proclamar que o Benfica «é um clube do povo», em jeito de slogan eleitoral. Daria até para rir se não fosse obsceno.

Higiene visual e auditiva

por Pedro Correia, em 29.07.20

 

Durante anos recebemos no sossego do lar o entulho verbal de cartilheiros, muitas vezes ligados ao cordão umbilical de clubes desportivos e agindo como marionetas destes, poluindo as pantalhas com os seus gritos histéricos, o seu sectarismo patológico e a sua desonestidade intelectual. E a coisa, pelos vistos, até rende para além do reduto da bola: um desses pantomineiros, por sinal um dos mais sabujos, é hoje deputado da nação e lidera um putativo partido político.

Numa decisão que só peca por tardia, o director de informação da SIC acaba de pôr cobro a esta desbunda anunciando que deixará de dar tempo de antena aos chamados comentadores de cachecol, convocados para as diatribes em estúdio apenas por revelarem total falta de isenção. Esta medida de elementar higiene visual e auditiva não tardou a ser secundada pela direcção de informação da TVI, agora em início de funções.

 

Tudo bem. Questiono-me apenas se este gesto profiláctico não deveria ter sido assumido em primeiro lugar pela RTP, empresa estatal de televisão e rádio - e, portanto, com especiais responsabilidades, nomeadamente na não-discriminação de emblemas clubísticos nos seus painéis de comentário sobre futebol. Recordo-me que entre os bitaiteiros de cachecol com lugar cativo na RTP já figurou o actual presidente da Câmara do Porto, aliás protagonista de um contundente "abandono em directo" entre gritaria que terá congregado grande audiência.

Motivo acrescido para a minha interrogação: ao privilegiar os chamados "três grandes", ignorando todos os outros emblemas desportivos, a vetusta empresa de comunicação televisiva paga com o dinheiro dos nossos impostos entra em colisão com os princípios de serviço público. O mesmo se passa com a Antena 1 no plano radiofónico.

Mais vale tarde que nunca. Eis chegado o momento de perguntar se a Direcção de Informação da RTP tenciona seguir o bom exemplo agora posto em prática por dois canais privados ou se vai manter tudo na mesma, fingindo que nada tem a ver com este filme.

A extinção do "australopithecus futebolis"?

por João Campos, em 28.07.20

No fim-de-semana, comentei cá em casa que os comentadores do "Governo Sombra" estavam mais bem acompanhados na grelha televisiva no canal antigo - na SIC o programa vai para o ar na madrugada de Sexta para Sábado logo a seguir a um reality show manhoso (passe o pleonasmo), enquanto na TVI era antecedido pelo "Mais Futebol", provavelmente o único programa civilizado sobre futebol da televisão portuguesa. Não que acompanhe programas de futebol, modalidade à qual ligo menos a cada ano (não me consigo lembrar de qual foi o último jogo que assisti na íntegra, agora que penso nisso), mas sempre que por algum motivo passava pela TVI 24 durante a emissão do programa e lá parava durante alguns minutos não podia deixar de notar no tom cordial e animado da conversa, e em algumas rubricas curiosas. E este tom era notório pelo contraste para com a esmagadora maioria dos programas de "comentário" de futebol dos canais por cabo. Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.

Vem isto a propósito da decisão anunciada pela SIC de terminar dois dos programas de "comentário" de futebol que têm nos seus painéis comentadores que representam clubes de futebol - ou, para ser rigoroso, comentadores que representam os "três grandes", pois dos restantes ninguém quer mesmo saber (diz-se que em Portugal só se liga a futebol, quando se fala de desporto, o que é manifestamente falso - na verdade, só se liga ao futebol de três clubes. O resto é cenário). O motivo para este cancelamento, ao que parece, é a "toxicidade" dos programas - uma toxicidade que não é de agora, mas que se terá porventura tornado mais evidente após os quase três meses de sossego a que a pandemia obrigou. Não sei se entre Março e Junho alguém sentiu falta daquelas horas de gritaria inútil nos canais de notícias; da parte que me toca, no que à comunicação social diz respeito a paragem forçada da bola terá sido uma das raras consequências positivas do confinamento. Houve muita coisa de que tive saudades durante os últimos meses (de algumas ainda tenho), mas não tive de todo saudades de passar por canais de notícias e de ver três ou quatro australopithecus futebolis a rosnar por causa de rumores da bola em vez de, sei lá, noticiários, documentários e outros programas informativos. Programas que até podiam não me interessar, mas que pelo menos não apelam aos piores instintos de quem neles participa, e da audiência que os segue.

