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Figura internacional de 2018

por Pedro Correia, em 02.01.19

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JAIR BOLSONARO

Foi o  mais imprevisível triunfo eleitoral de 2018, surpreendendo grande parte dos comentadores e analistas políticos: Jair Bolsonaro, capitão na reserva e deputado federal desde 1991, venceu a eleição presidencial brasileira de Outubro, suplantando na segunda volta o seu rival do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, por uma margem confortável: obteve 55% e quase 58 milhões de votos. Ontem tomou posse, em Brasília, como 38.º Chefe do Estado do maior país de língua portuguesa e líder da sétima economia à escala mundial. Com uma taxa de aprovação muito elevada, que ascende a 61%, segundo os mais recentes barómetros  - algo que praticamente ninguém conseguia prognosticar há um par de meses.

A inclusão do juiz Sérgio Moro no novo Executivo federal, com a pasta da Justiça, terá contribuído para este reforço da popularidade de Bolsonaro, que se apresentou às urnas apenas com o apoio inicial de um pequeno partido, o PSL, e quase sem dispor de tempo de antena nos canais televisivos. Contornou estas dificuldades recorrendo em larga escala às redes sociais e às novas plataformas de telecomunicações. O que vai seguir-se é uma verdadeira incógnita, sendo inegável o peso dos militares na estrutura governativa agora empossada - começando pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.

No DELITO DE OPINIÃO, que o elegeu como Figura Internacional do Ano, Bolsonaro teve uma vitória apertada: recebeu nove votos em 24. Vencendo tangencialmente outro dirigente de um país de língua portuguesa: o Presidente angolano, João Lourenço. Justificação para os oito votos recolhidos pelo homem que em 2017 sucedeu a José Eduardo Santos: o papel relevante que tem desempenhado na abertura das instituições e no combate à corrupção em Angola.

 

O terceiro lugar do pódio, com três votos, coube ao Presidente norte-americano Donald Trump - aqui vencedor nos dois anos anteriores - pelas numerosas polémicas que tem protagonizado, levando a uma constante sangria da sua equipa governativa, mas também pela histórica cimeira que manteve em Abril com o ditador de Pyongyang, Kim jong-un, que terá aberto enfim caminho à desnuclearização da península coreana, há 68 anos em estado de guerra.

Houve dois votos no novo Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, primeiro dirigente desde 1959 que ali não pertence à família Castro. Além de votos isolados no Presidente chinês, Xi Jinping, que em 2018 viu reforçados os seus poderes, sendo-lhe reconhecida a possibilidade de recandidatar-se a novos mandatos, e no magnata norte-americano Mark Zuckerberg pela intrusão que os FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google) têm nas nossas vidas e na forma como estão a mudar o mundo, certamente para pior.

 

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

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Figura nacional de 2018

por Pedro Correia, em 01.01.19

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JOANA MARQUES VIDAL

É consensual: a investigação criminal, com ela no vértice supremo do Ministério Público, deixou de olhar a ricos e poderosos, fingindo que os ilícitos não existiam. Há hoje a sensação generalizada de que não basta ser influente para escapar às malhas da justiça. E que terminou enfim a inércia no combate à corrupção, um dos cancros que corroem a democracia.

Isso deve-se, em boa parte, à orientação imprimida por esta jurista à frente da Procuradora-Geral da República durante os seis anos do seu mandato, concluído em Outubro de 2018. O Governo poderia ter proposto a sua recondução ao Presidente da República, a quem cabe nomear o titular máximo da acção penal, mas logo em Janeiro a ministra da Justiça, Francisca Van Dunen, deixava claro que isso não iria acontecer.

Joana Marques Vidal  sai, certamente com a sensação do dever cumprido, tendo sido substituída por Lucília Gago, uma das suas colaboradoras mais próximas. Na nossa tradicional escolha de fim de ano, os autores do DELITO DE OPINIÃO elegeram por maioria a procuradora-geral cessante como Figura Nacional de 2018, com 11 votos em 25 possíveis.

 

Na segunda posição, com seis votos, ficou o nosso eleito de há um ano: Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez não venceu, mas a justificação manteve-se inalterada: o Presidente da República distingue-se pela intervenção diária e constante como moderador na política portuguesa.

O terceiro lugar do nosso pódio, com quatro votos, é ocupado pelo ministro das Finanças. Mário Centeno foi outra figura em relevo ao longo de 2018, tanto pela sua estreia como presidente do Eurogrupo como por ter anunciado que Portugal está prestes a atingir o mais baixo défice nas contas públicas pela primeira vez em democracia: 0,2% do PIB.

 

Houve ainda dois votos em Cristina Ferreira, protagonista da mais cara transferência de sempre na televisão portuguesa ao passar da TVI para a SIC por valores que só costumamos ver ao nível dos clubes de futebol. E dois votos solitários. O primeiro em Ricardo Robles, o vereador do Bloco de Esquerda em Lisboa que se viu forçado a cessar estas funções quando se tornou público que praticava especulação imobiliária, contrariando o que defendia no seu discurso político. O segundo no eterno Pedro Santana Lopes, que renunciou à militância no PSD, onde se manteve filiado durante 40 anos, e em Outubro fundou a Aliança, que terá o primeiro teste eleitoral nas europeias de 26 de Maio.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

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Só podia ter acabado como acabou

por Pedro Correia, em 02.05.18

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Subitamente, em 1974, faz agora 44 anos, Lisboa transformou-se na capital da Europa. Enviados especiais de todas as partes do globo acorreram, em fluxos torrenciais, à cidade onde os cravos floriam nas espingardas. E Portugal passou a ser notícia – não durante dias ou semanas, mas durante meses, até a chama revolucionária se esgotar em Novembro de 1975.

