Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



À atenção dos eucaliptófobos

por Pedro Correia, em 17.08.18

1200px-Eucalyptus_tereticornis_flowers,_capsules,_

 

O repórter vindo da cidade, inchado de sabedoria cosmopolita, acompanha o Presidente da Repúblico nos seus mergulhos em praias fluviais do centro do País e decide descrever a paisagem circundante debitando a cartilha jornalística em voga, como um disco de vinil já muito riscado: «Lá ao fundo estão árvores queimadas pelo incêndio e estão já também os eucaliptos a brotar. Uma verdadeira praga que se vê por toda esta região - os eucaliptos a brotar junto de pinheiros e outros eucaliptos que arderam no incêndio de Outubro de 2017.»

Eis um conceito singular: olhar para «eucaliptos a brotar» no interior pobre e desertificado e classificá-los in limine como «praga». Horas antes do regresso ao conforto citadino.

 

Outro repórter, por sinal da mesma estação, em vez de dar sermões aos telespectadores do alto da sua douta ignorância, prefere fazer jornalismo a sério - isto é, dar voz a quem sabe, falando em Monchique logo após o maior incêndio registado este ano em toda a Europa, no qual se perderam maciços florestais de todas as espécies.

Escuta, por exemplo, o presidente da Associação de Produtores Florestais do Barlavento Algarvio, José Vidigal, que lhe diz isto: «Há 15 anos houve o abandono do mundo rural aqui em Monchique. Muita gente, revoltada, sem meios de subsistência, abandonou a agricultura - ou mesmo a região. Agora vai acontecer a mesma coisa: vão abandonar a floresta, vão para o litoral. Durante muitos anos, os incêndios só existiam na zona centro. Porquê? Porque a zona centro tinha a maior mancha de pinhal bravo do mundo. Agora dizerem que é por causa do eucalipto, que é por causa do pinheiro... não é. É por falta de ordenamento. Em 1936 houve um grande incêndio em Monchique, maior do que este de agora. Em 1954 repetiu-se, em 1970 repetiu-se, em 1985 repetiu-se, em 1995 repetiu-se... E até 1985 não havia eucaliptos. Por conseguinte, não são os eucaliptos: é a falta de gestão.»

 

Transcrevo estas palavras, em atenção aos eucaliptófobos que se reproduzem como mato selvagem nas pantalhas e nas colunas da imprensa. Sabendo no entanto, de antemão, que não serão escutadas. Porque o discurso dicotómico - onde a "culpa" assume sempre função relevante - é, em grau crescente, o combustível contemporâneo dos meios de informação. Tão simplista, entrincheirado e previsível como o das "redes sociais", a cuja lógica obedece. E que explica, em larga medida, a crise em que o jornalismo mergulhou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Foi chato

por Pedro Correia, em 11.08.18

img_920x518$2018_08_06_08_20_04_1432485.jpg

 

A Serra de Monchique - o maior pulmão do Algarve - ardeu em larga medida. Cerca de 27 mil hectares - o equivalente a 27 mil campos de futebol, quase três vezes a área da cidade de Lisboa. 

Foi o sexto maior incêndio desde sempre registado em Portugal. E o maior incêndio ocorrido este ano em todo o continente europeu.

No preciso local onde o chefe do Governo se deslocou com vasta comitiva, para efeitos de propaganda política, assegurando aos portugueses em geral e aos algarvios em particular que estavam reunidas todas as condições, em meios humanos e técnicos, para um combate eficaz aos incêndios. 

Não estavam, como todos sabemos hoje. No lugar onde António Costa falou, a 1 de Junho, restam cinzas.

 

Ainda em Junho, novo exercício de propaganda: o Executivo convocou a Comunicação Social para revelar que faríamos deslocar para a Suécia e a Grécia meios aéreos de combate aos fogos.

Como se pudéssemos dar-nos a tal luxo após os flagelos de 2017 que enlutaram o País e comoveram o mundo.

 

Passado o pavoroso incêndio de Monchique, novamente o Governo, pelas vozes simultâneas do primeiro-ministro e do titular da pasta da Administração Interna, não perdeu tempo a lançar o slogan "não morreu ninguém" - igualmente para efeitos de propaganda.

Frase que esconde, no seu cinismo político, a perda de um número incontável de espécies animais e vegetais, o fim dos meios de sustento de centenas de residentes no concelho de Monchique, o fim de explorações agrícolas, turísticas, de apicultura e silvicultura.

Esconde as centenas de deslocados, esconde os 41 feridos e os 49 desalojados. Esconde os prejuízos globais de dez milhões de euros, avaliados pela Câmara local.

Procura afinal ocultar  - como bem escreveu o Manuel Carvalho no Público - que "ao primeiro teste difícil o aparato de combate aos fogos falhou".

 

É, no fundo, o equivalente moral ao "foi chato" proferido por Bruno de Carvalho na sequência do inqualificável assalto promovido a 15 de Maio por membros de uma claque leonina à Academia de Alcochete.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dois meses e 300 e tal km depois

por Pedro Correia, em 09.08.18

 

António Costa, 1 de Junho de 2018, falando aos jornalistas durante uma visita ao posto de vigia da Madrinha, no Alto da Fóia, Serra de Monchique:

«O nosso objectivo é que tenhamos um território mais seguro. E, como se vê, é possível fazer.»

 

António Costa, 8 de Agosto, falando a mais de 300 km de distância, na sede nacional da Protecção Civil, sobre o incêndio em Monchique, o sexto maior de sempre registado em Portugal, e que devastou metade da área do concelho:

«Esta excepção confirmou a regra do sucesso da operação ao longo de todos estes dias.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ler, com urgência

por Pedro Correia, em 08.08.18

 

Monchique, eucaliptos e espantalhos. Do Henrique Pereira dos Santos, imprescindível como sempre. No Corta-Fitas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 26.08.17

As%20Alterações%20Climáticas%20e%20os%20Fogos%2

 

«1. É evidente que se um fogo florestal estivesse a passar da área de um concelho para outro, a "operação", como eles dizem, teria que ser coordenada a um nível superior; e quem diz entre concelhos, diz entre freguesias;


2. É certo que muitas freguesias e muitos concelhos do interior têm perdido população, mas também é verdade que são os autarcas, porque ali residentes, quem melhor conhece os terrenos, os caminhos, etc.;


3. As autarquias locais não têm os meios financeiros necessários para combater incêndios, mas deviam ter, digo eu. A propósito, a melhor maneira de "combater" os incêndios florestais é fazendo prevenção, e esse encargo estava e está em grande medida entregue às Câmaras Municipais (CM); o que me parece é que as CM pouco se têm preocupado com essa questão – os bons exemplos são meras excepções; e também me parece que as Juntas de Freguesia poderiam desempenhar, neste particular, um papel importantíssimo, sobretudo na limpeza de caminhos e aceiros;


4. Todavia, raras são as Câmaras que possuem corpos de sapadores florestais e muitas desviam os subsídios que recebem para esse efeito para gastos de outra natureza, muitas vezes supérfluos;


5. Sem desprimor para os bombeiros na generalidade, quase acho criminoso envolver bombeiros citadinos no combate aos fogos florestais, não raras vezes transformando-os em vítimas inocentes, perdendo alguns a própria vida;


6. E saiba que considero uma tontice querer apagar fogos florestais que atingem uma grande dimensão. Esses fogos apenas podem ser controlados, normalmente com recurso a equipamento pesado, e coordenados por quem sabe do ofício e não por agentes bem-avontadados, alguns meros curiosos. Neste capítulo, Portugal está a desperdiçar energias em demasia, que seriam muito melhor aplicadas na prevenção.»

 

Do nosso leitor Tiro ao Alvo. A propósito deste meu texto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 25.08.17

 

A prevenção nos fogos florestais. De João M. A. Soares, no Público.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Menos política, mais cidadania

por Teresa Ribeiro, em 28.07.17

postimg-15819-600.jpg

 

Quando está em jogo algo realmente sério, algo tão sério como a nossa floresta, a coreografia política com os seus líderes e os seus rebanhos revela de imediato gente que está mais empenhada nas guerrilhas partidárias do que em tudo o resto. Gente cuja manifestação pública mais parece um aproveitamento da desgraça alheia do que um honesto empenhamento cívico.

É evidente que é a quem está no governo que devemos pedir responsabilidades em primeira instância, mas não é sério apontar os políticos que estão no turno de serviço como os responsáveis por tudo o que está a acontecer neste Verão. Quando vejo na televisão, à beira de um ataque de nervos, pessoas que representam os partidos que tiveram responsabilidades em anteriores executivos indignadas com a ausência de uma política florestal, fico com a certeza de que assim não se vai lá. Simplesmente porque estamos nas mãos de gente que por uma boa refrega política está disposta a sacrificar a decência e a seriedade que este assunto exige. Gente a quem sobra ardor político e falta uma verdadeira cultura de cidadania.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lai, lai, lai

por Teresa Ribeiro, em 10.05.17

 

file0002121611080.jpg

 

É sempre a mesma lamúria. E cada ano começa mais cedo. O secretário de Estado da Administração Interna já veio a público anunciar que a área do País ardida desde Janeiro é 12 vezes maior que em período homólogo do ano passado. Dito isto, anunciou investimento em mais meios de combate aos incêndios. Os tais que aumentam à medida que aumentam os fogos (não deveria acontecer o contrário?) 

Mas o que fica por explicar é porque há países que ardem e países que não ardem. Porquê, senhor secretário de Estado?!

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D