No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).
Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…
Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim:
“Improviso verdadeiro”,
Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.
Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é meu amigo. Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.
O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.
Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.
Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.
Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.
Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…
Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).
E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.
Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…
E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!
(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)
(O texto completo, junto à folha de sala, escrita por Graça Gonçalves Pereira, está aqui)