 

Figuras como Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes e Otelo Saraiva de Carvalho compareciam nas capas de jornais e revistas, sob títulos dos mais diversos idiomas. Havia os discípulos de Maquiavel que, como o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, apostavam que Portugal seria a “vacina da Europa”, espécie de laboratório onde se experimentava a revolução socialista destinada a falhar e a constituir um exemplo à escala universal. E havia os outros, os que sonhavam que todas as utopias seriam possíveis no auge da Guerra Fria neste canto mais ocidental da Europa.

Intelectuais de diversos matizes – de Jean-Paul Sartre a Glauber Rocha – acorreram ao país que adormecera em plena ditadura caetanista e despertara já sob o mito da “sociedade sem classes”. Sérgio Godinho, numa canção com letra sábia, advertia: “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Mas ninguém o escutou, entre as palavras de ordem entoadas nos comícios de rua.

 

Os repórteres estrangeiros que afluiram a Lisboa deixavam-se fascinar pelas figuras mais iconográficas do golpe revolucionário – do monóculo prussiano de Spínola até à cabeleira branca de Álvaro Cunhal com o seu perfil de príncipe florentino. E choviam hipérboles: André Pautard, por exemplo, comparava na revista L’Express o 25 de Abril à libertação de Paris somada ao Maio de 68. Raymond Cartier, da Paris-Match, jantava em casa de Mário Soares, ao Campo Grande, e trazia de lá uma indigestão de novidades. O brasileiro Berilo Dantas, enviado da revista O Cruzeiro, conversava com Mestre Chico, durante 30 anos barbeiro de Spínola, e revelava que o general almoçava todos os dias no mesmo hotel de Lisboa.

Um homem que não dispensava as rotinas surgia ao leme da revolução: quem soubesse decifrar sinais perceberia já então que tudo só poderia acabar como acabou.

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Figura internacional de 2017

por Pedro Correia, em 04.01.18

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DONALD TRUMP 

É a chamada figura incontornável. Pelo segundo ano consecutivo, o magnata nova-iorquino foi eleito Figura Internacional do Ano. Em 2016, o destaque deveu-se ao facto de ter sido eleito para a Casa Branca, derrotando a favorita, Hillary Clinton, e surpreendendo a grande maioria dos analistas políticos. Desta vez justifica-se por ter iniciado o mandato, a 20 de Janeiro.

Um mandato muito polémico desde o primeiro dia, marcado por um cortejo de demissões de figuras relevantes na administração Trump. A 21 de Julho demitiu-se o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. Dez dias depois, saía o recém-entrado director de comunicação, Anthony Scaramucci. O anterior, Mike Dubke, abandonara funções em Maio. Também em Julho, o Presidente perdeu o seu chefe de gabinete, Reince Priebus, e viu partir o director do gabinete de ética, Walter Shaub. Em Fevereiro, exonerara o conselheiro de segurança, Michael Flynn, que só esteve um mês em funções. Outro conselheiro, Ezra Cohen-Watnick, foi demitido em Agosto. O secretário da Saúde, Tom Price, viu-se forçado a resignar em Setembro. No fim do ano, anunciava-se a saída de Omarosa Manigault-Newman, directora de comunicação com o público da Casa Branca e a mais destacada afro-americana do Executivo.

Também na frente legislativa Trump encontrou dificuldades. Só em Dezembro conseguiu a primeira vitória no Congresso, apesar de contar com maioria republicana nas duas câmaras do Capitólio, ao ver aprovada a prometida reforma tributária - primeira em 30 anos. Mas enfrentou oposição firme à reversão da reforma sanitária realizada pelo antecessor, Barack Obama. Em compensação, a economia continuou na rota do crescimento: 3,2%, no terceiro trimestre de 2017, com o desemprego a registar os números mais baixos em 17 anos.

Na frente externa, Trump desencadeou coros de críticas ao anunciar o fim da vinculação dos EUA ao acordo de Paris sobre as alterações climáticas, acentuou o isolacionismo da sua administração ao retirar o país da Unesco e enfureceu o mundo árabe ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, em flagrante colisão nesta matéria com os parceiros europeus de Washington e os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China.

Tudo isto num ano marcado por intensas disputas verbais entre o inquilino da Casa Branca - activíssimo no Twitter, rede social onde funciona como cabeça de cartaz à escala global - e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. «É melhor que a Coreia do Norte não faça mais ameaças aos EUA. Vai enfrentar fogo e fúria como o mundo nunca viu», assegurou Trump, em Agosto. Agindo cada vez mais como um elefante nessa vasta loja de porcelana que é a cena política internacional.

 

O líder norte-americano recebeu dez dos 24 votos nesta eleição do DELITO. Na segunda posição, com seis votos, ficou o Presidente francês, Emmanuel Macron, que em 2017 se impôs aos candidatos da esquerda e da direita clássicas na primeira volta da corrida ao Palácio do Eliseu, esmagando na segunda volta, a 7 de Maio, a sua opositora, Marine Le Pen, representante da Frente Nacional. Recolheu dois terços dos sufrágios nas presidenciais e não tardou a fundar um movimento, a República em Marcha, que em Junho conquistou 350 dos 577 assentos parlamentares.

O terceiro lugar do pódio, com cinco votos, coube ao Presidente chinês, Xi JInping, que em 2017 reforçou consideravelmente o seu poder, consolidando a posição da China na cena mundial.

Houve ainda votos solitários no deposto ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, no movimento feminista #metoo e na ucraniana Anna Muzychuk, que perdeu o estatuto de dupla campeã mundial de xadrez ao recusar a participação no campeonato do mundo da modalidade, disputado em 2017 na Arábia Saudita. Em nome da defesa dos direitos das mulheres, reprimidos neste país.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

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Figura nacional de 2017

por Pedro Correia, em 03.01.18

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MARCELO REBELO DE SOUSA

Podia ter sido no ano passado, quando foi eleito Presidente da República logo à primeira volta, por margem muito expressiva, mas acabou por ser apenas em 2017: Marcelo Rebelo de Sousa é a Figura Nacional do Ano, assim designado pelos autores do DELITO DE OPINIÃO no nosso já tradicional escrutínio destinado a destacar as pessoas, os acontecimentos e as frases que marcaram os 365 dias que ficaram para trás.

