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Futebol e terrorismo

por Diogo Noivo, em 14.01.19

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Serei o único português que não percebe nem gosta de futebol. Não sei o nome dos jogadores, não percebo as tácticas, e tenho uma reacção de convulsão visceral aos inúmeros e intermináveis programas de comentário desportivo.

Se não me falha a memória, a última vez que entrei num estádio teria uns oito ou nove anos. Foi no Restelo e pela mão do meu querido avô, antigo dirigente de modalidades amadoras no Belenenses, que sofreu até ao último dia pelo clube do seu coração. Recordo-o como um gentleman. Sereno e cortês, de uma amabilidade quase anacrónica. O aprumo era militar, com um bigode branco cuidado ao milímetro e a capacidade paranormal de chegar ao final do dia com a camisa impecavelmente engomada.

Talvez por guardar esta imagem dele tenho tanta aversão ao futebol. A psicanálise explicará. Para mim, o mundo do futebol era o meu avô e o meu avô era radicalmente diferente daquilo que se vê nos relvados, nas bancadas e nos estúdios de televisão onde a bola dá o mote para horas de conversa inenarrável.

Esta digressão ao passado vem a propósito de uma pergunta que me foi feita pelo Diário de Notícias no final da semana passada: o sucedido em Alcochete foi terrorismo? Analisei o sucedido, dissequei os factos, ponderei o que está demonstrado. Cheguei a duas conclusões. Primeiro, tenho razões para execrar o mundo da bola. Segundo, o sucedido dificilmente configura um caso de terrorismo – como é óbvio, apenas esta última conclusão consta da notícia publicada no DN. Defendo quatro argumentos:

 

1 - O terrorismo é, por definição, político. A violência, ou a ameaça do seu uso, destina-se a inocular o medo para, dessa forma, condicionar comportamentos sociais e políticos. Estará por demonstrar que a violência em Alcochete esteve ao serviço de um projecto de poder.

2 - Mais importante para o caso em apreço, os alvos directos do terrorismo nunca são os seus reais destinatários. As vítimas são um símbolo, uma representação daquilo que a organização terrorista entende ser o inimigo (i.e. um agente da polícia enquanto representante da autoridade do Estado, ou um cidadão europeu enquanto símbolo de uma sociedade alegadamente hedonista e "infiel"). Isto dificilmente se verificou em Alcochete, uma vez que os reais destinatários terão sido os jogadores.

3 - Uma das características que distinguem o terrorismo de outras formas de criminalidade organizada é o facto de este precisar de publicidade. Uma organização dedicada ao tráfico de armas não deseja atenção sobre a sua actividade, mas, pelo contrário, o terrorismo precisa de ampla divulgação da sua acção - sob pena de não disseminar o medo, que é o principal objectivo imediato de qualquer terrorismo. Está por demonstrar que os indivíduos envolvidos nas agressões em Alcochete desejassem a ampla divulgação do crime que cometeram.

4 - Por fim, o objectivo último das organizações terroristas não estatais é o Estado e as suas instituições, bem como a sociedade - ou pelo menos uma parte dela. Daí o terrorismo ser tão grave e insidioso. Também este critério dificilmente se verifica no caso de Alcochete.

 

Seja como for, os motivos para não regressar a um estádio permanecem intactos.

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Vergonha

por Pedro Correia, em 07.01.19

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Por sete milhões de euros, ou de petrodólares, os responsáveis máximos do futebol italiano acederam em deslocar do seu país para a Arábia Saudita o jogo da Supertaça que vai disputar-se entre as equipas da Juventus (onde pontifica Cristiano Ronaldo) e do AC Milan. O desafio decorrerá no próximo dia 16, no estádio Cidade Desportiva Rei Abdullah.

Tudo bem? Não: tudo mal. Assim preparam-se para caucionar a chocante discriminação existente nos estádios sauditas, onde as mulheres só em 2018 foram autorizadas a assistir pela primeira vez a jogos de futebol, mas sem se misturarem com homens, permanecendo confinadas aos lugares mais recuados das bancadas. Assim acontecerá novamente nesta Supertaça. Tapadinhas, caladinhas - e lá para trás.

«O desporto precisa de plateias globais para crescer», alega o dono da bola italiana. Está profundamente equivocado: destas plateias não precisa mesmo. Até porque são a antítese do espírito desportivo. Como fervoroso adepto de futebol, sinto vergonha destes dirigentes desportivos europeus que se põem de cócoras e chegam mesmo a rastejar mal atravessam o Mar Vermelho, convivendo alegremente com as mais inaceitáveis segregações em terras de Maomé.

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Jornalismo "agit-prop"

por Pedro Correia, em 02.12.18

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Ontem, como de costume, em quase todos os canais "informativos" portugueses só havia bola. Com "notícias" como esta: «Benfica supera a crise goleando o Feirense.»

Deslizei para os raros recantos onde ainda não chegara o futebol - que entre nós é considerado sinónimo de desporto, vá lá entender-se por quê.

Num desses poisos alternativos, logo na frase de abertura, evocava-se o agora falecido presidente norte-americano George Herbert Walker Bush dizendo logo na frase de abertura que tinha "liderado durante oito anos" o poder em Washington: bastaria uma rápida consulta à Wikipédia para perceber que Bush pai esteve apenas quatro anos na Casa Branca, entre 1989 e 1993.

