Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 11.09.22

captura-de-ecracc83-2020-10-02-as-18-41-13.jpg

 

Livro dez: De Quase Nada a Quase Rei, de Pedro Sena-Lino

Edição Contraponto, 2020

623 páginas

 

Fala-se muito do Marquês de Pombal, mas grande parte dos portugueses conhece-o mal. Personagem cheia de luzes e sombras, com vocação para mandar, dispôs de poder quase absoluto durante um quarto de século. E foi decisivo em questões diversas, começando pela reconstrução de Lisboa após o devastador terramoto de 1755. Mas também na consolidação do nosso domínio no Brasil, demarcando fronteiras com a coroa espanhola, no desenvolvimento da instrução pública, na promoção da nossa indústria de lanifícios e na criação da primeira região vinícola do mundo, valorizando o Vinho do Porto como emblema de Portugal.

Viveu longos anos fora do País, como nosso representante diplomático em Londres e Viena, o que lhe rasgou horizontes e lhe consolidou a noção de que o poder só é útil se for exercido sem estados de alma nem contemplações filosóficas. Tinha a noção de que esta nação periférica só galgaria etapas rumo ao progresso com o impulso de um governo forte, exercido em nome da autoridade régia mas orquestrado por ele, enquanto punha e depunha figuras secundárias.

É natural que alguém tão marcante tenha fascinado os nossos escritores, que lhe dedicaram biografias. Aconteceu, por exemplo, com Camilo Castelo Branco e Agustina Bessa-Luís. Mas o mais bem-sucedido neste domínio é um contemporâneo que se vem notabilizando sobretudo pela escrita poética: Pedro Sena-Lino assina aqui um minucioso retrato do Marquês, sem lhe enaltecer em excesso as virtudes nem lhe esconder os defeitos. Numa escrita elegante e bem fundamentada em documentos da época, incluindo cartas do biografado, que gostava de escrever para a posteridade, consciente de que viria a figurar em destaque nos manuais de História.

De Quase Nada a Quase Rei: excelente título capaz de resumir o sinuoso percurso de Sebastão José de Carvalho e Melo (1699-1782), que à mercê de caprichos do destino e da sua vontade férrea se tornou um dos dirigentes mais afamados na Europa do seu tempo. Acima dele, no reino lusitano, só estava o monarca, D. José, que lhe confiou plenos poderes. O cenário mudou em 1777, com a ascensão ao trono da sua filha, D. Maria I: Pombal caiu em desgraça, foi desterrado para sempre de Lisboa e por pouco não teve a mesma triste sorte de vários opositores políticos que mandou executar com requintes de malvadez. Viria a morrer longe da corte, abandonado pela legião de aduladores que o rodeava nos tempos áureos.

Mas o seu nome, de facto, passou à História. Ele cuidou disso nos documentos epistolares que nos legou. «É a partir desta imagem de Sebastião José por si construída como defesa no final de vida, e perpetuada em parte pela I República, que outras figuras políticas portuguesas se vão construir - como António de Oliveira Salazar», assinala Pedro Sena-Lino. Numa frase que talvez prenuncie outra biografia da sua lavra.

 

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Sugestão 10 de 2021:

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 10.09.22

500x.jpg

 

Livro nove: Carta à Geração que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann

Edição Guerra & Paz, 2022

159 páginas

 

Há livros notáveis pela qualidade literária e pelo suplemento de sonho que transmitem aos leitores. Outros destacam-se por nos fazerem reflectir em nome de imperativos cívicos inadiáveis. É o caso deste, redigido em forma epistolar pelo eurodeputado francês Raphaël Glucksmann, incentivando os jovens a mudar o mundo. Não com chavões ideológicos, nem com frases que «cantam mais do que falam», como dizia Paul Valéry, mas com acções concretas. 

Nesta Carta à Geração que Vai Mudar o Mundo (edição original francesa de 2021, boa tradução portuguesa de André Morgado para a excelente colecção Livros Vermelhos, da Guerra & Paz) Glucksmann, cineasta que passou pelo jornalismo, menciona vários marcos do seu percurso no activismo social como incentivo aos destinatários da obra. Antes e depois de fundar o partido Lugar Público (2018) e ser eleito para o Parlamento Europeu (2019) em representação desta pequena força política integrada na bancada dos socialistas e sociais-democratas em Bruxelas. 

Filho de peixe sabe nadar. Hoje com 42 anos, o eurodeputado honra o exemplo do pai, André Glucksmann (1937-2015), um dos "novos filósofos" que no final da década de 70 romperam com o marxismo-leninismo, à época ainda dominante nos circuitos académicos e mediáticos em França.

Agora os combates são outros, nestas páginas enumerados sob o signo da urgência. Contra o totalitarismo chinês, que aprisiona mais de um milhão de uigures em campos de concentração. Contra a globalização do comércio que desloca as cadeias de produção da Europa para o Oriente, aproveitando-se do trabalho escravo ao serviço de multinacionais do consumo. Contra as ideologias que sustêm o terrorismo. Contra a economia predadora que vai devastando o planeta. Contra a impotência da Europa, bem visível quando irrompeu a pandemia: descobrimos que éramos incapazes de produzir produtos tão elementares como máscaras ou paracetamol, abdicando da soberania industrial a favor da China e da soberania militar a favor dos EUA. «Sem defesa própria, não há autonomia, logo não há verdadeiramente cidade.»

Ontem André, hoje Raphaël: a militância é quase um imperativo genético. «Vi o meu pai consagrar os últimos vinte anos da sua vida em defesa do povo checheno, massacrado pelo Exército russo», lembra o eurodeputado.

«Os jovens podem mudar tudo. Podem desatar a correia que os prende, podem carregar no travão, podem tomar o volante. Os jovens podem.» Palavras deste intelectual que se tornou político para tornar possíveis as mudanças em que acredita. Contra os «falsos profetas» sempre prontos a jurar que nada há a fazer pois tudo está inscrito nas estrelas. Ele parte do princípio oposto: «Nada está escrito. Nunca.»

Os nossos políticos deviam publicar livros como este. Mas quantos estariam dispostos a tal maçada? E quantos saberiam fazê-lo?

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Sugestão 9 de 2020:

Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)

Sugestão 9 de 2021:

Woke - Um Guia para a Justiça Social, de Titania McGrath (Guerra & Paz)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 09.09.22

500x.jpg

 

Livro oito: Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida

Edição Companhia das Letras, 2021

229 páginas

 

Grande revelação, esta prosa desenvolta que nos apresenta personagens credíveis e com espessura. Ficamos ligados à família Cartola, sobretudo ao pai e ao filho Aquiles, transplantados da Angola natal para Lisboa – terra inscrita no imaginário do mais velho, nascido durante a administração colonial e sentindo-se duplamente desenraizado: o país que se tornou independente em Novembro de 1975 não é o seu, pois sente-se culturalmente português.