Na nossa opinião maioritária, Marcelo tem redefinido de forma positiva os poderes presidenciais consagrados na Constituição, como ficou patente no seu envolvimento directo com as populações em sofrimento na tragédias dos incêndios que tiveram expressão máxima a 17 de Junho, primeiro, e nos dias 15 e 16 de Outubro, depois. «Uma radical mudança de estilo no exercício do cargo em que foi investido», como sublinhou um dos 24 participantes nesta escolha, de um total de 31 potenciais votantes.

Não faltou quem lembrasse a importante comunicação ao País feita por Marcelo a 17 de Outubro, em Oliveira do Hospital - um dos cenários da tragédia dos fogos. «A melhor, se não única, forma de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de Junho e de Outubro, e de facto é justificável que se peça desculpa, é por um lado reconhecer com humildade que portugueses houve que não viram os poderes públicos como garante de segurança e de confiança, e por outro lado romper com o que motivou a fragilidade, ou motivou o desalento ou a descrença dos portugueses. Quem não entenda isto — humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu — não entendeu nada do essencial que se passou no nosso país.» Palavras na altura proferidas pelo inquilino de Belém.

 

Marcelo recebeu dez votos neste escrutínio do DELITO. Em segundo lugar, com sete, ficou o ministro das Finanças: Mário Centeno foi destacado pelos bons resultados alcançados sob a sua batuta (menor défice das contas públicas em democracia, saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, diminuição do desemprego, crescimento acima da média comunitária) e também por ter sido eleito, já no fim do ano, como presidente do Eurogrupo - função que começará a desempenhar a partir de Janeiro.

Na terceira posição, com três votos, ficou Salvador Sobral, que em 2017 passou de quase desconhecido para celebridade não apenas no plano nacional mas internacional ao conseguir a primeira vitória em língua portuguesa no Festival da Eurovisão. Mérito inteiro dele, e do tema musical composto pela irmã, Luísa Sobral: Amar Pelos Dois foi uma das canções do ano à escala internacional, cantada até por muita gente que não conhecia o nosso idioma.

Houve ainda dois votos em Cristiano Ronaldo, que pela quinta vez se sagrou melhor futebolista do mundo, novamente em acesa competição com o argentino Lionel Messi. E votos solitários no primeiro-ministro António Costa e em Nádia Piazza, a corajosa presidente da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, mãe de um filho de cinco anos morto nesta tragédia que enlutou o País.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

 

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Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 08.09.17

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delineou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

Daqui a um mês, a 8 de Outubro, assinalam-se os 50 anos da morte de Attlee

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Nos 95 anos de Adriano Moreira

por Pedro Correia, em 06.09.17

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 Retrato de Adriano Moreira na galeria dos antigos presidentes da Sociedade de Geografia de Lisboa

 

No dia 10 de Julho de 2015, um senhor vestido formalmente, de cabeços brancos e testa alta, ergueu-se da cadeira onde estava sentado, numa livraria do centro de Lisboa, e durante três quartos de hora prendeu a atenção de algumas dezenas de pessoas que o escutavam com uma notável lição de história, geografia, geopolítica - tudo a pretexto da literatura.

Eu estava entre os que tiveram o privilégio de o escutar nesse fim de tarde. E admirei a impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias deste homem que foi advogado e político, é hoje conselheiro de Estado, mas cuja verdadeira vocação nunca deixou de ser o ensino. Deu aulas durante dezenas de anos e deixou um rasto de admiradores em todos os continentes: é um dos portugueses com maior vocação universalista.

A expressão francesa sagesse aplica-se por inteiro a Adriano Moreira, que nessa tarde em Lisboa discorreu sobre a "comunidade de afectos" que a CPLP é acima de tudo - e como a língua comum funciona como poderoso traço de união entre os Estados-membros. Ao contrário do que sucedeu com outras antigas potências coloniais europeias, como a Bélgica ou a Holanda, incapazes de gerar laços afectivos com os povos residentes nas paragens que tutelaram.

Adriano Moreira foi subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1958-61) e depois ministro do Ultramar (1961-62) com António de Oliveira Salazar, de quem chegou a ser apontado como um dos seus mais jovens e promissores delfins. Enquanto ministro, aboliu a lei do indigenato - uma das medidas de maior alcance social alguma vez decretadas nos então territórios ultramarinos.

A corte da ditadura fervilhava de intrigas contra aquele jovem governante com 40 anos recém-cumpridos que se atrevia a revelar protagonismo num regime em que tantos progrediam na penumbra. Um dia, em Dezembro de 1962, Salazar chamou-o e foi sucinto: "Nós acabamos de mudar de política." Adriano Moreira foi igualmente sucinto: "Então acaba de mudar de ministro."

Nunca mais reassumiu um posto governativo. Fundou a Academia Internacional da Cultura Portuguesa, foi presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, dirigiu o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Correu mundo, escreveu livros, (Tempo de Vésperas, O Novíssimo Príncipe), radicou-se no Brasil após o 25 de Abril, regressou a Portugal, foi deputado e presidente do CDS, retomou a sua paixão de sempre: o ensino.

"A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho", declarou em Maio de 2015, numa longa entrevista concedida ao jornal i que vale a pena ser relida.

Pensa bem e diz o que pensa. Gostem ou não do que ele diz. Se em Portugal existisse Senado, ele seria o nosso primeiro senador. Atingidos os 95 anos, que hoje festeja, continua um sonhador. Ouvi-lo falar com tão espantosa agilidade mental é também uma lição de vida. 