E, ao que parece, a TVI já seguiu o exemplo da sua concorrente de Carnaxide, anunciando também o fim de dois destes programas.

É claro que, por si só, a decisão da SIC e da TVI de terminar os programas em causa não erradica, talvez nem reduza de forma significativa, a toxicidade de tudo o que rodeia o futebol contemporâneo, cada vez mais um factor de divisão, de segregação e de tribalismo cego e menos uma competição desportiva capaz de agregar adeptos rivais - não inimigos, mas rivais, a diferença é subtil e determinante. Mas nem por isso deixa de ser um sinal. Esperar que isto seja o início da extinção do australopithecus futebolis na televisão portuguesa talvez seja excesso de optimismo - há as audiências, claro, e é sempre possível que outros canais aproveitem o vácuo para reforçar os seus painéis de gritaria. Mas talvez haja mais canais a seguir o gesto, dando menos tempo de antena à intriga e à guerrilha promovidas pelos departamentos de comunicação de três agremiações e mais espaço ao que interessa no tema: à modalidade, ao futebol em si. Para já ainda é pouco, mas se isto contribuir para um bocadinho menos de ruído inútil na televisão, já não será mau.

Da absoluta falta de vergonha

por Pedro Correia, em 20.07.20

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Foto: Manuel de Almeida / Lusa

 

Há cinco anos, Jorge Jesus chegou ao termo da relação contratual que mantinha com o Benfica: a entidade patronal decidiu não lhe renovar o vínculo apesar de se ter sagrado campeão nacional de futebol. Em articulação estreita com Jorge Mendes, empresário do treinador, "ofereceu-lhe" um longínquo desterro no emirado do Catar que culminaria numa hipotética transferência para o PSG - tudo à revelia do técnico, apanhado de surpresa neste fim de linha quando pretendia permanecer na Luz.

Sabe-se o que aconteceu depois. Jesus recusou o emirado e atravessou a Segunda Circular, convidado por Bruno de Carvalho para treinar o Sporting. Vieira, furioso, declarou guerra ao seu "melhor amigo". O treinador e a sua equipa técnica foram impedidos de entrar nas instalações do Seixal para esvaziarem os cacifos com os seus pertences, a fotografia de Jesus no bicampeonato foi de imediato retirada da "megaloja" benfiquista e logo os papagaios tarefeiros (incluindo um fulano que é agora deputado) começaram a denegri-lo serão após serão nas pantalhas onde lhes dão tempo de antena.

Valeu de tudo. Acusaram-no de roubar software do clube em benefício do Sporting, negaram-lhe o pagamento do último salário na Luz e moveram-lhe até um processo-crime exigindo uma inédita indemnização de 14 milhões de euros por supostos prejuízos jamais confirmados, sempre com o incentivo nada desinteressado dos cartilheiros de turno, especialistas em danos reputacionais.

A 7 de Setembro de 2016, em entrevista à TVI, Vieira foi peremptório: «Jorge Jesus não serve para este Benfica.»

 

Pois o indivíduo que há cinco anos colocou os patins a Jorge Jesus e atiçou a matilha contra ele é o mesmo que agora, acossado por uma sucessão de escândalos judiciais e vergado a uma humilhante derrota em recente assembleia geral, vai buscar o treinador ao Rio de Janeiro, como se fosse mordomo dele, e lhe oferece boleia em jacto privado, prontificando-se a pagar pelo menos 25 milhões de euros só para o trazer de volta e prometendo-lhe «o maior investimento da história do Benfica». Ridicularizando o administrador financeiro da SAD benfiquista, que em recentes declarações avisara: «Provavelmente haverá uma travagem em termos de investimento, admito que haja uma redução, este ano investimos cerca de €60 milhões.»

