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Emudecendo consoantes

por José António Abreu, em 07.03.16

Aprecio Francisco José Viegas. Não apenas os três livros dele que li ou os textos de blogue; também a postura, firme mas serena, de quem ainda sabe degustar as coisas que lhe agradam (imensa gente parece hoje mergulhada num frenesim de prazeres efémeros). Abomino nele a defesa de primeira hora do Acordo Ortográfico. O mesmo Acordo (o exacto Acordo) que o leva a tão depressa clamar contra o «apedrejamento» da Língua Portuguesa como - num texto em tudo o resto sublime - escrever «inteletual».

Um tiro pela culatra

por Rui Rocha, em 16.02.13

As palavras de Francisco José Viegas têm, pelo menos, a vantagem de demonstrarem que já está melhorzinho e que os problemas de saúde que o afastaram do governo estão superados. Com excepção, eventualmente, de uma Síndrome de Tourette em estado embrionário. Todavia, para lá disso, digo que não trazem nada de novo. Quando muito, trata-se de acrescentar à evasão fiscal uma sugestão de invasão do fiscal. Mais, se virmos bem, as referidas palavras inserem-se não onde os amigos estão a pensar, mas numa longa tradição portuguesa. A de demonstrar força com os fracos e de baixar as calças perante os fortes. Repare-se que a recumendação de Viegas, comunicada a Paulo Núncio, se dirige afinal aos inspectores da autoridade tributária. Viegas não concorda com mensagem. Mas não mata o Núncio. Muito menos quem está acima dele. Em vez disso, manda foder o mensageiro. Aliás, já se sabe que estas coisas estão sempre na cabeça; para o que aqui importa, na de Passos e na de Gaspar. Se as cabeças destes não têm juízo, que sentido faz que seja o corpo de um inspector a pagar? Na verdade, Viegas confunde a questão de fundo com o fundo das costas dos funcionários. O cu com as calças. No que diz respeito a Passos e a Gaspar, Viegas cala-se. Mete o rabinho entre as pernas. São assim as indignações típicas da portugalidade. Sempre dirigidas ao acessório, à arvore, sempre perdendo de vista a floresta. A indignação pelo tostão da factura enquanto o problema fundamental dos milhares de milhões do esbulho fiscal permanece. No caso, a indignação do cu pró níquel. O problema das declarações de Viegas não é terem sido feitas num registo, digamos, pouco curial. É, sobretudo, o de traduzirem um tipo de indignação desviada do essencial que é representativa, antes de mais, de uma questão cultural. E que acaba sempre por redundar num monumental tiro pela culatra.

 

O insulto

por João Campos, em 14.02.13

O célebre post de Francisco José Viegas que anda a correr os jornais e as redes sociais é sintomático, sim, mas não de uma qualquer má educação. Vamos lá ver: em Portugal, a quem é que ocorre dizer "vá tomar no cu" no dia-a-dia? Nenhum adepto manda o árbitro "ir tomar no cu" quando o pénalti claríssimo ficou por assinalar. Nenhum cidadão manda um Ministro das Finanças "ir tomar no cu" quando os impostos aumentam. Nenhuma pessoa normal - excepto Francisco José Viegas, pelos vistos -, em situação alguma, mandaria outra pessoa ir "tomar no cu". Note-se como até no insulto os nossos políticos - ou, no caso, ex-políticos - vivem desligados do país real e dos cidadãos. 

 

De resto, convenhamos que como insulto a expressão utilizada é incomparavelmente mais ridícula para quem a profere do que insultuosa para o eventual destinatário. "Tomar no cu"? A sério? Já chegámos a este ponto? Já nem insultar sabemos? 

Respeitinho é muito bonito

por Leonor Barros, em 14.02.13

O ex-Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, diz aos fiscais da Autoridade Tributária e Aduaneira para ir tomar no cu. Relvas diz que respeita as opiniões de qualquer ex-membro do Governo. Alguém pediu o prolongamento do Carnaval?

Governo mais pobre

por Laura Ramos, em 24.10.12

 

Francisco José Viegas pediu a demissão do cargo de Secretário de Estado da Cultura, cujas funções deixará de exercer no final deste mês.

Isto, sim, é um empobrecimento sem retorno.

Trabalhou diligentemente e sem queixumes com um orçamento franciscano.

E deixa agora a marca profunda  da sua forma de ser discreta, activa e determinada.

A mesma com que aceitou representar um pelouro formalmente diminuído e com que soube  ignorar inteligentemente os flatos dos fundamentalistas ofendidos e a soberba das Castafiore petulantes, cortando cerce os golpes de opereta que, sim... também pululam pelo pelo meio do trigo da  cultura nacional, como todos sabemos.

Isso mesmo: Francisco José Viegas combateu várias coisas importantíssimas, mas guerreou como ninguém o vácuo enganador das aparências.

Esperemos vê-lo de retorno à blogosfera de autor, depois de uma recuperação rápida, que bem merece.

Nada de confusões

por Laura Ramos, em 04.07.11

 

Não sei se este é, ou não, um caso de mau jornalismo.

O que sei, com toda a certeza, é que um acontecimento destes é absolutamente normal em democracia e assim deveria ser interpretado.

Por isso, apresentá-lo com contornos de escândalo seria, de facto,  um péssimo serviço à pedagogia crítica que os jornalistas deverão ser os primeiros a exercer numa sociedade evoluída (se não for esta a exigir-lo deles).

 

Num estado de direito, o facto de um cidadão ser penhorado pelo fisco - muito provavelmente, assaltado pelo fisco, a coberto do privilégio de execução prévia -, não é notícia: é o cão morder o dono.

 

O que nos devia preocupar não é que o fisco exerça o seu papel e o cidadão se defenda, recorrendo aos meios legais que tem ao seu dispor. Estão em causa actos do quotidiano normal, eticamente neutros, contabilisticamente relevantes, em que a soberania do estado gera uma enorme desproporção de forças entre a administração e o contribuinte.

 

O que nos devia preocupar, sim, são os casos em que o cidadão assalta o Estado, longe dos nossos olhos tapados, quando o império da lei e da nação,  subitamente e como por milagre, desaparece.
O que nos devia preocupar é que possam, eventualmente, voltar a acontecer casos como este, e este.
E este, e este e este e este.

 

Isso sim, deverá ser notícia. O dono a morder o cão.


O nosso livro






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