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Delito de Opinião

Livrem-se

Pedro Correia, 10.05.21

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O senhor J. Paulo Rebelo, alegado secretário de Estado do Desporto, andou a dizer por aí que o Governo está preocupado com as manifestações de júbilo dos sportinguistas na mais que previsível comemoração do título de campeão nacional de futebol.

«Será muito difícil conter em absoluto manifestações de adeptos que naturalmente surgirão», concedeu o suposto governante em declarações a um canal televisivo. Admitiu que será muito difícil «neutralizar as manifestações» de júbilo. E adiantou que «o melhor é enquadrá-las», resta ver de que maneira. 

Não sei, neste contexto, o que significa a salazarenta expressão «conter em absoluto», não havendo sequer estado de emergência que permita «neutralizar» manifestações. Querem suspender de vez a Constituição da República? Tudo é possível.

Pela minha parte, venho solicitar ao dito cavalheiro para transmitir quanto antes ao primeiro-ministro, assumido adepto do Benfica, que nós iremos celebrar o título como quisermos, quando quisermos e onde quisermos. Na varanda, à janela, no estádio, na rua, na praia, na praça ou no jardim. Sem esquecermos as normas sanitárias mais elementares, mas sem escondermos a alegria, perfeitamente compreensível.

Ninguém irá impedir-nos, ninguém conseguirá «neutralizar-nos». Muito menos um antigo membro da desonrosa Comissão de "Honra" da recandidatura do senhor Luís Filipe Vieira, cujo grupo económico figura em segundo lugar na lista dos 20 maiores devedores do Novo Banco - com prejuízos pagos pelos contribuintes portugueses - e arriscava um pedido de insolvência quando anunciou que seria recandidato às eleições "encarnadas" de há sete meses.

Livrem-se de tentar condicionar-nos. E que isto fique registado em acta desde já.

Rui Moreira

jpt, 28.04.21

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(Postal para o És a Nossa Fé)

São 40 anos disto. O historial das influências manipuladoras dos resultados desportivos nunca será completado, muitas esquecidas na voragem dos tempos, outras silenciadas, por falta de provas e de coragens. Modo de estar amparado por acólitos que tendiam a sovar jornalistas - ainda me recordo da impunidade com que, no Aveiro de 1988, foi agredido o grande jornalista Carlos Pinhão, aos seus 64 anos. E modo de estar catapultado pela inércia judicial e pela cumplicidade política, em particular autárquica - poucos ainda se lembrarão quando o presidente da câmara Fernando Gomes, encavalitado no clube, desceu a Lisboa arvorado em ministro e com sonhos de conquistar não o Jamor mas sim São Bento. Foi-lhe breve o enleio, logo tendo regressado, capachinho entre as pernas, para a administração do F.C. Porto entre outras sinecuras. 

Neste longo consulado de "Jorge Nuno", como o saúdam os apaniguados, o hábito de atiçar jagunços para espancar jornalistas seguiu algo viçoso nas suas duas primeiras décadas. Depois feneceu, pois a sucessão de triunfos internos desestruturou clubes rivais, amainou a competição. Nesse rumo mais favorável impôs-se a procura de respeitabilidade pública. E nisso o culto da "mística" do clube foi apelando cada vez mais a uma qualquer "alma" feita de arreganho desportivo, depurando-se da imagem de corsários em abordagem: a fleuma de Robson e a sua versão lusa, por isso algo mais arisca, em Santos, Jesualdo Ferreira, e mesmo no júnior Villas-Boas, foi-se sedimentando, apesar da alguma irascibilidade bem-sucedida de Pereira ou Mourinho.

É certo que a vigência de uma placidez - democrática - nunca foi absoluta, e que a vertigem provocatória e agressiva nunca desapareceu, com a própria conivência da imprensa. Lembro-me que há alguns anos um conhecido comentador televisivo atreito ao SLB foi "abanado" num restaurante portuense por um famigerado líder de claque portista. Como tantos deixei eco disso no meu mural de FB, lamentando o facto. De imediato recebi um bem-disposto comentário desvalorizando o abanão no sexagenário mediático, algo tipo "foi coisa pouca". Respondi-lhe, indignado, "como é possível que sendo V. o nº 1 da Lusa desvalorize uma situação destas em nome do seu clubismo?". Logo o arauto me insultou e cortou a ligação-FB. Lembro este "fait divers" para sublinhar isso da vontade agressora não residir apenas nos aprendizes de proxeneta medrados na Invicta, pois sempre seguiu robusta naquele mundo de "senhores doutores".

As décadas passaram. O natural ocaso do octogenário "Jorge Nuno" é este, o que agora acontece. O controlo do jogo algo se reduziu, devido à dança de poderes nos meandros nacionais mas também à introdução de tecnologias electrónicas na arbitragem. E nisso, no envelhecimento do prócere e no crescimento do imprevisto futebolístico, voltou-se ao culto do "pancadarismo". O rufia treinador, desde [ante]ontem cognominado "Sérgio Confusão", cujo histrionismo passa incólume, afirma-se como "imagem de marca" do clube ressuscitando a velha ideia da tal "mística" corsária. O que inclui, claro, o espancamento avulso de jornalistas - agora já não por obscuros seguranças de bordéis portuenses mas por "empresários" montados em carros de estatuto, uma óbvia gentrificação da escroqueria portista.

