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Delito de Opinião

A era da pós-verdade

jpt, 12.12.25

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Muito se fala agora da "pós-verdade". Já não apenas referindo a diversidade opinativa como efeito da pluralidade de pontos de vista e interesses. E também não só a tradicional desinformação interesseira, propalada por políticos e imprensa avençada/subsidiada. Mas muito devido à relativa novidade dos anunciados efeitos das mensagens robóticas ("bots") que procuram "fazer a cabeça" dos incautos.
 
Sempre vivi espartilhado por essa pós-verdade: desde novo que recebo mensagens sanitárias contraditórias sobre se devo cozinhar com óleo, manteiga, margarina ou azeite. As instruções variam com a época. Opto pelo preço!
 
Enfim, a realidade é que se vem escoando o conservador (mas talvez mítico) valor da Verdade. As coisas (já) não são o que parecem. E, pior ainda, o que deveriam ser.
 
Nos últimos dois dias vi isso, envelhecendo-me. O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa narra um triste exemplo da pós-verdade: havia sido escolhido para júri de um concurso literário brasileiro, Oceanos. Um dos finalistas era o escritor angolano (e julgo que também moçambicano) Agualusa, ao qual no ano passado Ungulani criticou as suas declarações apoiando sem reservas o regime político vigente em Maputo. Como resultado disso houve pressões para que Khosa fosse afastado do juri e assim aconteceu. Uma pós-verdade literária!
 
Ontem houve uma greve geral em Portugal. As centrais sindicais anunciam ter sido a maior greve de sempre. E o governo declarou-a praticamente inexistente. É uma "Concertaçao Social" de patranhas, a velha pós-verdade nada robótica, excêntrica às malvadas redes sociais. Acompanhada de alguns dislates: na televisão uma jovem senhora, bem apessoada, comenta dizendo não perceber porque protestam os funcionários públicos se as alterações propostas na lei laboral não incidem sobre eles. Convém estudar antes de ir à tv. Faz-se uma manifestação diante da Assembleia, "ordeira" como se dizia. Quando a hora de jantar se aproximou os manifestantes foram para casa. Ficou um punhado de mariolas, fazendo alguns dislates de pouca monta, menos do que os holigões das claques sempre fazem. Tudo acicatado por estarem no "breaking news" das impunes estações televisivas. Entre os defensores das propostas ali contestadas, logo emerge um coro de republicanos "aqui d'el-rei" como se aquilo fosse o significante. É o reino, republicano repito, da pós-verdade!
 
O prémio Pessoa - que bem me lembro ter sido inaugurado com a atribuição a Mattoso, exactamente quando eu lia o seu deslumbrante "Identificação de Um País" - foi dado a Lídia Jorge. É uma consagração de carreira, quem sou eu para cutucar os méritos da autora do "A Costa dos Murmúrios". Mas atribuí-lo exactamente no ano em que a escritora proferiu um medíocre discurso de 10 de Junho, a suprema honraria nacional dada a um intelectual? (No qual, entre outras coisas, truncou a "Crónica..." de Zurara, uma malevolência lesa-majestade). Enfim, é, pelo menos, uma pós-verdade relativa!
 
Mas o pior, a mais escandalosa pós-verdade, o derrube dos símbolos, a devastação das identidades, aconteceu na Alemanha. No muitíssimo visto debate entre o agrupamento em que me filio e os representantes da Baviera, estes surgiram como sempre, orgulhosos de serem os "vermelhos". Os meus surgiram "filisteus", vendilhões do templo, abandonando o verde-e-branco que lhes é matriz, e durante um século foi alma. Sendo assim uma pós-verdade.
 
Perderam o debate. Ainda bem!

Um herói português em Hamburgo

Cristina Torrão, 02.12.25

“Fábio Vieira põe os adeptos do Hamburger SV em êxtase”, ouvi ontem no rádio, ao pequeno-almoço.

Fábio Vieira provoca explosão de emoções no estádio

O golo tardio de Fábio Vieira provoca um “terramoto”

Loucura no último minuto

São as manchetes que encontro na internet.

Realmente, a situação não podia ser mais emocionante.

Fábio Vieira HSV.jpg

Imagem tirada deste vídeo

 

Mas comecemos pelo início. Fábio Vieira, de 25 anos, nascido em Santa Maria da Feira, jogava no F.C. Porto, quando foi comprado pelo Arsenal. Desde Setembro passado, é jogador emprestado ao Hamburger SV.

A história recente deste clube alemão tem sido dramática.

Hamburgo é a segunda maior cidade alemã (1.852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. O Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, tem capacidade para 57.000 pessoas. No seu palmarés, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos alemães. E, no entanto, de 2018, até à época passada, jogava da 2ª divisão!

Volksparkstadion.jpgVolksparkstadion, em Hamburgo

 

De há doze anos para cá, os adeptos do Hamburger SV vêm precisando de nervos de aço. O clube esteve quase a descer de divisão, em 2014, mas assegurou a sua permanência no play-off por uma unha negra. Depois deste susto, anunciaram-se medidas drásticas para tirar o clube da crise, incluindo a dissolução de todo o management.

Mas as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Começou uma odisseia macabra. O HSV ficou três vezes no quarto lugar e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off, com o último classificado da Bundesliga. E dessas três vezes falhou.

Na época passada, porém, conseguiu, com um 2º lugar, regressar finalmente à Bundesliga. Não tem, contudo, brilhado, pelo contrário.

No fim-de-semana passado, uma vitória permitiu-lhe ascender ao 13º lugar (entre 18 equipas). Uma vitória sobre o VfB Stuttgart, sexto clasificado! E em desvantagem numérica, depois de um dos seus jogadores ter visto o cartão vermelho (minuto 81). Nesta altura, o jogo estava empatado 1-1.

Já nos descontos, último minuto da partida: Fábio Vieira faz o segundo golo para o Hamburger SV. O estádio explodiu. Ouçam, neste vídeo, a histeria dos relatadores:

 

 

 

Curiosidade: Fábio Vieira esteve quase a jogar pelo VfB Stuttgart, antes de ir para Hamburgo, precisamente o clube que, devido ao seu golo, perdeu dramaticamente este jogo.

 

Outra curiosidade: o guarda-redes do Hamburger SV é, desde 2019, Daniel Heuer Fernandes, um luso-alemão, nascido em Bochum (pai português e mãe alemã). Fez, aliás, parte do plantel português para o Campeonato Europeu Sub-21 de 2015, na República Checa.

 

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Adenda: Peço desculpa. O guarda-redes não se chama Manuel, mas sim Daniel Heuer Fernandes.

Estranhos companheiros de percurso

Pedro Correia, 29.07.25

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A política faz estranhos companheiros de percurso. Um antigo fiel escudeiro do inenarrável Bruno de Carvalho no Sporting foi escolhido para candidato do Chega à Câmara Municipal de Lisboa por um antigo fiel escudeiro do imprestável Luís Filipe Vieira no Benfica. 

A clubite partidária une agora o que o fanatismo futebolístico separava. Mas nada garante que eles vivam felizes para sempre.

Uma ida ao futebol

jpt, 21.07.25

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(Por recomendação do seu eterno "manager", o special one Pedro Correia, após 14 anos de incessante actividade e de inúmeros títulos alcançados, no final da última época o blog sportinguista És a Nossa Fé pendurou as chuteiras.

Eu joguei lá durante alguns anos, durante o auge da minha carreira. Orgulho-me de ter sido quase sempre convocado, e de amiúde ter sido titular. Há alguns anos, um desaguisado de balneário - típico quando assoma o ocaso da carreira - levou-me a abandonar as hostes. E segui em busca de campeonatos mais plácidos.

Agora, com o "team" dissolvido, permitir-me-ei regressar à actividade, por vezes elaborando sobre a "nossa fé", já neste registo pausado, o do veterano em convívios de solteiros vs. casados.)

***

Fui cândido: esqueci-me que a poupança (ou a resistência, no meu caso) convoca a imobilidade. E nessa distracção deixei-me convencer a ir ao Algarve ver o particular Sporting-Celtic, o jogo inicial desta época, “o primeiro passo do tri…”, anunciei-o. Não ia ao futebol há já 4 anos, - quando um amigo me levou a Alvalade ver o jogo com o Dortmund, então forma de festejar o fim do maldito Covid - pois aquilo é um espectáculo caríssimo. Mas também porque até adormeço no sofá face à televisão - mesmo com o Sporting de Gyokeres… Enfim, o devaneio foi um disparate, pois tudo o que seja assomar fora dos Olivais tem custos excessivos…

Mas conheci o estádio do Algarve, maior do que o Branca Lucas  aqui da vizinhança. O público estava simpático, coisas de um jogo amigável e veraneante, além disto das gentes de Glasgow e as de Portugal seguirem ali irmanadas pelas cores verde-e-branca - eu ufano com o cachecol do Celtic que a minha filha me trouxe lá da sede deles… As barracas de comes-e-bebes iniciais mostravam esse convívio risonho, depois as bancadas com os adeptos misturados - e até comungando alguns incentivos aos respectivos adversários.

Quanto ao jogo a imprensa “da especialidade” e o ror de comentadeiros já o terão esmiuçado. Dele, modorrento - isso mesmo de ser o primeiro da época -, pouco apreendi. Do Celtic quase nada entendi: só pelo anúncio da sua substituição é que percebi ser o seu guarda-redes o Schmeichel filho (!), e notei no seu meio-campo um 8 e um 41 de bom toque de bola. Quanto a nós Sporting, entre os meus bocejos mentais, percebi um pouco mais, talvez para mal dos meus… entusiasmos. Reparei que cada vez que um “celta” se decidia mais arisco o nosso meio-campo se tornava qual acolhedora avenida para as desfiladas daqueles normandos. Mas isso foi o menos, pois no tal primeiro jogo da época…

O pior foi o que ali recolhi: o treinador Borges decidiu abandonar o modus faciendi que nos deu 3 títulos nos últimos anos, regressando à clássica defesa a quatro. Atentei em alguns jogadores: o lateral-direito Fresneda sabe posicionar-se mas atrapalha-se com a bola quando ataca; o moçambicano Catamo é bom jogador - muito da minha predilecção - mas mesmo se canhoto é melhor se colocado na ala direita; o reforço Alisson será homem nervoso; o reforço Kochorashvili tem um nome complicadíssimo mas em breve todos o saberemos pronunciar: é jogador!, sabe muito bem o que fazer da bola, daqueles que a “mete à distância” com conta, peso e medida!

Enfim, minha constatação-diagnóstico, mesmo se um pouco apressada, talvez até precoce? Diante deste Sporting - a regressar à tal “penúltima forma” e desprovido do malvado sueco que está ansioso por seguir para suplente do Arsenal - lembrei-me do Porto ter cumprido o seu annus horribilis, e decerto virá melhor para esta época. E do Benfica, reforçando-se em catadupa - fá-lo sempre, gastador, muito falhando mas às vezes acertando. Ou seja, prevejo que o nosso “tri” seja uma miragem…

Ah!, é verdade, o Celtic ganhou por 2-0, para quem tenha curiosidade...

(Parcela de um postal no meu "O Pimentel")

Desta vez serás tu, Rui Borges

Pedro Correia, 17.07.25

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Espero que a redacção do Expresso, daqui a cinco meses, eleja Rui Borges como Figura Nacional de 2025. Pela mesma lógica que a levou em Dezembro último a escolher Ruben Amorim só para não destacar Luís Montenegro. O primeiro venceu o campeonato nacional de futebol, repetindo uma proeza que já alcançara três anos antes. O segundo fez regressar o PSD ao Governo quase uma década depois. 

Pela mesma lógica de elevar a bola acima da política, Borges merece em 2025 muito mais do que Amorim há um ano. Os factos comprovam: conquistou o primeiro bicampeonato em 74 anos e a primeira dobradinha (Liga + Taça de Portugal) para o Sporting desde 2002. O antecessor, agora técnico do Manchester United, ficou em 15.º lugar no campeonato inglês e não conseguiu qualificar a equipa para nenhuma competição de âmbito europeu: o Expresso parece ter-lhe dado azar. «O magnetismo do líder sedutor e genuíno» andou ausente em parte incerta e o «gigante United» cumpriu a sua 12.ª temporada consecutiva sem vencer a Premier League. Nem parece gigante.

Sob este prisma, talvez Montenegro até agradeça ficar novamente excluído da escolha final do semanário que há um ano o ignorou: azar é coisa que o primeiro-ministro certamente dispensa. Mesmo tendo também vencido, à sua maneira, um bicampeonato: a AD, com ele ao leme, triunfou pelo segundo ano seguido numa eleição legislativa - desta vez com a «maioria maior» que o presidente do partido laranja pedira aos eleitores. Saindo das urnas, a 18 de Maio, com 31,8% (+ 1,7% do que em 10 de Março de 2024), 91 deputados (+ 11), 2 milhões de votos (+ 200 mil) e mais 9 pontos percentuais do que o segundo classificado (14 meses antes conseguira só +0,9).

Depois de Amorim, avança Borges. Antes assim. Viva o Sporting bicampeão!

Nove anos depois do Europeu

Pedro Correia, 10.07.25

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A 10 de Julho de 2016 - há nove anos exactos - a selecção nacional de futebol sagrava-se campeã da Europa. Derrotando na final a equipa anfitriã, a de França.

Selecção formada por portugueses, treinada por um português, tendo por capitão um português cinco vezes eleito o melhor futebolista do mundo. Elogiada por numerosos estrangeiros. Mas depreciada em Portugal desde o primeiro dia. Depreciação que se prolongou mesmo após a conquista do cobiçado troféu, nunca antes ganho por uma equipa portuguesa. Que não houve mérito, que só foi possível por sorte, que melhores eram as outras, etc.

 

Faz parte do nosso inconsciente colectivo. Talvez seja até componente da nossa identidade nacional.

Uns edificam, constroem, distinguem-se, galgam fronteiras, alcançam proezas, superam obstáculos, dobram cabos das tormentas. Outros permanecem no sofá doméstico a ruminar críticas ao sucesso alheio.

 

Faz parte de uma "certa maneira de ser português".

E não é de agora. É de sempre.

Benfica-Sporting

João André, 10.05.25

Há muito que não escrevo sobre futebol, por isso aqui segue um comentário do Benfica-Sporting à medida que o vou vendo na televisão holandesa (sim, estão a transmitir em directo).

 


- Perdi os últimos minutos, mas não faz mal. O Sporting carimbará provavelmente o título na última jornada. É deles para o perder, o Benfica já não o pode ganhar, só o Sporting o pode perder.

(talvez aqui volte para comentário final)

Uma obra de arte em 120 minutos

João André, 07.05.25

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Sim, eu sei que no fim de semana haverá jogo grande, dérbi, que pode já decidir o campeonato deste ano, entre os dois grandes rivais do futebol português (com licença de Vitória de Guimarães e Sporting de Braga e alguns outros). Espero que o Benfica o vença mas espero, acima de tudo, que tenha pelo menos um décimo da qualidade, emoção, imprevisibilidade do jogo de ontem à noite, entre Inter de Milão e Barcelona, na segunda mão das meias-finais da Liga dos Campeões. O primeiro jogo tinha já sido enorme, mas dava a sensação de ter sido apenas uma excepção, talvez uma aberração. O de ontem provou que não era assim. Um Inter sem medo mas concedendo que o Barcelona era tecnicamente superior, uma determinação incrível, um San Siro a ferver com adeptos que se ouviam facilmente mesmo por cima dos comentários televisivos, do outro lado um Barcelona que vive sempre no risco, com uma linha tão elevada que poderia receber uma nova estação espacial, um puto ainda de 17 anos que parece saído de um jogo de computador "quitado" e que não parece ser possível parar, um guarda redes suíço que sofre três golos e consegue ser o homem do jogo, etc. O resultado avançou com 1-0 (21'), 2-0 (45+1'), 2-1 (54'), 2-2 (60'), 2-3 (87'), 3-3 (90+3'), 4-3 (99') e... não, não respira porque não deu para isso. Só tenho pena dos responsáveis pelos serviços de urgência médicas em Milão e Barcelona, que não terão tido um momento de descanso.

Os jogos foram incríveis e merecem ser reservados para a história do futebol. Em 2010 o Inter também eliminou o Barcelona a caminho da final graças a um outro jogo que entrou para a história do futebol. O jogo de 2010 entrou para os manuais da táctica, para análise dos mecanismos, dos posicionamentos, da abordagem. Um jogo para ser estudado numa faculdade de matemática e engenharia, portanto. O de ontem entra directamente para a Galleria di Uffizi. Merecidamente ao lado dos trabalhos de Botticelli ou da Vinci.