Mas a antiga metrópole recebe-o com indiferença forasteira naquela década de 80. Uma frieza que ele é incapaz de compreender. Ele que «chegou a apanhar pedrinhas do chão e a encher os bolsos com elas, como relíquias de uma terra santa». Ele que «se arrepiava ao ouvir o hino de Portugal e sabia de cor a primeira estrofe dos Lusíadas». Ele que na escola havia memorizado os afluentes do Mondego e recitava os nomes dos reis da dinastia Bragança.

O filho tornou-se apátrida cultural em terra-de-ninguém quando se viu forçado a viajar de África para a Europa por motivos de saúde. Ainda no hospital onde esteve internado, deixou de se sentir angolano. «Esse olhar de quem vê o mundo da cama, contrariado, a morder-se de raiva porque ninguém o ouve, ninguém acode, foi a sua nacionalidade assim que pisou Lisboa.» Não volta a ser o mesmo. 

Há também Glória, que se manteve em Luanda e vai comunicando com o marido e o filho por cartas e telefonemas apressados. Também ela saudosa de um tempo que deixou há muito de existir, envolta numa rotina onde o sonho se sobrepõe à realidade.

É um romance em 49 sucintos capítulos que lança um olhar atento e terno sobre a verdadeira pobreza – não sobre os pobres de catálogo, manipulados para efeitos de propaganda ideológica ou catecismo político. Mas é também uma narrativa ficcional sem condescendência paternalista nem códigos de trincheira: apresenta-nos gente à deriva numa Lisboa que empurra os mais humildes para arrabaldes infernais como aquele a que por ironia chamam Paraíso. Gente mergulhada na pobreza endémica mesmo trabalhando para ter tecto e pão.

Nascida em Luanda e há muito radicada em Portugal, Djaimilia Pereira de Almeida doutorou-se em Teoria da Literatura, desempenha desde 2021 funções de consultoria na Casa Civil do Presidente da República e viu esta obra lançada em 2018 distinguida com vários prémios - Oceanos, Inês de Castro, Fundação Eça de Queiroz.

Apetece incentivá-la a escrever novos romances como este. Singelo, original e luminoso.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Sugestão 8 de 2021:

Ernestina, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 04.09.22

22273438_DLaz1.jpeg

 

Livro sete: Diários 1950-1962, de Sylvia Plath

Edição Relógio d'Água, 2021

809 páginas

 

Foi um dos acontecimentos editoriais dos últimos meses em Portugal: o monumental volume dos Diários de Sylvia Plath (1932-1963), incluindo os trechos expurgados pelo marido da malograda escritora, Ted Hughes, e recuperados em 1999, após a morte deste.

Dispomos enfim desta obra no nosso idioma: são oito diários principais, redigidos entre 1950 e 1959, e 15 fragmentos de cadernos de apontamentos, iniciados em 1951 e prolongados até 1962 - meses antes do suicídio da autora de Ariel. Empreendimento digno de vénia, com a habitual competência da editora dirigida por Francisco Vale. Merece destaque a excelente tradução de Inês Dias e José Miguel Silva.

«Quando se limitava a registar os acontecimentos, sem a pretensão de os reformular em moldes artísticos nem de os tornar públicos, escrevia por vezes alguns dos seus melhores textos - e é o que transparece nos seus diários», observou Hughes num prefácio à recolha póstuma de contos da mulher, cujo espólio literário foi gerindo de modo controverso.

São apontamentos íntimos, em que a poetisa norte-americana vai desvendando as suas inquietações mais profundas e os traumas insinuados no relato de um quotidiano só na aparência banal. Permitindo descortinar as entrelinhas do seu magnífico romance, Campânula de Vidro, - pungente tratado sobre os abismos da depressão publicado sob pseudónimo em Londres, em Janeiro de 1963, no auge do Inverno mais frio que o Reino Unido sofreu no século XX. Matou-se no mês seguinte: à terceira tentativa, foi de vez.

Redigidos numa linguagem sem filtros mas sempre com elegância, os diários revelam uma personalidade narcísica, obsessiva, bipolar e assombrada pela perda precoce do pai. Pouco ou nada lhe interessa o que vai decorrendo no mundo exterior, incluindo a sucessão de acontecimentos políticos, quase ausentes destas páginas. 

É um testemunho precioso: percebemos como a depressão avança e se apodera dela, de modo insidioso e furtivo, sob uma fachada de jovial e fresca normalidade. Sylvia ficou sem pai quando tinha apenas dez anos e desde então alimentou uma surda revolta contra a mãe, germinando em espiral no seu inconsciente angustiado. Aversão compulsiva, que a deixava perplexa. Imaginou redimir-se pela imortalidade na literatura, sua aspiração suprema. «É possível que quando damos por nós a querer tudo é porque estamos perigosamente perto de não querermos nada», anota no diário, com perturbante lucidez.

Personagem de tragédia bem real. Procurou o pai perdido em cada homem ao longo de uma década feita de encontros e desencontros. Imaginou encontrá-lo no marido britânico, poeta como ela. Quando se separaram, no Verão de 1962, perde pela segunda vez o pai - desta vez no plano simbólico - e sente um desamparo sem remissão. A mãe viria a sobreviver-lhe 30 anos.

Jamais conseguiremos desvendar com nitidez a face lunar da alma humana. «From the bottom of the pool, fixed stars / Govern a life», escreveu Sylvia Plath. Dia após dia, foi namorando a morte. Até que decidiu partir para não mais voltar, numa interminável viagem ao fim da noite.

Estrelas no fundo de um poço - quantas delas se cruzam connosco nos dédalos citadinos? Vocacionadas para a eternidade mas com todos os sonhos sepultados numa vastidão de pó.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)

Sugestão 7 de 2020:

Acordo Ortográfico - Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)

Sugestão 7 de 2021:

O Silêncio, de Don DeLillo (Relógio d'Água)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 03.09.22

20220903_103811.jpg

 

Livro seis: O Barulho das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez

Edição Alfaguara, 2020

302 páginas

 

Juan Gabriel Vásquez é considerado discípulo literário de Gabriel García Márquez. Une-os, é certo, a nacionalidade colombiana. Mas aqui há pouco realismo mágico. Enquanto o autor de Cem Anos de Solidão deambulava por uma nação ancestral, recriando-a a seu modo com exuberante requinte de linguagem castiça, Vásquez fala-nos da Colômbia contemporânea - este país concreto em que vive e trabalha após longos anos de ausência em Paris e Barcelona, onde estudou Literatura, foi tradutor e jornalista. 

