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Delito de Opinião

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 12.09.21

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Livro dez: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Edição Tinta da China, 2019

267 páginas

 

Há livros que nos atingem com a força de um murro. Alterando a nossa forma de olhar o mundo, de encarar determinados acontecimentos históricos, as nossas certezas instituídas. É o caso deste magnífico romance, um dos melhores publicados nas duas últimas décadas no nosso idioma. Um romance em que os vencidos da longa guerra em Angola entram enfim em cena. Não os militares que recolheram às casernas após dois anos a brincarem às revoluções em Portugal. Mas os civis – aqueles de que ninguém fala, aqueles que tiveram a desdita de figurar no lado B da história.

Dulce Maria Cardoso viveu na pele essa experiência, transformando-a em matéria ficcional com uma autenticidade rara na literatura portuguesa. Adolescente, residente desde a mais remota infância em Angola – sua terra, claro, pois não conhecia outra que pudesse designar assim. Portugal era uma abstracção, plasmada nos rios e linhas férreas que os meninos decoravam nas aulas do ensino básico. Aliás nem diziam Portugal: era a “metrópole”. Não sabiam o que era o frio. Nunca tinham visto televisão. Ignoravam que, por cá, as pessoas vestiam quase sempre de escuro e raras vezes sorriam. Alguns adultos diziam que eles tinham aqui raízes, neste país onde a Coca-Cola estava proibida. Mas as suas raízes estavam lá. Na terra de onde foram arrancados à força e que passaram a transportar apenas na memória sulcada de cicatrizes. Na casa com dálias plantadas pela mãe, nas brincadeiras com a cadela Pirata que nunca mais viram.

Puseram-lhes um rótulo: eram os “retornados”. Mas retornavam como, se nunca tinham cá estado? Eram apontados a dedo, acusados de terem “explorado os pretos”, os professores relegavam-nos para os lugares mais afastados das salas de aula, a própria família daqui os ignorava. Formavam uma insólita irmandade com outros meninos nas mesmas circunstâncias. Aprenderam a substituir palavras: autocarro em vez de machimbombo, frigorífico em vez de geleira, pequeno-almoço em vez de matabicho. Nas horas do crepúsculo, contemplavam os caixotes acumulados no cais, alguns pertencentes a gente que jamais desembarcaria. Apodrecendo à beira-Tejo, rio sem crocodilos nem hipopótamos, cinco séculos depois das navegações que iniciaram tudo.

 

Este romance, publicado originalmente em 2011, está construído em torno de uma unidade familiar básica: pai, mãe, dois filhos adolescentes. Como aconteceu a tantos outros portugueses: pais oriundos de meio rural, com pouca instrução, rumando a Luanda muito jovens. Navegando num porão para fintarem a pobreza.

Mário, o pai, trabalha sem cessar. Acaba por conseguir uma pequena frota de transporte de mercadorias, faz questão de que a filha e o filho já lá nascidos estudem para que não se repita o fado da penúria ancestral. É também ele a semear a esperança naqueles dias fugazes em que a utopia da construção de uma nação livre e multirracial parecia possível numa Angola em que as armas se calavam. «Vamos construir uma nação nova, todos juntos, brancos e pretos, vamos construir uma nação mais rica do que a América.» Os alegres festejos de Ano Novo, em 31 de Dezembro de 1974, são páginas inesquecíveis deste romance.

O sonho não tardou a desfazer-se. E as armas voltaram a rugir, só mudaram de direcção. Apontando primeiro para os brancos – mais de meio milhão foram dali expulsos, em escassos meses, numa das maiores pontes aéreas de todos os tempos. Depois para os negros, fracturados em ódios tribais. Com massacres como o de 27 de Maio de 1977. Com uma prolongada guerra civil que só terminou neste século e deixou duas gerações de mutilados. Com uma feroz ditadura de partido único.

 

Mas de política não se ocupa O Retorno, nem da Angola pós-independência. Esta é a história de uma família em dois continentes, iniciada pouco depois do 25 de Abril de 1974, concluída pouco depois do 25 de Novembro de 1975. Uma família banal, envolvida em circunstâncias excepcionais. A família de Mário, o homem que viu o sonho desmoronar-se. Prestes a entrar na recta final da vida, sem sequer uma mala onde pudesse guardar alguns pertences, quis queimar a casa que construíra para que não fosse violentada por intrusos. Dizia ele: «Um homem pertence à terra que lhe dá de comer» Duas vezes expulso daquilo a que chamava seu país – da primeira vez na Europa, da segunda em África. Jurando perante os filhos que jamais voltariam a expulsá-los de lado algum.

Disto nos fala esta obra. Com rara sensibilidade, com desassombro intelectual, assumindo-se como voz de uma geração traída – demasiado tempo silenciada, demasiado tempo oculta. Relato construído na primeira pessoa, pela voz de um rapaz de quinze anos. Difícil desafio formal, semelhante ao do equilibrista no arame, que a autora supera com distinção. E nos envolve como poucas vezes tem sucedido na ficção contemporânea.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 09.09.21

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Livro nove: Woke - Um Guia Para a Justiça Social, de Titania McGrath

Edição Guerra & Paz, 2021

133 páginas

 

Titania Gethsemane McGrath é uma celebridade das chamadas redes sociais. Cheia de opiniões fortes, categóricas, inabaláveis. Arrasa todos quantos ousam contestá-la. Nasceu como figura pública no Twitter, onde se tornou vedeta instantânea. Vegana militante, ecofeminista assumida, defensora de uma «utopia interseccional socialista», seja lá o que isso for. Com mestrado em Estudos de Género por Oxford. Aos 24 anos proclamou-se «melhor poeta do que William Shakespeare», esse incurável misógino.

Muito precoce, ao entrar na creche já se identificava como não-binária. Detesta viver num planeta que tem forma de testículo. Num dos seus poemas mais difundidos, elaborou este auto-retrato: «Titania, / Queima-conservadores, / Queixo firme no parapeito, critico, metralho, disparo. // Criptofascistas tremem ao meu rugido.»