Nota até para o árbitro. Por muito que o Barcelona se queixe, a arbitragem foi impecável, didáctica e firme. Ao nível deste jogo.

Blogue da Semana

Marta Spínola, 16.03.25

Sou suspeita: gosto e acompanho futebol. Sou ainda mais suspeita, por guardar com saudade memórias do futebol italiano dos anos 90. Feito este disclaimer, este post sobre Roberto Di Matteo, no blogue, também ele com nome de saudade, Visão do Peão, fez com que fosse o escolhido para hoje.

Um blogue que não fala só de memórias, e se lê bem, sem interrupções de árbitros nem anti-jogo de adversários. Fica a sugestão.

Pesadelo

Sérgio de Almeida Correia, 22.01.25

thumbs.web.sapo.io-3.webp(créditos: Miguel Lopes/LUSA)

No fantástico ambiente da catedral da Luz, jogou-se ontem em Lisboa mais uma partida memorável da edição 2024/2025 da Liga dos Campeões. Benfica e Barcelona apresentaram-se em grande forma para proporcionarem um espectáculo memorável aos mais de 63 mil espectadores que encheram as bancadas.

Logo aos dois minutos, quando Pavlidis fez o primeiro golo a favor do Benfica, se percebeu que os encarnados tinham quase tudo para brilhar e ficarem com os três pontos, mas uma noite que começou por ser de sonho acabaria por se tornar numa montanha-russa que virou pesadelo.

Houve emoção, bom futebol, erros infantis, jogadas incríveis, nove golos, três penáltis, um inexistente, outro que ficou por marcar ao cair do pano e que daria origem à jogada do último golo do Barcelona, o que lhe daria a vitória.

É verdade que as substituições aos 70 minutos correram muito mal, que Aursnes falhou o 5-3, que Di Maria fez o mais difícil quando desperdiçou o 5-4, que o penálti provocado por Tomás Araújo é um erro inaceitável, que Carreras, Florentino, Otamendi e Schjelderup fizeram um jogo irrepreensível, que o Barça tem uma grande equipa do meio-campo para a frente. Porém, a verdade maior é que não nos podemos queixar da sorte. Em matéria de futebol tivemos tudo para ganhar e falhámos por culpa própria em momentos cruciais.

Que o árbitro prejudicou o Benfica também não há dúvidas, bastando ler o que diz a imprensa, dentro e fora de portas, quer quanto ao penálti assinalado a favor dos catalães, que dá o 4-3, quer em relação ao penálti cometido sobre Leandro Barreiro e que ficou por marcar no último minuto.  

Em todo o caso, para os anais fica o resultado. Depois do que aconteceu com o Bayern, com o Feyenoord e com o Bolonha nesta edição da Liga dos Campeões, repetiram-se alguns erros infantis e foram tomadas más decisões que não podiam ter acontecido e nos retiraram o apuramento directo.

Por agora, resta dar os parabéns ao Barcelona, que ontem teve a estrelinha, continua a ser uma grande equipa e um colosso europeu, e esperar que o Benfica faça, em 29 de Janeiro, uma grande exibição em Turim, no Stadio Delle Alpi, rebaptizado de Allianz Arena, contra a Juventus. Uma exibição que ofereça a todos os benfiquistas e aos amantes de futebol a possibilidade de esquecerem o pesadelo da noite de ontem.

Os hereges

Pedro Correia, 08.01.25

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Quando oiço por aí falar em "desertor", ou leio palavras como "fugitivo" ou "foragido" a propósito de treinadores que mudaram de clube, questiono-me se os adeptos da bola quererão falar de Ruben Amorim ou de Rui Borges.

Seja o visado quem for, estão errados.

Na sexta à noite, em Guimarães, o novo técnico leonino recém-contratado pelo Sporting vindo da cidade-berço foi recebido com gritos (e tarjas) a chamarem-lhe "traidor". Nestas alturas verifico a enorme semelhança que pode haver entre um clube de futebol e uma seita religiosa - com os seus fiéis, os seus anátemas, os seus hereges. "Traidores", "desertores", "renegados" e expressões do género são típicas de seitas vocacionadas para espalhar o ódio.