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Simone Veil

por Helena Sacadura Cabral, em 30.06.17

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Tinha 89 anos e uma vida que poderia ter ficado pelos fogos crematórios de Auschwitz. Chamava-se Simone Veil e se a França está de luto em sua memória, muitos serão aqueles, fora do país, que, como eu, lamentam profundamente o seu desaparecimento. Devo a esta Mulher uma abertura de espírito que talvez não tivesse sem a sorte imensa de me ter cruzado com ela. 
A Europa também devia estar de luto. Mas, como a memória é cada vez mais curta, acredito que poucos a recordem hoje, pese embora tenham múltiplas razões para saberem de quem se trata. Podia, até, ter sido Presidente do seu país. Mas a sua obstinada independência sempre lhe limitou esse caminho e foi pelo seu pé que decidiu afastar-se, há alguns anos, da vida política e até da vida pública. 
Sobrevivente do Holocausto, foi a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu e antiga ministra da Saúde francesa, é a ela que se deve a despenalização do aborto em 1975. Agora dá-se pouco valor a esse facto, porque, para o bem e para o mal, está tudo à nossa disposição...
Quem, como eu, teve a oportunidade de falar com ela, só pode recordá-la como uma das mais interessantes e extraordinárias mulheres do seu tempo. E estar-lhe profundamente grata pelo que ela conseguiu para todas nós.

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Os patriarcas (6)

por Pedro Correia, em 01.03.17

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 Rui de Carvalho como protagonista da peça O Santo e a Porca (1971)

 

Lembro-me quando o vi pela primeira vez: num folhetim televisivo, antepassado das telenovelas, exibido pela RTP no final da década de 60. Chamava-se Gente Nova, ele era o pai. O filho era o António Feio, que todo o País conhecia então por Luisinho, o nome da personagem.

Fixei-lhe o nome: Rui de Carvalho. Um senhor de voz pausada e dicção perfeita. Dois ou três anos depois, era eu ainda miúdo, vi-o ao vivo no já desaparecido Teatro Laura Alves, na baixa lisboeta. Interpretava uma peça teatral intitulada O Santo e a Porca, do dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna.

Nunca esqueci a intensidade e a autenticidade daquele desempenho, marcas de um grande actor nos mais diversos registos – do drama à comédia, dos textos clássicos aos contemporâneos. Interpretando Molière, Shakespeare, Tennessee Williams, Bernard Shaw, Anton Tchekov, D. Francisco Manuel de Melo, Eça de Queirós, Thomas Bernhard, Friedrich Durrenmat, Natália Correa e José Cardoso Pires - alguns entre muitos nomes ilustres da literatura de todos os tempos.

 

Acompanhei, como tantos de nós, o seu papel de protagonista, incarnando o empresário agrícola Gonçalo Marques Vila na Vila Faia – primeira telenovela da RTP, que em 1982 rompeu com merecido sucesso o monopólio brasileiro no género. Ele já tinha sido pioneiro como intérprete do Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente – primeira peça teatral transmitida pela televisão, a 11 de Março de 1957. Fui seguindo o seu percurso televisivo até ao recente Bem-Vindos a Beirais, também no canal público, em que compunha a figura de Viriato Montenegro, o aristocrata da aldeia.

Admirei-o em aparições no cinema, com destaque para a sua magnífica interpretação como médico do Instituto de Oncologia no filme Domingo à Tarde, realizado em 1966 por António de Macedo. Voltei a vê-lo no palco em 1998, desta vez no estúdio do Teatro Nacional, dando corpo a um inesquecível Rei Lear, marco cimeiro da arte da representação.

Conheci-o pessoalmente no final da década de 80, quando convivemos em amáveis cavaqueiras ao serão enquanto hóspedes da Pousada de Mong-Há, em Macau, numa temporada que ali passou. Acompanhado de D. Ruth, a mulher por quem se apaixonou quando ambos frequentavam o Conservatório de Lisboa, na década de 40, e com quem permaneceu casado até à morte dela, há dez anos. Formavam um daqueles raros casais em que a harmonia e a cumplicidade se detectam nos mais singelos gestos do quotidiano.

 

Parece estar connosco desde tempos imemoriais. Não admira: estreou-se no teatro profissional ainda adolescente, corria o ano de 1942, quando António Silva, Maria Matos, Beatriz Costa e Vasco Santana pontificavam nos palcos. Ele trabalhou com todos esses gigantes do teatro português. E foi mestre de três gerações de actores. Sempre sem pose de vedeta, com aquela humildade que caracteriza os verdadeiros artistas.

“Não sou um talento. Admito que tenho jeito e alguma experiência e isso dá a tal coisa parecida com talento. Mas talento genial tem a Eunice Muñoz. Eu tenho jeito. Isto é tudo efémero”, dizia numa entrevista concedida em 2010 ao Correio da Manhã.

Rui Alberto Rebelo Pires de Carvalho, que usa Ruy de Carvalho como nome artístico, é um dos escassos compatriotas que gozam do estatuto de unanimidade nacional. Merece-o. Fez por isso com muito trabalho, imensa perseverança e fervorosa dedicação ao ofício que escolheu. Sem nunca fazer batota, como todos lhe reconhecemos. Na vida do palco e no palco da vida.

 

Rui de Carvalho, nascido a 1 de Março de 1927, festeja hoje 90 anos.

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O pesado manto da desmemória

por Pedro Correia, em 17.01.17

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“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

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Figura internacional de 2016

por Pedro Correia, em 05.01.17

                  

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DONALD TRUMP 

O magnata novaiorquino surpreendeu tudo e todos. Contrariou sondagens e as sofisticadas análises dos comentadores políticos - não só nos Estados Unidos mas também em Portugal, onde chegou a haver gente a escrever e publicar peças jornalísticas considerando-o antecipadamente derrotado na corrida eleitoral para a sucessão de Barack Obama como inquilino da Casa Branca.