Mas este "jornalismo" que nos entra em casa não peca apenas pela falta de memória: peca também por excesso de activismo político. Noutro canal, a propósito dos distúrbios em Paris, provocados por extremistas de vários matizes, Fulano aludia à Revolução Francesa, Beltrano invocava o espírito da "revolução de 1848" e Sicrano dava por praticamente consumada a demissão de Emmanuel Macron, por pressão "do povo que se revolta nas ruas". Todos contactados por telefone, todos arengando contra a democracia representativa, todos fazendo tábua rasa da genuína vontade popular expressa no voto. Agit-prop em directo e ao vivo.

Voltei a zapar, de comando na mão. Despedindo-me dos cúmplices morais da anarquia parisiense, regressei ao reino da bola. Mal por mal, antes a crise do Benfica, "superada" pela vitória caseira contra o Feirense.

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Códigos

por Pedro Correia, em 30.11.18

Vou ao balcão da pastelaria, peço para me embrulharem um croissant misto (sem manteiga) e um sumo. 

O empregado pergunta:

- Quer palhinha?

Detesto palhinhas. Respondo:

- Não. Palhinha está no Braga.

Ele ri, percebendo de imediato o trocadilho. Saio do estabelecimento a pensar como seria mais cinzento e baço o nosso quotidiano sem estes pequenos códigos de comunicação que tanto nos ajudam a colorir os dias.

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Frases de 2018 (42)

por Pedro Correia, em 26.11.18

«O futebol é um antídoto contra a solidão.»

Francisco José Viegas, na sua coluna do Correio da Manhã (24 de Novembro)

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Mourinho

por jpt, em 08.11.18

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(Postal para o És a Nossa Fé

 

Juventus-Manchester United, no palco global da “Champions” o jogo entre as equipas dos dois portugueses mais conhecidos do mundo, pelos seus extraordinários méritos. Também por isso eles alvos de tanta raiva nacional, mostra desse traço cultural constante, a inveja dos patrícios com sucesso “lá fora”, tão paradoxal e desprezível num país que foi colonial (e abominou os seus colonos) e é de emigração (e menospreza os seus emigrantes). A abjecta reacção generalizada, isenta daquilo chamado “dúvida”, às acusações de uma acompanhante de luxo a Cristiano Ronaldo, é um caso extremo disso. Mas é algo continuado, há uns anos (2012, 2013?), num treino da selecção antes de um jogo particular em Guimarães o público gritava “Messi, Messi” para espanto do CR7. Pois porquê aquilo? Tal como a constante maledicência sobre Mourinho – há quantos anos, 10?, se lêem inúmeros comentários e opiniões na imprensa sobre o estar ele “ultrapassado”? – disso é prova.

Ontem o confronto (também) entre eles. Algo que connosco fala, sportinguistas, sobre o nosso clube. O CR7 orgulho máximo da nossa formação, encabeçando o trio maravilha de três décadas gloriosas, Futre-Figo-Cristiano. Talvez o melhor jogador do mundo, e cada vez mais isso se evidencia (Messi como o génio trabalhado, Ronaldo como o trabalho genial). E Mourinho, o técnico em actividade com mais vitórias relevantes, em tempos recusado pelo Sporting (um dos três erros históricos do clube, junto aos com Eusébio e Futre). Negado, julgo recordar (ou sonho a memória?), quando o actual director do futebol do Sporting, então capitão, se armou em Sérgio Ramos e torpedeou em público essa vinda, associando-se aos sábios espectadores, esses sempre armados de vigorosos lenços brancos, que clamaram inadmissível que um treinador transitasse do Benfica para o Sporting. Pois desde há décadas que os fungões espirram …

Enfim, vem isto a propósito do final do jogo de ontem. Mourinho, que em Manchester e Turim foi azucrinado pelos adeptos italianos, jogou bem e triunfou. A Juventus é melhor, ganhara soberbamente fora e em casa tinha o jogo na mão. CR7 fez um jogo magnífico, um golo espantoso e deu outros a marcar, desperdiçados por pés Quadrados. Mas Mourinho pensou bem, substituiu melhor, e teve a sorte (essa grande jogadora) por ele. E fez a reviravolta, mesmo no fim. Jogo épico.

Mas o que é mesmo magnífico é a sua reacção. Provocatória, deselegante, desnecessária, digam o que disserem. Mas é uma delícia. Porque é futebol. Mas ainda mais do que isso, porque é completamente portuguesa. Não exactamente o gesto da mão na orelha, algo mais comum. Mas é aquele trejeito da boca, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Algo, ricto e óbvio som, tão nosso, tão português de rua, bairro, popular, tão “tuga”, tão treinador da bola, como se fosse ali aqueles técnicos dos tempos de antes, os do Aliados do Lordelo ou do Montijo a ganharem à Sanjoanense ou ao Amora, assim a fazer o mundo pequeno e igual quanto às mesuras que se lhe (não) deve, e nisso também tão eu, tão nós, os que não temos nem vergonha de ser portugueses nem abominamos os nossos que ganham alhures. Vejo-o ali na tv e rio-me, gargalho, “ah g’anda Mourinho, meu patrício”, meu e nosso orgulho amanhã. Saídos à rua, entre nós e com os outros, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Nós povo, rindo, que hoje no fim do dia tragaremos o “petit verre”, escorropicharemos o bagaço branco, e irei eu até à rua, à porta da “petite restauration”, a tasca daqui, a fumar o cigarro e, se necessário, no choque com o frio, assoar-me-ei aos dedos, sacudindo o ranho para o chão, e se calhar ainda terei que cuspir, na azia do álcool. E, entre nós, riremos, com desprezo mas também mágoa, desses invejosos lá na terra. E ainda mais, com gargalhada mesmo, com alguma amarga piada sobre essa paneleirage, tão amaricada, sensíveis coitadinhos, a agitarem os lencinhos brancos, arrebitados em meneios no “olhem para mim”, que é para isso que lhes servem os trapos.