No meio de tudo isto, antigo exaltado porta-voz televisivo das manobras clubísticas e agora eleito figura-maior dos órgãos do clube - apesar da propalada actual renitência do poder político em associar-se aos mariolas do futebol -, qual putativo Delfim, flana Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto. De (quase) tudo soube, de tudo sabe, a tudo anui. E assim ... a tudo conspurca.

Maradona, o maior de sempre - porque eu o digo

João André, 21.12.20

O Pedro deixou aqui há dias um post sobre notícias acerca da morte de Maradona. Noto que o Pedro parece não gostar de ver Maradona a ser considerado o melhor futebolista de todos os tempos. É direito seu, como é óbvio. Não há uma forma de definir quem o possa ter sido e até surgir alguém que marque 1.000 golos, vença 4 campeonatos do mundo, 10 bolas de ouro e 15 ligas dos campeões, não creio que a discussão alguma vez termine. Mas deixo umas notas.

Antes de mais o óbvio que referi acima e reitero: o L'Équipe, tal como o Pedro, pode considerar quem quiser o melhor de todos os tempos. E colocar tal afirmação na capa. Chatearmo-nos com isso é inútil.

Em resposta ao Pedro, seria fácil dizer que Maradona teve um Campeonato do Mundo com uma equipa mediana e foi finalista com uma equipa medíocre numa altura em que era essa a principal competição futebolística do mundo (a Liga dos Campeões vinha ainda a uns anos).

Lembremos também que Maradona (como Pelé, Di Stefano, Beckenbauer e muitos outros), viveu num período pré-Bosman. O acordão Bosman veio não só abrir as portas às equipas europeias para terem múltiplos jogadores estrangeiros como, num período de boom económico, permitiu a criação das super-equipas que vemos hoje. Maradona teve no Nápoles Careca e Alemão como principais colegas. Messi teve o luxo de ter mais de metade da equipa espanhola campeã do mundo e Ronaldo também não andou a sofrer. Até Mbappé (potencialmente o próximo dominador) tem direito a luxo à sua volta. São períodos bem diferentes.

Há ainda as regras do jogo. Algumas "cacetadas" que dariam hoje vermelho directo não seriam mais que faltas nos anos 80. Algumas vezes nem isso. Ver Maradona (ou Futre, ou Stojkovic ou outros mestres do drible desses tempos) é vê-los a fintar com bola e com pernas, fazendo a bola fugir e depois mantendo o equilíbrio perante a perna adversária ou evitando-a. Não haveria a possibilidade das cavalgadas dos génios de hoje.

Maradona conseguiu ser campeão de Itália numa altura em que a competição era mais cerrada que a Liga dos Campeões de hoje (ou talvez igualmente difícil). Teve como adversários a Juventus, o Milan (Sachi, Gullit, van Basten), a Sampdoria, o Inter, o Hellas Verona (tinham na altura Elkjaer e Briegel) e outros tantos. Não era coisa pouca.

Mas sejamos sinceros: Maradona teve outromais que um Ronaldo não tem. Magia. Uma magia que não se viu antes e não se viu depois. Havia coisas que Maradona fazia com uma bola nos pés que não fazia sentido sequer imaginar. Maradona imaginava, visualizava e executava. Além disso era uma personalidade cativante que falava para (pelas?) massas mais desprezadas. Até a sua ligação à mafia napolitana era assente nesse apelo popular dele. Fazer a pergunta sobre "o que tinha ele que Ronaldo não tinha" não faz sentido nem em termos futebolísticos nem em termos pessoais. Era óbvio aquilo que um e outro tinham (tem) ou não. Mas aquilo que Ronaldo não tem e nunca terá é uma paixão sem limites. Não é crítica a Ronaldo, porque tal paixão é prejudicial. Mas é sem a menor dúvida a razão para o fascínio que a figura de Maradona exerce.

Quanto ao fascínio futebolístico. Bom, quem não o compreender tem muitos desportos com que se entreter. Crochet, por exemplo.

Maradona e Cristiano Ronaldo

Pedro Correia, 18.12.20

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Ando a ouvir e a ler, há semanas, que Maradona foi o melhor futebolista de todos os tempos. A pretexto da sua morte, as hipérboles sucederam-se numa espiral de títulos delirantes: não faltaram jornais a gritar em manchete que Deus tinha morrido. 

Distante de tudo isto, e sem paciência para esta canonização laica do astro argentino que foi campeão mundial em 1986, limito-me a perguntar: o que tinha Maradona a mais do que tem, por exemplo, o nosso Cristiano Ronaldo?

Maradona

jpt, 29.11.20

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Há alguns séculos no leste do Mediterrâneo contavam-se inúmeras histórias populares. Para fixar e preservar essa oratura, ou folclore como também foi chamado, foi constituído o primeiro Centro de Estudos Etnográficos e Filológicos da história. Ficou conhecido como HOMERO (um acrónimo, ao que julgo saber).
 
