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Delito de Opinião

Dois homens que deixaram obra e lastro

António Borges Coelho (1927-2025) e Álvaro Laborinho Lúcio (1941-2025)

Pedro Correia, 12.11.25

Morreram muito recentemente duas figuras que admirei, por motivos diversos mas que justificam louvor póstumo em simultâneo: António Borges Coelho e Álvaro Laborinho Lúcio.

 

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O primeiro distinguiu-se como ensaísta e cronista de mérito, mas sobretudo como historiador. Autor de uma História de Portugal em vários volumes, em que sobressai a sua análise do interregno filipino que durou 60 anos mas continua a ser um dos períodos menos bem conhecidos dos compatriotas.

Tive ocasião de sublinhar aqui o mérito dessa obra quando a li, há oito anos.

«António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.» Palavras que hoje reitero.

Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos. Incluindo Crónicas e Discursos, um livro-testamento editado em 2024 que também destaquei aqui.

«Alegra-me quando as pessoas acham que fiz alguma coisa de útil», afirmou numa entrevista à Lusa, em 2018. Bastava-lhe isso. E cumpriu o desígnio.

Morreu a 17 de Outubro, com 97 anos. Nunca o conheci. Mas sou-lhe grato enquanto leitor.

 

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O segundo, magistrado de profissão e escritor por vocação, foi competente ministro da Justiça durante uma legislatura, no terceiro executivo de Cavaco Silva (1991-1995), e mais tarde (2003-2006) ministro da República para os Açores, por nomeação de Jorge Sampaio. Tive o gosto de conhecê-lo ao fazer-lhe uma extensa entrevista jornalística em 2020, na Fundação Gulbenkian. 

Cinco anos antes tinha-o incluído numa série de textos polvilhados de alusões irónicas no DELITO DE OPINIÃO sob o título "Presidenciáveis" - e que originou um livro homónimo. Na altura ofereci-lhe um exemplar da obra e ele sorriu, com louvável fair play, quando leu que «os complexos desafios de Belém exigem trabalho árduo e não apenas Laborinho». Em anos mais recentes, já aposentado, este social-democrata de sólidos princípios humanistas dedicou-se sobretudo à escrita de ficção: tive igualmente ocasião de salientar três desses títulos aqui: O Chamador (2014), O Homem que Escrevia Azulejos (2016) e O Beco da Liberdade (2019).

«A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis», declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.

Morreu a 23 de Outubro, com 83 anos. Deixou excelente memória em muitos portugueses, até de vários que nunca votaram no PSD.

Pioneiro na democracia e no jornalismo

Na morte de Francisco Pinto Balsemão (1937-2025)

Pedro Correia, 23.10.25

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Francisco Pinto Balsemão, falecido na noite de anteontem com 88 anos, era um dos escassos sobreviventes daquele tempo pioneiro em que se instaurou a democracia em Portugal. A democracia genuína, não o regime censitário da monarquia constitucional nem a caótica década e meia da ilusória "aurora republicana" de 1910. Como fundador do PSD - então crismado Partido Popular Democrático - de que era militante n.º 1, integrou o núcleo de protagonistas daquela irrepetível era iniciada com a Revolução dos Cravos e que teve como marco essencial a Constituição, prestes a completar meio século de existência.

A importância de Balsemão começara ainda antes do 25 de Abril como administrador de jornais, sendo ele próprio jornalista. Ao transformar o Diário Popular num periódico ousado e de grande audiência no crepúsculo do salazarismo e sobretudo a partir de 1972, ao preparar a fundação do Expresso, cujo primeiro número surgiu em 6 de Janeiro de 1973, prenunciando a derrocada do Estado Novo e a instauração do liberalismo político que aqui chegou com décadas de atraso. 

Hoje, aos olhos de muitos, parece ter sido um percurso linear. Nada mais equívoco. Balsemão acreditou nas promessas liberalizantes de Marcello Caetano, que fora seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa, e aceitou integrar - como independente - as listas da União Nacional em 1969. Mas o jogo estava viciado - desde a escassa dimensão do universo eleitoral até à impossibilidade de fiscalização real dos votos pela oposição, passando pelas fortes restrições à liberdade de associação e reunião. Sem esquecer o papel castrador da censura à imprensa.

A Primavera virou Inverno. Balsemão e os restantes membros da Ala Liberal nesse falso parlamento que integrava 100 por cento de eleitos pela UN (Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, José Pinto Leite, Mota Amaral, Raquel Ribeiro, Correia da Cunha, Pinto Machado e alguns outros) distanciaram-se do sucessor de Salazar, que se limitara a introduzir medidas de cosmética - a PIDE passou a designar-se Direcção-Geral de Segurança, a Censura derivou para Exame Prémio, a anacrónica UN deu lugar à Acção Nacional Popular - produto igual com rótulo novo.

A guerra sem solução política à vista nos três palcos africanos paralisava o regime e condenou-o à extinção.

 

Seguiram-se outros desafios, com novas frentes de combate. Balsemão resistiu quando, no frenesim revolucionário, o Expresso chegou a ser rotulado de «voz do fascismo»: foi essencial a luta que travou pela liberdade de imprensa recorrendo até aos seus numerosos contactos internacionais. Como também marcou o País pela legislação que regulou o sector da informação - e que, no essencial, subsiste nos dias de hoje.

Sem esquecer a sua acção como deputado constituinte, eleito naquela gloriosa jornada libertadora de Abril de 1975 em que pela primeira vez todos os portugueses maiores de 21 anos puderam ir a votos. Foi vice-presidente da Assembleia Constituinte. Manteve sólida parceria com Francisco Sá Carneiro no partido e mais tarde, naquele efémero Governo que durou de 3 de Janeiro a 4 de Dezembro de 1980. 

Num país em choque pelo desaparecimento simultâneo do primeiro-ministro e do ministro da Defesa, Amaro da Costa, na queda da fatídica avioneta em Camarate, foi Balsemão quem pegou no leme: era o sucessor natural de Sá Carneiro no PSD e no Executivo. O Expresso ficara confiado a Marcelo Rebelo de Sousa: nenhum outro jornal criticou então tanto o Governo.

Era um teste decisivo ao fair play democrático do seu fundador. Superado com distinção.

 

Permaneceu cerca de dois anos e meio à frente do Executivo - até Junho de 1983. Tempo suficiente para ficar ligado a dois marcos essenciais: a revisão constitucional de 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução, último resquício de tutela militar num regime que só a partir daí adoptou a matriz civilista integral das democracias ocidentais. Nascia o Tribunal Constitucional, consolidava-se a divisão de poderes no Estado, deram-se passos decisivos rumo à economia de mercado que a revisão de 1989 iria acentuar.

