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Delito de Opinião

A Adega do Isaías, 30 anos depois...

jpt, 14.05.24

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É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.

Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).

Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural". 

Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".

O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...

Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...

E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.

Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.

(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)

Um novo presidente no F.C. Porto

jpt, 01.05.24

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Foi surpreendente - pelo menos aqui a Sul do Trancão - a estrondosa derrota do Papa Doc do Douro, o (aparente) arredar dos seus tonton macoute... Com efeito, quem o diria, 80% da freguesia portista proclamando o verdadeiro Inverno do patriarca? Diante disto alguns mimetizam Abril - como se Villas-Boas seja avatar de Salgueiro Maia, metáfora fácil dada a efeméride tão recente. Outros, mais pérfidos, lamentam que o velho chefe não tivesse "saído em grande" - pois embalsamado na sua teia de perversos interesses, deve-se-lhes responder. 

"Sair em grande"? Será melhor perceber que os 80% (mais os remanescentes 20%) não o repudiaram. Apenas consideraram que já não é suficiente, competente, enérgico, malevolente eficaz. Pois as suas 4 décadas de "vale tudo" sempre foram sufragadas por aquela gente. Não para defender fronteiras, para salvar vidas de conterrâneos, acabar com a miséria. Mas apenas para os urros orgásticos de ganhar taças. Uma mole de guardas abéis e macacos? Sim, mas também daqueles Lourenço e Adriano Pinto, e quejandos. E daquele Fernando Gomes, a quem Guterres até deixou pensar ter o delfinado. Ou este autarca Moreira, a quem alguns querem ungir. Ou até mesmo aquele Mayan Gonçalves que se diz "liberal" enquanto pactua com tudo aquilo. 

Foram décadas daquele abjecto "vale tudo". Não há como "sair em grande" daquela miséria. Há apenas que louvar quem se lhe opôs, com custos. E perceber que os 80% - mais os outros - apenas desejam... mais do mesmo, rapaces que são.

Bayete Catamo

jpt, 07.04.24

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Em finais de 2021 eu - como se comprova, sendo um muito competente "olheiro" (os patetas ignorantes agora falam de "scouting") - saudava a chegada do jovem moçambicano Catamo ao plantel do Sporting, augurando-lhe grande futuro. E ao assunto voltei no início desta época, exigindo também no Delito de Opinião a sua manutenção no plantel.
 
Assim sendo, creio que vos será possível imaginar o sorriso gigantesco com que ontem me deitei. Um cúmulo: estivera desde o fim da tarde no recomendável Roda Viva, restaurante moçambicano em Alfama. Ali organizara o "lançamento" do meu livro "Torna-Viagem" - que é louvado mas não tanto comprado... Apareceu um largo punhado de amigos - alguns vindos de bem longe, outros vindos de eras muito recuadas... E até família - a minha irmã, comparecida para evitar que eu dissesse palavrões, e cunhados, a apoiá-la na nobre e pedagógica missão.
 
Encheram-se as duas salas e a viela, enquanto se comiam as prometidas (e devidas) badjias e chamuças. Depois do cerimonial livresco - no qual falou o Fernando Florêncio e perorei eu - e do animado convívio avulso, umas quatro dezenas de presentes decidiram jantar ali mesmo, tendo tecido loas ao repasto. Enquanto eu cirandava de mesa em mesa foram-me informando da evolução do resultado. Houve júbilo no final do jogo, ali em Alfama.
 
Pela 1 da madrugada recolhi a casa, tão contente que quase feliz. E vi a gravação do jogo. Só então percebi que fora a noite de glória do Catamo! Neste meu dia não podia ter sido melhor!!! Bayete Catamo!!!,* disse ali no seu segundo golo, mesmo no final - na sequência de um inenarrável roubo do árbitro, a querer levar o Benfica ao título, uma escandaleira.
 
Ao acordar leio uma mensagem, amigo moçambicano desde Maputo, dizendo-me que ao ver o jogo do Geny se tinha lembrado daquele meu já antigo postal sobre o rapaz. Profético, profético... Enfim, apenas posso dizer, modesto: "sublinhem as minhas palavras!".
 
* Bayete - saudação destinada a um Chefe relevante no universo linguístico tsonga.

