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As coisas mudam

por Pedro Correia, em 30.10.19

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Revi-me há dias nesta imagem de arquivo no Jornal da Noite da SIC. Estava sentado na bancada de imprensa da Assembleia da República com os meus colegas Nuno Simas e Paula Sá - os três em representação do Diário de Notícias. No primeiro dia da legislatura 1999/2002, há 20 anos exactos.

À nossa frente, dois deputados caloiros: Francisco Louçã e Luís Fazenda. Acabavam de ser eleitos e recusaram sentar-se numa segunda ou terceira fila, como figuras adjacentes da bancada parlamentar comunista. O PCP não queria dar palco político e mediático àquele jovem partido que prometia crescer à custa de fatias cada vez mais dilatadas do seu eleitorado.

Louçã e Fazenda teimaram em permanecer de pé, recusando os postos secundários que lhes haviam sido destinados por consenso dos imobilistas que dominavam no Parlamento - mesmo os da autoproclamada esquerda, tão avessos como os outros à mudança. E fizeram muito bem. Viriam a ter os lugares que reivindicavam: um na primeira fila, o outro atrás dele. Em lugar nobre do hemiciclo e perto dos focos mediáticos. Não podiam, aliás, estar mais perto: a bancada da imprensa é logo ali.

 

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Revejo com certa nostalgia esta foto do meu tempo de repórter parlamentar, onde surge Lino de Carvalho, qualificado deputado comunista, tão prematuramente desaparecido. Parece que foi anteontem e já nos transporta ao século passado. Estreantes no hemiciclo, Louçã e Fazenda vestiam a rigor, ambos com fatinho de deputado: a única nota de rebeldia, que na altura gerou imenso clamor, foi a ausência da gravata - prenunciando o que o Syriza, na Grécia, fez 16 anos mais tarde e o deputado da Iniciativa Liberal faz hoje em São Bento, duas décadas volvidas.

Basta esta imagem fixada no tempo para se perceber como os padrões de vestuário mudaram entre as vetustas paredes do Palácio de São Bento. Falta pouco para vermos deputados de chinelos. Alguns equipam-se mais a rigor quando vão para a esplanada do que quando chegam ao Parlamento. Embora exijam - estou certo disso - code dress num posto clínico, numa esquadra, num tribunal ou até num daqueles restaurantes caros e péssimos que costumam frequentar.

O modo como nos vestimos diz muito do nosso respeito pela casa que visitamos - respeito suplementar tratando-se de uma instituição angular da democracia portuguesa. No caso dos jornalistas, acresce que - como um dia disse a um colega mais jovem, quando o vi em São Bento de sandálias e calções - não estamos ali em representação própria, mas do órgão de informação em que trabalhamos. Razão acrescida para salvaguardar a imagem desse título jornalístico: naquele momento, naquele local, ele é personificado em nós.

Fala-se muito na degradação dos trabalhos parlamentares, evidenciada pela fraca qualidade média dos deputados. Essa degradação começa nos padrões de vestuário. Anda tudo ligado, como dizia o outro.

 

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Esta imagem reconduz-me também a um episódio da vida jornalística que demonstra como a inércia é uma força muito poderosa nas redacções dos jornais. Quem assumia então responsabilidades na secção política do DN entendeu distribuir equipas de trabalho para cobrir a campanha eleitoral de 1999 em obediência ao cânone tradicional: PS, PSD, CDS e PCP.

Quando perguntei, numa reunião, quem iria acompanhar o BE, obtive uma resposta burocrática: «É irrelevante. Seguimos pela Lusa.» Contestei, argumentando que o recém-surgido Bloco iria ser a novidade daquelas legislativas. E lá voltou o contraponto burocrático: «Nem pensar. É um epifenómeno, mero folclore eleitoral.»

Insisti. Como o Parlamento estava fechado, ofereci-me como voluntário para cobrir as acções de campanha do BE. E lá andei na rua, acompanhando a ainda incipiente caravana bloquista, cada vez mais convicto de que a razão estava do meu lado. Como se viu. O novo partido não se limitou a eleger um solitário representante, como noutros tempos sucedeu com a UDP ou o efémero Partido da Solidariedade Nacional de que já ninguém se lembra, mas dois deputados - requisito mínimo para constituir grupo parlamentar. E aquela legislatura revelou-se crucial para o seu crescimento.

