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Não há idade para a ingenuidade

por Pedro Correia, em 13.08.10

 

A conversa podia ser interrompida: no essencial, as opiniões já foram expressas. Vou só prolongá-la mais um pouco porque pressinto em Ana Matos Pires o gosto, que partilho, de confrontar pontos de vista sem que nenhuma das partes sinta necessidade de impor o seu. Por mim, isto constitui fonte de genuíno prazer - redobrado, quando sucede, por ser cada vez menos frequente. Há demasiada gente na blogosfera a confundir debate com doutrinação ou com insulto, o que não chega sequer a irritar-me: apenas me entedia.

Propõe a Ana que não nos afastemos do cerne da questão. Vamos então ao essencial. E o essencial vem resumido nestas palavras do Rui Costa Pinto que peço emprestadas: ao ponto a que as coisas chegaram no chamado caso Freeport, tem que ficar bem claro "por que razão as perguntas a fazer a José Sócrates e afins estiveram sujeitas a uma negociação completamente esdrúxula". Na falta de um esclarecimento cabal, claro e completo, em que os jornalistas têm um papel essencial a desempenhar, reforçaremos a convicção de que "os inquéritos mais mediáticos têm sempre linhas de investigação muito peculiares". O que seria péssimo para a justiça. Direi mesmo mais: seria péssimo para a democracia.

Exigirmos menos que isto é contentarmo-nos com quase nada.

 

Tomei entretanto boa nota do que a Ana me disse. E permito-me destacar esta frase: "Não há idade para a ingenuidade." Como conjugar esta frase, no entanto, com uma outra sua em que classifica como "pretensioso" o facto de eu ter invocado o caso Watergate?

A questão, Ana, é que a minha geração foi irremediavelmente influenciada pelo caso Watergate. Mais: eu sonhei ser jornalista precisamente porque Watergate aconteceu. Dissequei-o nos mais ínfimos pormenores e na minha galeria de heróis figuram não só o duo Bob Woodward-Carl Bernstein (Robert Redford-Dustin Hoffman, na excelente versão cinematográfica de Alan J. Pakula) mas também Ben Bradlee, o director que confiou no talento e na sagacidade dos seus repórteres, e Katharine Graham, a proprietária de jornal que soube mostrar-se imune a todas as pressões. Incluindo as pressões da Casa Branca, reforçadas pela grosseria de Richard Nixon.

Dir-me-ão uma vez, dir-me-ão cem vezes: o caso Watergate é irrepetível. É escusado: quanto mais único, quanto mais insólito, quanto mais raro, mais me serve de referência. E continuará a ser o maior dos motivos por que um dia, já há muito tempo, decidi ser jornalista.

Ingenuidade, talvez. Dou-lhe razão: podemos ser ingénuos em qualquer idade.

 

Imagem: Dustin Hoffman e Robert Redford no filme Os Homens do Presidente (1976)

O essencial e o acessório

por Pedro Correia, em 12.08.10

 

A Ana Matos Pires entendeu-me mal: eu não defendo que só os jornalistas devem debater as questões deontológicas ligadas ao exercício da profissão. Creio, aliás, que nunca o jornalismo foi tão debatido e escrutinado na praça pública: nada tenho a objectar a este facto, antes pelo contrário. Sucedesse o mesmo com os médicos - um exemplo a que ela alude de passagem - e provavelmente todos teríamos a ganhar com isso.

O que eu escrevi, e reitero, é que este debate surge recorrentemente sempre que o actual primeiro-ministro é alvo de uma investigação jornalística. Já não tenho idade para ser ingénuo e percebo bem onde muitos querem chegar com a invocação dos princípios deontológicos do jornalismo nestas ocasiões cirurgicamente escolhidas para o efeito. A intenção é óbvia: condicionar os jornalistas, as respectivas chefias e - em última análise - as próprias entidades patronais.

Esquecem estes arautos da deontologia jornalística que o jornalista não tem só deveres: tem também direitos. O mais elementar desses direitos - que é um direito-dever, de carácter imperativo, aos quais todos os restantes se subordinam - é o direito de informar. Relacionado com este, há o direito dos cidadãos a serem informados. Subentende-se, obviamente, que me refiro ao dever de informar com rigor e ao direito a tomar conhecimento de factos verdadeiros.