Em Março deste ano, acumulava mais de 600 mil seguidores no Twitter. A vontade de vergastar a cultura falocêntrica, dominada por supremacistas brancos, era tanta que não lhe bastava tuitar: publicou dois livros – um dos quais agora disponível em português.

 

Ninguém a cala. Eis uma súmula das suas mais intrépidas reflexões:

«Há poucos exemplos de misoginia mais virulenta do que um homem considerar uma mulher atraente.»

«O amor não existe. É uma invenção burguesa destinada a justificar os impulsos psicossexuais dos machos.»

«A mudança climática tem a sua origem em os homens verem a Terra como uma mulher e quererem castigá-la, porque olham para ela como uma prostituta arrogante.»

«Só alcançaremos a verdadeira igualdade quando as mulheres forem mais valorizadas do que os homens.»

 

Acontece que Titania não existe.

Ou, dizendo melhor, é uma invenção. De Andrew Doyle, comediante britânico que concebeu esta personagem para denunciar os riscos do activismo ideológico mais sectário. Que estrangula a sátira, asfixia o humor, alimenta os desvarios da correcção política, incentiva o regresso da censura.

 

Woke – Um Guia Para a Justiça Social, da falsa Titania McGrath, com tradução portuguesa de João Reis, é imperdível. O título baseia-se no particípio passado do verbo inglês to wake – que significa despertar. Em nome de «políticas identitárias» levadas ao delírio, que Doyle não hesita em desconstruir. Pelo sarcasmo, pelo riso - por mais fora de moda que pareçam.

«Nascer num mundo heteronormativo patriarcal de supremacistas brancos coloca sob grande pressão a psique de qualquer pessoa», justifica a pretensa Titania McGrath. Que afinal é mais verdadeira do que possamos supor. Ela e muitas outras andam aí. Policiando palavras, gestos e pensamentos. Com nomes estampados neste livro.

«Sou totalmente a favor da liberdade artística, mas quando se trata de apropriação cultural ou ofensa a grupos privados de direitos, defendo que a arte deve estar sujeita a um certo grau de censura», escreve ela.

Não se iludam: esta alegada brincadeira deve ser levada a sério. Antes que se torne demasiado tarde.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Sugestão 9 de 2020:

Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 05.09.21

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Livro oito: Ernestina, de J. Rentes de Carvalho

Edição Quetzal, 2018

317 páginas

 

Deliciosa narrativa autobiográfica, comovente (mas nunca lamechas ou piegas) homenagem de Rentes de Carvalho à sua família - povoada de luzes e sombras, como qualquer outra. Na linha de obras como A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis, ou do assumidamente autobiográfico O Mundo à Sua Procura, de Ruben A. E também um impressionante retrato do Portugal do seu tempo de rapaz, repleto de assimetrias: viajar do Porto a Trás-os-Montes naquelas décadas de 30 e 40, por exemplo, era como mudar de continente. 

Ernestina - publicado pela primeira vez em 1998, em homenagem explícita à mãe do autor, e alvo de sucessivas reedições - estabelece uma espécie de rima interna com Montedor, seu romance de estreia, que logo em 1968 mereceu elogios de José Saramago: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (...), decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor.»

Transmontano há muito radicado em Amesterdão, onde leccionou Literatura Portuguesa entre 1956 e 1988, sem renegar as raízes em Estevais (concelho de Mogadouro), Rentes de Carvalho tem uma obra originalíssima. Cultivando o realismo despojado de rótulos doutrinários e assumindo sem complexos a plena apetência por contar histórias. De modo tão vívido como se viajássemos com ele àqueles dias em que a pobreza dominava a paisagem quotidiana do interior rural e a inscrevia como destino inelutável, em chocante contraste com o conforto usufruído pela burguesia citadina.

«Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e a das casas - onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão - com as terríveis doenças que os afligiam. Poucos eram também os que escapavam às "febres", a malária que os punha escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com calafrios que nenhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das chamas do inferno.»

Memórias? Ficção? Crónica romanceada? De tudo um pouco. Os rótulos são o que menos interessa. Isto é literatura. Portuguesa. Da melhor.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Felizmente há livros

Pedro Correia, 04.09.21

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Voltei ontem à Feira. Desta vez só em busca de livros muito baratos. Rondei a zona dos alfarrabistas, dos volumes em segunda mão. Que muitas vezes - demasiadas vezes - estão como novos.

Trouxe de lá um Proust - Os Prazeres e os Dias - por apenas três euros, preço de duas imperiais. Em estado impecável. Obra da Editorial Estampa, que deixou um rasto de nostalgia junto dos leitores.

Outro com a mesma etiqueta já desaparecida foi o primeiro volume do romance Milagre Segundo Salomé, obra que andava há anos a perseguir sem sucesso - e à qual já me tinha referido aqui. Ei-lo finalmente nas minhas mãos, por cinco euros. Fica só a faltar-me o segundo.

Reparo: está como se tivesse acabado de sair do prelo. Interrogo-me como é possível. "Veio há dias do nosso armazém", esclareceu-me a senhora do pavilhão. Arrecadado em armazéns em vez de disponível nas livrarias: eis o triste destino de um dos melhores prosadores portugueses do século XX.

 

Que mais?

A quarta edição de Felizmente Há Luar!, o célebre texto dramatúrgico que Luís de Sttau Monteiro editou originalmente em 1961 e só viria a ser representado após o 25 de Abril. Custou-me também cinco euros, esta versão da extinta Portugália com magnífica capa do pintor João da Câmara Leme. Igualmente imaculada, apesar de datar do início da década de 60. Um selo colado no interior informa-me que o exemplar foi adquirido na Tabacaria Central, em Torres Novas. Provavelmente já não existe.

