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Rutger Hauer (1944-2019)

por João Campos, em 24.07.19

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

Blade Runner (1982)

Há actores que precisam de uma carreira considerável para serem lembrados. Rutger Hauer precisou apenas de improvisar um monólogo nos minutos finais de Blade Runner para alcançar a imortalidade. 

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Douglas Rain faleceu ontem, aos 90 anos. É possível que o nome diga muito pouco à maioria dos leitores; a sua fotografia, se aqui fosse publicada, pouco mais diria. Mas este círculo vermelho e a sua voz grave tornaram-se inesquecíveis quando, há cinquenta anos, construíram a mais famosa inteligência artificial da ficção científica: HAL 9000, o tripulante incorpóreo da Discovery na sua expedição à órbita de Júpiter para confirmar o elusivo primeiro contacto feito com o monólito lunar. Falo de 2001: A Space Odyssey, claro; todo o segundo acto do filme pertence à expressividade impossível que Rain confere ao olho inescrutável que vigia cada recanto da nave espacial, um feito notável quando pensamos que, num filme com tão pouco diálogo, praticamente todas as palavras relevantes são proferidas pela personagem tornada presente pela sua voz. Do orgulho inicial ao impulso homicida, da determinação pela continuidade de uma missão que não consegue compreender até ao desespero dos momentos finais, quando Dave Bowman, suspenso em gravidade zero, lhe desliga os circuitos de memória um por um - o tom enganadoramente monocórdico de Rain transmite todas as emoções da personagem com subtileza, sem esforço aparente. Voltei a confirmar isto mesmo nos últimos meses, nas duas oportunidades que tive de rever a obra-prima de Stanley Kubrick no grande ecrã: inúmeras visualizações depois, o HAL 9000 continua tão fascinante e ameaçador como da primeira vez que o ouvi. Douglas Rain, o actor, talvez tenha tido uma passagem discreta pela Terra; mas a sua voz, essa, perdurará entre as estrelas. 

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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

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Outras galáxias muito distantes (7)

por João Campos, em 18.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Esta é a última das sugestões de galáxias a descobrir na literatura e na banda desenhada. Pelo menos, por agora.

 

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 Ody-C

Uma odisseia no feminino

 

Esta curta série de sugestões de leitura de space opera começou na banda desenhada, pelo que me parece muito adequado concluí-la também com banda desenhada. E com uma não menos sofisticada: se Saga inova pela forma como pega nos elementos clássicos do género e os recombina numa narrativa moderna e arrojada, já Ody-C recupera uma das mais clássicas histórias da cultura ocidental - a Odisseia de Homero -, dá-lhe uma nova perspectiva pela alteração do género de praticamente todas as personagens, e transporta-a para um futuro espacial e psicadélico narrado por Matt Fraction e ilustrado de forma assombrosa por Christian Ward.

 

Seria talvez simples reduzir Ody-C a uma versão gender-bent da Odysseia - aliás, seria porventura simples para os autores limitarem-se a essa ideia original. É certo que são exploradas algumas das passagens mais icónicas da Odisseia, como o encontro com Polifemo ou a visita a Éolo, mas Fraction e Ward levam mais longe as atribulações de Ulisses, Menelau e Agamemnon, aqui Odyssia, Ene e Gamem, uma vez terminada a guerra centenária contra Troiia-VII. Se alguns mitos são simplesmente adaptados, outros são transformados com vista à criação de um universo ficcional próprio - e as viagens de regresso das três rainhas-guerreiras, perante a oposição de um panteão liderado por Zeus que vê nas proezas marciais das três combatente e no saque de Troiia-VII um desafio ao seu poder, combinam de forma tão elegante como surpreendente as inspirações clássicas (homéricas e não só) com alguns elementos tradicionais da space opera numa narrativa moderna. 

 

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Fraction opta por narrar esta odisseia de forma pouco convencional, aludindo ao poema épico original com um texto breve e minimalista tanto na descrição como no diálogo - é uma opção porventura estranha para alguns leitores, mas que se revela muito eficaz no modo como se funde à ilustração tão inventiva como psicadélica de Ward, cheia de cores e de formas improváveis. Folhear as páginas dos fascículos ou dos paperbacks é uma experiência singular, que não remete para a tradição dos comics norte-americanos mas antes para algumas bandas desenhadas europeias; e se à primeira vista é impossível não reparar na arte de Christian Ward, uma leitura mais atenta revela a forma hábil com que pega nas ideias que as palavras de Matt Fraction evocam para recriar com absoluta originalidade personagens que todos já vimos vezes sem conta em inúmeras narrações dos mitos da Grécia Antiga. 