Foi também um período decisivo para a futura adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia graças à acção de ministros como o titular dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira, e o da Integração Europeia, Álvaro Barreto.

Com Balsemão a liderar o processo.

Era um senador da república. Chegou a alimentar ambições presidenciais, mas Cavaco Silva cortou-lhe duas vezes o passo: primeiro em 1996 (quando perdeu para Jorge Sampaio), depois em 2006 (quando derrotou Manuel Alegre e Mário Soares).

Ocupava há 20 anos um merecido assento no Conselho de Estado.

 

Mas foi mesmo no jornalismo que a sua acção se revelou fundamental. Após ter fundado o primeiro semanário português com figurino internacional, voltou a ser pioneiro ao lançar o primeiro canal privado de televisão a nível nacional: a SIC, cuja emissão inaugural ocorreu a 6 de Outubro de 1992. Em Janeiro de 2002 iniciaram-se as emissões regulares da SIC Notícias, primeiro canal televisivo noticioso a transmitir 24 horas. 

«Tinha a elegância do risco», como acertadamente observou Rui Moreira em reacção ao seu falecimento. Também nisto protagonizou tempos irrepetíveis. Tempos em que os grupos informativos se algutinavam em torno de um clã familiar e mantinham como líder de referência alguém com manifesta paixão pelo jornalismo. 

Com a morte de Balsemão, também isto desaparece: na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. 

Tanta coisa se perdeu pelo caminho - desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão.

Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.

 

Leitura complementar: A arte de resistir à sedução do poder (16 de Setembro de 2021)

Um prémio mais que merecido

Pedro Correia, 10.10.25

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Donald Trump andava a fazer figuras ridículas, implorando que lho concedessem, como fedelho birrento em véspera de Natal. Mas o Prémio Nobel da Paz, hoje anunciado em Oslo, distingue quem realmente o merece: a intrépida líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, há mais de um ano clandestina no seu próprio país, que Nicolás Maduro converteu em narco-estado. Onde os mais elementares direitos humanos são espezinhados. Onde há cerca de dois mil presos políticos. Onde a fraude eleitoral inutilizou os mecanismos formais da democracia representativa ainda vigentes no consulado de Hugo Chávez, o autocrata que precedeu Maduro. Onde o destino de grande parte da população é emigrar em massa: mais de sete milhões cruzaram a fronteira na última década, fugindo ao pesadelo do "socialismo bolivariano", que converteu o país dotado das maiores reservas de petróleo do mundo numa ruína económica em ameaça permanente de colapso social.

Nas palavras do presidente do Comité Nobel, Corina é laureada por «manter acesa a chama da democracia na crescente escuridão» vigente na Venezuela, outrora a mais próspera nação da América hispânica. Maduro impediu-a de concorrer à eleição presidencial de Julho de 2024. Ela não desistiu: convenceu o antigo diplomata Edmundo González a avançar contra o déspota, mobilizando largos milhões de eleitores. Fechadas as urnas, contados os votos, ficou claro que a vitória coube ao candidato da oposição. Mas a clique militar alimentada pelo narcotráfico que domina o regime de Caracas com mão de ferro mandou a vontade popular às urtigas, impondo Maduro como "triunfador" sem se dar sequer ao incómodo de divulgar as actas eleitorais. Seguiu-se nova onda repressiva, forçando González a pedir asilo político à embaixada espanhola na Venezuela. Hoje vive exilado em Madrid.

Ela, no entanto, resiste no lugar próprio: a terra onde nasceu. Por meios pacíficos, apelando à resistência cívica, condenando sempre o recurso à violência sob o lema «votos em vez de balas». Mas sem temor dos verdugos, obcecados em depositá-la numa masmorra: a sinistra Sebin, polícia política da ditadura, tem ordens expressas para continuar a procurá-la em cada recanto do país. Felizmente sem sucesso até agora, o que não ilude esta inquietante evidência: María Corina arrisca não só a liberdade, mas a própria vida.

Recebi a notícia do Nobel da Paz 2025 com imensa satisfação nesta semana tão fértil em acontecimentos. E concluo: raras vezes este prémio foi tão merecido.

 

Leitura complementar:

A Mulher do Ano (1 de Agosto de 2024)

Pela liberdade, contra a ditadura (21 de Setembro de 2024)

Não há paz sem liberdade

Pedro Correia, 28.08.25

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Martin Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)

 

Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.

Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: «Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra.»

Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King«Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade», declarou* o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Nobel da Paz.

No tempo de Lincoln ainda não havia Nobel. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura.

Um ideal que lhe custou a vida: viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos EUA e no mundo.

 

* Cumprem-se hoje 62 anos

Dalai Lama: 90 anos

Resistente tenaz ao totalitarismo

Pedro Correia, 06.07.25

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O Dalai Lama, galardoado em 1989 com o Prémio Nobel da Paz, é hoje especialmente enaltecido por milhões de devotos e admiradores em todo o mundo: celebra-se o seu 90.° aniversário natalício.

É a notícia do dia: não encontro outra mais importante.

A força espiritual deste homem, Tenzin Gyatso de seu nome, impõe-se perante a força bruta de um sistema totalitário que tenta há 75 anos asfixiar a identidade dos tibetanos. 

Sem o conseguir. Porque eles resistem, agora e sempre.

Attenborough: amor ao mar, amor à vida

Pedro Correia, 09.05.25

 

Confesso: David Attenborough é um dos meus heróis. Chega aos 99 anos em plena actividade. Acaba de concluir outro dos seus magníficos documentários sobre a natureza que acompanho desde a adolescência sempre com o maior interesse. Poucos como ele me sensibilizaram tanto para a necessidade de preservarmos e valorizarmos o meio ambiente, tesouro da humanidade. 

Ocean - assim se intitula este seu mais recente filme, ontem estreado, no preciso dia em que o célebre antropólogo, naturalista e produtor televisivo entrava no centésimo ano de vida. Longa e profícua existência, tão bem aproveitada para enaltecer este planeta azul, casa comum de todos nós.

«Quase a chegar aos cem anos, percebo agora que a parte mais importante da Terra é o mar», diz-nos nesta sua enésima declaração de amor ao oceano, componente essencial da natureza. Que é também um hino à vida.

Saibamos seguir-lhe o exemplo. Ou tentar, pelo menos. Já valerá a pena.

Figura internacional do ano

Pedro Correia, 13.01.25

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DONALD TRUMP

É um regresso a esta lista. Tal como ele se prepara para regressar, daqui a uma semana, à Casa Branca. Donald Trump foi eleito, por escassa margem, Figura Internacional do Ano pelos 18 autores do DELITO que participaram na votação. Repetindo-se o que já ocorrera em 2016 e 2017.