De Famalicão a Lisboa

jpt, 04.02.24

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Ontem, em Lisboa, umas duzentas pessoas manifestaram-se em Lisboa contra a imigração de islâmicos. Antes havia sido proibida uma manifestação similar, decisão estatal peculiar - e muito problemática - devida a expectativas de perturbação da ordem pública. É certo que o mote da manifestação é desagradável, acintoso até. E também é consabido que o tipo de gente atreita a participar neste tipo de eventos é infrequentável - alguns dos seus integrantes mesmo com passado escandaloso - tanto pelas suas crenças como pelo seu comportamento colectivo. Mas daí a retirar-se-lhe, a priori, o direito a se manifestarem vai um passo demasiado longo. Entretanto, e como uma organização reincidiu na organização da arruada, a pequena mole xenófoba congregou-se em prol das suas crenças e sensações, ao que consta sem prejuízo da paz municipal.

Também para ontem estava agendada a realização de um jogo de futebol em Vila Nova de Famalicão, integrado no campeonato nacional da I divisão, entre o clube local e o Sporting Clube de Portugal. A polícia faltou - o que haveria de conduzir ao cancelamento do jogo, adiado para data ainda incerta. Face à ausência da polícia, de imediato surgiram confrontos entre os adeptos dos clubes que ali iriam jogar, dos quais resultaram vários feridos, óbvia perturbação da ordem pública. Sendo que estes confrontos entre adeptos de clubes desportivos constituem já uma longa tradição, como é do conhecimento geral. Os quais desde há décadas vão sendo dinamizados pela constituição de grupos orgânicos (as ditas claques), que inclusivamente assumem cenografias para-militares. E que são muito potenciados pela fervorosa cobertura mediática às acções desses grupos  - os grandes jogos com imensa cobertura televisiva dos seus antecedentes são verdadeiros momentos da sua exaltação, de glória claquística -, bem como de alguns dos seus dirigentes, tornados figuras públicas apenas devido ao seu destaque nesses "grupos de choque". 

Ou seja, é óbvio  que cada jogo de futebol, e mesmo já de outros desportos colectivos, em particular os que implicam grandes rivalidades nacionais ou regionais, se tornou um momento em que será de esperar grandes perturbações violentas da ordem pública. Por isso convocando imensa cobertura policial. Assim sendo, qual é a razão do Estado, por antevisão de confrontos, proibir uma manifestação  - ainda para mais atractiva para meia-dúzia de gatos pingados, por raivosos que sejam - e não proibir estes jogos de futebol, e não só, que convocam milhares de gatos pingados, raivosos que são?

Finalmente, é mais do que possível que os agentes policiais tenham razões para reinvidicarem junto do governo, usando as formas que lhes são legalmente concedidas. Acontece que ontem se recusaram a trabalhar no jogo em Vila Nova de Famalicão. Não através de um qualquer formato de greve que lhes seja possível, mas sim alegando doença, entregando atestados de baixa médica. Os quais, dado estarem concertados, são evidentemente fraudulentos. Assim sendo o Estado tem a obrigação - até para salvaguardar a ordem pública, que assenta no respeito pelas ... "forças da ordem" - de punir rispidamente estes agentes desonestos. E ainda mais tem a obrigação de punir ao mais extremo nível que possa os médicos falsários que exararam esses atestados. 

E isto nem tem a ver com as simpatias políticas de cada um, ou a compreensão por quaisquer reinvidicações de grupos laborais. Quando numa situação destas o presidente de um sindicato policial (Sindicato dos Profissionais da Polícia), o agente Paulo Macedo, vem lamentar que o primeiro-ministro não tenha "desejado as melhoras" aos agentes que simularam doença, isso demonstra que os polícias já atingiram o mais baixo nível da desonestidade política, e sindical. "Estão a brincar com a tropa", como se dizia. Ou melhor, estão a brincar com o povo. E quem assim despreza os cidadãos não pode estar incumbido de funções policiais.

A imprensa desportiva

jpt, 14.01.24

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Grande entrada de Moçambique no CAN, com vitória (2-1) ao favorito Egipto de Salah (que tem como seleccionador Rui Vitória...). Avante Mambas!
 
(Aqui fala-se muito do estado económico da imprensa, da falta de audiências a arrombar os jornais e revistas. Há três diários desportivos, com "sites" sempre em busca de "novidades". Nenhum tem o mínimo destaque ao CAN, nenhum informa sobre este jogo em cima do momento. Apesar de Rui Vitória e de vários jogadores que actuam em Portugal. Apesar de tudo o resto... Depois queixam-se, mas nunca da inércia própria)
 
Adenda: mal deixo o postal avisam-me que já em descontos longos os malvados egípcios acabaram por empatar o jogo. Já pensava ter acabado o jogo, que acompanhara via publicações de amigos no FB... Mas serve para sublinhar a molenguice dos jornais desportivos (entretidos a darem notícias sobre o futebol grego ou hipotéticas transferências de jogadores desconhecidos entre clubes distantes...)
 