Estar fora permitiu-lhe perceber com maior nitidez o sinistro legado do narcotráfico aliado ao terrorismo que durante décadas manchou a terra colombiana, pondo-a à mercê de todos os impulsos liberticidas. Traindo o sonho do pai da pátria, Simón Bolívar.

«A experiência, aquilo a que chamamos experiência, não é o inventário das nossas dores, mas a compaixão aprendida com as dores alheias.» Eis a lição que o jovem Antonio Yammara recebe e transmite neste belíssimo romance que nos confirma como são precários os laços humanos perante as encruzilhadas da vida, tecidas de mil acasos.

A vénia a García Márquez é óbvia logo neste parágrafo da página 18: «No dia da sua morte, no início de 1996, Ricardo Laverde tinha passado a manhã a passear pelas calçadas estreitas de La Candelaria, no centro de Bogotá, entre casas velhas com telhas de barro cozido e placas de mármore que resenham para ninguém momentos históricos, e por volta da uma chegou aos bilhares da Calle 14, disposto a disputar um par de jogos com os clientes habituais.»

Mas aqui não há exotismo pícaro nem lugar para nostálgicas contemplações etnográficas. O Barulho das Coisas ao Cair, com meritória tradução de Vasco Gato, tem como pano de fundo os anos de chumbo em que o país esteve submetido ao império do maior barão da droga, Pablo Escobar, com o seu viscoso cortejo de sangue que marcou para sempre as personagens centrais, Antonio e Maya. Condenados a uma espécie de antecipação da morte ainda em vida.

Eles atravessaram a adolescência e tornaram-se adultos enquanto Bogotá «se afundava no medo e no barulho dos tiros e das bombas sem que ninguém tivesse declarado guerra nenhuma, ou pelo menos não uma guerra convencional». À semelhança de tantos da sua geração, também eles experimentaram o barulho das coisas ao cair - no plano real e no plano metafórico. Numa digressão sem retorno a um tempo de trevas.

Vale para a Colômbia, país que «produz fugitivos», mas tem alcance universal. 

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 6 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão 6 de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humanode Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Sugestão 6 de 2021:

Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva (Contraponto)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 01.09.22

20220829_105227.jpg

 

Livro cinco: As Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão

Edição Quetzal, 2022

188 páginas

 

Ramalho Ortigão anda a ser reeditado – eis uma excelente notícia. Tantas vezes agregado ao seu contemporâneo e amigo Eça de Queiroz, o co-autor d’ As Farpas merece leitura não contaminada por tal comparação, aliás pouco justificada: ele não se distinguiu como romancista, mas como cronista e até repórter.

As Praias de Portugal, de regresso às livrarias após prolongada ausência, é um bom exemplo do seu talento. Faz-nos recuar cerca de 150 anos, visitando pontos da nossa costa como se os víssemos agora. Mérito do grande prosador que Ramalho (1839-1915) foi. Mesmo sem ter cultivado a arte da ficção.

Quando turista ainda se escrevia à francesa (touriste), o autor deste «guia do banhista e do viajante» percorreu muitas praias do país, confessando preferências. Portuense de berço, assume especial fascínio pelo mar nortenho. Algumas das raras notas confessionais surgem-lhe a propósito da Foz. E suscita sorrisos ao apresentar a Granja, «uma praia de algibeira».

Mas duas das melhores crónicas deste roteiro balnear situam-se mais a sul. Uma em torno da Ericeira, que Ramalho enaltece como «a terra mais asseada de Portugal» – exceptuando Olhão, aliás só aflorada para tal efeito nesta digressão entre Âncora, no Alto Minho, e a península de Tróia. Alentejo e Algarve estão ausentes da obra, datada de 1876.

A Ericeira serve de pretexto para o autor mencionar Mafra, desviando-se da linha costeira. E vergastar D. João V, «Nero de sacristia, Faraó freirático», que «consumiu tantos milhares de contos, tantos milhares de braços e tantos milhares de vidas» no convento.

Este Ramalho é-nos familiar: exímio praticante da farpa verbal. Mas o cronista amável também se revela neste livrinho, hoje com interesse não apenas literário mas sobretudo etnográfico. Numa época em que a praia se frequentava mais pelas suas propriedades terapêuticas do que como cenário de lazer.

«De Pedrouços a Cascais»: assim se intitula outro texto digno de realce neste volume, infelizmente sujeito ao famigerado “acordo ortográfico”, aliás sem enganar ninguém: logo na primeira frase alude-se ao «aspeto (sic) da praia».

Aqui sobressai a visão minuciosa do repórter que no Cais do Sodré embarca «no vapor» e vai mirando as praias do Tejo e as seguintes, já no mar. «Entramos na baía de Cascais, 27 quilómetros de Lisboa percorridos em cinco quartos de hora.» Sem poupar elogios à vila, que «possui uma praça em que se acha o tribunal e a casa da Câmara, um passeio público, três hotéis, um teatro e uma praça de touros».

Ecos de um tempo remoto, eram ainda S. Martinho do Porto, Costa Nova e S. Pedro de Moel «praias obscuras». E quando cândidas almas se escandalizavam porque «a viscondessa de X… foi vista fumando cigarros cor-de-rosa na praia de Paço de Arcos».

.

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

Sugestão 5 de 2020:

Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Sugestão de 2021:

Gramática Para Todos, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 29.08.22

22273437_zdhhh.jpeg

 

Livro quatro: História de um Homem Comum, de George Orwell

Edição E-primatur, 2022

239 páginas

 

Este livro veio preencher uma lacuna no nosso mercado editorial: era o único dos seis romances de George Orwell (pseudónimo de Eric Blair, 1903-1950) ainda inexistente com chancela portuguesa. A iniciativa constitui serviço público. Até porque esta História de um Homem Comum (Coming Up From Air, no original) é hoje considerada uma das suas melhores obras.

Toda a ficção do autor de Homenagem à Catalunha é um acto de militância contra sistemas iníquos - seja na corajosa autópsia do colonialismo inglês no Oriente (Dias da Birmânia), seja na denúncia de uma sociedade rendida à tentação do dinheiro (O Vil Metal), seja no implacável libelo contra o comunismo (O Triunfo dos Porcos), seja na aterradora antevisão de um mundo mergulhado na tecnologia que dissolve toda a liberdade individual (1984). Convicto, como ele dizia, que «o totalitarismo, quando não combatido, poderá triunfar onde quer que seja».

Em História de um Homem Comum, escrito em 1938 e publicado em Junho do ano seguinte, Orwell prevê com argúcia a eclosão da guerra e o modo como este conflito à escala planetária mudaria a face do mundo. Mas esta não é uma obra de cariz político no sentido estrito do termo: o grande escritor britânico descreve aqui o percurso biográfico de um inglês banal, de meia-idade, cruzando-o com as quatro primeiras décadas do Reino Unido no século XX. Interessa-lhe mais a sociedade do que a ideologia. Sem se pôr de fora. Pelo contrário, faz questão de atribuir ao protagonista o seu próprio nome literário.