O sucessor (e antecessor) de Joe Biden, vencedor da corrida à Casa Branca desta vez não apenas entre os "grandes eleitores" mas também com maioria no voto popular, obteve em 5 de Novembro 77,3 milhões de votos (49,9%) enquanto a sua adversária do Partido Democrata, Kamala Harris, recolheu 75 milhões (48,4%). Desta vez não houve celeuma pós-eleitoral, ao contrário do que aconteceu em 2020. 

Os motivos para a escolha, aqui no blogue, foram vários. «O mais forte comeback da história dos EUA», anotou alguém. Eis outra justificação: «O iliberalismo woke foi derrotado pelo iliberal Trump e o mundo acelera na vertigem dos caprichos do seu inflamado ego.»

A estafada e famigerada expressão "figura incontornável" pode aplicar-se ao novo (velho) inquilino da Casa Branca. Muita coisa irá mudar com ele novamente em cena.

 

Em segundo lugar nesta votação - com cinco votos, só menos um do que Trump - ficou Gisèle Pelicot, que emergiu do anonimato ao assumir a sua identidade como vítima de um chocante caso de violação em massa cometido pelo ex-marido, que a drogava previamente e incentivou dezenas de outros indivíduos a fazerem o mesmo com ela. Hoje com 72 anos, esta francesa nascida na Alemanha renunciou ao direito a ter julgamento à porta fechada como forma de denúncia aberta das agressões sexuais de que foi vítima e do atentado à sua dignidade humana. 

«A vergonha deve mudar de lado», afirmou, justificando o que a levou a sujeitar-se à exposição mediática.

Tornou-se ícone da causa feminista: a BBC incluiu-a na lista das cem mulheres mais influentes do ano. O ex-marido recebeu a pena máxima em França: 20 anos de prisão.

 

No terceiro lugar, com dois votos, ficou o Presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, pela sua inquebrantável resistência ao invasor russo num ano em que o quotidiano do continente europeu continuou marcado pelos horrores da guerra. O líder ucraniano já tinha sido aqui destacado em 2022 e 2023.

Também com dois votos, a carismática dirigente da oposição na Venezuela, María Corina Machdo, impedida pelo autocrata Nicolás Maduro de concorrer à presidência da república. Edmundo González, o candidato alternativo, venceu por larga margem o escrutíno de 23 de Julho. Mas Maduro proclamou-se vencedor, sem nunca ter apresentado provas: bastou-lhe o poder das baionetas que ainda sustentam a tirania de Caracas enquanto as vozes dissidentes estão na cadeia ou no exílio. Maria Corina e Edmundo foram justamente distinguidos com o Prémio Sakharov 2024, do Parlamento Europeu.

 

Houve ainda três votos isolados nas seguintes figuras:

Elon Musk, o homem mais rico do mundo - Por se ter tornado líder de opinião no X, rede social que agora controla, continuar a expandir a frota milionária dos veículos eléctricos Tesla e ter promovido em Setembro o primeiro voo espacial comercial através da sua empresa espacial SpaceX. Foi ainda o mais notório apoiante da candidatura presidencial de Trump.

Keir Starmer, novo primeiro-ministro britânico, que nas legislativas de 4 de Julho levou o seu Partido Trabalhista a derrotar por larga margem o Partido Conservador, que estava no poder desde 2010. Com mais dez pontos percentuais (33,7% contra 23,7%).

Alexei Navalny, encontrado morto a 16 de Fevereiro num estabelecimento prisional no Círculo Polar Árctico. Corajoso resistente à ditadura russa, escapou a várias tentativas de assassínio e estava encarcerado desde 2 de Fevereiro de 2021, ano em que recebeu o Prémio Sakharov. Dele se dizia que era o homem que Putin mais temia. Pagou por isso.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura internacional de 2019: Boris Johnson

Figura internacional de 2020: Ursula von Der Leyen

Figura internacional de 2021: Joe Biden

Figura internacional de 2022: Volodimir Zelenski

Figura internacional de 2023: Volodimir Zelenski

Figura nacional de 2024

Pedro Correia, 11.01.25

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LUÍS MONTENEGRO

Presença inédita como Figura Nacional do Ano no habitual inventário feito, em jeito de balanço, no DELITO DE OPINIÃO. Luís Montenegro aparece aqui por ter levado a coligação Aliança Democrática (formada por PSD e CDS) à vitória eleitoral nas legislativas de 10 de Março, embora com vantagem muito escassa sobre o PS. Pouco mais de 50 mil votos e menos de 0,9% em pontos percentuais.

Terminou um ciclo político, outro se inaugurou. Com a saída de cena da fugaz maioria absoluta socialista, que não chegou a durar dois anos, e a formação de um Governo sem apoio maioritário na Assembleia da República. Empossado a 2 de Abril, o Executivo é forçado a negociar cada diploma com diferentes grupos parlamentares. Mas obteve inegável vitória política ao ver o Orçamento do Estado para 2025 viabilizado no hemiciclo, em 29 de Novembro, graças à abstenção do PS. 

Em sucessivas sondagens, Montenegro tem mantido um nível de aprovação apreciável, sem acusar desgaste, o que contribuiu para a atitude construtiva dos socialistas no parlamento - o que aliás mereceu críticas internas ao secretário-geral do partido, Pedro Nuno Santos. 

Sabe-se já que em 2025 o chefe do Executivo continuará em funções, pois os seis meses finais do mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa impedem-no de dissolver a legislatura. Ironias da política: há pouco mais de um ano, Montenegro era apontado por um batalhão de comentadores como mero «líder de turno do PSD, com os dias contados». A vida dá muitas voltas. E a política, em Portugal, parece por vezes uma montanha-russa.

 

Também entre nós, o primeiro-ministro venceu por maioria simples. Dos 18 autores que participaram nesta eleição, oito destacaram-no. Superando o chefe do Governo cessante, António Costa, que recolheu três votos sobretudo por ter sido escolhido, entre os seus anteriores colegas em Bruxelas, como novo presidente do Conselho Europeu. «Verdadeiro animal político, consegue sempre dar a volta por cima», foi justificação apresentada por quem aqui o preferiu. Cumpre recordar que Costa já tinha sido Figura Nacional do Ano do DELITO em 2015 e 2022.

Houve duas menções a André Ventura, líder do Chega, que viu o seu partido ampliar de 12 para 50 o número de deputados, e a Henrique Gouveia e Melo, que no fim do ano cessou funções como chefe do Estado Maior da Armada. Neste caso, houve quem justificasse, por «sem fazer nada conseguir colocar as presidenciais a girar à sua volta».

Se vencesse aqui, o almirante seria repetente: foi nossa Figura do Ano em 2021.

 

Enfim, votos isolados recaíram no novo presidente do FC Porto, André Villas-Boas, que pôs fim ao consulado de 42 anos de Pinto da Costa à frente do clube, derrotando-o em eleições no clube, e em Iúri Leitão, primeiro português a conquistar duas medalhas na mesma edição dos Jogos Olímpicos, desta vez disputados em Paris.

Como sempre acontece, os autores do blogue são livres de votar ou não votar em cada bloco deste balanço anual, que se desdobra em cinco áreas. Podem até escolher mais do que um. 

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Figura nacional de 2018: Joana Marques Vidal

Figura nacional de 2019: D. José Tolentino Mendonça

Figura nacional de 2020: Marta Temido

Figura nacional de 2021: Henrique Gouveia e Melo

Figura nacional de 2022: António Costa

Figura nacional de 2023: Marcelo Rebelo de Sousa

Jimmy Carter (1924-2024)

Pedro Correia, 30.12.24

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Escrevi sobre ele duas vezes em 2024. Não há duas sem três: faltava esta. Em tom de elegia, ao contrário das anteriores. Para dar nota do falecimento de Jimmy Carter, Presidente dos EUA durante a minha adolescência, triunfador da corrida à Casa Branca de 1976 - a primeira que segui em pormenor do primeiro ao último dia, como se acompanhasse as peripécias de um campeonato de futebol.

James Earl Carter Jr, 39.º inquilino da Casa Branca (na verdade foi o 38.º pois Grover Cleveland ocupou duas vezes o emblemático edifício do n.º 1600 da Avenida Pensilvânia em Washington) entre 1977 e 1981, esteve longe de ser um chefe do Executivo norte-americano bem-sucedido. Apesar de alguns sucessos no campo internacional, como os acordos de Camp David que selaram a paz entre Israel e o Egipto, os tratados do Canal do Panamá que permitiram a restituição a este país da faixa de território que Washington ali administrava desde o início do século e um acordo para a redução de mísseis balísticos assinado com a URSS.

Em Novembro de 1980, este vulto do Partido Democrata era o rosto de um país enfraquecido, que parecia à beira da decadência. Foi derrotado nas urnas pelo republicano Ronald Reagan - que prometia «um novo amanhecer na América».

Mas Carter soube reconstruir a sua imagem. E é hoje considerado, sem favor, um dos melhores antigos presidentes dos EUA, tendo recebido em 2002 o Nobel da Paz. Pelos seus esforços na promoção da democracia, da justiça social, das condições sanitárias e dos direitos humanos um pouco por todo o globo.

O Centro Carter, que fundou em 1982 com a sua mulher, Rosalyn, é uma organização de referência, à escala mundial, para avaliar campanhas e resultados eleitorais. Em Julho, não hesitou em considerar fraudulento o escrutínio presidencial na Venezuela, ganho por Edmundo González, o candidato da oposição - que acabou perseguido, ameaçado e exilado pela ditadura militar de Caracas.

 

Em Maio mencionei-o no DELITO: figurava na galeria dos escassos sobreviventes actuais entre os militares mobilizados na II Guerra Mundial. Com Mel Brooks, Dick Van Dyke e alguns outros.

A 1 de Outubro assinalei aqui o centésimo aniversário deste homem de perpétuo sorriso. Tornara-se já o chefe do Executivo norte-americano com maior longevidade de sempre, ultrapassando George Bush, falecido aos 94 anos em 2018. Mas permaneceu activo quase até ao fim. E ainda fez questão de votar na eleição presidencial de Novembro, optando naturalmente por Kamala Harris.

«Aliviar o sofrimento» era um dos lemas deste cristão convicto, que se manteve fiel à fé que professava. Quando falhou, nunca foi por défice de idealismo mas talvez por acreditar em excesso na bondade humana. Até nisto dir-se-ia hoje um homem de tempos muito distantes. De tempos que parecem nunca mais voltar.

O legado de Mário Soares

Pedro Correia, 07.12.24

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Soares na manifestação da Fonte Luminosa (19 de Julho de 1975). Também Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, o advogado F. Sousa Tavares, a actriz Lurdes Norberto e o jornalista Vítor Direito. Em fundo, à direita, António Guterres (de bigode)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, cujo centenário hoje se assinala.

Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou insultos e ameaças com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A espuma revolucionária, agitada pelo Partido Comunista e pela ultra-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, isolando a sua ala mais sectária. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da malograda I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal.

Com argúcia e ousadia, Soares disputou a rua aos comunistas, demonstrando-lhes no megacomício da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.

Happy birthday, Mr. President

Jimmy Carter, nascido em 1 de Outubro de 1924, é hoje centenário

Pedro Correia, 01.10.24

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James Earl Carter Jr. - popularizado como Jimmy Carter quando foi governador da Geórgia, antes de chegar à Casa Branca - festeja hoje cem anos. É o primeiro antigo chefe do Executivo norte-americano a atingir tão bonita idade. Até agora os mais idosos tinham sido George Bush, falecido em 2018 aos 94 anos, Gerald Ford, falecido em 2006 aos 93, e Ronald Reagan, também desaparecido aos 93 anos, em 2004. Todos estes, curiosamente, do Partido Republicano - ao contrário de Carter, personalidade eminente do Partido Democrata.

«Jimmy Who?», titulou um influente diário no final de 1974, quando este filho de um cultivador de amendoins anunciou a intenção de concorrer à presidência. Dele se diz ter sido um dos piores presidentes dos EUA no século XX. Devido a factos tão diversos como a espiral da inflação, a grave crise energética, o acidente na central nuclear de Three Mile Island e o assalto de extremistas islâmicos à embaixada dos EUA em Teerão, fazendo 53 reféns num humilhante cativeiro que durou 444 dias.

 

Iniciou funções em Janeiro de 1977, mas ficou excluído de um segundo mandato. Sofreu derrota esmagadora contra Reagan na eleição de Novembro de 1980: só obteve 49 votos no colégio eleitoral, contra 489 do seu concorrente. O republicano sagrou-se vencedor em 44 estados, enquanto Carter apenas triunfou em seis, além do distrito federal. 

O melhor na sua carreira política aconteceu após sair da Casa Branca. Com as iniciativas que promoveu em prol dos direitos humanos, da educação, da justiça social, do desenvolvimento económico e do combate às doenças endémicas um pouco por todo o mundo. Sob o lema «Aliviar o sofrimento».

Em 1982 fundou o Centro Carter, respeitado organismo não-governamental que tem acompanhado diversos processos eleitorais - e que recentemente denunciou a vergonhosa fraude eleitoral na Venezuela

 

Em 2002 foi justamente galardoado com o Nobel da Paz. O mesmo que em 1978 havia distinguido Anwar Sadat e Menachem Begin pelos Acordos de Camp David que selaram o estabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e o Egipto, velhos inimigos, abrindo uma luz de esperança no Médio Oriente. 