O motivo é só um: daqui a três meses haverá eleições no clube. Vieira, presidente desde 2003 e tendo visto fugir para o FC Porto o segundo campeonato em três anos, está apavorado com a hipótese de ser chumbado nas urnas.

Até onde chega o desespero. E, sobretudo, até onde chega a absoluta falta de vergonha.

 

ADENDA: «O que passou-se?». Bruno Vieira Amaral escreve sobre o tema na Tribuna Expresso.

Futebol ou Saúde? Saúde!

por João André, em 30.06.20

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Quando se começou a história do "desconfinamento", vieram logo os clubes perguntar se poderiam jogar. Questões de dinheiro, está claro, especialmente para os maiores. Muita discussão houve sobre os jogos à porta fechada, se fariam ou não sentido. Aquilo que para mim não fez sentido foi recomeçar de todo os jogos. Não porque "futebol sem espectadores não é futebol", como dizem muitos do redondo das suas barriguinhas que devem ter dados os últimos toques na bola ao mesmo tempo que Maradona atava ingleses. Tão só porque o futebol, mesmo sem espectadores no estádio, não deixa de ter espectadores fora dele, espectadores que se juntam para ver jogos e, em certas alturas, para festejar desfechos.

As imagens acima demonstram o que se passou em Nápoles, cidade há muito privada de alegrias desportivas e também a sofrer das medidas italianas, e em Liverpool, onde o principal clube local (e possivelmente nacional) não vencia o campeonato há 30 anos, numa altura em que a competição ainda nem existia na forma actual. Os adeptos vieram à rua festejar e o distanciamento social resumiu-se a não conviverem com adeptos de outros clubes.

A Liga Belga decidiu cancelar o resto da época e atribuir o título ao clube que estava em primeiro lugar quando a interromperam. A Liga Holandesa abandonou a época, cancelou subidas e descidas de divisão e não atribuiu o título, apenas atribuindo as qualificações para competições europeias com base na classificação no momento da interrupção. Fizeram isto seguindo as ordens do governo holandês de cancelar eventos públicos até 1 de Setembro. A Liga Francesa também cancelou o resto da época e as classificações ficaram as do momento da interrupção, dando também título.

Talvez haja países onde as condições permitam continuar as ligas sem grandes problemas, como foi o caso da Alemanha, que prosseguiu o campeonato e após o final não se viram grandes celebrações pela cidade de Munique. Nos restantes países, a melhor solução talvez fosse simplesmente não se jogar mais (e o mesmo é válido para as competições europeias). No caso português, isso poderia passar por anular a competição como na Holanda ou cancelar o restante como na Bélgica e França. Eu teria preferido esta segunda opção, dando o título ao FC Porto (que liderava na altura da interrupção) e restantes lugares de acordo com as suas posições.

Não haveria soluções ideais, mas parece hoje claro que o COVID-19 está a regressar e a ganhar força. Ir pela solução que privilegiasse a saúde seria talvez a opção menos má.

 

PS - como benfiquista, tal escolha ter-me-ia poupado às tristes figuras do meu clube. Está claro que o Benfica não soube gerir a interrupção. Já o Sporting de vários dos meus colegas de blogue parece tê-lo feito bem.

O caluniador

por Pedro Correia, em 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

Pinto da costa e o seu ungido

por Pedro Correia, em 08.06.20

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Já houve vários presidentes da Câmara de Lisboa sócios do Sporting. Nas últimas três décadas, lembro-me de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues.

Imaginem a gritaria que não haveria, lá mais para Norte, se o presidente da Câmara de Lisboa, estando no exercício destas funções, aceitasse encabeçar uma lista concorrente a um órgão social do FC Porto. Não faltaria gente a rasgar as vestes, urrando contra a «promiscuidade entre a política e o futebol», exigindo imediata separação de águas.