Só a título de exemplo: suponha a Ana que um seu colega de blogue, indignado com a conduta dos procuradores titulares da investigação do caso Freeport e sem estar ao corrente de todos os factos, defendia a abertura imediata de um processo disciplinar aos referidos magistrados com vista ao despedimento de ambos com justa causa. Suponha que a indignação dele iria ao ponto de lhes negar a presunção da inocência. Suponha que estas indignadas linhas eram escritas antes de se saber que esses magistrados pretenderam questionar mesmo o primeiro-ministro, não lhes tendo sido dada oportunidade para tal, e que o facto de as perguntas sem resposta figurarem no despacho que assinam resultar afinal de uma negociação com a directora do Departamento de Investigação e Acção Penal, uma superiora hierárquica.

Moral da história: os equívocos manter-se-iam e os textos de indignação sem fundamento suceder-se-iam se não houvesse jornalistas a cumprir o direito-dever de informar. Tal como o caso Watergate nos ensinou, conhecer a identidade do 'Garganta Funda' e saber a que horas de que dias Bob Woodward falou com ele eram questões interessantíssimas - mas secundárias. O dever essencial de Woodward e do seu colega Carl Bernstein era informar. Foi isso que fizeram. E fizeram bem.

Freeport: uma vergonha

por Pedro Correia, em 11.08.10

 

26 de Julho - O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) anuncia ter dado por concluído o processo Freeport. Charles Smith e Manuel Pedro são os únicos acusados.

 

27 de Julho - José Sócrates diz-se satisfeito com desfecho da investigação. "A verdade vem sempre ao de cima", sublinha o primeiro-ministro.

 

29 de Julho - Os procuradores do Ministério Publico que dirigiram o inquérito do processo Freeport, Vítor Magalhães e Pais de Faria, revelam que quiseram ouvir o primeiro-ministro, mas não puderam fazê-lo devido à necessidade de concluir o inquérito a 25 de Julho. No despacho de arquivamento, esclarecem quais são as 27 perguntas que pretendiam fazer ao primeiro-ministro.

 

29 de Julho - O procurador-geral da República refere, em comunicado, que "foi com total surpresa" que "tomou conhecimento da invocada necessidade de mais inquirições, questão que só agora se vê suscitada", anunciando a abertura de um inquérito para o total esclarecimento de "todas as questões de índole processual ou deontológica".

 

30 de Julho - "Os investigadores dispuseram quase de seis anos para ouvir o primeiro-ministro e os procuradores titulares um ano e nove meses. Se não o ouviram, é porque entenderam não ser necessário", declara o procurador-geral da República, Pinto Monteiro.

 

30 de Julho - "Há boas razões para uma penitência colectiva de muitos jornalistas portugueses", escreve no jornal i Pedro Adão e Silva, ex-dirigente do PS, a propósito do caso Freeport.

 

31 de Julho - "Quando dois procuradores que lideram um processo de investigação dizem não ter tido tempo para fazer algo que os próprios consideram essencial, não se pode suspender o juízo sobre a actuação desses procuradores invocando a presunção de inocência", escreve o deputado socialista João Galamba no blogue Jugular.

 

3 de Agosto - Em entrevista ao DN, Pinto Monteiro critica os procuradores: "Na longa vida de magistrado, o PGR nunca conheceu um despacho igual, nem tem memória de alguém lho referir", sublinha numa das respostas que deu por escrito ao jornal. Na mesma entrevista, o PGR queixa-se de ter apenas os poderes da Rainha de Inglaterra.

 

3 de Agosto - Em entrevista à SIC Notícias, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, ataca os procuradores do caso Freeport, confessando-se "surpreendido e indignado". Motivo: "Nunca tinha acontecido aparecer num despacho de arquivamento um questionário com perguntas dirigidas a pessoas que os investigadores nunca tentaram chamar ao inquérito para esclarecimentos."

 

3 de Agosto - O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, diz que os procuradores do caso Freeport estão a chamar "estúpido" ao povo português, quando alegam falta de tempo para não terem inquirido o primeiro-ministro

 

4 de Agosto - Eurodeputada socialista Ana Gomes defende a demissão do procurador-geral da República.