Marco histórico que hoje nos parece sem paralelo, face aos tristes acontecimentos registados em 2024. Carter foi o grande promotor deste processo de paz. Também se destacou pelo histórico tratado assinado em 1977 com o Panamá que determinou a devolução a este país da plena soberania do canal do mesmo nome, então sob domínio norte-americano.

Já figura histórica ainda em vida. Facto raro, que merece ser assinalado. Como cantava Marilyn Monroe, Happy birthday, Mr, President.

 

ADENDA

Jimmy Carter: a vida em imagens. Excelente desfile de fotografias editadas pela CNN.

Juan Carlos com lugar garantido na História

Faz hoje dez anos que o Rei emérito renunciou ao trono

Pedro Correia, 02.06.24

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Juan Carlos de Borbón com Adolfo Suárez, os dois artífices da exemplar transição espanhola

 

«El balance del reinado de Juan Carlos es extraordinariamente positivo.»

Felipe González (El País, 2 de Junho de 2014)

«El reinado de Juan Carlos I se corresponde con el tiempo de mayor estabilidad democrática, disfrute y ampliación de las libertades y de progreso social de la historia de España.»

José Luis R. Zapatero (El Mundo, 2 de Junho de 2014)

 

Faz hoje dez anos, Juan Carlos I anunciou que abdicava do trono de Espanha. Após quase 39 anos de reinado.

Quando ascendeu ao posto cimeiro do poder em Madrid, Espanha era um país isolado politicamente, com uma das ditaduras mais retrógadas do mundo ocidental, níveis socio-económicos muito abaixo da média europeia e divisões que pareciam insanáveis entre os herdeiros dos dois grupos que combateram na guerra civil. Em todos estes parâmetros é hoje um país incomparavelmente melhor. Dotado com a Constituição de 1978, autêntico marco civilizacional que já garantiu o maior período de vida democrática desde sempre existente no país.

Tendo nascido em 1938 no exílio em Roma, sete anos após o seu avô Afonso XIII renunciar ao trono, Juan Carlos de Borbón soube impor-se como expoente da restaurada monarquia - conquistada a pulso. Contra a vontade do próprio pai, o Conde de Barcelona. E contra os primos, que lhe cobiçavam o trono (um deles casou até com a neta primogénita do generalíssimo Franco, para lá chegar mais depressa). E contra a clique do ditador, que preferia outros. E contra os "ventos da história". E contra a esmagadora maioria da "opinião pública", dama mais volúvel do que Madame Bovary.

Entre Novembro de 1975 e Junho de 2014, fez mais do que qualquer outra personalidade para unir os espanhóis. Trabalhou com governos de diversas cores políticas, irrepreensível no plano institucional. Por isso foi elogiado pela larga maioria da sociedade espanhola - e desde logo pelos principais partidos, PP e PSOE: nenhum deles põe em causa o sistema monárquico, referência de estabilidade e concórdia.

O Rei emérito tem lugar garantido na História de Espanha. E será recordado, sem qualquer dúvida, como um dos maiores estadistas que o país vizinho já conheceu.

Sobreviventes da II Guerra Mundial

Centenários ou nonagenários, ex-combatentes que ainda estão connosco

Pedro Correia, 17.05.24

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                                                         Dick Van Dyke                                 Mel Brooks

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                                                    Ray Anthony                                             Edgar Morin

 

Alan Bergman, compositor e letrista, galardoado com quatro Emmys, três Óscares e dois Grammies - incluindo para melhor canção (The Way We Were, 1973). Veterano do exército norte-americano. 98 anos.

Charles Burrell, guitarrista de jazz, trabalhou com Billie Holiday, Charlie Parker, Duke Ellington, Lionel Hampton e Count Basie. Combateu na marinha norte-americana. 103 anos.

Dick Van Dyke, actor consagrado em filmes como Mary Poppins (1964) e Chitty Chitty Bang Bang (1968). Prestou serviço na força aérea. 98 anos.

Earl Holliman, actor norte-americano. Mentiu a respeito da idade para se inscrever na marinha durante a guerra. Participou em filmes como O Gigante, ao lado de James Dean e Elizabeth Taylor (1956). 95 anos.

Edgar Morin, antropólogo, filósofo e sociólogo, autor de livros muito influentes, como Paradigma Perdido (1973). Combateu como tenente nas forças da resistência francesa. 101 anos.

Jimmy Carter, antigo presidente norte-americano (1977-1981). Ingressou na Marinha durante a II Guerra Mundial, quando se inscreveu na Academia Naval. 99 anos.

Józef Hen, escritor e dramaturgo polaco. Membro do exército que lutou contra a Alemanha hitleriana com apoio soviético. 100 anos.

Lee Adams, letrista de teatro musicado na Broadway, vencedor do Prémio Tony pela peça Bye Bye Birdie (1961). Combateu no exército norte-americano. 99 anos.

Mel Brooks, realizador, actor e produtor norte-americano. Célebre por filmes como Frankenstein Júnior e Balbúrdia no Oeste (1974). Participou na Batalha das Ardenas. 97 anos.

Ray Anthony, trompetista e compositor, último sobrevivente da mítica banda de Glenn Miller. Serviu na marinha norte-americana durante a guerra. 102 anos.

Ray Marshall, economista, assumiu a pasta governamental do Trabalho durante o mandato presidencial de Jimmy Carter. Combateu na marinha norte-americana. 95 anos.

Robert McGinnisdesenhador e ilustrador norte-americano, autor de numerosas capas de livros e cartazes de filmes célebres como Boneca de Luxo Barbarella. Serviu na marinha. 98 anos.

Roland Dumas, político socialista francês, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros (1984-1986; 1988-1993) e ex-presidente do Tribunal Constitucional. Participou na resistência. 101 anos.

Tom Copeland, antigo presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (1970-1971). Serviu no teatro de guerra europeu como comandante de carros de combate. 100 anos.

William Russell, actor britânico. Participou em séries televisivas muito populares no Reino Unido e em filmes como A Grande Evasão (1963) e Super-Homem (1978). Prestou serviço na Royal Air Force. 99 anos.

Figura internacional de 2023

Pedro Correia, 08.01.24

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VOLODIMIR ZELENSKI

Segunda vitória consecutiva do Presidente da Ucrânia como Figura Internacional do Ano aqui no DELITO. Do quase anonimato, Volodimir Zelenski. tornou-se celebridade à escala mundial. Pelo pior motivo possível, certamente, na opinião dele. Por ser um herói involuntário que soube manter-se de pé e liderar o seu povo agredido por Moscovo. É fácil presumir que nada disto estava nos seus planos quando se candidatou à presidência, em 2019.

