Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Assombro e dor

por Pedro Correia, em 16.04.19

notre-dame-vii-1555350965.jpg

 

A sensação é de enorme consternação, de profunda tristeza. Direi mais: é de luto. Hoje, como centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, sinto-me enlutado. Pela perda irreparável da catedral das catedrais. Notre-Dame, que sobreviveu incólume a incontáveis guerras, escapou à carnificina de dois conflitos mundiais e em 1944 se manteve imune à desvairada ordem de Hitler, que queria ver Paris a arder, acaba de ser praticamente reduzida a escombros. No início da Semana Santa, num dia em que o Presidente francês anunciara um discurso à nação. 

Ver as imagens das chamas a devorarem o edifício medieval, jóia absoluta da arquitectura gótica, marco da espiritualidade universal, símbolo supremo da cultura cristã que é também matriz europeia, dilacera todos quantos algum dia ali haviam entrado - e fomos muitos, pois Notre-Dame recebia cerca de 13 milhões de visitantes por ano, gente de todas as crenças e todas as latitudes.

O mundo em que vivemos é um mundo em contínua perda de referências, que padece de uma confrangedora falta de memória. O pavoroso incêndio que destruiu Notre-Dame acaba de nos cortar mais um emblemático vínculo às gerações precedentes. Tudo se torna cada vez mais precário e descartável. Assente num passado sem vestígios, o futuro já nasce mutilado.

Notre-Dame, cujos alicerces são contemporâneos da fundação de Portugal, demorou quase dois séculos a ser erguida. Para a destruir bastaram duas horas. E nós a assistirmos, num silêncio impotente e magoado, feito de assombro e dor.

Nossa Senhora de Paris

por jpt, em 15.04.19

paris.jpg

À notícia do incêndio da Notre-Dame acorri à tv, deixando-me diante da (tão desiludida) France2. É uma desgraça, por tantos sentida como que se quase pessoal - "notre-dame" é como se a igreja de todos, verdadeiro nome próprio assim como se a tratássemos por "tu", muito  mais do que a catedral de Pedro, a romana, que traduzimos, dando-lhe assim a terceira pessoa. Coisa, ligação, um pouco devida a Victor Hugo mas mais ainda, até porque Hugo é mais falado do que lido, da época ainda recente em que Paris foi centro cultural do mundo, e depois turístico, "uma festa" alguém disse, ou talvez fosse mais um "simpósio" que o autor quisesse subentender, mas pouco importa agora, hoje, esse esmiuçar.

E logo me lembrei do "Paris Já Está a Arder?", o célebre livro tão marcante para a minha geração - e para a anterior. Tendo Hitler mandado arrasar a cidade na retirada de 1944, o generalato alemão, apesar dos constrangimentos que tinha - após o atentado a Hitler, e até talvez mesmo antes, as famílias dos oficiais superiores, eram reféns, e talvez isso tenha explicado o suicídio de Rommell -, recusou-se a cumprir essas ordens. Por isso ficou a cidade salvaguardada, imune aos catastróficos efeitos da II Guerra Mundial, ao invés de tantas outras cidades europeias, hoje pejadas de réplicas de um passado, sem "patine", algumas mesmo verdadeiros fantasmas - lembro sempre o meu espanto, numa era bem pré-internet, de tão menos informação detalhada, quando cheguei a Sofia: não havia nada antigo, um mono de arquitectura estalinista, e na qual os restos da velha e tão importante cidade romana cabiam na esplanada de um café lisboeta.

Venho aqui ecoar essas sensações e noto que Luís Menezes Leitão já explicitou as mesmas memórias. Não serei tão escatológico como ele. A F2, às 9 horas, já fala de reconstrução, mostrando espírito estóico, resistente, exemplo de ânimo. E ali se lembra como a catedral de Reims foi incendiada pelos bombardeamentos da I Guerra Mundial, e depois reconstruída.

Nesta desgraça ficam-me, assim em cima do momento, três pontos: a verdadeira irrelevância da "espuma dos dias", depois de ter cruzado este dia na expectativa da ansiada (pela imprensa francesa e belga) comunicação de Macron, programada para o fim do dia de hoje, prevista para culminar estes meses de verdadeira insurgência dos "coletes amarelos". Que interessará isso, agora? E a consciência, tantas vezes esquecida, do quão perecível é a (grande) obra humana, afinal o tal mero pó que a pó voltará, depois do catastrófico incêndio do Museu Nacional do Rio no ano passado e da demência fundamentalista em Palmira (e do saque do museu de Bagdad, aquando da queda de Hussein, cujas verdadeiros danos desconheço).

E um terceiro dado, pouco simpático para esta noite: todos os dias, há imensos anos, são devastadas áreas muitíssimos mais alargadas de floresta virgem do que a área da Nossa-Senhora de Paris. De modo irrecuperável, pois não passíveis de serem reconstruídas mesmo que sem a tal indizível "patine", como o será a catedral. Uma destruição rotineira e avassaladora que não causa qualquer comoção generalizada. Por mero, e catastrófico, antropocentrismo. Choramos, de modo lancinante até, o perecer da obra humana. E encolhemos os ombros ao devastar da obra natural. Divina, para tantos. Que depois se dizem, sabe-se lá porquê, crentes num desenho e desígnio divino.