Trago outra obra que há muito procurava: os dois grandes volumes de E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, chancela da Estampa. Estão como novos. O primeiro com 631 páginas, o segundo com 638.

Custam-me dez euros. Só. 

 

Finalmente, e por cinco euros, adquiro Agosto Azul, de Manuel Teixeira Gomes. Contos do prosador que foi também Presidente da República, aqui na terceira edição, de 1958 - a original surgiu em 1904. Outro livro em estado impecável, que teve a particularidade de ser propriedade de António José Forte (1931-1988), um dos nossos mais destacados poetas surrealistas, pertencente ao célebre Grupo do Café Gelo, juntamente com Cesariny, Manuel de Lima, Herberto Helder, Ernesto Sampaio, Helder Macedo, António Barahona e Mário Henrique Leiria. 

 

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Questiono-me que voltas terá dado este objecto até me chegar às mãos. Enquanto reparo na bem legível assinatura, aqui reproduzida. 

Só por si, vale mais do que o livro me custou.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 03.09.21

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Livro sete: O Silêncio, de Don DeLillo

Edição Relógio d'Água, 2020

89 páginas

 

O nosso planeta, dominado pela tecnologia, é sacudido por um sobressalto: as redes energéticas que marcam o quotidiano entram em colapso. De repente, as pessoas sentem-se como se estivessem em guerra. Contra um inimigo insidioso, invisível, enigmático. Paira um pressentimento de civilização à beira da derrocada.

Escrito num estilo espartano, com apenas cinco personagens e algum excesso de concisão, O Silêncio faz-nos reflectir sobre os frágeis mecanismos da vida contemporânea, assentes em dispositivos que controlam até o mais ínfimo dos nossos gestos e perante os quais nos curvamos em obediência servil.

É novela de antecipação, sim. Ambientada num futuro muito próximo (2022), imagina Nova Iorque – a capital do mundo – mergulhada num imenso apagão que conduz ao regresso dos dias primordiais dos «paus e pedras» a que alude a célebre frase de Einstein, não por acaso colocada no pórtico desta obra com gente de olhos fixos em ecrãs vazios. Equivalendo à mais negra escuridão.

Publicado em 2020 por Don DeLillo, um dos decanos das letras norte-americanas, O Silêncio «capta os medos crescentes da nossa era», como observou o Washington Post, funcionando em complemento do seu O Homem em Queda (2007), um dos melhores romances sobre os traumas do 11 de Setembro nos EUA. Este mais breve livro de ficção – com boa tradução portuguesa de Paulo Faria – pode ser lido como parábola em torno do coronavírus, mas foi escrito antes, com assombroso talento profético. «Ainda fresco na memória de todos, o vírus, a pandemia, as filas nos terminais nos aeroportos, as máscaras cirúrgicas, as ruas desertas das cidades.»

Também como sinal de que vivemos imersos num mundo onde se multiplicam os viciados digitais, envoltos em códigos de comunicação alheios em grau crescente à genuína natureza humana.

A tal ponto que a pergunta se impõe: «Ao que parece, todos os ecrãs se apagaram, em toda a parte. O que nos resta para ver, ouvir, sentir?» Escuta-se um arrepiante silêncio como resposta.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)

Sugestão 7 de 2020:

Acordo Ortográfico - Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 01.09.21

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Livro seis: Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva

Edição Contraponto, 2021

294 páginas

 

João Céu e Silva, jornalista com formação de historiador, assina aquela que é talvez a mais interessante das "longas viagens" que tem empreendido com vultos da política e da literatura - Álvaro Cunhal, Miguel Torga, José Saramago, Manuel Alegre, António Lobo Antunes. Desta vez foi ao encontro de Vasco Pulido Valente e resume aqui os diálogos com o autor de O Poder e o Povo: 42 sessões sempre ao fim da tarde de segunda-feira, entre Outubro de 2018 e Janeiro de 2020. Só interrompidas pelo internamento hospitalar do ensaísta, falecido a 21 de Fevereiro do ano passado.

Estamos perante uma espécie de testamento. Pulido Valente terá pressentido que este seria um livro póstumo: fala como se fizesse um balanço de vida. Lamenta não ter permanecido em Oxford, onde foi convidado a leccionar, e a sua dispersão por inúmeros textos jornalísticos (da revista O Tempo e o Modo, na década de 60, ao Observador, pouco antes de falecer) sem consumar o maior sonho: escrever uma História de Portugal, das invasões francesas ao fim da monarquia. Cem anos pouco estudados e mal conhecidos.

De caminho, emite sentenças sobre todos os protagonistas do período republicano. Sem esconder um misto de repulsa e fascínio por Salazar. Ao lê-lo, é como se estivéssemos a escutá-lo – e este é o mérito maior do autor do livro, que se intromete apenas na justa medida, enquadrando temas ou reconduzindo o interlocutor, que muito se dispersa, ao assunto central. Alguns erros factuais de Pulido Valente passaram incólumes, sem correcção, o que acentua a autenticidade do diálogo. Em edições posteriores justificarão notas de rodapé.

Certas redundâncias resultam também do clima de informalidade e franqueza em que estes diálogos decorreram. Com o autor de Às Avessas a reiterar elogios a Mário Soares e Sá Carneiro, com quem conviveu de perto, sem hesitar na preferência pelo primeiro. Quase todos os restantes políticos do nosso último meio século, de Spínola a Sócrates, são crivados de críticas. Excepto Passos Coelho e António Costa, poupados ao diagnóstico corrosivo deste homem que reconhecia já viver algo ausente da sua época e nos últimos anos só se relacionava com o mundo através da televisão. «Eu sou de um tempo em que tratavam por excelentíssimo senhor doutor o Salazar e agora tratam o primeiro-ministro por tu e o presidente quase igual.»