 

Pelo tom e pelo estilo muito próprios, é possível que Ody-C não seja uma banda desenhada para todos os leitores - as críticas tendem a polarizar-se entre quem não consegue entrar na história pela forma como esta é narrada e entre quem se maravilha a cada página pela forma imaginativa como uma história tão contada pode ser reinventada com tanta originalidade e com tanto arrojo conceptual e artístico. Pesoalmente, coloco-me no segundo grupo: das bandas desenhadas que comecei a ler em 2017, Ody-C estará sem dúvida entre as melhores. Merece uma oportunidade, e deixa uma garantia: goste-se ou não, não se lhe ficará indiferente. 

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Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

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Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

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Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

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Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

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Outras galáxias muito distantes (2)

por João Campos, em 18.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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The Snow Queen

Space Opera no feminino

 

The Snow Queen, de Joan D. Vinge, é um caso curioso: foi publicado em 1980, no mesmo ano da estreia de The Empire Strikes Back, venceu o prémio Hugo para melhor romance no ano seguinte, gerou duas sequelas e uma prequela... e, trinta anos volvidos, numa época de pleno ressurgimento da space opera na literatura, na banda desenhada e nos meios audiovisuais, e quando o debate sobre as mulheres e o feminismo na ficção científica se tornou mais pertinente do que nunca, este livro, em tempos descrito como um "Star Wars feminista", está praticamente esquecido.

 

E a descrição tem algum mérito, mesmo sendo o esquecimento tão injusto. Para todos os efeitos, The Snow Queen terá talvez sido uma das últimas space operas relevantes desenvolvida com os moldes mais ou menos tradicionais das histórias épicas de outros tempos: tal como George Lucas, Vinge foi beber à "jornada do herói" de Joseph Campbell e aplicou a teoria a uma galáxia distante povoada por civilizações fascinantes e repleta de mitos de uma época dourada antiga, quase lendária. É muito possível, porém, que as semelhanças terminem aí. Se por um lado a sua grande influência narrativa não residiu nos westerns norte-americanos mas no conto clássico de Hans Christian Andersen, por outro lado The Snow Queen não tem qualquer ambiguidade no seu género: ao contrário de Star WarsThe Snow Queen é assumidamente ficção científica, com um rigor inatacável na construção do seu universo ficcional: o planeta Tiamat, onde decorre a maior parte da trama, não se resume a um único cenário com um clima uniforme: possui climas variados e regiões distintas, dos inúmeros arquipélagos tropicais do hemisfério Sul ao continente montanhoso e gelado do Norte. E os vários elementos científicos e tecnológicos que são apresentados estão longe de ser meros adereços, sendo fundamentais para a narrativa e ilustrando na perfeição a célebre máxima de Arthur C. Clarke: qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

 

E, claro, há a questão feminista. Vinge até pode ter seguido, mesmo que em traços largos, a lição de Campbell, mas optou por escrever antes a jornada de uma heroína, Moon, cujo percurso a levará inevitavelmente ao confronto com Arienrhod, a Rainha de Gelo do título, monarca absoluta de Tiamat durante o inverno de 150 anos que as mecânicas orbitais do planeta impõem aos povos que nele habitam (estes detalhes nunca são irrelevantes aqui). E se podemos encontrar na Moon das primeiras páginas o arquétipo do jovem inocente que cresceu num lugar remoto sem fazer ideia de quão longe o destino a levará, já em Arienrhod está presente uma ambiguidade rara em romances e personagens desta natureza: em muitos momentos parece uma vilã convencional na ambição e na corrupção, mas Vinge escreve-a com maior profundidade, e os seus objectivos em momento algum são tão simples como aparentam. A Moon e a Arienrhod juntam-se personagens como Jerusha, uma inspectora policial num mundo maioritariamente masculino, ou Gundhalinu, um jovem inspector cuja classe social das suas origens contrasta com o seu destacamento em Tiamat. E muitas outras, num elenco vasto para  o qual a diversidade - de género, de cor da pele, de estratos sociais e de orientações sexuais - não serve apenas para preencher uma qualquer quota (é possível que o tema não tivesse no início dos anos 80 a pertinência que tem hoje), mas para tornar a civilização composta pelos vários mundos apresentados mais verosímil. Não deixa de ser interessante notar que algo tão evidente tenha demorado tanto tempo a ser interiorizado por um género no qual a construção de mundos assume tanta importância.

