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Delito de Opinião

Conselheiro de Estado

jpt, 30.03.20

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1. Num dia indignamo-nos com as declarações de um ministro holandês sobre as finanças do Estado espanhol, em plena crise desta temível pandemia.

2. No dia seguinte, o Professor Francisco Louçã, conselheiro de Estado e vulto-mor da esquerda "urbana" diz-nos, sobre a referida temível pandemia, que "A Alemanha gosta desta situação", pois "beneficia com estas crises". A tal "esquerda urbana" que o subscreve, e tantos deles seus colegas, anuiu pelo silêncio e - imagino, pois sigo confinado - num "o Louçã tem razão, sim senhor ...".

3. No dia seguinte suicida-se Thomas Schafer, ministro das finanças de Hesse, um dos estados da Alemanha Federal, e seu provável futuro ministro-presidente. Pois, e para além de outros hipotéticos problemas pessoais, se encontrava avassalado com os efeitos económico-financeiros desta ... temível pandemia.

Conselheiro de quê? ..

As coisas mudam

Pedro Correia, 30.10.19

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Revi-me há dias nesta imagem de arquivo no Jornal da Noite da SIC. Estava sentado na bancada de imprensa da Assembleia da República com os meus colegas Nuno Simas e Paula Sá - os três em representação do Diário de Notícias. No primeiro dia da legislatura 1999/2002, há 20 anos exactos.

À nossa frente, dois deputados caloiros: Francisco Louçã e Luís Fazenda. Acabavam de ser eleitos e recusaram sentar-se numa segunda ou terceira fila, como figuras adjacentes da bancada parlamentar comunista. O PCP não queria dar palco político e mediático àquele jovem partido que prometia crescer à custa de fatias cada vez mais dilatadas do seu eleitorado.

Louçã e Fazenda teimaram em permanecer de pé, recusando os postos secundários que lhes haviam sido destinados por consenso dos imobilistas que dominavam no Parlamento - mesmo os da autoproclamada esquerda, tão avessos como os outros à mudança. E fizeram muito bem. Viriam a ter os lugares que reivindicavam: um na primeira fila, o outro atrás dele. Em lugar nobre do hemiciclo e perto dos focos mediáticos. Não podiam, aliás, estar mais perto: a bancada da imprensa é logo ali.

 

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Revejo com certa nostalgia esta foto do meu tempo de repórter parlamentar, onde surge Lino de Carvalho, qualificado deputado comunista, tão prematuramente desaparecido. Parece que foi anteontem e já nos transporta ao século passado. Estreantes no hemiciclo, Louçã e Fazenda vestiam a rigor, ambos com fatinho de deputado: a única nota de rebeldia, que na altura gerou imenso clamor, foi a ausência da gravata - prenunciando o que o Syriza, na Grécia, fez 16 anos mais tarde e o deputado da Iniciativa Liberal faz hoje em São Bento, duas décadas volvidas.

Basta esta imagem fixada no tempo para se perceber como os padrões de vestuário mudaram entre as vetustas paredes do Palácio de São Bento. Falta pouco para vermos deputados de chinelos. Alguns equipam-se mais a rigor quando vão para a esplanada do que quando chegam ao Parlamento. Embora exijam - estou certo disso - code dress num posto clínico, numa esquadra, num tribunal ou até num daqueles restaurantes caros e péssimos que costumam frequentar.

O modo como nos vestimos diz muito do nosso respeito pela casa que visitamos - respeito suplementar tratando-se de uma instituição angular da democracia portuguesa. No caso dos jornalistas, acresce que - como um dia disse a um colega mais jovem, quando o vi em São Bento de sandálias e calções - não estamos ali em representação própria, mas do órgão de informação em que trabalhamos. Razão acrescida para salvaguardar a imagem desse título jornalístico: naquele momento, naquele local, ele é personificado em nós.

Fala-se muito na degradação dos trabalhos parlamentares, evidenciada pela fraca qualidade média dos deputados. Essa degradação começa nos padrões de vestuário. Anda tudo ligado, como dizia o outro.