Futebol

jpt, 09.12.23

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O ano passado adormeci três ou quatro vezes enquanto via jogos do Sporting. Afligi-me com isso, atribuindo o acontecido à crescente vetustez, já ascendida aos então 58 anos, isto da sonolência insone, do desmemoriar, da tensão alta, mais o pingo no nariz, a mão trémula, a corcunda descendente, as cáries viçosas, o lacrimejar involuntário, as unhacas recurvadas, a plural variz túrgida, a azia constante - a gástrica e a existencial -, o pesadelo com a "Mitra", o "ai se fosse no meu tempo" quando passam as beldades cinquentonas, as notícias dos (sobrinhos-)netos já adultos, o timorato ao volante, o "Sô Doutor" médico de família num "vá lá à Champalimaud inspeccionar os pulmões", e mais a vasculha da próstata e de restantes vísceras, o já entrever ao longe, desbotado o olho de águia (salvo seja...) que sempre foi o meu e, talvez mais do que tudo, o omnipresente "já não vale a pena"..., seja lá diante do que for.
 
Hoje percebi o quanto estava errado. Desperto estava, e bem, a ver um jogo do Sporting, deslocado à sempre Cidade-Berço, reduto dos vimaranenses. Saiu na rifa um penalti fajuto contra "nós", apesar de toda a parafernália videográfica... Passei logo ao Aston Villa-Arsenal, num "que se lixe tudo isto". O Villa veio a ganhar, para meu gáudio, (quase)sempre a defender o "abaixo de cão". Depois jantei com amigos uns bons bifes à moda açoriana, feitos por quem sabe. Bebeu-se um belo tinto "Grous". Entretanto o telefone disse-me que o Sporting perdeu, coitados. Os velhos que se preocupem com isso.
 
Pois nós, os novos, somos audiência de espectáculos a sério.

Lição de futebolês (para que saibam)

Pedro Correia, 23.11.23

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É um quatro-dois-três-um mas muitas vezes é mais um quatro-cinco-um de uma equipa que não se desorganiza nem se desposiciona muito e que sai bem na transição sobretudo nas bolas a passar em momentos de definição dessa transição ofensiva com alguma criatividade e alguma atenção à bola parada e ao jogo aéreo muito forte com os laterais a centrar nessa circunstância pois quando pressionada em bloco meio alto a equipa vai jogar tendencialmente em bloco baixo sobretudo quando os alas não são jogadores de largura e têm dificuldade nas acções de construção e a contratransição é vital porque quando se perde a bola em zona ofensiva se o pressing foi imediato pode ser recuperada instantaneamente e a contratransição numa equipa que a faça bem e que tenha qualidade de finalização muitas vezes é fatal e este é um jogo em que interessa revelar capacidade de pressionar alto e de recuperar alto e de meter grandes intensidades sobretudo na primeira parte sem deixar o adversário trocar a bola naqueles dois metros de construção da zona defensiva nem jogar no risco pois quando se recupera mais atrás eles encontram-se lá todos.

 

Fui suficientemente claro ou preferem que faça um desenho?

Taremi e a sonolência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social

jpt, 22.09.23

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O iraniano Taremi, avançado do Futebol Clube do Porto, é um bom avançado. E é manhoso, perito naquela consagrada tarefa de "cavar penalties" - e os mais-velhos lembrar-se-ão do sempre entusiástico Paulo Futre, então ainda jogador, a declarar qualquer coisa como "fui para a área para cavar o penalti". Nisto das grandes penalidades a nossa percepção, opinião, convicção, muito depende das marés que os trazem. Nos finais de 1983 o grande Chalana mergulhou para a grande área do (literalmente seu) estádio da Luz, o herói Rui Manuel Trindade Jordão converteu o justíssimo penalti, a malvada União Soviética foi assim arrasada, perestroikada / glasnostada avant la lettre, e a Pátria seguiu à bela campanha do Euro-84, 18 anos após a primeira (e então única) qualificação para um torneio de selecções. Já em 2000 um falsário árbitro inventou um penalti aos 119 minutos da meia-final do campeonato da Europa, afirmando ser mão a óbvia coxa de Abel Xavier e assim possibilitando que as potências do pérfido Eixo discutissem o triunfo final.