Uma das histórias que esses etnógrafos recolheram foi a do herói - ou seja, bastardo de deus - Aquiles. Um tipo fora a casa de outro e fugira com a "mulher do dono". Há quem diga que foi um "rapto de mulher", qual sabina, outros - mais românticos - acreditam que foi coisa d'amor, pouco importa. Os amigos do dono juntaram-se e, em bando, foram recuperá-la. Não foi um coisa tipo KKK, pois apesar do atrevido viver na Ásia não era cigano. Nem preto. Foi muito mais uma cena de "padrinhos", que um chefe não rouba a mulher do outro, é isso a honra ...
 
Quando lá chegaram houve zanga, e grave: Aquiles era o nº 1 do ranking, o MVP da equipa, e por isso carregava a nº 10. Mas ainda assim o treinador, pois o "capo del tutti capi", Agamemnon de seu nome, roubou-lhe a escrava que ele usava sexualmente (nem o dr. Ba nem a Comissão da Condição Feminina têm abordado a situação com a atenção devida ...). Indignado, Aquiles amuou e recusou-se a ir a jogo. Cumpriram-se várias jornadas da competição e o torneio estava a correr mal aos forasteiros, desprovidos do seu astro. Então promoveram um sub-23, prometedor, deram-lhe a tal camisola 10 e a titularidade. Correu mal. Ao saber daquilo, do junior desgraçado, Aquiles caiu em fúria excessiva - logo tablóides aventaram, e ainda aventam pois sempre em busca de escândalos, que ambos eram LGBT, e isso apesar de toda a bronca devida à escrava sexual. Mas tablóide é tablóide.
 
Enfim, tão irado ficou o campeão que saiu à liça, teve uma entrada assassina sobre o capitão adversário, devastando-o de tal modo, completamente "à margem das leis", que o treinador adversário, condoído, entrou em campo a pedir calma.
 
(É certo que depois as coisas não vieram a correr bem a Aquiles. Pois num torneio posterior um tal de Erínea, ou terá sido o Nemésis, não sei bem, fez-lhe uma entrada venenosa ao calcanhar, tão grave que lhe acabou a carreira, de modo precoce).
 
A história ficou. E este é o modelo de herói que seguimos, e tanto amamos, há muito tempo. Nós os pérfidos "ocidentais", netos daquela Grécia. E muitos outros (atrevidos na "apropriação cultural" que desavergonhadamente fazem). Herói pois caprichoso, abusador, furioso, glorioso. Excessivo! E interrompido, breve, pois derrotado após um (in)findável ciclo de vitórias. Nisso tudo Semi-Deus. Frágil nisso, para além da Ética.
 
A ele regresso sempre. Mais agora quando vejo tanto rato de sacristia resmungar contra o nada-exemplar Maradona, pois nada molde de bom pai de família, de honesto pároco ou de recto professor. Pobre gente que nada percebe. Dos homens. E, mais do que tudo, dos deuses e seus bastardos ...
 
Aqui deixo Maradona no Argentina-Bélgica no campeonato do Mundo de 1986. Há quem perceba ... E quem não possa perceber.

As transferências futebolísticas como caso-estudo de gestão

João André, 14.10.20

Andei com afazeres pessoais e sem tempo para parvoíces, por isso foi engraçado espreitar os desenvolvimentos no futebol europeu e descobrir (uns dias tarde) que Rúben Dias tinha ido para o Manchester City e que Otamendi tinha seguido na direcção oposta. Tirando questões desportivas para o lado (como o facto de os centrais do meu Benfica terem agora uma média de idades superior à da mãe de Eusébio), achei engraçada a discussão que li nos posts de alguns amigos sobre se tinham sido duas vendas (Dias para um lado e Otamendi para o outro) ou uma troca (vendendo Dias por dinheiro e Otamendi).

Ora, sem querer estar a fazer afirmações peremptórias sobre a gestão dos dois clubes, deixo aqui a explicação para serem duas vendas e porque razão resultaram em lucro para ambos os clubes.

Ponto 1) Dias foi vendido por 56,6 m€ e assinou contrato por 6 anos. Otamendi foi vendido por 15 m€ e assinou por 3 anos.
Ponto 2) os clubes usam a amortização do valor da aquisição do jogador ao longo do contrato nas suas práticas de contabilidade. Isto significa que Dias custa cerca de 9,5 m€ por ano ao Man City e Otamendi 5 m€ por ano ao Benfica.
Ponto 3) o dinheiro recebido pela transferência é imediatamente contabilizado. Ou seja, o Benfica recebeu 56,6 m€ e o Man City 15 m€.
Ponto 4) Os valores para 2020 foram então 1) para o Benfica, de 56,6 m€ de redimento e 5 m€ de custos, i.e., 51,6 m€ de lucro e; b) para o Man City, de 15 m€ de rendimento e 9,5 m€ de custos, i.e., 5,5 m€ de lucro. Isto, claro, ignora a questão da amortização das transferências anteriores, especificamente da de Otamendi para o Man City (já lá chego).