Zelenski, que em 2022 teve um triunfo esmagador na votação do blogue, desta vez venceu por maioria simples.

Eis algumas das justificações apresentadas por quem votou nele:

«Essencialmente, pela capacidade de resistência.»

«Apesar de outros conflitos graves [em 2023], não pode ser esquecido.»

«Quem sabe o que sucederá, caso a Rússia ganhe a guerra.»

Enfim, um conflito gravissimo iniciado com a invasão decretada por Vladimir Putin, em 24 de Fevereiro de 2022, e que se mantém neste início de 2024. Sabe-se lá até quando.

 

E quem mais?

O segundo lugar coube à presidente da Comissão Europeia. Ursula von Der Leyen, que já tinha sido eleita Figura do Ano em 2020, esteve perto de revalidar esta distinção. «Interventiva, sem dúvida», houve quem dissesse, justificando ter votado nela.

A tal frase - provavelmente apócrifa - atribuída a Henry Kissinger sobre a impossibilidade de pegar no telefone e contactar alguém que «liderasse a Europa» talvez deixe enfim de fazer sentido com esta ex-ministra alemã da Defesa que tem assumido inegável protagonismo como porta-voz do espaço comunitário. E que parece estar muito longe da aposentação. 

 

O terceiro posto do pódio coube ao recém-eleito Presidente da Argentina, Javier Milei. Um assumido ultraliberal que venceu as eleições de Novembro para a Casa Rosada, com 56%, destronando o rival peronista Sergio Massa num dos países mais proteccionistas do mundo - e também um dos mais depauperados por décadas de péssima gestão económica e financeira.

Seguiram-se votos isolados no Papa Francisco (vencedor em 2013 e 2014), no Presidente norte-americano Joe Biden (Figura do Ano em 2022), na primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e no secretário-geral da ONU, o nosso compatriota António Guterres

 

Faltam mais três.

Ismail Haniya, líder do Hamas - «Pelas piores razões», diz quem votou nele.

Sam Altman, big boss da OpenAI. Motivo? «Abriu a porta para um futuro potencialmente tão assombroso quanto tenebroso – porque, quer queiramos quer não, o futuro já chegou e está em movimento uniformemente acelerado.»

Finalmente, um voto com dimensão colectiva. No povo palestiniano. «Vítima do Hamas, de Netanyahu e da inércia/impotência internacional. Não teve voz nem voto na matéria, limita-se a esperar a morte», assim foi justificado.

Para o ano há mais, fica prometido.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura internacional de 2019: Boris Johnson

Figura internacional de 2020: Ursula von Der Leyen

Figura internacional de 2021: Joe Biden

Figura internacional de 2022: Volodimir Zelenski

Figura nacional de 2023

Pedro Correia, 07.01.24

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MARCELO REBELO DE SOUSA

Repete o destaque já aqui alcançado há seis anos. Desta vez, sobretudo, por ter decidido dissolver a Assembleia da República, em Novembro. Tal como fizera em 2021, o que permitiu ao PS vencer as eleições seguintes e usufruir do breve interlúdio da maioria absoluta que será quebrado a 10 de Março. 

O Presidente da República volta a ocupar o principal lugar do palco num sistema político que tem reforçado a vertente parlamentar. Isto no ano em que as relações institucionais com o primeiro-ministro cessante passaram do morno para o quase gélido. Hoje quase parece impossível que António Costa tenha recomendado em Janeiro de 2021 o voto no actual inquilino de Belém. Prova - mais uma - de que a política portuguesa se alimenta de microciclos, em aceleração constante.

Assim, Marcelo Rebelo de Sousa foi escolhido pelo DELITO como Figura Nacional do Ano. Por maioria simples, muito longe de qualquer vitória arrasadora. Houve quem o elegesse pela positiva. «Não há noticiário que passe sem ele», assinalou alguém. Mas pesaram igualmente motivos menos lisonjeiros - incluindo o caso das gémeas brasileiras, ainda não esclarecido na totalidade e que contribuiu para uma quebra notória da popularidade do Chefe do Estado já reflectida nas sondagens.

«[Marcelo] parece ter perdido o sentido de Estado ou até mesmo o contacto com a realidade. Vive num mundo imaginado, onde é rei absoluto», justificou uma das vozes "delituosas".

 

Na segunda posição ficou o recém-eleito secretário-geral do PS. Pedro Nuno Santos, que passou de quase proscrito a sucessor de Costa, sufragado nas eleições internas de Dezembro, em que superou o seu rival interno, José Luís Carneiro, com cerca de 64% dos votos.

«Por ter feito a travessia do deserto socialista mais rápida dos últimos tempos e conseguido passar de persona non grata a potencial futuro primeiro-ministro num abrir e fechar de olhos (cortesia de Lucília Gago e Marcelo Rebelo de Sousa). Um verdadeiro artista do circo que é a nossa política.» Foi assim que um dos nossos votantes em PNS justificou a sua escolha.

 

Seguiram-se votos isolados em diversas outras figuras nacionais. António Costa, que o DELITO elegeu Figura do Ano em 2015 e 2022. João Galamba, empossado em Janeiro como ministro das Infraestruturas e forçado a abandonar estas funções em Novembro após ter protagonizado em Abril um dos episódios mais caricatos e vergonhosos do Governo de maioria absoluta que o transportaram para o anedotário nacional. Lucília Gago, a procuradora-geral da República escolhida pelo Governo socialista e agora transformada em alvo frequente de críticas no PS devido à investigação anunciada ao País a 7 de Novembro. Vítor Escária, ex-chefe de gabinete de Costa, que tinha quase 76 mil euros em notas no seu gabinete da residência oficial em São Bento. O antigo presidente da Iniciativa Liberal Carlos Guimarães Pinto, que um dos "delituosos" elogiou como «um dos poucos deputados que conseguiuram dar alguma qualidade ao parlamento». E, claro, Cristiano Ronaldo - que em 2023 foi o futebolista que marcou mais golos em competições oficiais de todo o mundo: 54. Já com 38 anos, promete continuar em 2024. Ninguém o pára.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Figura nacional de 2018: Joana Marques Vidal

Figura nacional de 2019: D. José Tolentino Mendonça

Figura nacional de 2020: Marta Temido

Figura nacional de 2021: Henrique Gouveia e Melo

Figura nacional de 2022: António Costa

Brilhante estratego, fraco profeta

Henry Alfred Kissinger (1923-2023)

Pedro Correia, 30.11.23

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Teve uma vida cheia - e lúcida e activa até ao fim. Morreu ontem, tranquilamente, na sua casa do Connecticut. Já centenário, há quatro meses fez uma última visita a Pequim, onde foi recebido por Xi Jinping, que o enalteceu como amigo perpétuo da China.

Catedrático emérito da Universidade de Columbia, talvez o maior especialista em política internacional nos escalões dirigentes norte-americanos da última metade do século XX, Henry Alfred Kissinger, nascido em Maio de 1923 na Alemanha e radicado na América desde 1938, levou uma perspectiva europeia ao Departamento de Estado. Antecipando o que mais tarde, na viragem do milénio, sucederia com Madeleine Albright durante a administração Clinton.

Como conselheiro especial do presidente Richard Nixon, de quem se tornou braço direito para a política internacional, com prolongamento para a administração Ford, subiu tão alto quanto lhe era possível em Washington. Foi o primeiro judeu a desempenhar as funções de secretário de Estado - terceiro posto na hierarquia do Executivo. Faltou-lhe apenas ter sido candidato à presidência, o que lhe estava constitucionalmente vedado por não ter nascido com a nacionalidade norte-americana.

 

Este europeu transposto para o Novo Mundo era herdeiro directo dos "realistas" que retalharam o mapa mundi ao longo de um século -- da Convenção de Viena, em 1815, à cimeira de Versalhes, em 1919. Com duas convicções básicas: nenhum país tem aliados permanentes, só interesses permanentes; e não haverá vencedores em guerras na era atómica. Assim promoveu o degelo nas relações entre Washington e a China comunista primeiro e com a União Soviética logo a seguir. As duas mais espectaculares acções norte-americanas das últimas décadas na política externa.

Legou-nos detalhadas memórias em três volumes e várias obras ensaísticas dissecadas nos circuitos universitários e nas chancelarias internacionais, além de conquistarem leitores fiéis entre os cidadãos comuns. Diplomacia, por exemplo, é um trabalho académico de grande fôlego, confirmando o autor num patamar de erudição muito superior ao da média entre a elite política no seu país adoptivo.

 

A originalidade de Kissinger, nos salões e gabinetes de Washington, radicou-se na sua visão da política externa americana inspirada nos cem anos anteriores dos meandros da diplomacia europeia. Também influenciado, naturalmente, por circunstâncias da sua biografia pessoal: ter nascido numa família hebraica entre as duas guerras mundiais e conhecer a experiência totalitária não em abstracto mas no concreto. O regresso à Alemanha devastada pela guerra, enquanto cumpria o serviço militar já como cidadão norte-americano e exerceu funções de tradutor nas forças armadas, levou-o a perceber como são débeis os pilares daquilo a que chamamos civilização e como se havia tornado irrisória a influência europeia nos destinos mundiais.

A sua tão propalada realpolitik limitou-se, no fundo, a seguir os trilhos abertos por Ialta, na cimeira que dividiu o globo em esferas de influência. O planeta multipolar dos nossos dias, com emergentes potências de âmbito regional, baralhou toda a lógica anterior, que a geração de Kissinger preferia, pois a política de blocos, ideologicamente antagónicos mas perfeitamente identificáveis, assegurou meio século de relativa paz em diversas regiões do globo.

Consumado xadrezista, Kissinger valorizava na política externa as linhas de continuidade estratégica em função das quais as alianças entre nações assumiam uma geometria variável ditada por conveniências tácticas. A aproximação simultânea de Washington a Moscovo e Pequim, sob o seu comando, aconteceu como via de exploração das divergências entre russos e chineses que à época fracturavam o mundo socialista e acabaram por disputar as boas graças dos EUA.

Neste aspecto foi hábil sucessor dos mestres da diplomacia oitocentista na Europa, desde logo Metternich, e opositor da visão messiânica dos Estados Unidos na promoção das boas práticas democráticas à escala planetária.

 

Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, Kissinger adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível - para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.

Há que lembrar, de qualquer modo, que se revelou fraco profeta em relação a Portugal, ao vaticinar em 1975 que o nosso país sucumbiria a uma "ditadura comunista" capaz de funcionar como "vacina" para o conjunto da Europa. E não esqueço o aval, directo ou indirecto, que deu aos generais indonésios para invadirem Timor.

Era uma figura compreensível no contexto da Guerra Fria - e sobretudo à luz desse contexto merece ser valorizada. Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, teste em que provavelmente muitos dos seus antecessores e alguns dos seus sucessores falhavam.

Centenário

Pedro Correia, 27.05.23

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«As dificuldades são também um desafio. Não têm de ser sempre um obstáculo.»

Henry Kissinger, The Economist (Maio de 1923)

 

Viveu muito, leu muito, viajou muito, conheceu muito.

Ensinou muito - e continua a fazê-lo, com plena lucidez intelectual, neste dia em que celebra cem anos.

Henry Albert Kissinger, nascido a 27 de Maio de 1923 na Baviera, fugido com os pais do regime nazi, refugiado em Nova Iorque aos 15 anos. Em 1943, naturalizou-se cidadão americano. Serviu no exército dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Escapou à morte, mas o sistema totalitário tocou-o de perto: 13 dos seus parentes sucumbiram no Holocausto.

Admirado, invejado e detestado em partes iguais, pontificou nas administrações Nixon e Ford entre 1969 e 1977. Primeiro como conselheiro da Segurança Interna, depois como secretário de Estado - terceiro posto na hierarquia governamental. No auge do caso Watergate, chegou a ser ele a segurar no leme. Enquanto rasgava horizontes na política externa norte-americana: liderou o degelo diplomático com a República Popular da China ao avistar-se com Mao Tsé-tung, levou Washington a substituir os soviéticos como força dominante no Médio Oriente ao assumir-se como interlocutor entre israelitas e árabes, negociou a limitação de armas estratégicas com Moscovo em plena Guerra Fria. 

 

Doutorou-se com uma tese sobre Metternich (1773-1859), príncipe da diplomacia no império austríaco, expoente máximo da doutrina realista contra os idealistas, responsáveis por tantos conflitos bélicos.

Nos anos 50 e 60 foi um dos mais famosos professores em Harvard, onde leccionou Ciência Política antes de rumar aos palcos mundiais como comandante norte-americano para os assuntos externos. Com várias sombras entre muitas luzes, incluindo o apoio activo às ditaduras de Pinochet no Chile e de Suharto na Indonésia (dando cobertura à invasão de Timor em 1975) e a sua falhada visão de um Portugal mergulhado no comunismo em 1975, útil como «vacina para a Europa». Ao contrário do que previa, os comunistas foram derrotados aqui. Enquanto ganhavam terreno em África e no Sueste Asiático: o Nobel da Paz que recebeu em 1973 pelos acordos de Paris anteriores à retirada norte-americana do Vietname ainda suscita polémica.

