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Delito de Opinião

A história do bloguismo em Portugal

jpt, 06.03.21

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Atento amigo avisou-me da publicação deste "A Blogosfera Portuguesa: Da Coluna Infame ao ocaso de uma era", de Sérgio Barreto Costa, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, sob o aprazível preço de 3,15 euros. E convocou-me para a conversa promocional, anunciada com o (desagradável) título "Os blogues morreram. E ninguém os avisou?". Muito me interessou a publicação.  E também a sessão pública, a qual encetei, um debate telemático com a presença do autor, de Araújo Pereira e de Vasco M. Barreto, o qual ostenta o oficioso e prestigiado título de Bloguista-Mor olivalense (distinção que aqui explicito pois ciente da prévia permissão concordante do ínclito Apenas Mais Um). 

Se parti com interesse devido ao tema do livro, mais rápido ele floresceu dado que a moderadora, Catarina Carvalho, apresentou a obra como uma "antropologia moderna" sobre o bloguismo. Como  bem compreenderão os amistosos leitores - e mesmo os alguns caústicos comentadores - sendo bloguista veterano, assim um verdadeiro zombie à luz do ali anunciado, e antropólogo (outro avatar de zombie, diga-se, ainda que este académico), não pude resistir e decidi adquirir a obra.

Assim, e desenfiando-me da querida comunidade co-confinada, numa alvorada escapei-me do intra-muros militante que nos vem protegendo das intempéries virais. E avancei até ao Pingo Doce vizinho deste ermo Nenhures em que me acoito, convicto de que ali se vendem os livros publicados pela fundação da empresa. A diligente, simpática (e bem apessoada) funcionária com a qual me lamentei da minha incapacidade senil de encontrar o adequado escaparate logo se dirigiu ao armazém. Do qual regressou abraçando uma caixa de livros, lamentando-se pois "não há nada novo", "não temos recebido nenhuns..." e até desculpando-se "os livros estavam ali desde que foi proibido vendê-los". E assim continuou, demonstrando até agrado com este belo geronte (eu mesmo, jpt) que perguntava por tais produtos, mania aparentemente inédita na clientela regular. Enfim, não só compreendi como bem aceitei a situação, consciente da distância que aparta este Nenhures da capital dos ex-bloguistas cultos e leitores - para cima de uns árduos 40 kms de alcatrão liso... e plano.

Regressei ao cercado, resignado a que lerei o livro quando as restrições vigentes forem amansadas e então me for possível, mesmo exigível, avançar até à capital - urbe onde é até aceitável encontrar livros à venda. E assim, neste por enquanto, fiquei restrito a esta introdução do livro sobre o bloguismo luso. Enfim, "a ler vamos", com toda a certeza. E desejo que os afortunados da "cidade grande" possam comprar e, até, ler o livro (mas não o esgotem antes do desconfinamento, por favor).

Entretanto, pois impregnado de presunção e água-benta, e porque a obra aborda a história do bloguismo em Portugal, lembrei-me do meu primeiro texto no Delito de Opinião. O qual foi um voo de pássaro sobre este assunto, escrito em 2010 (!) quando vivia em Moçambique e de lá algo estupefacto olhava para este tudo isto pátrio - e assim continuo, afianço. E que aqui botei como convidado, numa bela série de convites a bloguistas que o Pedro Correia animou. Repito-o, até porque é fim-de-semana (ainda de confinamento):

The Clash

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou - o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do "o que dizer a estes tipos?" - os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores.

Pois nisto do blogar, botar algo de modo quase quotidiano, treme o emigrado. Deverei procurar um requebro semitropical?, uma ponte intercontinental?, um daqui "estamos juntos"? um voo rasante sobre o onde vivo? Ou restrinjo-me à parca política lusa? E nesta hesitação, até pobreza, pessoal e mental, é o cidadão que vou convocando, sai-me texto sobre o aí Portugal, o aí da política, tanta “espuma dos dias”, tanta mera baba, espúria, na volúpia do opinar. Esse aí de que há anos vou sabendo, maioritariamente, por via dos blogs - se exceptuando a fértil actividade futebolística. Por isso boto hoje sobre blogs, esse "espelho da nação", pelo menos para alguns.

Longe vão os anos 2003-4, quando a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que lhe ia na alma, tempos de afirmação de alguns manitus da opinião livre, desassombrada - idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial na demonstração dos tiques do então emergente Bloco de Esquerda. Os tempos vêm passando e o colectivismo impôs-se no bloguismo, pois as grandes congregações bloguistas, com plantéis, targets e até missais, tornaram-se um must, na dita "esquerda" e na agora (re)dita "direita".