Temos então que ambos os clubes lucraram. Claro que para 2021 ambos irão ter gastos, mas isso gere-se nessa altura, usando outras transferências.

O mesmo aconteceu na "troca" de Arthur e Pjanić entre Barcelona e Juventus. O primeiro foi para a Juventus por 72 m€ e o segundo para o Barcelona por 60 m€. Teoricamente isto resultaria num gasto líquido para a Juventus de 12 m€, mas não. Pjanić assinou por 4 épocas (custo de 15 m€ por época) e Arthur por 5 anos (14,4 m€ por ano). Isso significa que o Barcelona lucrou 57 m€ e a Juventus 45,6 m€. Isto sem contabilizar o valor residual dos contratos (já lá vou). Isso foi fundamental para o Barcelona poder equilibrar as contas e não entrar em conflito com o Financial Fair Play da UEFA.

O valor residual é outra história. Vamos usar Pjanić. O custo da sua transferência, por época, é de 15 m€. No entanto, ao fim de 2 anos, o seu custo residual é de 30 m€ (dos 60 m€ iniciais, 2x 15 m€ foram já pagos). Se nesse momento assinar um novo contrato por mais 2 anos, os 30 m€ residuais são distribuídos pelos 4 anos do novo contrato, trazendo assim os custos para 7,5 m€ por ano (alguns clubes oferecem novos contratos aos seus jogadores mais caros também por isto). Se no final dos 2 anos do novo contrato (4 no total) ele for vendido, os 15 m€ de valor residual têm que ser contabilizados como custo.

Isso significa que os meus cálculos acima da troca "Dias/Otamendi têm que ser revistos. Dias subiu pela formação, pelo que estes custos são insignificantes. Já Otamendi custou 44.5 m€ ao Man City em 2015. Não sei quantos contratos terá assinado, mas vamos assumir que apenas assinou uma extensão de 3 anos após 3 anos do contrato inicial. Nesse caso o custo residual foi de 5,8 m€. Fazendo assim as contas, a troca de Dias por Otamendi custou (contabilisticamente) uns 300 mil € ao Man City. Isto sem contabilizar salários, prémio, bónus e comissões, claro.

Isto tornou-se técnico, é certo, mas é curioso e faz-nos pensar. Uma das razões porque os grandes clubes continuam a dominar financeiramente poderá ser não só pelo seu poder financeiro inicial, mas também porque conseguem mais facilmente atrair gestores e contabilistas criativos que mantêm as contas em terreno positivo, mesmo quando os gastos são elevados. E não se pense que se trata apenas dos grandes clubes: todos o fazem, mas alguns são mais criativos que outros. Tudo isto me faz pensar que as universidades poderiam incluir transferências de futebolistas nas aulas de gestão financeira. Tenho a impressão que acordaria alguns alunos.

Sem cinema nem futebol

Pedro Correia, 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Ronaldo, o belo psicópata

João André, 14.09.20

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Quando Ronaldo alcançou na semana passada os 101 golos em jogos internacionais (apenas a 8 do recorde absoluto de Ali Daei), lembrei-me deste artigo de 2019 sobre Federer, Nadal e Djokovic. E lembrei-me dele essencialmente porque numa carreira da selecção já com 17 anos, Ronaldo marcou 46 dos 101 golos desde 2016 (e 2020 mal conta para isto), ou seja, depois dos 30. Se recuarmos a 2013, quando tinha 28 anos quando atingiu o que seria o pico para a maioria dos jogadores na sua posição, marcou 64 golos (e ainda houve o período em que não jogou muito pela selecção), ou seja, mais de 60% dos golos.

Podemos escrever muito sobre os motivos: a forma como a selecção melhorou em pessoal e em orientação técnica, podemos referir a ética e as qualidades únicas de Ronaldo, a sua inacreditável capacidade física mesmos aos 35 anos e até a forma como soube adaptar o seu jogo, minimizando-o mas tornand-se mais focado e excepcionalmente eficaz a marcar golos. Eu prefiro referir a sua fome e aquilo que nos diz.

É comum referir a forma como Ronaldo trabalha imenso, tem cuidado com o seu corpo e a vontade que continua a ter de vencer. Falar disso como se fosse excepcional é no entanto errado: não creio que o seja. Ronaldo é um ser humano excepcional, mas as suas características mentais provavelmente são comuns a vários outros desportistas, alguns dos quais poderão não passar da mediania mas só atingirão tal nível precisamente devido a esse desejo e dedicação. Gosto sempre de me lembrar de António Pereira, que conseguiu um recorde nacional e o 11º lugar nos Jogos Olímpicos de 2008 nos 50 km marcha e que se preparava apenas após passar pelo menos 8 horas por dia na sua profissão de electricista e que teria recebido como apoio apenas um par de sapatilhas oferecidas pela sua autarquia (cito de memória). Talvez a sua dedicação e fome não fossem menor que a de Ronaldo, mas os seus meios, especialmente físicos, eram-no certamente.