À partida, de facto, quase ninguém dava nada por ele: anteviam-no apenas como animador da campanha com a sua atitude nada diplomática, digna de elefante em loja de porcelanas. Mas Donald Trump foi derrubando sucessivas barreiras, desde logo nas primárias republicanas, em que enfrentou grande parte do establishment do seu partido, incluindo os ex-presidentes George Bush e George W. Bush e os antigos candidatos presidenciais John McCain e Mitt Romney: todos se demarcaram dele desde o primeiro instante.

Apesar disso - ou por causa disso - acabou por emergir vitorioso nas primárias, derrotando antagonistas que comprovaram ser tigres de papel, como Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. Com uma mensagem linear e populista, e uma utilização maciça das redes sociais, centrou o seu discurso contra a oligarquia de Washington, a imigração ilegal e o terrorismo, apelando ao proteccionismo económico e ao apaziguamento com Moscovo.

Linhas discursivas que repetiu na contenda com Hillary Clinton, sua adversária do Partido Democrata, que viria a derrotar nas urnas em Novembro. Conquistando maioria no colégio eleitoral, graças às peculiares regras vigentes nos Estados Unidos, embora tivesse menos cerca de três milhões de votos do que Hillary no voto popular.

Vai tomar posse já no próximo dia 20, entre vaticínios generalizados de uma presidência desastrosa. Paradoxalmente, este é talvez o único ponto que à partida o favorece: as expectativas iniciais para o seu mandato serem tão baixas.

Na votação do DELITO, que mobilizou 27 dos 31 autores deste blogue, o novo Presidente eleito dos EUA ganhou por maioria absoluta: teve 21 votos no escrutínio para Figura Internacional do Ano.

Os restantes seis foram distribuídos pela chanceler alemã Angela Merkel (já aqui vencedora em 2010, 2011 e 2015), com três votos, o Presidente russo Vladimir Putin, o Presidente filipino Rodrigo Duterte e o cantautor Bob Dylan, controverso galardoado com o Nobel da Literatura.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

 

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Figura nacional de 2016

por Pedro Correia, em 04.01.17

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ANTÓNIO GUTERRES

Nunca um político português atingiu um posto tão relevante a nível internacional: António Guterres superou as exigentes provas a que foi submetido e foi eleito secretário-geral da ONU em Dezembro, tendo prestado juramento mesmo à beira do fim do ano.

É a consagração máxima na carreira do ex-secretário-geral do Partido Socialista, que exerceu as funções de primeiro-ministro entre 1995 e 2002, e desde então só regressou ao palco da política portuguesa por breves meses, quando Marcelo Rebelo de Sousa o convidou para conselheiro de Estado.

Ironias do destino: há dois anos era ele o nome mais falado para representar o PS na corrida presidencial. Afinal quem chegou a Belém foi o seu amigo e adversário político Marcelo, enquanto ele rumou a Nova Iorque. Para ascender a secretário-geral da ONU muito contou o seu bom desempenho anterior como alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Guterres foi eleito Figura Nacional do Ano pelo DELITO DE OPINIÃO num dos nossos escrutínios mais concorridos de sempre, que contou com a participação de 27 dos 31 autores deste blogue. Como já sucedeu noutros anos, cada um de nós poderia votar em mais de uma figura ou mais de um facto.

Mesmo sendo só notícia no último trimestre de 2016, o novo dirigente máximo da ONU destacou-se como favorito nas nossas escolhas: recebeu 15 votos, relegando para um distante segundo posto Marcelo Rebelo de SousaEleito Presidente da República logo à primeira volta, a 24 de Janeiro, empossado em 9 de Março como inquilino de Belém e figura em foco durante o ano em Portugal, Marcelo só obteve sete votos.

Ainda mais distantes, ficaram duas figuras do futebol: o seleccionador nacional Fernando Santos, que entre 10 de Junho e 10 de Julho conduziu a equipa das quinas à conquista do Campeonato Europa, a maior proeza de sempre do futebol português, e o jogador Éder, que marcou o golo decisivo do nosso triunfo na final disputada em Paris frente à selecção francesa. Ambos receberam dois votos.

Cristiano Ronaldo – que também se sagrou campeão em França e recebeu a quarta Bola de Ouro da sua carreira – recebeu um voto solitário. Tal como a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

 

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Entre a lágrima e o sorriso

por Pedro Correia, em 26.08.16

De longe em longe somos surpreendidos pela notícia do desaparecimento de alguém que imaginámos imortal. Aconteceu-me em Abril de 2015 com Manoel de Oliveira, que partiu aos 106 anos: parecia-me inacreditável que um homem iniciado na aventura do cinema ainda na era do mudo, parceiro de tantas cenas com Vasco Santana na mítica longa-metragem A Canção de Lisboa, se mantivesse entre nós. Aconteceu-me há dias com o professor Moniz Pereira, personalidade que tanto admirei, campeão em várias modalidades e treinador de campeões - desde logo o incomparável Carlos Lopes, primeira medalha de ouro olímpica portuguesa: permaneceu connosco até aos 95 anos, despedindo-se no termo de uma vida cheia e a vários títulos exemplar.

Também na música acredito que vários dos meus ídolos são imortais. Gente maiúscula, que na maior parte dos casos já seduzia multidões muito antes de eu nascer e continua por aí: Vera Lynn (99 anos), Charles Aznavour (92 anos), Tony Bennett (90 anos), Juliette Gréco (89 anos), Harry Belafonte (89 anos), Chuck Berry (89 anos), Sonny Rollins (85 anos), João Gilberto (85 anos), Omara Portuondo (85 anos), Little Richard (83 anos), Jerry Lee Lewis (80 anos), Kris Kristofferson (80 anos) e Hermeto Pascoal (80 anos).

 

Toots Thielemans (1922-2016) 

 

Quando um nome grande da música se apaga sinto-me como quando era pré-adolescente, ao descobrir que afinal não existia Pai Natal.