G’anda Zé Mourinho, g’anda patrício. E viva também o CR7, o melhor do mundo.

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Não acertam uma

por Pedro Correia, em 06.11.18

A Bola, 5 de Novembro, 00.45:

«Marcel Keizer já está em Lisboa e tudo indica que será ainda esta segunda-feira oficializado como treinador do Sporting.»

 

A Bola, 5 de Novembro, 17.31:

«Al Jazira vence ainda com Marcel Keizer no banco.»

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Brasil (e não só)

por jpt, em 20.10.18

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Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

 

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

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Presidente Varandas

por Pedro Correia, em 09.09.18

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Contados os votos num dia histórico no Sporting, confirma-se a vitória daquele que sempre me pareceu o candidato mais preparado. Aquele que conhece bem o desporto-rei, que serviu o clube como competente director clínico durante sete anos, que trabalhou no departamento de futebol leonino e foi ali o primeiro a avançar corajosamente contra o desvario carvalhista, rompendo sem ambiguidades com uma gestão caótica e danosa enquanto outros, cá fora, se resguardavam. Aquele que, com inegável desassombro, soube erguer a voz no momento certo proferindo a palavra "não".

Ganha por margem confortável, com cerca de 42,3% dos votos - superando em 5,5% o seu principal oponente nesta campanha, João Benedito, que se apressou a felicitá-lo com elegância e galhardia. Margem que lhe permitirá gerir este grande clube, concentrando todas as energias e todo o seu talento ao serviço da centenária instituição de utilidade pública que tanto amamos.

 

O mais difícil começa agora. Terá momentos muito complicados no percurso que vai seguir-se. Atravessará horas de extrema solidão. Conhecerá invejas e ingratidões, próprias da natureza humana. Com firmeza e tacto, deverá recompor os cacos a que o presidente destituído em 23 de Junho reduziu o Sporting.

Frederico Varandas conduzirá esta empreitada com sucesso, acredito. Para bem desta incomparável massa adepta que não desiste nem deserta mesmo com prolongados jejuns de títulos. Unir o Sporting - seu lema de campanha - é prioridade máxima do novo presidente. Do meu presidente.

Do presidente de nós todos.

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Deputação

por Pedro Correia, em 20.07.18

A que propósito é que o chamado "núcleo de deputados sportinguistas na Assembleia da República" recebe com pompa o presidente destituído do Sporting Clube de Portugal, no Palácio de São Bento, dando-lhe um crédito que ele não justifica nem merece? Será que os senhores legisladores não têm mesmo mais nada para fazer?

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Frases de 2018 (33)

por Pedro Correia, em 16.07.18

«Vocês suaram a camisola. Vocês mobilizaram todo o país. 66 milhões de franceses tiveram os olhos postos em vós. Sereis exemplos para muitos jovens.»

Emmanuel Macron, Presidente francês, em palavras dirigidas no balneário aos jogadores do seu país que ontem se sagraram campeões do mundo em futebol

 

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Um guarda redes com cãibras a aguentar um prolongamento e a defender dois penalties. Um médio a perder a bola por lhe dar um torque e não ter pernas para a ir buscar mas depois a recuperar a bola e a virá-la de flanco. Um avançado a mal poder correr excepto quando cheirou uma bola e lhe acertou de forma perfeita para acabar com o sonho inglês. Um jogador a marcar dois penalties em jogos decisivos depois de correr 120 minutos em cada e nós a sabermos que estaria pronto para repetir a dose no terceiro jogo consecutivo. Um desempenho de sonho a negar a equipa do melhor jogador do mundo e outro funcional, da equipa secundária, quando não precisaria de o fazer. Três jogos consecutivos a recuperar de desvantagens para se apurar para a final com o equivalente de um jogo a mais e um dia menos. E isto é só o mundial da Croácia.

 

(Hrvatska! Hrvatska! - ouve-se da minha janela, gritado a 950 km de distância)

 

A Inglaterra sonhou como não o fazia há 28 anos e conseguiu ser parada sem que o cortejo de juízes surgisse no horizonte. A Rússia sacudiu a etiqueta de segunda pior equipa do mundial para estar a um passe (ou remate) das meias-finais. A Bélgica recuperou de uma desvantagem de dois golos contra o Japão e depois venceu o Brasil, em desempenhos que deixaram os adeptos do mundo inteiro (excepto japoneses e brasileiros, à vez) a torcer por eles. Lukaku especialmente deixou água na boca contra os japoneses ao não tocar a bola antes do último remate do jogo e a fazer verdadeiro bullying artístico a quem lhe apareceu pela frente - ou pelo ombro - frente aos brasileiros. Meunier, no seu jeito de gigante desengonçado e trapalhão tem sido calmamente o melhor lateral direito do mundial - a sua ausência foi excessivamente notada. Outros dois laterais direitos deram-nos aqueles que poderão ter sido os melhores ou mais belos golos do mundial.

 

(pausa para respirar)

 

Ronaldo teve um jogo a falar da melhor cabra de todos os tempos** e foi abafado por dois golos excepcionais, um deles resultante de uma tabelinha de 100 metros. O VAR apareceu na fase de grupos e deve ter bebido tanta vodka que desapareceu nas eliminatórias. Mbappé apanhou uma multa por excesso de velocidade num jogo e decidiu atormentar as polícias de trânsito nas defesas adversárias apenas em trajectos curtos. Lilian Thuram foi descoberto na Rússia, 24 anos mais novo e com outra cor de pele, mas não engana ninguém. De Bruyne foi dando lições de geometria euclidiana com os seus passes saídos directamente do Elementos. O cliché inglês da fila às espera do comboio em forma de bola nos livres indirectos e cantos.

 

(Neymar rebola... e rebola... e rebola...)

 

Os remates de Coutinho. Godín a defender toda a área, duro quando necessário, com souplesse quando possível. Varane a varrer a sua defesa no ar e no chão, mais rápido que Hazard a correr, que Fellaini a saltar e mais forte que Lukaku, mas sempre com classe. Kanté a varrer a direita e a esquerda de Pogba - ao mesmo tempo. A trivela de Quaresma. Os 3 metros e meio de altura de Yerri Mina. A trivela de Quaresma. Aliou Cissé a destilar coolness. A trivela de Quaresma. O Japão a jogar para perder o último jogo na fase grupos e ser apurado por serem bons rapazes. Neuer a ala esquerdo. Kroos a fazer de Bom, Mau e Vilão num único jogo. Quase duas vezes. Honda a entrar em campo para marcar um golo do empate ao fim de 6 minutos. A Inglaterra a vencer um desempate por penalties.

 

(esperemos: o Panamá está ainda a celebrar os golos)

 

El-Hadary a não ser substituído depois de ser o mais velho jogador a jogar um mundial e a defender um penalty. Tal memória deveria ter sido gravada para sempre sem necessidade de o ver a conceder golos. Marrocos a dominar 3 jogos e não vencer nenhum. Dinamarca e França a oferecerem uma cura para o stress. Já disse que a Islândia se qualificou para um mundial com uma população de 300 mil? O cineasta vindo do frio a defender um penalty ao melhor jogador do mundo*. Rojo a mostrar aos seus avançados como se marca um golo. Os dois suíços que provocaram os sérvios por causa do Kosovo depois de serem provocados pelos russos. O guarda redes iraniano que dormiu no chão mas que defendia quase tudo, inclusivamente um penalty do mais valioso trintão do mundo***. Lozano. Kompany porque simplesmente gosto do tipo. Fellaini porque é daqueles tipos que é impossível de não se gostar quando estamos longe dos seus cotovelos. Kane porque vai ser o melhor marcador com 3 penalties, 2 sobras e 1 bola tabelada na canela. Auto-golos porque vão ultrapassar Kane. Brasil a ser eliminado mais cedo que há 4 anos mas com melhor sabor na boca.

 

(preparar o fim)

 

Um mundial de sol, festa, jogos abertos como não há muito, jogadores a lutar até ao limite das forças e ainda mais além, selecções a celebrar mesmo depois de serem goleadas, um anfitrião a abrir as janelas fechadas há muito para mostrar que sabe de hospitalidade mesmo quando volte a fechar a casa, de pena por as equipas africanas não passarem a fase de grupos depois de iluminarem os seus jogos no campo e nas bancada, equipas a serem eliminadas sem recriminação, cerveja a esgotar, a presidente croata, a ausência de Putin, alfabetos cirílico e latino, sol da meia-noite - ou perto disso.

 

E teremos sempre a quaresma de Trivela em Saransk.

 

* - escolha pessoal, discordem à vontade.

** - Referência à barbicha - goatee em inglês - e a GOAT, acrónimo para Greatest Of All Times.

*** - pelo menos no futebol.

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O ópio do povo

por Pedro Correia, em 09.07.18

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Futebol e mais futebol e mais futebol e mais futebol. Em todos os canais, começando pela televisão pública. Serões inteiros dedicados à bola, internacional ou doméstica. Serões cujo conteúdo é retransmitido madrugada adiante nos sonolentos canais que garantem ter noticiário "24 horas". Na manhã seguinte, mais futebol. E à hora do almoço. E durante a tarde.

Nunca o escrutínio governativo andou tão arredado das pantalhas cá do burgo.

António Costa, com 40 anos de experiência política, sabe muito bem que este ópio do povo é o maior aliado de um Executivo em dificuldades. Imagino-o até a recomendar ao desaparecido ministro da Educação, que enfrenta uma contestação sem precedentes dos professores nesta legislatura: «Tiago, vai à Rússia e mostra-te lá com os jogadores da selecção.»

E ele foi. Como se dizia antigamente, e bem podia voltar a dizer-se agora, «o futebol é qu'induca, a bola é qu'instrói

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Notas de meio do Mundial

por João André, em 01.07.18

Quis escrever mais vezes sobre o mundial no meu outro estaminé mas não tem sido possível. Agora que o mundial de Portugal temrinou, ficam uns apontamentos.

 

Portugal

O primeiro jogo, contra a Espanha, deu-me esperança que Ronaldo estivesse ao seu melhor nível e Portugal jogasse bem o suficiente para o apoiar. A Espanha tinha-me parecido estar a jogar bastante bem e só tendo sido batida por uma boa organização defensiva e uma actuação brilhante de Ronaldo. Os jogos subsequentes, de Portugal e Espanha, indicaram que talvez não fosse bem assim, nem para Portugal nem para a Espanha (à hora que escrevo está empatada a um golo com a Rússia).

 

Portugal tinha a desculpa contra a Espanha de saber que não veria muito a bola. Contra Marrocos e Irão isso não sucederia. Fernando Santos insistiu em esquemas e jogadores que pouco ou nada fizeram e com toda a gente à espera que Ronaldo resolvesse tudo. Contra Marrocos Portugal teve muita sorte em não perder (esta também é necessária) e contra o Irão o jogo foi sofrível e mesmo com o penalty mal assinalado em favor do Irão o resultado não foi incorrecto.

 

Contra o Uruguai Fernando Santos corrigiu alguns erros tácticos, mas algo tarde e de forma dubiosa. Com Bernardo Silva na ala direita, era necessário jogar com um lateral mais inclinado a procurar a linha final para permitir a Bernardo Silva mais liberdade. Infelizmente isto surgiu ao 4º jogo, sem verdadeiras rotinas, e Cédric não mereceria ser enviado para o banco. No ataque haveria alguma lógica em jogar com Gonçalo Guedes, mas apenas se fosse um avançado mais móvel. Encostado aos centrais, especialmente Godín e Gimenez, foi o equivalente a oferecer-lhes um chá mate. Mais tarde fez entrar Quaresma para alargar o jogo, mas infelizmente retirou Adrien em vez de João Mário (que, sendo apenas sofrível, fez o seu melhor jogo do mundial).

 

O azar foi também que o melhor jogador português do mundial, Pepe, cometeu um erro enorme que deu o segundo golo aos uruguaios. Há no entanto alturas em que temos que dar o mérito ao adversário. Fernando Santos foi emendando a mão e Portugal não jogou mal, mas os Uruguaios têm uma defesa quase impenetrável. O resto da equipa é disciplinada e com mais garra charrua por jogador que o resto das equipas mundiais em conjunto. E, no ataque, têm dois avançados de enorme qualidade, que jogam de olhos fechados, sacrificam-se pela equipa e não são egoístas. A comandar tudo, provavelmente o melhor seleccionador dos últimos 20 ou 30 anos: Tabarez. Os uruguaios marcaram primeiro em duas ocasiões. Depois de concederem um golo, só o fariam outra vez se Ronaldo descobrisse alguma coisa especial. Não o conseguiu e Portugal volta para casa.

 

Jogadores

Positivo: Patrício, Pepe, José Fonte, Cédric, Adrien, Quaresma (apesar de ter tentado ser expulso contra o Uruguai) e Ronaldo. Note-se que os considero positivos, não necessariamente muito bons.

Razoáveis: William, Guerreiro, Moutinho, Ricardo.

Negativos: João Mário, Bernardo (apesar de ter melhorado imenso no último jogo), Guedes.

 

Os únicos que foram muito bons, e ainda assim, apenas a espaços, foram Ronaldo, Patrício e Pepe. Os único que foi consistentemente muito mau foi João Mário. Guedes esteve perto, mas teve algum trabalho de equipa decente nos dois primeiros jogos (ao mesmo tmmepo que demonstrava cabalmente o erro de o colocar a ponta de lança). Destes grupos, não há queixas a Patrício porque nada podia fazer nos golos que sofreu (talvez o primeiro do Uruguai, mas seria difícil). Os outros despareceram de tempos a tempos e foi nesta inconsistência que Portugal teve uma passagem pouco notória no mundial.

 

Outras notas

Deutschland... Auf Widersehen... Nao é preciso alemão para compreender a sua eliminação. Uma velhinha grega basta: hubris.

 

Equipas que impressionaram até agora: Uruguai, Croácia, Bélgica, Inglaterra (estas duas tiveram pouca oposição), Senegal, Nigéria (sim, sei que estas foram eliminadas), Colômbia.

 

Equipas que desiludiram: Argentina, Egipto, Polónia.

 

Equipas que vão avançando à custa do talento: França e Espanha.

 

Equipa neste momento mais capaz de vencer: Brasil. Tiveram um início semi-impressionante, dando a ideia que faltava sempre alguma coisa. Contra a Sérvia pareceu ter aparecido essa coisa extra. Se a mantiverem, terão a melhor equipa para vencer.

