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Delito de Opinião

Matheus Nunes

jpt, 16.08.22

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O futebolista Matheus Nunes é transferido do Sporting para um clube inglês por 50 milhões de euros, tal como antes o seu colega João Palhinha saíra para aquele país por 22 milhões de euros. Associe-se isso às largas dezenas de milhões de euros pelas quais o Porto cedeu as licenças dos jovens Vitinha e Fábio Vieira, e as recebidas pelo Benfica através de idêntica operação com o uruguaio Darwin. E isto para além de outras operações similares, ainda que de menor montante, que vários outros clubes portugueses vêm fazendo.

Tudo somado poder-se-á constatar que nesta "economia de lazer" globalizada - na qual o futebol, como maior desporto mundial, tem um enorme relevo - Portugal é um grande exportador de licenças desportivas, com assinaláveis lucros. Os quais se repercutem, directa e indirectamente, nas empresas desportivas, seus fornecedores e empregados. É certo que numa economia aberta já não tem o mesmo sentido falar em acumulação de divisas, mas ainda assim os efeitos positivos são relevantes. E talvez um Estado atento à indução da produtividade pudesse reflectir naquilo que os clubes tanto exigem - um aligeirar dos impostos sobre os ordenados dos jogadores, legítima dada a especificidade (curta duração) dessa carreiras profissionais. O que aumentaria, e em muito, a capacidade formativa dos clubes nacionais e o estatuto de "trampolim" para os grandes mercados internacionais. E concomitantes lucros nacionais. Ou seja, neste caso é evidente que a pesada carga fiscal é contraproducente para o objectivo social de incrementar a riqueza interna e sua distribuição. Contra esta ideia, alguns argumentarão que os jogadores de futebol ganham imenso - mas isso não corresponde à verdade, alguns ganham imenso, umas dezenas ganham muito, centenas são artistas remediados até aos seus trinta anos, e imensos são meros assalariados empobrecidos. 

A transferência de Nunes tem, evidentemente, uma outra dimensão, que nada tem a ver com Economia mas sim com Cultura. Presumo que o jogador aceitou a transferência dado que partiu para o mais importante campeonato do mundo e que terá acesso a um grande aumento de remunerações. Mas quer-me parecer que o jogador também considerou que a sua presença no campeonato inglês lhe poderá impulsionar a titularidade na selecção portuguesa neste próximo Mundial-22, legítimo anseio pessoal e profissional. Pois, de facto, é notório que o seleccionador Fernando Santos cada vez é menos atreito aos jogadores do Sporting e, em particular, a outorgar-lhes o estatuto de titular - uma subalternização que se tornou evidente neste absurdo caso. Fará parte da sua Cultura de seleccionador... É possível que Nunes tenha pensado nisso. Quanto a mim presumo que a sua associação no meio-campo de Wolverhampton com Rúben Neves será positiva. E que essa familiaridade entre dois jogadores, até possível comunhão, lhes será útil, lhes dará alento, amparando-se no banco da equipa nacional, vendo jogar Danilo e William Carvalho, entre outros. Pois "ele" há coisas que não mudam...

Chalana, o Gentil Gigante

jpt, 10.08.22

Morreu Fernando Chalana. Histórico jogador do Benfica sofria de Alzheimer

Chalana, ídolo dos vizinhos ali de Carnide, foi um jogador extraordinário. naquele genial jeito jongleur, e se houve um Garrincha português foi ele - tudo sublinhado pelo estilo pessoal, naquela bigodaça, e também na peculiar personalidade tão tímida, contrastante com a monumental exuberância em campo - que convocava universal simpatia. E mesmo que jogando no clube rival - ao qual chegara oriundo daquele alfobre benfiquista que era o Barreirense de então, onde naquela era os encarnados iriam também buscar Araújo, Frederico e Carlos Manuel - dele fui grande admirador, naquele encanto devido aos Artistas. 

Chalana era único, enorme, o jogador "alegria do povo", e naquela era ainda de poucas transmissões televisivas e sem internet espantou o mundo no magnífico Euro-84. Tanto brado deu que o Benfica não conseguiu segurá-lo e - a troco da quantia necessária para o fecho do "terceiro anel" da Luz - ele partiu para França, então destino mítico do emigrante português, onde foi infeliz, num calvário de lesões.