Só um paupérrimo antropocentrismo pode justificar estas sensibilidades. Nada religiosas. E, mais do que tudo, verdadeiramente incultas. Por mais lágrimas répteis que finjam verter hoje.

(...)Não

por jpt, em 09.12.18

1994-bloqueio-na-ponte.png

Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de "genialidade" à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos "ocupas" americanos - o tal princípio - e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto "orgânico", lhes cumpre menos falar e muito escutar.

Enfim, talvez seja. Mas Steiner escreveu um dia que "já não temos inícios". E, por outro lado, a descrença no Apocalipse vem-se espalhando, pelo menos numa Europa relativamente livre dos evangelistas que se incrustaram no poder nos EUA e Brasil, e dos coranistas que pululam nas suas vizinhanças. 

Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. Sem ser preciso sms (nem sei se na altura havia telemóveis no país) ou similares formas de convocatória. O país cruzara uma década de enormes transformações, a redução da população no sector primário tinha sido gigantesca, enorme o incremento das condições de saúde e de educação, etc., coisas da entrada na CEE. Mas talvez ainda maior tivesse sido o crescimento das expectativas iludidas. Sabe-se o que aconteceu, de seguida o PSD foi derrotado. Tal como Cavaco Silva nas presidenciais e a sua carreira política terminou para sempre. Ou, pelo menos, assim se disse. 

Mas o que me é relevante é a memória de um brilhante texto de Pacheco Pereira, uma crónica num diário lisboeta - eu julgo que está publicado no seu livro "O Nome e a Coisa", mas não tenho comigo os meus livros; e googlei mas não encontro nem o texto nem qualquer referência - sobre a vida de um casal na Outra Banda, uma imensamente feliz forma de tentar consciencializar políticos e comunicadores da Boa Banda do "estado da arte" populacional. Para que pudessem entender, pelo menos alguns deles, parcelas do país que geriam e que desconheciam (e desprezariam, muitos deles com toda a certeza).

Não me vou meter a perorar sobre o conteúdo sociológico ou ideológico do Buzinão de 1994. Mas lembro-me do acontecimento por três coisas: talvez tudo isto não seja assim tão novidade, uma importação "born in USA", tão dependente de novas formas de entendimento da política, tão "movimento social". Que talvez o mundo, como o pensamos e sentimos, talvez não vá acabar, se calhar até ao fim do ano. E que sim, que são os "intelectuais" - mas muito dificilmente os avençados da Boa Banda - que podem falar, mostrando a opacidade que a partidocracia cria em seu torno, para se reproduzir. Assim fenecendo. 

E nada disto leva a concluir que as reclamações/propostas (essa amálgama teoria/prática que o conhecido antropólogo propõe como frutífera) destes "movimentos sociais" sejam "justas". De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais. E, em geral, são apenas um gritado, ululado, (...)Não. E de Nãos está o inferno a abarrotar.

Falta pensar. Estrategicamente. Este é um bom contributo.

 

O Frexit

por jpt, em 09.12.18

GJ.jpg

Um grande amigo veio ontem da África Austral a Paris, para uma actividade académica, e caiu na confusão, envia-me durante a noite uma mensagem sobre o caos. As coisas foram crescendo durante o dia, o Le Monde anuncia 130 000 manifestantes e vários confrontos.

Em Portugal, enquanto o "Verdes" do BE quer legislar sobre os provérbios (deixemo-nos de rodeios, depois desta iniciativa não há qualquer dúvida, o regime acabou, está é mal-enterrado), os ur-fascistas, os comunistas e os idiotas úteis rejubilam com a deriva francesa. Já se haviam meneado com os racistas catalães, bebido uns uísques com o referendo escocês, a este sentindo qual vingança do Ultimato. E, em cada grupo à sua medida, deliciam-se com a (re)emergência dos nacionalismos mais aguerridos, míticos ou místicos, tal como o flamengo, que depois de se dulcificar para entrar no poder foi perdendo apelo e que retoma agora o caminho "durão", ou os Faragismos avulsos. Seja porque simpatizam com essa via (os tais ur-fascistas), seja porque tudo isso simboliza esta "corja" que manda (e a faz estremecer), e é "porreiro" protestar com isso, cria público para os painéis televisivos e os murais de instagram/facebook, seja porque julgam contribuir para um "amanhã que canta", a que agora chamam "alterglobalização" ou outra tralha qualquer que sobreviva no "discurso correcto". 