 

6 de Agosto - Sabe-se que os procuradores pretenderam ouvir José Sócrates e dirigiram esse pedido à directora do DCIAP, Cândida Almeida. Esse pedido foi formalizado a 12 de Julho.

 

7 de Agosto - Sabe-se que Cândida Almeida negociou a inclusão das 27 questões no despacho final como contrapartida pela não inquirição do primeiro-ministro e do ministro da Presidência.

 

8 de Agosto - Eurodeputada socialista Ana Gomes defende a demissão de Cândida Almeida.

 

9 de Agosto - Sabe-se que Cândida Almeida travou a constituição de uma equipa mista da Polícia Judiciária para investigar o caso Freeport.

 

11 de Agosto - Cândida Almeida, Vítor Magalhães e Pais Faria, segundo a Lusa, "repudiam as notícias que vieram a público nos últimos dias a dar conta de alguma divisão na equipa".

No país dos juízes excelentíssimos

por Pedro Correia, em 07.08.10

Crise? Qual crise? O caso Casa Pia pode voltar à estaca zero. O empresário Domingos Névoa foi absolvido pelo Tribunal da Relação, levando o advogado Ricardo Sá Fernandes a desabafar: "Não vale a pena combater a corrupção." Sucedem-se as condenações de Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. O procurador-geral da República e o sindicato dos magistrados do Ministérios Público estão em guerra aberta. Pinto Monteiro queixa-se de ter apenas os poderes da Rainha de Inglaterra (excepto o poder de dissolver o Parlamento). Os magistrados titulares do caso Freeport alegam não ter recolhido o depoimento do primeiro-ministro por falta de tempo, algo impensável noutro país da União Europeia. Cândida Almeida, coordenadora do Departamento de Investigação e Acção Penal, critica os investigadores da Polícia Judiciária e é criticada pela associação sindical dos investigadores criminais.

Parece que há crise. E grave. E com um carácter inédito em 36 anos de regime democrático. O que dará razão a estas palavras muito severas de Mário Soares: "A Justiça, em demasiados casos, não funciona, nomeadamente quando envolve políticos mediáticos ou desportistas igualmente mediáticos."

Mas as aparências iludem. Afinal, 97% dos juízes foram avaliados, nos últimos cinco anos, com classificação de bom ou muito bom. Percebe-se agora o profundo silêncio do Presidente da República, que se mantém a banhos, ignorando olimpicamente o tema e os brados de protesto da eurodeputada socialista Ana Gomes, para quem já está em causa o regular funcionamento das instituições.

O calor aperta e convida ao ripanço. No país dos juízes excelentíssimos, o melhor que a esfinge de Belém tem a fazer é dar mais um mergulho nas cálidas ondas do mar. A Rainha de Inglaterra não faria melhor.

Um silêncio que diz tudo

por Pedro Correia, em 05.08.10

Faz hoje uma semana, perguntei a João Galamba por que motivo haveria o DELITO DE OPINIÃO de "pedir desculpa" ao primeiro-ministro pelo que aqui se foi escrevendo a propósito do caso Freeport. Argumentava o deputado-bloguista, por interposto militante do PS da Amadora, que estes "senhoritos" (a linguagem, tão elegante, referia-se a nós) deviam apresentar desculpas públicas ao chefe do Governo por ele ter sido "sovado, enxovalhado, em tudo quanto era órgão de comunicação social".

Vejam lá o topete, como diria o professor Freitas do Amaral. Pedir perdão? E porque não exigir também umas chicotadas, a inscrição obrigatória no partido do Governo e a audição compulsiva dos discursos completos do Presidente do Conselho?

Desafiei o deputado a mencionar algum texto concreto aqui publicado que justificasse esse absurdo acto de contrição. A resposta de João Galamba foi o silêncio. Que diz tudo sobre a leviandade da tese que sustentou.

Sherlocks à portuguesa

por Pedro Correia, em 29.07.10

Em seis anos de investigação sobre o caso Freeport, o Ministério Público não teve tempo para registar as respostas que o ex-ministro do Ambiente José Sócrates estaria certamente pronto a dar a 27 pertinentes perguntas sobre o tema. O que parece dar razão ao juiz Rui Rangel, que esta noite, no telediário da RTP2, afirmou sem rodeios: "Há que repensar o papel do Ministério Público no domínio da investigação criminal." Enquanto isso não acontece, seria útil contratarem novos peritos em material tecnológico. Só para evitar que futuros "problemas no sistema central de gravações" voltem a impedir a realização de escutas a suspeitos, como sucedeu entre 26 de Fevereiro e os primeiros dias de Março de 2005, também no caso Freeport. Uma chatice.