São apenas exemplos maiores do que acontece todos os fins-de-semana - aliás, todos os dias, nesta era digital, em que é preciso encher de bola os milhares de canais televisivos globalizados. E todos os adeptos, sem excepção, tendem a "puxar a brasa à sua equipa". Uns mais descaradamente, outros menos. Mas, repito, todos... Ainda assim nas últimas décadas algo vem mudando: primeiro com mudanças nos regulamentos disciplinares, com punições aos saltimbancos menos talentosos. E depois através da disseminação das ajudas tecnológicas às arbitragens, associada à tal globalização da televisão digitalizada, o que tornou as escandaleiras muito mais... escandalosas. Ou seja, a aldrabice dentro de campo passou a ser mais punida, menos produtiva e - exactamente por estas razões - menos respeitada.

Neste âmbito e nesta época Taremi será um dos "últimos moicanos", até um item de património cultural intangível, pois um lídimo representante de eras passadas. Pois atira-se para o chão sem rebuço e colhe lucros com a risonha desfaçatez com o que o faz. O que lhe será facilitado pelo seu enquadramento laboral, protegido que está pelo truculento e histriónico falso azedume regionalista do seu patrão e das massas a este congregadas.

É óbvio que os adeptos do seu clube sobre ele pensam, sentem e opinam de modo diferente - por questões da mera bola mas também "animados" pela propalada "alma" regional, essa que nos campos de futebol se imagina gritando até à exaustão "São Jorge!" contra os "mouros" ditatoriais, totalitários, cleptocratas, os centralistas que colonizam e esmagam o sacro Portucale. Por isso as quedas de Taremi são-lhes sempre naturais, legitimamente causas de castigos à Besta Alheia, pois efeitos de intencionais acções dos demónios coloniais, essas energias eólicas, hídricas, fósseis, animais, mesmo metafísicas. E, por  vezes, até humanas.

Mas, de facto, o homem vem exagerando nas suas coreografias. Como aqui narrei há algumas semanas, fartei-me de rir ao vê-lo num Porto-Arouca, jogo que ficou celebrizado pelos 20 e tal minutos de descontos dados, a ver se o Porto não perderia o jogo, tamanha a desfaçatez com que ia fingindo ser alvo de incorrecções alheias. Seria até ridículo se os árbitros, sempre temendo as influências portistas e o crivo crítico do batalhão portista de comentadores radiotelevisivos e da imprensa escrita, não tendessem a aceitar as evidentes pantominas. Assim, pura e simplesmente, falsificando... as apostas desportivas, acção que julgo punível por lei extra-futebolística.

Leio agora que Carlos Xavier - antigo excelente jogador do Sporting e agora comentador do canal televisivo desse clube - "passou-se" com as constantes trapaças taremianas. E disse na televisão o que os adeptos dizem quando entre amigos. Qualquer coisa como o sacaninha deste estrangeiro veio para cá e agora é um fartar vilanagem.... Mas em vez de estrangeiro chamou-lhe "muçulmano", no que foi um verdadeiro autogolo. Cai o Carmo e a Trindade, hoje em dia entidades ecuménicas... E logo se conhecem invectivas de instituições consagradas na abjecta ditadura iraniana, que apresentam queixas de "racismo". Os mariolas regionalistas (de retórica secessionista) do FC Porto associam-se a esta inadmissível intervenção. Em vez de matizarem, como seria curial, a situação, para melhor entendimento estrangeiro do mero "fait-divers"...

Entretanto o agora comentador Carlos Xavier retractou-se (e não "retratou-se", como escrevem os patetas do AO 90, pois isso trata-se de outra coisa completamente diferente). Ainda assim a Federação Portuguesa de Futebol - essa instituição tutelada pelo Estado e que deste vem recebendo inúmeros apoios, o que não a impede de tentar descaradamente tornear o regime fiscal quando contrata trabalhadores - tem o atrevimento, decerto que inconstitucional, de instaurar um processo contra o canal televisivo do Sporting por causa do que um comentador disse. Estamos em 2023, nas vésperas do 50º aniversário do 25 de Abril. E a FPF instaura um processo destes. E o Dr. Fernando Gomes, seu presidente, não só não é rispidamente chamado à atenção por parte dos eleitos para os órgãos de soberania máximos da República, como decerto é e continuará a ser anfitrião e visita, muito cumprimentável, do PR, do PM, do PAR, de ministros, deputados, juízes, procuradores e etc. Se assim é para quê comemorar os 50 anos do regime? Para que irão gastar bons dinheiros em exposições, livros, conferências dos professores Fernando Rosas, José Pacheco Pereira e outros, sobre censura, e etc.