Mas nesse já recuado antes o motor dessa congregação blogal chamava-se blogómetro, pois os sonhos de teclistas lisboetas - e, vá lá, também portuenses - eram os de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira (jpp) do papado bloguista, ferreamente exercido com a sobranceria da crença da sua infalibilidade no loquaz Abrupto. Nisso se formaram e reformaram ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando no proselitismo dos respectivos profetas. E quantos deles clamando Anticristo esse demoníaco Papa.

Tudo isso era engraçado, e mais ainda pois visto de longe. E naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa. Entenda-se, vivo em Moçambique, cuja grande revolução actual é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes "africanas", a evangelização e a coranização - coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daquela modorra de funcionalismo público? Assim, logo que chegado a casa, no remanso do escritório, já in-blogs, era quase como estar na rua, nos distritos daqui (“no mato”, dizem os de fora), ouvindo o "alá é grande" "deus nosso senhor tudo pode" e essas coisas. Algo diferente, claro, pois no luso blogal eram Zizek ou Hayek os profetas ministrados, ainda que uma minoria - os congéneres desta burguesia de cá que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria -, arengasse sobre Blair como reencarnação do Bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu a plataforma bloguística weblog.com.pt e o blogómetro perdeu algum panache. Pior ainda, ninguém - nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo, do ambicionado topo do blogómetro. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo, através do seu O Espectro. Para se retirarem, desistindo de blogar - num dos mais (ou mesmo "o mais"?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha -, no dia seguinte a terem ultrapassado o sitemeter abruptal. Mas, pelo menos, teve esse feito o efeito de apear o “top blogal” como meta-mor dos grão-bloguistas.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando.  Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da "sua majestade" de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, amiúde, entre-zangas prenhes de inter-links, cheias de subtextos e private angers, discerníveis por quem fosse do(s) meio(s), aqueles “lisboa” e “porto”, tudo isso em crescendo de alinhamento pois no meio cada vez mais soava e suava o agendismo.

O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, se vai à missa in-blog para se reafirmar as certezas, os blogs tornados quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão blogal parece não perder audiências - fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere, as audiências aguentam-se e até crescem... - mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados despercebem que a obesidade, os números de leitores, advém via google search: pois quanto mais "arquivos" têm os blogs mais leitores incautos lhes chegam ao engano, na demanda de outras coisas, e é este o verdadeiro teorema bloguístico.

E assim ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns de cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama, tão rasteiras as coisas que vão botando. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos "lisboa" muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam - "eu jantei com A, ele existe" "eu ensinei X a blogar, e em minha casa" e, um must, "eu tirei esta foto a Y, o qual por acaso mal se percebe na foto, mas - estão a ver? - ele existe", como gozam connosco os jornalistas e académicos do Jugular socratista, quando o povo se questiona sobre um blog anónimo ao serviço do governo.

Trata-se de um "quem" "são" "esses" "alguns" que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal "lisboa", sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou contra a nomeação, a assinatura dos textos, julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da internet, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes nossos pós-bloguismos do youtube e facebook, gente com nome e de fotografia espetada no "perfil". Enquanto o tal pacote "convicto" não imigra para cá, trazendo o "remoquismo" que lhe é alma, andamos noutra, a "gostarmos" uns dos outros,  Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a botar.

The Clash, hoje:

 

(London Calling, The Clash; Capitol Theater New Jersey 1980: um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e 2005)

José Pimentel Teixeira

Jornalista durante duas horas

José António Abreu, 09.04.15

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Rui Moreira surge apenas para almoçar e é mais alto do que parece na TV. José Alberto Carvalho está na plateia desde o início e é mais baixo do que parece na TV. Na mesa, Nuno Garoupa afiança que «o Porto é o início desta saída de Lisboa», Pedro Magalhães fala no «lado escuro e no lado claro da tecnologia» e David Lopes debruça-se sobre uma das frases expostas nas paredes (Login, logo existo?) enquanto ao seu lado, muito adequadamente, os outros dois usam os smartphones pousados sobre a mesa. No que me diz respeito, não sei bem o que estou aqui a fazer.

 

A culpa é do Pedro Correia. Contactado para saber se o Delito gostaria de estar presente na conferência de imprensa de apresentação do quarto encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), a realizar no Porto no dia 12 de Junho, perguntou-me se estaria disposto a ir. Nos breves e inconsequentes devaneios que em adolescente tive com a profissão de jornalista entravam mais visões de Cary Grant em His Girl Friday (e de súbito apetece-me falar sobre Rosalind Russell mas vou resistir ou não escrevo mais nada sobre a conferência) e de Robert Redford em Os Homens do Presidente (também havia Dustin Hoffman mas eu identificava-me mais com o gajo giro) do que de almas penadas, precárias e mal pagas sentadas em cadeiras desconfortáveis recolhendo informação previamente formatada para lhes evitar esforços cerebrais e – mais inconveniente – assomos de curiosidade. Ainda assim, respondi-lhe que iria. Afinal, respeito o trabalho e as ideias de Nuno Garoupa, de quem li O Governo da Justiça, e de Pedro Magalhães, que costumava ler no Margens de Erro (notícia em primeira mão: ele promete reactivá-lo antes das legislativas). Além disso, haveria almoço.