 

3

Esta imagem reconduz-me também a um episódio da vida jornalística que demonstra como a inércia é uma força muito poderosa nas redacções dos jornais. Quem assumia então responsabilidades na secção política do DN entendeu distribuir equipas de trabalho para cobrir a campanha eleitoral de 1999 em obediência ao cânone tradicional: PS, PSD, CDS e PCP.

Quando perguntei, numa reunião, quem iria acompanhar o BE, obtive uma resposta burocrática: «É irrelevante. Seguimos pela Lusa.» Contestei, argumentando que o recém-surgido Bloco iria ser a novidade daquelas legislativas. E lá voltou o contraponto burocrático: «Nem pensar. É um epifenómeno, mero folclore eleitoral.»

Insisti. Como o Parlamento estava fechado, ofereci-me como voluntário para cobrir as acções de campanha do BE. E lá andei na rua, acompanhando a ainda incipiente caravana bloquista, cada vez mais convicto de que a razão estava do meu lado. Como se viu. O novo partido não se limitou a eleger um solitário representante, como noutros tempos sucedeu com a UDP ou o efémero Partido da Solidariedade Nacional de que já ninguém se lembra, mas dois deputados - requisito mínimo para constituir grupo parlamentar. E aquela legislatura revelou-se crucial para o seu crescimento.

Foi, aliás, uma legislatura histórica desde o primeiro dia - a que decorreu sob o signo 115-115, quando o número de deputados apoiantes do Governo se equivalia ao dos representantes da oposição todos somados, o que acabou por ditar o seu fim prematuro.

 

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Lembro este episódio e concluo que nestes últimos 20 anos, nas redacções jornalísticas, só se mudou para pior. Desde logo pela flagrante falta de meios em comparação com os que existiam em 1999.

Voltaram a imperar as rotinas burocráticas, voltou a evidenciar-se a falta de rasgo na cobertura de campanhas eleitorais, voltou a apostar-se só no que já se conhecia. Quase nenhum meio informativo acompanhou em pormenor as acções de campanha das três forças políticas emergentes das legislativas de 6 de Outubro: Chega, Iniciativa Liberal e Livre. Imagino que alguns repórteres terão ouvido, nas respectivas redacções, os mesmos argumentos que eu ouvi há duas décadas das chefias de turno: são epifenómenos, não chegarão a lugar algum.

E no entanto as coisas mudam. Basta por vezes vermos uma foto antiga para percebermos isto.

De olhos bem fechados

Pedro Correia, 23.02.19

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«Há um perigo na Venezuela», onde um tirano proto-comunista, cabeça de turco de uma ditadura militar, não hesita em mandar atirar contra o povo, condenando-o à doença e à fome, perante a indignação universal.

Universal? Nem tanto. Ainda não li nenhum texto indignado contra Maduro subscrito em conjunto por Freitas do Amaral e Francisco Louçã, semelhante ao que publicaram há dois meses no El País em vigoroso alerta contra Bolsonaro. Quanto à Venezuela, continuam de olhos bem fechados.

Jornalismo ZEN.

Luís Menezes Leitão, 03.07.17

Confesso que não tenho paciência nenhuma para assistir a políticos travestidos de comentadores. O comentário pressupõe distanciamento sobre o que se comenta, o que alguém envolvido no combate político manifestamente não tem. Mas em Portugal entrou na moda os políticos com ar mais senatorial vestirem o fato de comentadores. Foi assim sucessivamente com Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, José Sócrates, Marques Mendes, Santana Lopes e Francisco Louçã. Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso. Marcelo Rebelo de Sousa construiu laboriosamente a sua campanha presidencial na televisão e José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito.