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A pátria em chuteiras

por Pedro Correia, em 01.07.18

 

Onde estavas tu, Éder, quando tanto precisávamos novamente de ti?

 

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 22.06.18

 

Portuguese football's parable of populism. De Paul Ames, no Politico.

 

 

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Muito para além do Sporting

por jpt, em 16.06.18

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(Texto que coloquei há dias, em versão algo diferente, no És a Nossa Fé. Deixo-o aqui por desafio de uma leitora/comentadora de ambos os blogs).

 

Por antipático que isto pareça aos sportinguistas, em especial neste período de exaltação clubística, não "é ao Sporting que devo lealdade e fidelidade", como tantos reclamarão, em registo algo “futebolês”, como factor de legitimidade opinativa e, acima de tudo como invectiva aos trabalhadores jogadores de futebol que estão a rescindir os seus contratos laborais. Devo "lealdade ..." indiscutível à Pátria (ao país, como prefiro dizer), à minha família, ao meu parentesco espiritual (os meus amigos). E devo lealdade a quem me rodeia, como ser humano, e de forma mais explícita no âmbito das relações laborais. [E junto, tipo nota de rodapé, que abomino o conceito de fidelidade, que entre pessoas é o refúgio dos medíocres - deixemos agora de fora a vida conjugal, que cada um a viva como quer].

 

O Sporting Clube de Portugal é um clube, uma associação desportiva, e estas grandes proclamações muito absolutas e grandiloquentes casam bem com a tal exaltação, nos eventos desportivos e nestes difíceis momentos. Mas não, nada mesmo, na normalidade do dia-a-dia. Pois, de facto, confundem valores, mostram até algum vazio de valores. Alguns contestarão isto, reclamarão a sua paixão imorredoira pelo clube. Mas se lhes aparecer um vizinho a dizer, com grande ênfase, jorrando perdigotos, como se falasse de um qualquer Padroado, "eu devo lealdade e fidelidade ao Olivais e Moscavide" ou a um outro qualquer "Santa Marta de Penaguião Futebol Clube" decerto que sorrirão, tal o descabido, até ridículo, da afirmação. Mas é exactamente a mesma coisa com qualquer associação desportiva. Que cada um exerça a paixão clubística à sua maneira, mas que se lhe exija um tino de cidadania, uma perspicácia sobre a relevância relativa daquilo que nos rodeia.

 

O que se passa no Sporting ultrapassa em muito a questão clubística - ainda que esta seja tão sonante e premente que nos monopolize a atenção. No clube, grande instituição nacional, de enorme influência formativa entre os seus adeptos e em toda a sociedade, predomina uma soez cultura anti-democrática.  Bruno de Carvalho despreza a liberdade e pluralidade de opiniões internas (veja-se o enviesado trabalho do sector informativo interno), a diversidade da sociedade ("bardamerda para os que não são do Sporting", clamou aquando reeleito), e o primado da lei (a rábula das assembleias e dos órgãos dirigentes que quer instaurar).

 

Mais repugnante do que isso, mas inserível no mesmo modo de "ver o mundo", é como olha as relações laborais. BdC entende-se patrão, numa concepção que atribui ao patronato o direito ao assédio ("assédio" não é apenas "assédio sexual", essa questão actual) aos trabalhadores, a sobre-pressão, a invectiva, entendendo-a como “motivadora”, o desrespeito, moral e profissional. Mostram-no, de forma radical, o conteúdo das mensagens que envia aos atletas do clube. E sublinha-o, agora, a divulgação de mensagens privadas que com eles troca, um desrespeito total (e ilegal, ao que me dizem, mas isso é matéria de outro âmbito).

 

O assédio laboral é um crime, ilegal e imoral. Indesculpável, em público e pior até se em privado. Quem o pratica é indigno, não merece respeito. Sabemos (“ouvimos dizer”) que é recorrente, sob plurais formas. E ainda que haja procedimentos legais, enquadramentos sindicais, judiciais e associativos, que protegem os trabalhadores, muitos têm constrangimentos que os levam a aceitar inaceitáveis comportamentos de patronato ou de hierarquias laborais. 

 

Alguns dirão que jogadores de futebol muito bem pagos não são credores da nossa simpatia e solidariedade num caso destes. Não é essa a questão. O que se passa é que BdC tem uma visão da realidade, do mundo laboral, do seu papel de administrador (que entende como de patrão "à antiga"), que é inadmissível. E, repito, ilegal e imoral. Retrógrada, contrária ao desenvolvimento do país nas últimas décadas, à sua democratização - com todos os defeitos e insucessos que se lhe queiram assacar. Adversa aos valores sociais, jurídicos, religiosos, políticos, dominantes. E, como tal, inadmissíveis na figura de um presidente de uma instituição com o peso do Sporting, com a sua dimensão formativa. Independentemente dos triunfos nas modalidades desportivas, futebol incluído. Independentemente dos hipotéticos sucessos económico-financeiros. Pois Bruno de Carvalho, com a visão de sociedade que tem, é uma persona non grata num país democrático e civilizado. 