No entanto Ronaldo tem um aspecto que o distingue: apesar de continuar a vencer troféus e a arrecadar prémios individuais, a sua fome de mais não diminui. É comum ver equipas de enorme qualidade a perderem capacidade de vencer à medida que os seus jogadores "enchem a pança" e, apesar de a sua qualidade desportiva não ser menor, deixarem de conseguir competir como no passado. Alex Ferguson durou imenso como treinador (manager seria mais correcto) do Manchester United precisamente porque sabia ser necessário renovar a equipa (além de tomar decisões difíceis quando necessário). Ronaldo é dos poucos jogadores que nunca parecem satisfeitos com o que alcançaram e querem sempre mais, mesmo que seja do mesmo.

Federer, Nadal e Djokovic têm vindo a dominar o ténis nos últimos 15 anos, mais ou menos. E têm cada um mais Grand Slams que qualquer outro jogador. Independentemente de como eles sejam vistos por cada observador no que diz respeito às suas posições nas listas dos melhores de sempre, não há quaquer dúvida que a sua fome de títuos é verdadeiramente inacreditável. É verdade que cada um teve períodos de seca. Federer abrandou para passar mais tempo com a família, Djokovic para fazer o mesmo e reencontrar a sua fome de títulos e Nadal por motivos físicos, mas cada vez que qualquer um deles entra no court, os seus adversários sabem que estão a lutar para sobreviver e que qualquer erro será severamente punido.

No artigo acima, refere-se que um psicólogo desportivo considera os 3 como psicópatas, mas "em bom". Não entro nos detalhes, porque farei asneira num campo que não domino, mas a ideia é interessante, porque de facto, além das características físicas, aquilo que muitos dos grandes desportistas da história parecem partilhar é uma fome insaciável e uma capacidade de punir quaisquer lapsos de concentração.

Ronaldo parece ser um deles. A forma como é determinado a vencer todo e qualquer troféu, todo e qualquer jogo, todo e qualquer duelo individual, toda e qualquer jogada, evidencia uma pessoa com algum tipo de diferença na forma como o seu cérebro funciona. Parece ser alguém que quer esmagar o adversário, não porque tenha prazer na humilhação, mas porque retira prazer na forma como vence tudo. Num artigo que li, outros jogadores da selecção comentam como ele tem essa atitude competitiva mesmo a jogar ténis de mesa ou cartas. O recente "hagio-documentário" sobre Michael Jordan, The Last Dance, apontava para o mesmo tipo de comportamento pela antiga estrela dos Chicago Bulls.

Por isso mesmo, ainda que os seus dotes físicos estejam em declínio, a sua mentalidade levá-lo-à a procurar sempre mais. Talvez um dia isso o leve a procurar objectivos dolorosamente fora do seu alcance, talvez um dia vejamos Ronaldo a arrastar-se pelos campos em busca de duelos que possa vencer, nem que seja um raro golo ou um raro drible. Não o creio: Ronaldo demonstrou já ser inteligente o suficiente para saber que terá que se retirar. E, seja como for, há sempre outro tipo de desafios para focar a sua determinação.

Costa, Ventura, Vieira e Benfica

Pedro Correia, 14.09.20

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Vieira e Ventura: o criador e a criatura

 

Não sei se é a primeira vez que um chefe do Governo no activo integra a "Comissão de Honra" de um candidato à presidência de um clube de futebol. Mas é a primeira vez que surge na "Comissão de Honra" de um candidato arguido em processo-crime por grave suspeita de fraude fiscal (que resulta da Operação Saco Azul) e está indiciado noutros processos, nomeadamente por suspeita de corrupção, no âmbito da Operação Lex, que enviará para o banco dos réus pelo menos dois juízes, incluindo o ex-desembargador Rui Rangel.

 

Monumental escorregadela de António Costa, que noutras circunstâncias foi precavido ao ponto de ter recomendado aos seus ministros que «nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo» e fez até aprovar um código de conduta que impõe aos membros do Executivo que devam «abster-se de qualquer acção ou omissão, exercida directamente ou através de interposta pessoa, que possa objectivamente ser interpretada como visando beneficiar indevidamente uma terceira pessoa, singular ou colectiva»?

É óbvio que sim. O primeiro-ministro estava consciente dos potenciais danos deste apoio, mas confiou que só causaria brevíssima celeuma, logo sepultada na espuma dos dias. Ter-se-á tratado, em larga medida, de um risco assumido: Costa quer fazer marcação cerrada a André Ventura em matéria de benfiquismo militante, consciente de que o maior clube desportivo português pode ser um baluarte eleitoral em terreno político.

Não por acaso, Ventura é um dos raros opositores ao Governo que tardam a pronunciar-se sobre o apoio do primeiro-ministro ao presidente do SLB, a quem o actual líder do Chega deve tantos favores. Ao ponto de poder dizer-se que Ventura, iniciado nas lides mediáticas como escrevinhador do jornal do Benfica e comentador da Benfica TV, é uma criação de Vieira.