Símbolo da coalizão estuporada que emerge, sedimentada na aversão à democracia representativa e no sonho de reviver no mundo colonial de XX, é este pequeno fait-divers. Uma colunista conhecida, nada de esquerda note-se, clama sobre a manifestação dos "coletes amarelos" que 80 por cento dos franceses os apoiam  - na bem mais pequena Lisboa há anos uma manifestação contra a austeridade, convocada por estes meios tecnológicos que se dizem agora novos, e sem instituições por trás, induzida rizomaticamente, congregou entre 150 000 e 500 000 pessoas (os números variavam imenso, consoante os locutores). Paris tem 5 vezes a população de Lisboa, grosso modo. Quererá isso dizer, por mera aritmética, que então 400 por cento dos portugueses (e estou a optar pelos números mais baixos) estavam contra o governo austero? A mesma colunista do Expresso, nada de esquerda, repito-me, traduz um texto literário elogiando os "coletes amarelos" - não registei o autor, mas pareceu-me ser de Dickens mas talvez seja do "Germinal" de Zola - e fá-lo publicar num blog da extrema-esquerda negacionista, daqueles falsários da história que negam o terrorismo comunista na democracia portuguesa e invectivam de fascistas os que se lembram (inventam, na versão deles) das FP-25.  É um pormenor que é pormaior, significando bem quem espera o esfrangalhar dos corroídos pés de barro das democracias europeias. Repito, os tais "ur-fascistas", os (neo)comunistas, os idiotas úteis, na maioria vindo da lumpen-intelectualidade, os colunistas da imprensa escrita, comentadores da radiotelevisão. 

Acima deixo cópia de um panfleto dos "coletes amarelos" franceses. Na lista de exigências ao poder, nítido ainda que confuso (oxímoro que é precioso para a mobilização política) programa de reforma do sistema político, é patente essa coalizão ideológica, dos extremismos políticos agora unidos: o controlo da imigração (questão dextra) junto ao fim da presença (neo)colonial em África (gauchisme puro), o fim da "ideologia na escola" (Bolsonaro à Paris) e dos plásticos e da influência farmacêutica (canhotices lite), etc. E se não tiverem paciência para ler (ou se vos for difícil o francês) vejam só o ponto 16 - inscrição na constituição da proibição do Estado intervir na saúde, no ensino, na educação, na família (Cela vous rapelle quelque chose?, ou seja does that ring a bell?). E depois, claro, o ponto fundamental para estas manifestações, o seu verdadeiro motor (e o que faz estes luso-grupos tanto disto gostar): o ponto 9, o Frexit. É esse o clímax que todos estes perseguem. Uns, muitos dos tais idiotas úteis, só querem estar na orgia. Mas os outros sabem bem ao que se ... deitaram.

Entretanto já recebo mensagens para uma manifestação de "coletes amarelos" portugueses, no 21 de Dezembro. Espero que a polícia, vigorosamente instruída nas suas recrutas, seja implacável. Recordo que estão presos cerca de 40 cidadãos há mais de seis meses, acusados de terrorismo, por terem combinado assaltar umas instalações desportivas e terem batido em 3 ou 4 profissionais de futebol. Quero saber se a administração interna do país tem a coragem para mandar prender, com a mesma intensidade, estes amarelos caso venham a fazer actos similares. Mesmo que esta imprensa os diga "vítimas". De um qualquer "contexto", social, globalizado, de "exclusão". 

Pois eu sou do Sporting e gosto muito do Bas Dost. Mas causar dois ou três pontos na cabeça (de oiro) do avançado holandês não é tão mais grave do que avançar para partir e pilhar a capital, causando até hipotéticos ferimentos em polícias ou civis. O Estado português só tem essa alternativa, se os mariolas se portarem mal é prendê-los como aquilo aquilo que a lei diz, "terroristas". E fazê-los apodrecer na prisão. E deixar as colunistas idiotas, seus aliados neo-comunistas e ur-fascistas a guincharem. Pois guinchos loucos não chegam ao céu.

 

De novo os coletes amarelos.

por Luís Menezes Leitão, em 08.12.18

France-«-Gilets-jaunes-».jpg

A situação em França demonstra bem o flop total que está a ser a presidência de Macron, como aliás já antes o tinha sido a presidência de Hollande. O movimento En Marche não passou de uma total mistificação, como se alguém que foi Secretário-Geral Adjunto do Presidente Hollande e depois Ministro da Economia no governo Valls pudesse representar alguma novidade em relação ao Presidente anterior. Tudo isto não passou de uma tentativa bem sucedida para travar Marine Le Pen, com a invenção de um novo partido, graças ao facto de a França ter um sistema eleitoral que permite a um partido com 1/3 dos votos ter 2/3 dos deputados. Mas essa alavancagem da representatividade eleitoral falha nas alturas decisivas e aí basta uma fagulha para deitar fogo à pólvora.

A fagulha foi neste caso o aumento dos combustíveis, que é um símbolo da constante tributação de um Estado cada vez mais voraz. Esse Estado persegue os cidadãos até ao tutano, de tal modo que até uma parvoíce de uns coletes amarelos os manda ter no carro, sob pena de multa. Não admira por isso que essa imposição de vestuário seja usada como sinal distintivo pelos cidadãos. Os coletes amarelos são hoje o substituto dos barretes frígios usados pelos que tomaram a Bastilha. E ninguém sabe como isto vai acabar.

Os tiagos amarelos

por jpt, em 03.12.18

Croisade_des_Pastoreaux_Britisch_Librairy.jpg

Ontem aconteceu uma enorme "marcha pelo clima" aqui em Bruxelas - não, não se andou a pedir reclicagem de papel ou reconversão dos sacos de plástico, as panaceias dos ecologistas folclóricos. E não, as pessoas não ficam aprisionadas aos ditos dos patetas da igreja do culto do mercado (esses que bolçam, tudo pejando de perdigotos fétidos, que o Mercado é virtuoso e o Estado demoníaco, pelo que qualquer intervenção sobre a iniciativa privada é pecaminosa pois nada desta decorrente ofenderá os desígnios perfeitos da Criação).

Na concentração final, no Parque do Cinquentenário (o desengraçado "arco do triunfo" local), lá apareceram alguns destes "tiagos amarelos", que agora se instalaram na moda. Não tinham nada a ver com aquilo - de facto são adversários de qualquer preocupação desenvolvimentista -, foram apenas atraídos pela multidão (talvez a ver se "pegava"), no vácuo mental em que vegetam. Na sexta-feira tinham-se concentrado nas cercanias do "bairro europeu" e arranjado alguma confusão, coisa de pouca monta (dois carros virados e incendiados) mas suficiente para soarem mais alto. A França é mesmo aqui ao lado e os francófonos, os valões, enfim, nunca querem deixar de aparecer ...

Mas lá por Paris de França têm arranjado maiores confusões. Diz que os impostos são altos, que andar de carro está mais difícil. O BE do sítio (um tipo insuportável de vácuo e cagança, Mélenchon) e Le Pen já apoiam - claro, tudo o que mexa é apoiável pelos radicais. Ao centro, o magnífico casal Hollande-Royal saiu do recato a que o ridículo o condenara, para sufragar a ralé. Os outros centristas, na ressaca do estertor do feixe partidário francês, também ulula os "û-lá-lá", a onomatopeia simbólica daquela republicana "sociedade de corte". O macronismo hesita e já negoceia com a turba burguesota.

Na minha pátria amada também as simpatias jorram. Não tem o "povo" sempre razão, contra o Estado demoníaco, contra o capitalismo, contra a globalização, a favor do Estado-Nação e iniciativa privada/revolução anarco-sindicalista e/ou neo-marxista? Apoie-se pois estas "jacqueries" do povo espoliado, sempre elas dotadas da razão histórica e da moral do sal da terra.

Quando estes tiagos, embrutecidos no seu desejo de manter o seu nível de vida burguesote, começarem, como sempre o fizeram na história, a queimar os "judeus" de hoje, alguns dos opinadores lá lamentarão os excessos. Mas realçando a justeza das reinvindicações (ainda que não se saiba bem quais são) e do mal-estar (ainda que não se perceba bem o porquê dele). Outros abordarão "sociologicamente" os trágicos acontecimentos, falarão da Santa Exclusão, assim invocando Nosso Senhor Contexto como causa. Pois a "explicação mágica", essa que tudo disseca e assim sossega, sempre é aclamada. Mesmo quando só serve para isso, para acalmar a ânsia de sossego.

A ver vamos se Macron se deixa de se esfregar em jovens rappers e resolve esta tiaguice como deve ser. Sem tibiezas. Deixando os patetas globais, e os nossos também, nos seus "û-lá-lás" patéticos.

A vandalização do Arco do Triunfo.

por Luís Menezes Leitão, em 03.12.18

668128.jpg

Eu até tenho alguma compreensão pelo protesto dos coletes amarelos contra a carga fiscal insustentável que o Estado cada vez mais faz recair sobre os cidadãos. Mas já acho absolutamente intoleráveis actos de destruição da propriedade pública e privada e especialmente actos de vandalização de monumentos nacionais, com o simbolismo do Arco do Triunfo. A isto a única resposta só pode ser a da força da lei. Como disse De Gaulle perante os protestos do Maio de 1968: "la République n'abdiquera pas".

Jornalismo "agit-prop"

por Pedro Correia, em 02.12.18

1176655-61842b8e-01ad-4cff-b0c1-6109c591bc47[1].jp

 

Ontem, como de costume, em quase todos os canais "informativos" portugueses só havia bola. Com "notícias" como esta: «Benfica supera a crise goleando o Feirense.»

Deslizei para os raros recantos onde ainda não chegara o futebol - que entre nós é considerado sinónimo de desporto, vá lá entender-se por quê.

Num desses poisos alternativos, logo na frase de abertura, evocava-se o agora falecido presidente norte-americano George Herbert Walker Bush dizendo logo na frase de abertura que tinha "liderado durante oito anos" o poder em Washington: bastaria uma rápida consulta à Wikipédia para perceber que Bush pai esteve apenas quatro anos na Casa Branca, entre 1989 e 1993.

Mas este "jornalismo" que nos entra em casa não peca apenas pela falta de memória: peca também por excesso de activismo político. Noutro canal, a propósito dos distúrbios em Paris, provocados por extremistas de vários matizes, Fulano aludia à Revolução Francesa, Beltrano invocava o espírito da "revolução de 1848" e Sicrano dava por praticamente consumada a demissão de Emmanuel Macron, por pressão "do povo que se revolta nas ruas". Todos contactados por telefone, todos arengando contra a democracia representativa, todos fazendo tábua rasa da genuína vontade popular expressa no voto. Agit-prop em directo e ao vivo.

Voltei a zapar, de comando na mão. Despedindo-me dos cúmplices morais da anarquia parisiense, regressei ao reino da bola. Mal por mal, antes a crise do Benfica, "superada" pela vitória caseira contra o Feirense.

Um desporto francês

por João Pedro Pimenta, em 30.11.18

 

Muita gente fica admirada com a violência das manifestações dos "Coletes Amarelos" em França, como se fosse um fenómeno raro por aqueles lados. O caso é sério, mas não é exactamente o Maio de 68 e menos ainda a Revolução Francesa. Manifestar-se com certa agressividade é uma velha tradição no hexágono: desde a Jacquerie da Idade Média, continuando com a Fronda, a Comuna, e claro, as referidas Revolução Francesa, que realmente mudou o país, e o Maio de 68, e muitíssimas outras pelo meio, é quase um desporto nacional, ao lado do ciclismo e do futebol.


Aí em meados da década passada assisti a uma manifestação bem no centro de Paris., perto da Ópera Garnier Eram bombeiros, com umas exigências quaisquer. Vinham de uniforme, capacete, e em alguns casos de machado em punho. A impedir a sua marcha, barreiras policiais e camiões de água. Quando se lançaram os jactos de água actuaram e conseguiram travá-los por uns momentos. Mas logo os bombeiros voltaram à carga e aí a polícia não esteve com meias medidas e usou o gás lacrimogêneo. Eu andava a fotografar os acontecimentos e apanhei em pleno com aquilo. Garanto-lhes que a experiência não é nada aconselhável. Refugiado no átrio de um edifício vizinho, a lavar a cara num bebedouro que julguei na altura oportuno (pior a emenda que o soneto), junto a uns japoneses atemorizados, ouvia ao lado um veterano com ligeiro ar tardo-anarquista, desdenhoso: "isto não é nada, jeunne homme. Eu estive no Maio de 68, e aí é que era".

Os jornais do dia seguinte deram umas breves notícias ao acontecimento. Era mais um entre tantos outros semelhantes.

PS: deculpem-me a qualidade das fotografias, mas o scanner não conseguiu melhor.

Scanner_20181129 (3).png

Scanner_20181129.png

A revolta dos coletes amarelos.

por Luís Menezes Leitão, em 17.11.18

665858.jpg

O actual Estado fiscal insuportável, depois de ter elevado os impostos directos quase até ao limite do absurdo, aposta agora nos impostos indirectos e na multiplicação de taxas por tudo e por nada, como se viu com a protecção civil, a que agora o governo quer regressar. Só que há alturas em que esta situação conduz a movimentos de revolta de cidadãos, como entre nós sucedeu com a revolta da ponte sobre o tejo em 1994, que precipitou o fim de Cavaco Silva. Hoje parece que é Emmanuel Macron que está a passar pela mesma situação.

Vitórias e derrotas simbólicas no Mundial

por João Pedro Pimenta, em 17.07.18

Acabou o Mundial da Rússia. Vai deixar saudades, até porque o próximo vai decorrer no Qatar, sabe-se lá em que condições. Aparentemente o Mundial correu bem aos país anfitrião. Houve transportes terrestres de graça para os adeptos, tal como prometido quando a Rússia ganhou a organização do evento, grandes festas e animação, e hooligans e pancadaria nem vê-los, como também já se previa. O país ficou mais bem visto e até a equipa russa, envelhecida e sem novos grandes talentos, progrediu para além do que se esperava, tendo deixado a candidata Espanha pelo caminho. O presidente da FIFA disse mesmo que tinham sido "o melhor Mundial de sempre", mas pode ser uma daquelas frases feitas que se usam sempre nestas ocasiões (na altura também disseram que Portugal tinha organizado "o melhor Euro de sempre"). De qualquer das maneiras, Vladimir Putin tem razões para sorrir, mas os fundos gastos por vezes com grande derrapagem orçamental haviam de produzir frutos. Os únicos espinhos foram os mais simbólicos: as quatro selecções semifinalistas foram de países cujos regimes - os de Londres, Paris, Bruxelas e Zagreb - não se dão particularmente bem com o de Moscovo, seja por razões conjunturais, políticas ou históricas. Assim, fico a pensar por quem é que os russos terão torcido, ou querido mais que perdesse. Mas talvez se tivesse havido um Rússia-Inglaterra, tendo em conta o momento presente, essa dúvida seria provavelmente desfeita.