 

Entre os comentadores deste nosso És a Nossa Fé vejo um pequeno excerto dos que têm apreço por aquele entendimento, alguns com grande iliteracia (talvez fingida no aspecto gramatical, mas óbvia na dimensão intelectual). Tal como noutros blogs e na imprensa se encontram os seus ecos. Muitos dos adeptos desta maneira de ver o mundo, do destratamento nas relações laborais, será gente que está fora das relações laborais institucionalizadas, geridas sob direitos e deveres regulamentados, com instâncias de recurso. Alguns deles, os tais "jovens" de que se falou aquando das prisões entre-claques, integrarão nichos de economia paralela, marginal até, subterrânea. Reforçada no desemprego que grassou no país. Que funciona(rá) com relações laborais, vínculos operacionais, estabelecidos sobre relações pessoalizadas, discricionárias, essas sim apelando à tal "fidelidade". E assim desconhecedores das culturas laborais institucionalizadas. Muito menos violentas, e saudavelmente protectoras dos trabalhadores. Também para obstar a esta pobre visão da sociedade, para compreensão dos direitos dos indivíduos, é importante que grandes clubes não reproduzam os pérfidos valores sociais que gente como Bruno de Carvalho assume.

 

Por tudo isto, por apreço ao país, ao seu desenvolvimento, a todos nós, às nossas liberdades individuais, tem que haver limites. Que são éticos. Questão que se me levanta diante da notícia das rescisões dos jogadores de futebol, trabalhadores do Sporting, na sequência do inadmissível, anti-democrático, repugnante e continuado assédio (bullying) praticado pelo presidente. Quando numa situação destas vejo chamar, com tudo de pejorativo que isso explicita, "refractários" a esse jogadores, isso cruza a linha do admissível. Mostra uma vil concepção de sociedade, de trabalho, de responsabilidade individual. Mostra o quão anti-democráticos são os locutores. O (Um) clube não une quem tem tão diferentes valores, tão diferentes ideias de sociedade, de "lealdade". E, estou certo, não é no meu lado que habita a abjecção moral. Mas no de quem, seja lá qual for o clube com que simpatiza, concorda com esse tipo de invectivas.

 

Não discuto se os jogadores têm “direito” jurídico para rescindirem contratos, isso é matéria para os tribunais. Mas o que discuto é se têm “direito” para o fazer. Muitos contestam esse “direito”, difuso, invectivando-os, clamando que eles traem o “amor à camisola”, aos “vínculos espirituais”. Leio-o e ouço-o entre gente com formação escolar e biográfica mais do que suficiente para uma outra densidade de reflexão. Demonstram, tantas vezes apesar deles próprios, duas dimensões: cegueira sobre a actualidade; adesão ao fascismo.

 

O “amor à camisola”, o “vínculo espiritual”, é essencial no fenómeno clubismo e parte crucial em vários desportos. Mas a sua realidade tem-se transformado, de múltiplas formas. Abordo apenas uma, relativa a esta situação: muitos sportinguistas afirmam que os jogadores da “formação” (as escolas do clube) são “devedores” morais do clube. Entenda-se, os jogadores jovens, das escolas, têm contratos laborais (diz-me um familiar de um jovem jogador do Benfica que aos 14 anos podem assinar contratos até 1500 euros por mês!!). Os clubes investem na formação no intuito de obterem resultados económicos – seja através do exercício quando seniores, seja na venda das licenças desportivas. A própria formação do clube (do Sporting e não só) é entendida como uma actividade produtiva, económica. Como o mostra o “franchising”, o estabelecimento de “academias” pelo mundo (na China, na África do Sul, etc.), que tanto apreço colhe entre os adeptos. É um “business” global, de obtenção de lucros com a “marca” do clube. Esperamos que os putos “sejam” do Sporting, que lhes germine o tal “vínculo espiritual”? Sim. Mas de facto tudo é uma actividade económica, desde a mais tenra idade dos jogadores (o que até levantará questões muito mais abrangentes, que não coloco aqui). E está no cerne da actividade do(s) clube(s). Os jogadores são formados nos clubes, ganham competências para uma profissão? Sim. Mas, repito, fazem-no no seio de uma actividade económica. Assim pensada pela instituição formadora. Assim entendida pelos formandos (e suas famílias). É uma candura, até desonesta, não compreender isso. E exigir uma assimetria no relacionamento. E vir insultar quem, inserido nesta realidade, actua estrategicamente em defesa dos seus interesses.

 

A outra dimensão, a implícita adesão fascista que este discurso mostra, é muito simples e nem me alongarei. O apreço pelo tempo do “amor à camisola”, em que os jogadores estavam longos anos no mesmo clube, dele se tornavam símbolos, a invocação desses “bons velhos tempos” é transversal aos adeptos do futebol, desde o mais empedernido salazarista ao mais pós-moderno pós-maoísta BE. Ou seja, todos eles têm uma nostalgia pelos tempos em que os jogadores de futebol estavam submetidos à “lei do passe” (desportivo): terminado o contrato não eram livres de escolher o seu próximo empregador, pois os clubes tinham a prerrogativa de os manter nos seus quadros. Um regulamento “servil”, “feudal” se se quiser. E por esse intermédio os jogadores ficavam anos a fio, mesmo que tivessem outros objectivos, no mesmo clube. Após o 25 de Abril isso terminou. Passados largos anos, Valentim Loureiro tentou, como presidente da Liga de Futebol, reinstaurar mecanismos legais relativamente similares (sim, um homem de um partido chamado social-democrata; sim, um homem que visitava Guterres em São Bento levando as criancinhas de Gondomar). Muitos, hoje, em nome do seu clubismo, continuam a trautear esse pérfido “ó tempo volta para trás”. Quando os jogadores de futebol não tinham liberdade de escolher o seu empregador. E chamam “amor” a esse seu desejo fascista. É nitidamente uma concepção sado-maso da vida afectiva e sexual. Ou então é pura patetice.

 

Enfim, que os jogadores do Sporting, que tantas alegrias e expectativas me deram (podiam ter sido mais ..., raiparta) sigam as suas carreiras com sucesso e saúde. Exercendo o seu livre-arbítrio. E que, se ainda for possível, regressem em muito breve ao Sporting. Se salvaguardadas as condições para o seu exercício profissional, respeitados, enquadrados pelo espírito da lei laboral e do bom viver democrático.

 

E que os meus caros co-adeptos (aqueles que sabem da dignidade humana, não os energúmenos fanatizados, que põem o clube acima da Pátria, da sociedade, do país)  não repitam a espantosa patetice de tantos benfiquistas, há alguns anos autênticas baratas-tontas porque um trabalhador legitimamente saído do seu clube decidiu, pelo "sagrado" (se há coisa que é sacralizável é isso mesmo) livre-arbítrio vir trabalhar para o rival. Tino, é o que nos tem faltado. A mim, e a pelo menos 86% dos votantes na maior eleição de sempre no Sporting. Recuperemos o tino. E apartemo-nos dos refractários à decência civilizada. No clube. E no país.

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'Melting pot' à portuguesa

por Pedro Correia, em 15.06.18

Diz-me o merceeiro do Bangladeche, estabelecido cá no bairro há pouco mais de um ano: «Hoje vamos ganhar. Cristiano Ronaldo é o maior!»

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Mais do mesmo

por Pedro Correia, em 15.06.18

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O costume: insultou jornalistas («vocês não são capazes de dizer a verdade»), destratou comentadores, enxovalhou os sócios («os associados do Sporting podem ter muitos defeitos mas já perceberam que as coisas não são assim como dizem»), fez autênticas piruetas verbais para quase considerar positiva a onda de rescisões de jogadores («se tiramos os jogadores, também há que tirar os salários, ora como os salários são elevados se calhar as coisas não são assim como dizem»), mostrou-se totalmente dissociado da realidade («estamos a negociar com jogadores belíssimos, sem problema nenhum»; «vou garantidamente ter uma equipa para lutar pelo título no futebol sénior masculino»).

Falou do seu assunto favorito: ele mesmo. Dizendo-se perseguido por todas as forças ocultas do universo. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...

 

Nesta conferência de imprensa, que se prolongou por setenta minutos, disparou em todas as direcções sem jamais assumir a menor parcela de responsabilidade neste inédito descalabro do Sporting.

Suavizou de forma quase obscena a inaudita violência de Alcochete, com frases de chocante insensibilidade e de evidente chacota, procurando desvalorizar tudo quanto ali se passou: «No meio dos tremores, [Ruben Ribeiro] ia-me mandando corações verdes e abraços»; «[Rafael Leão] está com tremores terríveis, tremendos.»

 

Nada disse de minimamente credível sobre a decisão do tribunal que  acaba de derrotá-lo em toda a linha - considerando sem fundamentação legal as duas "assembleias gerais" que ele tinha convocado, em flagrante violação dos estatutos leoninos, e ferida de nulidade jurídica a nomeação da putativa "comissão de transição" da irrelevante senhora Judas.

Por ironia do destino, disse tudo isto na sala do Conselho Directivo tendo atrás dele as fotografias dos chamados "presidentes croquetes" que ele tanto odeia e que as turbas mais fanáticas que ainda se deixam guiar por ele tanto abominam.

Vi esta fotografia e não pude deixar de associá-la ao final do célebre romance Animal Farm, de George Orwell. Tanta "revolução" tonitruante para tudo terminar, em termos simbólicos, no ponto de partida.

 

 

Adenda: Faz hoje um mês que o centro de estágio em Alcochete foi invadido por quase meia centena de criminosos, que bateram em quem quiseram e destruiram o que lhes apeteceu. Nunca esqueceremos. Foi a página mais negra da história do Sporting.

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Olhar o céu

por Diogo Noivo, em 12.06.18

Exausto com a penosa novela Sporting, pensei vir aqui explicar porque não gosto de futebol. Ia falar da violência endémica, consentida por uma parte importante da sociedade portuguesa – e, em particular, pela malta que vai “à bola”. Pensava escrever sobre os privilégios fiscais concedidos aos grandes clubes, um estatuto que contrasta com o do normal contribuinte, vítima de acosso do Estado – algo igualmente tolerado pela “malta da bola”. Pretendia explicar como o caso do Sporting espelha o quão miserável é este mundo: de um lado, Bruno de Carvalho; do outro, Marta Soares e Álvaro Sobrinho. Ia fazer tudo isto até que li o artigo do Miguel Araújo, na Visão, e o artigo do Carlos Rodrigues Lima, na Sábado. É só ler e perceber.

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