E entretanto uma tal de Entidade Reguladora para a Comunicação Social - sobre a qual apenas sei o que era a Alta Autoridade para a Comunicação Social, coisas risonhamente contadas pelo meu grande amigo Aventino Teixeira, que a essa pertenceu durante anos - tem também o desplante de anunciar que está "a analisar" as declarações de Carlos Xavier. Sobre o clima de guerra no comentariado futebolístico que grassa há tantos anos, e sua influência nas mundivisões mas também nas acções violentas do público dos espectáculos desportivos, nada diz a tal de ERC. Sobre o aldrabismo militante do jornalismo futebolístico, tantas vezes obviamente encomendado pelos agentes económicos envolvidos, nada diz a tal de ERC. Sobre o ataque à liberdade de imprensa efectivado pelo inaceitável processo instaurado pela FPF - como se esta fosse um Estado (ditatorial, censório) dentro do nosso Estado - nada diz a ERC. Está sim a analisar uma "gaffe" deselegante, inapropriada, excitada, do bom e íntegro Carlos Xavier.

Isto não é uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social filiada ao actual "wokismo". É apenas a sua sonolência. A sonolência dos pequenos mandarins avençados, ali instalados pelos poderes...

Deixemo-nos de coisas. Taremi é um sacaninha, um jogador estrangeiro que no nosso país constantemente aldraba o jogo - mas em outros não o faria, pois seria constantemente castigado se fizesse coisas destas. Quer ele continuar assim, quer o seu patrão que continue assim? Ok, então faça-se isso sem queixumes, invectivas ao "racismo" e "xenofobia" alheia... Façam-no com elegância, até humor... Há trinta anos o grande avançado Jurgen Klinsmann tinha a fama (e o proveito) de se atirar para o chão nas grande-áreas adversárias, de "mergulhar". Foi contratado pelo Tottenham para a então ainda inicial, mas já milionária, Premier League. Logo se estreou a marcar. E introduziu este "mergulho" comemorativo - esse que ainda tanto se vê, mundo afora... Nessa festiva ironia mostrando que em nada se restringia à mera aldrabice, abjecta.

Nem à tal sonolência bem-remunerada dos pequenos mandarins.

(Jurgen Klinsmann's first Tottenham goal)

Taremi e o Resto

jpt, 04.09.23

Ele é o meu mais antigo amigo em exercício. Pois nos conhecemos na primária no Valsassina. E, depois, sendo vizinhos olivalenses, assim fomos continuando, até agora, ambos nas vésperas da era sexagenária. Apesar das andanças austrais, mais prolongadas as minhas do que as dele... Entretanto o pós-Covid foi-nos fixando fora de Lisboa, e vão escasseando os encontros - ainda que ele seja dos que vão aparecendo em nenhures quando sobe até ao Tejo.
 
E ontem aportou ele, vindo dos Algarves, onde vai maturando com a sua Senhora. Fui à gaveta buscar um velho cachecol, apanhei o metro, uma dupla via, calcorrei do Santo António até casa dele. Recebeu-me ele vestido com uma também velha camisola do clube. Dedicámo-nos, com reciprocidade simétrica, umas violentas imprecações - que há coisas que nunca podem mudar. Depois falou-se um bocado da vida que vai sendo. E, até, um pouco daquela que esperamos ainda vir a ser, que a expectativa é a última a morrer (e não a esperança, como dizem os tolos). Comemos um pacote de batatas fritas, a acompanhar uma boa garrafa de vinho tinto, isto tudo à varanda para que fosse eu fumando. Entretanto na sala a televisão mostrava o Long Goodbye do Porto-Arouca. Levantámo-nos para ir ver um penalti às duas horas de jogo, ou coisa parecida. Rimo-nos, eu disse umas valentes bojardas (sou mais loquaz do que ele), rejuvenescidos - pois regressados à era dos Adrianos Pintos, Lourenços Pintos e outros Pintos, na qual éramos bem mais vivazes do que neste tempo de Rui Moreiras e quejandos. Depois ele abriu outra garrafa de vinho, viu-se o Braga-Sporting, ao intervalo partilhámos uma pizza. Recebi um querido e bem-humorado telefonema do Minho. Aventámos que esta semana próxima, na qual por cá estaremos, ainda nos reveremos para um jantar, talvez com amizades comuns, talvez não... Um brasileiro na UBER trouxe-me tranquilamente a casa.
 
O futebol é uma coisa porreira. Pois só isto conta.
 
(E as boas jogadas do Taremi...).

Salif Keita

jpt, 03.09.23

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Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época - e hoje seria uma macro-estrela global... - que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se - pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) - para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de "tridente" (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso "Manel" (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão - o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha - tal como Jordão - por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas - ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à "posse de bola" e às "coberturas"?... Era o Maior!