Uma Longa Viagem com Pulido Valente divide-se em oito capítulos. Os mais interessantes são aqueles em que o visado se desvenda o suficiente para nos dar a ilusão de ficarmos a conhecê-lo um pouco melhor. Mas em todos surgem boas histórias, narradas por alguém que não hesitava em classificar a História, enquanto substantivo próprio, «como uma forma de arte». Tal como a praticou Oliveira Martins, um dos seus raros heróis literários, no lapidar Portugal Contemporâneo.

Ficou-lhe também o desgosto de nunca ter publicado um romance. Andou lá perto em 2001, quando lançou o seu maior êxito editorial: Glória, biografia de um político medíocre do século XIX. Vasco Pulido Valente legou-nos duas dezenas de livros e largos milhares de textos concebidos para colunas jornalísticas. Aqui era de uma exigência sem mácula: tentava sempre ser o melhor. «A opinião não é para amadores», costumava dizer. Com toda a razão.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 7 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humanode Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Na Feira do Livro

jpt, 30.08.21

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Como já disse, fui ontem à Feira do Livro. Atrevi-me a isso tanto para seguir a sugestão do Pedro Correia como para assistir à sessão de apresentação de um livro de amigo meu. Encontrei o recinto bastante animado, apinhado de gentes que espero terem sido (estarem a ser) boas clientes. A sessão a que assisti foi simpática, e nela encontrei algumas pessoas que não via há décadas e outras que não tenho o costume de ver. Depois percorri uma das alas da feira. Jurara que não compraria livros, pois vivo sob a pressão de uma tripla escassez: espaço nas estantes, capacidade de concentração e, sobretudo, papel-moeda. Como tal nada vasculhei, de facto deixando distraídos soslaios aos pavilhões e nada ansiosas grandes angulares sobre a mole humana: mas apenas reconheci um afamado ex-bloguista, com o qual convivi em Maputo. Mas, não tendo nada para dizer, eximi-me a ir cumprimentá-lo: é destes recolhimentos, silêncios, que é feita a velhice, já me dizia o meu pai António. Chamava-lhes, lembro-me bem, "falta de paciência". E nada louvava isso, ainda que o praticasse sem rebuço.

Ainda assim não resisti ao velho hábito de comprar livros, e disso deixo registo. Já perto do final da ala, em sentido descendente, atentei numa banca de monos - as que sempre mais atraíam quando era cliente habitual da Feira. E, ao preço de um euro cada, de lá trouxe estes três volumes da colecção ABC da Cozinha, editada por Bárbara Palla e Carmo (Abril/Controljornal Editora, 1999): Tudo Sobre Arroz, Tudo Sobre Peixe, Tudo Sobre Vitela.

Quando regressado a casa percebi que voltara contente.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 30.08.21

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Livro cinco: Gramática Para Todos, de Marco Neves

Edição Guerra & Paz, 2019

143 páginas

 

O desconhecimento galopante da gramática portuguesa é notório. Mesmo utentes do idioma enquanto ferramenta profissional - incluindo professores e jornalistas - claudicam nesta matéria. Ignorando regras, confundindo norma com excepção, exibindo ignorância travestida de erudição.

A obra máxima de referência do género, que muito me tem servido ao longo de anos de pesquisas a propósito dos desafios que a escrita me suscita, é a Nova Gramática do Português Contemporâneo (1984), de Celso Cunha e Lindley Cintra. Livro que já devia ter sido declarado património nacional. Ou transnacional, atendendo ao facto de o português ser língua oficial em dez países e territórios, nos cinco continentes.

Sem pretensão académica mas com vontade assumida de ser útil, esta breve Gramática Para Todos está redigida num estilo escorreito e cumpre na íntegra o objectivo a que se propõe: revelar ou recordar regras que reforçam a nossa ligação à língua-mãe. Missão meritória numa época invadida por modismos aberrantes, muitos dos quais pronunciados nessa nova espécie de crioulo que é o portinglês, de óbvia importação americana. Em que o idioma de Eça e Pessoa mais parece uma frustre caricatura de si próprio, repleto de erros lexicais, sintácticos e ortográficos. Começando por peças jornalísticas.

Marco Neves, professor da Universidade Nova com ampla experiência também como tradutor e revisor de textos, sabe ensinar em cada página que vai escrevendo. Sem se colocar num pedestal, como se estivesse a dialogar com o leitor. Lembra o essencial das normas e fundamenta-as com clareza. Fornecendo exemplos práticos. Neste seu jeito informal também especifica como se deve escrever, justificando cada caso. A diferença entre solarengo e soalheiro, entre à-vontade e à vontade. Se é mais correcto fazer ou «desfazer» a barba. Convicto de que importa «recriar a nossa voz através da palavra escrita», de preferência sem erros.

Interveio, não «interviu». Rubrica, não «rúbrica». Com certeza, não «concerteza». O nosso idioma merece ser bem tratado. Devemos-lhe isso.

 

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

Sugestão de 2020:

Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Fim de semana (8)

Pedro Correia, 29.08.21

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Desta vez a sugestão é em Lisboa. Na Feira do Livro, que decorre até 12 de Setembro. Pelo passeio, pela possibilidade de adquirirmos livros a bom preço, pelo inesperado reencontro com gente amiga (voltou a acontecer-me sexta-feira, dia da inauguração) e pelo magnífico panorama que desfrutamos lá do alto. Uma das mais soberbas vistas da cidade, captada do miradouro do Parque Eduardo VII, projectado em 1940 pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, a quem a capital portuguesa tanto deve.

Nesta minha primeira incursão trouxe de lá três livros. Da Relógio d' Água, ainda uma das melhores editoras portuguesas, um clássico da ficção narrativa do século XX: A Morte de Virgílio, de Hermann Broch. No pavilhão da Alfaguara, outra das minhas preferidas, comprei O Barulho das Coisas ao Cair, romance do colombianao Juan Gabriel Vásquez. E na volta que dei pelos alfarrabistas encontrei Os Desertores - primeira edição (1960) do romance de Augusto Abelaira. Com autógrafo do autor em forma de dedicatória - por apenas 7,5 euros.

Qualquer deles a ler em breve. Mas hei-de voltar à Feira - mesmo com o sacrifício de andar lá de máscara. Gosto de tradições e de rituais. Deambular pelo Parque, com milhares de livros em redor, é um prazer que todos os anos se renova.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 27.08.21

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Livro quatro: Uma História da ETA, de Diogo Noivo

Edição E-primatur, 2020

398 páginas

 

Durante meio século, a ETA aterrorizou Espanha. A pretexto da luta pela independência das três províncias do País Basco, esta organização separatista declarou guerra ao Estado espanhol no final da década de 60. Rodeava-se de alguma aura romântica: em Madrid vigorava a ditadura de Franco. Mas o franquismo agonizou e morreu sem que a ETA guardasse as armas. Pelo contrário: mais de 90% dos seus crimes foram cometidos durante o regime democrático, que deu plena autonomia à região basca – incluindo o reconhecimento da língua própria. Ao invés do que sucedeu nas três províncias bascas em França, submetidas ao poder central em Paris sem gerar sobressaltos nacionalistas: todos os gatilhos estavam apontados para Espanha. No ano de maior terror, 1980, foram assassinadas 92 pessoas. Uma a cada quatro dias.

Diogo Noivo – analista de risco político, também autor do DELITO – investigou a fundo a questão basca, tornando-se num dos maiores especialistas portugueses do tema. O resultado encontra-se nesta obra, a mais minuciosa até hoje entre nós. Examina as raízes do movimento, assentes na crença da superioridade basca sobre os restantes povos da Península. Inventaria as cumplicidades da ETA em território português, que «não foram episódicas nem casuísticas». E descreve o cortejo de crimes cometidos pelo terrorismo etarra: 855 vítimas mortais (incluindo 579 assassínios no próprio País Basco); 2533 feridos em 3500 atentados; 15.649 pessoas ameaçadas de morte; um número indeterminado de habitantes movidos para longe da região. Pelo «medo de levar um tiro, o medo de perder amigos», como lembra o filósofo Fernando Savater, basco de San Sebastián. Também ele forçado a partir.

Página encerrada? Nunca se diga nunca. Os herdeiros do braço político da ETA, hoje dissolvida enquanto guerrilha urbana, estão bem vivos. Sentam-se no parlamento regional em Vitória e até no Congresso dos Deputados em Madrid. Enquanto «cerca de 300 homicídios da responsabilidade da ETA continuam sem autores materiais identificados», como assinala Diogo Noivo. Demasiadas famílias sofrem ainda a dor do luto.

 

Sugestão 4 de 2016:

Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)

Sugestão 4 de 2017:

Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)

Sugestão 4 de 2018:

Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)

Sugestão 4 de 2019:

Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)

Sugestão 4 de 2020:

Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 25.08.21

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Livro três: Intervenções, de Michel Houellebecq

Edição Alfaguara, 2021

378 páginas

 

O francês Michel Houellebecq - autor de Submissão, um dos romances que marcam este século - gosta de emitir opiniões provocatórias. Contra a correcção política, desafiando os novos dogmas. Comparo-o por vezes ao saudoso Vasco Pulido Valente. Ou aos espanhóis Javier Marías e Arturo Pérez-Reverte. Pertence à linhagem dos escritores e pensadores que perturbam os consensos estabelecidos.

É uma característica patente neste volume, que beneficia de tradução competente de José Mário Silva e recolhe textos diversos do romancista - crónicas, entrevistas, pequenos ensaios - publicados entre 1993 e 2020. Textos de valor muito desigual. Alguns decepcionantes, outros tocados pelo brilhantismo que o autor empresta a várias reflexões sobre temas em foco: o relativismo cultural, a degradação dos padrões educativos ou o nivelamento por baixo nas sociedades contemporâneas. No estilo desassombrado que se tornou sua imagem de marca e que por vezes abusa de efeitos retóricos, como quando designa de «imbecis» quantos se acomodam ao padrão dominante.

O balanço é positivo: esta antologia justifica atenção por conter fragmentos de Houellebecq no seu melhor. Pessimista militante, sarcástico, melancólico. Quase sempre estimulante. Capaz de nos interpelar mesmo quando nos irrita. Conservador assumido, fala do presente como se sentisse saudades perpétuas do passado – até de um passado que nunca viveu. Elege Dostoievski como exemplo supremo da ficção literária. Elogia o cinema mudo. Enaltece as epístolas de São Paulo. Questiona «se terá havido um verdadeiro progresso desde o tempo da vida nas cavernas.»

Nele transparece sobretudo a paixão pela escrita. Que o leva a disparar contra solenes vultos das letras gaulesas: Sartre, Beauvoir, Malraux, Genet, Robbe-Grillet. E a citar Schopenhauer: «A primeira – e praticamente a única – condição de um bom estilo é ter qualquer coisa para dizer.»

No fim, tudo se reconduz à literatura – outra forma de pronunciarmos a palavra vida. Em frases tão lapidares e comoventes como esta: «Nada neste mundo é mais belo do que a bruma que se levanta do mar.»

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)

Sugestão 3 de 2018:

Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

Sugestão 3 de 2019:

Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)

Sugestão 3 de 2020:

ABC da Tradução, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 23.08.21

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Livro dois: Presos por um Fio, de Nuno Gonçalo Poças

Edição Casa das Letras, 2021

278 páginas

 

Este livro cumpre serviço público. Porque começou a investigar onde o jornalismo parou. Resgatando do esquecimento colectivo os crimes cometidos pelas chamadas Forças Populares 25 de Abril, fundadas e lideradas por Otelo Saraiva de Carvalho. Já com a democracia consolidada, houve em Portugal um movimento terrorista que, a pretexto da luta contra o «Estado burguês», assaltou, roubou, feriu e matou. Durante sete anos, de 1980 a 1987. Entre as vítimas mortais incluíram-se um bebé de quatro meses em São Manços, Évora. E o director dos Serviços Prisionais, assassinado com tiro na nuca, à porta de sua casa. E um jovem agente da Polícia Judiciária, que deixou viúva grávida.

As FP-25 sempre beneficiaram de uma insólita tolerância no plano mediático. Como se estes crimes que mancharam de sangue a democracia portuguesa merecessem atenuante por envolverem o comandante operacional da Revolução dos Cravos.

Nuno Gonçalo Poças, advogado nascido em 1985, não tem memória viva desses tempos. O que torna ainda mais meritório este livro, fruto de um trabalho de investigação sério e rigoroso. Mergulha nos arquivos da época, recolhe depoimentos de diversas testemunhas e procede à minuciosa autópsia do longo processo judicial que levou à condenação de mais de meia centena de réus, incluindo Otelo, num tribunal criado para o efeito e com protecção especial aos magistrados em risco de vida. Tudo culminou numa chocante amnistia cozinhada pelo poder político na década de 90. Dos 16 mortos, apenas um – soldado da GNR – tem nome de rua. Nenhum recebeu indemnização porque o Estado se esqueceu de ordenar o arresto de bens dos autores materiais e morais dos crimes. Nunca houve uma associação de apoio às vítimas. Enquanto a cúpula das FP-25 beneficiava da solidariedade aberta nos jornais e de abaixo-assinados pró-amnistia com assinaturas de muitos nomes conhecidos da cultura, da política e do espectáculo.

Dois pesos, duas medidas. E um prolongado manto de silêncio a que Nuno Gonçalo Poças acaba de pôr fim, combatendo a desmemória. Com nomes e datas. Para que todos saibamos.

 

Sugestão 2 de 2016:

Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2017:

Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)

Sugestão 2 de 2018:

Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d' Água)

Sugestão 2 de 2019:

A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2020:

Três Retratos - Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto (Relógio d'Água)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 21.08.21

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Livro um: No Devagar Depressa dos Tempos, de Marcello Duarte Mathias

Edição D. Quixote, 2019

542 páginas

 

Ao contrário do que sucede noutras latitudes, a prosa diarística ainda é rara em Portugal. Não por acaso, o Diário de Miguel Torga continua a ser a grande referência entre nós, resistindo a todas as modas. A excelente Conta Corrente, de Vergílio Ferreira, passou como cometa fulgurante na década de 80 e hoje só se encontra em alfarrabistas. Tem havido esparsas tentativas de reviver o género, revelando-se quase sempre esforço infrutífero – como os Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, espécie de exercício narcísico que roça o insuportável em tantas páginas.

O mais digno herdeiro de Torga neste domínio – sem a verve cáustica de Vergílio – é Marcello Duarte Mathias, que cedo começou a cultivar o seu diário, com primeiro tomo publicado em 1980. Já com o título desta antologia: No Devagar Depressa dos Tempos, extraído de frase cunhada por João Guimarães Rosa. Sucederam-se outros sob a mesma epígrafe, marcados por países e cidades onde o autor ia lançando âncora, enquanto embaixador de carreira: Os Dias e os Anos, Diário da Índia, Diário de Paris, Diário da Abuxarda – o mais recente galardoado com o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores.

Este volume que reúne trechos escolhidos de todos os diários merece ser saboreado com vagar. Abrange mais de meio século, entre 1962 e 2014, reflectindo sobre acontecimentos que marcaram a história do mundo e as profundas transformações em Portugal. É obra tocada mas não contaminada pelo que ocorre no exterior. E sulcada de notáveis aforismos. Eis alguns: «Deus nasce e ausenta-se todos os dias; «A história do homem é a das suas nostalgias»; «Gasta-se uma vida inteira a corrigir um erro de trajectória.»

O que mais importa aqui é a peregrinação interior de quem escreve ao transpor anos decisivos de amadurecimento, envelhecimento e fatal confronto com transfigurações várias – começando pela morte de alguns que lhe estão próximos.

Revelações em tom discreto, envoltas em elipses, com pudor quase enigmático. Numa aura de serenidade a que só podemos chamar sabedoria.

 

Sugestão 1 de 2016:

O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)

Sugestão 1 de 2017:

A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)

Sugestão 1 de 2018:

Delito de Opinião, de vários autores (Bookbuilders)

Sugestão 1 de 2019:

O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote)

Sugestão de 2020:

As Sílabas de Amália, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Três em um

Pedro Correia, 15.09.20

1

Foi impressão minha ou nesta Feira do Livro que anteontem terminou em Lisboa as jovens que atendiam nos pavilhões das editoras foram escolhidas pela beleza ocular? Nunca vi tantos olhos azuis e verdes, ainda mais em evidência devido à máscara obrigatória que todos ali usávamos, vendedores e clientes. Pode ser coincidência, claro. Mas há muito que deixei de acreditar em coincidências.

 

2

Reparo num número crescente de mulheres, ainda jovens, exibindo cabelos brancos sem constrangimentos nem complexos. Efeitos do confinamento, do teletrabalho, das longas semanas com salões de cabeleireiro encerrados. Fazem muito bem. É tempo de todos descobrirmos (a começar por elas) que os cabelos brancos nada afectam a sensualidade feminina. E podem até acentuá-la. 

 

3

Comprei já não sei o quê, numa loja em Lagos, e reparei na jovem que me passava o troco: sorria com os olhos. Felicitei-a por isso: cada vez menos gente partilha sorrisos - e, nesta circunstância, ter a capacidade de sorrir com os olhos é um dom precioso. Um dom que devíamos desenvolver nestes dias de rostos ocultos pela uniforme expansão das máscaras. Custa menos do que parece.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 12.09.20

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Livro dez: A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Edição Cavalo de Ferro, 2019

222 páginas

 

Há livros traduzidos que mereciam melhores títulos portugueses. É o caso deste, que reúne dispersos de Czeslaw Milosz (1911-2004), justamente galardoado em 1980 com o Prémio Nobel da Literatura. Um livro que comprova esta evidência: até em prosa fragmentária, escrita para prefácios ou conferências, o grande escritor polaco era capaz de arrebatar os leitores com a força das suas ideias e o seu exemplar talento literário, trespassado de toada poética.

A Minha Intenção contém onze textos de dimensão variada e géneros díspares, datados de épocas muito diferentes. No seu conjunto, segundo justifica o editor em breves linhas introdutórias, pretendem constituir «uma introdução à obra ensaística» daquele que foi «um dos mais extraordinários poetas e pensadores do século XX». Objectivo concretizado: aqui encontramos uma significativa amostra da versatilidade temática do escritor, em registos que vão do relato memorialístico à crítica literária, do aforismo ao ensaio biográfico.

Destaco três: “Viagem ao Ocidente” (de 1959), quase-conto em que o autor recorda uma atribulada digressão estival com dois amigos concretizada no final da adolescência, de Varsóvia a Paris; “Contra a Poesia Incompreensível” (de 1990), incisiva denúncia da «enxurrada de metáforas artísticas e de um elegante tecido linguístico que voltou costas à fala coloquial»; e “A Felicidade” (de 1998), comovida e comovente digressão nostálgica do poeta, já na velhice, pelos dias amenos da sua infância numa quinta dos avós situada na Lituânia, muito antes do manto de ferro e sangue cair sobre a Polónia, sucessivamente devastada por Hitler e Estaline. Milosz testemunhou esse pesadelo totalitário, denunciado no seu monumental ensaio A Mente Aprisionada, publicado originalmente já no exílio pós-comunista em França (1953) e agora também disponível em versão portuguesa, também com chancela da Cavalo de Ferro.

«Vivia sem ontem nem amanhã, vivia num eterno presente. E essa é, precisamente, a definição de felicidade», recorda o Nobel da Literatura, evocando esses tempos irrepetíveis, entre os sete e os dez anos. Regressou ali já com oitenta: tudo estava diferente: «Talvez fosse uma mudança mais radical do que qualquer outra por lá concretizada por mão humana desde a Idade Média.» A colectivização da agricultura, imposta pela ditadura soviética, fez desaparecer aldeias inteiras, «com as suas casas, pátios, celeiros, estábulos e hortas». Da quinta dos avós restavam ténues vestígios.

Espécie de Ulisses sem Ítaca para recuperar, Milosz confessa não ter sentido mágoa ou sequer tristeza: «Ali, vi-me confrontado não com a história do meu século, mas com o tempo em si.» Restou-lhe, mesmo nos momentos mais negros, a recordação perene daqueles dias felizes da infância com o seu assombroso «poder curativo», tornado revelação sete décadas depois.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 07.09.20

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Livro nove: Estocolmo, de Sérgio Godinho

Edição Quetzal, 2019

158 páginas

 

Os escritores portugueses, a partir de certa altura, perderam a vocação para contar histórias. Passaram a abstrair-se do objecto, como se apenas houvesse sujeito, e desinteressaram-se da realidade circundante, limitando-se a escutar o eco da própria voz em longos monólogos interiores que transformavam cada livro numa monumental estopada.

Felizmente, em anos mais recentes, parece ter vindo a recuperar-se o gosto pela narrativa de ficção. Sem temor reverencial pelos patrulheiros da ortodoxia estética que impunham o primado da forma sobre o conteúdo.

Um destes escritores sem complexos, que não quer punir o leitor nem obrigá-lo a partilhar catarses do seu foro íntimo, é Sérgio Godinho. Escritor que, antes de o ser, já o era – como cantautor, feliz neologismo que podemos colar também a um Brel, um Cohen, um Dylan ou um Buarque. Ao terceiro livro de ficção (após o volume de contos Vidadupla e o romance Coração Mais Que Perfeito), o criador de inesquecíveis canções, como Lisboa que Amanhece ou É Terça-Feira, confirma-se como hábil urdidor de tramas narrativas. Daquelas com princípio, meio e fim – e expressas num estilo tão visual que até podem ser lidas em voz alta.

O enredo de Estocolmo prende de imediato a atenção do leitor. Um estudante universitário, em busca de quarto para arrendar, torna-se inquilino de uma conhecida jornalista televisiva, verdadeira atracção nacional, que o sequestra literalmente no sótão desse apartamento lisboeta. O nome da capital sueca surge aqui enquanto síndrome, designando a irremediável atracção do jovem capturado, Vicente, pela sua atraente captora, não por acaso homónima da deusa da caça: Diana Albuquerque (figura fictícia talvez inspirada numa apresentadora real de telediário). Convicta de que «o amor é sempre uma forma de prisão» e que «já andamos todos enjaulados, pela sociedade, pela moral, pelo emprego, pelo amor e pelo ciúme». 

Novela desenvolta, com diálogos credíveis e o ritmo narrativo de um thriller clássico: Sérgio Godinho supera a prova como autor de ficções sem música num livro que daria um filme. Sou capaz de apostar que dará mesmo.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Uma História da ETA | Pub

Diogo Noivo, 05.09.20

O Diário de Notícias publica hoje uma entrevista conduzida pela Valentina Marcelino onde falamos do passado, do presente e do futuro.

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No Expresso, o Hugo Franco escreve sobre a primeira grande aquisição de armas feita pela ETA - que lhe permitiu dar "o salto" de movimento para organização terrorista -, intermediada pelos portugueses da LUAR. 

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São partes de um trabalho de dois anos que chegou hoje em forma de livro à Feira do Livro de Lisboa - e que chegará às livrarias no dia 13 de Setembro. A propósito de partes, o Observador publica parte de um capítulo no seu site (não percebo bem porquê, mas é apenas para assinantes).