 

ADENDA - Vital Moreira, fiel ao seu estilo, prefere matar o mensageiro. Nada de novo.

Do abstracto ao concreto

por Pedro Correia, em 29.07.10

Não sei a que textos em concreto alude João Galamba, por interposto militante socialista da Amadora, para sustentar em abstracto que este blogue devia pedir desculpa ao primeiro-ministro. Será este, em que sublinho a presunção de inocência de José Sócrates enquanto aproveito para lembrar aos mais esquecidos que o actual chefe do Governo ascendeu a secretário-geral do PS na sequência de acusações não comprovadas contra o antecessor, Eduardo Ferro Rodrigues, numa clara demonstração de que a política tem horror ao vácuo? Será este, em que refiro a necessidade de explicações do primeiro-ministro, reafirmando a sua presunção de inocência? Será este, em que se anota que o Presidente da República considerou o caso Freeport um "assunto de Estado"? Ou este, que comenta a tardia demissão do procurador Lopes da Mota após a pena de suspensão que lhe foi imposta pela secção disciplinar do Conselho Superior do Ministério Público no termo do processo disciplinar instaurado pelo procurador-geral da República por pressões sobre os investigadores?

Não ignoro que é mais fácil, para um deputado da nação, criticar blogues do que atacar o Chefe do Estado ou o procurador-geral Pinto Monteiro a propósito do caso Freeport. Até por isso, agradeço antecipadamente a resposta. 

Freeport: só mais uma nota

por João Carvalho, em 29.07.10

A talhe de foice sobre um ponto tocado pelo José Gomes André aqui mesmo por baixo, registo explicitamente uma conclusão tirada aqui por um tal José Albergaria, que publicita as abrantices do costume e que João Galamba correu a publicar em segunda mão sem trabalho nem imaginação própria: «Acham que algum desses senhoritos (Zé Manel Fernandes, Pacheco Pereira, Moura Guedes, Ana Leal, Eduardo Moniz, José António Saraiva, os bloguistas do 5 dias, do Mar Salgado, do Corta Fitas, do Delito de Opinião, do, do...) vão apresentar desculpas a José Sócrates? Podemos, todos, ficar à espera e sentados.»

 

Estamos a falar do mesmo Sócrates? Bem me parecia. Pela nossa parte e relativamente ao que escrevemos ao longo do tempo, podem mesmo ficar todos à espera. Mas não é sentados, ouviram? Ou alguém vos deu autorização para preguiçar? É em pé, que é bom para as pernas. E bem vão precisar delas não há-de faltar muito.

"Bode expiatório" de quem?

por Pedro Correia, em 17.12.09

Vital Moreira, insuspeito de alimentar campanhas anti-PS, já tinha apontado o caminho ao procurador-geral adjunto Lopes da Mota, acusado de pressões indevidas sobre os investigadores do caso Freeport. António Vitorino, um dos mais sagazes dirigentes socialistas, também não teve dúvidas, no momento certo, em recomendar ao presidente do Eurojust que suspendesse funções. Surdo aos sábios conselhos destes dois juristas, Lopes da Mota teimou em permanecer no cargo. Sai agora, tarde e a más horas, só após o Conselho Superior do Ministério Público ter decidido suspendê-lo por 30 dias no âmbito do processo disciplinar que lhe foi instaurado. A ética da responsabilidade, em Portugal, continua a funcionar ao retardador - ao mais alto nível. Como aqui escrevi a 12 de Maio, falta agora determinar também as responsabilidades políticas do ex-ministro da Justiça, Alberto Costa, que sempre garantiu não ter existido qualquer pressão. Resta também descodificar a afirmação do advogado de Lopes da Mota, Magalhães e Silva, ao sustentar que o procurador-geral adjunto foi apenas um "bode expiatório".

"Bode expiatório" de quê? E de quem?

Ó Manuela! Deixou cair um papel...

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 08.09.09

Como é que a apurada, isenta e profissional investigação de MMG não descobriu isto?

É o resultado que dá confiar no jornalismo zarolho, que só revela o lado da notícia que  lhe interessa.

Para a semana há mais?

por Jorge Assunção, em 04.09.09

 

Dois dos arguidos do processo Freeport revelaram à TVI que há um outro primo de José Sócrates envolvido no negócio. O primeiro ministro é, obviamente, um tipo com muito azar na família que lhe calhou na rifa. Entretanto, a pergunta que se coloca é: dia 11, 18 e 25 de Setembro, a TVI vai continuar a dar seguimento à investigação sobre o Freeport ou o caso voltará a desaparecer da agenda mediática?

Denúncias anónimas confirmam?

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 18.05.09

Marinho Pinto reitera hoje, em entrevista, que o caso Freeport foi “cozinhado”.

Tenho especial apreço pelo Bastonário da Ordem dos Advogados e não tenho qualquer rebuço em acreditar na consistência da sua afirmação. 
O Bastonário - que conheci durante a sua fugaz passagem por Macau - não se preocupa com o discurso politicamente correcto, exprime as suas opiniões com frontalidade, sem se preocupar em saber se está contra a corrente. Por isso, quando na mesma entrevista defende a demissão de Lopes da Mota, antes da conclusão do processo disciplinar, também  valorizo a sua opinião.
Curiosamente, as palavras de Marinho Pinto têm tido pouco eco. Presumo, mesmo,  que haja por aí muita gente a desvalorizá-las e a acusá-lo de se estar a colar ao poder, no caso Freeport, mas a invocá-lo em relação a Lopes da Mota.
Persigno-me diante do Cristo Rei e peço perdão por valorizar mais as afirmações de pessoas que não escondem a cara do que as informações e cartas anónimas fazendo denúncias, de que a comunicação social faz eco.
A denúncia anónima é um resquício do espírito pidesco que desprezo. Será uma questão geracional? Talvez. Isso não impede que arregale os olhos de espanto quando ouço (e leio) " denúncias anónimas confirmam..." .
Se a memória não me falha, Eduardo Graça - ex-presidente do Inatel - afirmou há tempos, numa entrevista, que não dera sequência a uma queixa que lhe tinha sido apresentada, por ter sido feita a coberto do anonimato. Segundo as suas palavras, atirou a queixa para o lixo. Penso que fez bem. Eu faria o mesmo. Por imposição ética que pauta a minha conduta pessoal e profissional. *
Uma sociedade que dá especial credibilidade a denúncias anónimas e desvaloriza quem assume com frontalidade as suas posições, desde que não sirvam os interesses que prossegue, é uma sociedade doente. Portugal é um país doente.
Mas isso eu já sabia e a maioria dos que lêem o DO certamente também.

 

* Voltarei mais tarde a este tema

Pois é

por Pedro Correia, em 18.05.09

O presidente do Eurojust, a quem cabe assegurar a ligação entre as investigações britânica e portuguesa no processo Freeport, admite, segundo o semanário Sol, "ter invocado os nomes de Sócrates e Alberto Costa" em conversa com os dois procuradores que o acusam de tentativa de os pressionar a arquivar o caso. Adianta, no entanto que o fez "indevidamente". Matéria que não deixará de ser analisada no processo disciplinar que entretanto lhe foi instaurado pelo procurador-geral da República e pelo Conselho Superior do Magistério Público, que deliberou por unanimidade. Entretanto, os partidos da oposição preparam-se para chamar Lopes da Mota ao Parlamento. O que deve fazer o ex-secretário da Estado da Justiça de António Guterres? Vital Moreira, insuspeito de ser anti-Sócrates, já lhe apontou o caminho. António Vitorino, tão insuspeito como Vital, também. A menos que se prefira a solução irónica preconizada por António Barreto: "Lopes da Mota não deve sair do Eurojust. Não deve suspender o seu cargo. Nem pedir a demissão. Nem ser demitido. (...) Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa."

Pois é.

 

ADENDA: Outro elucidativo retrato da justiça portuguesa: este senhor - "filho do tio" de José Sócrates - falou a um jornalista do Expresso, mas ainda não prestou depoimento ao Ministério Público sobre o caso Freeport apesar de o seu nome ser notícia há muitos meses. E não é certamente por estar incontactável, como se percebe agora melhor que nunca.

ADENDA 2: Compare-se o caso Lopes da Mota com a 'suspensão preventiva' ocorrida no caso Fernando Charrua. Aqui (via O insurgente).

A aranha sábia e a mosca incauta

por Pedro Correia, em 12.05.09

Lopes da Mota, presidente do Eurojust, terá mesmo pressionado os dois magistrados portugueses que investigam o caso Freeport, Vítor Magalhães e Paes Faria. A tal ponto que o procurador-geral da República admite instaurar um processo disciplinar sobre a conduta do ex-secretário de Estado da Justiça de António Guterres que em tempos idos já tinha sido suspeito de transmitir informação confidencial a Fátima Felgueiras. Falta saber se o inquérito terminará em tempo útil, se apurará toda a verdade e se permitirá ao procurador-geral retirar todas as consequências que se impõem. Falta saber se o simples facto de estar a ser alvo deste processo disciplinar não deverá inviabilizar a permanência de Lopes da Mota à frente do Eurojust. E falta determinar também as responsabilidades políticas do ministro da Justiça, que sempre garantiu não ter existido qualquer pressão e parece estar cada vez mais a ser desmentido pelos acontecimentos. A verdade é que o caso Freeport se vai adensando, dia a dia, passo a passo. Como uma teia laboriosamente tecida pela aranha sábia que aguarda pacientemente a mosca incauta.

Panelas de pressão

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 12.05.09

Segundo o JN, do inquérito ontem concluído resulta que os procuradores que investigam o caso Freeport foram alvo de pressões.

 

Não há rapazes maus

por Pedro Correia, em 24.04.09

À luz desta peculiar interpretação do código deontológico dos jornalistas, o caso Watergate - em que Richard Nixon foi alvo de uma "campanha negra" do Washington Post - nunca teria saltado para as colunas dos jornais. Charles Smith não é menos credível do que Virgilio González, Bernard Barker, James W. McCord Jr, Eugenio Martínez e Frank Sturgis.

Cinco questões sobre a entrevista

por José Gomes André, em 22.04.09

1. Quando deixará Sócrates de insultar os entrevistadores, enxovalhar os críticos ("indivíduos que me injuriaram") e usar de uma altivez insuportável na exposição dos seus argumentos?

2. Quando é que Sócrates apresenta um verdadeiro plano de combate à crise que vá além da distribuição de uns escassos subsídios anunciados a conta-gotas?

3. Será que Sócrates compreende que o "caso Freeport", na sua vertente "política", não gira à volta do licenciamento daquela coisa abstrusa, mas sim em torno de um processo no qual o seu nome persiste em surgir associado a actos de corrupção e abuso de poder?

4. Alguma vez ouviram um primeiro-ministro enunciar publicamente uma lista de jornalistas "maus/inimigos" (TVI) e "bons/amigos" (João Marcelino)? Alguém acha este comportamento reprovável - para não dizer vergonhoso?

5. Depois de insistir na ideia de que "carrega às costas uma cruz", será que o primeiro-ministro ficará conhecido na história como "Sócrates, o Cristo tuga"?

A propósito do caso Freeport

por Pedro Correia, em 20.04.09

 

Convém ler com atenção o que diz o professor Jónatas Machado, professor de Direito da Universidade de Coimbra e especialista em liberdade de expressão, em declarações à última edição do Expresso e aqui transcritas. Para evitar a repetição de alguns disparates que circulam por aí, da boca de pseudo-especialistas em deontologia jornalística que nunca redigiram uma notícia na vida nem sabem qual é a diferença entre informação e propaganda.

Passo a transcrever alguns trechos:

 

Há jurisprudência que sustenta que “a liberdade de expressão deve proteger as especulações e as interpretações jornalísticas fundadas em factos graves e suspeitos”. (...) “Mal seria se no caso Freeport não tivesse havido especulação sobre factos graves!”

 

“A liberdade de expressão existe, precisamente, para proteger quem diz mal, quem critica e quem denuncia”. Para os outros casos, “as leis não seriam necessárias”.