 

The Snow Queen foi o primeiro livro de ficção científica que li, algures entre 2001 e 2002 - e, à época, recuperou não só o meu gosto pela leitura como me fez descobrir um género que julgava praticamente exclusivo do cinema, da televisão e de alguma banda desenhada. E é curioso notar como contribuiu de forma acidental para a minha resposta adversa ao hype em redor de The Force Awakens há dois anos. O marketing da Disney, sintonizado com o zeitgeist, vendeu bem o seu peixe: temos agora uma mulher como protagonista e um stormtrooper afro-americano! Para o universo criado por Lucas isto talvez tenha sido uma novidade (e a representação é sempre salutar, acrescente-se), mas um leitor mais atento ao género não terá deixado de reparar que lhe serviam comida requentada. Eu reparei: muito antes da Rey de Daisy Ridley e do Finn de John Boyega (ambos excelentes, note-se) já me tinha maravilhado havia muito com a determinação de Moon e com o carácter de Gundhalinu (cujo papel secundário no primeiro livro se tornou principal nos seguintes). Afinal, a diversidade não chegou às galáxias distantes só no século XXI. 

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Outras galáxias muito distantes (1)

por João Campos, em 14.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Saga

Uma odisseia familiar

 

Não seria incorrecto se descrevesse Saga como um cruzamento entre a space fantasy de Star Wars numa versão para adultos e a tragédia familiar de Romeu & Julieta. De facto, a a trama escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples tem lugar num universo ficcional onde naves espaciais convivem sem dissonância com formas de magia e de misticismo, e toda a acção decorre do amor improvável entre dois soldados de facções inimigas num conflito de dimensões galácticas. Mas, não sendo incorrecta, esta descrição pecará por ser demasiado redutora: as semelhanças tanto com a série de filmes iniciada por George Lucas como com a tragédia escrita por Shakespeare terminam logo nas primeiras páginas da banda desenhada com o nascimento de Hazel, filha da relação proibida entre Alana, nativa do planeta Landfall, e Marko, oriundo da lua de Wreath. Perseguida por ambas as facções e pelos vários grupos a elas associados, a recém-formada família enceta uma fuga pela galáxia, procurando proporcionar a Hazel uma infância tão normal quanto possível - e por normal entende-se aqui um foguetão-árvore enquanto casa, uma babysitter fantasma, amizades incertas e inimigos determinados. 

 

Autores menos experientes (talentosos) começariam a história pelo infodump clássico para estabelecer as origens do conflito, as facções, o alastrar da guerra, os protagonistas. Vaughan, porém, não perde tempo com os clichés do costume: Hazel nasce, Alana e Marko estão em fuga, e todo aquele universo abre-se perante o leitor numa trama especialmente bem urdida, onde o frenesim da perseguição se alterna com pequenos momentos familiares. Quem apreciar as aventuras espaciais pela acção sentir-se-á em casa nas páginas de Saga, mesmo que nelas não abundem os intensos combates de naves que tanto sucesso fizeram (fazem) no cinema: a história segue sempre a bom ritmo, as peripécias e as reviravoltas sucedem-se sem perder de vista as persongens complexas e ambíguas que a atravessam. Mas Saga é mais do que a aventura: por entre as peripécias galácticas de Alana, Marko e Hazel, Vaughan vai tecendo algumas reflexões sobre a diferença e o preconceito, sobre a futilidade da guerra e os fantasmas que esta deixa, e sobre questões familiares raramente abordadas na tradição dos comics norte-americanos. Ou, pelo menos, raramente abordadas de forma simultaneamente aventureira e intimista.

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À mestria narrativa de Vaughan junta-se a ilustração assombrosa de Fiona Staples, repleta de vivacidade, a alternar entre os planos mais vastos e os momentos mais intimistas sem nunca perder o pé. Os seus alienígenas são expressivos, diversos e fascinantes, parte integrante da trama em curso e não apenas um cenário glorificado para meia dúzia de cenas - alguns, como o "Lying Cat", já conquistaram o seu lugar no imaginário da cultura popular contemporânea. Prova viva de que a banda desenhada não é apenas um mero texto ilustrado mas uma simbiose entre a palavra e a imagem, a arte de Staples dá toda uma nova dimensão à trama, conferindo a todo aquele universo uma cor sem paralelo. E mais do que isso: uma sensualidade rara neste formato. Disse no início do texto que Saga seria algo como "Star Wars para adultos", e não me referia apenas à profundidade e à pertinência do texto e da mensagem de Vaughan mas também ao arrojo do desenho de Staples, sem tabus e em momento algum gratuito ou desnecessário. A capa da primeira edição, que ilustra este texto, é disso um óptimo exemplo, e gerou a sua dose de polémica à data de publicação (mesmo estando longe de ser uma imagem explícita, ou mesmo a imagem mais explícita desta banda desenhada).

 

Com o primeiro capítulo publicado pela Image Comics em 2012, Saga encontra-se ainda em publicação - se formos contabilizar as colectâneas em paperback, está actualmente no sétimo volume, com oitavo a ter publicação prevista para o início de Janeiro próximo. Felizmente, vivemos uma pequena época de ouro para a banda desenhada em Portugal (algo que não acontece com a literatura deste género), tanto em edições nacionais como nas edições traduzidas, e Saga está a ser publicada por cá pela G Floy Studios em boas edições e bom preço. Seja no original ou em português, é-me impossível recomendá-la mais: no que à space opera contemporânea (ou space fantasy, se quisermos ser picuinhas com a terminologia) diz respeito, Saga é uma obra ímpar.

 

(Para os leitores que possam querer uma sugestão de banda desenhada nestes temas, mas menos atrevida, que sirva de prenda de Natal para os mais novos, recomendo Valérian, que a reboque do filme que estreou no Verão até está a ser reeditada por cá: é um clássico, é divertida, e ainda que aqui e ali esteja algo datada, em alguns aspectos continua à frente do seu tempo. Saga, sendo extraordinária, não é de todo uma banda desenhada para crianças)

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Fórum Fantástico 2017

por João Campos, em 28.09.17

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A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras) vai receber nos próximos três dias a décima edição do Fórum Fantástico, com conferências, apresentações e workshops sobre ficção científica, fantasia e horror em todas as suas formas e sub-géneros. Haverá exposições, espaços e actividades para miúdos (e graúdos), uma feira do livro, e até uma sessão ao vivo de um programa de televisão extinto. O programa completo do Fórum pode ser consultado aqui, a entrada é livre, e toda a gente é bem-vinda.  

 

(E sim, apesar de a campanha autárquica ser um autêntico filme de horror, de o "dia de reflexão" ser um conceito algo distópico, e de haver candidatos com propostas tão lunáticas que nem na ficção científica de série B teriam lugar, ainda ninguém se lembrou de sugerir a proibição de convenções deste tipo em época de eleições. É aproveitar, pois convenhamos: os nossos políticos já tiveram ideias mais rebuscadas)

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A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

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"Arrival", ou os novos encontros imediatos

por João Campos, em 17.11.16

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Numa época de aridez criativa mal disfarçada pelo frenesim narrativo, pela pirotecnia computorizada, e pela insistência na franchise que tomou conta das grandes produções de Hollywood, um filme como Arrival é mais do que refrescante - é insólido quase ao ponto do absurdo. Não encontramos, neste blockbuster do canadiano Denis Villeneuve (Sicario) que adapta para o cinema o magnífico conto Story of Your Life do norte-americano Ted Chiang, qualquer vestígio dos elementos que as produções deste tipo têm banalizado com insistência. Toda a acção do filme consiste, justamente, em evitar a acção (ao estilo de Hollywood, entenda-se); ao longo das suas quase duas horas não temos uma única perseguição, o único tiroteio que tem lugar decorre fora da tela, e ao invés de procurarem vencer a guerra pelo combate, os protagonistas esforçam-se por não travar de todo essa guerra.

 

O que, convenhamos, é raro num filme cuja premissa assenta na noção de "primeiro contacto", quando doze naves alienígenas monolíticas aterram no nosso planeta e fazem o mundo mergulhar no caos apenas e só pela sua presença. 

 

Ao invés de resolver a questão pela habitual via bélica, as autoridades dos vários países "visitados" optam, num primeiro momento, por tentar estabelecer contacto por outras vias. É aqui que surge a protagonista, num desempenho notável de Amy Adams: Louise Banks, linguista de renome, a quem o Exército norte-americano confia a liderança de uma equipa que consiga encontrar uma forma de comunicar com os alienígenas para compreender as suas intenções. A partir daqui, Arrival desenrola-se em simultâneo pelo drama pessoal de Louise e a tragédia que marca a sua vida, e pelo drama linguístico que os alienígenas colocam. Longe estão os territórios simplistas e batidos dos Star Wars a que nos acostumámos no cinema, em que o inglês se tornou na língua franca da galáxia: Arrival renuncia a esse legado para demonstrar não a impossibilidade mas a improbabilidade da comunicação com uma civilização extra-terrestre. Nesse sentido, estamos mais perto de um Close Encounters of the Third Kind de Spielberg ou mesmo de um Solaris de Tarkovsky; e, tal como nestes dois filmes (e em boa parte da ficção científica deste género), em Arrival aquilo que está verdadeiramente em causa não é tanto a chegada dos alienígenas como o impacto que essa chegada tem na vida das personagens que estamos a acompanhar. O resultado, esse, dificilmente poderia ser melhor.

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Os bois, os nomes, e os géneros

por João Campos, em 09.09.16

O destaque do Eduardo Pitta é interessante, mas merece um reparo. Apesar de os romances que o celebrizaram (Do Androids Dream of Electric Sheep?A Scanner Darkly e este The Man in the High Castle) poderem ser considerados distopias, será um tanto ou quanto redutor dizer que Philip K. Dick foi um dos guru da ficção distópica - e logo ele, figura maior da literatura de ficção científica, género que desenvolveu de forma ímpar em inúmeros contos a partir dos anos 50 (é ler RoogPaycheckSecond Variety, entre tantos outros) e em vários romances (aos que citei poderia juntar Ubik ou The Martian Time-Slip) que escreveu até à sua morte prematura em 1982. É sempre simpático ver a "elite" literária a olhar para o lado uma vez por acaso e a dar atenção a textos de géneros que regra geral considera menores, mesmo quando continua a ser incapaz de ver para lá das referências que toda a gente já conhece (The Man in the High Castle, estando muito longe de ser o melhor texto de PKD, até teve por cá uma outra edição há poucos anos, e uma adaptação televisiva recente); mas não lhe cairiam os parentes na lama por tratar os bois pelos nomes. 

 

(Também será muito discutível a afirmação de que [p]ara muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?; na história da literatura de ficção científica, e no contexto dos anos 50 e 60, PKD é tão incontornável como Heinlein, Asimov e Clarke; os seus romances e as suas colectâneas de contos continuam a ser reeditadas com regularidade no mercado de língua inglesa; e muitos outros textos seus têm sido adaptados para cinema e televisão. Dito de outra forma: é bem possível que PKD seja muita coisa para muita gente. Mas talvez não valha a pena entrar por aí.)

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Tarkovsky no grande ecrã

por João Campos, em 03.03.16

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Andrei Tarkovsky tem estado em retrospectiva desde Fevereiro no Cinema Nimas, em Lisboa. O que significou hoje uma oportunidade única de rever no grande ecrã um dos clássicos maiores do cinema de ficção científica: Solaris, de 1972, adaptado do romance homónimo do polaco Stanislaw Lem. Que, numa meditação sobre a memória, a experiência de vida e o arrependimento, toca num tema fascinante: a improbabilidade da comunicação, no caso entre seres humanos e alguma forma de inteligência alienígena que, não sendo humanóide, poderá bem ser incompreensível (a ficção científica, e sobretudo o cinema, está repleta de alienígenas em forma humana; quando o primeiro contacto finalmente acontecer, é muito provável que venhamos todos a constatar que Lem esteve mais perto da realidade do que a maior parte dos seus pares).

 

Tivesse eu já lido o livro - está na lista de próximos a comprar há anos - e aventurava-me num breve spin-off da excelente série que o Pedro tem mantido aqui no Delito (bem sei como estou a precisar de algo que me faça voltar a escrever com regularidade). Talvez me atreva para a semana, ainda a propósito de Tarkovsky, se conseguir finalmente ver o outro filme de ficção científica do mestre russo: Stalker, de 1979, que adaptou para o grande ecrã um romance notável dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, Roadside Picnic

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Under the Skin

por João Campos, em 08.05.14

 

(...) And somehow Johansson, Glazer and his cinematographer Daniel Landin transform how we think of this star. They've taken one of the most glamorous actresses of the modern era—a woman whose looks have been abstracted into hubba-hubba caricature in most films, and on awards shows—and ironically restored her earthliness by having her play a creature not of this earth. They've made her beautiful in a real way, with hips and blemishes and folds in her skin.

 

As palavras são do crítico Matt Zoller Seitz no portal de Roger Ebert a propósito do desempenho superlativo de Scarlett Johansson em Under the Skin, a terceira longa-metragem do britânico Jonathan Glazer e um dos filmes mais belos, estranhos, desconfortáveis e divisivos do ano. Com uma estética algo reminiscente de Kubrick, uma banda sonora tão evocativa como arrepiante da jovem Mica Levi e uma fotografia lindíssima (que nos últimos só talvez encontre igual no extraordinário Melancholia de Lars Von Trier), Under the Skin coloca Scarlett Johansson no papel de Laura, uma alienígena em pele humana que vagueia pela noite de Glasgow em busca de homens para seduzir - para fins que o filme mostra sem explicar, numa cena cuja beleza evanescente só pode ser comparada ao horror visceral que conjura. A interpretação de Johansson, com pouquíssimas palavras, revela-se perfeita do primeiro ao terceiro acto do filme - a sua aparência inocente e sedutora, a sua natureza predatória implacável, a sua confusão perante o que é, o que aparenta ser e o que não poderá ser. E acima de tudo a estranheza do que não é humano, do que não compreende o que é ser-se humano por mais que se tente misturar - um ponto de vista raríssimo, raramente arriscado e brilhantemente executado. Poucos extraterrestres da ficção científica cinematográfica são tão alienígenas como a Laura de Johansson, enganadora na sua forma humana; e poucos filmes do género conseguiram veicular a noção do outro com a mesma carga emocional. 

 

Under the Skin estreia hoje, e será sem dúvida um dos melhores filmes de 2014. 

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2001: A Space Odyssey de novo no cinema

por João Campos, em 22.11.13

 

Ao longo dos últimos meses, os cinemas UCI têm vindo a repor nas suas salas de Lisboa, de Alfragide e de Gaia alguns clássicos de cinema, dando a oportunidade de ver - ou rever - no grande ecrã alguns dos filmes mais marcantes da história da sétima arte. E assim, 45 anos depois da sua estreia original em 1968 (não faço ideia quando terá passado por cá), 2001: A Space Odyssey, clássico maior da ficção científica realizado por Stanley Kubrick e escrito a meias com o "mestre" Artur C. Clarke, regressou às salas de cinema para poder ser apreciado em todo o seu esplendor visual e sonoro (acreditem: a extraordinária banda sonora do filme ganha uma outra dimensão; das imagens nem vou falar). Já o tinha visto várias vezes, claro (recordemos); mas assistir a uma sessão destas é quase como vê-lo pela primeira vez. Se tiverem oportunidade, não deixem passar: sentem-se na segunda fila (sugestão pessoal), deixem a tela preencher todo o campo de visão, e atravessem a stargate com Dave Bowman. 

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O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

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Há qualquer coisa de muito interessante na leitura da obra de um escritor seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, pegando nos seus livros mais antigos e seguindo-os até aos mais actuais. Sobretudo quando esse autor estabelece um universo ficcional no qual vai enquadrando ao longo dos anos a sua ficção, ou uma parte dela, dando aos seus leitores a possibilidade de o acompanharem de forma única na sua evolução enquanto autor. Há mais ou menos dois anos comecei a ler assim Discworld, de Terry Pratchett (ver como a escrita e o mundo ficiconal evoluem a cada livro é fascinante - e ainda nem cheguei a metade); há dias, e com o mesmo propósito, peguei em Consider Phlebas, livro de 1987 com o qual o autor escocês Iain Banks - ou, no caso, Iain M. Banks, ganhando o "M." nos seus títulos de ficção científica - deu início à série "Culture" (com um título, já agora, retirado de uma passagem de The Waste Land, de T.S. Eliot).

 

Na prática, e por aquilo que já tive oportunidade de ler (ainda não vou a meio), Consider Phlebas parece ser uma aventura quase ao estilo de space opera, construída num universo fascinante que assenta em ideias e em conceitos tradicionais de ficção científica (as esferas e os anéis de Dyson, as Inteligências Artificiais muito... peculiares, os shapeshifters). E, claro, com uma prosa rica, evocativa nas descrições, e viva nos diálogos. Até ao momento, as desventuras do protagonista com aquele que será porventura o grupo de mercenários mais azarado que o género já conheceu são divertidas - mas todos os pequenos detalhes que Banks sopra para o leitor sobre aquele universo pós-escassez na qual a Humanidade, ou uma qualquer forma de Humanidade, construiu a sua utopia hedonista com a ajuda (e a governação) de Inteligências Artificiais são aliciantes. É este universo que Banks explora ao longo dos vários livros que compõem a série "Culture" - e que conto descobrir nos próximos tempos, dos livros mais antigos aos mais recentes (ainda que tal ordem de leitura não seja de todo necessária). 

 

Até ao momento, Iain M. Banks (que sem o "M." publicou livros como The Wasp Factory, Complicity ou Stonemouth) publicou nove livros e uns poucos contos dentro do universo ficcional de "Culture" - e, infelizmente, é improvável que venha a escrever mais algum. Em Abril, o autor apanhou os seus muitos leitores (de ambas as ficções) de surpresa com um diagnóstico de cancro terminal, que provavelmente não lhe permitirá viver mais um ano completo. O seu próximo livro, The Quarry, com publicação prevista para breve, será à partida o seu último romance. 

 

 

Este texto, já agora, é o primeiro episódio da segunda temporada de uma série que por aqui experimentámos há alguns meses (ano e meio, vá - fica aqui o recap), e à qual agora regressamos. Não sei qual será o argumento do próximo episódio, mas podemos perguntar ao José Gomes André, a cargo da realização. 

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Anti-histamínicos académicos

por João Campos, em 01.12.12

Durante a semana que passou, assisti a algumas sessões da segunda edição do Colóquio Internacional "Mensageiros das Estrelas",  organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras) e inteiramente dedicado à Ficção Científica e à Fantasia. Com todo o mérito que a iniciativa tem (e tem muito), o que mais me marcou neste "regresso" à universidade foi ver como, pelos vistos, nada mudou no ensino universitário português: a primeira sessão do colóquio a que assisti consistiu numa professora universitária que, durante uma hora, leu (em inglês) tudo o que tinha escrito em meia dúzia de folhas de papel, utilizando como suporte uma apresentação de Powerpoint repleta de autênticas paredes de texto. Para não falar na fraca preparação do tema: as referências dividiam-se entre as óbvias e as duvidosas, e em ambos os casos pouca novidade acrescentavam ao tema. Quem já o conhecia, pouco aprendeu; quem não o conhecia, não terá decerto ficado com vontade de o explorar. Em resumo: um horror, uma sessão mais soporífera que os medicamentos anti-histamínicos que habitualmente tomo. Em apenas uma hora, lembrei-me de tudo aquilo que abominava no Ensino Superior (e não só) português: aulas paradas, com professores a ler de forma desinteressada e monótona - quando não entediada - a matéria. Há excepções? Claro. Não parecem ser muitas, porém - entre os académicos portugueses (e talvez entre os portugueses em geral), os bons oradores são raros. 

 

Vejamos o contraste. O último dia do colóquio abriu com uma sessão plenária com Adam Roberts, académico e escritor britânico de ficção científica. Sem papéis para ler (sequer para se guiar), sem Powerpoint a ser projectado, sem se esconder atrás de uma secretária: durante uma hora numa manhã chuvosa de Sexta-feira, Adam Roberts falou - pasme-se, falou - para a audiência sobre o que é a ficção científica e sobre o humor no género. Fê-lo de forma descontraída, enquanto andava de um lado para o outro da sala, sempre a olhar para o público - dando exemplos, contando piadas, respondendo a questões. Fez alguns apontamentos - poucos e cirúrgicos - num quadro branco. Mostrou uma curta. Sempre com muito humor. E tudo isto, note-se, sem descurar o rigor académico da sua exposição.

 

Bem sei: o propósito do Ensino - básico, secundário, universitário - é ensinar, não entreter. Concordo. Há, porém, várias formas de o fazer. Há quem prefira, como Adam Roberts, cativar a audiência para a interessar no tema em discussão. E há quem, como a infeliz professora da primeira sessão a que assisti, prefira anestesiar a audiência. Julgo não ser necessário dizer qual das sessões foi mais proveitosa em termos de conhecimentos adquiridos.

 

(entretanto, e a quem interessar, escrevi aqui um artigo mais longo e detalhado sobre o colóquio)

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