Espero que os leitores do DO e os meus camaradas delituosos encontrem nestas páginas - dos jornais e do livro - algo de interesse.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 03.09.20

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Livro oito: A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle

Tradução de Ivan Figueiras

Edição Guerra & Paz, 2020

140 páginas

 

Este livro não evita a polémica. Pelo contrário: procura-a. Tem como alvo as teses afrocentristas, em expansão no meio universitário europeu por importação dos EUA, que deixam de conceber a história como uma disciplina social e humana abrangente para a confinar em redutos tribais cada vez mais fragmentados.

O autor tem a vantagem de conhecer bem o tema. Doutorado em História pela Sorbonne e especialista em arqueologia, François-Xavier Fauvelle é professor do College de France, com uma cátedra dedicada à História de África. Considera o afrocentrismo uma corrente ideológica alicerçada no ressentimento. E lavra assim o seu protesto: «Nas transformações identitárias actuais, em que as identidades nacionais se vêem forçadas a ceder um lugar às várias identidades comunitárias ou particularistas, a memória foi posta em leilão.»

A militância afrocentrista contesta a tradição europeia de apontar o Mediterrâneo como berço dos mais relevantes acontecimentos históricos, considerando que tudo quanto de significativo ocorreu no mundo teve origem no continente africano – linguagem, cultura, religiões, civilização. Sócrates pode ter sido negro, Jesus e Buda podem ter sido negros, nada desmente que Cleópatra fosse negra. E do possível logo se passa ao provável. «São ideias de combate» que consumam «uma vingança sobre o Ocidente». Apropriando-se do conceito de raça em proveito próprio. Daqui emerge «uma história romântica e perigosa, em que o espírito de uma nação se confunde com os seus genes». E tudo gira em função do tom da pele. A América foi descoberta por negros muito antes de Cristóvão Colombo, o cristianismo é uma religião de origem afro-egípcia. «Deus é negro», proclamam as franjas mais radicais.

Fauvelle contesta sobretudo a contaminação da academia por estas correntes que abdicam do carácter universal da sabedoria: «Diz-me a tua cor, e eu dir-te-ei o que deves pensar: para os brancos, o “pensamento ocidental”; para os negros, o afrocentrismo.»

Dicotomias deste género, assentes no mais rudimentar maniqueísmo, deram mau resultado noutros tempos e noutras circunstâncias. A história tem tendência a repetir-se quando a memória se relativiza. E torna-se até perigosa ao vermos historiadores colocar mitos no altar dos factos.

 

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 02.09.20

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Livro sete: Acordo Ortográfico - Um Beco com Saída, de Nuno Pacheco

Edição Gradiva, 2019

203 páginas

 

O chamado “Acordo Ortográfico” – concebido pelo Executivo de Cavaco Silva em 1990 e concretizado pelo Governo de José Sócrates em 2008 – instituiu um panorama caótico na expressão escrita. Mas apenas em Portugal: os brasileiros mantêm a ortografia que já cultivavam, Angola e Moçambique nunca reconheceram as alterações e os restantes países de língua oficial portuguesa permanecem indiferentes ao seu conteúdo – espécie de norma às avessas, cheia de “facultatividades” e duplas grafias, à revelia do nosso aparelho vocálico e do étimo das palavras, muitas das quais ficaram desfiguradas e outras irromperam do nada, geradas por aparente delírio.

O AO90, que pretendia «unificar e simplificar» o idioma, sempre encontrou convictos adversários. Incluindo o actual Presidente da República, um dos 900 signatários de um abaixo-assinado anti-acordo que em 1990 congregou os nomes mais prestigiados das nossas letras – entre eles, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, David Mourão-Ferreira, Hélia Correia, Manuel Alegre, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol, Vasco Graça Moura e Mário Cesariny.

O jornalista Nuno Pacheco – co-fundador do Público, de que foi durante largos anos director-adjunto – tem sido um dos mais determinados e esclarecidos opositores ao “desacordo” ortográfico em numerosos artigos de opinião publicados naquele jornal e aqui reunidos, numa sequência cronológica iniciada em 2007 e prolongada até 2019. Artigos que nos fornecem a dimensão exacta deste atentado ao nosso património cultural que muitos brasileiros também rejeitam. «Outra maluquice», comentou Caetano Veloso. «Achei uma bobagem esse negócio da nova ortografia, não faz o menor sentido», observou Nelson Motta. «Sou contra, acho uma burrice», desabafou João Ubaldo Ribeiro.

«O Acordo Ortográfico de 1990 nasceu de um perigoso casamento: o do medo com a mentira», assinala Nuno Pacheco. O pavor de ver surgir uma «língua brasileira» conjugado com a alegação de que o português é a única língua com duas ortografias oficiais. Nada mais errado: o francês tem 15 variantes ortográficas reconhecidas, o espanhol tem 21, o árabe tem 16 e o inglês tem 18.

O desacordo desfigurou ruptura, que os brasileiros continuam a escrever desta forma, instituindo uma rutura a partir do nada. O vulgar interruptor tornou-se interrutor. Ótico (relativo ao aparelho ocular) perdeu o p (usado pelos brasileiros) e ficou igual a ótico (relativo ao aparelho auditivo). Apesar de a optometria ainda ser actividade profissional, tal como arquitectura, que recusa perder o c mandado retirar pela falange acordista. Palavras como recepção e concepção – que mantêm esta grafia no Brasil – passaram a escrever-se aqui receção e conceção – homófonas de recessão e concessão. O que já levou o Supremo Tribunal de Justiça a aludir a um putativo «aviso de recessão» e a Escola Superior de Gestão a pronunciar-se sobre «conceção de créditos». Dois exemplos entre muitas outras aberrações: ninguém se entende nesta balbúrdia.

O caos é tão flagrante que até a Presidência da República, em comunicados oficiais, escreve contato em vez de contacto, porventura convencida de que aquele segundo c que todos pronunciamos devia ser eliminado porque dá jeito sabe-se lá a quem. O que diria Marcelo Rebelo de Sousa, outrora militante anti-AO90, destes disparates hoje cometidos em seu nome?

 

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton