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Futebol ou Saúde? Saúde!

por João André, em 30.06.20

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Quando se começou a história do "desconfinamento", vieram logo os clubes perguntar se poderiam jogar. Questões de dinheiro, está claro, especialmente para os maiores. Muita discussão houve sobre os jogos à porta fechada, se fariam ou não sentido. Aquilo que para mim não fez sentido foi recomeçar de todo os jogos. Não porque "futebol sem espectadores não é futebol", como dizem muitos do redondo das suas barriguinhas que devem ter dados os últimos toques na bola ao mesmo tempo que Maradona atava ingleses. Tão só porque o futebol, mesmo sem espectadores no estádio, não deixa de ter espectadores fora dele, espectadores que se juntam para ver jogos e, em certas alturas, para festejar desfechos.

As imagens acima demonstram o que se passou em Nápoles, cidade há muito privada de alegrias desportivas e também a sofrer das medidas italianas, e em Liverpool, onde o principal clube local (e possivelmente nacional) não vencia o campeonato há 30 anos, numa altura em que a competição ainda nem existia na forma actual. Os adeptos vieram à rua festejar e o distanciamento social resumiu-se a não conviverem com adeptos de outros clubes.

A Liga Belga decidiu cancelar o resto da época e atribuir o título ao clube que estava em primeiro lugar quando a interromperam. A Liga Holandesa abandonou a época, cancelou subidas e descidas de divisão e não atribuiu o título, apenas atribuindo as qualificações para competições europeias com base na classificação no momento da interrupção. Fizeram isto seguindo as ordens do governo holandês de cancelar eventos públicos até 1 de Setembro. A Liga Francesa também cancelou o resto da época e as classificações ficaram as do momento da interrupção, dando também título.

Talvez haja países onde as condições permitam continuar as ligas sem grandes problemas, como foi o caso da Alemanha, que prosseguiu o campeonato e após o final não se viram grandes celebrações pela cidade de Munique. Nos restantes países, a melhor solução talvez fosse simplesmente não se jogar mais (e o mesmo é válido para as competições europeias). No caso português, isso poderia passar por anular a competição como na Holanda ou cancelar o restante como na Bélgica e França. Eu teria preferido esta segunda opção, dando o título ao FC Porto (que liderava na altura da interrupção) e restantes lugares de acordo com as suas posições.

Não haveria soluções ideais, mas parece hoje claro que o COVID-19 está a regressar e a ganhar força. Ir pela solução que privilegiasse a saúde seria talvez a opção menos má.

 

PS - como benfiquista, tal escolha ter-me-ia poupado às tristes figuras do meu clube. Está claro que o Benfica não soube gerir a interrupção. Já o Sporting de vários dos meus colegas de blogue parece tê-lo feito bem.

O caluniador

por Pedro Correia, em 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

Pinto da costa e o seu ungido

por Pedro Correia, em 08.06.20

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Já houve vários presidentes da Câmara de Lisboa sócios do Sporting. Nas últimas três décadas, lembro-me de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues.

Imaginem a gritaria que não haveria, lá mais para Norte, se o presidente da Câmara de Lisboa, estando no exercício destas funções, aceitasse encabeçar uma lista concorrente a um órgão social do FC Porto. Não faltaria gente a rasgar as vestes, urrando contra a «promiscuidade entre a política e o futebol», exigindo imediata separação de águas.

Pois isso mesmo acaba de acontecer no FC Porto, com o actual alcaide da Invicta a encabeçar a lista para o Conselho Superior da agremiação azul e branca, sem que isso pareça perturbar as boas almas que reclamam linhas divisórias entre bola e política.

Rui Moreira aceitou o encargo, consciente de que isso o coloca na primeira linha dos ungidos, como presumível sucessor de Pinto da Costa, agora reeleito para o 15.º mandato à frente do clube, onde já leva 38 anos como dirigente máximo. Um mandato que, por vontade própria, poderá não levar até ao fim.