 

Acontece que Costa menosprezou a capacidade de indignação dos portugueses. Ao aceitar tornar-se "testemunha abonatória" de Vieira (tradução prática da inclusão do seu nome na tal "Comissão de Honra"), o chefe do Governo desautoriza as tímidas medidas legislativas anticorrupção anunciadas há dias pela ministra da Justiça e caminha sobre uma camada de gelo muito fino: Vieira integrou a lista dos maiores devedores do BES, causou perdas de 225 milhões de euros ao Novo Banco (de acordo com a auditoria feita pela Deloitte a esta entidade financeira) e poderá estar envolvido com a desacreditada construtora brasileira Odebrecht, implicada no escândalo Lava Jato.

Não faço ideia o que Vieira lhe terá dito como expressão do agradecimento pelo apoio do chefe do Executivo nesta campanha eleitoral em que enfrenta pelo menos três adversários à presidência do Benfica. Mas esta inconcebível trapalhada fornece um poderoso argumento à candidata presidencial Ana Gomes, que faz do combate à promiscuidade entre política e futebol uma das prioridades do seu discurso. Se Costa supunha que a polémica passaria depressa, enganou-se em toda a linha.

Faria rir se não fosse obsceno

Pedro Correia, 06.08.20

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Esta imagem mostra o requintado interior do Bombardier Global 5000, o jacto privado com 16 lugares utilizado por Luís Filipe Vieira para ir buscar ao Brasil a mais recente equipa técnica contratada para o futebol do seu clube. 

Este "saltinho" ao Rio de Janeiro - por mero capricho do presidente encarnado, em desespero perante a perspectiva de ser derrotado nas urnas em Outubro - terá custado a Vieira a módica quantia de 230 mil euros. Ou antes: terá custado ao clube, pois a verba há-de ser inscrita numa qualquer rubrica do orçamento chumbado pelos sócios da agremiação encarnada. 

Transformado em mordomo do novo técnico, Vieira promete pagar-lhe - apesar do chumbo orçamental - uns modestos 7 milhões de euros só em salário bruto anual, acrescidos de pelo menos 100 milhões de euros em jogadores que constam da lista de compras do treinador, sempre extensa e muito dispendiosa. Tudo isto, note-se, em tempos de grave crise pandémica e num cenário de abrupta quebra de receitas geradas pelo futebol, num país mergulhado na maior queda do PIB alguma vez registada em ciclo trimestral.

Mesmo assim, Vieira ainda se atreve a proclamar que o Benfica «é um clube do povo», em jeito de slogan eleitoral. Daria até para rir se não fosse obsceno.

Higiene visual e auditiva

Pedro Correia, 29.07.20

 

Durante anos recebemos no sossego do lar o entulho verbal de cartilheiros, muitas vezes ligados ao cordão umbilical de clubes desportivos e agindo como marionetas destes, poluindo as pantalhas com os seus gritos histéricos, o seu sectarismo patológico e a sua desonestidade intelectual. E a coisa, pelos vistos, até rende para além do reduto da bola: um desses pantomineiros, por sinal um dos mais sabujos, é hoje deputado da nação e lidera um putativo partido político.

Numa decisão que só peca por tardia, o director de informação da SIC acaba de pôr cobro a esta desbunda anunciando que deixará de dar tempo de antena aos chamados comentadores de cachecol, convocados para as diatribes em estúdio apenas por revelarem total falta de isenção. Esta medida de elementar higiene visual e auditiva não tardou a ser secundada pela direcção de informação da TVI, agora em início de funções.

 

Tudo bem. Questiono-me apenas se este gesto profiláctico não deveria ter sido assumido em primeiro lugar pela RTP, empresa estatal de televisão e rádio - e, portanto, com especiais responsabilidades, nomeadamente na não-discriminação de emblemas clubísticos nos seus painéis de comentário sobre futebol. Recordo-me que entre os bitaiteiros de cachecol com lugar cativo na RTP já figurou o actual presidente da Câmara do Porto, aliás protagonista de um contundente "abandono em directo" entre gritaria que terá congregado grande audiência.

Motivo acrescido para a minha interrogação: ao privilegiar os chamados "três grandes", ignorando todos os outros emblemas desportivos, a vetusta empresa de comunicação televisiva paga com o dinheiro dos nossos impostos entra em colisão com os princípios de serviço público. O mesmo se passa com a Antena 1 no plano radiofónico.

Mais vale tarde que nunca. Eis chegado o momento de perguntar se a Direcção de Informação da RTP tenciona seguir o bom exemplo agora posto em prática por dois canais privados ou se vai manter tudo na mesma, fingindo que nada tem a ver com este filme.

A extinção do "australopithecus futebolis"?

João Campos, 28.07.20

No fim-de-semana, comentei cá em casa que os comentadores do "Governo Sombra" estavam mais bem acompanhados na grelha televisiva no canal antigo - na SIC o programa vai para o ar na madrugada de Sexta para Sábado logo a seguir a um reality show manhoso (passe o pleonasmo), enquanto na TVI era antecedido pelo "Mais Futebol", provavelmente o único programa civilizado sobre futebol da televisão portuguesa. Não que acompanhe programas de futebol, modalidade à qual ligo menos a cada ano (não me consigo lembrar de qual foi o último jogo que assisti na íntegra, agora que penso nisso), mas sempre que por algum motivo passava pela TVI 24 durante a emissão do programa e lá parava durante alguns minutos não podia deixar de notar no tom cordial e animado da conversa, e em algumas rubricas curiosas. E este tom era notório pelo contraste para com a esmagadora maioria dos programas de "comentário" de futebol dos canais por cabo. Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.