(N)o estrangeiro é que é bom

jpt, 01.09.23

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Nestas ambivalências correntes uma das mais estuporadas é mesmo a confluência entre a resmunguice xenófoba (avessa a "estes gajos" que cá chegam) e a desvairada autocrítica ("isto lá fora nunca acontece"). E nisso vai vingando a pateta ideia de que "no estrangeiro é que é bom", outros comportamentos, outras éticas, outra racionalidade. Vem-me isto a propósito da convocatária para os jogos da selecção nacional de futebol, inseridos no apuramento para a fase final do Campeonato Europeu. Não serão jogos particularmente difíceis (sim, eu sei, há décadas que os comentadores dizem, como se fosse novidade, "já não há jogos fáceis"), diante da Eslováquia e do Luxemburgo. Mas é a selecção nacional, a trabalhar para se apurar e (sempre) a preparar-se para o futuro. E para o presente.

Acontece que o novo seleccionador nacional - o espanhol Martinez, solução até excêntrica numa era em que os treinadores portugueses são um "must" mundo afora (veja-se o Brasil, a milionária Arábia Saudita, a própria Inglaterra, para além de tantos outros compeonatos), uma "escola" privilegiada mas preterida pela tão abonada Federação Portuguesa de Futebol - acaba de anunciar os seleccionados para os dois embates. E se seria normal que colhesse o apreço ou a desconfiança oriunda do "no estrangeiro isto não acontece", o que se vê é que Martinez é o perfeito avatar do conservadorismo mesclado de servilismo clubístico do anterior seleccionador Santos. Pois para dois jogos relativamente fáceis - e com o apuramento muito bem encaminhado - Martinez não abre o jogo, não avança com jovens ou com consagrados de segunda linha. Chama, como Santos sempre fez, os oriundos do Benfica, independentemente do estado deles. Cancelo é um excepcional lateral. João Félix é um belíssimo jogador - é o João Vieira Pinto desta geração, insuficiente para um "grande" europeu mas precioso para o futebol português. Mas neste momento estão no limbo de não terem clube, decerto que treinando menos e nunca jogando. São assim chamados por "estatuto" e não por mérito actual. Martinez, o estrangeiro cooptado, mostra-se assim um homem do Antigo Regime, um homem da sociedade das ordens... Os "nobres" tem lugar cativo (porventura até "direito de pernada"). Os outros que se aguentem. Alternativas? Não é comigo, não sou profissional da poda. E não estou aqui a "puxar a brasa à minha sardinha" sportinguista. Apenas noto uma coisa: ao chamar gente que não está a jogar (que nem sequer tem clube) Martinez mostra que é um erro "de casting", como se diz. Infelizmente, só no final do mais do que provável medíocre futuro campeonato isso será institucionalmente reconhecido. É apenas mais uma etapa de uma velha história, no futebol e não só. Isto do clientelismo, amiguismo, "clubismo" neste caso. Ou mesmo "agentismo". 

Enfim, ganhar-se-ão, por mais ou menos, estes jogos fáceis. Pois há muitos bons jogadores em Portugal. Só falta mesmo... bom seleccionador. 

A ponta do iceberg

Cristina Torrão, 31.08.23

O Beijo Espanhol (2)

jpt, 29.08.23

Mais um capítulo na polémica! Vídeo mostra Jenni Hermoso a rir-se do beijo de Rubiales

A plataforma SAPO publica um curto vídeo (que não é integrável em blog - e não compreendo como uma plataforma que acolhe blogs não inclui uma opção "incorporar" nos vídeos noticiosos que publica, como fazem várias outras plataformas) em que se vê a futebolista Jenni Hermoso e as suas colegas, recém-campeãs, a rirem-se, com humor e sem preocupações ou mágoas, da beijoca entre o presidente da Federação de Futebol e essa futebolista durante a cerimónia final do Campeonato de Mundo de futebol. É evidente o júbilo, brotado da vitória história, mas ressaltado para as brincadeiras entre várias jogadoras que, em coro, referem o brevíssimo episódio. O filme, que decerto muito em breve estará em plataformas que permitem a sua captação para blogs, está aqui.