O astuto PdC, que nunca dá ponto sem nó, não apenas vence de forma categórica (com mais de dois terços dos votos expressos, 68,7%) a eleição para presidente da Direcção como suplanta a percentagem alcançada por Moreira (65%) na votação para o Conselho Superior. Numa espécie de aviso à navegação interna que evoca os dramas de Shakespeare: convém que o protegido nunca seja mais popular do que o seu mentor.

Não há bem que sempre dure

por João Sousa, em 04.06.20

Algo destes primeiros meses de Covid que me vai deixar saudades: não houve futebol.

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É preciso é que a bola role

por Pedro Correia, em 03.06.20

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Recomeça hoje o mais estranho campeonato nacional de futebol das nossas vidas. À porta fechada, como se as bancadas dos recintos desportivos, ao ar livre, fossem perigosíssimos focos de contágio. Isto quando o Governo já autorizou a reabertura de centros comerciais.

Um campeonato que esteve parado quase três meses, que tenta mudar as regras da competição a meio como se isso não atentasse contra a elementar ética desportiva. Com uma equipa açoriana a jogar voluntariamente muito longe de casa, transformando numa farsa o discurso contra a macrocefalia lisboeta. Com a perspectiva inicial de se disputar "no menor número possível de estádios", que começaram por ser apenas nove mas que afinal serão dezassete. Tudo e o seu contrário sempre a pretexto do novo coronavírus.

 

Um futebol que assume o divórcio compulsivo entre jogadores e público, embora ainda lhe chamem espectáculo, apesar de proibirem sócios e adeptos de frequentar as bancadas dos seus estádios, enquanto se permite que a malta acorra ao Campo Pequeno para aplaudir o humorista Bruno Nogueira, com a complacente presença do primeiro-ministro. 

E a gente, do lado de fora, aplaude também. Cada vez menos cidadãos, cada vez mais súbditos deste Estado em incessante produção de decretos e portarias desdizendo numa semana o que dissera na semana anterior e vai tolerando chocantes excepções, até ao alegado "estado de emergência", enquanto proclama o primado da igualdade perante a lei.

 

É preciso é que a bola role sobre a relva e que a gente se entretenha de olhos fixos na pantalha. Todos embalados na cantilena do "novo normal" com o estribilho "vai ficar tudo bem" a servir de placebo enquanto nos dias pares se grita às pessoas para recolherem a casa (e se for preciso encerram-se em "cerca sanitária") e nos dias ímpares se estimula as pessoas a saírem de casa e "consumirem" seja o que for com o dinheiro que deixaram de ter.

Que soe o apito inicial. Quero lá saber do "desconfinamento", estou-me nas tintas para a "curva exponencial", tenho raiva a quem sabe o que é uma zaragatoa: quero é bola. Eis-me pronto a trocar o estádio pelo sofá, em festiva celebração do "distanciamento social" - expressão que todos usam sem fazerem a menor ideia do que significa.

Até já estou de cachecol, apesar do calor. E se a Senhora Directora-Geral da Saúde mandar, assisto obedientemente aos jogos em casa de máscara e luvas, como faz agora o Senhor Presidente quando frequenta um restaurante para mostrar aos portugueses como este doce país se tornou muito mais seguro com ele ao leme.

Uma aritmética muito peculiar

por Pedro Correia, em 31.05.20

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Informa-me o Primeiro Jornal da SIC que a Direcção-Geral de Saúde «aprovou 17 estádios» para o recomeço (ou "novo começo", sejamos rigorosos) do campeonato nacional de futebol. Ora havendo 18 equipas neste campeonato e duas deles «não jogarem em casa», como revela o mesmo telediário à mesmíssima hora (13.54 de hoje), causa-me alguma perplexidade esta aritmética tão peculiar.

 

Assim intrigado, deixo algumas questões:

- Qual terá sido o único estádio, em 18 possíveis, que não mereceu o visto prévio da DGS?

- Se 17 em 18 obtiveram luz verde, qual foi o clube que, vendo o seu estádio apto para a competição, recusou usá-lo?