 

E lá fui então hoje assistir à conferência de imprensa na Casa da Música, no preciso dia em que se iniciam as comemorações dos seus dez anos de actividade (uma «feliz coincidência», segundo David Lopes, da Comissão Executiva da FFMS). O tema do Quarto Encontro da Fundação (o primeiro fora de Lisboa – daí a frase de Garoupa) é: Admirável Mundo Novo: o Futuro Chegou Cedo Demais? Como seria de esperar, no pequeno auditório do espaço CiberMúsica (ciber, estão a ver? Tudo é pensado ao mínimo detalhe) houve referências a Aldous Huxley, que, graças a tecnologias outrora impensáveis mas hoje banais, surgiu mesmo no ecrã (evidentemente, havia um ecrã), no excerto de uma entrevista de 1958. Infelizmente (até a tecnologia comprovada tende a falhar nos momentos mais inconvenientes), a qualidade sonora correspondia mais a uma entrevista efectuada nos tempos da grafonola, quase nada se entendendo, mas Pedro Magalhães prometeu que os problemas estarão resolvidos no encontro, a realizar na maior e – todos o sabem – acusticamente perfeita sala Suggia. Por sorte ou competência (em Portugal, costuma ser a primeira; neste caso, é possível que seja a segunda), na documentação em papel (esse meio obsoleto) a frase lê-se sem problemas e até se encontra traduzida: O que eu acho é que não devemos ser apanhados de surpresa pelo avanço da nossa tecnologia. Isto aconteceu vezes sem conta na História com o avanço tecnológico, que por sua vez muda as condições sociais, e de repente as pessoas encontram-se em situações que não anteciparam e a fazer todo tipo de coisas que, afinal, nunca quiseram fazer. Ou seja, por muito que eu ande para aqui a divagar, o tema é sério e actual. Genericamente, o encontro será constituído por quatro blocos, versando sobre:

- A «pegada digital» que deixamos online, as questões dos comportamentos e da privacidade;

- As consequências das evoluções tecnológicas nas áreas da bioengenharia, da cibernética, da inteligência artificial e da sensorização da realidade;

- Os efeitos na sociedade (e, desde logo, no mercado de trabalho) das mudanças na produção de bens e serviços decorrentes de avanços nos sistemas de informação, na automação e na impressão 3D;

- As implicações das novas tecnologias na cidadania e nos sistemas políticos.

Entre os participantes, contam-se pessoas como David Brin (autor, entre outros, dos livros The Transparent Society e The Postman – o qual, na transposição para o cinema, permitiu novo tour de force a Kevin Costner, sem dúvida um dos melhores actores inexpressivos da história de Hollywood), Evgeny Morozov (redactor da New Republic e autor de livros como To Save Everything Click Here: The Folly of Technological Solutionism), Tyler Cowen (economista, colaborador dos principais jornais americanos e autor do blogue Marginal Revolution), Bruce Sterling (crítico, colaborador da Wired e autor de vários livros, entre os quais alguns dos mais importantes romances de ficção científica das últimas décadas) e, suponho que para demonstrar que a tecnologia não é tema exclusivo do género masculino, cinco – ou seis, que falta anunciar um nome – mulheres (em vinte participantes). Por exemplo, Ellen Jorgenson, directora executiva do Genspace, um laboratório dedicado à promoção da ciência e do acesso dos cidadãos à biotecnologia (aqui numa Ted Talk, apresentando o Genspace). Quem estiver interessado («não é cedo demais para marcar lugar no futuro», alertou David Lopes, usando mais uma das frases publicitárias) pode consultar o programa no site oficial. A inscrição custa 15 euros mas inclui almoço, servido no parque de estacionamento subterrâneo da Casa da Música (Lopes garante que a tecnologia o transformará num local onde os comensais poderão sentir-se na serra ou em frente ao mar mas eu, que conheço o local e também já estive em serras e junto ao mar, permaneço céptico). Extra programa, será possivel assistir à gravação da emissão da semana do Governo Sombra. Quem não quiser – ou não puder – estar presente poderá seguir as intervenções via streaming e a TVI24 providenciará ampla cobertura, sendo José Alberto Carvalho uma espécie de «mestre de cerimónias» do encontro (novamente, David Lopes dixit). 

 

E pronto. Acho que é tudo. Ah, não, também por lá encontrei colaboradores de outros blogues. São detestáveis. Mas o almoço estava óptimo.