Foi, aliás, uma legislatura histórica desde o primeiro dia - a que decorreu sob o signo 115-115, quando o número de deputados apoiantes do Governo se equivalia ao dos representantes da oposição todos somados, o que acabou por ditar o seu fim prematuro.

 

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Lembro este episódio e concluo que nestes últimos 20 anos, nas redacções jornalísticas, só se mudou para pior. Desde logo pela flagrante falta de meios em comparação com os que existiam em 1999.

Voltaram a imperar as rotinas burocráticas, voltou a evidenciar-se a falta de rasgo na cobertura de campanhas eleitorais, voltou a apostar-se só no que já se conhecia. Quase nenhum meio informativo acompanhou em pormenor as acções de campanha das três forças políticas emergentes das legislativas de 6 de Outubro: Chega, Iniciativa Liberal e Livre. Imagino que alguns repórteres terão ouvido, nas respectivas redacções, os mesmos argumentos que eu ouvi há duas décadas das chefias de turno: são epifenómenos, não chegarão a lugar algum.

E no entanto as coisas mudam. Basta por vezes vermos uma foto antiga para percebermos isto.

De olhos bem fechados

por Pedro Correia, em 23.02.19

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«Há um perigo na Venezuela», onde um tirano proto-comunista, cabeça de turco de uma ditadura militar, não hesita em mandar atirar contra o povo, condenando-o à doença e à fome, perante a indignação universal.

Universal? Nem tanto. Ainda não li nenhum texto indignado contra Maduro subscrito em conjunto por Freitas do Amaral e Francisco Louçã, semelhante ao que publicaram há dois meses no El País em vigoroso alerta contra Bolsonaro. Quanto à Venezuela, continuam de olhos bem fechados.

Jornalismo ZEN.

por Luís Menezes Leitão, em 03.07.17

Confesso que não tenho paciência nenhuma para assistir a políticos travestidos de comentadores. O comentário pressupõe distanciamento sobre o que se comenta, o que alguém envolvido no combate político manifestamente não tem. Mas em Portugal entrou na moda os políticos com ar mais senatorial vestirem o fato de comentadores. Foi assim sucessivamente com Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, José Sócrates, Marques Mendes, Santana Lopes e Francisco Louçã. Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso. Marcelo Rebelo de Sousa construiu laboriosamente a sua campanha presidencial na televisão e José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito.

 

Mas o que me choca mais não são esses espaços de verdadeira propaganda política, que as televisões permitem, e que já se sabe que esses políticos aproveitarão no seu próprio interesse. O que me preocupa é a figura do jornalista ali presente que, ou faz de ponto, ou assiste passivamente a autênticas manipulações sem fazer a mínima correcção ou esclarecimento ou sequer uma simples pergunta. Com a honrosa excepção de José Rodrigues dos Santos, que muita polémica deu, os jornalistas alinham pacificamente nestas verdadeiras operações de propaganda.

 

Vem isto a propósito do momento ZEN de Francisco Louçã, em que ele resolveu comparar as questões de Assunção Cristas no parlamento sobre o combate aos fogos com declarações anteriores da mesma de que, como pessoa de fé, aguardaria pela chuva. O problema é que essas declarações de Assunção Cristas, proferidas em 21 de Fevereiro de 2012, eram relativas à seca e não aos fogos, que não se verificam no pico do Inverno. Quem referiu que a chuva poderia combater os fogos foi Catarina Martins, mas sobre ela obviamente que Louçã não abre a boca.

 

Não me espanta nada que Louçã use o seu espaço televisivo para operações de manipulação, uma vez que nunca esperei dele outra coisa. O que me espanta é que esteja uma jornalista presente a permitir esta operação sem um único comentário ou questão ao entrevistado. É com este tipo de jornalismo ZEN que a comunicação social vai perdendo credibilidade.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 26.08.16

«As coisas correram pessimamente ao Governo durante o mês de Agosto. Pelo caso da GALP e pela forma muito amadora como pareceu ser tratada a escolha da administração da Caixa Geral de Depósitos e depois a sugestão de uma proposta de lei para favorecer pessoas especificamente - isso é uma coisa que não se faz. (...) A economia está estagnada. (...) Era preciso haver melhores notícias para os salários, para as pessoas, para o investimento, para o emprego.»

Francisco Louçã, na SIC Notícias

Profetas da nossa terra (71)

por Pedro Correia, em 21.07.16

«Acho que Marcelo Rebelo de Sousa já desistiu de ser Presidente da República.»

Francisco Louçã, Março de 2003

Frases de 2016 (19)

por Pedro Correia, em 26.02.16

«Não é possivel ter democracia com liberdade de circulação de capitais.»

Francisco Louçã

Sobre o manifesto (9)

por Pedro Correia, em 24.03.14

- O que acha do manifesto dos 70, que agora são 74 ou 75, fora os 74 estrangeiros?

- Há que falar verdade: sou contra a reestruturação da dívida.

- Porquê?

- Se queremos ser economicamente independentes, então temos de nos conter dentro dos limites do que podemos pagar.

- Mas devemos ser nós a mandar no nosso País!

- Quem manda é quem paga e nós não mandamos nada. Este foi um princípio por que sempre me guiei. Até na educação dos meus filhos. E pode crer: a situação não se resolve em dois ou três anos. Para se chegar a bom termo, para que estes sacrifícios valham a pena, é preciso que não sejam desperdiçados em manobras políticas talvez convenientes mas intoleráveis.

- Muitos de nós temos a esperança de que os nossos credores acabem por perdoar uma parte substancial da dívida pública portuguesa.

- Que não se criem ilusões, porque nada pior do que expectativas frustradas que alimentam a revolta.

 - O dinheiro há-de vir sempre de algum lado...

- Nós estamos em ruptura financeira e quem o encobrir não está a falar verdade aos portugueses.

- Mas...

- E digo mais: tudo será inútil se, na ânsia de falsos louros, ao primeiro sinal positivo se recuar no rumo traçado.

- No entanto Francisco Louçã diz que...

- Louçã? Imagina-o eleito primeiro-ministro? Eu não quero imaginá-lo nessas funções.

Ex-Bloco

por Gui Abreu de Lima, em 18.04.13

"As pessoas quando passam pelo Governo seguram a carteira."

 

Francisco Louçã, TVi24

(há minutos, sobre as medidas que nos esperam)

Vamos brincar à demagogiazinha

por Pedro Correia, em 10.11.12

Não sei se havia pobres na convenção do Bloco de Esquerda que hoje elegeu uma liderança bicéfala (ou paritária, em politiquês correcto). Mas, segundo os relatos da imprensa, não faltaram vaias à presidente do Banco Alimentar contra a Fome, um dos organismos que mais tem socorrido os pobres em Portugal - não com palavras mas com actos concretos, generosos, solidários. Os verdadeiros pobres, os de carne e osso - não os pobres dos discursos destinados a aliviar boas consciências e a desempoeirar a ideologia - sabem a que porta hão-de bater quando precisam. E o Banco Alimentar contra a Fome é uma delas.

"Sei que nos chamam radicais por querermos correr com a 'troika' desde o dia zero. E agora quando vemos uma senhora do movimento nacional feminino [Isabel Jonet] a brincar à caridadezinha o que lhe vão chamar?", disse Francisco Louçã na sua última intervenção como líder do Bloco, numa das tiradas mais demagógicas que alguma vez lhe ouvi e em nada condizente com o seu recente discurso de renúncia como deputado à Assembleia da República.

É demasiado fácil, para um político tão bem-falante como Louçã, fazer demagogia com alguém que não se distingue pelo dom da palavra mas pela dádiva do seu exemplo. Seis minutos de declarações inábeis, num debate em directo na televisão, não podem apagar 20 anos de serviço à causa pública. "Aproveitar onde sobra para distribuir onde falta" num país onde um quinto da população vive abaixo do rendimento mínimo é o lema do Banco Alimentar, distinguido em 2005 - por unanimidade - com o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República.

Nessa altura, não consta que Louçã e os seus pares tivessem assobiado Isabel Jonet.

A elegante despedida de Louçã

por Pedro Correia, em 25.10.12

Acompanhei o percurso de Francisco Louçã desde os primeiros passos que deu como deputado, era eu repórter parlamentar, e bem cedo percebi que estava perante um político que marcaria as legislaturas seguintes. Assim foi. O coordenador do Bloco de Esquerda, que em breve cessará estas funções, distinguiu-se como uma das vozes mais qualificadas da Assembleia da República, adversário temível de cinco primeiros-ministros (de António Guterres a Pedro Passos Coelho) e um hábil cultor do verbo parlamentar ao longo de 1012 intervenções - ao nível dos melhores tribunos que já desfilaram pelo púlpito de São Bento. Não é necessário ser simpatizante do BE para reconhecer esta evidência.

Treze anos depois da estreia, Louçã decidiu hoje pôr termo à sua vida parlamentar com uma inesperada declaração aos jornalistas, no estilo contundente a que nos habituou mas com um traço de emoção que costuma estar ausente das suas intervenções públicas.

"Quero deixar cristalinamente claro, sobretudo hoje, que não cedo em nenhum momento, nem um milímetro que seja, a qualquer populismo antiparlamentar. E por isso quero afirmar-vos a minha verdade: encontrei neste parlamento homens e mulheres extraordinários, adversários extraordinários. E eu respeito os meus adversários que são fiéis ao seu programa e ao mandato pelo qual foram eleitos. Por isso mesmo reafirmo convictamente que quem quer beneficiar do populismo que grasse na sociedade para ter algumas vantagens terá sempre a minha frontal oposição. É um crime antidemocrático deixar diminuir ou deixar corroer o pluralismo político - e nunca podem contar comigo para isso", afirmou.

Palavras importantes. Por expressarem uma confiança inabalável na instituição parlamentar e uma recusa intransigente da demagogia rasteira que ameaça minar a democracia representativa nos mais diversos recantos da Europa, já tão esquecida das lições das duas grandes guerras.

Não sei se o Louçã de 1999 teria falado assim. Mas é importante que o Louçã de 2012 se pronuncie desta forma no momento em que se despede do Parlamento, renunciando às funções de deputado para que foi cinco vezes eleito. Com palavras de apreço pelos adversários num momento em que faltam gestos de civilidade na crispada política portuguesa. Palavras que deviam generalizar-se, agora e sempre, contra o espírito de trincheira que nos impede de reconhecer mérito a quantos não pensam como nós.

Análise.

por Luís M. Jorge, em 07.05.12

Tó Zé Seguro venceu em França, e Francisco Louçã obteve um excelente resultado na Grécia.

Louçã inova...

por Helena Sacadura Cabral, em 08.04.12

O coordenador do BE, Francisco Louçã, exigiu ontem eleições legislativas antecipadas caso o País venha a precisar de um “novo empréstimo” externo.

 

De facto eleições seriam o que mais precisaríamos no momento....

Será que Louçã é povo?!

por Helena Sacadura Cabral, em 17.03.12

“Da Lusoponte às incompatibilidades, aos favorecimentos, às privatizações, a todos os negócios, o povo perde sempre” , disse Francisco Louçã.

Mas será que Francisco Louçã, primo do Ministro das Finanças, Vitor Gaspar, é povo?!

Louçã, o Rei Momo de 2012

por Rui Rocha, em 05.02.12

A tradição já não é o que era. Já se sabia. Agora o que não se esperava é que Jardim, candidato natural a rei de todos os carnavais, fosse destronado no Entrudo de 2012 por Francisco Louçã. Todavia, esta frase permite entronizá-lo como Rei Momo indiscutível dos carnavais deste ano:  “A existência de uma tolerância de ponto, de um dia em que não se trabalha no Carnaval, é um direito das pessoas, não é um baile, é um direito das pessoas fazerem o que querem, é um dia em que não são obrigadas a trabalhar de graça pela força do Governo”. Não se trata do acto revolucionário de exigir o respeito pelos direitos adquiridos. Não. Agora entramos numa fase mais avançada da luta. A do respeito pelas tolerâncias adquiridas. A tolerância é um direito. Se tudo correr bem, a expectativa, mesmo a mais carecida de protecção, vai tornar-se um dia um direito potestativo. No mínimo, será protestativo. Saliente-se, entretanto, que o Carnaval não é um baile. Registado. Não sei bem o que será. Mas, qualquer mente progressista, com um lenço tipo Arafat ao pescoço, estará em condições de afirmar que é uma manifestação cultural. O Estado paga 50.000.000 por ano para subsidiar filmes que são vistos por 2.000 pessoas? Então o Carnaval, cultural como só ele, também deve ser subsidiado. Para quê? Para investir em carros alegóricos, pagar aos cabeçudos e dar umas mamas novas (que não sejam PIP) às gajas despidas que vão nos cortejos a bater o dente. Mas, a vertigem destrambelhada continua:  o Carnaval é um dia para as pessoas fazerem o que querem. Por exemplo, Louçã quer armar-se em patarata com pose e pretensão moralista. Pode. É Carnaval. Ninguém leva a mal. O problema não está no que faz nesse dia, mas no que diz ao longo do resto do ano. Entretanto, para o final está reservado o melhor: as pessoas são obrigadas a trabalhar de graça pelo Governo. Claro que alguém que não pretenda andar disfarçado de palhaço responderá que as pessoas têm um salário mensal. E que, se é assim, cada uma delas que vai ao Carnaval está a obrigar quem lhes paga a que o faça sem a contrapartida natural: o trabalho. Aliás, como o David Levy refere, por cada dia de tolerância, o Estado paga 700.000 dias de salário para nada receber em troca. 700.000 dias de salário para financiar o Carnaval de Ovar, de Loulé, do Funchal e do CaraçasMaisVelho. A menos que me queiram convencer que 1 dia de trabalho de 700.000 funcionários públicos não tem utilidade, a conta sai baratinha. Ainda veremos alguém decretar Carnaval todo o ano para estimular a economia. Ou me engano muito, ou será Louçã. 

Bloco: é hora de virar a página

por Pedro Correia, em 22.06.11

 

O Bloco de Esquerda foi arrasado nestas legislativas: perdeu metade do grupo parlamentar - incluindo o líder da bancada, José Manuel Pureza - e metade dos votos expressos na eleição de 2009. Deveria ser motivo para uma análise exaustiva das causas que levaram ao fracasso de uma força eleitoral em que tantos viam um factor fundamental de renovação da esquerda portuguesa. E não faltam vozes a reclamar esse debate, incluindo as do Daniel Oliveira e da Joana Amaral Dias. Hoje, em entrevista ao i, Miguel Portas deu um passo em frente, admitindo que "o tempo dos fundadores [do BE] enquanto dirigentes de primeira linha está esgotado".

Estranhamente, porém, a direcção do Bloco resiste em fazer uma autocrítica à altura dos acontecimentos - como se a esmagadora maioria dos dirigentes do partido se conformasse com esta hecatombe eleitoral, como se ela se inscrevesse na ordem natural das coisas, parecendo fora de hipótese a convocação de uma convenção extraordinária, sob o caricato pretexto de que ocorreu uma há poucas semanas. Como se as reuniões extraordinárias não devessem acontecer precisamente quando se produzem circunstâncias extraordinárias e como se o pano de fundo político em que ocorreu a convenção anterior não se tivesse alterado substancialmente.

O BE enfrenta um dilema estratégico que terá de solucionar a curto prazo. Sem implantação autárquica, com escassas ramificações no mundo sindical, tendo visto esgotada a agenda de "costumes" que utilizou para agitar a sociedade portuguesa na última década, tem agora de responder seriamente à seguinte pergunta: pretende contribuir ou não para uma alternativa de governo em Portugal?

 

Nos últimos meses, como aqui oportunamente assinalei, o BE cometeu erros lapidares. Que devem ser dissecados sem ambiguidade de qualquer espécie.

Eis os principais:

- Abdicou de uma candidatura própria à Presidência da República, apostando tudo em Manuel Alegre com o objectivo óbvio de dividir os socialistas. Falhou estrondosamente nesta estratégia.

- Para tentar corrigir o erro anterior, cometeu outro: mal os votos das presidenciais tinham sido contabilizados, avançou com uma moção de censura ao governo socialista na Assembleia da República. Tudo soava a falso nesta moção: semanas antes, bloquistas e socialistas tinham descido juntos o Chiado no apoio a Alegre. Chamei-lhe, logo na altura, o maior tiro de pólvora seca do ano político português. Creio não me ter enganado.

- Fracassada a aposta presidencial e votada à irrelevância a moção de censura, o Bloco ensaiou nova fuga em frente copiando a intransigência do PCP quando Portugal recebeu a delegação da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI. Os comunistas recusaram uma audiência com esta delegação e os bloquistas adoptaram a mesmíssima atitude, sem sequer uma divergência de pormenor. Em clara dissonância com boa parte do seu eleitorado, que não se confunde - nem nunca se confundiu - com o do PCP. "A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista", escrevi aqui a 27 de Abril, criticando a posição do Bloco. Louçã demorou quase dois meses a reconhecer o erro. Miguel Portas, na excelente entrevista concedida ao Nuno Ramos de Almeida, vai hoje mais longe, apontando na direcção correcta: "A nossa decisão foi culturalmente arrogante e sobrestimou a capacidade de indignação da sociedade portuguesa e subestimou o medo em que a sociedade mergulhou com os níveis de desemprego e insegurança que a atingiram."

 

O Bloco não pode cometer o erro dos partidos tradicionais, que se fecham sobre si mesmos nos momentos do desaire. O aparelho bloquista, numa reacção instintiva, recusa debater com a profundidade que a situação exige a derrocada eleitoral do dia 5. Mas há um problema de fundo que o BE tem de resolver: ou se contenta em ser uma cópia do PCP, o que o condena à extinção a curto prazo, ou se assume como parceiro de soluções governativas à esquerda, o que implica fatalmente um diálogo com o PS. Esta tem vindo a ser a solução defendida por uma corrente de opinião minoritária do Bloco e ficou notavelmente expressa num texto de Rui Tavares divulgado no Público, a 7 de Junho, sob o título Período de reflexão. Tavares, veterano compagnon de route do BE, acaba de romper com o partido que representava até agora no Parlamento Europeu, como deputado independente. Isto não invalida - antes reforça - o interesse pela leitura daquele artigo. Aconselho que o leiam: merece reflexão de todos quantos se interessam por política, seja qual for o quadrante em que se situam.

Legislativas (22)

por Pedro Correia, em 06.06.11

 

A DESCER

 

José Sócrates. Os portugueses fartaram-se de José Sócrates, das suas contínuas promessas por cumprir, do défice monstruoso, dos 700 mil desempregados, da pesada herança que deixa ao sucessor no palácio de São Bento. Esta legislativa, como era de antever, funcionou como um plebiscito ao homem que encabeçava o Governo desde 2005. O veredicto das urnas foi claro: o pior resultado do PS dos últimos 24 anos. Deixando sem margem de manobra o homem que ainda há bem pouco tinha recebido uma votação esmagadora no mais inútil e mais patético dos congressos do seu partido.

 

Francisco Louçã. Dir-se-ia que estas eleições seriam ideais para capitalizar os votos de descontentamento no Bloco de Esquerda. Nada disso aconteceu: os bloquistas sofrem uma pesada derrota que os faz reduzir para metade o grupo parlamentar eleito em 2009. Consequência directa dos clamorosos erros estratégicos do Bloco que foram sendo cometidos nos últimos meses e que mereceram aqui diversas críticas. O erro principal foi a tentativa de copiar o Partido Comunista, esgotando-se numa força de mera oposição, sem propor qualquer solução governativa. Louçã é o rosto da derrota eleitoral do BE.

 

Ferro Rodrigues. Regressado de Paris, foi o maior trunfo de Sócrates na elaboração das listas eleitorais. Cabeça-de-lista do partido da rosa, teve um discurso errático durante a campanha, em que destacou como um dos principais defensores de uma solução de bloco central - repetindo, aliás, um apelo que já fizera em 2009. Conduziu o partido a uma pesada derrota na capital, frente ao PSD encabeçado por Fernando Nobre, e perde assim margem de manobra para influenciar um cenário de sucessão nas hostes socialistas.

 

Participação eleitoral. Apesar da profunda crise em que o País mergulhou, com um cenário iminente de bancarrota, demasiados eleitores portugueses continuam divorciados das urnas. Estas foram, aliás, as legislativas menos participadas em quase quatro décadas de regime democrático: 41% dos inscritos recusaram votar. Esta questão faz suscitar outra, cada vez mais premente, sobre a profunda desactualização dos cadernos eleitorais. A percentagem oficial corresponderá à percentagem real?

 

Sondagens. Foi vergonhosa a tentativa de manipulação dos eleitores através de sucessivas sondagens que apontavam para "empates técnicos". Nunca houve tantas sondagens numa campanha e nunca as sondagens falharam tanto. Os resultados das urnas demonstraram que não podia haver situações de efectivo empate técnico a tão poucos dias do exercício do voto. Aqui está um tema de urgente reflexão por parte dos responsáveis das empresas de sondagens e por parte dos responsáveis editoriais que as divulgam.

 

Pequenos partidos. Alternativas? Que alternativas? Os pequenos partidos continuam sem mobilizar os portugueses. Não há justificação para que muitos deles, que nunca conseguiram eleger ninguém ao longo de sucessivas eleições legislativas e autárquicas, continuem a receber apoios do Estado, nomeadamente na realização de tempos de antena eleitorais. A lei deve ser revista nesta matéria fazendo depender esses apoios de números mínimos de votos obtidos nas urnas.

Pequenos gestos

por Pedro Correia, em 05.06.11

José Sócrates e Paulo Portas saudaram publicamente o vencedor da noite, Pedro Passos Coelho. Outros dois líderes partidários, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, não o fizeram - pelo menos que eu tivesse ouvido em directo nas televisões. Há pequenos gestos que dizem muito sobre o espírito democrático dos políticos e sobre a forma como encaram o veredicto popular expresso nas urnas.

 

ADENDA: Leitor atento avisa-me, nesta caixa de comentários, que Louçã também dirigiu palavras de parabéns ao vencedor. Fica feita a rectificação.

Avivar a memória (2)

por Pedro Correia, em 03.06.11

 

O que escrevi sobre Francisco Louçã:

 

13 de Agosto de 2009: «[É] um dirigente político que nunca foge da polémica. Concorde-se ou não com o que defende, há um mérito que lhe deve ser reconhecido: nunca se refugia nas meias palavras nem nas meias-tintas. Um atributo cada vez mais raro na cena política portuguesa.»

 

11 de Fevereiro de 2011: «A segunda - e decisiva - estocada foi dada ontem [a Manuel Alegre] por Francisco Louçã ao anunciar no Parlamento a primeira moção de censura pós-presidenciais ao Governo socialista, deitando por terra toda a estratégia de convergência das esquerdas que Alegre tentara construir nos últimos dois anos como plataforma para a sua candidatura presidencial. Por mero tacticismo político.»

 

12 de Maio de 2011: «Bloco e PCP convergem hoje no essencial: são do contra. Contra o Governo socialista, contra a alternativa à direita, contra a intervenção do FMI em Portugal, contra o memorando de entendimento com a União Europeia, contra o programa de privatizações, contra o pagamento da dívida pública sem uma renegociação imediata.»