Voltou a acontecer esta semana, ao saber da notícia do falecimento de Toots Thielemans: sempre o escutei, fascinado, desde que me lembro. Este belga míope e sem aura de vedeta era o homem dos desafios impossíveis em matéria musical: foi ele quem trouxe a harmónica para o jazz, casando o instrumento de que era exímio praticante com um género mais associado ao piano ou ao saxofone.

Foi um casamento longo e de inegável sucesso. Thielemans atravessou décadas no primeiro plano da arte musical, cativando sucessivas gerações que o ouviram em palco ou nos registos discográficos. E também no cinema, onde se escuta na abertura de Boneca de Luxo (1961) e na inesquecível banda sonora do pungente Cowboy da Meia-Noite (1969).

Tocou com quase todos os nomes grandes da música que lhe foi contemporânea - de Benny Goodman e Charlie Parker a Paul Simon, de Sidney Bechet e Miles Davis a Diana Krall. Passando por Ella Fitzgerald, Bill Evans, Dinah Washington, Dizzy Gillespie, Stéphane Grappelli, Oscar Peterson, Quincy Jones, George Shearing, Pat Metheny, Stevie Wonder, Milton Nascimento ou Elis Regina.

Reparem neste delicioso duo com a intérprete de Águas de Março em que Thielemans transforma o assobio em instrumento de luxo na mais célebre das suas composições, Bluesette:

 

 

A festa da música, a festa da arte, a festa da vida. Também por isto Toots Thielemans - que nos deixou esta terça-feira, aos 94 anos, apagando-se durante o sono - me parecia imortal.

Numa das ocasiões recentes em que foi homenageado na sua Bélgica natal este modesto cidadão do mundo que apenas queria ser um artesão esforçado, quase como se pedisse desculpa pelo talento, afirmou que na sua idade já só podia mover-se "nesse pequeno espaço existente entre a lágrima e o sorriso".

Legou-nos a música - e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.

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Os patriarcas (5)

por Pedro Correia, em 11.05.16

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 Manuel Alegre com os filhos Francisco, Joana e Afonso

 

Admiro pessoas que não cedem à tentação da renúncia nem andam na vida de braços cruzados. Admiro pessoas que se mantêm activas muito para além da data legal prevista para a reforma. Admiro pessoas que nunca se esquecem de que a cidadania, mais do que um direito, é um dever. E há muitas formas de exercê-la, como faz Manuel Alegre, que parece cada vez mais imune às inclemências do tempo. No ano passado legou-nos um dos seus melhores livros de poemas, Bairro Ocidental, que estabelece uma surpreendente rima interna com as suas primeiras obras, Praça da Canção e O Canto e as Armas. Há poucas semanas reuniu uma invulgar recolha de textos dispersos, atribuindo-lhes um título feliz: Uma Outra Memória. Li-o em dois dias, com o prazer de um leitor já antigo deste magnífico prosador que Alegre também é.

Ele não tem de pedir licença a ninguém para pensar como pensa. Nem molda o discurso ao sabor das modas: por isso gosta de pronunciar na sua voz bem timbrada a palavra pátria, que outros condenam ao ostracismo. Nem autoriza que os ignorantes de turno lhe imponham listas de consoantes prontas a mutilar como tábuas de uma nova lei: ele foi um dos  quatro deputados (em 230) que na Assembleia da República votaram contra a entrada em vigor do "acordo ortográfico”, rejeitado pela esmagadora maioria dos escritores portugueses. Nem necessita das funções de conselheiro de Estado, para as quais terá sido convidado e desconvidado com manifesta falta de cortesia: receber o Prémio Pessoa ou o Prémio Vida Literária da Sociedade Portuguesa de Autores são honrarias maiores. Tal como a certeza de saber que milhares de portugueses conhecem de cor os seus poemas, recitados ou cantados.

Também não necessitou do beneplácito de chefe algum para concorrer à Presidência da República fez agora dez anos, num longo e gratificante périplo pelo País que tive o gosto de acompanhar passo a passo como repórter. Ouvi-o falar largas dezenas de vezes: nunca o ouvi amesquinhar um adversário ou sequer tratá-lo com deselegância. A crítica, para dar provas de contundência, nunca necessita baixar de nível – ele, que é mestre das palavras, sabe isso melhor que ninguém. Leiam, neste seu mais recente livro, o tocante testemunho inédito sobre Mário Soares: não há ali uma palavra deslocada nem o menor vestígio de azedume. É um texto notável, a vários títulos. Também pelo pudor que revela na recusa em reabrir feridas porventura mal cicatrizadas.

Manuel Alegre tem um porte fidalgo e modos um pouco deslocados nesta época tão propícia aos sarrafeiros de turno, à esquerda e à direita. Além disso é alguém com biografia, o que parece dispensável neste tempo de celebridades-proveta, tão instantâneas como os pudins de pacote e com prazo de validade mais breve do que um iogurte.

Muito para lá das conjunturas políticas, quando estiverem extintas as fogueiras ateadas pelas paixões de circunstância, o autor de Senhora das Tempestades – um dos mais belos livros da poesia portuguesa do século XX – sobreviverá pela sua obra, que permanece inacabada.

Privilégio dele, privilégio nosso também.

 

Manuel Alegre, nascido a 12 de Maio de 1936, faz amanhã 80 anos.

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Os patriarcas (4)

por Pedro Correia, em 10.02.16

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MÁRIO MONIZ PEREIRA

 

Desportista nato, praticante das mais diversas modalidades (atletismo, andebol, voleibol, basquetebol, futebol, ténis de mesa e hóquei em patins), campeão nacional de vólei e recordista nacional do triplo salto, o actual sócio número 2 do Sporting Clube de Portugal começou desde cedo a treinar atletas: era esta a sua maior vocação e foi nisto que mais se distinguiu.