«George Bowling representa, na sua mediania, milhões de pessoas como ele, para quem a família e o emprego são o núcleo à volta do qual tudo gira e no qual tudo se esgota», escreve no prefácio a esta edição - felizmente imune à praga do "acordo ortográfico" - a professora universitária Jacinta Maria Matos, que fez bem ao evitar a tradução literal do título, tornando-o mais apelativo ao leitor português. 

Em tom de assumida nostalgia, esta História de um Homem Comum fala-nos de uma época que ficou para sempre ultrapassada com a dilacerante Grande Guerra de 1914-1918: «É como se um um diabo dentro de nós nos fizesse andar para trás e para diante, sempre ocupados com ninharias. Há tempo para tudo menos para o que interessa.»

Bowling, ecoando as inquietações de Orwell sobre o rumo do "progresso", tinha a certeza de que aquilo que viesse seria a antítese da sua doce infância remediada numa pacata vila inglesa que a voragem do tempo sepultou.

 

Sugestão 4 de 2016:

Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)

Sugestão 4 de 2017:

Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)

Sugestão 4 de 2018:

Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)

Sugestão 4 de 2019:

Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)

Sugestão 4 de 2020:

Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Sugestão 4 de 2021:

Uma História da ETA, de Diogo Noivo (E-primatur)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 28.08.22

17828179_rrUZ7.jpeg

 

Livro três: O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral

Edição Leya, 2017

363 páginas

 

Há livros destinados a perdurar-nos na memória. Este é um deles. Pela extrema sensibilidade do tema. Pela contenção do autor, que não deixa resvalar o texto para o terreno do folhetim pronto a puxar à lágrima. Pela desenvoltura da escrita, sem perder de vista uma das funções essenciais do romance como forma de expressão artística: saber contar uma história, prendendo-nos ao fluir da narrativa.

O Meu Irmão prende-nos, sem dúvida. Narrado na primeira pessoa por um professor universitário que ao longo dos anos se aproximou muito mais dos livros do que das pessoas, tornando-se agnóstico em matéria de sentimentos. Na roleta do destino, coube-lhe a melhor porção - filho já tardio de um casal de classe média-alta, com quatro irmãs mais velhas e um irmão que era como o seu inverso: Miguel, nascido com síndrome de Down, ficou desamparado com a morte dos pais. 

«Eu nascera inteligente e perfeito, ele nascera inimputável e incompleto», revela o narrador, que durante toda a juventude se desinteressou por completo do irmão, apenas um ano mais novo. Evitando contemplar-se naquele espelho: «Nele, a mente de criança dirigia o corpo de adulto.»

Até que, num inesperado rebate de consciência, decide tomar conta dele - para alívio das irmãs, que não pretendiam tal encargo. Toda a sua vida irá mudar. Nada será fácil, nada ficará na mesma. 

Com esta obra, Afonso Reis Cabral recebeu o Prémio Leya em 2014, quando tinha apenas 24 anos. Distinção merecida: estamos perante um dos melhores romances portugueses deste século sobre os elos familiares, aqui postos à prova por uma doença irreversível.

O Meu Irmão supera vários testes, com direito a quadro de honra. Num estilo sólido, seguro, contido, sem lamechice, sem retórica balofa, sem puxar ao sentimentalismo fácil dos "afectos" agora tão em voga. Com excelentes diálogos e sábias alternâncias de ritmo da narrativa. Como sucede na vida, afinal.

Seria difícil começar da melhor maneira. Afonso Reis Cabral - trineto de Eça de Queiroz - entrou aqui pela porta grande da literatura.

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)

Sugestão 3 de 2018:

Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

Sugestão 3 de 2019:

Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)

Sugestão 3 de 2020:

ABC da Tradução, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Sugestão  3 de 2021:

Intervenções, de Michel Houellebecq (Alfaguara)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 27.08.22

300x.webp

 

Livro dois: Primeira Memória, de Ana María Matute

Edição Narrativa, 2020

235 páginas

 

Conhecemos pouco da ficção espanhola contemporânea. E é pena, porque há excelentes escritores no país vizinho. Com muito mais qualidade, tantas vezes, do que alguns norte-americanos que preenchem o mapa literário graças aos poderosos circuitos da propaganda mediática.

Uma das vozes mais originais do romance de expressão castelhana na segunda metade do século XX foi a de Ana María Matute (1925-2014), que transformou em narrativa literária o amargo testemunho dos anos de chumbo da guerra civil espanhola, marcando-a para sempre. Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes pelo conjunto da sua obra.

Primeira Memória fala-nos desse traumático Verão de 1936, um dos mais sangrentos de que há registo no país vizinho, quando havia famílias fracturadas pelo ódio ideológico mais sectário e qualquer divergência política podia ser paga com a vida.

Matia, órfã de mãe, e o seu primo Borja são recolhidos nesse trágico mês de Agosto em casa da avó, rica proprietária rural das Baleares, onde os ecos do conflito chegavam mais distantes. Os pais de ambos estão ausentes na península, cada qual combatendo na sua trincheira, o que não afecta o entendimento entre os primos - ele com 15 anos, ela com 14. Nesse torrão rural da ilha onde nada parece suceder, em tardes inundadas de calor, farão descobertas essenciais sobre as luzes e sombras da vida.

«Não pensem que à hora da morte recordarão grandes aventuras nem momentos felizes que ainda possam vir a viver. Apenas coisas como esta: uma tarde assim, um copo de vinho, as rosas cobertas de água», diz-lhes um velho marinheiro aposentado de navegações que podia emanar das páginas de um Joseph Conrad.

Distinguida em 1959 com o prestigiado Prémio Nadal e publicada no ano seguinte, Primeira Memória tem competente tradução de Vasco Amaral, que capta com exactidão o elegante estilo da escritora e a agreste candura do olhar da protagonista.

Raras vezes a literatura nos proporciona um retrato tão convincente e até comovente de uma rapariga prestes a despedir-se em definitivo da infância e a mergulhar no poço fundo da idade adulta. Com os tambores da guerra soando ao longe naqueles dias em que o sol se tingia de sangue, metafórico e real.

 

Sugestão 2 de 2016:

Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2017:

Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)

Sugestão 2 de 2018:

Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d' Água)

Sugestão 2 de 2019:

A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2020:

Três Retratos - Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto (Relógio d'Água)

Sugestão 2 de 2021:

Presos por um Fio, de Nuno Gonçalo Poças (Casa das Letras)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 26.08.22

500x.jpg

 

Livro um: O Caminho Fica Longe, de Vergílio Ferreira

Edição Quetzal, 2016

366 páginas

 

Durante décadas, esta obra permaneceu inacessível: insatisfeito com o texto que produzira quando tinha apenas 23 anos, o escritor considerou-o sem qualidade suficiente para integrar o seu espólio literário. Num dos volumes do diário Conta-Corrente Vergílio Ferreira (1916-1996) chega a referir-se de modo depreciativo ao primeiro livro que publicou, em 1943, a seu ver imaturo e quase infantil.