 

"É importante para a democracia e para combater as patologias do regime — como a prepotência e o abuso de autoridade —, que os jornalistas se sintam à vontade a escrever e até mesmo a especular sobre matérias de interesse público”. O exemplo norte-americano é para aqui chamado: as figuras públicas visadas por notícias desfavoráveis só podem processar jornalistas ou órgãos de comunicação social nos casos de dolo, ou de grosseira intenção de causar prejuízo. Mas, mesmo assim, o ónus da prova desta intencionalidade “cabe ao político ou à figura pública que levanta o processo judicial”. Em Portugal, pelo contrário, “há uma tendência para um assédio à comunicação social através de uma chuva de processos contra jornais e jornalistas”.

 

Foto: Dustin Hoffman e Robert Redford numa cena do filme Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula (1976)

Gosto da Fernanda. E depois?

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 13.04.09

Declaração de interesses - Nunca votei em Sócrates; o PM  provoca-me urticária; em minha opinião, Sócrates traiu a confiança de muitos que nele votaram; gosto de Fernanda Câncio que “conheci” em Macau, através da “Grande Reportagem”; admiro o seu profissionalismo e a sua combatividade, embora por vezes discorde das suas opiniões.
 

Posto isto, apenas quero dizer o seguinte:


1) O artigo de Carolina Reis no “Expresso” é um nojo;
2)  Um jornal que puxa para primeira página um artigo sobre uma jornalista, fazendo referência ao facto de ser namorada do PM, é um tablóide;
3) Admito que haja jornalistas no DN incomodados com as posições de Fernanda Câncio mas, se eu fosse jornalista do DN, estaria muito mais preocupado por ver colegas minhas serem despedidas, enquanto estão em licença de maternidade;
4) Se fosse jornalista do DN ter-me-ia solidarizado com os colegas despedidos;
5) Se fosse jornalista do “Expresso” teria criticado o artigo de Carolina Reis;
6) Sendo jornalista, preocupa-me constatar que a comunicação social anda há quatro anos a levantar suspeitas sobre o PM do meu país, que já foi condenado em praça pública, sem que se conheça qualquer acusação formal;
7) Como jornalista e cidadão estou mais interessado em julgar Sócrates pelos erros de governação do que em andar  atrás das declarações de magistrados do MP sobre o caso Freeport;
8) Como jornalista e cidadão, estou mais interessado em perceber as causa do atraso da justiça deste país e o comportamento de alguns dos seus agentes do que especular sobre um único caso, dando ouvidos e voz a pessoas cuja credibilidade e interesses colaterais me levantam sérias dúvidas;
9)  Como jornalista estou-me marimbando se Fernanda Câncio é namorada, filha, enteada ou madrasta de Sócrates, porque a única coisa que me interessa no jornalismo é a investigação e não o folclore popularucho;
10)  Como jornalista, não deixaria de investigar casos como o de Benavente, ou do BPN, só porque o que está a dar é “malhar” no PM;
11) Como jornalista, sei que o caso Freeport  dá um grande jeito à oposição mas, como não tenho a memória curta, sei que se o PSD vencer as eleições em Outubro os jornalistas  (que entretanto não se desviem para os “aliciantes” cargos de assessores de imprensa do governo laranja) vão ter saudades de Santos Silva;
12) Como jornalista solidarizo-me com Fernanda Câncio, porque acredito que o único interesse dela seja  a  procura da verdade. Não acredito que o facto de ser namorada do PM a desvie do seu caminho e acho muito bem que, quando toda a imprensa tenta culpabilizar Sócrates, ela utilize os meios de que dispõe para fazer acusações a um tipo de jornalismo que ela (como eu)  detesta, por ser a negação da profissão.

 

Teria sido mais fácil calar-me sobre este assunto ou cavalgar a onda dos que na comunicação social e na blogosfera criticam Fernanda Câncio. Uns fazem-no por inveja, outras por despeito, outros ainda apenas "porque sim".

Acontece que, desde sempre, tive tendência para estar do lado do elo mais fraco, do lado de quem serve de saco de boxe a quem  necessita de aliviar as frustrações. Nunca gostei de  meninos(as) que  integram  os coros só para poderem fazer ouvir a sua voz.

Freeport: Follow the Money Trail

por Paulo Gorjão, em 07.04.09

Ainda a propósito disto, alguém me sabe explicar -- os senhores jornalistas, por exemplo -- por que motivo a investigação não avança nessa frente?


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