Diário de uma mãe
Ufa, já passou tanto tempo... Não tenho tido nada de interessante para partilhar, os dias têm passado uns atrás dos outros, qual correia encadeada de rotinas e momentos fugazes de puro deleite, aqueles em que não estamos a trabalhar, fazer o jantar, arrumar a roupa e pensar nas tarefas do dia seguinte. Tenho pensado sobre o propósito desta crónica, um desabafo derrotista da minha frustração, uma catarse, um diálogo unilateral, sim porque eu imagino o que vocês pensam sobre as minhas ideias e teorias sobre isto de ser mãe. Também podia ser uma ode feminina sobre o papel que ser mãe tem na sociedade. Podia ser isto tudo e também ser apenas a forma de me expressar, com conteúdo mais ou menos válido e credível, sobre a minha própria experiência. Por ser a minha experiência, procuro que seja o mais sincera possível, já temos demasiadas histórias bonitas e cor de rosa a vaguear pelo mundo cibernético e fazem falta mais relatos crus do que a vida representa para cada um de nós.
Os vários acontecimentos que compõem o meu caminho tornaram-me mais assertiva e menos romântica, mais objectiva e menos complexa, simplificar é o meu lema. A maternidade ensina-me todos os dias que ainda sei muito pouco sobre tudo, porque é uma experiência mais avassaladora que as outras que vivi, é mais dura, mais envolvente, por vezes até mais sufocante. Tenho a certeza que faço o meu melhor e que nunca vai ser suficiente, tenho ainda mais certeza que devo estar a fazer tudo mal, mas é o que é. Libertamo-nos do sentimento de culpa quando realizamos que somos apenas ser humanos, que têm emoções que aprendem a conhecer e controlar, que esta condição nos define, mas não é a nossa essência, porque esta vem da consciência com que ultrapassamos essas mesmas emoções. O mais importante é aceitar, quem somos, o que sentimos e o que gostaríamos de alcançar. Sermos verdadeiros é o ensinamento mais valioso que podemos transmitir aos que crescem connosco, aprender a valorizar a verdade do que gostamos é a lição número um que não está nos manuais escolares, mas que é a história mais significativa que passa entre gerações.
Eu gosto de dias de sol, mas não gosto de calor, gosto do cheiro a terra molhada, mas não gosto de chuva, gosto do cheiro dos livros, mas ainda mais da forma prática com que se lê num ereader, gosto do cheiro doce de um bolo acabado de sair do forno, de chá quente e mantas no sofá, gosto de me deitar em lençóis lavados e passados, mas também gosto de sentir a areia da praia nos pés, não gosto de água fria, adoro água quente no mar, gosto de pipocas salgadas, detesto coca-cola, gosto de plantas e de gatos, mas fico fula quando os gatos comem as plantas, gosto de ser mãe, mesmo quando preferia estar a ler e beber café e a ouvir os meus discos sem mil e uma interrupções constantes.


