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Delito de Opinião

Diário de uma mãe

Joana Nave, 24.07.25

Ufa, já passou tanto tempo... Não tenho tido nada de interessante para partilhar, os dias têm passado uns atrás dos outros, qual correia encadeada de rotinas e momentos fugazes de puro deleite, aqueles em que não estamos a trabalhar, fazer o jantar, arrumar a roupa e pensar nas tarefas do dia seguinte. Tenho pensado sobre o propósito desta crónica, um desabafo derrotista da minha frustração, uma catarse, um diálogo unilateral, sim porque eu imagino o que vocês pensam sobre as minhas ideias e teorias sobre isto de ser mãe. Também podia ser uma ode feminina sobre o papel que ser mãe tem na sociedade. Podia ser isto tudo e também ser apenas a forma de me expressar, com conteúdo mais ou menos válido e credível, sobre a minha própria experiência. Por ser a minha experiência, procuro que seja o mais sincera possível, já temos demasiadas histórias bonitas e cor de rosa a vaguear pelo mundo cibernético e fazem falta mais relatos crus do que a vida representa para cada um de nós.

Os vários acontecimentos que compõem o meu caminho tornaram-me mais assertiva e menos romântica, mais objectiva e menos complexa, simplificar é o meu lema. A maternidade ensina-me todos os dias que ainda sei muito pouco sobre tudo, porque é uma experiência mais avassaladora que as outras que vivi, é mais dura, mais envolvente, por vezes até mais sufocante. Tenho a certeza que faço o meu melhor e que nunca vai ser suficiente, tenho ainda mais certeza que devo estar a fazer tudo mal, mas é o que é. Libertamo-nos do sentimento de culpa quando realizamos que somos apenas ser humanos, que têm emoções que aprendem a conhecer e controlar, que esta condição nos define, mas não é a nossa essência, porque esta vem da consciência com que ultrapassamos essas mesmas emoções. O mais importante é aceitar, quem somos, o que sentimos e o que gostaríamos de alcançar. Sermos verdadeiros é o ensinamento mais valioso que podemos transmitir aos que crescem connosco, aprender a valorizar a verdade do que gostamos é a lição número um que não está nos manuais escolares, mas que é a história mais significativa que passa entre gerações.

Eu gosto de dias de sol, mas não gosto de calor, gosto do cheiro a terra molhada, mas não gosto de chuva, gosto do cheiro dos livros, mas ainda mais da forma prática com que se lê num ereader, gosto do cheiro doce de um bolo acabado de sair do forno, de chá quente e mantas no sofá, gosto de me deitar em lençóis lavados e passados, mas também gosto de sentir a areia da praia nos pés, não gosto de água fria, adoro água quente no mar, gosto de pipocas salgadas, detesto coca-cola, gosto de plantas e de gatos, mas fico fula quando os gatos comem as plantas, gosto de ser mãe, mesmo quando preferia estar a ler e beber café e a ouvir os meus discos sem mil e uma interrupções constantes.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 17.04.25

Não tenho conseguido escrever porque resolvi dar prioridade a outras coisas, como abrandar o ritmo, descansar, realizar as tarefas que tenho em mãos com atenção plena e dedicar mais tempo a cuidar do que me rodeia, quer o espaço, quer as pessoas, quer o que me define.

Cuidar é uma forma de amar e, por isso, o simples acto de cozinhar deve ser feito com toda a calma, para que a energia que passamos para os alimentos cozinhados possa fluir para quem desfruta depois desta refeição. A pressa com que vivemos os nossos dias não nos permite este tipo de cuidados, é simplificar ao máximo e não perder tempo com trivialidades. Tudo está certo, mas também é durante um almoço ou jantar partilhado que temos oportunidade de conversar com os outros, trocar ideias, resolver conflitos internos, que de outra forma não teríamos espaço para expressar. Ter tempo é muitas vezes construir o tempo para o diálogo e para a partilha.

Foi numa dessas conversas que o meu filho de 7 anos me confidenciou que não podia levar uma pulseira de plástico de um super-herói para a escola porque seria gozado pelos seus colegas. Fiquei vários dias a pensar neste assunto e em como estamos a construir uma sociedade às avessas, em que as crianças gozam umas com as outras por estas quererem ser crianças. O que é infantil é menor aos olhos de crianças que estão na idade da infância. Disseram-me que seriam os irmãos mais velhos a passar esta mensagem, mas sinceramente não acho que seja esse o factor principal, acho que nós pais temos pressa de vê-los crescer. Os pequenitos sugam-nas a energia e acresce o facto de actualmente sermos pais cada vez mais tarde, quando já temos menos paciência, e por isso vamos transmitindo a ideia de que eles têm de ser crescidos, responsáveis, que devem deixar de ser bebés, em suma, que devem deixar de ser crianças. Queremos enfiá-los à força no molde do bom comportamento, queremos que sejam um exemplo de tranquilidade, generosidade e sapiência, quando eles estão na idade de experimentar os limites, pular, rebolar, encher os sapatos de lama pegajosa, cair, coleccionar arranhões e nódoas negras, ter alguns conflitos que devemos ajudar a mediar, rir e chorar sem motivo aparente, porque as emoções de uma criança ainda estão a ser definidas, eles estão a aprender a controlar-se e gritam tanto ou mais quanto nos ouvem gritar, porque são absorventes e espelhos do que lhes transmitimos diariamente.