Facto inegável: foi um dos mais brilhantes intelectuais que trabalharam nos últimos 60 anos na Casa Branca. Após abandonar funções públicas, tornou-se consultor de monarcas, presidentes e primeiros-ministros. Já nonagenário, continuou a percorrer o mundo: só a pandemia, em 2020, o reteve na sua casa rural no Connecticut. Mas ainda frequenta regularmente o seu escritório, no 33.º andar de um edifício art déco em Manhattan. E continua a publicar livros. Tem dois muito recentes. Um sobre inteligência artificial (tema que o fascina e preocupa), outro sobre seis políticos que conheceu pessoalmente: Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Richard Nixon, Anwar Sadat, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher (Liderança, já com edição portuguesa da Dom Quixote).

Do antigo Presidente francês, cita com frequência uma frase emblemática sobre comando político: «Assumir riscos constantes numa perpétua luta interior.»

 

Em recente entrevista ao Sunday Times, pronunciou-se sobre a invasão russa da Ucrânia. Elogiando Zelenski: «Não há dúvida de que cumpriu uma missão histórica.» E criticando Vladimir Putin: «Chefia um país em declínio e perdeu o sentido das proporções nesta crise.»

Judeu, aos 9 anos o pequeno Heinz (só viria a chamar-se Henry na América) viu Hitler ascender ao poder no seu país natal, onde em menino adorava jogar futebol. Nem o exílio forçado nem o incêndio da Europa que testemunhou ao vivo diminuíram o proverbial optimismo que muitos lhe reconhecem. Mas vai advertindo contra os sinais de crescente desagregação da ordem mundial que imperou nas últimas três décadas: «A segunda Guerra Fria será ainda mais perigosa do que a primeira.»

Um aviso que deve ser levado a sério. Vem de quem sabe mais e viu muito mais do que qualquer de nós.

Figura internacional de 2022

Pedro Correia, 08.01.23

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VOLODIMIR ZELENSKI

Unanimidade quase total este ano: 19 dos 20 autores do DELITO que participaram na votação elegeram como Figura Internacional do Ano o Presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. Do quase anonimato, tornou-se personalidade com ressonância planetária. Daí a nossa homenagem.

Sem qualquer intenção de sermos originais: já a revista Time tinha feito o mesmo

Foi apenas, no fundo, a confirmação do que havia acontecido ao longo de quase todo o ano, com o protagonista da resistência ucraniana a merecer contínuas referências aqui no blogue. Sobretudo desde que viu o seu país invadido pela força bélica russa, a 24 de Fevereiro. 

 

Na justificação do voto, algumas frases merecem ser destacadas. 

«Um verdadeiro herói, além de uma série de outros atributos, tem de ser um herói improvável. Zelenski cumpre todos esses critérios.»

«Líder improvável, mas um líder. Estóico, agitador de consciências, verdadeiro protector do seu povo. Guardião de um patriotismo ameaçado e alvo de tentativas de aniquilação. A sua liderança foi também capaz de tocar a reunir o Ocidente, congregado em torno da causa ucraniana.»

«Não sei o que é mais admirável nele: o sentido do dever? A intrepidez? A fortitude? A inteligência de se rodear das pessoas certas? A visão política? O patriotismo inspirador? A segurança sem arrogância? A capacidade de acção? A improbabilidade de todas estas virtudes misturadas numa só pessoa?»

Às vezes muito pode ser dito também numa simples frase. Como esta, a justificar igualmente a escolha em Zelenski: «Por ter restaurado o conceito de pátria.»

 

Houve ainda um voto isolado no secretário-geral da ONU. António Guterres, por sinal, também mencionado na votação para Figura Nacional do Ano.

Para o Presidente russo, Vladimir Putin, nada.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura internacional de 2019: Boris Johnson

Figura internacional de 2020: Ursula von Der Leyen

Figura internacional de 2021: Joe Biden

Figura nacional de 2022

Pedro Correia, 07.01.23

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ANTÓNIO COSTA

É um regresso a esta galeria anual do DELITO DE OPINIÃO. O primeiro-ministro já tinha passado por cá em 2015, quando chegou ao poder mesmo sem ter vencido as legislativas. Era o início da geringonça que se manteve durante seis anos: o PS a governar com apoio parlamentar simultâneo de comunistas e bloquistas. 

Em 2022 abriu-se outro ciclo: o PS saiu vencedor incontestado da eleição antecipada, convocada pelo Presidente da República para 30 de Janeiro após a dissolução da Assembleia da República devido ao chumbo do Orçamento do Estado.

Todas as sondagens falharam: os socialistas emergiram das urnas com maioria absoluta. Cento e vinte deputados num total de 230. Foi a segunda vez que superaram a barreira dos 115, após José Sócrates em 2005.

Também com maioria absoluta, António Costa foi escolhido pelo DELITO como Figura Nacional do Ano. Recolheu 11 "boletins" de 20 eleitores - mantendo-se a regra aqui vigente desde o inicio: cada um de nós pode votar em mais de uma figura. Uns pela positiva, outros nem tanto. «O anti-reformador. Pela conquista da maioria absoluta e porque essa conquista confirma-o menos como um gestor de políticas e mais como um gestor da política como meio de conservar o poder, pondo o país refém dele», observou um dos membros da tribo "delituosa".

 

O facto é que o chefe do Governo deixou a larga distância todos os restantes. Desde logo Marcelo Rebelo de Sousa (três votos) e Cristiano Ronaldo (dois).

O mais célebre português do planeta justificou rasgados elogios, como este: «Conseguiu ser o jogador de futebol mais bem pago de sempre. Passar a receber 200 milhões por ano depois da sua péssima prestação no Mundial merece destaque absoluto.» E este: «Para uns desceu do pedestal, para outros caiu. E em torno dele adensou-se aquela nuvem roxa de ressentimento, inveja e azedume tão tipicamente portuguesa.»

 

Seguiram-se votos isolados em António Guterres («tem obtido sucessos na agenda climática»), Fernando Medina, o contribuinte português («apesar de todas as dificuldades nacionais e internacionais, está prestes a bater de novo o seu recorde»), as cientistas Rita Acúrcio, Rita Guedes e Helena Florindo («as três investigadoras portuguesas do grupo de quatro que descobriu uma molécula capaz de estimular o sistema imunitário a combater vários tipos de cancro») e ainda, como triste símbolo nacional, a bebé Jessica («morta às mãos de quem deveria tomar conta dela, em representação do enorme falhanço deste estado social, mas também da indiferença da sociedade»).

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Figura nacional de 2018: Joana Marques Vidal

Figura nacional de 2019: D. José Tolentino Mendonça

Figura nacional de 2020: Marta Temido

Figura nacional de 2021: Henrique Gouveia e Melo