 

Mas o que me choca mais não são esses espaços de verdadeira propaganda política, que as televisões permitem, e que já se sabe que esses políticos aproveitarão no seu próprio interesse. O que me preocupa é a figura do jornalista ali presente que, ou faz de ponto, ou assiste passivamente a autênticas manipulações sem fazer a mínima correcção ou esclarecimento ou sequer uma simples pergunta. Com a honrosa excepção de José Rodrigues dos Santos, que muita polémica deu, os jornalistas alinham pacificamente nestas verdadeiras operações de propaganda.

 

Vem isto a propósito do momento ZEN de Francisco Louçã, em que ele resolveu comparar as questões de Assunção Cristas no parlamento sobre o combate aos fogos com declarações anteriores da mesma de que, como pessoa de fé, aguardaria pela chuva. O problema é que essas declarações de Assunção Cristas, proferidas em 21 de Fevereiro de 2012, eram relativas à seca e não aos fogos, que não se verificam no pico do Inverno. Quem referiu que a chuva poderia combater os fogos foi Catarina Martins, mas sobre ela obviamente que Louçã não abre a boca.

 

Não me espanta nada que Louçã use o seu espaço televisivo para operações de manipulação, uma vez que nunca esperei dele outra coisa. O que me espanta é que esteja uma jornalista presente a permitir esta operação sem um único comentário ou questão ao entrevistado. É com este tipo de jornalismo ZEN que a comunicação social vai perdendo credibilidade.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 26.08.16

«As coisas correram pessimamente ao Governo durante o mês de Agosto. Pelo caso da GALP e pela forma muito amadora como pareceu ser tratada a escolha da administração da Caixa Geral de Depósitos e depois a sugestão de uma proposta de lei para favorecer pessoas especificamente - isso é uma coisa que não se faz. (...) A economia está estagnada. (...) Era preciso haver melhores notícias para os salários, para as pessoas, para o investimento, para o emprego.»

Francisco Louçã, na SIC Notícias

Sobre o manifesto (9)

Pedro Correia, 24.03.14

Vamos brincar à demagogiazinha

Pedro Correia, 10.11.12

Não sei se havia pobres na convenção do Bloco de Esquerda que hoje elegeu uma liderança bicéfala (ou paritária, em politiquês correcto). Mas, segundo os relatos da imprensa, não faltaram vaias à presidente do Banco Alimentar contra a Fome, um dos organismos que mais tem socorrido os pobres em Portugal - não com palavras mas com actos concretos, generosos, solidários. Os verdadeiros pobres, os de carne e osso - não os pobres dos discursos destinados a aliviar boas consciências e a desempoeirar a ideologia - sabem a que porta hão-de bater quando precisam. E o Banco Alimentar contra a Fome é uma delas.

"Sei que nos chamam radicais por querermos correr com a 'troika' desde o dia zero. E agora quando vemos uma senhora do movimento nacional feminino [Isabel Jonet] a brincar à caridadezinha o que lhe vão chamar?", disse Francisco Louçã na sua última intervenção como líder do Bloco, numa das tiradas mais demagógicas que alguma vez lhe ouvi e em nada condizente com o seu recente discurso de renúncia como deputado à Assembleia da República.

É demasiado fácil, para um político tão bem-falante como Louçã, fazer demagogia com alguém que não se distingue pelo dom da palavra mas pela dádiva do seu exemplo. Seis minutos de declarações inábeis, num debate em directo na televisão, não podem apagar 20 anos de serviço à causa pública. "Aproveitar onde sobra para distribuir onde falta" num país onde um quinto da população vive abaixo do rendimento mínimo é o lema do Banco Alimentar, distinguido em 2005 - por unanimidade - com o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República.

Nessa altura, não consta que Louçã e os seus pares tivessem assobiado Isabel Jonet.

A elegante despedida de Louçã

Pedro Correia, 25.10.12

Acompanhei o percurso de Francisco Louçã desde os primeiros passos que deu como deputado, era eu repórter parlamentar, e bem cedo percebi que estava perante um político que marcaria as legislaturas seguintes. Assim foi. O coordenador do Bloco de Esquerda, que em breve cessará estas funções, distinguiu-se como uma das vozes mais qualificadas da Assembleia da República, adversário temível de cinco primeiros-ministros (de António Guterres a Pedro Passos Coelho) e um hábil cultor do verbo parlamentar ao longo de 1012 intervenções - ao nível dos melhores tribunos que já desfilaram pelo púlpito de São Bento. Não é necessário ser simpatizante do BE para reconhecer esta evidência.

Treze anos depois da estreia, Louçã decidiu hoje pôr termo à sua vida parlamentar com uma inesperada declaração aos jornalistas, no estilo contundente a que nos habituou mas com um traço de emoção que costuma estar ausente das suas intervenções públicas.

"Quero deixar cristalinamente claro, sobretudo hoje, que não cedo em nenhum momento, nem um milímetro que seja, a qualquer populismo antiparlamentar. E por isso quero afirmar-vos a minha verdade: encontrei neste parlamento homens e mulheres extraordinários, adversários extraordinários. E eu respeito os meus adversários que são fiéis ao seu programa e ao mandato pelo qual foram eleitos. Por isso mesmo reafirmo convictamente que quem quer beneficiar do populismo que grasse na sociedade para ter algumas vantagens terá sempre a minha frontal oposição. É um crime antidemocrático deixar diminuir ou deixar corroer o pluralismo político - e nunca podem contar comigo para isso", afirmou.

Palavras importantes. Por expressarem uma confiança inabalável na instituição parlamentar e uma recusa intransigente da demagogia rasteira que ameaça minar a democracia representativa nos mais diversos recantos da Europa, já tão esquecida das lições das duas grandes guerras.

Não sei se o Louçã de 1999 teria falado assim. Mas é importante que o Louçã de 2012 se pronuncie desta forma no momento em que se despede do Parlamento, renunciando às funções de deputado para que foi cinco vezes eleito. Com palavras de apreço pelos adversários num momento em que faltam gestos de civilidade na crispada política portuguesa. Palavras que deviam generalizar-se, agora e sempre, contra o espírito de trincheira que nos impede de reconhecer mérito a quantos não pensam como nós.

Louçã, o Rei Momo de 2012

Rui Rocha, 05.02.12

A tradição já não é o que era. Já se sabia. Agora o que não se esperava é que Jardim, candidato natural a rei de todos os carnavais, fosse destronado no Entrudo de 2012 por Francisco Louçã. Todavia, esta frase permite entronizá-lo como Rei Momo indiscutível dos carnavais deste ano:  “A existência de uma tolerância de ponto, de um dia em que não se trabalha no Carnaval, é um direito das pessoas, não é um baile, é um direito das pessoas fazerem o que querem, é um dia em que não são obrigadas a trabalhar de graça pela força do Governo”. Não se trata do acto revolucionário de exigir o respeito pelos direitos adquiridos. Não. Agora entramos numa fase mais avançada da luta. A do respeito pelas tolerâncias adquiridas. A tolerância é um direito. Se tudo correr bem, a expectativa, mesmo a mais carecida de protecção, vai tornar-se um dia um direito potestativo. No mínimo, será protestativo. Saliente-se, entretanto, que o Carnaval não é um baile. Registado. Não sei bem o que será. Mas, qualquer mente progressista, com um lenço tipo Arafat ao pescoço, estará em condições de afirmar que é uma manifestação cultural. O Estado paga 50.000.000 por ano para subsidiar filmes que são vistos por 2.000 pessoas? Então o Carnaval, cultural como só ele, também deve ser subsidiado. Para quê? Para investir em carros alegóricos, pagar aos cabeçudos e dar umas mamas novas (que não sejam PIP) às gajas despidas que vão nos cortejos a bater o dente. Mas, a vertigem destrambelhada continua:  o Carnaval é um dia para as pessoas fazerem o que querem. Por exemplo, Louçã quer armar-se em patarata com pose e pretensão moralista. Pode. É Carnaval. Ninguém leva a mal. O problema não está no que faz nesse dia, mas no que diz ao longo do resto do ano. Entretanto, para o final está reservado o melhor: as pessoas são obrigadas a trabalhar de graça pelo Governo. Claro que alguém que não pretenda andar disfarçado de palhaço responderá que as pessoas têm um salário mensal. E que, se é assim, cada uma delas que vai ao Carnaval está a obrigar quem lhes paga a que o faça sem a contrapartida natural: o trabalho. Aliás, como o David Levy refere, por cada dia de tolerância, o Estado paga 700.000 dias de salário para nada receber em troca. 700.000 dias de salário para financiar o Carnaval de Ovar, de Loulé, do Funchal e do CaraçasMaisVelho. A menos que me queiram convencer que 1 dia de trabalho de 700.000 funcionários públicos não tem utilidade, a conta sai baratinha. Ainda veremos alguém decretar Carnaval todo o ano para estimular a economia. Ou me engano muito, ou será Louçã. 