Vem isto a propósito da decisão anunciada pela SIC de terminar dois dos programas de "comentário" de futebol que têm nos seus painéis comentadores que representam clubes de futebol - ou, para ser rigoroso, comentadores que representam os "três grandes", pois dos restantes ninguém quer mesmo saber (diz-se que em Portugal só se liga a futebol, quando se fala de desporto, o que é manifestamente falso - na verdade, só se liga ao futebol de três clubes. O resto é cenário). O motivo para este cancelamento, ao que parece, é a "toxicidade" dos programas - uma toxicidade que não é de agora, mas que se terá porventura tornado mais evidente após os quase três meses de sossego a que a pandemia obrigou. Não sei se entre Março e Junho alguém sentiu falta daquelas horas de gritaria inútil nos canais de notícias; da parte que me toca, no que à comunicação social diz respeito a paragem forçada da bola terá sido uma das raras consequências positivas do confinamento. Houve muita coisa de que tive saudades durante os últimos meses (de algumas ainda tenho), mas não tive de todo saudades de passar por canais de notícias e de ver três ou quatro australopithecus futebolis a rosnar por causa de rumores da bola em vez de, sei lá, noticiários, documentários e outros programas informativos. Programas que até podiam não me interessar, mas que pelo menos não apelam aos piores instintos de quem neles participa, e da audiência que os segue.

E, ao que parece, a TVI já seguiu o exemplo da sua concorrente de Carnaxide, anunciando também o fim de dois destes programas.

É claro que, por si só, a decisão da SIC e da TVI de terminar os programas em causa não erradica, talvez nem reduza de forma significativa, a toxicidade de tudo o que rodeia o futebol contemporâneo, cada vez mais um factor de divisão, de segregação e de tribalismo cego e menos uma competição desportiva capaz de agregar adeptos rivais - não inimigos, mas rivais, a diferença é subtil e determinante. Mas nem por isso deixa de ser um sinal. Esperar que isto seja o início da extinção do australopithecus futebolis na televisão portuguesa talvez seja excesso de optimismo - há as audiências, claro, e é sempre possível que outros canais aproveitem o vácuo para reforçar os seus painéis de gritaria. Mas talvez haja mais canais a seguir o gesto, dando menos tempo de antena à intriga e à guerrilha promovidas pelos departamentos de comunicação de três agremiações e mais espaço ao que interessa no tema: à modalidade, ao futebol em si. Para já ainda é pouco, mas se isto contribuir para um bocadinho menos de ruído inútil na televisão, já não será mau.

Da absoluta falta de vergonha

Pedro Correia, 20.07.20

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Foto: Manuel de Almeida / Lusa

 

Há cinco anos, Jorge Jesus chegou ao termo da relação contratual que mantinha com o Benfica: a entidade patronal decidiu não lhe renovar o vínculo apesar de se ter sagrado campeão nacional de futebol. Em articulação estreita com Jorge Mendes, empresário do treinador, "ofereceu-lhe" um longínquo desterro no emirado do Catar que culminaria numa hipotética transferência para o PSG - tudo à revelia do técnico, apanhado de surpresa neste fim de linha quando pretendia permanecer na Luz.

Sabe-se o que aconteceu depois. Jesus recusou o emirado e atravessou a Segunda Circular, convidado por Bruno de Carvalho para treinar o Sporting. Vieira, furioso, declarou guerra ao seu "melhor amigo". O treinador e a sua equipa técnica foram impedidos de entrar nas instalações do Seixal para esvaziarem os cacifos com os seus pertences, a fotografia de Jesus no bicampeonato foi de imediato retirada da "megaloja" benfiquista e logo os papagaios tarefeiros (incluindo um fulano que é agora deputado) começaram a denegri-lo serão após serão nas pantalhas onde lhes dão tempo de antena.

Valeu de tudo. Acusaram-no de roubar software do clube em benefício do Sporting, negaram-lhe o pagamento do último salário na Luz e moveram-lhe até um processo-crime exigindo uma inédita indemnização de 14 milhões de euros por supostos prejuízos jamais confirmados, sempre com o incentivo nada desinteressado dos cartilheiros de turno, especialistas em danos reputacionais.

A 7 de Setembro de 2016, em entrevista à TVI, Vieira foi peremptório: «Jorge Jesus não serve para este Benfica.»

 

Pois o indivíduo que há cinco anos colocou os patins a Jorge Jesus e atiçou a matilha contra ele é o mesmo que agora, acossado por uma sucessão de escândalos judiciais e vergado a uma humilhante derrota em recente assembleia geral, vai buscar o treinador ao Rio de Janeiro, como se fosse mordomo dele, e lhe oferece boleia em jacto privado, prontificando-se a pagar pelo menos 25 milhões de euros só para o trazer de volta e prometendo-lhe «o maior investimento da história do Benfica». Ridicularizando o administrador financeiro da SAD benfiquista, que em recentes declarações avisara: «Provavelmente haverá uma travagem em termos de investimento, admito que haja uma redução, este ano investimos cerca de €60 milhões.»

O motivo é só um: daqui a três meses haverá eleições no clube. Vieira, presidente desde 2003 e tendo visto fugir para o FC Porto o segundo campeonato em três anos, está apavorado com a hipótese de ser chumbado nas urnas.

Até onde chega o desespero. E, sobretudo, até onde chega a absoluta falta de vergonha.

 

ADENDA: «O que passou-se?». Bruno Vieira Amaral escreve sobre o tema na Tribuna Expresso.

Futebol ou Saúde? Saúde!

João André, 30.06.20

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Quando se começou a história do "desconfinamento", vieram logo os clubes perguntar se poderiam jogar. Questões de dinheiro, está claro, especialmente para os maiores. Muita discussão houve sobre os jogos à porta fechada, se fariam ou não sentido. Aquilo que para mim não fez sentido foi recomeçar de todo os jogos. Não porque "futebol sem espectadores não é futebol", como dizem muitos do redondo das suas barriguinhas que devem ter dados os últimos toques na bola ao mesmo tempo que Maradona atava ingleses. Tão só porque o futebol, mesmo sem espectadores no estádio, não deixa de ter espectadores fora dele, espectadores que se juntam para ver jogos e, em certas alturas, para festejar desfechos.

As imagens acima demonstram o que se passou em Nápoles, cidade há muito privada de alegrias desportivas e também a sofrer das medidas italianas, e em Liverpool, onde o principal clube local (e possivelmente nacional) não vencia o campeonato há 30 anos, numa altura em que a competição ainda nem existia na forma actual. Os adeptos vieram à rua festejar e o distanciamento social resumiu-se a não conviverem com adeptos de outros clubes.

A Liga Belga decidiu cancelar o resto da época e atribuir o título ao clube que estava em primeiro lugar quando a interromperam. A Liga Holandesa abandonou a época, cancelou subidas e descidas de divisão e não atribuiu o título, apenas atribuindo as qualificações para competições europeias com base na classificação no momento da interrupção. Fizeram isto seguindo as ordens do governo holandês de cancelar eventos públicos até 1 de Setembro. A Liga Francesa também cancelou o resto da época e as classificações ficaram as do momento da interrupção, dando também título.

Talvez haja países onde as condições permitam continuar as ligas sem grandes problemas, como foi o caso da Alemanha, que prosseguiu o campeonato e após o final não se viram grandes celebrações pela cidade de Munique. Nos restantes países, a melhor solução talvez fosse simplesmente não se jogar mais (e o mesmo é válido para as competições europeias). No caso português, isso poderia passar por anular a competição como na Holanda ou cancelar o restante como na Bélgica e França. Eu teria preferido esta segunda opção, dando o título ao FC Porto (que liderava na altura da interrupção) e restantes lugares de acordo com as suas posições.

Não haveria soluções ideais, mas parece hoje claro que o COVID-19 está a regressar e a ganhar força. Ir pela solução que privilegiasse a saúde seria talvez a opção menos má.

 

PS - como benfiquista, tal escolha ter-me-ia poupado às tristes figuras do meu clube. Está claro que o Benfica não soube gerir a interrupção. Já o Sporting de vários dos meus colegas de blogue parece tê-lo feito bem.

O caluniador

Pedro Correia, 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

Pinto da costa e o seu ungido

Pedro Correia, 08.06.20

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Já houve vários presidentes da Câmara de Lisboa sócios do Sporting. Nas últimas três décadas, lembro-me de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues.

Imaginem a gritaria que não haveria, lá mais para Norte, se o presidente da Câmara de Lisboa, estando no exercício destas funções, aceitasse encabeçar uma lista concorrente a um órgão social do FC Porto. Não faltaria gente a rasgar as vestes, urrando contra a «promiscuidade entre a política e o futebol», exigindo imediata separação de águas.

Pois isso mesmo acaba de acontecer no FC Porto, com o actual alcaide da Invicta a encabeçar a lista para o Conselho Superior da agremiação azul e branca, sem que isso pareça perturbar as boas almas que reclamam linhas divisórias entre bola e política.

Rui Moreira aceitou o encargo, consciente de que isso o coloca na primeira linha dos ungidos, como presumível sucessor de Pinto da Costa, agora reeleito para o 15.º mandato à frente do clube, onde já leva 38 anos como dirigente máximo. Um mandato que, por vontade própria, poderá não levar até ao fim.

O astuto PdC, que nunca dá ponto sem nó, não apenas vence de forma categórica (com mais de dois terços dos votos expressos, 68,7%) a eleição para presidente da Direcção como suplanta a percentagem alcançada por Moreira (65%) na votação para o Conselho Superior. Numa espécie de aviso à navegação interna que evoca os dramas de Shakespeare: convém que o protegido nunca seja mais popular do que o seu mentor.