Como é sabido, passados dias, após a estratégica intervenção de ministras socialistas espanholas - decerto que influenciadas pelo confronto com os peculiares discursos sobre este tipo de temáticas emanados do partido rival VOX, e isto sublinhado por se estar em pleno processo de formação de governo coligado no país - a jogadora apareceu a lamentar-se do caso, depois secundada pelas colegas. E por todo o lado - desde a patética intervenção do porta-voz da ONU até ao próprio Delito de Opinião, passando pelo primeiro-ministro espanhol até aos patetas televisivos nacionais do costume - cai o "Carmo e a Trindade", denunciando o caso de "assalto", "assédio sexual", de machismo empedernido que teria conduzido a tamanha violência. A própria SAPO destaca hoje um postal lacrimejante sobre o assunto, que remete - dando-lhe estatuto de prova - para um texto de jornalista espanhola que afirma haver machismo e falta de educação entre os membros da federação espanhola de futebol. Nem duvido que haja, mas a questão é outra: o que aconteceu ali, durante a cerimónia?

aqui botei sobre o assunto: o que o homem fez - ainda por cima sendo ele não um "doutor" tutelando a bola nacional, mas um antigo jogador -, é mesmo o inverso, tratou a jogadora "como um homem", replicando um gesto tantas vezes feito pelos praticantes quando em júbilo. Para não me repetir sumarizo: é um gesto assexuado (no sentido de desprovido de erotismo). Basta ver. Voltei ao assunto aqui, diante da histriónica incapacidade analítica de propalados intelectuais. Esse tipo de gente para quem é porreiro surfar as vagas em voga, e botar umas coisas na imprensa...

O assédio sexual (laboral e não só), a violência sexual, o mais abrangente machismo, são temas fundamentais. A combater, pela lei, pelas instituições, pela opinião pública, pela sensibilização. Profissionalmente cruzei casos tétricos disto. Até incríveis, de inacreditáveis, passe a aparente redundância. Mas quando uma mulher feita e realizada, trintona bem sucedida, campeã mundial, se ri a bandeiras despregadas, quando um conjunto de mulheres feitas e realizadas, profissionais campeãs mundiais, se riem a bandeiras despregadas, isso a propósito de um gesto que bem entendem desprovido de qualquer violência ou ameaça, não  podem depois invocar terem estado sob "assalto", "assédio", "violência". Nem há argumentos convocando contextos "infalsificáveis" (a la Popper) que justifiquem estas inflexões interpretativas. Ou seja, entenda-se, como prevalece um machismo violento e desrespeitador aquele gesto é violento e desrespeitador. Isso é um acto falsário, um silogismo aldrabão. E contestar essa evidência, em nome de uma qualquer "boa causa", é apenas desvalorizar, apagar, superficializar, as abissais realidades do "assédio", da "violência sexual", do "machismo", mundo afora. É uma pantomina abjecta. Matéria-prima por excelência para políticos demagogos e para os "activistas" de agora. Mas uma vergonha para quem se veste (ou traveste, melhor dizendo) de intelectual, de militante. Ou, pior do que tudo, de professor. Uma vergonha intelectual. E uma vergonha moral.

E isto tudo independe de Rubiales.

Pornográfico

Pedro Correia, 29.08.23

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Neymar à chegada a Riade, após um voo de seis horas em que foi passageiro único

 

Neymar, contratado por 98 milhões de dólares pelo Al-Hilal, número inédito na Liga da Arábia Saudita, viajou como único passageiro para este reino árabe num luxuoso Boeing 747-400 de 344 lugares que num só voo contamina 32 vezes mais a atmosfera do que uma pessoa comum num ano inteiro.

Nesta rota de seis horas entre Paris e Riade, o aparelho custa ao meio ambiente 230.000 kg de emissões de CO2, enquanto um cidadão comum, em 365 dias, é responsável por 7.000 kg. Cada hora de voo deste avião custa 23 mil euros, além dos danos ambientais causados.

A ler

Cristina Torrão, 27.08.23

O Bejio Espanhol

jpt, 23.08.23

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Espanha é campeã do mundo de futebol feminino. Na cerimónia no estádio o presidente da Federação exulta e beija uma jogadora. Logo ministras saem à liça dizendo que se trata de um assalto, os defensores das boas causas manifestam-se irados, a internet está cheia de acusações de "assédio" (assim mesmo). E pululam imagens - nem são fotografias, são fotogramas, que dão a impressão de um beijo sensual, o velho "french  kiss", esse nosso linguado. O homem vê-se obrigado a desculpar-se, sinal dos tempos, mas não chega! Pois agora é o próprio primeiro-ministro Sanchez que vem considerar "inaceitável" o gesto e exigir mais do que desculpas - decerto que a demissão do presidente da federação.

É impossível não reduzir tudo isto a uma patética hipérbole discursiva, colonizadora e deturpadora de problemas sociais efectivos - o tal "assédio sexual", a violência masculina, a violência doméstica. E mais ainda, torna-se óbvio que Sanchez vampiriza o facto para uma posição política, sendo sabido que na campanha para as recentes eleições o partido de extrema-direita Vox assumiu uma excêntrica linha discursiva, avessa às questões da luta contra os efeitos perversos do machismo e da violência doméstica. O mundo, a Europa, a própria Espanha seguem como seguem e aquela gente enrodilha-se nestas questões, e vistas deste paupérrimo e histriónico modo. Se a maluquice grassa nas redes sociais e a demagogia acampa nas tais ministras, esta intromissão de Sanchez é mesmo sinal do traste político que o homem é. 