Os animais são nossos amigos

Rui Rocha, 10.10.11

 

Caro Francisco Louçã,

 

Imagino-o  a viver um momento difícil depois dos resultados eleitorais na Madeira. Não deve ser fácil ficar atrás do Partido da Terra. E do Partido dos Animais.  Mas, que diabo, homem. Anime-se, vá. Eu bem sei que perdiz derreada perdigotos guarda. Mas, não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera. E o meu amigo bem sabe que o primeiro milho é para os pardais. Esta coisa do Partido dos Animais parece-me pouco sustentada. Ou me engano muito, ou temos caso de entradas de leão e saídas de cordeiro. É claro que quando as coisas começam a dar para o torto, todo o mal aparece. Já diz o ditado que quando ao gavião cai pena, não há mal que não lhe venha. E é bem verdade, olá se é. Mas, isto não há como enfrentar as dificuldades. Por certo, já ouviu dizer que a burro velho, albarda nova. E vamos à vida que ela foge. Sempre com a devida cautela, claro. Parar e pensar um pouco nunca fez mal a ninguém. Bem fazem as gaivotas. Quando há tempestade no mar, é vê-las em terra. E a verdade é que macaco velho não põe o pé em ramo seco. E a galo que canta a desoras, faca na garganta. Enfim, dando tempo ao tempo, tudo se irá compondo e as suas qualidades políticas virão ao de cima: quando cantam os melros, calam-se os pardais! E V/, bem o sabemos, tem sete manhas como a raposa e sete vidas como os gatos. Agora, o que não pode é desanimar e virar a cara à luta. Lembre-se que gato de luvas não caça ratos. E, nesta coisa da política, é essencial gerir o tempo e o modo. Se é certo que cão que ladra, não morde, também é verdade que quem cala consente. Bem, aqui estou eu a ensinar o conto ao vigário. Salvo seja. No fundo, o que lhe queria transmitir era a minha solidariedade. O que importa é manter os pés bem assentes na terra. O resto, virá a seu tempo. O meu amigo é um animal político e pássaro que na ribeira se cria sempre por ela pia. Bom, aqui lhe deixo o meu abraço amigo. E já sabe, se por acaso vir que precisa de desabafar, apite. Podemos sempre ir ver as novas crias de suricata ao Jardim. Zoológico.

Bloco: é hora de virar a página

Pedro Correia, 22.06.11

 

O Bloco de Esquerda foi arrasado nestas legislativas: perdeu metade do grupo parlamentar - incluindo o líder da bancada, José Manuel Pureza - e metade dos votos expressos na eleição de 2009. Deveria ser motivo para uma análise exaustiva das causas que levaram ao fracasso de uma força eleitoral em que tantos viam um factor fundamental de renovação da esquerda portuguesa. E não faltam vozes a reclamar esse debate, incluindo as do Daniel Oliveira e da Joana Amaral Dias. Hoje, em entrevista ao i, Miguel Portas deu um passo em frente, admitindo que "o tempo dos fundadores [do BE] enquanto dirigentes de primeira linha está esgotado".

Estranhamente, porém, a direcção do Bloco resiste em fazer uma autocrítica à altura dos acontecimentos - como se a esmagadora maioria dos dirigentes do partido se conformasse com esta hecatombe eleitoral, como se ela se inscrevesse na ordem natural das coisas, parecendo fora de hipótese a convocação de uma convenção extraordinária, sob o caricato pretexto de que ocorreu uma há poucas semanas. Como se as reuniões extraordinárias não devessem acontecer precisamente quando se produzem circunstâncias extraordinárias e como se o pano de fundo político em que ocorreu a convenção anterior não se tivesse alterado substancialmente.

O BE enfrenta um dilema estratégico que terá de solucionar a curto prazo. Sem implantação autárquica, com escassas ramificações no mundo sindical, tendo visto esgotada a agenda de "costumes" que utilizou para agitar a sociedade portuguesa na última década, tem agora de responder seriamente à seguinte pergunta: pretende contribuir ou não para uma alternativa de governo em Portugal?

 

Nos últimos meses, como aqui oportunamente assinalei, o BE cometeu erros lapidares. Que devem ser dissecados sem ambiguidade de qualquer espécie.

Eis os principais:

- Abdicou de uma candidatura própria à Presidência da República, apostando tudo em Manuel Alegre com o objectivo óbvio de dividir os socialistas. Falhou estrondosamente nesta estratégia.

- Para tentar corrigir o erro anterior, cometeu outro: mal os votos das presidenciais tinham sido contabilizados, avançou com uma moção de censura ao governo socialista na Assembleia da República. Tudo soava a falso nesta moção: semanas antes, bloquistas e socialistas tinham descido juntos o Chiado no apoio a Alegre. Chamei-lhe, logo na altura, o maior tiro de pólvora seca do ano político português. Creio não me ter enganado.

- Fracassada a aposta presidencial e votada à irrelevância a moção de censura, o Bloco ensaiou nova fuga em frente copiando a intransigência do PCP quando Portugal recebeu a delegação da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI. Os comunistas recusaram uma audiência com esta delegação e os bloquistas adoptaram a mesmíssima atitude, sem sequer uma divergência de pormenor. Em clara dissonância com boa parte do seu eleitorado, que não se confunde - nem nunca se confundiu - com o do PCP. "A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista", escrevi aqui a 27 de Abril, criticando a posição do Bloco. Louçã demorou quase dois meses a reconhecer o erro. Miguel Portas, na excelente entrevista concedida ao Nuno Ramos de Almeida, vai hoje mais longe, apontando na direcção correcta: "A nossa decisão foi culturalmente arrogante e sobrestimou a capacidade de indignação da sociedade portuguesa e subestimou o medo em que a sociedade mergulhou com os níveis de desemprego e insegurança que a atingiram."

 

O Bloco não pode cometer o erro dos partidos tradicionais, que se fecham sobre si mesmos nos momentos do desaire. O aparelho bloquista, numa reacção instintiva, recusa debater com a profundidade que a situação exige a derrocada eleitoral do dia 5. Mas há um problema de fundo que o BE tem de resolver: ou se contenta em ser uma cópia do PCP, o que o condena à extinção a curto prazo, ou se assume como parceiro de soluções governativas à esquerda, o que implica fatalmente um diálogo com o PS. Esta tem vindo a ser a solução defendida por uma corrente de opinião minoritária do Bloco e ficou notavelmente expressa num texto de Rui Tavares divulgado no Público, a 7 de Junho, sob o título Período de reflexão. Tavares, veterano compagnon de route do BE, acaba de romper com o partido que representava até agora no Parlamento Europeu, como deputado independente. Isto não invalida - antes reforça - o interesse pela leitura daquele artigo. Aconselho que o leiam: merece reflexão de todos quantos se interessam por política, seja qual for o quadrante em que se situam.