A verdade, porém, é que O Caminho Fica Longe é um bom romance de aprendizagem. Com o aliciante de nos revelar quais eram então os temas centrais do autor de Aparição e perceber como evoluiu o seu fio narrativo, ao nível do conteúdo e do próprio estilo. Aqui a linguagem é mais convencional e menos envolta em simbolismo, sem a escrita depurada que lhe encontraremos no apogeu da maturidade artística, em obras como Alegria Breve ou Para Sempre.

Mas este livro centrado na atmosfera universitária de Coimbra do final da década de 30 (Vergílio escreveu-o em 1939, inserindo alusões à guerra europeia), com estudantes como personagens quase exclusivas, tem a frescura do que é espontâneo. E, à sua maneira, é muito revelador. Do vocabulário da época. Das diferenças de estatuto social entre os alunos. Do choque cultural entre o país campestre de onde muitos provinham e aquele meio urbano infestado de preconceitos. Da pobreza endémica que pairava em pano de fundo naqueles tempos de convulsão mundial. 

Romance "social", sim. Mas tendo já em esboço as inquietações metafísicas que este grande prosador - um dos nossos maiores do século XX - viria a manifestar em quase toda a obra posterior, sobretudo a partir do romance Mudança (1949). O suicídio, por exemplo, é tema fulcral em O Caminho Fica Longe - gerando até uma colisão do escritor com a censura salazarista, que o aconselhou a "limar" alguns trechos. 

A versão definitiva hoje disponível, com texto fixado por Ana Isabel Turíbio, presta homenagem ao jovem talento que aqui iniciava um longo percurso nas letras portuguesas. Perplexo perante o grande mistério da existência: «A face do mundo é sempre igual a si mesma. Os rios correm sempre, as árvores dão os seus frutos e as estrelas vivem eternamente pregadas ao céu.»

 

Sugestão 1 de 2016:

O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)

Sugestão 1 de 2017:

A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)

Sugestão 1 de 2018:

Delito de Opinião, de vários autores (Bookbuilders)

Sugestão 1 de 2019:

O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote)

Sugestão de 2020:

As Sílabas de Amália, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão de 2021:

No Devagar Depressa dos Tempos, de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 12.09.21

41TocpWpzvL._SY344_BO1,204,203,200_QL70_ML2_.jpg

 

Livro dez: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Edição Tinta da China, 2019

267 páginas

 

Há livros que nos atingem com a força de um murro. Alterando a nossa forma de olhar o mundo, de encarar determinados acontecimentos históricos, as nossas certezas instituídas. É o caso deste magnífico romance, um dos melhores publicados nas duas últimas décadas no nosso idioma. Um romance em que os vencidos da longa guerra em Angola entram enfim em cena. Não os militares que recolheram às casernas após dois anos a brincarem às revoluções em Portugal. Mas os civis – aqueles de que ninguém fala, aqueles que tiveram a desdita de figurar no lado B da história.

Dulce Maria Cardoso viveu na pele essa experiência, transformando-a em matéria ficcional com uma autenticidade rara na literatura portuguesa. Adolescente, residente desde a mais remota infância em Angola – sua terra, claro, pois não conhecia outra que pudesse designar assim. Portugal era uma abstracção, plasmada nos rios e linhas férreas que os meninos decoravam nas aulas do ensino básico. Aliás nem diziam Portugal: era a “metrópole”. Não sabiam o que era o frio. Nunca tinham visto televisão. Ignoravam que, por cá, as pessoas vestiam quase sempre de escuro e raras vezes sorriam. Alguns adultos diziam que eles tinham aqui raízes, neste país onde a Coca-Cola estava proibida. Mas as suas raízes estavam lá. Na terra de onde foram arrancados à força e que passaram a transportar apenas na memória sulcada de cicatrizes. Na casa com dálias plantadas pela mãe, nas brincadeiras com a cadela Pirata que nunca mais viram.

Puseram-lhes um rótulo: eram os “retornados”. Mas retornavam como, se nunca tinham cá estado? Eram apontados a dedo, acusados de terem “explorado os pretos”, os professores relegavam-nos para os lugares mais afastados das salas de aula, a própria família daqui os ignorava. Formavam uma insólita irmandade com outros meninos nas mesmas circunstâncias. Aprenderam a substituir palavras: autocarro em vez de machimbombo, frigorífico em vez de geleira, pequeno-almoço em vez de matabicho. Nas horas do crepúsculo, contemplavam os caixotes acumulados no cais, alguns pertencentes a gente que jamais desembarcaria. Apodrecendo à beira-Tejo, rio sem crocodilos nem hipopótamos, cinco séculos depois das navegações que iniciaram tudo.

 

Este romance, publicado originalmente em 2011, está construído em torno de uma unidade familiar básica: pai, mãe, dois filhos adolescentes. Como aconteceu a tantos outros portugueses: pais oriundos de meio rural, com pouca instrução, rumando a Luanda muito jovens. Navegando num porão para fintarem a pobreza.

Mário, o pai, trabalha sem cessar. Acaba por conseguir uma pequena frota de transporte de mercadorias, faz questão de que a filha e o filho já lá nascidos estudem para que não se repita o fado da penúria ancestral. É também ele a semear a esperança naqueles dias fugazes em que a utopia da construção de uma nação livre e multirracial parecia possível numa Angola em que as armas se calavam. «Vamos construir uma nação nova, todos juntos, brancos e pretos, vamos construir uma nação mais rica do que a América.» Os alegres festejos de Ano Novo, em 31 de Dezembro de 1974, são páginas inesquecíveis deste romance.

O sonho não tardou a desfazer-se. E as armas voltaram a rugir, só mudaram de direcção. Apontando primeiro para os brancos – mais de meio milhão foram dali expulsos, em escassos meses, numa das maiores pontes aéreas de todos os tempos. Depois para os negros, fracturados em ódios tribais. Com massacres como o de 27 de Maio de 1977. Com uma prolongada guerra civil que só terminou neste século e deixou duas gerações de mutilados. Com uma feroz ditadura de partido único.