 

Mas nisto do simbolismo houve um país que ficou mesmo a ganhar - além de reconquistar o troféu principal e voltar a vencer finais: a França. É que depois de tantas piadas à Alemanha pela sua eliminação prematura na fase de grupos (das quais a mais corriqueira era "Pela segunda vez na história, a Alemanha volta a ir mal preparada para a Rússia"), havia que relembrar o óbvio: que a França triunfou enfim em Moscovo, sem precisar de bater em retirada, e fogo, se o houve, foi só o de artifício - aparentemente houve mais chuva. Tinha de ser no Verão, claro. Lá do seu enorme túmulo, Napoleão pode repousar em paz.

tumulo.jpg

Uma detenção sem carpideiras

por Pedro Correia, em 20.03.18

f5bdcb5_12003-1qctqie.1dyc[1].jpg

 

Nicolas Sarkozy, ex-Presidente francês, acaba de ser detido por suspeitas de financiamento ilícito da sua campanha eleitoral de 2007 pelo deposto ditador líbio Muamar Kadafi. Nos países com instituições sólidas e democracia consolidada é assim: a justiça segue o seu curso, doa a quem doer. E os políticos - estejam no activo ou já retirados - respondem perante os investigadores como qualquer cidadão.

Sem  coros de carpideiras a anunciarem o fim do regime, como sucedeu em Novembro de 2014, quando por cá foi detido o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

Os novos censores andam aí (6)

por Pedro Correia, em 15.02.18

les-trois-pamphlets-antisemites-de-louis-ferdinand

 

O abominável Mein Kampf poisa aí por todas as livrarias, com várias chancelas editoriais, ao alcance das mentes mais frágeis ou perturbadas: até uma criança pode adquirir um exemplar (ou dois ou mais). E tornou-se até um best seller na própria Alemanha, com 85 mil exemplares vendidos em 2016.

As torrentes de ódio vertidas pela pena do "cabo Hitler", como lhe chamava Churchill, deixam hoje aparentemente indiferentes os plantões de turno. Já a baba anti-semita escorrida por  Louis-Ferdinand Céline - admirável escritor com indefensáveis ideias políticas - continuam remetidas para o limbo da clandestinidade. Num tempo em que tudo se publica, do excelso ao péssimo, o autor de Viagem ao Fim da Noite mantém obras interditas: a editora Gallimard desistiu de lançar a edição crítica, anotada e profundamente contextualizada que planeara de três panfletos, escritos entre 1937 e 1941, e que permanecem por reeditar desde a II Guerra Mundial: Bagatelas por um Massacre, Escola de Cadáveres e Os Maus Lençóis.

O reaparecimento destes títulos reunidos sob a designação Escritos Polémicos seria "uma agressão aos judeus de França", bradou Serge Klarsfeld, presidente da associação gaulesa de filhos e filhas de judeus deportados. Uma voz estridente entre tantas outras, somadas às pressões políticas e mediáticas, que forçaram a bater em retirada o poderoso grupo editorial, que tem no seu catálogo 36 escritores galardoados com o Prémio Goncourt, dez com o Pulitzer e 38 com o Nobel da Literatura.

"Suspendo este projecto por entender que não estão reunidas as condições metodológicas e memoriais para encará-lo com serenidade", anunciou no mês passado Antoine Gallimard em comunicado à agência France Presse. Céline, falecido em 1961, continua a ser censurado. Enquanto Hitler renasce como "besta célere" nestes dias incongruentes em que a liberdade é um bem escasso, sujeito a critérios selectivos e arbitrários.

Já foram há mais de um mês, mas talvez pelo facto da segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão, passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário, afundaram algumas das forças polí­ticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emmanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.
 
Quanto aos outros partidos, os Republicanos, depois da desilusão Fillon, aguentaram-se a custo com algumas pannes como segunda força parlamentar, com a tarefa de aguentarem o legado do mais forte -ismo francês do último meio século. A Frente Nacional confirmou a estagnação e não pode fazer muito mais que esperar o "quanto pior, melhor". Ainda assim, conseguiu oito lugares, quando antes tinha dois. Em idêntica posição está o movimento de Jean-Luc Mélenchon, que ainda conseguiu dezassete lugares concorrendo separadamente com os comunistas, seus tradicionais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições no pós-guerra, aguenta-se com dez deputados.
 
O grande derrotado na contenda é, tal como nas presindenciais, o PSF, que passou de primeira para quinta força parlamentar e que nem conseguiu eleger os seus principais dirigentes. Uma derrota estrondosa de um partido histórico que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. O próprio Benôit Hamon, o candidato ofcial do partido às presidenciais, anunciou a sua saída para formar um novo movimento. Os desejos de Manuel Valls em enterrar o velho PS parecem estar a cumprir-se.
 
Para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, note-se que nos anos oitenta, o PS e o PCF,então coligados, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.
 
Resultado de imagem para pcf ps
 
Só que nem tudo são rosas para o governo literalmente presidido por Macron: logo depois destas eleições, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram demitidos por causa da velha questão de aproveitamento fraudulento de dinheiros europeus. Entre eles contava-se François Bayrou, então com a pasta da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.
 
Uma nota curiosa para os cinéfilos: de fora da sangria ministerial ficou Nicolas Hulot, o carismático ministro do Ambiente e antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. Se o apelido parece familiar, não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto distraí­do que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se inspirou para compôr e interpretar a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecí­vel protagonista de Playtime, O Meu Tio e As Férias do sr. Hulot. Assim, o governo francês traz a memória de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.
 

Imagem relacionada

 

 

 

Faz toda a diferença

por Pedro Correia, em 19.07.17

 

Enquanto uns por cá permanecem inamovíveis, mesmo quando recebem murros no estômago, noutros quadrantes há quem actue em conformidade, certamente por ter vergonha na cara.

Faz toda a diferença.

"Um mar de ruínas"

por Pedro Correia, em 12.06.17

cover-r4x3w1000-589080e3dfcf2-Hollande%20et%20Hamo

 François Hollande e Benoit Hamon

 

 

«Nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens.»

Charles de Gaulle

 

Lembram-se de François Hollande, o indivíduo que segundo alguns arautos lusos proclamavam ruidosamente há cinco anos, iria  revitalizar a débil esquerda europeia?

Hollande, bem avisado, decidiu não se recandidatar ao Eliseu: à beira do fim do mandato inaugurado em 2012, a sua taxa de popularidade entre os franceses era de longe a mais baixa da V República, fundada em 1958 pelo general De Gaulle. O delfinato possível do chefe do Estado cessante foi assegurado pelo medíocre Benoit Hamon, sufragado pelas "primárias" - o último grito da moda Outono-Inverno da saison política parisiense - mas arrasado nas urnas quando deixou de se jogar a feijões e houve eleições a sério: recolheu apenas 6,3% dos votos, ficando na quinta posição entre os candidados à corrida presidencial.

A primeira volta das legislativas francesas acaba de traçar um retrato fidedigno do Partido Socialista Francês, avaliando-se assim o verdadeiro legado político de Hollande: entre 7% e 10%. "Um mar de ruínas", na justa definição do Libération. Com o Presidente Emmanuel Macron a vencer, como se esperava, por intermédio do seu novo partido pós-ideológico, República em Marcha - criado só há 14 meses. Numa prova de que em democracia tudo pode transformar-se.

Há umas semanas, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls causou imenso escândalo ao anunciar que o PSF estava morto. Tinha razão, como esta catástrofe eleitoral confirma. Resta aos socialistas franceses encerrar para balanço, imitando o que François Mitterrand fez em 1969, na ressaca do Maio de 68, ao mandar sepultar a defunta SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] num congresso do qual emergiu o Partido Socialista, agora falecido aos 48 anos. Paix à son âme.

Penso rápido (83)

por Pedro Correia, em 10.05.17

Jean-Luc Mélenchon, o representante da esquerda radical na recente campanha presidencial francesa, patinou em toda a linha. Num momento em que se exigem mais que nunca posições claras dos políticos, sem ambiguidade de qualquer espécie, o ex-socialista preferiu chutar para canto, evitando recomendar o voto na segunda volta desta corrida ao Palácio do Eliseu. Equiparando assim de algum modo Emmanuel Macron a Marine Le Pen. Uma ambivalência que lhe valeu muitas críticas e contrastou com o ocorrido em 2002, quando  assumiu a preferência pelo conservador Jacques Chirac na segunda volta das presidenciais, contra Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.
Desta vez o ódio a Macron - um centrista moderado, bastante mais próximo da esquerda do que alguma vez Chirac foi - falou mais alto, levando o vacilante Mélenchon a imitar a atitude de Pilatos.
Lavou as mãos.
E os Pilatos, como é sabido, nunca ficam bem na história.

Penso rápido (82)

por Pedro Correia, em 09.05.17

Alguns por cá torciam pela vitória eleitoral de Marine Le Pen. Como se uma França fechada ao mundo, de fronteiras herméticas como a pequena Suíça entrincheirada entre montanhas, não fosse uma péssima notícia para nós.
Uma França encerrada a cadeado não teria sido o país de acolhimento de mais de um milhão de emigrantes portugueses e lusodescendentes, nunca seria um importante parceiro comercial do nosso país, jamais ascenderia ao estatuto de quinta economia mundial (e segunda europeia). Sem esquecer que a nação que agora terá Emmanuel Macron como Presidente é uma das raras potências atómicas do planeta e permanece como um dos cinco Estados do mundo com assento no Conselho Permanente do Conselho de Segurança da ONU. Isolar-se seria um absurdo e um risco acrescido para a paz.
Confesso que me custa perceber como existe por cá tanta gente aparentemente interessada em ver muitas Marines le Pens espalhadas por essa Europa fora, cada qual pretendendo transformar os respectivos países em estados-fortaleza, combatendo as sociedades abertas de braço dado com o fundamentalismo islâmico. Uns e outros são companheiros de luta nessa aberrante fé.

Nem Joana D´Arc valeu a Le Pen

por João Pedro Pimenta, em 09.05.17

As sondagens em França lá falharam de novo, como tem acontecido no último ano. Afinal de contas, Emmanuel Macron teve uma percentagem mais alta do que as previsões mais optimistas faziam prever, levando até alguns apaniguados de Marine Le Pen a pensar que era possível chegar ao Eliseu.

Olhando para alguns resultados locais das eleições em França, encontram-se números curiosos. Na Vendeia, por exemplo, esse bastião contra-revolucionário e da "reacção", Emmanuel Macron venceu com quase 70%, acima da média nacional, ainda que, pelos resultados da primeira volta, a histórica região continue preferencialmente à direita. Já em Colombey-les-Deux-Églises, terra que se confunde com Charles De Gaulle - que aqui está, aliás, sepultado - a Frente Nacional sai vencedora, talvez pelo trocadilho atribuído ao próprio general, onde numa hipotética islamização, a terra se passaria a chamar "Colombey-les-Deux-Mosquées". Também aqui, na primeira volta, a direita ficou claramente em maioria.

 

Mas não resisti a ver quais tinham sido os resultados em Domrémy-la-Pucelle. Macron ganhou, com um resultado próximo da média. Mas porquê esta curiosidade em saber a votação desta pequena localidade perdida nos confins dos Vosges? É que Domrémy-la-Pucelle é precisamente a terra de Joana D´Arc, a heroína e padroeira de França ("pucelle", ou donzela, é um sufixo em honra da própria), que Marine LePen e a Frente Nacional tanto evocam, ao ponto de se tentar colar a ex-candidata presidencial à donzela martirizada em Rouen. De pouco serviu a inspiração. E na hora de votar, os descendentes de Joana D´Arc acabaram por preferir a original a escolher a cópia falsificada.

 

Resultado de imagem para jeanne d'arc marine le pen

 

Os derrotados

por Pedro Correia, em 08.05.17

Melenchon-vs.-Marine-Le-Pen-et-de-deux-proces[1].j

 Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, dois dos derrotados em França

 

Galeria de derrotados nas eleições presidenciais francesas:

 

1. Marine Le Pen. Chegou a vaticinar que atingiria os 40%. Ficou muito longe disso, tendo recolhido apenas um terço dos votos. Sai com uma derrota expressiva desta corrida ao Eliseu, que aliás culmina com a dissolução anunciada da Frente Nacional.

 

2. François Hollande. O Presidente cessante confirmou-se como o mais impopular Chefe do Estado da V República Francesa. Termina o mandato como uma figura irrelevante, quase patética. Quem diria que há cinco anos foi saudado como uma lufada de esperança da esquerda europeia...

 

3. Socialistas. Os últimos três anos têm sido catastróficos para a família socialista a nível europeu: derrotas copiosas em Espanha, Grécia, Hungria, Polónia, Bélgica, Holanda e Reino Unido. Seguiu-se o humilhante quinto lugar alcançado pelo representante do PS francês, Benoit Hamon, nesta corrida ao Eliseu, em que só recolheu 6,3% dos votos.

 

4. Comunistas. Desde a queda do Muro de Berlim tornaram-se num “tigre de papel”, para usar uma velha expressão maoísta. O seu representante indirecto neste escrutínio, Jean-Luc Mélenchon, prometia muito mas nem à segunda volta chegou. Terminaram numa espécie de terra de ninguém, recomendando a abstenção.

 

5. Conservadores. O caos estratégico na direita conservadora francesa, de inspiração bonapartista e gaullista, levou-a a ser contaminada pela sua adversária histórica, de inspiração orleanista e colaboracionista (duas fontes históricas da Frente Nacional). Ignorar a probidade do general De Gaulle foi meio caminho andado para chegar aqui.

 

6. Corrupção. Os franceses, como os europeus em geral, decretaram tolerância zero à corrupção em todas as suas formas. Político apanhado a delapidar o erário público é político condenado à derrota por antecipação. François Fillon, que chegou a ser apontado como favorito ao Eliseu, experimentou isto na pele.

 

7. Primárias. Este processo de escolha dos concorrentes a cargos políticos do máximo relevo foi seriamente posto em causa ao longo dos últimos meses. Tanto Fillon, que à direita derrotou Sarkozy e Alain Juppé, como Hamon, que ultrapassou Manuel Valls, venceram as primárias à direita e à esquerda. De nada lhes valeu na eleição a sério.

 

8. Eurofóbicos. Politólogos de vários matizes andaram meses a repetir a mesma tese: a eurofilia estava em acentuada regressão na União Europeia, apressando-lhe o fim. Mas as presidenciais francesas, ganhas pelo eurófilo Emmanuel Macron, desmentem esta tese em toda a linha. A eurofobia, essa sim, sai derrotada deste escrutínio.

 

9. Catastrofistas. A propósito das presidenciais francesas, legiões de comentadores e “analistas políticos” desfilaram nos jornais e nas pantalhas advertindo para os riscos de implosão da União Europeia, do sistema monetário europeu e até da democracia política neste espaço geográfico em que nos inserimos. Não tinham qualquer razão, mas também não darão o braço a torcer. Vão continuar a repetir-nos essas balelas nos tempos mais próximos, serão após serão.

 


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D