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Delito de Opinião

"Senda Índica" de Pedro Sá da Bandeira no Camões

jpt, 29.09.25

No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).

Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…

 

Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim:

Improviso verdadeiro”,
 

Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.

Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é meu amigo. Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.

O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.

Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.

Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.

Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.

Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…

Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).

E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.

Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…

E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!

(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)

(O texto completo, junto à folha de sala, escrita por Graça Gonçalves Pereira, está aqui)

Acerca da Venezuela

jpt, 03.08.24

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(Bogotá, frente ao consulado da Venezuela, 2.8.2024. Fotografias de Pedro Sá da Bandeira)

O regime de Chavez e seu avatar Maduro prolonga o estertor, na fraude eleitoral, sequestro de opositores, repressão generalizada. Governos de diferentes tendências na sua região repudiam os acontecimentos, da Argentina ao Chile, entre Uruguai, Costa Rica ou Peru. Aflitos com a degenerescência do gigantesco vizinho, exaustos com os contínuos fluxos de refugiados venezuelanos, outros governos à esquerda da região tergiversam, empurram a situação para "negociações". Fá-lo o México, sempre no sonho de grande potência regional para sul, também a Colômbia, onde um frágil e fragilizadíssimo presidente Petro se mascara em laivos de vínculos ideológicos, fá-lo até o Brasil, onde o tão típico Silva se aprestou a sufragar a fraude maduriana, para logo matizar, prestando-se à rábula "negociadora". Por cá na Europa há ainda quem defenda Maduro - às escâncaras o nosso PCP brejnevista, os "Podemos" vizinhos, e mais alguns proto-brigadistas Europa afora, para além do húngaro Orban, que alguns intelectuais fascistas tanto vão louvando.

Hoje sairá o povo à rua na Venezuela - se as "revolucionárias" forças de segurança deixarem. E alhures também. Deixo aqui eco de pequena manifestação  já ontem ocorrida em Bogotá, congregando venezuelanos ali refugiados. Hoje, sábado, muitos mais sairão, em associação com as manifestações no seu país. E serão acompanhados pelos colombianos, pois a oposição não só os apoia, repudiando o "silêncio" inactivo de Petro, como cavalgará a situação para contestar o actual poder.  

As fotografias são do meu querido amigo Pedro Sá da Bandeira - veterano fotorepórter do "Record" e da "Lusa", entre outros, trota-mundos, e que agora vive em Bogotá, calcorreando aquela região. Sempre de máquina em punho.

As histórias e as imagens

Ana Sofia Couto, 23.04.11

No programa Hora de Fecho (RTPN) de ontem, falou-se de pessoas que "escrevem histórias com imagens". As fotografias de Nelson d'Aires, vencedor do principal galardão do Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora, contam uma história, a do Leandro, que importa não esquecer. Aconteceu em Março de 2010.

 

 

 

Os trabalhos premiados podem ser vistos aqui. É um país em imagens.