 

Mas de política não se ocupa O Retorno, nem da Angola pós-independência. Esta é a história de uma família em dois continentes, iniciada pouco depois do 25 de Abril de 1974, concluída pouco depois do 25 de Novembro de 1975. Uma família banal, envolvida em circunstâncias excepcionais. A família de Mário, o homem que viu o sonho desmoronar-se. Prestes a entrar na recta final da vida, sem sequer uma mala onde pudesse guardar alguns pertences, quis queimar a casa que construíra para que não fosse violentada por intrusos. Dizia ele: «Um homem pertence à terra que lhe dá de comer» Duas vezes expulso daquilo a que chamava seu país – da primeira vez na Europa, da segunda em África. Jurando perante os filhos que jamais voltariam a expulsá-los de lado algum.

Disto nos fala esta obra. Com rara sensibilidade, com desassombro intelectual, assumindo-se como voz de uma geração traída – demasiado tempo silenciada, demasiado tempo oculta. Relato construído na primeira pessoa, pela voz de um rapaz de quinze anos. Difícil desafio formal, semelhante ao do equilibrista no arame, que a autora supera com distinção. E nos envolve como poucas vezes tem sucedido na ficção contemporânea.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 09.09.21

500x.jpg

 

Livro nove: Woke - Um Guia Para a Justiça Social, de Titania McGrath

Edição Guerra & Paz, 2021

133 páginas

 

Titania Gethsemane McGrath é uma celebridade das chamadas redes sociais. Cheia de opiniões fortes, categóricas, inabaláveis. Arrasa todos quantos ousam contestá-la. Nasceu como figura pública no Twitter, onde se tornou vedeta instantânea. Vegana militante, ecofeminista assumida, defensora de uma «utopia interseccional socialista», seja lá o que isso for. Com mestrado em Estudos de Género por Oxford. Aos 24 anos proclamou-se «melhor poeta do que William Shakespeare», esse incurável misógino.

Muito precoce, ao entrar na creche já se identificava como não-binária. Detesta viver num planeta que tem forma de testículo. Num dos seus poemas mais difundidos, elaborou este auto-retrato: «Titania, / Queima-conservadores, / Queixo firme no parapeito, critico, metralho, disparo. // Criptofascistas tremem ao meu rugido.»

Em Março deste ano, acumulava mais de 600 mil seguidores no Twitter. A vontade de vergastar a cultura falocêntrica, dominada por supremacistas brancos, era tanta que não lhe bastava tuitar: publicou dois livros – um dos quais agora disponível em português.

 

Ninguém a cala. Eis uma súmula das suas mais intrépidas reflexões:

«Há poucos exemplos de misoginia mais virulenta do que um homem considerar uma mulher atraente.»

«O amor não existe. É uma invenção burguesa destinada a justificar os impulsos psicossexuais dos machos.»

«A mudança climática tem a sua origem em os homens verem a Terra como uma mulher e quererem castigá-la, porque olham para ela como uma prostituta arrogante.»

«Só alcançaremos a verdadeira igualdade quando as mulheres forem mais valorizadas do que os homens.»

 

Acontece que Titania não existe.

Ou, dizendo melhor, é uma invenção. De Andrew Doyle, comediante britânico que concebeu esta personagem para denunciar os riscos do activismo ideológico mais sectário. Que estrangula a sátira, asfixia o humor, alimenta os desvarios da correcção política, incentiva o regresso da censura.

 

Woke – Um Guia Para a Justiça Social, da falsa Titania McGrath, com tradução portuguesa de João Reis, é imperdível. O título baseia-se no particípio passado do verbo inglês to wake – que significa despertar. Em nome de «políticas identitárias» levadas ao delírio, que Doyle não hesita em desconstruir. Pelo sarcasmo, pelo riso - por mais fora de moda que pareçam.

«Nascer num mundo heteronormativo patriarcal de supremacistas brancos coloca sob grande pressão a psique de qualquer pessoa», justifica a pretensa Titania McGrath. Que afinal é mais verdadeira do que possamos supor. Ela e muitas outras andam aí. Policiando palavras, gestos e pensamentos. Com nomes estampados neste livro.

«Sou totalmente a favor da liberdade artística, mas quando se trata de apropriação cultural ou ofensa a grupos privados de direitos, defendo que a arte deve estar sujeita a um certo grau de censura», escreve ela.

Não se iludam: esta alegada brincadeira deve ser levada a sério. Antes que se torne demasiado tarde.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Sugestão 9 de 2020:

Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 05.09.21

300x.jpg

 

Livro oito: Ernestina, de J. Rentes de Carvalho

Edição Quetzal, 2018

317 páginas

 

Deliciosa narrativa autobiográfica, comovente (mas nunca lamechas ou piegas) homenagem de Rentes de Carvalho à sua família - povoada de luzes e sombras, como qualquer outra. Na linha de obras como A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis, ou do assumidamente autobiográfico O Mundo à Sua Procura, de Ruben A. E também um impressionante retrato do Portugal do seu tempo de rapaz, repleto de assimetrias: viajar do Porto a Trás-os-Montes naquelas décadas de 30 e 40, por exemplo, era como mudar de continente. 

Ernestina - publicado pela primeira vez em 1998, em homenagem explícita à mãe do autor, e alvo de sucessivas reedições - estabelece uma espécie de rima interna com Montedor, seu romance de estreia, que logo em 1968 mereceu elogios de José Saramago: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (...), decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor.»

Transmontano há muito radicado em Amesterdão, onde leccionou Literatura Portuguesa entre 1956 e 1988, sem renegar as raízes em Estevais (concelho de Mogadouro), Rentes de Carvalho tem uma obra originalíssima. Cultivando o realismo despojado de rótulos doutrinários e assumindo sem complexos a plena apetência por contar histórias. De modo tão vívido como se viajássemos com ele àqueles dias em que a pobreza dominava a paisagem quotidiana do interior rural e a inscrevia como destino inelutável, em chocante contraste com o conforto usufruído pela burguesia citadina.

«Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e a das casas - onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão - com as terríveis doenças que os afligiam. Poucos eram também os que escapavam às "febres", a malária que os punha escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com calafrios que nenhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das chamas do inferno.»

Memórias? Ficção? Crónica romanceada? De tudo um pouco. Os rótulos são o que menos interessa. Isto é literatura. Portuguesa. Da melhor.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Felizmente há livros

Pedro Correia, 04.09.21

thumbnail_20210904_091325[1].jpg

 

Voltei ontem à Feira. Desta vez só em busca de livros muito baratos. Rondei a zona dos alfarrabistas, dos volumes em segunda mão. Que muitas vezes - demasiadas vezes - estão como novos.

Trouxe de lá um Proust - Os Prazeres e os Dias - por apenas três euros, preço de duas imperiais. Em estado impecável. Obra da Editorial Estampa, que deixou um rasto de nostalgia junto dos leitores.