Enfrentando todas as adversidades, lutando contra todos os obstáculos, ultrapassando a proverbial tendência muito portuguesa de deixar as coisas para amanhã e jamais voltar a pensar nelas, conseguiu, após décadas de esforço, pôr o País inteiro a correr. Ele dava o exemplo, fizesse chuva ou fizesse sol.

 

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Eu vivi essa época e sei do que falo: graças a Mário Manuel Freire Moniz Pereira e aos campeões que ele treinou, o atletismo tornou-se uma paixão nacional. Porque, naqueles anos 70 e primeira metade da década de 80, só nas pistas e nos trilhos o desporto português teve as suas horas de glória. Começando em Fevereiro de 1977 com a vitória na Taça dos Campeões Europeus de corta-mato - proeza colectiva da equipa do Sporting que viria a repetir-se sete vezes nos dez anos seguintes - e culminando naquele instante irrepetível que foi a entrada de Carlos Lopes, com a sua passada larga e segura, no estádio de Los Angeles, estabelecendo novo recorde olímpico da maratona e conquistando a primeira medalha de ouro portuguesa nuns Jogos Olímpicos - proeza antecipada na medalha de prata que obtivera em 1976, na final dos 10 mil metros, nas Olimpíadas de Montreal, e que poderia ter ocorrido logo em 1980 se Portugal não tivesse aderido nesse ano ao boicote ocidental aos Jogos Olímpicos de Moscovo.

 

No momento em que a bandeira portuguesa subia ao mastro e se escutavam os acordes do hino nacional em Los Angeles, o professor Moniz Pereira via coroados 39 anos de trabalho incansável.

Em ocasiões como essa ou no mês anterior, quando Fernando Mamede bateu o recorde mundial dos 10 mil metros, em Estocolmo, o Senhor Atletismo - como também é conhecido, a justo título - demonstrava a sua verdadeira estatura de campeão não só do desporto mas também da vida: associava-se com júbilo às celebrações mas nunca reivindicou louros especiais como treinador. Como se aquela fosse uma tarefa ao alcance de qualquer um. Que diferença em relação a certos técnicos no mundo do futebol, que mesmo sem vencerem nada falam de forma petulante e empertigada, como se não fossem a nulidade que realmente são...

 

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Mantendo incólume o sportinguismo de sempre, continua a dar-nos lições. Diz-nos, por exemplo, que não devemos odiar os adeptos de outros emblemas. E gaba-se de ter amigos de todas as filiações clubísticas.

Perguntem-lhe do que mais se orgulha. Ele responder-vos-á que foi de ter conseguido, através do seu exemplo, que toda uma geração de portugueses calçasse sapatilhas e fosse correr para as ruas e estradas do País.

Apenas isto. Que é muito.

Como na letra daquele fado tão conhecido, composto por este homem de múltiplos talentos, Mário Moniz Pereira bem pode exclamar: "Valeu a pena ter vivido o que vivi."

 

Imagens:

1. Durante a homenagem que lhe foi prestada pelo Sporting em 2011, ao festejar 90 anos

2. Com Fernando Mamede, na década de 70

3. Capitão da equipa de Sporting campeã nacional de voleibol, em 1954 (jogava com o nº 8)

 

Mário Moniz Pereira, nascido a 11 de Fevereiro de 1921, faz amanhã 95 anos.

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Figuras internacionais de 2015

por Pedro Correia, em 02.01.16

   

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ANGELA MERKEL e AUNG SAN SUU KYI

 

Duas mulheres foram eleitas Figuras Internacionais do ano pelo DELITO DE OPINIÃO: a chanceler alemã Angela Merkel (que já tinha sido escolhida em 2010 e 2011) e a Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi.

A primeira, entre outros motivos, por ter enfrentado sectores alargados da opinião pública germânica que se opõem à entrada de refugiados no país: a Alemanha recebeu já cerca de um milhão, liderando de longe os países europeus no acolhimento aos desalojados do Médio Oriente e do Magrebe que fogem a zonas de guerra e à pobreza económica.

A segunda por ter conduzido a sua Liga Nacional para a Democracia a uma indiscutível vitória nas urnas, com 77% dos votos nas legislativas de Novembro, pondo fim a mais de meio século de ditadura militar na Birmânia. Uma luta em que se envolveu sempre por métodos pacíficos e lhe valeu mais de vinte anos em regime de prisão domiciliária.

 

Como é costume nestas votações anuais, as opiniões dividiram-se bastante. Merkel e Aung receberam cinco votos cada dos 23 participantes neste escrutínio, que podiam votar em mais de um nome.

Com três votos ficaram o ex-ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis (de quem muitos já mal se recordam nestes tempos tão voláteis) e Aylan Kurdi, o menino curdo de três anos que morreu por afogamento quando acompanhava o pai, entre outros refugiados oriundos da Síria, em demanda de uma praia turca. A dramática fotografia da criança morta deu a volta ao mundo.

Com dois votos ficou o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, muito mencionado nas notícias do início de 2015 mas que foi perdendo destaque ao longo do ano.

Depois houve votos solitários dispersos por diversas figuras: o Papa Francisco (eleito pelo DELITO nos dois anos anteriores), Barack Obama, Donald Trump, Marine Le Pen, o lider nacionalista polaco Jaroslaw Kaczyński, o refugiado sírio Laith Majid (cuja imagem de lágrimas nos olhos, com o filho ao colo, também deu a volta ao mundo), Nicolas Catinat (assassinado no Bataclan, a 13 de Novembro, depois de ter servido de escudo humano numa atitude heróica) e o Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia (galardoado com o Nobel da Paz 2015).

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

 

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Figura nacional de 2015

por Pedro Correia, em 01.01.16

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ANTÓNIO COSTA

Não venceu a eleição legislativa de 4 de Outubro, ganha pela coligação PSD/CDS, mas foi o triunfador indiscutível no campeonato das negociações que se seguiram ao escrutínio, marcado pela ausência de maiorias absolutas.