Tive ocasião de o conhecer pessoalmente, num breve contacto. Em 2006 o Benfica cessou contrato com Ronald Koeman e Chalana foi, como treinador principal interino, a Maputo para um torneio quadrangular de fim de época, comandando uma equipa de reservas e jovens. Antes dos jogos a delegação benfiquista foi à Escola Josina Machel (o antigo Liceu Salazar, na denominação colonial), sita no centro da cidade. Não resisti e fui lá ver a reacção dos miúdos. Estes estavam esfuziantes por ver os “ídolos” e nas instalações da escola congregaram-se mais de mil miúdos ululantes, num verdadeiro triunfo para aquela comitiva. 

À saída, rumo aos autocarrros estacionados perto do célebre Hotel Cardoso, cada um dos jogadores fora rodeado de dezenas de miúdos, em busca de autógrafos, sorrisos, uma palavra, um "estar perto" que fosse. E era óbvio que entre aquela petizada ninguém conhecia Chalana - que fora, e sem demérito por nenhum atleta - muitíssimo melhor jogador do que qualquer daqueles ali deslocados. Assim saía ele descansadamente, olhando sorridente aquela azáfama toda. Não resisti, aproximei-me, aproveitei para me apresentar, "Zé Teixeira, adepto do Sporting e seu grande admirador e muito lamento que a miudagem não o conheça" e ele riu-se, até um bocadinho atrapalhado e expressando que era normal, nada mais do que isto do "passar do tempo". E ali ficámos um pouco à conversa, no passeio defronte ao Museu de História Natural. E nesses breves minutos, menos de um quarto de hora, deu-me para perceber que o Artista era um homem gentilíssimo. E interessado pelo circundante, bem para além do futebol, pois logo indagando sobre Moçambique, a situação, a pobreza local, mas também sobre mim, como ali me corria a vida, como se adaptava a minha família, etc. Uma atenção pelos outros, coisa tão rara entre os inúmeros patrícios ali visitantes - que quando chegados a Maputo sempre se desdobravam em avaliações apressadas sobre o que acabavam de conhecer e, quantas vezes, discorriam sobre si mesmos e o que ali estavam para fazer, como se fossem realmente significantes.

Um Senhor, na sua modéstia, parecendo até que se desculpava de ter sido um Gigante. Um Gentil Gigante, literalmente. Fiquei dele ainda mais fan...

(No seu sexagésimo aniversário, sendo já público o seu delicado estado de saúde, deixei em blog uma bem humorada "hommage à Chalanix").

Sporting 2022/23

jpt, 31.07.22

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Para os sportinguistas os dois últimos anos foram óptimos. O clube acalmado, bem gerido. Inúmeros títulos nas "modalidades". E, acima de tudo, o futebol sénior a correr bem. O título tão ambicionado na penúltima época. E no ano transacto uma bela época, excelente presença na Liga dos Campeões, belo campeonato, bom futebol. Nisso tudo o dedo mágico de Rúben Amorim, e uma direcção a contratar bem e a ceder quem tem de ceder. A deixar medrar boas, até excelentes, expectativas para este ano. 

Mas... Olho, descorçoado, para esta  pré-época. Transferido o trinco titular, João Palhinha, haveria espaço para maior afirmação do talentoso Daniel Bragança, para isso contando com os dotes tácticos do treinador. Mas lesionou-se com gravidade. O reforço ansiado para o centro da defesa, St. Juste, lesionou-se e não fez a pré-época, o que terá custos físicos e no arranjo táctico inicial. E agora lesiona-se o guarda-redes, parece que ficando impossibilitado para os dois primeiros meses - pior ainda pois numa época de concentração de jogos antes do Mundial. Assim, não só defesa e meio-campo não estarão muito reforçados como a baliza ficará entregue neste início de época a um jovem guarda-redes sem qualquer experiência de futebol de primeira - nem sequer de "banco", como o actual jovem guarda-redes do Porto já tinha quando ascendeu à titularidade. 

Ou seja, parece-me que por efeitos da fúria divina, fustigando o clube, este ano será para baixar as expectativas. Principalmente num campeonato tão desequilibrado como o português, onde uma ou duas escorregadelas (como no ano passado) logo custam os títulos. Uma pena. Mas será de recordar este contexto inicial quando, lá mais para o meio da época, começarem as críticas ao presidente, à direcção. E, decerto, ao treinador. Pois este ano, assim, só restará "correr por fora...". E tudo o que vier será lucro. Até inesperado.

Futebol no feminino

João André, 28.07.22

Popp double secures Germany place at UEFA Women's Euro 2022

Ontem assisti a um fantástico jogo de futebol entre a Alemanha e a França que acabou com a vitória alemã por 2-1 e subsequente qualificação para a final. Anteontem vi o jogo onde a Inglaterra (a jogar em casa como organizadora do torneio) esmagou a Suécia por 4-0. No domingo temos a final deste torneio Euro2022 que tem sido jogado com estádios cheios e recordes de audiência televisiva. A qualidade dos jogos tem sido bastante elevada, com jogos muito bem disputados e com bastante fluência e atacantes o suficiente, mas sempre sem descurar os aspectos tácticos. A Inglaterra tem excelentes hipóteses de vencer o torneio (a final vai ser em Wembley) graças à qualidade das suas jogadoras (e treinadora, que mudou a mentalidade) e ao factor casa. A Alemanha, no entanto, com a sua avançada talismã Alexandra Popp em excelente forma (marcou em todos os jogos e ontem marcou ambos os golos da vitória) e a sua excelente organização (o jogo de ontem foi o primeiro em que sofreu um golo) tem boas hipóteses. O jogo deve ser excitante.

Portugal deu boa conta de si, especialmente participando apenas deviso à exclusão da Rússia, com um empate contra a Suíça e uma derrota apertada contra as aindas campeãs em título dos Países Baixos. Depois as jogadoras portuguesas foram cilindradas pela Suécia, mas a participação não é má, considerando que o desenvolvimento do futebol feminino em Portugal ainda é fraco, espero que isso vá melhorando. Lembro-me de há um ou dois anos ter lido sobre o Estádio José de Alvalade ter enchido num jogo do Sporting (em que penso as jogadoras se sagraram campeãs) e que terá levado o Benfica a fazer o mesmo esta última época (não sei se encheu). Infelizmente o Benfica ainda manda as suas jogadoras jogar num dos campos do centro de treinos e penso que o Sporting (e outros clubes) faz o mesmo, à excepção, suponho, de um ou outro jogo de maior importância.

Fico feliz por isso, porque o futebol feminino tem vindo a melhorar imensamente e os espectáculos destas principais competições são bastante mais interessantes que os jogos das equipas masculinas. A Liga dos Campeões deu excelentes exemplos disso, com futebol moderno (o Barcelona jogou no mesmo estilo que reconheceríamos nas equipas de Guardiola), bem disputado e rivalidades a despontar. O Lyon continua a ser a força dominante (recuperou o título europeu este ano depois de o Barcelona o ter vencido no ano passado) graças ao investimento que tem feito na equipa feminina (que começou em coisas tão banais como ter equipamentos feitos para mulheres, em vez de lhes darem camisolas de homens mais pequenas). O PSG, O Barcelona, as equipas alemãs e inglesas, todos estes clubes estão a aumentar o apoio ao futebol feminino e os resultados são extremamente óbvios. O futebol é excelente, o espectáculo também, há poucas faltas e quase nada de quezílias, jogo violento ou queimas de tempo. Quem quer bom espectáculo (pelo menos nos níveis mais elevados - não conhecço as ligas em si) fica melhor servido com o futebol feminino que com o masculino.

Para este Europeu, a final pode ser vista em Portugal na RTP2 às 5 da tarde de domingo. Aconselho que o possa a ver o jogo. Do lado inglês haverá uma semi-portuguesa, na lateral direita Lucy Bronze, que tem pai português (e é das melhores jogadoras do mundo). Há também outras excelentes jogadoras de parte a parte: Beth Meade, Fran Kirby, Georgia Stanway, Alexandra Popp, Lena Oberdorf, Lina Magull. Para trás ficaram algumas outras que gosto de ver, como Wendy Renard, Delphine Cascarino (francesas), Aitana Bonmatí (espanhola), Magdalena Eriksson, Kosovare Asllani (suecas), Vivianne Miedema, Lieke Martens (neerlandesas), Pernille Harder (dinamarquesa) ou Ada Hegerberg (norueguesa). A estas dever-se-iam somar ainda a minha preferida, Amandine Henry (francesa e afastada devido a conflitos com a seleccionadora) ou Alexia Putellas (espanhola, uma espécie de Xavi e Iniesta numa só jogadora e afastada por lesão). Outras jogadoras têm-se também mostrado (como seria de esperar) e valerão a pena ver no futuro.

Não me alongo mais. Deixo apenas a recomendação: se gostam de bom futebol, vejam a final e, no futuro, vejam mais jogos femininos. A Liga dos Campeões estará disponível a partir da fase de grupos (em directo) no Canal de YouTube da DAZN.

Penso rápido (99)

Pedro Correia, 14.07.22

Há cada vez menos gente capaz de ver um jogo de futebol do princípio ao fim. Por manifesta - e cada vez mais preocupante - incapacidade de concentração. Incapacidade mental e motora.

Apercebo-me, em grau crescente, que entre os mais jovens - mas não só - se troca a visão integral do jogo, mesmo da equipa de que se dizem adeptos, pelo resumo de três minutos já servido para esse efeito nas redes e nas televisões.

Isto verifica-se ao vivo, no próprio estádio. Enquanto o jogo decorre, ali à nossa frente, uma parcela cada vez maior de "espectadores" passa o tempo a mirar o teclado do dispositivo móvel. Preferindo olhar em vez de ver. Preferindo olhar em segunda mão. Como se a imagem electrónica fosse mais verdadeira do que a imagem real.

O respeitinho é muito bonito

Pedro Correia, 06.07.22

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"Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol."

"A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances."

"O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo."

"Há jogos com outra intensidade competitiva."

"Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário."

"A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem."

"Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair."

"Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa."

"As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos."

"O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida."

"Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido."

"São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa."

"O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores."

"Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo."

"O futebol é uma lógica de conjunturas."

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos "níveis exibicionais", do "esqueleto táctico" e da "intensidade competitiva" mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa "filosofia colectiva", "zona de bloqueio", "jogadores verticais" e "marcação subida"?

O respeitinho é muito bonito.

Triunfo onde já se dominou

João Pedro Pimenta, 27.05.22

A Roma, clube mais popular da Cidade Eterna, ganhou o seu primeiro título em muitos anos e o primeiro troféu da Conference League, essa nova competição do futebol europeu. E também a primeira final internacional em Tirana, capital da Albânia.

Não deixa de ser uma extraordinária coincidência: é que o estádio, um imóvel vanguardista recente com uma torre lateral que à primeira vista, de fora, nem se percebe ser um recinto desportivo, fica situado numa zona urbana construída por italianos e que alberga grande parte dos edifícios públicos e administrativos da capital. Todas aquelas construções datam do tempo da anexação da Albânia pela Itália, nos anos trinta, e são de típica arquitectura fascista, racionalista e monumental. O exemplo perfeito é o edifício da universidade de Tirana, ao fundo de uma larga avenida, tendo o estádio do seu lado esquerdo, para quem está de costas para a fachada, e as construções das imediações e da dita avenida obedecem ao mesmo plano. Nem o singular regime marxista/maoísta que se lhe seguiu mudou a sua configuração. E a praça de entrada para o estádio chama-se mesmo Praça da Itália.

É muito natural que com tanta construção dos seus patrícios, e parecida com outras que há em Roma, os romanistas nem se tenham sentido no estrangeiro. Até porque na Albânia muita gente fala italiano e não faltam gelatarias.
 
Ah, e Mourinho voltou a ganhar um troféu, continuando 100% vitorioso em finais internacionais. Isso também é familiar.
 
 
Pode ser uma imagem de 4 pessoas, céu e arranha-céus
 
Pode ser uma imagem de 5 pessoas, monumento e ao ar livre

2 centímetros de futebol

jpt, 08.05.22

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Ontem, no decisivo Benfica-Porto, foi anulado um golo por fora-de-jogo de... 2 centímetros. Resmungam os benfiquistas, lamentam-se os sportinguistas - nós, os do "leão", ainda que estivessemos já algo desesperançados, maldizemos a regra em uso. Mas, justiça seja feita, se o bambúrrio nos tivesse bafejado, e o clube tivesse acabado campeão tal teria acontecido através de uma regra anacrónica e injusta (desempate por golos "fora" nos 2 confrontos directos com o competidor imediato [Porto], numa competição de 34 jogos).

Ou seja, não venho resmungar com este golo anulado (e se o quisesse fazer não o faria no Delito de Opinião, pouco dado a futebolices). Mas há mais de três anos que resmungo com este modo de aplicação videográfica (VAR) no fora-de-jogo, que prejudica a indústria de entretenimento futebolístico. E aqui opinei (e no És a Nossa Fé!) sobre o assunto. Repito o que então escrevi, minha forma de assumir a candidura a influencer no International Board:

"O VAR é fundamental, é óbvio que reduz os erros dos árbitros e que é um grande instrumento contra a protecção aos grandes clubes e contra a corrupção - promovida pelos clubes e por essa relativa novidade das apostas desportivas privadas e avulsas. Mas ao quebrar o predomínio da paixão e da festa arrisca a tornar o jogo mais cinzento e, nisso, a ilegitimar-se. Assim as suas imensas capacidades tecnológicas de observação desumanizam o jogo. Ontem foi exemplo disso. Para que o VAR seja protegido dever-se-á pensar a aplicação das regras, refrear a tendência legalista que ele trouxe, uma verdadeira ditadura milimétrica promovida pela tecnologia. Urge regressar, e reforçar, [a] tradições na jurisprudência futebolística, pois humanizadoras, cuja relevância ontem foi demonstrada:

- (...) Há que recuperar o ideal da protecção do avançado em caso de dúvida na aplicação desta lei, de uma (muito) relativa indeterminação. Anda tudo a aplicar ilegalidades ínfimas, se o calcanhar de um está adiante ou não, se o nariz do avançado pencudo está à frente das narinas achatadas do defesa. (...) Que interessa isso para o fluir do jogo? Urge recuperar essa ideia do "em linha", e permitir que o avançado esteja "ligeirissimamente" à frente do defesa: se confluem, relativamente, numa linha horizontal ... siga o jogo. Claro que depois se discutirá se o calcanhar dele estava ou não em linha com a biqueira do defesa. Mas serão muito menos as discussões. E haverá mais golos. E, acima de tudo, menos anulações diferidas. Donde haverá mais festa, mais alegria exultante. É esse o caminho para a defesa da tecnologia. E da paixão. Julgo eu, doutoral aqui no meu sofá."

Um abraço do tamanho do mundo

Sérgio de Almeida Correia, 12.04.22

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Para quem aprecia um bom jogo de futebol, o encontro entre Manchester City e Liverpool da última jornada da Premier League foi um espectáculo. Em regra, os jogos do campeonato inglês são sempre um espectáculo. Há respeito pelo adversário, entrega, coragem, emoção, golos. Discute-se a bola em cada centímetro de relva, sua-se no campo todo.

E depois há o público. Animação, alegria, cânticos, aplausos. Não há fossos de protecção, não há arames, grades, jaulas.

E o que aquela gente corre, meu Deus. Até parece que não se cansam. Com os lusos a contribuírem para o espectáculo. Irrequietos, mostrando todos os seus atributos, destilando classe no drible, no passe. De vez em quando lá se vê o árbitro. Também se farta de correr. Fala com os jogadores, repreende-os quando é necessário, pedem-lhe desculpa, por vezes riem-se juntos. Tudo a anos-luz do que por outros lados se vê, onde os bandoleiros teimam em fazer parte do espectáculo. Mas não é este o momento apropriado para falar de desgraças.

O que aqui quero sublinhar desse jogo, e que é comum em quase todos os outros da Premier League, é o modo como os treinadores se relacionam. Parece que quanto melhores mais se entendem, mais se estimam, mais se admiram. E o jogo de domingo não fugiu à regra.

Naquele abraço no final do jogo entre Guardiola e Klopp estava lá tudo. A deferência, a amizade, a autenticidade, o respeito pelo outro, a paixão pelo jogo, os adeptos das duas equipas. O futebol em todo o seu esplendor.

Que bom foi ver esse abraço. Um abraço que foi todo ele um hino ao futebol, à civilidade, uma jogada excepcional, que em segundos resumiu toda uma partida. Um abraço que mostrou, afinal, que esse jogo, que pouco se assemelha ao "chuto-na-bola", também pode ser jogado por cavalheiros. Que exemplo.

A tíbia FIFA

jpt, 28.02.22

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Não será agora o momento para muito elaborar sobre as características intrínsecas da FIFA - demonstráveis pela atribuição da organização do próximo Mundial à ditadura teocrática do Catar, ainda por cima ao invés de qualquer racionalidade desportiva. Mas a tíbia atitude face aos acontecimentos de agora, propondo-se mimetizar o comportamento do COI ao patrocinar a pantomina de uma representação russa desprovida dos seus símbolos, é o típico "nem sim, nem sopas". É inaceitável. Muito bem vão as federações da Polónia, República Checa e Suécia, que já anunciaram a sua indisponibilidade para jogarem com a selecção do país que fere deste modo a segurança mundial e que aventa, a níveis retóricos que desconhecíamos nas largas últimas décadas, a utilização de arsenal nuclear.

Face a esta mercenária atitude da direcção da FIFA será de exigir à nossa Federação que se demarque de imediato dessa via, defendendo publicamente a exclusão russa. E, se tal não acontecer, será de exigir ao nosso governo que execute todo o tipo de represálias legalmente disponíveis sobre a FPF e seus associados. Entre as quais, se tal for possível, uma simbólica: retirar-lhe a possibilidade de utilizar os símbolos nacionais.

Um fiasco campeão

Sérgio de Almeida Correia, 24.05.21

Untitled.jpg(créditos: @Paulo Novais/Lusa)

 

A época futebolística do Benfica terminou como começou. Isto é, em humilhação e vergonha.

Humilhação porque uma equipa que vale centenas de milhões de euros, com um investimento de início de época de mais de cem milhões, recheada de jogadores com experiência internacional, pagos a peso de ouro e que são titulares nalgumas das melhores selecções do mundo, não podem jogar tão pouco como o que demonstraram ao longo da época. Ainda porque aquilo que foi prometido aos sócios e adeptos foi que a equipa iria jogar muito mais do que com Bruno Lage, que iria conquistar títulos, ter uma presença europeia à altura dos seus pergaminhos e ser dominadora a nível interno.

Não foi nada disso o que se viu.

Durante toda a época os jogadores do Benfica apresentaram um futebol miserável, que apenas melhorou a espaços  durante alguns jogos e em períodos curtos, tendo a equipa sido incapaz de segurar resultados e tirar partido dos momentos em que ganhou algum ascendente, como aconteceu no jogo para o campeonato com o Sporting, já depois deste se ter sagrado campeão nacional, e em que depois de estarem a ganhar por 3-0 e 4-1 andaram completamente aos papéis.

As escolhas de jogadores e as tácticas para os jogos foram um desastre. A defesa nunca chegou a acertar. Retirou-se a titularidade da baliza a um grego excepcional entre os postes e com potencial. Mudou-se a forma de jogar habitual da equipa para um figurino com três centrais do qual não se retirou nenhum proveito. O treinador teimosamente insistiu. As alterações durante os jogos raramente e só por mero acaso surtiram algum efeito. A maior parte dos reforços não passou de uma promessa permanentemente adiada ou de um erro de casting. Jogadores lentos, apáticos, jogando sem qualquer inteligência, prontos para a quezília e a discussão sem razão. Uma linha média que parece estar sempre cansada, ausente, trapalhona, fazendo faltas sem necessidade e a destempo, atrás de uma frente de ataque desacertada, que se esforça e corre muito sem proveito, e que falha ainda mais, normalmente de forma escandalosa diante das balizas adversárias.

Eliminados numa pré-eliminatória da Liga dos Campeões, que arruinou a época financeira, e onde se entrou com a maior displicência para sermos eliminados por uma equipa da segunda divisão europeia sem qualquer currículo. Derrotados de forma categórica na final da Supertaça, corridos da Taça da Liga, afastados da luta pelo Campeonato Nacional com sucessivas desculpas e erros múltiplos, que um treinador espaventoso quis desculpar com a COVID-19, como se esta não tivesse afectado todas as equipas em Portugal e na Europa. Acabou discutindo o terceiro lugar com o quarto classificado na mais importante prova interna, depois de afastado da Liga Europa sem qualquer glória e terminar uma época que se revelou penosa perdendo, uma vez mais, uma final da Taça de Portugal, com jogadores expulsos, sem qualquer fibra nem controlo nervoso, e que deram um espectáculo deprimente durante a maior parte do tempo.