Efeito do debate?

por José Maria Gui Pimentel, em 23.05.11

Estava curioso para ver esta sondagem, a 5ª das 8 programadas pelo Público. É certo que parte da amostra foi recolhida antes do debate. É também certo que se trata de uma sondagem, com todas as suas limitações. Mas creio que não será abusivo dizer que sugere o efeito do debate de sexta-feira. As evoluções do PS e do CDS parecem-me, assim, naturais. Já as perdas do BE e, sobretudo, desse paradigma da constância que é o PCP parecem-me reflexo de alguma volatilidade inerente à amostra (que suponho ser variável). Até porque Louçã teve um bom desempenho nos debates, e esteve bem no final da pré-campanha, por exemplo, ao levantar o tema da reestruturação da dívida (que, de resto, é uma sugestão bastante razoável, ao contrário do que Sócrates quer fazer parecer). 

O grande mistério

por José Maria Gui Pimentel, em 21.05.11

 

A postura do Bloco de Esquerda nos últimos meses é para mim de difícil compreensão. Estas eleições deveriam oferecer ao partido uma margem de progressão nunca antes obtida. Nunca poderia prever que o Bloco estivesse em risco de ficar abaixo do resultado obtido em 2009.

O cenário pré-eleitoral era o seguinte: de um lado o PCP, com uma massa de votantes absolutamente rígida e, em muitos casos, com um ódio visceral ao BE (como antes ao PCTP-MRPP); de outro um PS, que, depois de seis anos no governo (particularmente depois deste último ano), mais do que nunca, havia perdido a sua imagem de partido “socialista”. Estavam, por conseguinte, em campo todas as condições para que o BE se sentisse seguro para fazer uma incursão na área socialista, sem medo de ver o seu espaço à esquerda roubado pelo PCP.

Todavia, Louçã, noutras alturas tão arguto, optou pela estratégia oposta: acantonou-se na extrema-esquerda, quase sobrepondo-se ao PCP (ainda gostava de saber porque é que ninguém perguntou ainda a Louçã o que diferencia o BE do PCP – sim, a Louçã, pois o PCP está, para o bem e para o mal, quieto há 37 anos). Esta conduta é incompreensível, pois impossibilita o crescimento do partido. Louçã deveria saber que os votantes de extrema-esquerda em Portugal são em número limitado (embora até seja de admitir que possam ter crescido um pouco com a crise), e o facto de, até agora, terem chegado para dividir com o PCP em fatias de tamanho razoável já é, por si só, algo sem comparação a nível europeu.

Esta conduta permitiu a Sócrates – sempre atento a estas coisas – explorar o espaço deixado livre à sua esquerda, ao mesmo tempo que mantinha o PSD colado à direita, acusando-o de radicalismo.

Para esta estratégia infrutífera do BE encontro apenas três explicações possíveis. A mais provável prende-se com o trauma Manuel Alegre, que ainda deve fazer Louçã acordar durante a noite com suores frios. A colagem ao PS foi aqui, de facto, prejudicial ao BE. Todavia, a situação actual é diferente. Não se trata de uma aliança ao PS, mas antes de seduzir a sua ala esquerda, deixando o discurso radical, que transmite uma ideia fatal em que muitos portugueses de esquerda ainda se recusam a embarcar: irresponsabilidade.

O ponto de inflexão na conduta do BE terá sido talvez a recusa em negociar com a troika. Louçã poderia perfeitamente ter-se encontrado com os negociadores, isso não o obrigaria a aceitar o memorando. Porventura dar-lhe-ia, agora, até mais autoridade para o criticar, ao mesmo tempo que permitia traçar algumas diferenças em relação ao PCP. Carvalho da Silva, por exemplo, reuniu com a troika. E não me parece que tenha perdido com isso reputação.

Uma explicação alternativa prende-se com aquela fobia inveterada à governação que muitos identificam ao BE e o consequente medo de poder ser visto pelos eleitores como fazendo parte do chamado “arco da governação”. Com efeito, não traria apenas vantagens ao BE sair da sua actual posição confortável de partido de protesto.

A última explicação que encontro é bem mais lisonjeira para Louçã, porém menos provável. Terá Louçã, na verdade, percebido o potencial de uma aproximação ao centro, apenas tendo decidido não a fazer porque o seu núcleo duro não está disposto a afastar-se do radicalismo que defende apenas com objectivos eleitorais? Talvez, mas nesse caso regressamos à ideia inicial: o que distingue o BE do PCP?


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