António Costa, que em Junho de 2014 decidira disputar a liderança de António José Seguro no PS por lhe ter parecido "poucochinho" o triunfo eleitoral dos socialistas nas europeias, aguentou-se ao leme do Largo do Rato após as legislativas, transformando uma derrota nas urnas em vitória política ao conseguir congregar o apoio do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e dos Verdes para um Governo socialista, que acabou por tomar posse a 26 de Novembro.

Um acordo inédito na democracia portuguesa. Por isso o DELITO DE OPINIÃO escolheu Costa como Figura Nacional do Ano.

Durante semanas, o seu nome e o seu rosto foram associados ao adjectivo "histórico" por uma legião de comentadores nas televisões e nos jornais. Mas Costa, melhor que ninguém, está consciente da fragilidade da solução política que protagoniza - o que ficou bem patente no chumbo dos partidos à esquerda do PS ao orçamento rectificativo apresentado pelo Executivo, só aprovado graças à abstenção do PSD na sessão parlamentar de 23 de Dezembro. Em termos políticos, o ano que agora começa promete ser escaldante.

 

Costa obteve 14 votos entre os 23 membros do DELITO que participaram neste escrutínio (podendo cada um escolher mais que um nome). Em segundo lugar, com quatro votos, ficou Jorge Jesus, protagonista da mais polémica notícia de 2015 a nível nacional - ou pelo menos a que fez correr mais tinta nos jornais: a sua transferência do Benfica para o Sporting, anunciada em Junho. Algo semelhante ocorrera apenas uma vez, no remoto ano de 1930.

 

Os restantes votos dispersaram-se, solitários, por nomes bem conhecidos da política nacional: Cavaco Silva, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Mariana Mortágua, Pedro Nuno Santos e Heloísa Apolónia. Houve igualmente um voto para o activista luso-angolano Luaty Beirão, protagonista de uma mediatíssima greve de fome em Luanda, e para Vhils (nome artístico do pintor e grafiteiro Alexandre Farto), escolhido pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal como personalidade do ano.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

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Je suis Vilhena

por Pedro Correia, em 03.10.15

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Inconfundíveis desenhos de um dos dos maiores autores satíricos portugueses do século XX: José Vilhena (1927-2015)

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Os patriarcas (3)

por Pedro Correia, em 14.09.15

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ADRIANO MOREIRA

 

Há pouco mais de dois meses, no dia 10 de Julho, um senhor vestido formalmente, de cabeços brancos e testa alta, ergueu-se da cadeira onde estava sentado, numa livraria do centro de Lisboa, e durante três quartos de hora prendeu a atenção de algumas dezenas de pessoas que o escutavam com uma notável lição de história, geografia, geopolítica - tudo a pretexto da literatura.

Eu estava entre os que tiveram o privilégio de o escutar nesse fim de tarde. E admirei a impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias deste homem que foi advogado e político mas cuja verdadeira vocação é o ensino. Deu aulas durante dezenas de anos e deixou um rasto de admiradores em todos os continentes: é um dos portugueses com maior vocação universalista.

A expressão francesa sagesse aplica-se por inteiro a Adriano Moreira, que nessa tarde em Lisboa discorreu sobre a "comunidade de afectos" que a CPLP é acima de tudo - e como a língua comum funciona como poderoso traço de união entre os Estados-membros. Ao contrário do que sucedeu com outras antigas potências coloniais europeias, como a Bélgica ou a Holanda, incapazes de gerar laços afectivos com os povos residentes nas paragens que tutelaram.

Adriano Moreira foi subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1958-61) e depois ministro do Ultramar (1961-62) com António de Oliveira Salazar, de quem chegou a ser apontado como um dos seus mais jovens e promissores delfins. Enquanto ministro, aboliu a lei do indigenato - uma das medidas de maior alcance social alguma vez decretadas nos então territórios ultramarinos.

A corte da ditadura fervilhava de intrigas contra aquele jovem governante com 40 anos recém-cumpridos que se atrevia a revelar protagonismo num regime em que tantos progrediam na penumbra. Um dia, em Dezembro de 1962, Salazar chamou-o e foi sucinto: "Nós acabamos de mudar de política." Adriano Moreira foi igualmente sucinto: "Então acaba de mudar de ministro."

Nunca mais reassumiu um posto governativo. Correu mundo, escreveu livros, (Tempo de Vésperas, O Novíssimo Príncipe), radicou-se no Brasil após o 25 de Abril, regressou a Portugal, foi deputado e presidente do CDS, retomou a sua paixão de sempre: o ensino.

"A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho", declarou em Maio, numa longa entrevista concedida ao jornal i que vale a pena ser relida.

Pensa bem e diz o que pensa. Gostem ou não do que ele diz. Se em Portugal existisse Senado, ele seria o nosso primeiro senador. E, dobrado o cabo dos noventa, continua a ser um sonhador. Ouvi-lo falar com tão espantosa agilidade mental é também uma lição de vida. 

 

Adriano Moreira completou 93 anos no passado dia 6.

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A Rainha

por Pedro Correia, em 09.09.15

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«A dissimulação é a ciência dos reis.»

Cardeal Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

 

Ela viu tudo, ouviu todos.

Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.

 

Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal.

Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd.

Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), nove presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.

 

Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo.
Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. E serem restauradas noutros, como em Espanha e no Camboja.
Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

 

Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou.

A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica há mais tempo no trono, nunca escreverá esse livro.

 

Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant.

Só ela nunca passou de moda.

 

O que sente, o que pensa, o que esconde?

Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer.

"A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.

 

Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952 por morte de seu pai, Jorge VI. Tornou-se hoje a monarca há mais tempo em funções no Reino Unido.

Texto reeditado

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