É que nem se justifica argumentar, basta ver o filme - e não ficar agarrado ao fotograma. Trata-se de um efusivo beijo nos lábios, num ápice, seguido de duas vigorosas pancadas nas costas. É um gesto de celebração que os homens hetereossexuais também fazem entre si - e bem me lembro de que quando o lateral-direito Miguel Garcia aos 119 minutos, na sequência de um canto, marcou o golo que apurou o Sporting para a final da então Taça UEFA, saltei da mesa do "Eagles" em Maputo para o colo do amigo Rui B. e trocámos vários beijos destes, tamanha era a nossa felicidade. E inúmeras pancadas nas costas... Há meses, num almoço de amigos ali perto do rio Sousa, bem nos rimos com esta memória.

Andam os espanhóis, por enquanto entregues a este Sanchez bem mariola, e tantos outros a discutir o sexo dos anjos. E o "beijo espanhol". Algo está podre no reino da... Europa. Daí o mau hálito que grassa...

Negócios pagos com sangue

Pedro Correia, 16.08.23

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Os profissionais do futebol são também cidadãos. Muitos deles, com experiência de trabalho em vários países, são autênticos cidadãos do mundo. Incluo neste lote o treinador Paulo Fonseca, que sempre mereceu a minha simpatia pela competência e pela atitude cordata, dentro e fora de campo.

Este ex-técnico do clube ucraniano Shakhtar Donetsk e agora ao serviço do Lille, em França, acaba de lançar um apelo firme aos dirigentes do Sport Lisboa e Benfica e do Sporting Clube de Braga, pedindo-lhes para não fazerem negócios com emblemas russos visando transferir para o país de Putin os jogadores Chiquinho e Tormena.

Diz Paulo Fonseca - e é difícil não lhe dar razão - que tais negócios, a concretizar-se, serão pagos com preço de sangue.

«Uma coisa eu sei: se o Benfica e o meu Braga fecharem negócio com os clubes russos, esse dinheiro virá a pingar com o sangue das crianças que morrem todos os dias na Ucrânia. E muitas dessas crianças amavam o futebol.» Palavras do antigo técnico do FC Porto e Braga, casado com uma ucraniana.

Tem toda a razão, o treinador do Lille. Basta reparar nas notícias mais recentes da criminosa invasão russa da Ucrânia: sete pessoas, incluindo um bebé com apenas 25 dias de vida, foram mortas no domingo por mísseis de Moscovo na região de Quérson: uma família inteira ficou desfeita.

Dois dias antes, mísseis hipersónicos russos tinham assassinado um menino de oito anos na região de Ivano-Frankivsk. 

Civis indefesos perante o mal absoluto que vem do Kremlin, traiçoeiro e homicida. O meu aplauso solidário ao Paulo Fonseca pelas palavras sentidas e desassombradas que escreveu.

Navegadoras?

jpt, 02.08.23

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Uma das más cenas actuais é este ambiente em que convém "ter cuidado com o que se diz", não vá "parecer mal" ou "ofender" susceptibilidades... Não há paciência.
 
Enfim, a imprensa (e a FPF) lá tentou induzir um "sobressalto patriótico" com o Mundial de futebol, os governantes lá viajaram aos antípodas para ver as mulheres em acção, e até deu para nisso enfrentarem o Presidente (ele próprio comentador futebolístico). Nisso o comum do mortal murmurou um "grande interesse"...
 
Nunca consegui ver um jogo de futebol feminino, sempre me canso e abandono. É uma questão de comparação com o que conheço do jogo - e assim estes surgem lentos, falhos, até sem arte. Como espectáculo - que não como prática desportiva, que isso é outra coisa - são desinteressantes, uma chatice. Alguns patetas dirão que isto é machismo e eu responderei isso mesmo, que são patetas.
 
Mas a nossa selecção lá foi. A copiar o pior do futebol masculino. Tanto que até se fizeram chamar "Navegadoras". As próximas serão as "Viriatas", as "Conquistadoras" ou outra deambulação histórica pelo patrioteirismo. Espero que os do marketing federativo, sempre atreitos aos cognomes bélicos imperiais, na sua pobre visão da história não venham a chamar "Vivandeiras" a uma das próximas selecções. É que se não se sai daquele tempo...