No passado, a educação resolvia-se muitas vezes pelo meio da força. Hoje somos mais pedagogos, mas temos dificuldade em definir barreiras, limites e em permitir que o tempo faça a sua habilidade de os ajudar a crescer, usamos a televisão e os meios audiovisuais em troca de silêncio, temos tantos meios ao nosso dispor que nos perdemos no caminho e só queremos que o tempo passe e que eles queiram ir connosco dar um passeio sossegado, passar uma tarde a ler, ver um filme, porque o faz de conta e a gritaria põem-nos num ataque de nervos.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 22.03.25

Para mim, um dos grandes benefícios da maternidade tem sido a forma como passei a relativizar as coisas que não são assim tão importantes, como por exemplo a arrumação da casa. Claro que é importante termos espaços limpos, arrumados, cuidados, mas também não há nenhuma real necessidade de termos sempre tudo em ordem, porque na realidade ninguém vem atrás de nós exigir que as coisas sejam de uma maneira ou doutra, está tudo na nossa cabeça. O chão pegajoso, sinónimo de tardes gulosas a fazer bolachinhas com os miúdos, os brinquedos espalhados por todo o lado, as tardes de preguiça a ler histórias e a ver filmes, são incompatíveis com arrumações e limpezas e é tão bom.

Antes de ter filhos era obcecada com a imagem, o cabelo tinha de estar sempre perfeito, não podia sair de casa sem acessórios e perfume, trocava frequentemente de mala, tinha vários sapatos desconfortáveis e elegantes, casacos a condizer e uma série de outras manias próprias de quem tem demasiado tempo livre. Depois, tive de simplificar, focar-me não só em mim, mas também neles, ver se as roupas estão em bom estado, se combinam, se são quentes e confortáveis, se os narizes não estão ranhosos, se a cara está limpa, se os cabelos estão penteados, se levam casaco, e outras coisas de que necessitam sempre que saem de casa. Continuo a preocupar-me em manter uma imagem cuidada, não troquei a maternidade pelo desmazelo, mas foco-me apenas no essencial, higiene, hidratação, alguma maquilhagem se for apropriado, roupas adequadas à ocasião e calçado principalmente confortável, não uso perfume, nem saltos altos e pinto as unhas apenas quando me apetece, de resto procuro estar alinhada com o meu espírito de tranquilidade e subtileza. Uso uma mala pequena com os artigos essenciais e, quando me desloco para trabalhar, adiciono a mochila com o portátil, um caderno, um estojo, um livro (indispensável) e pouco mais.

No desporto, opto pela natação e pelo yoga, uma aula de cada todas as semanas, na hora de almoço para não interferir com as rotinas do fim do dia.

Faço as compras da semana online, tento fazer comida a mais para ter alguns almoços e jantares adiantados e não ter de passar tanto tempo na cozinha, vou tratando da roupa para não deixar acumular e planeio com frequência para evitar bloqueios quando ocorrem situações inesperadas. É raro deitar comida fora, aproveito sempre as sobras, invento muito e não costumo ter mais do que o necessário. Faço uma gestão eficiente do que temos no frigorífico e no dispenseiro, do que consumimos regularmente, e quando encomendamos comida ou vamos comer fora é porque temos mesmo essa real vontade e não porque não temos o que comer.

Tenho almoços e jantares com amigas e por vezes até uma ida ao teatro. Leio sempre que posso, vejo séries e vou fazendo cursos online para me manter actualizada.

Não sou de modo algum perfeita, mas a maternidade trouxe-me objectivos mais realistas, a falta de tempo tornou-me mais focada, mais produtiva. Tenho rotinas semanais bem definidas e nos fins de semana desacelero, permito-me fazer tudo mais devagar, sem pressa.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 10.03.25

Li algures o testemunho de uma mulher em que uma das razões para não ter filhos era manter um estilo de vida minimalista. Entenda-se por minimalista viver com pouca tralha, andar às costas com pouca bagagem, ter um estilo de vida simples. Os filhos, por outro lado, são sinónimo de confusão, muitos acessórios, muitos bens essenciais, muitos brinquedos, muito de tudo e mais alguma coisa. Antes destes nascerem, os pais têm muitas vezes de aumentar a casa onde vivem, arranjar mais mobília, comprar roupas, produtos de higiene e outros para bebé, comprar um número infinito de artigos de puericultura e, por vezes, até comprar um carro maior. Eu lembro-me que comecei a aprender sobre o tal minimalismo ainda antes de ser mãe e, por isso, já tinha reduzido imenso os meus bens pessoais quando comecei a encher a casa com as coisas de bebé. O quarto extra foi totalmente remodelado, libertou-se espaço no resto das divisões e adaptou-se o que já tínhamos. Ainda assim, comprámos coisas que se revelaram inúteis e o destralhar passou a ser uma actividade mais ou menos semestral, com a mudança das estações.

Quando os filhos crescem a situação piora, porque as crianças estão sempre a criar coisas novas, como as centenas de desenhos que ficam espalhados por todo o lado, mais os pequenos projectos que vão de casa para a escola e voltam no final do ano, mais tudo o que fazem por lá, mais os objectos diários que vêm guardados nos bolsos, nas mochilas, e que se vão acumulando pelo quarto, até que um olhar crítico faça uma escolha criteriosa do que fica e do que vai. Depois, há ainda que ter em consideração a energia inesgotável de uma criança, que consegue virar do avesso em segundos o que nos levou um dia inteiro a pôr em ordem.

É deixar fluir, manter uma mente organizada no caos e aprender que não conseguimos controlar tudo. Para mim, este foi e continua a ser um verdadeiro desafio, uma aprendizagem diária, em que tento manter a calma, respirar fundo, contar até mil, antes de deixar que o impulso de querer ter o meu espaço em ordem irrompa com um pulsar nervoso e perca as estribeiras. Não é fácil não termos tempo para nós da forma que queremos, termos de fazer disso uma negociação e até um esforço, ou valorizar sempre os momentos de partilha que temos com estes seres indefesos e dependentes de nós. Vale a pena, claro que vale a pena, porque só nos conhecemos verdadeiramente quando somos levados ao limite e quando aprendemos a dar importância ao que é realmente importante. É um processo contínuo de aprendizagem, de conhecimento, de pequenas vitórias que nos vão transformando e que fazem crescer esta relação pais e filhos. Quem sabe um dia possamos abraçar em conjunto este projecto do minimalismo...

Diário de uma mãe

Joana Nave, 02.03.25

A dinâmica família-trabalho não me tem dado tréguas e tem sido difícil, no pós doença que me deitou abaixo, arranjar tempo para vir aqui deixar algumas ideias sobre a minha vida de mãe. Entre as rotinas deles e as da casa e da família sobra sempre menos tempo do que seria ideal para cuidarmos de nós, dos nossos hobbies, do cultivo do físico, da mente e do espírito. Esta falta de horas tem-me levado a pensar em algo que se fala muito, mas de forma muito cuidada para não ferir susceptibilidades, e que é a questão do segundo filho. Não vou divagar sobre o que seria ter um terceiro ou mais, porque não os tenho e não me sinto habilitada a falar sobre o tema.

Quando o primeiro filho nasce, e se é o primeiro na família, há toda uma mudança de prioridades e foco em torno da nova vida. Os cuidados e as preocupações multiplicam-se, todos têm algo a dizer sobre o que é melhor para o bebé e o afecto é quase sufocante, tentando cada um obter o máximo deste novo ser em troca de mimos, presentes e presença. Quando nasce o segundo filho deixa de haver multiplicação e passa a existir divisão de tempo, de atenção, de cuidado, de afecto. No entanto, a soma de duas crianças para cuidar também suscita o receio de não se ter energia para dois.

Os meus filhos têm quinze meses de diferença e é engraçado que o primeiro sempre teve ciúmes do segundo, quando este último nunca conheceu outra realidade a não ser a de ser o segundo. O primeiro quer competir com o segundo, ser o mais amado porque é o mais velho, porque adquiriu o título da primazia e quer fazer valer o mesmo a todo o custo. O segundo não reclama, ama incondicionalmente o primeiro e pede atenção mediante a sua vontade.

A questão que me assola é que nós pais somos os primeiros a criar esta realidade. Quando o primeiro começou a aprender a ler e escrever houve dedicação extrema da minha parte, por vezes até exagerada. Quando o segundo entrou nesse período, já havia a experiência de que não era necessário insistir tanto no tempo de estudo e, por isso, houve um certo relaxamento, mas será que foi mesmo isso? Será que não se trata de continuar a dar mais atenção ao primeiro, que está um ano à frente e tem aprendizagens mais exigentes e que necessitam de maior foco?

Quando eles me perguntam de quem gosto mais, digo sempre que é dos dois, que ele é o meu menino preferido no mundo e ela a minha menina preferida no mundo. Efectivamente, não há diferença no amor que lhes tenho, mas o primeiro levou com o termómetro na banheira, a esterilização dos biberãos, as roupas novas a estrear, e o segundo beneficiou com a experiência de já não ser mãe de primeira viagem e com a reutilização dos bodies, que só tinham sido usados meia dúzia de vezes.

O quarto que era azul, rapidamente começou a misturar-se com tons rosa e houve sempre a preocupação de dividir o espaço entre carrinhos e bonecas. Porém, ser o primeiro e ser o segundo não é igual, não que seja necessariamente melhor ou pior, simplesmente no primeiro há a descoberta, os erros de fazer algo pela primeira vez, a inexperiência. O segundo é o desafio, multiplicar e dividir em igual parte, criar espaço para a partilha, definir prioridades e perceber a importância de sermos mais e com isso trazermos mais valor para as nossas vidas.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 19.02.25

No fim de semana passado falhei o post, porque fiquei doente. A gripe apanhou-me, não posso dizer que tenha sido muito forte ou que me tenha arrasado, mas retirou-me energia, boa disposição e claro que me obrigou ao resguardo para ver se não pegava ao resto da família. É quando estamos doentes que nos sentimos mais impotentes, o não poder dar aquele abraço reconfortante, o beijinho repenicado, o ter mil e um cuidados e zero paciência para tudo o que acontece à nossa volta. Deixamos acumular afazeres, deixamos o inadiável em banho-maria e só a recuperação nos inspira a continuar, nem que isso represente deixar tudo para trás e passar horas intermináveis na cama a ver se o vírus nos abandona de vez.

A sensação posterior é de que não podemos voltar ao mesmo, apanhei o vírus porque o meu sistema imunitário não está suficientemente fortalecido, tenho de dormir mais, fazer mais exercício físico, alimentar-me melhor, ter hábitos de vida mais saudáveis e ter um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Estes pensamentos duram talvez um dia, até voltar tudo ao normal. Eu faço exercício físico uma a duas vezes por semana e tomo as minhas vitaminas diárias, mas o resto... Há que começar por algum lado, redefinir prioridades, focar-me no que é realmente importante, tentar melhorar.

Os pequenitos estavam preocupados, a mais nova andava de volta de mim, mais faladora, a mostrar-me que estava ali para mim, por mais que eu a afastasse para evitar que também ficasse doente. Quando finalmente lhes disse que já estava bem, foi um abraço colectivo que me atirou ao chão e que me deu a força de que necessitava para me reerguer. Eles esgotam-nos, mas têm o dom de nos dar a força vital através do amor.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 09.02.25

Tenho-me focado muito nas questões menos boas da maternidade e talvez tenha passado a ideia que sou uma pessoa negativa e estou sempre a queixar-me. O meu propósito tem sido, acima de tudo, mostrar que a realidade pode ser bem mais cinzenta do que os cenários cor de rosa que mostram famílias felizes e sorridentes em viagens de sonho, rotinas perfeitas, roupas bonitas, e tudo o que se publica nas redes sociais. No entanto, as mãos sujas, os narizes ranhosos, o cabelo desgrenhado, os rasgões nas calças na zona dos joelhos, as nódoas que se acumulam nas t-shirts desbotadas, são as marcas das crianças realmente felizes, aquelas que têm liberdade e conforto para crescer num ambiente saudável, que se sujam, que esfolam os joelhos, que comem com as mãos, e que varrem o chão com a roupa e os cabelos, porque ser criança é experimentar as sensações do mundo que as rodeia. O cenário idílico é uma fotografia sem vida, que perpetua uma imagem, mas a experiência é muito mais que isso, é sentir com todas as células do corpo, e com essa aprendizagem crescer.

Eu sei que as pessoas são todas diferentes e um reflexo daquilo que lhes transmitiram, e sei também que podia estar menos atenta, ou não me importar tanto com os resultados, mas quero mesmo dar ferramentas aos meus filhos para que eles possam alcançar tudo o que desejarem. Se eles estiverem bem, sentirei o reconforto de missão cumprida, e não acho que tenhamos de ser todos assim, ou que o que eu faço é melhor. Eu não abdico de trabalhar e de perseguir uma carreira, e de ser cumpridora e rigorosa, porque quero ensinar-lhes pelo exemplo, e também quero que se orgulhem de mim. Por outro lado, também não abdico de acordar mais cedo aos fins de semana para os levar a actividades extra-curriculares, porque sei que estas os vão ajudar a conhecer, a partilhar e a crescer ainda mais. Quando os instigamos para praticarem actividades ao ar livre, estamos uma vez mais a dar-lhes ferramentas para que testem habilidades e se tornem menos sedentários. E há também que transmitir cultura, com passeios, filmes, livros. E há ainda que cultivar amizades, pois somos seres sociais e a nossa rede de contactos será sempre um suporte precioso para o resto da nossa vida.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 01.02.25

Depois de sermos mães há duas certezas que passam a fazer parte da nossa vida, nunca mais estamos sozinhas e nunca mais temos descanso. São eventualmente duas questões abordadas de forma fundamentalista, mas é preciso contrariar a tendência para que não sejam a nossa forma de vida. Os filhos só são dependentes de nós até certo ponto e há mesmo um horizonte temporal mais ou menos definido para que tomem as rédeas das suas próprias vidas. Por outro lado, a questão do descanso também está muito relacionada com a rede de apoio que temos.

Para mim, há ainda a questão da responsabilidade, eu sou responsável por eles, tenho o dever de estar presente quando necessitam e tenho o dever de mascarar o meu cansaço, para que as exigências fundamentais das vidas deles possam ser cumpridas, no que respeita principalmente à fase da dependência. Quando crescerem será outra conversa, mas lá chegaremos.

Sendo realista, sinto saudades dos dias em que chegava a casa com um desgaste físico e emocional decorrente dos dias de trabalho e podia simplesmente deitar-me no sofá a vegetar, até recuperar forças para ir fazer algo útil, como dormir e acordar para um dia melhor. Os dias extenuantes ainda existem, e são ainda mais penosos com o cansaço acumulado da vida familiar, mas não há pausas, é chegar a casa e garantir que todas as rotinas são cumpridas, os banhos, os trabalhos de casa, o jantar, e a preparação do dia seguinte. Sou muito apologista de delegar, dar ferramentas e promover a autonomia, e por isso vou ensinando e desafiando a colaboração entre todos, mas claro está que não é tarefa fácil, e quando finalmente dou o meu dia por terminado, penso muitas vezes no que poderia ter feito de forma diferente para que as últimas horas do dia não tivessem parecido um campo de batalha.

Um dos meus trunfos é claramente a organização, ainda que tenha espaço para melhorar, mas há sempre que definir o equilíbrio entre a obsessão pelo zelo e a descontracção da não perfeição, e aqui reside o drama dos meus dias, como manter uma vida calma e organizada sem extremismos, sem me sentir culpada porque a casa onde vou entrar ao final do dia não está limpa e arrumada. Exigimos demasiado de nós próprios e dos outros, porque a sociedade também é exigente, somos inundados diariamente com ideais de perfeição, vidas imaculadas e auspiciosas, carreiras bem sucedidas, filhos geniais e, neste cenário o comum, o normal, parece não se encaixar nesta corrente e deixa-nos ainda mais frustrados e ansiosos.

Eu só queria não sentir esta exigência da perfeição, aceitar os percalços como desafios a ultrapassar, mas sem peso, apenas como evolução permanente e melhoria constante numa vida serena e de aceitação.

Pode parecer que a vida de uma mãe é afinal um novelo em desalinho, que não pode ser usado para tecer porque está cheio de nós, e é muito isso que se revela na maior parte dos dias, e não há que escondê-lo porque já há demasiadas pessoas a testemunhar as alegrias da maternidade, sem permitir que a verdade seja do conhecimento geral. As mães são uma espécie de super-heroínas, dotadas de energia infinita e reservas inesgotáveis, mas sofrem a dor dessa entrega incondicional e devem estar cientes do papel que vão assumir para o resto das suas vidas.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 25.01.25

Não sei se é uma preocupação de todos os  pais que os filhos tenham acesso a uma boa educação, para que o futuro seja risonho e possam ter as melhores opções de vida. Há quarenta anos atrás ainda era comum os pais não serem licenciados, mas havia já uma consciência mais ou menos generalizada que se os filhos avançassem até ao ensino superior teriam melhores oportunidades no mercado de trabalho. A sociedade também avançou nesse sentido, com os sucessivos avanços tecnológicos, com o aumento da escolaridade obrigatória e com uma maior oferta e competitividade.

Hoje em dia, há uma oferta muito maior de bens, serviços e também de oportunidades. Não precisamos sair de casa para quase nada, a interconectividade e a globalidade permitem-nos obter tudo o que precisamos.

Esta inércia de movimento leva claramente a um estado de apatia perante os grandes desafios da vida, porque não há esforço, nem compromisso, nem entrega, é tudo demasiado fácil e dado como adquirido.

Penso que é normal projectarmos nos nossos filhos os nossos desejos reprimidos, as nossas ambições ocultas, e com isso querermos que eles conquistem em parte o que não conquistámos. A ideia da superação é positiva, porque também nos devemos superar a nós próprios a todo o instante. No entanto, muitas vezes, mais do que as que seria desejável, projectamos nos nossos filhos os nossos medos, as nossas angústias e as nossas fraquezas, porque não queremos que tenham as dificuldades que nós tivemos ou ainda temos. É por isso que nos dia de hoje temos esta ideia de que têm de aprender muitas línguas e começar cedo, porque não podem ficar para trás. Preenchemos o tempo de brincadeira e o verdadeiro lazer com mil e uma actividades que são fundamentais, a nosso ver, para moldar a personalidade deles, para lhes dar competências que lhes vão fazer falta no futuro. Ouço muitos pais dizerem-me que os filhos vão praticar futebol, porque é um desporto colectivo e é muito importante trabalhar essa competência, e eu questiono duas coisas, por um lado, onde fica a liberdade das crianças se organizarem em grupos de interesses comuns e trabalharem também a competência da iniciativa, da autonomia e da criatividade, por outro lado, porque é que deixámos de ouvir o que as crianças têm para nos dizer e lhes impomos as nossas vontades, que só estão certas na nossa geração, quando eles estiverem no nosso papel o mundo mudou uma e outra vez e o que realmente importa não terá muito que ver com o que nos preocupa actualmente.

Somos pais zelosos, interessados e participativos, pois mesmo quando não temos tempo para ir andar de bicicleta, para fazer uma caminhada, para ler histórias, levamo-los às actividades, oferecemos presentes e esforçamo-nos para que aos 10 anos de idade já sejam conhecedores de uma boa parte do mundo. Esquecemo-nos muitas vezes do que realmente os faz feliz.

Diário de uma mãe

Joana Nave, 18.01.25

Estamos no mês de Janeiro e ainda se definem planos e objectivos para este novo ano. É assim no trabalho, mas também em família, começamos a planear as férias, a marcar no calendário as datas importantes, e a fazer listas intermináveis de tudo o que gostávamos de ter e fazer. Não sendo excepção à regra, também tenho estado empenhada neste tipo de tarefas, identifiquei duas actividades físicas às quais me quero dedicar, recomecei o journaling, estabeleci os meus objectivos de leitura, e tomei a iniciativa de retomar a escrita neste blog. Para já, vou dedicar-me a um tema, seguir um fio condutor, que é simultaneamente o motivo do regresso e também o da ausência: os filhos.

Fui mãe pela primeira vez vai fazer oito anos e, apesar de não sentir que deixei de ser eu própria, tive de redefinir as minhas prioridades. Ser mãe é exigente, e desculpem mas não é para todos, se calhar nem é para mim, porque há dias em que é de facto um sacrifício. Não posso contudo deixar de explicar que sacrifício, embora seja conotado como algo negativo, é uma forma de demonstrarmos a nossa entrega a alguma coisa, uma entrega de compromisso e valor, que nos obriga a abdicar de outras formas de ser e estar para benefício de um bem maior.

A minha história não tem nada de especial, é comum e banal, mas é minha e por isso define-me e mostra quem sou. Fui mãe pela primeira vez há quase oito anos e passados quinze meses fui mãe outra vez. Ainda hoje as opiniões dividem-se, há quem me chama louca, e quem elogie a coragem. Em minha defesa, ou simples descrição dos factos, queria ter dois filhos, porque queria que o primeiro tivesse um irmão, que não fosse filho único como eu. Queria ter um menino e uma menina e quis o destino que assim fosse, então tudo correu pelo melhor. Há vantagens e desvantagens em ter filhos tão próximos, eu tento focar-me nas vantagens e atribuir a culpa dos dias menos bons às desvantagens.

A vida tem-me ensinado que o melhor é não fazer grandes planos, mas dar sempre o nosso melhor a cada instante. Na realidade nunca sabemos quando tudo começa ou acaba, é mais um viver o dia a dia com a certeza que é este momento presente que nos abraça e impele a continuar em frente. Há quase oito anos que não tenho um sono descansado, e não é porque eles durmam mal, são verdadeiros anjos, umas poucas doenças não muito preocupantes, uns pesadelos nocturnos, e pouco mais. O problema sou eu e um sono leve que veio para ficar, uma preocupação constante que faz, como muitos dizem, ter o coração a bater fora de nós, um estar sempre alerta, um matutar no passado, presente e futuro que possa dar-lhes tudo o que merecem.

Continua...

Pôr fim à discriminação

Pedro Correia, 28.03.19

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Agora que tanto se fala - e muito bem - contra as discriminações, venho apontar uma. A do Dia do Pai, relativamente ao Dia da Mãe.

Esta última festividade calha sempre a um domingo, o que facilita imenso o convívio entre as mães e os filhos de qualquer idade. 

Pelo contrário, o Dia do Pai ocorre inevitavelmente a 19 de Março, o que na maioria dos anos - como na semana passada aconteceu - coincide com uma jornada de trabalho e de actividade escolar. Dificultando precisamente esse convívio que se desejaria incentivar.

Talvez não fosse má ideia transferir o Dia do Pai também para um domingo - neste caso o domingo imediatamente posterior a 19 de Março, por exemplo. Não seria medida original, na medida em que o Dia da Mãe se celebrou durante décadas a 8 de Dezembro antes da alteração que o deslocou para o primeiro domingo do mês de Maio.

Em alguns países europeus e americanos, o Dia do Pai festeja-se no primeiro ou no terceiro domingo de Junho. Provavelmente faz mais sentido. E põe fim à discriminação actual, em que o calendário propicia muito mais encontros dos filhos com as mães do que com os pais nos dias estipulados para o efeito.

velocidade furiosa 8 (sem Marcelo e afins)

Patrícia Reis, 19.04.17

Fomos ao cinema, eram seis da tarde e fomos por ser um compromisso assumido, bilhetes comprados na véspera. Nada de pipocas para não perder a fome para o jantar (argumento do meu filho, eu comprei logo um gelado e uma garrafa de água). Sou uma devota dos filmes de mocinho, filmes de bang bang, filmes com espada e capa, filmes de pancada, com explosões e afins. Depois de sete filmes liderados pelo nunca demais elogiado Vin Diesel (Dom para os amigos), eis que estamos no pináculo da perfeição: carros na neve a deslizar perseguidos por um submarino enquanto no avião um mata todos e ainda leva uma criança sorridente na tal cadeira ovo do costume. Diz-me o meu filho: "A mensagem é sempre a mesma, não se brinca com a família, nada é mais importante." E fico a pensar naquilo e em como conseguiram montar a perseguição pelas ruas de Nova Iorque com carros sem motorista e carros a voar de prédios. Aguardo com impaciência o capítulo 9, o regresso de Cipher, a criança a crescer e, por favor, mais um pouco da maravilhosa Helen Mirren, sim? Muito agradecida.

estudar

Patrícia Reis, 01.05.14

É o nono ano. A gramática? Não é nada parecida com o que estudei e os nomes? É para esquecer. Mais vale dizer que "bacia" também pode ser "anca" e "penico" e depois o miúdo lá entende que é uma qualquer coisa acabada em "minia" ou assim.

Não há nada mais frustrante do que ter de empinar a gramática sem a entender verdadeiramente e depois ver como faz bilharetes na interpretação, na composição, na riqueza de vocabulário. No fim, diz

 

Bom, pode ser que me safe se for sobre os Lusíadas ou sobre o Alto da Barca do Inferno.

 

E depois acrescenta

 

Ainda bem que o Vasco Graça Moura escreveu o livro a explicar os Lusíadas. É pena que já tenha morrido, se fizesse um livro sobre a gramática podia ser que fosse mais fácil.

 

De resto? O costume. O professor que manda para a rua, a professora que considera um determinado comentário insolente. E eu a desvalorizar, a dizer que os professores têm os seus dias e tal, sempre a defender, e o mundo não é justo e as pessoas não são máquinas, blá, blá, blá. Seja. Remate final

 

O pior é quando nos perguntam se queremos ser expulsos.

 

Como? Sem comentários.

Filhos

Patrícia Reis, 19.01.14

Um filho vai para a Faculdade, com 17 anos, média alta. Um filho escolhe o curso. Nada de pressões, excel ou pesquisas sobre isto ou aquilo, o rapaz deve estudar o que quiser. Um filho odeia o curso, a mediania e tudo o que por ali abunda. Continua a marrar e a ter boas notas. Vai ao director de curso e, respeitosamente, explica que se vai embora, para outro lado qualquer, para um curso que "alimente o cérebro". Uma mãe apoia. Um pai apoia. Um padrasto apoia. Fácil? Nah!

Desabafo

Patrícia Reis, 23.10.13

Há uns anos, um dos meus filhos disse-me que não o tinha educado para ser, passo a citar, "salsicha nobre".

Por causa disso, na sua opinião, era difícil integrar-se. Pedi desculpa e acrescentei que aos vinte anos talvez me agradecesse. Ficámos assim.

Passou algum tempo, o rapaz, quase homem, entra na faculdade e, três semanas depois do início do curso, anuncia que está infeliz, que quer sair, que quer escrever, que quer ir à procura de um outro curso, não sabe qual nem onde.

Voltei a imaginar a dita da lata das salsichas e senti-me bastante culpada. Isto durou um minuto e meio, metaforicamente (é como quem diz uns dias e umas noites).

Não sou apologista da ida generalizada para a faculdade, nunca fui. Todos os anos, saídos das universidades, 60 mil pessoas enfrentam o mercado de trabalho com desalento. Ao mesmo tempo, não tendo uma bola de cristal, sempre pensei que não devemos ter um excell para a vida dos filhos e, em consequência, sendo solidária, dizendo umas coisas aqui e ali, deixei que a escolha fosse individual. Isto implica responsabilidade, alguma capacidade de ouvir os outros e até uma certa pesquisa, para saber onde se vai meter.

Três semanas volvidas, a faculdade tornou-se um tormento. Ora, a vidinha também é um tormento. Digo eu. E reforço que o melhor será não olhar para o copo como meio cheio ou meio vazio, dar graças por ter um copo. A criatura responde que o dele se partiu. Se é o caso, há pelo menos 90% da população universitária que ficou sem trem de cozinha, pensei eu com alguma ironia.

É evidente que pode sair, mudar de curso. Até de país, embora não o queira fazer. Convém é saber que a vidinha, na generalidade, traz dissabores e ter duas cadeiras menos interessantes não é caso para mandar um curso às urtigas. Digo eu, outra vez.

Eventualmente, ele mandará o curso às urtigas e tudo bem. Pelo menos para mim. Para ele, o caso é diferente. Quer mesmo fazer uma licenciatura e depois um mestrado e um doutoramento, já que pode dar aulas a seguir. É o plano. Dele. Mas o copo partiu-se e ele não cabe na lata.

O que faz uma mãe? Não faço a mais pequena ideia.

...

Patrícia Reis, 17.10.13

O meu filho diz - com o ar descontraído de quem tem 14 anos - que vai fazer um trabalho sobre Jose Luis Borges. Conhecendo a criatura, o filho, não me espantaria se tivesse dito:

 

Vou fazer um trabalho sobre Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo.

 

Bom, que é o escritor argentino, eu percebi de imediato. O que não percebi foi a escolha e como é que ele tinha lá chegado. Respondeu-me:

 

Gosto da forma como ele pensa.

 

Mantive o silêncio.

Falaram-me de um video de uma revista semanal que foi fazer um questionário à porta das universidades. Perguntas como: quem é o Presidente da UE? Quem pintou a Mona Lisa? Quem escreveu os Maias? É triste dizer que o video só provoca aquilo a que se costuma designar por "vergonha alheia". Pelo sim, pelo não, perguntei as mesmas coisas ao miúdo cá da casa, ele respondeu tudo direito, desta vez com ar de enfado. Depois perguntei por 3 filósofos e ele respondeu Kant, Aristóteles e Montesquieu. Ok. Tudo bem. Fomos ao hipermercado, carregámos com as coisas para casa, jantámos na cozinha a ouvir o novo disco de Sting e ele perguntou:

 

Como é que sabemos que o amor é mesmo amor?

 

Eu não consegui responder.

os jornais, mãe

Patrícia Reis, 10.08.13

- Então, mãe, está tudo bem?

 

- Está muito calor.

 

- Aqui também, mas a praia é boa.

 

- Ainda bem. Tu estás bem?

 

- Sim, sim, estou feliz... Olha, não compres jornais hoje. 

 

- Eu sei.

 

- Está a morte... está em todo o lado. O Urbano...

 

- Eu sei. 

 

- Não compres. Nem vás à banca. 

 

- Não vou. 

 

- Gosto muito de ti, mamã.

 

- E eu de ti, querido. 

Galinha o quê?

Gui Abreu de Lima, 29.04.13


O meu companheiro seguiu o rasto dos mais velhos. Era um tagarela serão fora, capaz das perguntas mais parvas só para me ouvir praguejar. Bom sentido de humor, das noites queria a risota (fazia-me bem aos brônquios). Agora a sala é um intervalo. Vem beber, o passarinho, e segue onde outros estão de olho num monitor. Desprende-se o petiz da saia, rumo ao ciberespaço. Os filhos são como os pintos, ganham pena e voam. Ingratos.

choques relativos

Patrícia Reis, 18.03.13

Quando o miúdo disse que já tinha fumado um charro, o meu primeiro pensamento foi:

 

Ainda bem que não estamos nos Estados Unidos da América. Perdias todas as hipóteses de chegar à sala oval.

 

O pensamento era um truque, como qualquer outro, para não reflectir exactamente no que me fora dito. O silêncio é de ouro? Não, nestes casos. Por isso, não sei porquê, limitei-me a continuar a andar, no mesmo passo, a mesma velocidade. E com ele ao meu lado, eu disse:

 

Os charros davam-me para chorar. Era ridículo. Desisti. Todos se riam menos eu.

 

O miúdo sorriu. Como está naquele idade, limitou-se a passar a sua mão, muito discreto, muito levemente, pela minha. Depois parou, colocou as mãos nos meus ombros e confessou:

 

Foi só uma vez, mãe. E não voltará a acontecer.

 

Eu sorri e continuámos.

Na minha cabeça comecei a contabilizar todas as asneiras que fiz com a idade do petiz até aos vinte e pouco. Ele não ganhará no disparate, é mais sábio. Mesmo que eu saiba que não há "só uma vez".

Nós, o acordo ortográfico e os nossos filhos

Ana Lima, 06.10.11

Há uns dias falou-se bastante, por aqui, do acordo ortográfico. Pondo de parte, agora, a questão básica da existência do acordo (em relação à qual tenho muitas dúvidas, embora tenda a considerá-lo mais negativo do que positivo), tenho pensado bastante, nos últimos tempos, com o início do ano escolar, na forma como a sociedade em geral e a escola em particular irão lidar com a situação inédita, para muitos de nós, da coexistência simultânea de duas grafias e do surgimento constante de dúvidas concretas na aplicação do acordo.

E se na comunicação social o novo acordo tem penetrado paulatinamente, nas escolas não entendi ainda como será operacionalizada a sua introdução. Os programas, os manuais das diversas disciplinas, a formação dos professores que alterações terão que introduzir?

E em casa? O que vamos nós fazer? Os nossos filhos passarão a escrever de uma maneira e nós, mais avessos à mudança, deliberadamente ou não, de outra? Já são tantas as coisas que nos afastam e agora até a forma como escrevemos?

E os avós, que dão uma ajudinha e para quem, ao longo da vida, não têm visto grandes alterações a este nível? Será que se conseguirão habituar?

Cá para mim já será bom se os miúdos, perante as duas hipóteses, não optarem por uma terceira: a das grafias abreviadas das escritas de mensagens via telemóvel e redes informáticas. 

Estas vão ganhando terreno e entraram já na linguagem verbal. As minhas filhas, por vezes, dizem já: obg, em vez de obrigada; MG em vez de My God; e pior ainda, já não riem, limitando-se a dizer Lol.

Claro que todas estas angústias serão ultrapassadas daqui a algum tempo. Mas, por enquanto, não deixam de me preocupar.