Essa é a parte do futebol que menos me interessa. Aliás, é uma parte do futebol de que não gosto nada.

Obrigado, Rúben

Pedro Correia, 06.11.24

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Contigo ainda ao leme, o Sporting vulgarizou e derrubou o Manchester City, tetracampeão inglês, campeão europeu em 2023, talvez a melhor equipa do mundo. Na Liga dos Campeões.

Uma das nossas mais épicas jornadas europeias de sempre, ontem á noite. Terminou em goleada: 4-1.

Chegaste no Inverno de 2020 a Alvalade e não tardaste a somar vitórias. Sais quase cinco anos depois com a aura de triunfador ainda mais reforçada. Dando novo valor e novo significado a uma das palavras mais detestadas em Portugal: meritocracia.

Mereces toda a sorte do mundo. E novos triunfos no teu currículo - a partir de segunda-feira no Manchester United, histórico rival do City.

Ronaldo e Harden

João André, 11.09.24

Há nas análises à NBA um comentário que surge com frequència: a Época Regular (ER, Regular Season) não interessa. Claro que isto é rapidamente desmentido: são 82 jogos por equipa, os jogadores desenvolvem sistemas, química, dinâmicas, os treinadores afinam pormenores e procuram as melhores formas de explorar os seus pontos fortes e limitar os pontos fracos. São também a principal parte da acção do ano e ainda oferecem o interesse de atribuir os prémios da ER: MVP, DPOY, ROY, All-NBA, All-Defensive, etc. Para combater o menor interesse das equipas e audiências, a NBA até adicionou um torneio durante a ER para motivar mais as pessoas. No entanto toda a gente percebe o conceito da ER: as equipas mais fortes afinam motores para os play-offs (PO), as do meio tentam chegar aos PO, as mais fracas trocam jogadores, procuram jogadores no Draft e jogam com o tecto salarial para poder crescer no futuro. O interesse passa portanto muitas vezes para os cerca de 2 meses a partir de meados de Abril quando começam os play-offs.

Isto soa a algo que já vimos, não? Talvez nas competições europeias, especialmente na Liga dos Campeões, a uma fase de pré-eliminatórias que só interessam aos adeptos das equipas nelas envolvidas, a uma fase de grupos que queremos excitante mas regride habitualmente para um passeio para os mais poderosos - com uma ou outra surpresa a polvilhar a acção - e só começa realmente a excitar no final do Inverno, quando os jogos a eliminar surgem a sério. O mesmo se pode dizer dos jogos de selecções, os internacionais. Os Campeonatos da Europa e do Mundo têm crescido de tal forma em tamanho que só desastres eliminam os favoritos (olá Itália!) e mesmo quando não têm bons torneios, acabam por ter mais oportunidades para se apurarem através dos play-offs de "repescagem".

No entanto é nos play-offs (NBA) e fases finais (futebol) que os torneios são ganhos e é ali que tudo muda. Na NBA, a rotação de jogadores que anda pelos 10-12 jogadores na ER passa para uns 7-8 nos PO para evitar ter elos mais fracos a explorar. As fraquezas das equipas adversárias - jogadores que não defendem bem, jogadores com lesões, fraqueza nos ressaltos, etc., são exploradas impiedosamente para se obterem quaisquer vantagens. As tácticas das equipas são afinadas ao mais infímo pormenor e ajustadas de acordo com o adversário e o jogo anterior. No futebol, o mesmo se passa, especialmente nas fases finais de torneios de selecções. As semanas antes do torneio são o único período de tempo que seleccionadores têm para preparar as equipas e afinarem as suas tácticas. Nesses momentos, os mais bem sucedidos tendem a ser pragmáticos e adaptam tácticas aos jogadores que têm ou simplificam tudo e seguem para um estilo mais defensivo, dado que é mais fácil de preparar que movimentos atacantes mais fluidos.

O que também se vê em play-offs e fases finais é um desaparecimento de estrelas. Na NBA isso tem-se visto em jogadores como Joël Embiid, um enormíssimo jogador, altamente dominante, mas que tem o maus hábito de desaparecer nos play-offs, em parte devido a problemas com lesões. O mesmo se viu durante anos com James Harden, que marca pontos como se aquio fosse a coisa mais fácil do mundo na ER mas depois desaparece nos PO. Há razões individuais para isso, claro - Embiid tem frequentes lesões e Harden tem um jogo tão centrado em si mesmo (os americanos usam o termo heliocentrico) que poderá estar esgotado quando joga nos PO. No entanto também é verdade que se na ER as defesas não irão necessariamente dar 100% para evitar que um gigante de 2.13m, 127 kg e pés de bailarina chegue ao cesto, nos PO pará-lo será não só uma necessidade quando a parada sobe, mas é também um ponto de honra, mesmo para os jogadores mais modestos (assumindo que entram no court). E isto sem falar nas mudanças de tácticas para parar os melhores jogadores adversários (ou, no caso de alguns como Nikola Jokić, aceitar que não podem ser parados mas então limitar a produção dos companheiros de equipa).

A solução mais fácil surge quando o adversário é heliocentrico, ou seja, quando tudo anda à volta da sua estrela. É o caso das equipas dos Houston Rockets que tinham James Harden. A solução passava por lhe tornar a vida tão complicada quanto possível, atacá-lo na defesa para o cansar e esperar que implodisse. Só as equipas que saíam dessa lógica conseguiam depois ultrapassar os seus adversários, coisa que é difícil no basquetebol quando há apenas 5 jogadores de cada lado em cada momento.

No futebol podemos ver o mesmo. Os jogadores que destroem os adversários que têm pela frente, que dominam jogos, marcam golos, dão assistências e ganham prémios individuais. Alguns só o fazem com equipas mais fracas, outros fazem-no com qualquer tipo de adversário. No entanto, quando chegam às fases finais, quando cada jogo é de grande importância, o jogo torna-se mais difícil. Os espaços desaparecem. Os adversários lutam como se as suas vidas dependessem daqueles 90 minutos e trocados. Mesmo os adversários mais fracos tornam a vida mais difícil aos favoritos e podem, pelo menos num dos jogos, deitá-los ao tapete. É nesses momentos que as estrelas se vêem, costuma dizer-se, mas isso é mais cliché que realidade. Desde 1986 e 1990 (Maradona) que não há um jogador que carregue a equipa às costas para uma vitória ou final. Há, claro, jogadores que brilham em alguns momentos, até mais que uma ou duas vezes, mas nenhum carregou a sua equipa do início ao fim e/ou a salvou consistentemente quando precisava. Os vencedores são as equipas que se adaptam, onde as estrelas percebem quando se devem sacrificar para favorecer a equipa, onde o seleccionador faz ajustes para corrigir erros, reduzir riscos e explorar fraquezas adversárias. E, como o futebol tem 11 jogadores para cada lado, as estrelas serão menos decisivas que no basquetebol, onde tocarão na bola a cada 15-30 segundos.

Isto para falar de quê? De Cristiano Ronaldo. Ronaldo é um dos maiores jogadores da história do futebol e consensualmente o seu maior goleador. Os 900 golos (e 901º uns dias depois) oficiais que atingiu na carreira na semana passada é um número que nem sequer faz sentido escrever. Isto em cima dos restantes títulos individuais e colectivos que conquistou. A discussão sobre quem é o melhor do mundo de sempre (ou dos últimos 15 anos) continuará mas o seu nome estará sempre na discussão. Pegando na pergunta de Ronaldo «E o meu passado?», a resposta só pode ser: é único. A pergunta é: e o presente? É que a meu ver Ronaldo, hoje em dia, assemelha-se acima de tudo a um James Harden. Um jogador que continua a marcar muitos golos na sua liga (mesmo que de terceira categoria) e até nos jogos de qualificação internacionais, mas que quando chega às fases finais vai desaparecer, porque o jogo sobe de dificuldade, os adversários se preparam para ele e a equipa, sob as ordens de Martinez, parece jogar principalmente para ele. Note-se: Ronaldo não deixou de saber marcar golos. Só que a idade não é só um número, é uma ralidade. Se fosse só um número Ronaldo continuaria no Real Madrid e a ganhar Ligas dos Campeões. Isto nada tem de mal. Toda a gente envelhece, se torna mais lenta e menos capaz fisicamente, até espécimes únicos como Ronaldo. Só que fingir que assim não é dá em resultados como os do último Europeu: uma equipa pejada de talento (tanto que deixa em casa nomes que seriam titulares em mais de 50% das restantes selecções) que afunila o jogo para a sua estrela e torna o jogo fácil de defender.

Apesar de eu ser da opinião que Ronaldo, com o que deu à selecção, deveria anunciar a sua retirada da mesma, receber uma homenagem (idealmente no Estádio de Alvalade) com enorme festa, pompa e circunstância (talvez a 10 de Junho para receber meia dúzia de comendas de uma só vez), não significa que seja essa a única solução. Ronaldo ainda contribui de forma óbvia para Portugal. O seu jogo pode passar por sair do banco e jogar num sistema de dois avançados para poder sobrecarregar defesas ou, uma vez que continua a ter uma certa gravidade (no sentido físico de atracção de outros corpos), pode seguir para outros terrenos e arrastar defesas e assim abrir espaços para colegas (como Morata, Giroud e Guivarc'h fizeram pelas respectivas selecções quando venceram títulos). Ser portnto uma diversão. Mas isso significa sacrificar-se pela equipa, aceitar menos protagonismo para que a selecção beneficie*. Se é capaz de o fazer não sei, mas detestaria vê-lo como um James Harden, que à medida que envelhece e perde velocidade, as equipas adversárias passam a ver como uma vantagem, em vez de um risco.

* - já agora, isto lembra-me de um jogo de Portugal numa fase final. O adversário tinha identificado William Carvalho como o jogador que conduzia a bola a meio campo e como tal talvez o jogador chave a eliminar do tabuleiro. Para isso tinham designado um jogador para se encostar a William e nunca sair de perto, mesmo quando a bola andava noutros terrenos. Tendo percebido isto muito depressa, William Carvalho começou a arrastar o médio que o marcava para locais onde a bola não estivesse, assim criando um jogo de 9 contra 9 (jogadores de campo) que beneficiava Portugal e criando um buraco no meio campo adversário. Um exemplo claro de inteligência e sacrifício pessoal.

Cristiano Ronaldo e a magia do futebol

Pedro Correia, 07.09.24

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O futebol faz mover paixões e lega-nos memórias inesquecíveis devido à sua imparável força icónica. Pensei nisto ao ver anteontem Cristiano Ronaldo marcar o golo oficial número 900 da sua longuíssima carreira como futebolista profissional. Foi no estádio da Luz, correspondendo da melhor maneira a um soberbo cruzamento de Nuno Mendes. Em posição frontal, sem deixar a bola tocar no chão.

Aconteceu aos 34 minutos do Portugal-Croácia, jogo inaugural da Liga das Nações que vencemos por 2-1. O primeiro havia sido marcado por Dalot logo aos 7', portanto aquele golo do melhor jogador do mundo revelou-se decisivo contra a excelente selecção croata, onde pontifica outro jogador fantástico: Luka Modric, que depois de amanhã festeja 39 anos - os mesmos que Ronaldo já tem.

Ao contrário do que se esperava, CR7 não celebrou o quase mítico n.º 900 - e o n.º 131 ao serviço da selecção nacional - com aquele seu salto que muitos tentam imitar nos relvados ou fora deles. Dirigiu-se a um dos cantos e ajoelhou. Como em prece de agradecimento por ter sido tão fadado com o dom do golo.

Permaneceu assim longos segundos, como se alheado da multidão que o ovacionava, até Bruno Fernandes ir ter com ele, fazendo sinal para que se levantasse. Então lá vimos o Ronaldo a que nos habituámos. Já quase quarentão mas exibindo ainda sorriso de criança cada vez que marca mais um golo. Como fazia em miúdo, quando jogava à bola na rua.

Querem um exemplo da magia do futebol? Pois é este mesmo.

 

Publicado originalmente aqui.

Pensamento da semana

Pedro Correia, 07.07.24

Ao contrário do que alguns imaginam, o futebol não é só feito de esquemas tácticos, jogadas a régua e esquadro, losangos, bolas paradas e "transições ofensivas". O futebol é sobretudo uma fascinante soma de momentos mágicos que perduram na memória colectiva, ampliam a nossa crença nas potencialidades da espécie humana e demonstram onde é possível chegar quando talento e esforço se conjugam. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana