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Deputação

por Pedro Correia, em 20.07.18

A que propósito é que o chamado "núcleo de deputados sportinguistas na Assembleia da República" recebe com pompa o presidente destituído do Sporting Clube de Portugal, no Palácio de São Bento, dando-lhe um crédito que ele não justifica nem merece? Será que os senhores legisladores não têm mesmo mais nada para fazer?

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Frases de 2018 (33)

por Pedro Correia, em 16.07.18

«Vocês suaram a camisola. Vocês mobilizaram todo o país. 66 milhões de franceses tiveram os olhos postos em vós. Sereis exemplos para muitos jovens.»

Emmanuel Macron, Presidente francês, em palavras dirigidas no balneário aos jogadores do seu país que ontem se sagraram campeões do mundo em futebol

 

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Um guarda redes com cãibras a aguentar um prolongamento e a defender dois penalties. Um médio a perder a bola por lhe dar um torque e não ter pernas para a ir buscar mas depois a recuperar a bola e a virá-la de flanco. Um avançado a mal poder correr excepto quando cheirou uma bola e lhe acertou de forma perfeita para acabar com o sonho inglês. Um jogador a marcar dois penalties em jogos decisivos depois de correr 120 minutos em cada e nós a sabermos que estaria pronto para repetir a dose no terceiro jogo consecutivo. Um desempenho de sonho a negar a equipa do melhor jogador do mundo e outro funcional, da equipa secundária, quando não precisaria de o fazer. Três jogos consecutivos a recuperar de desvantagens para se apurar para a final com o equivalente de um jogo a mais e um dia menos. E isto é só o mundial da Croácia.

 

(Hrvatska! Hrvatska! - ouve-se da minha janela, gritado a 950 km de distância)

 

A Inglaterra sonhou como não o fazia há 28 anos e conseguiu ser parada sem que o cortejo de juízes surgisse no horizonte. A Rússia sacudiu a etiqueta de segunda pior equipa do mundial para estar a um passe (ou remate) das meias-finais. A Bélgica recuperou de uma desvantagem de dois golos contra o Japão e depois venceu o Brasil, em desempenhos que deixaram os adeptos do mundo inteiro (excepto japoneses e brasileiros, à vez) a torcer por eles. Lukaku especialmente deixou água na boca contra os japoneses ao não tocar a bola antes do último remate do jogo e a fazer verdadeiro bullying artístico a quem lhe apareceu pela frente - ou pelo ombro - frente aos brasileiros. Meunier, no seu jeito de gigante desengonçado e trapalhão tem sido calmamente o melhor lateral direito do mundial - a sua ausência foi excessivamente notada. Outros dois laterais direitos deram-nos aqueles que poderão ter sido os melhores ou mais belos golos do mundial.

 

(pausa para respirar)

 

Ronaldo teve um jogo a falar da melhor cabra de todos os tempos** e foi abafado por dois golos excepcionais, um deles resultante de uma tabelinha de 100 metros. O VAR apareceu na fase de grupos e deve ter bebido tanta vodka que desapareceu nas eliminatórias. Mbappé apanhou uma multa por excesso de velocidade num jogo e decidiu atormentar as polícias de trânsito nas defesas adversárias apenas em trajectos curtos. Lilian Thuram foi descoberto na Rússia, 24 anos mais novo e com outra cor de pele, mas não engana ninguém. De Bruyne foi dando lições de geometria euclidiana com os seus passes saídos directamente do Elementos. O cliché inglês da fila às espera do comboio em forma de bola nos livres indirectos e cantos.

 

(Neymar rebola... e rebola... e rebola...)

 

Os remates de Coutinho. Godín a defender toda a área, duro quando necessário, com souplesse quando possível. Varane a varrer a sua defesa no ar e no chão, mais rápido que Hazard a correr, que Fellaini a saltar e mais forte que Lukaku, mas sempre com classe. Kanté a varrer a direita e a esquerda de Pogba - ao mesmo tempo. A trivela de Quaresma. Os 3 metros e meio de altura de Yerri Mina. A trivela de Quaresma. Aliou Cissé a destilar coolness. A trivela de Quaresma. O Japão a jogar para perder o último jogo na fase grupos e ser apurado por serem bons rapazes. Neuer a ala esquerdo. Kroos a fazer de Bom, Mau e Vilão num único jogo. Quase duas vezes. Honda a entrar em campo para marcar um golo do empate ao fim de 6 minutos. A Inglaterra a vencer um desempate por penalties.

 

(esperemos: o Panamá está ainda a celebrar os golos)

 

El-Hadary a não ser substituído depois de ser o mais velho jogador a jogar um mundial e a defender um penalty. Tal memória deveria ter sido gravada para sempre sem necessidade de o ver a conceder golos. Marrocos a dominar 3 jogos e não vencer nenhum. Dinamarca e França a oferecerem uma cura para o stress. Já disse que a Islândia se qualificou para um mundial com uma população de 300 mil? O cineasta vindo do frio a defender um penalty ao melhor jogador do mundo*. Rojo a mostrar aos seus avançados como se marca um golo. Os dois suíços que provocaram os sérvios por causa do Kosovo depois de serem provocados pelos russos. O guarda redes iraniano que dormiu no chão mas que defendia quase tudo, inclusivamente um penalty do mais valioso trintão do mundo***. Lozano. Kompany porque simplesmente gosto do tipo. Fellaini porque é daqueles tipos que é impossível de não se gostar quando estamos longe dos seus cotovelos. Kane porque vai ser o melhor marcador com 3 penalties, 2 sobras e 1 bola tabelada na canela. Auto-golos porque vão ultrapassar Kane. Brasil a ser eliminado mais cedo que há 4 anos mas com melhor sabor na boca.

 

(preparar o fim)

 

Um mundial de sol, festa, jogos abertos como não há muito, jogadores a lutar até ao limite das forças e ainda mais além, selecções a celebrar mesmo depois de serem goleadas, um anfitrião a abrir as janelas fechadas à muito para mostrar que sabe de hospitalidade mesmo quando volte a fechar a casa, de pena por as equipas africanas não passarem a fase de grupos depois de iluminarem os seus jogos no campo e nas bancada, equipas a serem eliminadas sem recriminação, cerveja a esgotar, a presidente croata, a ausência de Putin, alfabetos cirílico e latino, sol da meia-noite - ou perto disso.

 

E teremos sempre a quaresma de Trivela em Saransk.

 

* - escolha pessoal, discordem à vontade.

** - Referência à barbicha - goatee em inglês - e a GOAT, acrónimo para Greatest Of All Times.

*** - pelo menos no futebol.

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O ópio do povo

por Pedro Correia, em 09.07.18

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Futebol e mais futebol e mais futebol e mais futebol. Em todos os canais, começando pela televisão pública. Serões inteiros dedicados à bola, internacional ou doméstica. Serões cujo conteúdo é retransmitido madrugada adiante nos sonolentos canais que garantem ter noticiário "24 horas". Na manhã seguinte, mais futebol. E à hora do almoço. E durante a tarde.

Nunca o escrutínio governativo andou tão arredado das pantalhas cá do burgo.

António Costa, com 40 anos de experiência política, sabe muito bem que este ópio do povo é o maior aliado de um Executivo em dificuldades. Imagino-o até a recomendar ao desaparecido ministro da Educação, que enfrenta uma contestação sem precedentes dos professores nesta legislatura: «Tiago, vai à Rússia e mostra-te lá com os jogadores da selecção.»

E ele foi. Como se dizia antigamente, e bem podia voltar a dizer-se agora, «o futebol é qu'induca, a bola é qu'instrói

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Notas de meio do Mundial

por João André, em 01.07.18

Quis escrever mais vezes sobre o mundial no meu outro estaminé mas não tem sido possível. Agora que o mundial de Portugal temrinou, ficam uns apontamentos.

 

Portugal

O primeiro jogo, contra a Espanha, deu-me esperança que Ronaldo estivesse ao seu melhor nível e Portugal jogasse bem o suficiente para o apoiar. A Espanha tinha-me parecido estar a jogar bastante bem e só tendo sido batida por uma boa organização defensiva e uma actuação brilhante de Ronaldo. Os jogos subsequentes, de Portugal e Espanha, indicaram que talvez não fosse bem assim, nem para Portugal nem para a Espanha (à hora que escrevo está empatada a um golo com a Rússia).

 

Portugal tinha a desculpa contra a Espanha de saber que não veria muito a bola. Contra Marrocos e Irão isso não sucederia. Fernando Santos insistiu em esquemas e jogadores que pouco ou nada fizeram e com toda a gente à espera que Ronaldo resolvesse tudo. Contra Marrocos Portugal teve muita sorte em não perder (esta também é necessária) e contra o Irão o jogo foi sofrível e mesmo com o penalty mal assinalado em favor do Irão o resultado não foi incorrecto.

 

Contra o Uruguai Fernando Santos corrigiu alguns erros tácticos, mas algo tarde e de forma dubiosa. Com Bernardo Silva na ala direita, era necessário jogar com um lateral mais inclinado a procurar a linha final para permitir a Bernardo Silva mais liberdade. Infelizmente isto surgiu ao 4º jogo, sem verdadeiras rotinas, e Cédric não mereceria ser enviado para o banco. No ataque haveria alguma lógica em jogar com Gonçalo Guedes, mas apenas se fosse um avançado mais móvel. Encostado aos centrais, especialmente Godín e Gimenez, foi o equivalente a oferecer-lhes um chá mate. Mais tarde fez entrar Quaresma para alargar o jogo, mas infelizmente retirou Adrien em vez de João Mário (que, sendo apenas sofrível, fez o seu melhor jogo do mundial).

 

O azar foi também que o melhor jogador português do mundial, Pepe, cometeu um erro enorme que deu o segundo golo aos uruguaios. Há no entanto alturas em que temos que dar o mérito ao adversário. Fernando Santos foi emendando a mão e Portugal não jogou mal, mas os Uruguaios têm uma defesa quase impenetrável. O resto da equipa é disciplinada e com mais garra charrua por jogador que o resto das equipas mundiais em conjunto. E, no ataque, têm dois avançados de enorme qualidade, que jogam de olhos fechados, sacrificam-se pela equipa e não são egoístas. A comandar tudo, provavelmente o melhor seleccionador dos últimos 20 ou 30 anos: Tabarez. Os uruguaios marcaram primeiro em duas ocasiões. Depois de concederem um golo, só o fariam outra vez se Ronaldo descobrisse alguma coisa especial. Não o conseguiu e Portugal volta para casa.

 

Jogadores

Positivo: Patrício, Pepe, José Fonte, Cédric, Adrien, Quaresma (apesar de ter tentado ser expulso contra o Uruguai) e Ronaldo. Note-se que os considero positivos, não necessariamente muito bons.

Razoáveis: William, Guerreiro, Moutinho, Ricardo.

Negativos: João Mário, Bernardo (apesar de ter melhorado imenso no último jogo), Guedes.

 

Os únicos que foram muito bons, e ainda assim, apenas a espaços, foram Ronaldo, Patrício e Pepe. Os único que foi consistentemente muito mau foi João Mário. Guedes esteve perto, mas teve algum trabalho de equipa decente nos dois primeiros jogos (ao mesmo tmmepo que demonstrava cabalmente o erro de o colocar a ponta de lança). Destes grupos, não há queixas a Patrício porque nada podia fazer nos golos que sofreu (talvez o primeiro do Uruguai, mas seria difícil). Os outros despareceram de tempos a tempos e foi nesta inconsistência que Portugal teve uma passagem pouco notória no mundial.

 

Outras notas

Deutschland... Auf Widersehen... Nao é preciso alemão para compreender a sua eliminação. Uma velhinha grega basta: hubris.

 

Equipas que impressionaram até agora: Uruguai, Croácia, Bélgica, Inglaterra (estas duas tiveram pouca oposição), Senegal, Nigéria (sim, sei que estas foram eliminadas), Colômbia.

 

Equipas que desiludiram: Argentina, Egipto, Polónia.

 

Equipas que vão avançando à custa do talento: França e Espanha.

 

Equipa neste momento mais capaz de vencer: Brasil. Tiveram um início semi-impressionante, dando a ideia que faltava sempre alguma coisa. Contra a Sérvia pareceu ter aparecido essa coisa extra. Se a mantiverem, terão a melhor equipa para vencer.

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A pátria em chuteiras

por Pedro Correia, em 01.07.18

 

Onde estavas tu, Éder, quando tanto precisávamos novamente de ti?

 

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 22.06.18

 

Portuguese football's parable of populism. De Paul Ames, no Politico.

 

 

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Muito para além do Sporting

por jpt, em 16.06.18

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(Texto que coloquei há dias, em versão algo diferente, no És a Nossa Fé. Deixo-o aqui por desafio de uma leitora/comentadora de ambos os blogs).

 

Por antipático que isto pareça aos sportinguistas, em especial neste período de exaltação clubística, não "é ao Sporting que devo lealdade e fidelidade", como tantos reclamarão, em registo algo “futebolês”, como factor de legitimidade opinativa e, acima de tudo como invectiva aos trabalhadores jogadores de futebol que estão a rescindir os seus contratos laborais. Devo "lealdade ..." indiscutível à Pátria (ao país, como prefiro dizer), à minha família, ao meu parentesco espiritual (os meus amigos). E devo lealdade a quem me rodeia, como ser humano, e de forma mais explícita no âmbito das relações laborais. [E junto, tipo nota de rodapé, que abomino o conceito de fidelidade, que entre pessoas é o refúgio dos medíocres - deixemos agora de fora a vida conjugal, que cada um a viva como quer].

 

O Sporting Clube de Portugal é um clube, uma associação desportiva, e estas grandes proclamações muito absolutas e grandiloquentes casam bem com a tal exaltação, nos eventos desportivos e nestes difíceis momentos. Mas não, nada mesmo, na normalidade do dia-a-dia. Pois, de facto, confundem valores, mostram até algum vazio de valores. Alguns contestarão isto, reclamarão a sua paixão imorredoira pelo clube. Mas se lhes aparecer um vizinho a dizer, com grande ênfase, jorrando perdigotos, como se falasse de um qualquer Padroado, "eu devo lealdade e fidelidade ao Olivais e Moscavide" ou a um outro qualquer "Santa Marta de Penaguião Futebol Clube" decerto que sorrirão, tal o descabido, até ridículo, da afirmação. Mas é exactamente a mesma coisa com qualquer associação desportiva. Que cada um exerça a paixão clubística à sua maneira, mas que se lhe exija um tino de cidadania, uma perspicácia sobre a relevância relativa daquilo que nos rodeia.

 

O que se passa no Sporting ultrapassa em muito a questão clubística - ainda que esta seja tão sonante e premente que nos monopolize a atenção. No clube, grande instituição nacional, de enorme influência formativa entre os seus adeptos e em toda a sociedade, predomina uma soez cultura anti-democrática.  Bruno de Carvalho despreza a liberdade e pluralidade de opiniões internas (veja-se o enviesado trabalho do sector informativo interno), a diversidade da sociedade ("bardamerda para os que não são do Sporting", clamou aquando reeleito), e o primado da lei (a rábula das assembleias e dos órgãos dirigentes que quer instaurar).

 

Mais repugnante do que isso, mas inserível no mesmo modo de "ver o mundo", é como olha as relações laborais. BdC entende-se patrão, numa concepção que atribui ao patronato o direito ao assédio ("assédio" não é apenas "assédio sexual", essa questão actual) aos trabalhadores, a sobre-pressão, a invectiva, entendendo-a como “motivadora”, o desrespeito, moral e profissional. Mostram-no, de forma radical, o conteúdo das mensagens que envia aos atletas do clube. E sublinha-o, agora, a divulgação de mensagens privadas que com eles troca, um desrespeito total (e ilegal, ao que me dizem, mas isso é matéria de outro âmbito).

 

O assédio laboral é um crime, ilegal e imoral. Indesculpável, em público e pior até se em privado. Quem o pratica é indigno, não merece respeito. Sabemos (“ouvimos dizer”) que é recorrente, sob plurais formas. E ainda que haja procedimentos legais, enquadramentos sindicais, judiciais e associativos, que protegem os trabalhadores, muitos têm constrangimentos que os levam a aceitar inaceitáveis comportamentos de patronato ou de hierarquias laborais. 

 

Alguns dirão que jogadores de futebol muito bem pagos não são credores da nossa simpatia e solidariedade num caso destes. Não é essa a questão. O que se passa é que BdC tem uma visão da realidade, do mundo laboral, do seu papel de administrador (que entende como de patrão "à antiga"), que é inadmissível. E, repito, ilegal e imoral. Retrógrada, contrária ao desenvolvimento do país nas últimas décadas, à sua democratização - com todos os defeitos e insucessos que se lhe queiram assacar. Adversa aos valores sociais, jurídicos, religiosos, políticos, dominantes. E, como tal, inadmissíveis na figura de um presidente de uma instituição com o peso do Sporting, com a sua dimensão formativa. Independentemente dos triunfos nas modalidades desportivas, futebol incluído. Independentemente dos hipotéticos sucessos económico-financeiros. Pois Bruno de Carvalho, com a visão de sociedade que tem, é uma persona non grata num país democrático e civilizado. 

 

Entre os comentadores deste nosso És a Nossa Fé vejo um pequeno excerto dos que têm apreço por aquele entendimento, alguns com grande iliteracia (talvez fingida no aspecto gramatical, mas óbvia na dimensão intelectual). Tal como noutros blogs e na imprensa se encontram os seus ecos. Muitos dos adeptos desta maneira de ver o mundo, do destratamento nas relações laborais, será gente que está fora das relações laborais institucionalizadas, geridas sob direitos e deveres regulamentados, com instâncias de recurso. Alguns deles, os tais "jovens" de que se falou aquando das prisões entre-claques, integrarão nichos de economia paralela, marginal até, subterrânea. Reforçada no desemprego que grassou no país. Que funciona(rá) com relações laborais, vínculos operacionais, estabelecidos sobre relações pessoalizadas, discricionárias, essas sim apelando à tal "fidelidade". E assim desconhecedores das culturas laborais institucionalizadas. Muito menos violentas, e saudavelmente protectoras dos trabalhadores. Também para obstar a esta pobre visão da sociedade, para compreensão dos direitos dos indivíduos, é importante que grandes clubes não reproduzam os pérfidos valores sociais que gente como Bruno de Carvalho assume.

 

Por tudo isto, por apreço ao país, ao seu desenvolvimento, a todos nós, às nossas liberdades individuais, tem que haver limites. Que são éticos. Questão que se me levanta diante da notícia das rescisões dos jogadores de futebol, trabalhadores do Sporting, na sequência do inadmissível, anti-democrático, repugnante e continuado assédio (bullying) praticado pelo presidente. Quando numa situação destas vejo chamar, com tudo de pejorativo que isso explicita, "refractários" a esse jogadores, isso cruza a linha do admissível. Mostra uma vil concepção de sociedade, de trabalho, de responsabilidade individual. Mostra o quão anti-democráticos são os locutores. O (Um) clube não une quem tem tão diferentes valores, tão diferentes ideias de sociedade, de "lealdade". E, estou certo, não é no meu lado que habita a abjecção moral. Mas no de quem, seja lá qual for o clube com que simpatiza, concorda com esse tipo de invectivas.

 

Não discuto se os jogadores têm “direito” jurídico para rescindirem contratos, isso é matéria para os tribunais. Mas o que discuto é se têm “direito” para o fazer. Muitos contestam esse “direito”, difuso, invectivando-os, clamando que eles traem o “amor à camisola”, aos “vínculos espirituais”. Leio-o e ouço-o entre gente com formação escolar e biográfica mais do que suficiente para uma outra densidade de reflexão. Demonstram, tantas vezes apesar deles próprios, duas dimensões: cegueira sobre a actualidade; adesão ao fascismo.

 

O “amor à camisola”, o “vínculo espiritual”, é essencial no fenómeno clubismo e parte crucial em vários desportos. Mas a sua realidade tem-se transformado, de múltiplas formas. Abordo apenas uma, relativa a esta situação: muitos sportinguistas afirmam que os jogadores da “formação” (as escolas do clube) são “devedores” morais do clube. Entenda-se, os jogadores jovens, das escolas, têm contratos laborais (diz-me um familiar de um jovem jogador do Benfica que aos 14 anos podem assinar contratos até 1500 euros por mês!!). Os clubes investem na formação no intuito de obterem resultados económicos – seja através do exercício quando seniores, seja na venda das licenças desportivas. A própria formação do clube (do Sporting e não só) é entendida como uma actividade produtiva, económica. Como o mostra o “franchising”, o estabelecimento de “academias” pelo mundo (na China, na África do Sul, etc.), que tanto apreço colhe entre os adeptos. É um “business” global, de obtenção de lucros com a “marca” do clube. Esperamos que os putos “sejam” do Sporting, que lhes germine o tal “vínculo espiritual”? Sim. Mas de facto tudo é uma actividade económica, desde a mais tenra idade dos jogadores (o que até levantará questões muito mais abrangentes, que não coloco aqui). E está no cerne da actividade do(s) clube(s). Os jogadores são formados nos clubes, ganham competências para uma profissão? Sim. Mas, repito, fazem-no no seio de uma actividade económica. Assim pensada pela instituição formadora. Assim entendida pelos formandos (e suas famílias). É uma candura, até desonesta, não compreender isso. E exigir uma assimetria no relacionamento. E vir insultar quem, inserido nesta realidade, actua estrategicamente em defesa dos seus interesses.

 

A outra dimensão, a implícita adesão fascista que este discurso mostra, é muito simples e nem me alongarei. O apreço pelo tempo do “amor à camisola”, em que os jogadores estavam longos anos no mesmo clube, dele se tornavam símbolos, a invocação desses “bons velhos tempos” é transversal aos adeptos do futebol, desde o mais empedernido salazarista ao mais pós-moderno pós-maoísta BE. Ou seja, todos eles têm uma nostalgia pelos tempos em que os jogadores de futebol estavam submetidos à “lei do passe” (desportivo): terminado o contrato não eram livres de escolher o seu próximo empregador, pois os clubes tinham a prerrogativa de os manter nos seus quadros. Um regulamento “servil”, “feudal” se se quiser. E por esse intermédio os jogadores ficavam anos a fio, mesmo que tivessem outros objectivos, no mesmo clube. Após o 25 de Abril isso terminou. Passados largos anos, Valentim Loureiro tentou, como presidente da Liga de Futebol, reinstaurar mecanismos legais relativamente similares (sim, um homem de um partido chamado social-democrata; sim, um homem que visitava Guterres em São Bento levando as criancinhas de Gondomar). Muitos, hoje, em nome do seu clubismo, continuam a trautear esse pérfido “ó tempo volta para trás”. Quando os jogadores de futebol não tinham liberdade de escolher o seu empregador. E chamam “amor” a esse seu desejo fascista. É nitidamente uma concepção sado-maso da vida afectiva e sexual. Ou então é pura patetice.

 

Enfim, que os jogadores do Sporting, que tantas alegrias e expectativas me deram (podiam ter sido mais ..., raiparta) sigam as suas carreiras com sucesso e saúde. Exercendo o seu livre-arbítrio. E que, se ainda for possível, regressem em muito breve ao Sporting. Se salvaguardadas as condições para o seu exercício profissional, respeitados, enquadrados pelo espírito da lei laboral e do bom viver democrático.

 

E que os meus caros co-adeptos (aqueles que sabem da dignidade humana, não os energúmenos fanatizados, que põem o clube acima da Pátria, da sociedade, do país)  não repitam a espantosa patetice de tantos benfiquistas, há alguns anos autênticas baratas-tontas porque um trabalhador legitimamente saído do seu clube decidiu, pelo "sagrado" (se há coisa que é sacralizável é isso mesmo) livre-arbítrio vir trabalhar para o rival. Tino, é o que nos tem faltado. A mim, e a pelo menos 86% dos votantes na maior eleição de sempre no Sporting. Recuperemos o tino. E apartemo-nos dos refractários à decência civilizada. No clube. E no país.

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'Melting pot' à portuguesa

por Pedro Correia, em 15.06.18

Diz-me o merceeiro do Bangladeche, estabelecido cá no bairro há pouco mais de um ano: «Hoje vamos ganhar. Cristiano Ronaldo é o maior!»

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Mais do mesmo

por Pedro Correia, em 15.06.18

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O costume: insultou jornalistas («vocês não são capazes de dizer a verdade»), destratou comentadores, enxovalhou os sócios («os associados do Sporting podem ter muitos defeitos mas já perceberam que as coisas não são assim como dizem»), fez autênticas piruetas verbais para quase considerar positiva a onda de rescisões de jogadores («se tiramos os jogadores, também há que tirar os salários, ora como os salários são elevados se calhar as coisas não são assim como dizem»), mostrou-se totalmente dissociado da realidade («estamos a negociar com jogadores belíssimos, sem problema nenhum»; «vou garantidamente ter uma equipa para lutar pelo título no futebol sénior masculino»).

Falou do seu assunto favorito: ele mesmo. Dizendo-se perseguido por todas as forças ocultas do universo. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...

 

Nesta conferência de imprensa, que se prolongou por setenta minutos, disparou em todas as direcções sem jamais assumir a menor parcela de responsabilidade neste inédito descalabro do Sporting.

Suavizou de forma quase obscena a inaudita violência de Alcochete, com frases de chocante insensibilidade e de evidente chacota, procurando desvalorizar tudo quanto ali se passou: «No meio dos tremores, [Ruben Ribeiro] ia-me mandando corações verdes e abraços»; «[Rafael Leão] está com tremores terríveis, tremendos.»

 

Nada disse de minimamente credível sobre a decisão do tribunal que  acaba de derrotá-lo em toda a linha - considerando sem fundamentação legal as duas "assembleias gerais" que ele tinha convocado, em flagrante violação dos estatutos leoninos, e ferida de nulidade jurídica a nomeação da putativa "comissão de transição" da irrelevante senhora Judas.

Por ironia do destino, disse tudo isto na sala do Conselho Directivo tendo atrás dele as fotografias dos chamados "presidentes croquetes" que ele tanto odeia e que as turbas mais fanáticas que ainda se deixam guiar por ele tanto abominam.

Vi esta fotografia e não pude deixar de associá-la ao final do célebre romance Animal Farm, de George Orwell. Tanta "revolução" tonitruante para tudo terminar, em termos simbólicos, no ponto de partida.

 

 

Adenda: Faz hoje um mês que o centro de estágio em Alcochete foi invadido por quase meia centena de criminosos, que bateram em quem quiseram e destruiram o que lhes apeteceu. Nunca esqueceremos. Foi a página mais negra da história do Sporting.

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Olhar o céu

por Diogo Noivo, em 12.06.18

Exausto com a penosa novela Sporting, pensei vir aqui explicar porque não gosto de futebol. Ia falar da violência endémica, consentida por uma parte importante da sociedade portuguesa – e, em particular, pela malta que vai “à bola”. Pensava escrever sobre os privilégios fiscais concedidos aos grandes clubes, um estatuto que contrasta com o do normal contribuinte, vítima de acosso do Estado – algo igualmente tolerado pela “malta da bola”. Pretendia explicar como o caso do Sporting espelha o quão miserável é este mundo: de um lado, Bruno de Carvalho; do outro, Marta Soares e Álvaro Sobrinho. Ia fazer tudo isto até que li o artigo do Miguel Araújo, na Visão, e o artigo do Carlos Rodrigues Lima, na Sábado. É só ler e perceber.

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Os "inimigos"

por Pedro Correia, em 09.06.18

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O Sporting é dos sócios. Não é de Bruno de Carvalho.

 

Se é vontade dos sócios convocar uma assembleia geral electiva, como sucedeu em Janeiro de 2013, abrindo caminho ao processo que culminou na eleição de Bruno de Carvalho, a Mesa da Assembleia Geral só tem de cumprir essa vontade no prazo estatutário.
Devolver a palavra aos sócios é sempre uma boa notícia. Só os sócios são soberanos no Sporting. Carvalho - que se imagina um Presidente-Sol - é apenas um assalariado da SAD. Muito bem remunerado, por sinal: recebe o dobro do salário do primeiro-ministro.

 

Claro que existe sempre a hipótese de os sócios do Sporting serem "inimigos" do clube. Não seria de espantar, dado o perfil psicológico do presidente leonino.

 

Primeiro os "inimigos" eram os clubes rivais.
Depois, foi a comunicação social - incluindo a que levou Carvalho em ombros durante anos, arrancando-o do anonimato.
A seguir, também os ex-dirigentes - incluindo quase todos os ex-presidentes vivos - passaram a "inimigos".
Sem esquecer os  ex-membros dos órgãos sociais da era Carvalho que renunciaram por discordâncias várias: todos se tornaram igualmente "inimigos".
E o Conselho Leonino, como é sabido, sempre esteve infestado de "inimigos".

 

Entretanto o "inimigo" chamou-se Marco Silva. Octávio Machado, outro "inimigo" - tanto que até foi desconvidado para o casamento que coincidiu com o aniversário do clube e forçou a alteração da data marcada para a "puta da gala".
Manuel Fernandes começou por ser "inimigo", depois deixou de o ser. Mas aposto que em breve será reposta a normalidade: voltará a sê-lo não tarda nada.

 

"Inimigos" são igualmente todos os actuais membros demissionários dos órgãos sociais: Mesa da Assembleia Geral em peso, Conselho Fiscal e Disciplinar quase inteiro (excepto um) e quatro membros do Conselho Directivo.
Todos "Inimigos".

Álvaro Sobrinho, o maior accionista privado da SAD, é um notório "inimigo".

Jaime Marta Soares, escolhido duas vezes por Carvalho para liderar a sua lista à presidência da MAG, passou-se para o "inimigo".

Jorge Jesus - o tal treinador que vinha devolver o título de campeão ao Sporting - tornou-se o mais dispendioso "inimigo". Tal como o seu preparador físico, em fuga do clube após ter sido atacado pelos jagunços em Alcochete - ele também "inimigo".

Assim como todo o plantel - com destaque para o capitão Rui Patrício, que apenas tem 18 anos de percurso futebolístico no Sporting e ostenta ninharias no currículo, como ser campeão europeu em título a nível de selecções e ter sido considerado o melhor guarda-redes do Euro-2016 em França.

 

Apoiantes indefectíveis da primeira hora - e de todas as horas -, como Eduardo Barroso e José Eduardo, são reconhecidos "inimigos".
À semelhança de Daniel Sampaio, ex-mandatário nacional da candidatura de Carvalho - outro que se passou para a barricada do "inimigo".

 

Ninguém ignora que o presidente da Assembleia da República, sócio leonino há 68 anos, é um dos mais insidiosos e perversos "inimigos" do clube.

E até o Presidente da República já demonstrou ser "inimigo".

 

"Inimigo", e dos piores, é o até agora director clínico do Sporting, Frederico Varandas, que acompanhou Carvalho em todo o mandato.

 

Só falta, de facto, decretar que os sócios são "inimigos".

E não serão mesmo?

 

Urge entrar em alerta máximo: o Sporting está infestado de "inimigos".

É preciso ter cuidado com os sócios, estabelecer um cordão sanitário em torno deles para não infectarem a solidez das instituições leoninas - isto é, do presidente do Conselho Directivo e os seis que restam acantonados em torno dele.

 

Cautela, muita cautela: cada sócio pode ser um novo "inimigo".
Teme-se o pior se conseguirem impor a sua vontade.
O mal do Sporting é ter sócios. Quase todos potenciais "inimigos". Ou todos mesmo. Devia haver um artigo qualquer no regulamento para pôr-lhes fim. Só deste modo será possível exterminar tantos "inimigos".

 

Publicado anteriormente aqui.

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Num carro sem travões

por Pedro Correia, em 18.05.18

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Seis membros remunerados do Conselho Directivo do Sporting, contrariando todas as evidências e à revelia do mais elementar bom senso, insistem em agarrar-se com unhas e dentes ao umbral da porta. Quando até os mais exacerbados apoiantes de Bruno de Carvalho - Daniel Sampaio, Eduardo Barroso, José Eduardo, Fernando Mendes, Paulo Futre - apelam à saída do ainda presidente.

É um triste sinal da decadência deste consulado, que terminará os seus dias deixando um Sporting Clube de Portugal dividido como nunca, atingido com dolo na sua honra e no seu orgulho, e alvo de notícias em todo o mundo por motivos que não imaginávamos nos nossos piores pesadelos.

O patético sucessor de Godinho Lopes, rodeado dos últimos fiéis que lhe restam, pensa apenas em si próprio. Se pensasse nos superiores interesses do Sporting, ter-se-ia demitido ao fim da tarde de terça-feira. Assim faz questão de tornar ainda mais penosos estes últimos metros da recta final do seu mandato.

Há minutos, ouvi-o ler um papel onde constavam as expressões "sentido de responsabilidade", "coesão" e "união". Tudo o que este Sporting não tem. Tudo quanto Carvalho é incapaz de oferecer a esta centenária instituição gravemente ferida.

Apareceu sorridente e saiu sorridente, como se não tivesse a mais vaga noção do que sucedeu por estes dias. Veio dizer que continua a ter as mãos no volante, em alucinada fuga para a frente. Faltou-lhe acrescentar que guia um carro sem travões.

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A tribo do futebol.

por Luís Menezes Leitão, em 16.05.18

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O antropólogo Desmond Morris publicou uma vez um livro intitulado A tribo do Futebol, defendendo que o comportamento dos adeptos desportivos tem raízes no nosso passado mais primitivo, corresponde a uma forma de competição entre tribos que desde a pré-história faz parte do comportamento humano. E de facto quando os factores identitários tradicionais estão em crise, as pessoas agrupam-se através das suas preferência clubísticas, esquecendo toda e qualquer racionalidade, e seguindo o chefe da tribo em qualquer direcção mesmo que para o abismo.

 

A situação que o Sporting está a atravessar já foi atravessada por outros clubes, como o Benfica no tempo de Vale e Azevedo, mas isso não desculpa a irracionalidade em que aquele clube decidiu cair, num processo autofágico absolutamente destrutivo. Hoje um clube desportivo e uma sociedade desportiva gerem um património de milhões, em passes de jogadores, contratos televisivos, contratos publicitários, etc. É manifesto que esse património não pode ser posto em causa por estados de alma de um presidente. Mas a verdade é que facilmente esse presidente consegue obter votações albanesas dos sócios, mesmo quando qualquer observador sereno vê que a situação está a atingir o descalabro. O que esta história está a demonstrar é que os clubes de futebol não têm uma estrutura com os adequados pesos e contrapesos que o património que possuem e as aspirações dos adeptos exige. Numa qualquer outra sociedade, qualquer presidente que começasse a tomar decisões claramente contrárias aos interesses da empresa seria imediatamente destituído. Nos clubes de futebol limita-se a dizer que está a ser injustamente atacado pelos inimigos do clube e apela à união dos sócios que imediatamente o reconfirmam de olhos fechados, permitindo-lhe continuar a avançar até a situação chegar ao descalabro.

 

Mas o mais triste disto tudo é que os políticos vão pactuando com esta situação, havendo deputados comentadores desportivos e recepções aos clubes desportivos nas câmaras municipais, numa promiscuidade entre a política e o futebol a todos os títulos indesejável. As únicas excepções de que me recordo foram António Guterres, que se recusou sempre a receber Vale e Azevedo, e Rui Rio, que deixou sempre claro a Pinto da Costa quem é que mandava no Porto. Os restantes políticos fazem questão em assumir proximidade aos dirigentes desportivos, até aceitando convites para o futebol. Mas acho que se ultrapassam todos os limites, quando o Presidente da Assembleia da República acha que deve comentar a actuação do presidente de um clube de futebol. É nessa altura que acho que não foi só o Sporting, mas o próprio país que bateu no fundo.

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Publicidade à má fila

por João André, em 04.05.18

O meu blogue de desporto (OK, essencialmente futebol) reacordou da hibernação. A revisão dos jogos das meias-finais da Liga dos Campeões (1ª mão aqui, 2ª mão aqui) já lá está. Entretanto irei fazer a minha antevisão da final e mais tarde, se o tempo mo permitir, voltarei para o meu ritual de falhar completamente as expectativas do mundial.

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O divórcio

por Pedro Correia, em 09.04.18

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O presidente do Sporting fez questão em sentar-se ontem no banco dos suplentes - num novo erro de estratégia comunicacional, somado a tantos outros que tem cometido a um ritmo alucinante.

Ficou assim evidente aos olhos de todos que está divorciado da massa adepta, que o insultou pela primeira vez e fez apelos públicos à sua demissão.

Ficou evidente que está divorciado da equipa - daí a sua atitude gélida em ambos os golos leoninos, como se não estivesse a torcer pela vitória do clube, algo inaudito.

Ficou ainda evidente que está divorciado da equipa técnica, exibindo uma crise de lombalgia no preciso instante em que Jorge Jesus mobilizava os jogadores para darem em conjunto a volta ao estádio, merecendo uma entusiástica ovação dos espectadores.

A comunicação vive de símbolos - e este foi desastroso para um dirigente que adora exibir-se na ribalta.

 

Mas o maior sintoma deste divórcio ocorreu depois, quando fez questão de se deslocar à sala de imprensa, sozinho, para falar durante quase meia hora do seu tema preferido: ele próprio. Misturando - como sempre faz - alusões à sua vida familiar com os problemas do clube. Como se não lhe bastasse o texto com mais de dez mil caracteres que publicara três horas antes do desafio de Alvalade na sua rede social favorita com críticas ferozes a jogadores muito acarinhados pela massa adepta leonina - desde logo os campeões europeus Rui Patrício e William Carvalho - e em que aludia a si como "o Presidente".

Falou imenso e não disse nem escreveu uma só palavra para unir, congregar ou mobilizar: só para dividir, incendiar e lançar novos anátemas, em círculos cada vez mais concêntricos. Visando desta vez os restantes membros dos órgãos sociais e os próprios adeptos, incluindo muitos daqueles que o elegeram duas vezes e perante os quais ele forçosamente responde.

 

Podia ter aprendido com Jorge Jesus, que logo a seguir - também na sala de imprensa - falou pouco mas disse o essencial. "A minha responsabilidade é defender os interesses do Sporting. Sei que o barómetro de qualquer clube são os jogadores. Os clubes crescem em função dos jogadores - depois há o treinador, há os presidentes... Jogadores e massa associativa são as duas pedras fundamentais, uns dentro do campo e outros fora do campo."

Quando Jesus dá lições de bom senso, realismo e humildade ao presidente, fica tudo dito sobre a perturbante derrapagem emocional de Bruno de Carvalho, que deixou de ser lesiva só para ele. Já se tornou também lesiva para o Sporting.

 

Publicado inicialmente aqui.

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Gonçalves, o proletário

por Rui Rocha, em 09.03.18

Há um par de dias, o Paulo Gonçalves era o "braço direito" de Luís Filipe Vieira. Passou rapidamente a "assessor jurídico" do Benfica e, agora, já vai em "assalariado" do departamento jurídico. Não tarda, sindicaliza-se e aparece-nos nas manifestações da CGTP a lutar pela semana das 35 horas.

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O Qatar nos Emirados, entre gaúchos e madrilenos

por João Pedro Pimenta, em 20.12.17

 Sábado à  tarde entretive-me a ver a final do Mundial de Clubes, que, como habitualmente, contou com os representantes da Europa e da América do Sul. Vitória natural do Real Madrid sobre o Grémio de Porto Alegre, com um ainda mais natural golo de livre de CR7, a conquistar o ceptro mundial (e ainda lhe anularam inexplicavelmente outro tento). A equipa gaúcha revelou-se uma desilusão, a anos-luz do excelente Grémio de meados dos anos noventa, com Jardel, Paulo Nunes, Adilson e restante esquadra comandada por Scolari. Só o central Geromel, que até passou os primeiros anos da carreira em Chaves e Guimarães, se destacou da mediania-menos.

 

Bem menos natural do que o triunfo da multinacional desportiva sediada em Madrid é que numa final em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, apareçam nas placas comerciais à  volta do relvado anúncios da Qatar Airways, rival da Emirates, a companhia aérea daquele território (e autêntico embaixador e reserva económica). Ainda por cima a Qatar é patrocinada por um estado que está de relações cortadas com os Emirados e até sofre por parte destes e dos seus aliados um bloqueio económico. É tão bizarro como ver na final da Super Bowl anúncios a uma companha cubana, se a houvesse. Seria uma provocação ao Real Madrid (a Qatar Airways patrocina o Barcelona)?

 

Dizem-me que afinal a transportadora qatari é uma das patrocinadoras da FIFA. Talvez assim se compreenda: a grande organização do futebol mundial é de tal forma poderosa que consegue romper bloqueios e tensões internacionais e impor publicidade em paí­ses que tanto por razões políticas como económicas certamente a não desejariam. E assim fica um exemplo eloquente de como uma organização mundial não-governamental tem mais influência e poder do que muitos estados, mesmo os mais endinheirados.

 

 

 

 

 

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Dar a Bola de Ouro (voltando à vaca fria)

por João André, em 13.12.17

Há 4 anos escrevi um post sobre a atribuição da Bola de Ouro. Na altura o prémio era concedido pela FIFA juntamente com o France Football. Desde o ano passado que voltou a ser atribuído apenas pelo France Football, com a FIFA a passar a conceder o prémio The Best. A diferença entre um e outro é que o prémio da FIFA é atribuído após a votação dos seleccionadores e capitães das selecções do mundo inteiro, enquanto que o prémio da France Football advém do resultado das votações de jornalistas seleccionados a partir de publicações europeias.

 

A diferença na escolha do júri não é incipiente. Se a votação em 2010 e 2013 tivesse sido a partir dos jornalistas, os vencedores teriam sido Sneijder e Robben em vez de Messi e Ronaldo, respectivamente. Aliás, ver o pódio de 2000 para cá (escolhi 2000 para coincidir com maior uso de internet e maior mediatização do prémio) dá a ideia que jogadores menos mediáticos serão mais facilmente escolhidos pelos jornalistas que pela FIFA e pelo seu painel de seleccionadores e capitães. Basta ver algumas das escolhas. A FIFA colocou no pódio apenas dois jogadores (Kahn e Cannavaro, uma vez cada) que não fossem médios atacantes ou avançados. Por oposição a FF fê-lo 6 vezes (ignorando o período de atribuição conjunta).

 

Estas considerações não servem para indicar qual o melhor troféu (eu tenho a minha preferência, mas não a imponho, é apenas isso, uma preferência). Serve apenas para demonstrar que grupos diferentes de pessoas podem ter critérios diferentes. Em 2013 fiz o exercício sobre quais poderiam ser os escolhidos de acordo com diferentes critérios. Farei agora o mesmo.

 

1. Jogador mais talentoso. Este ano eu continuaria a votar em Messi por continuar a ser o mais talentoso. Em segundo teria provavelmente Neymar e em terceiro escolheria mais rapidamente Isco que Ronaldo se obrigado a ir ao Real Madrid.

 

2. O jogador mais decisivo. Difícil escolher. Ronaldo foi decisivo na fase mais importante da Liga dos Campeões, mas Isco andou com a equipa às costas na liga e até na LdC (embora fosse Ronaldo a marcar os golos). Messi manteve o Barcelona vivo na Liga apesar da letargia dos colegas. A importância de Lewandowski notou-se essencialmente quando teve que jogar contra o Real Madrid preso com cuspo e arames. Ainda assim é perfeitamente legítimo escolher Ronaldo no ano em que o Real Madrid venceu liga e Europa.

 

3. O melhor jogador da melhor equipa. Depende de como escolher o melhor da melhor equipa (que foi o Real Madrid). Ronaldo marcou os golos mais importantes na Europa para o Real Madrid. Isco fez a equipa jogar e levou a bola às zonas onde Ronaldo (que já não é dado a cavalgadas) pode ser decisivo. Modrić foi o pêndulo de toda a equipa. Casemiro deu-lhe equilíbrio e Marcelo largura. Cada um escolhe o que prefere. Eu teria ido por Isco neste critério.

 

4. O jogador mais completo. Sobre o que se considera "completo", reveja-se o que escrevi no passado. Para mim é difícil imaginar jogadores mais completos que Pogba. Outros candidatos: Kroos, Modrić, Messi, Verratti, Dybala, De Bruyne, Kanté. Este ano eu teria ido por um de 3: Kanté, Pogba ou De Bruyne.

 

5. Estatísticas. Quem quiser verificar isso, pode ir a WhoScored.com e procurar os seus jogadores preferidos. Especialmente com as novas múltiplas métricas por onde escolher. Eu fiz uma análise simples usando as estatísticas do site acima. Escolhi as métricas de golos, assistências, tackles, intercepções e passes chave (tudo por jogo). A seguir dei uma pontuação a cada métrica: 8 por golo, 5 por assistência, 1 por tackle, 2 por intercepção e 2 por passe chave. Cada um poderá fazer o mesmo e dar valores diferentes. Duas observações: não especifiquei apenas o ano de 2017, usei antes os dados disponíveis para 2016/17 e 2017/18, pelo que os jogadores que tenham tido um bom final de 2016 serão beneficiados. A segunda observação é que tratei todas as métricas como iguais, não dando qualquer peso a jogos específicos (como a final da LdC). Com esses dados cheguei ao gráfico abaixo para uma selecção (pessoal, apenas de jogadores das 5 principais ligas e que tenham jogado na Europa) de jogadores.

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Pontos totais por jogador e por jogo. A cores diferentes Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Neymar e Alexis Sanchez. A linha laranja indica a pontução de Ronaldo.

 

Com este exercício, acabamos com 14 jogadores com pontuação superior à de Ronaldo. Mais uma vez, isto não indica importância das acções, apenas a estatística específica. Nesta métrica, Messi venceria, com Neymar muito por perto e Coutinho a encerrar o pódio.

 

6. Uma mistura de todos os critérios acima. Seria a minha escolha e, suponho, a da maioria das pessoas, embora com pesos diferentes para cada aspecto (texto copiado de há 4 anos). Desta forma eu iria por Messi dada a forma como carregou com o Barcelona às costas com os colegas completamente irreconhecíveis. Estejam à vontade para discordar. Daqui por um mês eu poderei fazer o mesmo.

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Coisas a resolver até ao Mundial

por João André, em 13.10.17

Felizmente que me enganei e que Portugal se qualificou sem engulhos para o Mundial. A Suíça ajudou, apresentando-se como uma equipa muito fraquinha que só não perdeu por bastante mais porque não calhou. Quem os apanhar nos play-off não se deverá preocupar por aí além.

 

Agora que Portugal está apurado, está na hora de começar a preparar o trabalho para uma competição de um mês onde haverá potencialmente 7 jogos (média de um jogo a cada 4 dias). Há certas áreas que Fernando Santos terá que definir depressa.

 

 

Também publicado aqui.

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Na televisão que o inventou

por Pedro Correia, em 25.09.17

Faço zappping, um pouco antes das dez da noite. Na CMTV, ouço uma voz aflautada, aos gritinhos: "É um escândalo! É um escândalo!"

Fico a perceber, pouco depois, que se trata do candidato do PSD a Loures. Mas não fala de política nem parece querer saber das autárquicas para nada. Em plena recta final da campanha eleitoral, o sujeito em causa dispõe de um tempo de antena generosíssimo para comentar futebol. Os gritinhos, fiquei também a saber depois, tinham a ver com o Sporting - alvo de estimação do cavalheiro, logo após ou imediatamente antes dos ciganos.

É intrigante que este candidato troque uma noite de campanha política, a seis dias das eleições, por um longo serão de paleio futebolístico na pantalha - o que diz quase tudo sobre o apego que sente por Loures.

Espero que no próximo domingo os eleitores deste concelho o reconduzam ao lugar que ele mais gosta. O de comentador de bola na televisão que o inventou.

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O jornalismo perdeu por goleada

por Pedro Correia, em 16.09.17

Será talvez pleonástico, mas a RTP cumpriu a sua obrigação de serviço público, sem aspas. Anteontem à noite, ao juntar no mesmo estúdio os 12 candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, num debate bem moderado por António José Teixeira. Oportunidade para ouvirmos alguns dos que actuam no chamado "campeonato dos pequenos", com aspas. Só assim denominado porque outros canais televisivos, como a  SIC e a TVI, decidiram apostar apenas nos mesmos - os do costume, os de sempre.

Critério jornalístico, dizem. Se a pauta que aplicam aos candidatos fosse aplicada pelos espectadores às televisões, nunca ambas, TVI e SIC, teriam destronado o canal público.

 

À mesma hora em que os doze de Lisboa debatiam na RTP, a TVI dava um exemplo inverso, de mau jornalismo, ao reunir num debate cinco dos sete candidatos à câmara de Loures (e porquê Loures e não Odivelas, ou Sintra, ou Matosinhos, ou Almada, ou Gaia, ou Barreiro?) apenas para dar palco ao estridente e histriónico candidato do PSD. Que foi o primeiro a falar, por amável deferência da imoderadora Judite Sousa, e também o único que falou o tempo todo, monopolizando a sessão. Tudo menos um debate, afinal.

Vendo bem, o que estava ali em jogo era uma tentativa quase desesperada da TVI de roubar por 90 minutos - o tempo que dura, em regra, um desafio de futebol - um protagonista habitual da sua concorrente CMTV, que já a ultrapassou em audiência nos canais por cabo. O cabeça de proa do PSD, travestido de Tea Party em Loures, teve o seu momentinho de glória perante a benevolente Judite e o ar acabrunhado dos figurantes neste pseudo-debate onde o melhor da política, que todos dizem ser a que se desenrola no plano autárquico, deu lugar ao pior do futebol.

 

Levado ao colo pela jornalista incapaz de arbitrar, o tipo que só quer aparecer e diz tudo o que possa dar-lhe audiência no campeonato dos cromos televisivos - incluindo injuriar sportinguistas, destratar ciganos e mandar às malvas o Código Penal - ganhou por goleada. Derrotando não os rivais que com ele surgirão nos boletins de voto mas o jornalismo sem aspas, que ainda enaltece a isenção e o pluralismo como imperativos éticos e virtudes cívicas.

As autárquicas só serviram de pretexto.

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Larga lá a bola e vai votar

por Pedro Correia, em 15.09.17

Alberto Gonçalves:

«Em matéria de gozo um reles derby não chega aos pés do espectáculo de burlesco providenciado pelos nossos extraordinários políticos, principalmente aqueles que sonham com um mundo repleto de proibições, interdições, regulamentações e resignações. É óptimo que imponham à força um dia inteirinho para reflectirmos sobre eles e a democracia que representam – e, enquanto não proibirem tudo, optarmos por outra coisa qualquer.»

 

António Costa:

«O Estado tem de tomar conta dos portugueses, por isso é até de estranhar que o governo não alargue o princípio. O povo precisa de ser educado, senão, não vai lá. O domingo, como se sabe, é dia de missa, passem-na para o sábado, as sessões de cinema poderiam também ser suspensas, as televisões deveriam ser obrigadas a passar a pior das programações possível, e por aí adiante. Feche-se mesmo o país, as fronteiras e os aeroportos, para garantir que ninguém foge.»

 

Francisco José Viegas:

«A Comissão Nacional de Eleições zela por nós com um desvelo de jardim-escola, definindo o que devemos e não devemos fazer no dia das eleições. Nada de futebol nesse dia; nem sexo, nem carnes vermelhas, nem saltar ao eixo – só eleições. Qualquer outra actividade pode "potenciar a abstenção". (...) Peço humildemente ao governo que na sua lei não se esqueça de mandar encerrar os cinemas e os teatros, bem como livrarias, cervejarias de bairro, restaurantes tailandeses e bares de striptease

 

Henrique Monteiro:

«Há uma versão benigna para a ideia peregrina de o Governo querer proibir o futebol em dias de eleições (depois das autárquicas): nunca mais se fala disso e nunca mais se legisla. Há outra ideia um pouco perversa: o Bloco e o PCP insistiram um pouco e, uma vez que a medida não custa dinheiro, foi trocada por outras do Bloco e do PCP que davam cabo das contas do Governo. Por último, há a ideia do título: estão loucos, no sentido de totalmente desorientados.»

 

João Pereira Coutinho:

«O problema não está na existência de jogos. Está, obviamente, em dois jogos específicos (o Sporting-FC Porto e até o Marítimo-Benfica) que prometem dominar as televisões, roubando a António Costa as luzes da consagração eleitoral. Para quê ganhar se ninguém está a ver? O Governo sabe que o futebol deixa qualquer político em fora de jogo. Proibir a bola não é uma forma de combater a abstenção nas urnas. É um expediente autoritário para evitar a abstenção das televisões.»

 

Joel Neto:

«Se a politica já não consegue mobilizar a população para as urnas, o defeito está nos políticos, não na concorrência. Obrigar o futebol a estar quieto para não lhe roubar gente, como António Costa se prepara para fazer, é, em segundo lugar, um gesto de paternalismo para com uma classe que, ademais, passa três quartos do tempo em campanha. E é, em primeiro, um insulto não só aos adeptos de futebol, mas aos portugueses. Um insulto.» [No jornal O Jogo, sem hiperligação]

 

José Manuel Delgado:

«Aos  portugueses estará para ser passado um atestado de menoridade, como se ao fim de 43 anos de democracia as pessoas não soubessem tratar da sua vida cívica e deixassem de votar pelo simples facto de, nesse mesmo dia, assistirem a um jogo de futebol. Sim, de futebol e só de futebol profissional, porque como disse o secretário de Estado [do Desporto] ao Expresso, as restantes modalidades (que são profissionais!) não estão organizadas numa Liga. Se tudo isto não representasse uma tragédia quanto a alguns dos nossos governantes seria, sem dúvida, motivo de grandes gargalhadas.» [No jornal A Bola, sem hiperligação]

 

Leonardo Ralha:

«Regista-se o paternalismo de quem pretende salvar os incautos eleitores das suas fraquezas. Mas então a medida ‘antifutebol’ peca por defeito. Seria também preciso instituir a obrigatoriedade de bandeiras vermelhas nas praias em dias de sol, encerrar superfícies comerciais, ou até tornar o voto obrigatório, sob pena de pagamento de coimas, embora fosse difícil cobrá-las aos milhares de defuntos nos cadernos eleitorais.»

 

Pedro Magalhães:

«Proibir é fácil, o que é difícil é algo que exige algum investimento e alguma organização: tornar o voto mais conveniente para as pessoas, mas isso não parece ser prioridade, o que é prioridade é proibir jogos de futebol.»

 

Ricardo Costa:

«Parece que agora o governo vai tentar proibir jogos de futebol em dia de eleições. Digo tentar, porque não estou a ver como é que isso é possível de fazer quando o calendário de futebol nacional depende de várias provas internacionais e de sorteios e datas que ninguém pode determinar ou condicionar em Portugal.»

 

Tiago Freire:

«Não paremos pelo futebol em dias de eleições. Fechem-se os cinemas, os teatros, os centros comerciais. Vedem-se as praias e os bosques. Proíbam-se as almoçaradas de domingo, a missa, o namoro ou a leitura de um livro. Nesse dia, não. Ponto final. Enquanto isso, o voto electrónico é uma miragem, os cadernos eleitorais têm mais mortos que um filme de terror, os cidadãos distanciam-se dos que lhes são propostos para governar, aumentando a abstenção, por preguiça ou por convicção. Mas o futebol, meus senhores, isso é que é preciso resolver.»

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Provocações (2)

por Rui Herbon, em 15.09.17

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Partindo do pressuposto de que a abstenção não é também ela uma forma de manifestação política legítima, pressuposto que não subscrevo, e que deve ser combatida, o governo em vez de trabalhar numa forma mais eficiente de contabilizar os eleitores de facto ou de partir para o voto electrónico, considera que o importante é impedir a realização de jogos de futebol em dia de eleições. Se a medida não se traduzir numa redução expressiva da abstenção, sugiro que numa segunda fase se passe ao encerramento de supermercados e centros comerciais. Se mesmo assim o resultado não for o pretendido, acho que a interdição de praias, pelo menos em dias de sol, é capaz de ser uma ideia. In extremis, encerrem-se restaurantes e cafés. Creio no entanto que seria muito mais eficaz distribuírem talões de desconto em combustíveis nas mesas de voto.

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Votos, bola e puxões de orelhas

por Pedro Correia, em 14.09.17

Depois dos caderninhos "sexistas" postos fora de circulação por imposição do Governo, surge outra medida de carácter proibicionista, tão ou mais estrambólica: o Executivo admite tornar os dias eleitorais interditos à prática do futebol profissional.

Ideia absurda. Como se um jogo que dura hora e meia colidisse com a ida às urnas, que estão abertas durante onze horas. E como se os eleitores portugueses, após mais de quatro décadas de prática democrática, não pudessem ser em simultâneo fervorosos adeptos de futebol.

Noutros países, em dias eleitorais, vigora a Lei Seca - abstenção total da venda de bebidas alcoólicas. Aqui, nessas ocasiões, o Governo quer impor o jejum absoluto aos espectáculos desportivos. E porque não interditar também o acesso a cinemas, teatros, templos, praias e piscinas?

É sina portuguesa: confundindo protecção com paternalismo, o Estado insiste em tratar-nos como meninos pequeninos a precisar de puxões de orelhas.

Com o aplauso entusiástico dos habituais basbaques. Há coisas que nunca mudam.

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Resistência activa ao aborto ortográfico (127)

por Pedro Correia, em 02.09.17

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  Anteontem, no estádio do Bessa, durante o jogo Portugal-Ilhas Faroé

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Penso rápido (85)

por Pedro Correia, em 09.08.17

Os 222 milhões de euros pagos pelo Paris Saint-Germain (nome de santo ironicamente patrocinado por um país islâmico) para desviar Neymar do Barcelona cavam ainda mais fundo o fosso que separa o futebol enquanto actividade económica da genuína competição desportiva: deixaram de ser mundos complementares para se tornarem realidades antagónicas.
Este inédito montante adultera os princípios de transparência do mercado desportivo cotado em bolsa e transforma os jogadores em mera mercadoria à mercê dos capitães da fortuna fácil. Desde logo, parece colidir com as normas da concorrência vigentes na União Europeia e as regras de fair play financeiro da UEFA: qualquer resquício de equidade evapora-se de vez quando os Estados começam a investir em força nos clubes - neste caso o do Catar, com base nos seus lucros petrolíferos. E provoca um sério choque inflacionário na indústria do futebol: os preços vão disparar, a espiral da dívida aumentará em flecha, avizinham-se as mais desvairadas loucuras financeiras no horizonte.
Convém entretanto seguir em pormenor a origem e o rasto desta verba astronómica, que faz subir para 700 milhões de euros o orçamento anual do PSG para o futebol. À atenção das autoridades jurisdicionais - do desporto e não só.
Finalmente, está por demonstrar que um único jogador - e desde logo Neymar, com desempenho em campo inferior a Cristiano Ronaldo ou Messi - justifique estas cifras galácticas. O dinheiro pago por ele para o transformar em emblema de um clube sem tradição na alta-roda do futebol duplica o seu justo valor, nada tendo a ver com genuínos "preços de mercado". 
Ao dar este passo, o futebol de alta competição transforma-se num jogo de fortuna e azar - uma espécie de roleta russa para usufruto de caprichos milionários. O desporto, digam o que disserem, nada tem a ver com isto.

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Frases de 2017 (32)

por Pedro Correia, em 08.08.17

«Está tudo doido quando se paga 222 milhões por um jogador.»

José Mourinho, ontem à noite, em entrevista à RTP

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A "obscenidade" das transferências no futebol

por João André, em 07.08.17

Neymar Jr. transferiu-se para o Paris St. Germain pelo valor mais alto da história do futebol: 222 milhões de euros. Com este valor vieram os adjectivos: obsceno, pornográfico, ofensivo, etc. Não se trata apenas dos 222 milhões da transferência, mas também dos 30 milhões líquidos por época, os 38 milhões em pagamentos aos agentes envolvidos (incluindo o pai de Neymar). Assumindo uma taxa de 50%, o custo da transferência será de 112 milhões por ano ao longo de 5 anos (assumindo que o salário se mantém constante, o que nunca é certo).

 

A primeira pergunta que se impõe é: conseguirá o PSG pagar tal investimento sem infringir as regras do Fair Play financeiro da UEFA? Esta pergunta é relevante não apenas de um ponto de vista financeiro mas também moral: se o clube consegue pagar os custos, como dizer que é imoral?

 

 

Também aqui.

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Pornográfico

por Pedro Correia, em 03.08.17
Neymar ruma do Barcelona ao PSG por 222 milhões de euros: a transferência mais cara da história do futebol. Estas cifras milionárias, pornográficas num mundo cheio de carências básicas, já não têm nada a ver com desporto. Temos de chamar-lhe outra coisa, embora eu não saiba ainda bem o quê.

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E em Portugal?

por Pedro Correia, em 02.08.17

A justiça espanhola tem vindo a apertar o cerco à evasão fiscal no futebol, que durante décadas passou impune. Sem poupar sequer os grandes astros da modalidade.

Lionel Messi foi condenado - com sentença já transitada em julgado - por defraudar a administração tributária em 4,1 milhões de euros. Por sua vez, Cristiano Ronaldo está a ser ouvido num inquérito a propósito da suposta fuga ao fisco num valor de 14,7 milhões de euros relativos a direitos de imagem.

Impõe-se a pergunta: quando terá a justiça portuguesa oportunidade ou coragem para investigar todos os contratos dos jogadores de futebol profissional?

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Bola e mais bola e mais bola

por Pedro Correia, em 09.07.17

Quatro canais de televisão especializados em "notícias". Os quatro, sem excepção, passam o serão deste domingo com conversa de café em estúdio a propósito de futebol. Mesmo com o futebol em férias, mesmo com o campeonato parado, mesmo sem a bola a rolar nos relvados.

A RTP, canal público, poderia fazer a diferença. Mas não: segue o mesmo alinhamento dos restantes. Como se não houvesse notícias a sério, no País e no mundo. Como se só lhes interessasse captar o público masculino, cliente-padrão deste bate-boca futebolístico, em horário nobre.

Com políticos a palrar de bola.

E politólogos a cacarejar de bola.

E tudólogos a tagarelar de bola.

Depois há quem se admire por estes canais cada vez mais monotemáticos estarem a perder audiência de mês para mês no cabo. Não sei porque se espantam.

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Um país futebolizado

por Pedro Correia, em 16.05.17

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

 

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, vai produzindo cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso, desvirtuando-o.

Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

 

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

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Não se esqueçam de ir descansar

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.17

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(créditos: António Cotrim, EPA) 

Agora o melhor é irem descansar. Ainda falta a Taça de Portugal e vamos voltar a jogar com aquela equipa que esteve a perder por 3-0 e por 1-0 com os nossos rivais da Segunda Circular e acabou sempre por empatar. Convém ter isso em atenção.

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O clima tóxico do debate futebolístico

por João André, em 18.04.17

Ao ler os comentários desportivos, entre jornais e blogues, descubro que é dominado por um facciosismo clubístico ou sectário (quando intra-clube) que de tão barulhento não deixa espaço para quase nada mais. É um facciosismo que se repete mas bastante amplificado quando passa para as televisões, onde não existem debates, apenas gritos de claques engravatadas. Se eu passar os olhos pelo meu feed do Facebook descubro as mesmas tendências, com posts dedicados a alfinetadas (quando escritos por pessoas educadas), ataques declarados (quando o autor de vê como assertivo) ou mesmo insultos grosseiros.

 

Não é nada de novo. Quem se sentasse à mesa de um café há cerca de 20 anos já o poderia sentir. As conversas eram fortemente tingidas pelas cores clubísticas e envolviam habitualmente um certo nível de oposição aos outros clubes. Isto era normal e saudável, sendo que raramente as discussões atingiam níveis violentos, mesmo que apenas oralmente. Ainda assim os jornais e televsões mantinham posições mais ponderadas, mesmo quando orientados para um clube.

  

 

Também aqui.

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Decálogo eleitoral

por Pedro Correia, em 21.01.17

O Sporting inicia um novo processo eleitoral. Aqui recordo algumas regras básicas, que também podem servir noutras contendas.

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Profetas da nossa terra (74)

por Pedro Correia, em 14.10.16

«Eu aposto que José Eduardo Moniz e Rui Gomes da Silva farão parte da lista de Luís Filipe Vieira. Porque Vieira não entra por aí, numa guerra de sucessão. Vieira não vai arbitrar: mete os dois, não deixa nenhum de fora! Eu aposto no totoloto que estes dois estarão lá: é fatal como o destino!»

Rui Oliveira e Costa (confirmando que acerta tanto nos palpites do futebol como nas sondagens políticas), RTP3, 9 de Outubro

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Mário Wilson

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.10.16

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 (1929-2016)

 

"Só nós sentimos assim"

Obrigado, meu capitão.

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Marca leonina

por Pedro Correia, em 27.08.16

Nove jogadores formados pela Academia leonina na primeira convocatória para o apuramento do Mundial 2018.

Nada que surpreenda seja quem for.

O Sporting sempre a contribuir para o prestígio do futebol português.

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O dom da ubiquidade

por Pedro Correia, em 10.08.16

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Já havia a fórmula "dois em um", no mercado dos champôs. Hoje, no reino do futebol, há "um em dois". Sem ilusão de óptica, em qualquer banca ao pé de si. Escolha a versão que mais lhe convier. Ou faça como eu, que não escolhi nenhuma.

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Como se o golo fosse só para nós

por Pedro Correia, em 26.07.16

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

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Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

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Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me ontem do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

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Profetas da nossa terra (72)

por Pedro Correia, em 25.07.16

«A Alemanha é a grande favorita à vitória final no Europeu.»

Rui Santos, SIC Notícias, 3 de Julho de 2016

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Em política, o que aparece é

por Pedro Correia, em 21.07.16

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo - um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los - desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

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O futebol de Trichet e Da Vinci

por João André, em 14.07.16

O Pedro Correia escreveu dois posts sobre o europeu e Portugal e zurziu nas carpideiras portuguesas que se queixaram da qualidade ou beleza do jogo da selecção nacional. Como eu pertenço a este grupo, gostaria de deixar umas linhas sobre o assunto.

 

 

Os meus posts de análise ao jogo da final, ao europeu de Portugal e ao torneio em si.

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O "fascínio" das derrotas

por Pedro Correia, em 13.07.16

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Mesmo com a Taça da Europa já conquistada e exibida em Portugal, e com largos milhares de pessoas apoiando a selecção nas ruas das mais diversas cidades mundiais, de Paris a Díli, não passa um dia sem que as carpideiras de turno surjam nas pantalhas a bramir contra o "futebol feio" praticado pela equipa das quinas no Euro 2016.

Curiosamente, nenhuma dessas carpideiras nos indica qual terá sido o "futebol lindo" observado nos estádios franceses que sirva de modelo a Portugal.

Era bom que elucidassem gente como eu, incapaz de ver tão bem.

 

Na primeira linha dos disparos, o que não é inédito, figura um técnico de futebol: Manuel José.

Há pouco mais de 24 horas, na RTP 3, o português que chegou a brilhar no campeonato egípcio ultrapassou tudo quanto já dissera antes, proferindo esta declaração: "Dizem que jogámos futebol [no Euro 2016], não jogámos à bola. Então eu prefiro que se jogue à bola. Porque no fundo o que o povo quer é isso: ganharmos com qualidade. Se temos qualidade não podemos jogar um futebol medíocre. Quanto melhor jogarmos, aumentam as possibilidades de podermos ganhar. De vez em quando não ganhamos, mas isso é o fascínio que o futebol tem."

 

Admiro a ousadia destes comentadores que falam em nome do "povo", como Manuel José agora fez. Ignoro quem o mandatou como porta-voz dos portugueses, mas declaro desde já que não lhe passei procuração para falar por mim.

Eu, ao contrário dele, não sinto o menor "fascínio" em perder. Foi isso que sucedeu nos campeonatos da Europa durante mais de meio século: fomos perdendo sempre. Ou porque não atingíamos a qualificação para a fase final ou porque sucumbíamos à beira do fim, quase a atingir o objectivo.

Ao contrário do que sucedeu agora. Fascinante, para mim, é ganhar.

 

Quanto ao "futebol medíocre" a que alude Manuel José, lamento desiludi-lo, mas a UEFA não partilha da opinião dele.

Se partilhasse, não teria incluído dois golos portugueses nos cinco que seleccionou com vista à votação em linha que decorre para eleger o melhor do torneio: o de Cristiano Ronaldo contra o País de Gales e o de Éder contra a França.

Presumo que nenhum deles merecerá o voto de Manuel José. Mas garanto-lhe que é retribuído: eu também não votaria nele para seleccionador nacional.

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Futebol e Fátima

por Rui Rocha, em 12.07.16

Li por aí que o Professor Marcelo, o mais alto beato da Nação, rezou muitos terços para que a selecção nacional tivesse um bom resultado e que admite ir a Fátima. Ora, há coisas que não percebo. Quer dizer, se eu fosse crente, era capaz de rezar pela saúde e pela felicidade da minha mulher, dos meus filhos ou da humanidade em geral. Pela nossa saúde ou por uma felicidade nossa que não prejudicasse a dos outros. Mas neste caso, rezar pelo sucesso da selecção de Portugal é pedir o insucesso da selecção de França. E parece-me que isto não é assunto em que se deva meter Nossa Senhora de Fátima. Como é que Nossa Senhora de Fátima fica? Qual é o critério de decisão? Favorece os que pedem mais, os que fazem mais barulho? Beneficia os que se portam melhor? Mas como? O Bruno Alves é melhor do que o Payet? Há coisas que pessoas bem formadas não pedem. Muito menos a Nossa Senhora de Fátima. Na verdade, o que Marcelo e os outros como ele querem é tráfico de influências. Que Nossa Senhora mexa uns cordelinhos, que interceda aqui e ali, para beneficiar uns e prejudicar outros. Aliás, se eu fosse Nossa Senhora de Fátima e me aparecesse o Marcelo ou outros como ele com um tercinho na mão e conversa do tipo "ah e tal podias dar aqui um jeito" mandava-os logo foder.

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Parabéns

por Pedro Correia, em 11.07.16

"Estamos todos de parabéns", tenho ouvido dizer toda a manhã.

Não estamos. De parabéns estão os futebolistas e o seleccionador que levaram Portugal a conquistar o título de campeão da Europa.

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É sempre possível ir mais longe

por Pedro Correia, em 11.07.16

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10 de Julho de 2016: nunca mais nos esqueceremos desta data. Portugal chegou onde muito poucos previam, contrariando todos os profetas da desgraça: somos enfim campeões da Europa. O nosso maior troféu de sempre no futebol sénior a nível de selecções.

Um troféu com que vários de nós sonhávamos há décadas.

Foi com indescritível alegria que vi o nosso capitão Cristiano Ronaldo acabar de erguer o troféu conquistado com tanto suor e tanto sofrimento pela selecção nacional no Stade de France, silenciando a arrogância, a pesporrência e o chauvinismo gaulês.

 

É uma vitória de Portugal, sim. Mas é antes de mais nada a vitória de um grupo de trabalho muito bem comandado por um homem - Fernando Santos - que revelou ambição desde o primeiro instante e soube incuti-la na selecção, que jogou unida como raras vezes a vimos, com uma maturidade táctica inegável e um ânimo que não claudicou quando Cristiano Ronaldo se lesionou gravemente num embate com Payet, iam decorridos apenas 8', e deixou de poder dar o seu contributo para esta final, acabando por ser rendido aos 25'.

As lágrimas que lhe caíam pelo rosto enquanto era retirado em maca integrarão a partir de agora a inapagável iconografia do desporto-rei.

 

Com ele em campo tudo teria sido mais fácil. Mas assim provámos à Europa do futebol - e a alguns comentadores portugueses que nunca deixaram de denegrir a selecção durante toda esta campanha europeia - que a equipa das quinas não é só "o clube do Ronaldo". É muito mais que isso. É uma equipa madura, sólida, solidária. Capaz de chegar mais longe do que qualquer outra.

Que o digam os jogadores franceses, que enfrentaram Rui Patrício - para mim o herói da final, naquela que foi talvez a melhor exibição da sua carreira como guarda-redes da selecção. E uma dupla imbatível de centrais formada por Pepe e José Fonte. E o melhor lateral esquerdo deste Europeu, Raphael Guerreiro, que disparou um petardo à barra da baliza de Lloris aos 108', naquilo que já era um prenúncio do golo português. E um Cédric combativo, que nunca virou a cara à luta. E um William Carvalho que funcionou como primeiro baluarte do nosso dique defensivo. E um João Mário com vocação para brilhar nos melhores palcos europeus. E um Nani que nunca deixou de puxar os colegas para a frente. E um Éder que funcionou afinal como a mais inesperada arma secreta da selecção nacional, marcando aos 109' o golo que levou a França ao tapete e nos poupou ao sofrimento acrescido das grandes penalidades que já muitos antevíamos.

 

Dirão alguns que tivemos sorte, que jogámos feio e jogámos mal: porque haveriam de mudar agora o discurso se não disseram outra coisa durante mais de um mês?

Mas é claramente injusto reduzir a estas palavras e estes rótulos um trabalho iniciado há quase dois anos e que já com Fernando Santos ao leme da selecção registou 14 jogos oficiais - com dez vitórias e quatro empates. Não perdemos uma só partida nesta fase final do Europeu, em que eliminámos a Croácia (uma das selecções apontadas como favoritas antes do torneio), o País de Gales (equipa sensação durante dois terços da prova) e a campeoníssima França, anfitriã e principal candidata à vitória desde o apito inicial do Euro 2016.

Todos os obstáculos foram superados. No momento em que Cristiano Ronaldo ergueu a Taça da Europa perante largos milhares de portugueses em delírio nas bancadas do estádio, estavam vingadas todas as outras ocasiões em que jogámos bem, jogámos bonito - e regressámos a casa sem troféu algum.

Esse tempo acabou de vez.

 

Ficaram também vingadas as nossas derrotas nas meias-finais do Europeu de 1984 e do Euro 2000, e o nosso afastamento do Mundial de 2006, igualmente nas meias-finais. Sempre contra a França. As tradições existem muitas vezes para isto mesmo: para serem quebradas.

O momento é de celebração nacional, com o campeão europeu mais velho de sempre (Ricardo Carvalho) e o mais novo de sempre (Renato Sanches). Enquanto escrevo estas linhas escuto uma sinfonia de buzinas na avenida onde moro e gente a gritar "Nós somos campeões!"

Muitos dos que buzinam e gritam nem se lembraram de pôr este ano bandeirinhas à janela e não deixaram de lançar farpas sarcásticas ao seleccionador, descrentes das nossas possibilidades de vitória. Nada como um triunfo desportivo para apagar memórias e congregar multidões.

Atenção, porém: ninguém merece tanto celebrar como Fernando Santos e os nossos jogadores. Sim, esta vitória é um pouco de todos nós. Mas é sobretudo deles.

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Comentários a quente: Portugal - França

por João André, em 10.07.16

8' - Porrada no Ronaldo. Era falta clara, mas enfim.

10' - Alguém precisa de mudar a roupa interior do Pepe.

14' - Portugal quer embalar mas parece adormecido. Os franceses estão a jogar a outra velocidade.

16' - Acabou o europeu do Ronaldo. Lá se fez o jeito aos franceses.

21' - Ainda está em campo. Se aguentar até ao intervalo talvez venha a agulha. E os primeiros 3 meses da próxima época vão ao lixo. Se se aguentar e contribuir, creio que o Ronaldo se esteja marimbando.

23' - Não aguentou. Há Schadenfreude por esse mundo fora.

28' - Quaresma na teoria faz sentido. Mas para quem vai ele cruzar? Para o João Mário?

33' - O nosso Ronaldo para o resto do jogo terá de ser o Rui Patrício.

34' - Era de facto amarelo para o Cédric. Mas onde está o do Payet?

36' - José Fonte é o nosso Iniesta. Numa frase explicado Portugal neste Europeu.

41' - Tacticamente a equipa está mais equilibrada. Quaresma e Nani estão a esticar a defesa francesa no contra-ataque. O reverso da medalha é que os franceses estão menos cautelosos.

45' - Cabeçada mútua entre Evra e Quaresma. Já vi piadas étnicas começadas por menos.

 

Intervalo: tempo para comer qualquer coisa.

 

51' - Nani: «Toma! Também me pisaram a mim!»

53' - Está na hora da táctica 3x2. Dois jogadores lesionam adversários em sucessão. Primeira falta: deixa passar. Segunda: amarelo. Terceira: vermelho. Isto duas vezes e o jogo passa a ser jogado 9 contra 8. No secundário funcionava.

55' - Umtiti cortou com o nariz... Hmm, isto soa ao início de um livro infantil.

57' - William Carvalho queria ser polícia sinaleiro quando era pequenino.

58' - Só não consigo imaginar William Carvalho em pequeno. O Robin Hood tinha um problema semelhante.

60' - Kingsley Coman entrou. É bom jogador. E tem nome de realizador porno. Esperemos que não nos f...

65 - Quase realizou um. Faltou Viagra ao Griezmann. Felizmente.

68' - Alguém diga ao Quaresma para olhar antes de centrar.

70' - Confesso que tenho já uma entrada pré-escrita com vários palavrões. Deixo que adivinhem que tipo de entrada.

74' - Este Portugal sem Ronaldo é um tigre velho. Grande, ainda bonito, às vezes com mau feitio e capaz de se defender, mas essencialmente sem dentes ou garras...

77' - Há duas versões de Giroud. O Giroud bom e o Giroud mau (isto ainda dá telenovela). Hoje tivemos o Giroud mau. O Deschamps, infelizmente, percebeu isso.

78' - Éder?????? Nãããããããããããããõoooooooooo!!!!!!!!!!

78,5' - Estamos sem ataque que se veja... Porque raio manda o Fernando Santos mais um central francês para o jogo?

80' - Lado bom da lesão do Ronaldo: o João Mário finalmente pode ser visto.

82' - Tacticamente a decisão percebe-se: mandou o Nani para a ala para apoiar o Cédric contra Coman, que Quaresma não andava a ajudar muito. Mas Éder? A senhora da lavandaria aleijou-se?

84' - Bruno Carvalho está a ver este jogo ao som de "Money" dos Pink Floyd.

87' - Éder anda a atrapalhar os franceses. Com a transferência para o Lille, o Fernando Santos deve tê-lo convencido que se naturalizou.

89' - Quaresma demonstra o poder de futebol de rua: estrangula Koscielny e esfrega-lhe a cabeça: «Está tudo bem miúdo, está tudo bem... Mas não digas à tua mãe senão conversamos no fim das aulas.»

91' - Que santo português é São Denis?

93' - Fim do tempo regulamentar. Não sei como, mas os franceses ainda não ganharam.

 

Re-intervalo: E vamos a prolongamento. Porque dois jogos seguidos só com 90 minutos não tem piada.

Para quem tenha curiosidade porque razão me dou ao trabalho (sim, vocês três aí atrás!), isto é porque estou a ver o jogo sozinho. Sem companhia para os comentários da praxe, sofrem os leitores.

 

91' - Eu devia era ir-me deitar. Como se conseguisse adormecer.

93' - Fernando Santos é homem de Fé. Num estádio com nome de santo está a fiar-se nele e nos seus apelidos e em que Éder tenha uma veia de Charisteas.

96' - Estou a ficar tão esgotado como os jogadores. Os comentários tornar-se-ão mais esporádicos. Penso.

104' - O Éder quase marcava. Estou a delirar por causa da ansiedade, só pode ser.

 

Intervalo do prolongamento: É difícil perceber este jogo. A França deveria estar a vencer por uns 4 ou 5 mas Portugal ainda se está a aguentar. Ou os deuses estão connosco ou estão numa de ser mesmo cruéis. Eu inclino-me para o último, depois da lesão do Ronaldo.

Nota extra: depois de revisto, retiro parte do comentário do minuto 8. Não foi realmente falta, penso. Ou poderia ser, mas soft. O que houve, e muito, foi azar.

 

109' - O ÉDER?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?

 

110' - A sério. O Éder? Vou telefonar ao médico que estou mal. Muito mas mesmo muito mal. Mas só depois do fim da alucinação.

112' - Esqueci-me de comentar: o Raphäel Guerreiro demonstrou porque razão era parvoíce ter o Ronaldo a marcar livres.

114' - O William Carvalho fez um pacto com o diabo. É impossível que tanto centro lhe vá parar direitinho.

116' - O Raphäel Guerreiro não tem autorização para estar lesionado. Que vá para ponta-quieta, mas tem de ficar em campo.

119' - Dói-me.

 

122' - EU NÃO ACREDITO!!!!!

 

Fim do jogo. Morri. Até amanhã quando acordar no hospital e me disserem que imaginei.

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Allez, allez

por Teresa Ribeiro, em 10.07.16

Faltam poucos minutos. Nas ruas, quase desertas, o silêncio incha com o calor.  No mini-mercado os empregados, habitualmente palavrosos, fecham-se num mutismo amuado. É que faltam poucos minutos e ainda estão ali. O vizinho do rés-do-chão abreviou o passeio ao cachorro e recolhe-se à pressa. Nem me vê. Em volta os prédios dilatam, cheios de gente. Famílias reunidas em torno da televisão suspendem-se com o coração aos pés, respiração na mão. Ninguém me vê. Só o gato branco, que patrulha a rua em passadas furtivas, me olha expectante, a avaliar se sou um perigo. 

Há cerveja gelada no frigorífico e até champagne. Enchidos, preguinhos, bifanas, coisas de picar. E raparigas de cachecol posto, apesar do calor, e miúdos prontos a alinhar com o pai e o tio e o irmão mais velho nas vocalizações apaixonadas quando a partida começar. Faltam poucos minutos e os principais spots da cidade, de todas as cidades, vilas e lugarejos, estão cheios de gente. Há milhares que nem gostam de bola, mas quem resiste a surfar esta onda que se agiganta? Bora lá!

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