Pois isso mesmo acaba de acontecer no FC Porto, com o actual alcaide da Invicta a encabeçar a lista para o Conselho Superior da agremiação azul e branca, sem que isso pareça perturbar as boas almas que reclamam linhas divisórias entre bola e política.

Rui Moreira aceitou o encargo, consciente de que isso o coloca na primeira linha dos ungidos, como presumível sucessor de Pinto da Costa, agora reeleito para o 15.º mandato à frente do clube, onde já leva 38 anos como dirigente máximo. Um mandato que, por vontade própria, poderá não levar até ao fim.

O astuto PdC, que nunca dá ponto sem nó, não apenas vence de forma categórica (com mais de dois terços dos votos expressos, 68,7%) a eleição para presidente da Direcção como suplanta a percentagem alcançada por Moreira (65%) na votação para o Conselho Superior. Numa espécie de aviso à navegação interna que evoca os dramas de Shakespeare: convém que o protegido nunca seja mais popular do que o seu mentor.

Não há bem que sempre dure

por João Sousa, em 04.06.20

Algo destes primeiros meses de Covid que me vai deixar saudades: não houve futebol.

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É preciso é que a bola role

por Pedro Correia, em 03.06.20

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Recomeça hoje o mais estranho campeonato nacional de futebol das nossas vidas. À porta fechada, como se as bancadas dos recintos desportivos, ao ar livre, fossem perigosíssimos focos de contágio. Isto quando o Governo já autorizou a reabertura de centros comerciais.

Um campeonato que esteve parado quase três meses, que tenta mudar as regras da competição a meio como se isso não atentasse contra a elementar ética desportiva. Com uma equipa açoriana a jogar voluntariamente muito longe de casa, transformando numa farsa o discurso contra a macrocefalia lisboeta. Com a perspectiva inicial de se disputar "no menor número possível de estádios", que começaram por ser apenas nove mas que afinal serão dezassete. Tudo e o seu contrário sempre a pretexto do novo coronavírus.

 

Um futebol que assume o divórcio compulsivo entre jogadores e público, embora ainda lhe chamem espectáculo, apesar de proibirem sócios e adeptos de frequentar as bancadas dos seus estádios, enquanto se permite que a malta acorra ao Campo Pequeno para aplaudir o humorista Bruno Nogueira, com a complacente presença do primeiro-ministro. 

E a gente, do lado de fora, aplaude também. Cada vez menos cidadãos, cada vez mais súbditos deste Estado em incessante produção de decretos e portarias desdizendo numa semana o que dissera na semana anterior e vai tolerando chocantes excepções, até ao alegado "estado de emergência", enquanto proclama o primado da igualdade perante a lei.

 

É preciso é que a bola role sobre a relva e que a gente se entretenha de olhos fixos na pantalha. Todos embalados na cantilena do "novo normal" com o estribilho "vai ficar tudo bem" a servir de placebo enquanto nos dias pares se grita às pessoas para recolherem a casa (e se for preciso encerram-se em "cerca sanitária") e nos dias ímpares se estimula as pessoas a saírem de casa e "consumirem" seja o que for com o dinheiro que deixaram de ter.

Que soe o apito inicial. Quero lá saber do "desconfinamento", estou-me nas tintas para a "curva exponencial", tenho raiva a quem sabe o que é uma zaragatoa: quero é bola. Eis-me pronto a trocar o estádio pelo sofá, em festiva celebração do "distanciamento social" - expressão que todos usam sem fazerem a menor ideia do que significa.

Até já estou de cachecol, apesar do calor. E se a Senhora Directora-Geral da Saúde mandar, assisto obedientemente aos jogos em casa de máscara e luvas, como faz agora o Senhor Presidente quando frequenta um restaurante para mostrar aos portugueses como este doce país se tornou muito mais seguro com ele ao leme.

Uma aritmética muito peculiar

por Pedro Correia, em 31.05.20

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Informa-me o Primeiro Jornal da SIC que a Direcção-Geral de Saúde «aprovou 17 estádios» para o recomeço (ou "novo começo", sejamos rigorosos) do campeonato nacional de futebol. Ora havendo 18 equipas neste campeonato e duas deles «não jogarem em casa», como revela o mesmo telediário à mesmíssima hora (13.54 de hoje), causa-me alguma perplexidade esta aritmética tão peculiar.

 

Assim intrigado, deixo algumas questões:

- Qual terá sido o único estádio, em 18 possíveis, que não mereceu o visto prévio da DGS?

- Se 17 em 18 obtiveram luz verde, qual foi o clube que, vendo o seu estádio apto para a competição, recusou usá-lo?

- Como reagirão os adeptos a tal opção, que desconsidera as instalações do próprio clube?

- Dezoito menos dois ainda serão dezasseis ou poderão tornar-se dezassete na aritmética "pós-moderna"?

- Será falha de memória minha ou o "código de conduta" elaborado pela DGS e tornado público a 19 de Maio (apenas há 12 dias) estipulava, em termos categóricos, que «deve ser utilizado o menor número possível de estádios» neste regresso às competições desportivas?

- Dezassete em dezoito será mesmo «o menor número possível»?

 

Responda quem souber. O meu ábaco não dá para mais.

Estádios, aviões e televisão

por Pedro Correia, em 28.05.20

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2 de Maio:
O transporte aéreo de passageiros vai ser limitado a dois terços da lotação normalmente prevista para cada aeronave, definiu o Governo, em portaria no Diário da República.

21 de Maio:
A partir de 1 de Junho, o transporte aéreo vai deixar de ter um limite máximo de lotação, anunciou o Ministério das Infraestruturas.

 

Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.

Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.

Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.

 

Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.

Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas - em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas - sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?

Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional. 

É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos - nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época - seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo - contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto - acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.

 

Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.

E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.

Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.

 

Leitura complementar:

DGS queria "o menor número possível de estádios" e entretanto foram aprovados 14. O que aconteceu? Nada, era "apenas uma indicação".

Irão jogar de máscara?

por Pedro Correia, em 06.05.20

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Há coisas que custam a entender. Uma delas foi o anúncio, feito há dias pelo Governo, do regresso (sem espectadores) das competições referentes à primeira liga a partir do último fim de semana deste mês. É uma excepção dentro da excepção, pois os campeonatos das restantes modalidades colectivas (andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol) já tinham sido declarados concluídos por via administrativa, sem haver campeão designado. Se esta disparidade já era digna de suscitar críticas, maior contestação deve merecer o duplo critério reservado ao futebol profissional: as regras agora anunciadas aplicam-se apenas ao primeiro escalão e não ao segundo.

Em nome de que equidade desportiva?

 

O mais incompreensível, para mim, é que este anúncio seja divulgado no mesmo pacote de medidas destinadas a reforçar as acções profilácticas no combate ao coronavírus.

Faz algum sentido decretar-se o uso obrigatório de máscaras no comércio, nos transportes públicos, nos estabelecimentos escolares e em muitos locais de trabalho para prevenir a expansão da pandemia e autorizar-se em simultâneo o regresso da principal competição de futebol, desporto de permanente contacto físico e sem possibilidade de imposição de regras de "distanciamento social", desde logo nos balneários?

Antecipo a resposta: não, não faz.

Que exemplo dá o futebol à sociedade, com o beneplácito do Governo? Antecipo também a resposta: um péssimo exemplo. A menos, claro, que os futebolistas passem a jogar de máscara. E paguem coima por cada cuspidela.

 

ADENDA - Em França, na Holanda e na Bélgica o futebol profissional terminou antes de concluído o calendário inicial previsto para as competições. E a Itália poderá seguir o mesmo rumo. Enquanto na Alemanha surgiram agora dez jogadores infectados com o coronavírus. O que vai suceder se o mesmo acontecer cá?

Da glória à tragédia no espaço de dias

por João Pedro Pimenta, em 10.04.20

 

Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

Atalanta, boom di abbonamenti Oltre 5mila in soli tre giorni in ...

 

É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem se lembrasse de lhe dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

 

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...


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