Outro com a mesma etiqueta já desaparecida foi o primeiro volume do romance Milagre Segundo Salomé, obra que andava há anos a perseguir sem sucesso - e à qual já me tinha referido aqui. Ei-lo finalmente nas minhas mãos, por cinco euros. Fica só a faltar-me o segundo.

Reparo: está como se tivesse acabado de sair do prelo. Interrogo-me como é possível. "Veio há dias do nosso armazém", esclareceu-me a senhora do pavilhão. Arrecadado em armazéns em vez de disponível nas livrarias: eis o triste destino de um dos melhores prosadores portugueses do século XX.

 

Que mais?

A quarta edição de Felizmente Há Luar!, o célebre texto dramatúrgico que Luís de Sttau Monteiro editou originalmente em 1961 e só viria a ser representado após o 25 de Abril. Custou-me também cinco euros, esta versão da extinta Portugália com magnífica capa do pintor João da Câmara Leme. Igualmente imaculada, apesar de datar do início da década de 60. Um selo colado no interior informa-me que o exemplar foi adquirido na Tabacaria Central, em Torres Novas. Provavelmente já não existe.

Trago outra obra que há muito procurava: os dois grandes volumes de E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, chancela da Estampa. Estão como novos. O primeiro com 631 páginas, o segundo com 638.

Custam-me dez euros. Só. 

 

Finalmente, e por cinco euros, adquiro Agosto Azul, de Manuel Teixeira Gomes. Contos do prosador que foi também Presidente da República, aqui na terceira edição, de 1958 - a original surgiu em 1904. Outro livro em estado impecável, que teve a particularidade de ser propriedade de António José Forte (1931-1988), um dos nossos mais destacados poetas surrealistas, pertencente ao célebre Grupo do Café Gelo, juntamente com Cesariny, Manuel de Lima, Herberto Helder, Ernesto Sampaio, Helder Macedo, António Barahona e Mário Henrique Leiria. 

 

thumbnail_20210904_091515[1].jpg

 

Questiono-me que voltas terá dado este objecto até me chegar às mãos. Enquanto reparo na bem legível assinatura, aqui reproduzida. 

Só por si, vale mais do que o livro me custou.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 03.09.21

transferir.jpg

 

Livro sete: O Silêncio, de Don DeLillo

Edição Relógio d'Água, 2020

89 páginas

 

O nosso planeta, dominado pela tecnologia, é sacudido por um sobressalto: as redes energéticas que marcam o quotidiano entram em colapso. De repente, as pessoas sentem-se como se estivessem em guerra. Contra um inimigo insidioso, invisível, enigmático. Paira um pressentimento de civilização à beira da derrocada.

Escrito num estilo espartano, com apenas cinco personagens e algum excesso de concisão, O Silêncio faz-nos reflectir sobre os frágeis mecanismos da vida contemporânea, assentes em dispositivos que controlam até o mais ínfimo dos nossos gestos e perante os quais nos curvamos em obediência servil.

É novela de antecipação, sim. Ambientada num futuro muito próximo (2022), imagina Nova Iorque – a capital do mundo – mergulhada num imenso apagão que conduz ao regresso dos dias primordiais dos «paus e pedras» a que alude a célebre frase de Einstein, não por acaso colocada no pórtico desta obra com gente de olhos fixos em ecrãs vazios. Equivalendo à mais negra escuridão.

Publicado em 2020 por Don DeLillo, um dos decanos das letras norte-americanas, O Silêncio «capta os medos crescentes da nossa era», como observou o Washington Post, funcionando em complemento do seu O Homem em Queda (2007), um dos melhores romances sobre os traumas do 11 de Setembro nos EUA. Este mais breve livro de ficção – com boa tradução portuguesa de Paulo Faria – pode ser lido como parábola em torno do coronavírus, mas foi escrito antes, com assombroso talento profético. «Ainda fresco na memória de todos, o vírus, a pandemia, as filas nos terminais nos aeroportos, as máscaras cirúrgicas, as ruas desertas das cidades.»

Também como sinal de que vivemos imersos num mundo onde se multiplicam os viciados digitais, envoltos em códigos de comunicação alheios em grau crescente à genuína natureza humana.

A tal ponto que a pergunta se impõe: «Ao que parece, todos os ecrãs se apagaram, em toda a parte. O que nos resta para ver, ouvir, sentir?» Escuta-se um arrepiante silêncio como resposta.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)

Sugestão 7 de 2020:

Acordo Ortográfico - Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 01.09.21

500_9789896662950_capa.jpg

 

Livro seis: Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva

Edição Contraponto, 2021

294 páginas

 

João Céu e Silva, jornalista com formação de historiador, assina aquela que é talvez a mais interessante das "longas viagens" que tem empreendido com vultos da política e da literatura - Álvaro Cunhal, Miguel Torga, José Saramago, Manuel Alegre, António Lobo Antunes. Desta vez foi ao encontro de Vasco Pulido Valente e resume aqui os diálogos com o autor de O Poder e o Povo: 42 sessões sempre ao fim da tarde de segunda-feira, entre Outubro de 2018 e Janeiro de 2020. Só interrompidas pelo internamento hospitalar do ensaísta, falecido a 21 de Fevereiro do ano passado.

Estamos perante uma espécie de testamento. Pulido Valente terá pressentido que este seria um livro póstumo: fala como se fizesse um balanço de vida. Lamenta não ter permanecido em Oxford, onde foi convidado a leccionar, e a sua dispersão por inúmeros textos jornalísticos (da revista O Tempo e o Modo, na década de 60, ao Observador, pouco antes de falecer) sem consumar o maior sonho: escrever uma História de Portugal, das invasões francesas ao fim da monarquia. Cem anos pouco estudados e mal conhecidos.

De caminho, emite sentenças sobre todos os protagonistas do período republicano. Sem esconder um misto de repulsa e fascínio por Salazar. Ao lê-lo, é como se estivéssemos a escutá-lo – e este é o mérito maior do autor do livro, que se intromete apenas na justa medida, enquadrando temas ou reconduzindo o interlocutor, que muito se dispersa, ao assunto central. Alguns erros factuais de Pulido Valente passaram incólumes, sem correcção, o que acentua a autenticidade do diálogo. Em edições posteriores justificarão notas de rodapé.

Certas redundâncias resultam também do clima de informalidade e franqueza em que estes diálogos decorreram. Com o autor de Às Avessas a reiterar elogios a Mário Soares e Sá Carneiro, com quem conviveu de perto, sem hesitar na preferência pelo primeiro. Quase todos os restantes políticos do nosso último meio século, de Spínola a Sócrates, são crivados de críticas. Excepto Passos Coelho e António Costa, poupados ao diagnóstico corrosivo deste homem que reconhecia já viver algo ausente da sua época e nos últimos anos só se relacionava com o mundo através da televisão. «Eu sou de um tempo em que tratavam por excelentíssimo senhor doutor o Salazar e agora tratam o primeiro-ministro por tu e o presidente quase igual.»