- Como reagirão os adeptos a tal opção, que desconsidera as instalações do próprio clube?

- Dezoito menos dois ainda serão dezasseis ou poderão tornar-se dezassete na aritmética "pós-moderna"?

- Será falha de memória minha ou o "código de conduta" elaborado pela DGS e tornado público a 19 de Maio (apenas há 12 dias) estipulava, em termos categóricos, que «deve ser utilizado o menor número possível de estádios» neste regresso às competições desportivas?

- Dezassete em dezoito será mesmo «o menor número possível»?

 

Responda quem souber. O meu ábaco não dá para mais.

Estádios, aviões e televisão

por Pedro Correia, em 28.05.20

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2 de Maio:
O transporte aéreo de passageiros vai ser limitado a dois terços da lotação normalmente prevista para cada aeronave, definiu o Governo, em portaria no Diário da República.

21 de Maio:
A partir de 1 de Junho, o transporte aéreo vai deixar de ter um limite máximo de lotação, anunciou o Ministério das Infraestruturas.

 

Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.

Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.

Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.

 

Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.

Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas - em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas - sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?

Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional. 

É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos - nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época - seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo - contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto - acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.

 

Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.

E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.

Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.

 

Leitura complementar:

DGS queria "o menor número possível de estádios" e entretanto foram aprovados 14. O que aconteceu? Nada, era "apenas uma indicação".

Irão jogar de máscara?

por Pedro Correia, em 06.05.20

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Há coisas que custam a entender. Uma delas foi o anúncio, feito há dias pelo Governo, do regresso (sem espectadores) das competições referentes à primeira liga a partir do último fim de semana deste mês. É uma excepção dentro da excepção, pois os campeonatos das restantes modalidades colectivas (andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol) já tinham sido declarados concluídos por via administrativa, sem haver campeão designado. Se esta disparidade já era digna de suscitar críticas, maior contestação deve merecer o duplo critério reservado ao futebol profissional: as regras agora anunciadas aplicam-se apenas ao primeiro escalão e não ao segundo.

Em nome de que equidade desportiva?

 

O mais incompreensível, para mim, é que este anúncio seja divulgado no mesmo pacote de medidas destinadas a reforçar as acções profilácticas no combate ao coronavírus.

Faz algum sentido decretar-se o uso obrigatório de máscaras no comércio, nos transportes públicos, nos estabelecimentos escolares e em muitos locais de trabalho para prevenir a expansão da pandemia e autorizar-se em simultâneo o regresso da principal competição de futebol, desporto de permanente contacto físico e sem possibilidade de imposição de regras de "distanciamento social", desde logo nos balneários?

Antecipo a resposta: não, não faz.

Que exemplo dá o futebol à sociedade, com o beneplácito do Governo? Antecipo também a resposta: um péssimo exemplo. A menos, claro, que os futebolistas passem a jogar de máscara. E paguem coima por cada cuspidela.

 

ADENDA - Em França, na Holanda e na Bélgica o futebol profissional terminou antes de concluído o calendário inicial previsto para as competições. E a Itália poderá seguir o mesmo rumo. Enquanto na Alemanha surgiram agora dez jogadores infectados com o coronavírus. O que vai suceder se o mesmo acontecer cá?

Da glória à tragédia no espaço de dias

por João Pedro Pimenta, em 10.04.20

 

Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

Atalanta, boom di abbonamenti Oltre 5mila in soli tre giorni in ...

 

É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem se lembrasse de lhe dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

 

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...

Criminosos

por Pedro Correia, em 06.04.20

O coronavírus afecta já 200 países e territórios em todo o mundo. Não há praticamente uma parcela do planeta imune ao Covid-19.

A pandemia causa 2.700 mortes por dia nos cinco continentes - vitimando uma pessoa de dois em dois minutos. A cada dois segundos, regista-se um novo caso de infecção.

Apesar disto, três países persistem em manter os respectivos campeonatos de futebol: BielorrússiaBurundi e Nicarágua

Um procedimento criminoso, que devia encher de vergonha os dirigentes máximos destes países - respectivamente Aleksandr Lukashenko, Pierre Nkurunziza e Daniel Ortega.

Nenhum deles recomendável em matéria de respeito pelos direitos humanos. Não há coincidências.

 

Publicado originalmente (28/3) aqui

Insultar Marega vale 714 euros

por Pedro Correia, em 11.03.20

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Lembram-se da comoção nacional gerada pelo chamado caso Marega, quando este jogador do FC Porto, logo após ter marcado um golo ao Vitória de Guimarães, sua antiga equipa, abandonou o estádio D. Afonso Henriques em protesto contra insultos racistas que lhe dirigiram das bancadas? O país reagiu quase em uníssono: o Presidente da República apressou-se a mostrar indignação; o primeiro-ministro não quis ficar atrás; a coordenadora do Bloco de Esquerda proclamou-se «adepta  de Marega» mesmo sem ir em futebóis; o Observador noticiou o sucedido num título com 20 palavras, inovando na técnica jornalística.

Não faltou até quem bradasse «Somos todos Marega», com aquela habitual ponta de exagero que há cinco anos levou muitos a gritar «Somos todos Charlie» - incluindo aqueles que hoje se mostram prontos a aplaudir restrições ao direito à crítica e à liberdade de expressão, desde que ocorram num campo político ou ideológico adverso ao seu. E logo despontaram historiadores e sociólogos de pacotilha a sustentar que «somos um país de racistas».

 

Moussa Marega decidiu abandonar o campo a 16 de Fevereiro - faz hoje 24 dias. Como sucede nestes surtos de indignação, pontuados pelo frenesim das redes sociais, foi tudo muito intenso e ficou logo esquecido. Parece ter ocorrido há uma eternidade. 

Ninguém quis sequer saber como é que aquele coro de grunhidos racistas acabou punido pela chamada "justiça desportiva" deste doce país. Mas eu anotei: a Secção Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, numa deliberação de 3 de Março, decidiu multar o Vitória Sport Clube (de Guimarães) em 714 euros - repito,  por extenso: setecentos e catorze euros - pelo comportamento de parte dos seus adeptos naquele jogo, tendo até o cuidado de esclarecer que este irrisório montante em nenhum momento se relacionou com insultos racistas.

Siga para bingo. A indignação do momento agora é outra, seja qual for.

No fim da tabela

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.03.20

Durante horas e dias a fio, canais de rádio e de televisão e inúmeras páginas em jornais, revistas e blogues dissertaram sobre os insultos a Moussa Marega proferidos no jogo entre o Vitória de Guimarães e o Porto. A indignação foi real, pelo que li, vi e ouvi. Menos real é a conclusão do episódio.

Depois de tudo o que anteriormente aconteceu com muitos outros jogadores (Hulk, Semedo, Renato Sanches, Quaresma, por exemplo), e tendo em atenção o que se vai vendo lá por fora, cujo último exemplo chegou da Alemanha e do jogo entre o Hoffenheim e o Bayern de Munique, que levou a uma "greve" em campo dos jogadores das duas equipas antecipando o final do jogo, estava convencido de que em relação ao que se passou em Guimarães viria sanção pesada.

Pura ilusão.

De acordo com a notícia de A Bola, pelo que aconteceu, no total, os "vimaranenses foram multados no valor de €17,941", dizendo as multas respeito a "deflagramento de potes de fumo e flashlights (€4017)", "entrada de materiais pirotécnicos (€3392)", "arremesso de dois fachos (€2678)", "arremesso de cadeiras (€7140)", e "insultos a Marega (€714)".

Como se vê pela discriminação das parcelas, arremessar cadeiras ou atirar uns fachos para o relvado é mais grave do que proferir insultos racistas ou imitar os urros de símios dirigidos a um dos protagonistas do espectáculo.

Para os senhores do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, os insultos a Marega não valem um corno. O valor da multa é um estímulo a que os energúmenos das claques continuem a sua acção cívica. Meia dúzia de euros resolvem o problema.

Esquadra no fundo

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.20

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Os resultados das melhores equipas portuguesas de futebol nas competições europeias revelam bem o patamar a que o futebol interno chegou. Se para a Liga dos Campeões já se tinha visto que éramos pequeninos e poupadinhos quando se tratava de mostrar arte e garra; agora na Liga Europa tivemos a demonstração da nossa incapacidade e irrelevância. Até naquilo de que mais gostamos, e em que fomos campeões europeus jogando com uma Selecção Nacional de expatriados, somos incapazes de mostrar algum brio.

Ano após ano, perante equipas da segunda e terceira divisões do futebol europeu, que se o não fossem não estariam numa competição menor da Europa do futebol, somos incapazes de mostrar alguma coisa. Apresentar resultados. Sofrendo golos em catadupa, sendo indiferente estarem a jogar em casa ou fora, nem mesmo quando em vantagem as nossas equipas conseguem segurar os resultados que lhes garantiriam a passagem à fase seguinte.

Bem vistas as coisas, e para não destoar, o futebol que mostramos na Europa, e não falo dos talentos individuais, segue a bitola dos programas televisivos de discussão do "chuto na bola", das arbitragens, das conferências de imprensa dos treinadores, dos comentários dos dirigentes desportivos, do debate político, do funcionamento dos nossos partidos, da confiança no sistema judicial e na justiça que se vai fazendo, e por aí fora.

A má gestão, a falta de visão e de empenho e o desperdício continuam a ser tão intensos que se compreende perfeitamente o afundamento de toda a esquadra em 24 horas. E a razão para que tantos oficiais e marinheiros não se importem de ir servir para o primeiro porta-aviões, às vezes apenas um bote, inglês, espanhol, italiano, ou até francês, que lhes apareça com um colete de salvação.

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Agitação no pântano

por Pedro Correia, em 18.02.20

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Estádio Nacional, 18 de Maio de 1996

 

Moussa Marega, com um gesto veemente, fez agitar o pântano. Atingiu o limite da paciência, encheu o saco e disse "basta". As imagens que o mostram a abandonar o Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, estão a dar justamente a volta ao mundo. Num grito de revolta contra o racismo. E contra a violência no futebol, que começa por ser violência verbal antes de resvalar para a violência física.

Que sirva de exemplo para muitos outros - tenham a cor de pele que tiverem. Inclusive para aqueles que, em certos estádios e em certos pavilhões, imitam o som do very light que matou um adepto de futebol numa bancada do Estádio Nacional, com o filho menor - então com nove anos - a presenciar tão macabra cena, em plena final da Taça de Portugal.

Jamais esqueceremos a data: 18 de Maio de 1996. Chamava-se Rui Mendes, esse malogrado adepto de futebol. Que era também adepto do Sporting.

 

Vergonhosamente, a tal final continuou a disputar-se como se nada fosse, sem que o jogo fosse interrompido.

Vergonhosamente, o som desse very light continua a ser replicado por irmãos de emblema do assassino. O que é outra forma de continuar a matar Rui Mendes, quase um quarto de século depois.

Sem que ninguém rasgue as vestes. Sem que nenhuma alma sensível solte um brado de indignação.

 

Publicado também aqui.

Urro racista agora é «cântico»

por Pedro Correia, em 17.02.20

É sempre assim: alguém desprovido de neurónios escreve um vocábulo sem lhe conhecer o significado e logo vai tudo atrás, reproduzindo o dislate. Quando o erro se torna norma, imprime-se o erro.

Eis mais um exemplo: o substantivo masculino cântico significa «ode religiosa cantada nas igrejas» em honra e louvor de uma divindade ou - fora do original contexto bíblico«poema ou hino» entoado com o propósito de louvar, adorar, algo ou alguém. Qualque banal dicionário o confirma.

Mas os imbecis adoram exibir ignorância. Daí confundirem sem sobressaltos de consciência cântico com qualquer ruído grupal zurrado em estádios de futebol. Como ainda ontem ocorreu durante o jogo V. Guimarães-FC Porto: a imitação de sons de chimpanzé, em declarada provocação racista a um jogador da equipa visitante, não tardou a ser elevada à condição de «cântico» por vários escribas de turno.

Incapazes de dominar o suposto idioma materno. Incapazes, portanto, de perceber que ao equipararem aqueles urros a odes poéticas ou hinos religiosos estão afinal a branquear o racismo.

Haverá ainda alguém lá nas redacções onde juntam palavras capaz de lhes explicar isto?

 

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Alguns exemplos:

RTP: Marega abandona jogo após cânticos racistas em Guimarães

TSF: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Notícias ao Minuto: Marega abandona o relvado do Vitória SC por culpa de cânticos racistas

DN Madeira: Marega (ex-Marítimo) foi substituído por alegados cânticos racistas dos adeptos do Guimarães

Negócios: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Esquerda: Marega, jogador do Porto abandonou o campo por ser vítima de cânticos racistas 

O politicamente correcto

por jpt, em 02.02.20

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A aparente "esquerda" actual, o identitarismo escolar, vem convicta da sua superioridade moral. E quer ser pedagogicamente moralista. Isso crisp/ma-se no politicamente correcto. A correcção dos pequenos actos e, acima de tudo, do verbo é a garantia da justeza ideológica, da adesão às boas causas. Os exemplos são constantes, e fastidiosos. E alguns perniciosos. Mas é claro que este policiamento implica a sua negação. Para esses correctistas referir a existência de uma prática e de uma  mundivisão "politicamente correcta" é uma afirmação espúria, falsa. Coisa de "direita", ou seja, no linguajar de décadas, falar do "politicamente correcto" é coisa de "fascista". Para eles não há nada disso. E resmungam, até abespinhados, "o que é que não se pode dizer?".

O politicamente correcto não é apenas um policiamento verbal. É uma pantomina moralistóide, uma coerção sobre acções sociais, tantas delas desprovidas de efeitos prejudiciais ou de sentidos depreciativos. Apenas alheias ao rame-rame da agit-prop militante. O politicamente correcto é uma mundivisão, muito  new age, ainda que laica, na sua aparente placidez, irenismo. De facto, é uma "filosofia" (com aspas) totalitária, que tudo quer controlar.

O exemplo mais sonante dessa patética mundivisão aconteceu ontem, num campo de futebol: o futebolista Neymar fez uma estrondosa finta a um adversário. O árbitro acorreu e puniu-o com uma repreensão (cartão amarelo). Pois tamanho drible, tamanha demonstração de talento, lhe surge como uma humilhação do adversário.

É diante desta triste gente que estamos.

 

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 25.11.19

 

O castigo de Bernardo Silva e o triunfo dos puritanos (alguém se lembra do tempo em que fomos todos "Charlie"?). De Nuno Amado, na Tribuna Expresso.

 

Inqualificável

por Pedro Correia, em 22.11.19

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Bernardo Silva e Mendy, companheiros e amigos

 

O PS, indo a reboque do Bloco de Esquerda e da deputada do Livre, recusou exprimir solidariedade na Assembleia da República a um dos melhores jogadores portugueses da actualidade, titular absoluto da selecção nacional de futebol, alvo de uma infame acusação de racismo sem o menor fundamento.

Foi um acto de inqualificável cobardia política dos socialistas, talvez com receio de serem apontados a dedo pelos seus companheiros de estrada.

 

Como há dois meses assinalei aqui, Bernardo Silva - que alinha no Manchester City, acaba de ser eleito melhor médio ofensivo do mundo e tem lugar cativo no onze da equipa das quinas com presença garantida no Europeu de futebol - limitou-se a fazer uma piadola no Twitter com um colega de equipa, que é seu grande amigo. Acontece que este colega, o francês Mendy, tem um tom de pele mais escuro do que a do Bernardo: foi quanto bastou para se levantem clamores histéricos contra o internacional português, acusando-o de racismo.

Uma organização denominada Kick It Out apressou-se a exigir a adopção imediata de medidas punitivas contra o «comportamento ofensivo» do nosso compatriota, pressionando a Federação Inglesa de Futebol. E esta cedeu aos clamores da correcção política: Bernardo foi condenado a um jogo de suspensão, ao pagamento de uma multa de quase 60 mil euros e ao cumprimento de um programa comunitário de educação presencial para o descontaminar do putativo vírus racista.

Sublinhe-se que em momento algum Mendy se mostrou ofendido ou apresentou queixa contra o colega.

 

Hoje, no parlamento, PS, BE e Livre cerraram fileiras, recusando o voto de solidariedade com Bernardo proposto pelo CDS. Vários destes parlamentares - sobretudo os socialistas - adoram acotovelar-se nas tribunas dos estádios em aplausos frenéticos à selecção nacional e farão tudo para conseguirem ver in loco os jogos do Europeu, que se disputam em diversas capitais europeias. Alguns, imagine-se, até são comentadores de futebol na rádio e na televisão.

Felizmente para eles, a hipocrisia justifica reparos morais mas ainda não merece censura penal. Ficam assim dispensados de frequentar programas comunitários e de pagar qualquer multa, ao contrário do talentoso futebolista a quem acabam de negar o voto solidário que se impunha. Convicto como estou que nesta matéria pensam inteiramente como eu: é profundamente injusto e vergonhoso rotular Bernardo Silva de racista.

A inveja é o desporto nacional

por Pedro Correia, em 21.11.19

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Ao contrário do que muitos supõem, o maior desporto nacional não é o futebol: é a inveja. Pura e dura.

Como os comentários lidos e ouvidos nas últimas 24 horas sobre a ida de José Mourinho para o Tottenham confirmam, uma vez mais.

Elegância

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.10.19

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O futebol português é cada vez menos notícia pelas boas razões. E até passaria despercebido, de tão mau que é a nível interno, não fossem os seus actores, os que actuam dentro mas também os que andam pelos balneários e pelas televisões, apostarem em dar nas vistas.

Compreende-se que alguns tendo o tamanho da Betesga acreditem possuir um ego maior do que o Rossio, mas ainda assim há limites que não deviam ser ultrapassados.

O treinador do F.C. Porto até podia ter toda a razão contra a arbitragem do jogo com o Marítimo, o que eu duvido porque já se tornou habitual só se queixar dela e do anti-jogo quando perde pontos; só que as  suas declarações deviam levar a uma tomada de posição da Liga de Clubes e dos adeptos.

A linguagem de carroceiro e o estilo azeiteiro do fulano não constituem nada de novo. Os presidentes de alguns clubes, incluindo do meu, por vezes também se esforçam bastante. Mas o à-vontade com que o treinador do FCP o faz regularmente envergonha muita gente honrada e educada adepta do clube do Norte.

Sei que não é caso único, e em Macau também temos quem, sendo mais velho e com muito mais responsabilidades sociais e profissionais, teime em se colocar no mesmo patamar de cada vez que lhe colocam um microfone à frente.

Desconheço se será um novo padrão. Sinal de mau gosto é com toda a certeza. E será sempre um mau exemplo para um desporto que tem milhões de apaixonados, muitos deles crianças, em todo o mundo. Bem podem falar de fair play, de respeito, do futebol como escola de virtudes. O que ultimamente se vê é apenas disto.

A forma como depois alguns alunos e os seus pais falam com os professores e se comportam nas escolas, ou a linguagem que se ouve dentro dos autocarros, entre os miúdos que vão ou vêm das aulas, é apenas um reflexo do que disse o treinador do FCP alto e bom som. A frase mereceu acolhimento na primeira página do mais lido jornal desportivo português.

Por esta e outras é que o futebol se assume cada vez mais como um desporto destinado a gente ordinária, trapaceiros e arruaceiros. E isto é triste.


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