A Supertaça Cândido de Oliveira da próxima época também já ficou perdida porque também não iremos lá depois da derrota de ontem em Coimbra. E Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus continuarão a assobiar para o ar, fazendo de calímeros e prometendo mundos e fundos aos papalvos que ainda acreditam no Pai Natal, enquanto alguns empresários amigos vão embolsando milhões em comissões e o nome do clube arrasta-se pela lama que é posta a descoberto pelas investigações judiciais e parlamentares.

Os únicos benfiquistas campeões no futebol profissional masculino foram-no noutra equipas. Fosse em Portugal, em Espanha, em Inglaterra ou em França. A esses, e aos nossos adversários que em Portugal, com inteiro mérito, conquistaram troféus, só há que reconhecer que foram melhores e dar-lhes os parabéns, fazendo votos de que no que a nós diz respeito não se volte a repetir.

Gostava de poder pensar que para a próxima época será diferente, mas tenho dúvidas que tal seja possível. E tenho pena porque gostava de voltar a ter esperança.

Por agora tenho somente vergonha. Não tanto pelas derrotas, mais pela forma como se perdeu, e pelas deprimentes conferências de imprensa do nosso treinador. Embora tenha consciência de que enquanto para os lados do meu clube continuar a imperar, dentro e fora das quatro linhas do futebol profissional, uma cultura desportiva assente num novo-riquismo esbanjador, chico-espertista, parolo, convencido e mal-educado será difícil esperar mais e melhor.

Por muitas lágrimas e muito suor que escorram pelos rostos dos mais novos e dos mais inconformados.

Despropósito

Sérgio de Almeida Correia, 20.06.20

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(foto de Miguel A. Lopes/LUSA)

 

É compreensível que os portugueses fiquem satisfeitos, penso eu, por poderem acolher a fase final da mais importante competição europeia a nível de clubes, a Liga dos Campeões.

Com ou sem adeptos nos estádios, com mais ou menos riscos, certo é que a elite do futebol europeu estará durante uns dias por Portugal, ocupando hotéis e restaurantes, dando uso aos estádios, e, concedo, promovendo a imagem do país e das suas cidades no exterior.

Não vou aqui discutir os méritos ou os deméritos da iniciativa, a sua oportunidade, os riscos que comporta, e outras questões igualmente relevantes e que merecem atenção. Isso ficará para os jornalistas e os profissionais do comentário.

Eu fiquei satisfeito na justa medida do que isso representa em termos de incentivo e impulso para se procurar melhorar e combater a crise internamente.

Mas o que quero mesmo é apenas sublinhar a minha estupefacção pelo espectáculo que as nossas principais figuras de Estado continuam a proporcionar.

Como se o facto de ter existido um COVID-19, para todos os efeitos uma desgraça para a maioria, que por um bambúrrio atirou para Portugal a fase final da competição, se devesse ao nosso trabalho, ao nosso esforço, aos nossos êxitos.

Fazer do acontecimento um sucesso nacional, nesta fase do combate à epidemia, e quando tantos são os problemas que há para enfrentar, como se daí viesse a solução de todos os nossos dramas, não é sinal de auto-estima ou de feito histórico.

Para além da manifestação ser despropositada, na dimensão e na exultação, é acima de tudo provinciana.

Como alguém de quem me estou a lembrar diria, se fosse vivo, em matéria de provincianismo somos de facto imbatíveis. E uns tremendos parolos.

Safamo-nos de boa

Rui Rocha, 14.01.14

De acordo com opiniões avisadas, a atribuição da Bola de Ouro a Ronaldo é muito importante para o país porque puxa pela auto-estima dos portugueses. Eu, que mesmo com o prémio do Ronaldo não me sinto particularmente entusiasmado por estes dias, nem quero imaginar o que seria de mim se calha de a Bola de Ouro ter ido parar às mãos do Messi ou do Ribéry. Livra!