Uma Longa Viagem com Pulido Valente divide-se em oito capítulos. Os mais interessantes são aqueles em que o visado se desvenda o suficiente para nos dar a ilusão de ficarmos a conhecê-lo um pouco melhor. Mas em todos surgem boas histórias, narradas por alguém que não hesitava em classificar a História, enquanto substantivo próprio, «como uma forma de arte». Tal como a praticou Oliveira Martins, um dos seus raros heróis literários, no lapidar Portugal Contemporâneo.

Ficou-lhe também o desgosto de nunca ter publicado um romance. Andou lá perto em 2001, quando lançou o seu maior êxito editorial: Glória, biografia de um político medíocre do século XIX. Vasco Pulido Valente legou-nos duas dezenas de livros e largos milhares de textos concebidos para colunas jornalísticas. Aqui era de uma exigência sem mácula: tentava sempre ser o melhor. «A opinião não é para amadores», costumava dizer. Com toda a razão.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 6 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão 6 de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humanode Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Na Feira do Livro

jpt, 30.08.21

abc.jpg

Como já disse, fui ontem à Feira do Livro. Atrevi-me a isso tanto para seguir a sugestão do Pedro Correia como para assistir à sessão de apresentação de um livro de amigo meu. Encontrei o recinto bastante animado, apinhado de gentes que espero terem sido (estarem a ser) boas clientes. A sessão a que assisti foi simpática, e nela encontrei algumas pessoas que não via há décadas e outras que não tenho o costume de ver. Depois percorri uma das alas da feira. Jurara que não compraria livros, pois vivo sob a pressão de uma tripla escassez: espaço nas estantes, capacidade de concentração e, sobretudo, papel-moeda. Como tal nada vasculhei, de facto deixando distraídos soslaios aos pavilhões e nada ansiosas grandes angulares sobre a mole humana: mas apenas reconheci um afamado ex-bloguista, com o qual convivi em Maputo. Mas, não tendo nada para dizer, eximi-me a ir cumprimentá-lo: é destes recolhimentos, silêncios, que é feita a velhice, já me dizia o meu pai António. Chamava-lhes, lembro-me bem, "falta de paciência". E nada louvava isso, ainda que o praticasse sem rebuço.

Ainda assim não resisti ao velho hábito de comprar livros, e disso deixo registo. Já perto do final da ala, em sentido descendente, atentei numa banca de monos - as que sempre mais atraíam quando era cliente habitual da Feira. E, ao preço de um euro cada, de lá trouxe estes três volumes da colecção ABC da Cozinha, editada por Bárbara Palla e Carmo (Abril/Controljornal Editora, 1999): Tudo Sobre Arroz, Tudo Sobre Peixe, Tudo Sobre Vitela.

Quando regressado a casa percebi que voltara contente.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 30.08.21

91b5a7afb61d4aea3d99a617457d825c.jpg

 

Livro cinco: Gramática Para Todos, de Marco Neves

Edição Guerra & Paz, 2019

143 páginas

 

O desconhecimento galopante da gramática portuguesa é notório. Mesmo utentes do idioma enquanto ferramenta profissional - incluindo professores e jornalistas - claudicam nesta matéria. Ignorando regras, confundindo norma com excepção, exibindo ignorância travestida de erudição.

A obra máxima de referência do género, que muito me tem servido ao longo de anos de pesquisas a propósito dos desafios que a escrita me suscita, é a Nova Gramática do Português Contemporâneo (1984), de Celso Cunha e Lindley Cintra. Livro que já devia ter sido declarado património nacional. Ou transnacional, atendendo ao facto de o português ser língua oficial em dez países e territórios, nos cinco continentes.

Sem pretensão académica mas com vontade assumida de ser útil, esta breve Gramática Para Todos está redigida num estilo escorreito e cumpre na íntegra o objectivo a que se propõe: revelar ou recordar regras que reforçam a nossa ligação à língua-mãe. Missão meritória numa época invadida por modismos aberrantes, muitos dos quais pronunciados nessa nova espécie de crioulo que é o portinglês, de óbvia importação americana. Em que o idioma de Eça e Pessoa mais parece uma frustre caricatura de si próprio, repleto de erros lexicais, sintácticos e ortográficos. Começando por peças jornalísticas.

Marco Neves, professor da Universidade Nova com ampla experiência também como tradutor e revisor de textos, sabe ensinar em cada página que vai escrevendo. Sem se colocar num pedestal, como se estivesse a dialogar com o leitor. Lembra o essencial das normas e fundamenta-as com clareza. Fornecendo exemplos práticos. Neste seu jeito informal também especifica como se deve escrever, justificando cada caso. A diferença entre solarengo e soalheiro, entre à-vontade e à vontade. Se é mais correcto fazer ou «desfazer» a barba. Convicto de que importa «recriar a nossa voz através da palavra escrita», de preferência sem erros.

Interveio, não «interviu». Rubrica, não «rúbrica». Com certeza, não «concerteza». O nosso idioma merece ser bem tratado. Devemos-lhe isso.

 

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

Sugestão 5 de 2020:

Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Fim de semana (8)

Pedro Correia, 29.08.21

thumbnail_20210827_092809[2].jpg

                              thumbnail_20210827_093002[1].jpg thumbnail_20210827_093057[3].jpg

Desta vez a sugestão é em Lisboa. Na Feira do Livro, que decorre até 12 de Setembro. Pelo passeio, pela possibilidade de adquirirmos livros a bom preço, pelo inesperado reencontro com gente amiga (voltou a acontecer-me sexta-feira, dia da inauguração) e pelo magnífico panorama que desfrutamos lá do alto. Uma das mais soberbas vistas da cidade, captada do miradouro do Parque Eduardo VII, projectado em 1940 pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, a quem a capital portuguesa tanto deve.

Nesta minha primeira incursão trouxe de lá três livros. Da Relógio d' Água, ainda uma das melhores editoras portuguesas, um clássico da ficção narrativa do século XX: A Morte de Virgílio, de Hermann Broch. No pavilhão da Alfaguara, outra das minhas preferidas, comprei O Barulho das Coisas ao Cair, romance do colombianao Juan Gabriel Vásquez. E na volta que dei pelos alfarrabistas encontrei Os Desertores - primeira edição (1960) do romance de Augusto Abelaira. Com autógrafo do autor em forma de dedicatória - por apenas 7,5 euros.

Qualquer deles a ler em breve. Mas hei-de voltar à Feira - mesmo com o sacrifício de andar lá de máscara. Gosto de tradições e de rituais. Deambular pelo Parque, com milhares de livros em redor, é um prazer que todos os anos se renova.