Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Três em um

por Pedro Correia, em 15.09.20

1

Foi impressão minha ou nesta Feira do Livro que anteontem terminou em Lisboa as jovens que atendiam nos pavilhões das editoras foram escolhidas pela beleza ocular? Nunca vi tantos olhos azuis e verdes, ainda mais em evidência devido à máscara obrigatória que todos ali usávamos, vendedores e clientes. Pode ser coincidência, claro. Mas há muito que deixei de acreditar em coincidências.

 

2

Reparo num número crescente de mulheres, ainda jovens, exibindo cabelos brancos sem constrangimentos nem complexos. Efeitos do confinamento, do teletrabalho, das longas semanas com salões de cabeleireiro encerrados. Fazem muito bem. É tempo de todos descobrirmos (a começar por elas) que os cabelos brancos nada afectam a sensualidade feminina. E podem até acentuá-la. 

 

3

Comprei já não sei o quê, numa loja em Lagos, e reparei na jovem que me passava o troco: sorria com os olhos. Felicitei-a por isso: cada vez menos gente partilha sorrisos - e, nesta circunstância, ter a capacidade de sorrir com os olhos é um dom precioso. Um dom que devíamos desenvolver nestes dias de rostos ocultos pela uniforme expansão das máscaras. Custa menos do que parece.

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 12.09.20

250x[1].jpg

 

Livro dez: A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Edição Cavalo de Ferro, 2019

222 páginas

 

Há livros traduzidos que mereciam melhores títulos portugueses. É o caso deste, que reúne dispersos de Czeslaw Milosz (1911-2004), justamente galardoado em 1980 com o Prémio Nobel da Literatura. Um livro que comprova esta evidência: até em prosa fragmentária, escrita para prefácios ou conferências, o grande escritor polaco era capaz de arrebatar os leitores com a força das suas ideias e o seu exemplar talento literário, trespassado de toada poética.

A Minha Intenção contém onze textos de dimensão variada e géneros díspares, datados de épocas muito diferentes. No seu conjunto, segundo justifica o editor em breves linhas introdutórias, pretendem constituir «uma introdução à obra ensaística» daquele que foi «um dos mais extraordinários poetas e pensadores do século XX». Objectivo concretizado: aqui encontramos uma significativa amostra da versatilidade temática do escritor, em registos que vão do relato memorialístico à crítica literária, do aforismo ao ensaio biográfico.

Destaco três: “Viagem ao Ocidente” (de 1959), quase-conto em que o autor recorda uma atribulada digressão estival com dois amigos concretizada no final da adolescência, de Varsóvia a Paris; “Contra a Poesia Incompreensível” (de 1990), incisiva denúncia da «enxurrada de metáforas artísticas e de um elegante tecido linguístico que voltou costas à fala coloquial»; e “A Felicidade” (de 1998), comovida e comovente digressão nostálgica do poeta, já na velhice, pelos dias amenos da sua infância numa quinta dos avós situada na Lituânia, muito antes do manto de ferro e sangue cair sobre a Polónia, sucessivamente devastada por Hitler e Estaline. Milosz testemunhou esse pesadelo totalitário, denunciado no seu monumental ensaio A Mente Aprisionada, publicado originalmente já no exílio pós-comunista em França (1953) e agora também disponível em versão portuguesa, também com chancela da Cavalo de Ferro.

«Vivia sem ontem nem amanhã, vivia num eterno presente. E essa é, precisamente, a definição de felicidade», recorda o Nobel da Literatura, evocando esses tempos irrepetíveis, entre os sete e os dez anos. Regressou ali já com oitenta: tudo estava diferente: «Talvez fosse uma mudança mais radical do que qualquer outra por lá concretizada por mão humana desde a Idade Média.» A colectivização da agricultura, imposta pela ditadura soviética, fez desaparecer aldeias inteiras, «com as suas casas, pátios, celeiros, estábulos e hortas». Da quinta dos avós restavam ténues vestígios.

Espécie de Ulisses sem Ítaca para recuperar, Milosz confessa não ter sentido mágoa ou sequer tristeza: «Ali, vi-me confrontado não com a história do meu século, mas com o tempo em si.» Restou-lhe, mesmo nos momentos mais negros, a recordação perene daqueles dias felizes da infância com o seu assombroso «poder curativo», tornado revelação sete décadas depois.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 07.09.20

image[1].jpg

 

Livro nove: Estocolmo, de Sérgio Godinho

Edição Quetzal, 2019

158 páginas

 

Os escritores portugueses, a partir de certa altura, perderam a vocação para contar histórias. Passaram a abstrair-se do objecto, como se apenas houvesse sujeito, e desinteressaram-se da realidade circundante, limitando-se a escutar o eco da própria voz em longos monólogos interiores que transformavam cada livro numa monumental estopada.

Felizmente, em anos mais recentes, parece ter vindo a recuperar-se o gosto pela narrativa de ficção. Sem temor reverencial pelos patrulheiros da ortodoxia estética que impunham o primado da forma sobre o conteúdo.

Um destes escritores sem complexos, que não quer punir o leitor nem obrigá-lo a partilhar catarses do seu foro íntimo, é Sérgio Godinho. Escritor que, antes de o ser, já o era – como cantautor, feliz neologismo que podemos colar também a um Brel, um Cohen, um Dylan ou um Buarque. Ao terceiro livro de ficção (após o volume de contos Vidadupla e o romance Coração Mais Que Perfeito), o criador de inesquecíveis canções, como Lisboa que Amanhece ou É Terça-Feira, confirma-se como hábil urdidor de tramas narrativas. Daquelas com princípio, meio e fim – e expressas num estilo tão visual que até podem ser lidas em voz alta.

O enredo de Estocolmo prende de imediato a atenção do leitor. Um estudante universitário, em busca de quarto para arrendar, torna-se inquilino de uma conhecida jornalista televisiva, verdadeira atracção nacional, que o sequestra literalmente no sótão desse apartamento lisboeta. O nome da capital sueca surge aqui enquanto síndrome, designando a irremediável atracção do jovem capturado, Vicente, pela sua atraente captora, não por acaso homónima da deusa da caça: Diana Albuquerque (figura fictícia talvez inspirada numa apresentadora real de telediário). Convicta de que «o amor é sempre uma forma de prisão» e que «já andamos todos enjaulados, pela sociedade, pela moral, pelo emprego, pelo amor e pelo ciúme». 

Novela desenvolta, com diálogos credíveis e o ritmo narrativo de um thriller clássico: Sérgio Godinho supera a prova como autor de ficções sem música num livro que daria um filme. Sou capaz de apostar que dará mesmo.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Uma História da ETA | Pub

por Diogo Noivo, em 05.09.20

O Diário de Notícias publica hoje uma entrevista conduzida pela Valentina Marcelino onde falamos do passado, do presente e do futuro.

DN.jpg

No Expresso, o Hugo Franco escreve sobre a primeira grande aquisição de armas feita pela ETA - que lhe permitiu dar "o salto" de movimento para organização terrorista -, intermediada pelos portugueses da LUAR. 

Expresso.jpg

São partes de um trabalho de dois anos que chegou hoje em forma de livro à Feira do Livro de Lisboa - e que chegará às livrarias no dia 13 de Setembro. A propósito de partes, o Observador publica parte de um capítulo no seu site (não percebo bem porquê, mas é apenas para assinantes).

Espero que os leitores do DO e os meus camaradas delituosos encontrem nestas páginas - dos jornais e do livro - algo de interesse.

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 03.09.20

9789897025549_1589818009[1].jpg

 

Livro oito: A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle

Tradução de Ivan Figueiras

Edição Guerra & Paz, 2020

140 páginas

 

Este livro não evita a polémica. Pelo contrário: procura-a. Tem como alvo as teses afrocentristas, em expansão no meio universitário europeu por importação dos EUA, que deixam de conceber a história como uma disciplina social e humana abrangente para a confinar em redutos tribais cada vez mais fragmentados.

O autor tem a vantagem de conhecer bem o tema. Doutorado em História pela Sorbonne e especialista em arqueologia, François-Xavier Fauvelle é professor do College de France, com uma cátedra dedicada à História de África. Considera o afrocentrismo uma corrente ideológica alicerçada no ressentimento. E lavra assim o seu protesto: «Nas transformações identitárias actuais, em que as identidades nacionais se vêem forçadas a ceder um lugar às várias identidades comunitárias ou particularistas, a memória foi posta em leilão.»

A militância afrocentrista contesta a tradição europeia de apontar o Mediterrâneo como berço dos mais relevantes acontecimentos históricos, considerando que tudo quanto de significativo ocorreu no mundo teve origem no continente africano – linguagem, cultura, religiões, civilização. Sócrates pode ter sido negro, Jesus e Buda podem ter sido negros, nada desmente que Cleópatra fosse negra. E do possível logo se passa ao provável. «São ideias de combate» que consumam «uma vingança sobre o Ocidente». Apropriando-se do conceito de raça em proveito próprio. Daqui emerge «uma história romântica e perigosa, em que o espírito de uma nação se confunde com os seus genes». E tudo gira em função do tom da pele. A América foi descoberta por negros muito antes de Cristóvão Colombo, o cristianismo é uma religião de origem afro-egípcia. «Deus é negro», proclamam as franjas mais radicais.

Fauvelle contesta sobretudo a contaminação da academia por estas correntes que abdicam do carácter universal da sabedoria: «Diz-me a tua cor, e eu dir-te-ei o que deves pensar: para os brancos, o “pensamento ocidental”; para os negros, o afrocentrismo.»

Dicotomias deste género, assentes no mais rudimentar maniqueísmo, deram mau resultado noutros tempos e noutras circunstâncias. A história tem tendência a repetir-se quando a memória se relativiza. E torna-se até perigosa ao vermos historiadores colocar mitos no altar dos factos.

 

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 02.09.20

desacordo-ortográfico[1].jpg

 

Livro sete: Acordo Ortográfico - Um Beco com Saída, de Nuno Pacheco

Edição Gradiva, 2019

203 páginas

 

O chamado “Acordo Ortográfico” – concebido pelo Executivo de Cavaco Silva em 1990 e concretizado pelo Governo de José Sócrates em 2008 – instituiu um panorama caótico na expressão escrita. Mas apenas em Portugal: os brasileiros mantêm a ortografia que já cultivavam, Angola e Moçambique nunca reconheceram as alterações e os restantes países de língua oficial portuguesa permanecem indiferentes ao seu conteúdo – espécie de norma às avessas, cheia de “facultatividades” e duplas grafias, à revelia do nosso aparelho vocálico e do étimo das palavras, muitas das quais ficaram desfiguradas e outras irromperam do nada, geradas por aparente delírio.

O AO90, que pretendia «unificar e simplificar» o idioma, sempre encontrou convictos adversários. Incluindo o actual Presidente da República, um dos 900 signatários de um abaixo-assinado anti-acordo que em 1990 congregou os nomes mais prestigiados das nossas letras – entre eles, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, David Mourão-Ferreira, Hélia Correia, Manuel Alegre, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol, Vasco Graça Moura e Mário Cesariny.

O jornalista Nuno Pacheco – co-fundador do Público, de que foi durante largos anos director-adjunto – tem sido um dos mais determinados e esclarecidos opositores ao “desacordo” ortográfico em numerosos artigos de opinião publicados naquele jornal e aqui reunidos, numa sequência cronológica iniciada em 2007 e prolongada até 2019. Artigos que nos fornecem a dimensão exacta deste atentado ao nosso património cultural que muitos brasileiros também rejeitam. «Outra maluquice», comentou Caetano Veloso. «Achei uma bobagem esse negócio da nova ortografia, não faz o menor sentido», observou Nelson Motta. «Sou contra, acho uma burrice», desabafou João Ubaldo Ribeiro.

«O Acordo Ortográfico de 1990 nasceu de um perigoso casamento: o do medo com a mentira», assinala Nuno Pacheco. O pavor de ver surgir uma «língua brasileira» conjugado com a alegação de que o português é a única língua com duas ortografias oficiais. Nada mais errado: o francês tem 15 variantes ortográficas reconhecidas, o espanhol tem 21, o árabe tem 16 e o inglês tem 18.

O desacordo desfigurou ruptura, que os brasileiros continuam a escrever desta forma, instituindo uma rutura a partir do nada. O vulgar interruptor tornou-se interrutor. Ótico (relativo ao aparelho ocular) perdeu o p (usado pelos brasileiros) e ficou igual a ótico (relativo ao aparelho auditivo). Apesar de a optometria ainda ser actividade profissional, tal como arquitectura, que recusa perder o c mandado retirar pela falange acordista. Palavras como recepção e concepção – que mantêm esta grafia no Brasil – passaram a escrever-se aqui receção e conceção – homófonas de recessão e concessão. O que já levou o Supremo Tribunal de Justiça a aludir a um putativo «aviso de recessão» e a Escola Superior de Gestão a pronunciar-se sobre «conceção de créditos». Dois exemplos entre muitas outras aberrações: ninguém se entende nesta balbúrdia.

O caos é tão flagrante que até a Presidência da República, em comunicados oficiais, escreve contato em vez de contacto, porventura convencida de que aquele segundo c que todos pronunciamos devia ser eliminado porque dá jeito sabe-se lá a quem. O que diria Marcelo Rebelo de Sousa, outrora militante anti-AO90, destes disparates hoje cometidos em seu nome?

 

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 01.09.20

image[1].jpg

 

Livro seis: Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal

Edição Assírio & Alvim, 2019

70 páginas

 

Há quem a conheça enquanto excelente declamadora – ou recitadora – de poesia. Mas importa aqui realçar Filipa Leal como um dos mais talentosos nomes da poesia contemporânea em Portugal, de que este livro dá testemunho.

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano estabelece uma ponte entre formas clássicas, de onde a erudição não está ausente, e um coloquialismo que traz impressas marcas do quotidiano, sob este mote: «Não suja as mãos quem suja o poema.»

Estamos perante uma voz original, que transforma episódios pessoais e reminiscências familiares em matéria poética sem permanecer imune ao ruído da rua. São versos percorridos por uma suave ironia autodepreciativa onde se encontram ecos de um O’Neill. Versos que revelam sábia oficina sob a aparência de uma espontaneidade quase desconcertante.

«Alguns ficaram com as minhas partes / piores. Isto é como a divisão do frango / em família numerosa. Faltam coxas para todos. / Isto é como a aprendizagem da generosidade: / o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa, / fazíamos de conta que preferíamos outra coisa / e dávamos as partes melhores aos irmãos.»

Este excerto do poema “A Divisão do Frango” constitui um bom exemplo, tal como os versos iniciais de “Separação Total de Bens”: «Devolveste-me: / as chaves de minha casa; / duas tragédias gregas / que eu tinha deixado na tua mesa de cabeceira.» Ou os versos finais de “Sobre as pessoas que não dão laranjas”: «Não sei distinguir as laranjeiras / quando estão sem laranjas. / O mesmo me acontece com alguns livros / e com algumas pessoas.»

Neste singular cruzamento de temas, há poesia-em-prosa quase política: «O Ceausescu é meu amigo no facebook». Ou quase satírica: «O importante é ter telemóvel, televisão por cabo e internet rápida para, se viveres longe da família, marcares o avião ou o comboio que te levará à casa onde te fazem arroz de polvo e bolo de iogurte.» Ou quase romântica: «Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.»

Mas resistindo incólume às armadilhas do sentimentalismo e sem escorregar para artifícios retóricos. Em novo teste superado com distinção.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 7 de 2018:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Uma História da ETA | Pub

por Diogo Noivo, em 01.09.20

Uma história da ETA.jpg

 

Chegam ao fim dois anos de trabalho nos dois lados da fronteira. Com base em documentação de arquivo - muita dela inédita - e algumas entrevistas, este livro traça a história política da organização terrorista ETA, extinta em 2018. É uma história de nacionalismo, nativismo e violência política. Pelo meio, faz-se a primeira análise sistematizada da presença e relações do terrorismo nacionalista basco em Portugal (1960-2010).

Estará disponível na Feira do Livro de Lisboa no próximo fim-de-semana. E chegará às livrarias de todo o país em meados de Setembro. Até lá, os interessados podem encontrá-lo na página web da editora E-Primatur / Bookbuilders com desconto de pré-lançamento. Darei notícias.

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 31.08.20

250x[1].jpg

 

Livro cinco: Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro

Edição Objectiva, 2018

229 páginas

 

Os erros de escrita – não corrigidos nem sancionados – tornaram-se de uso corrente, até em publicações outrora consideradas de referência. E são cada vez mais raros aqueles que se dão ao incómodo de censurá-los. Desde logo por absoluto desconhecimento da norma, num tempo em que a ignorância impera e até se atreve a ditar sentenças.

Este livro rema contra a corrente, precisamente Por Amor à Língua. Didáctico, sem nunca ser maçador. Acutilante, sem ser arrogante ou presumido. Muita gente deveria tê-lo como obra de cabeceira. Para evitar lapsos lexicais, sintácticos e ortográficos, cada vez mais frequentes.

Manuel Monteiro – escritor e formador na área da revisão de textos – foi anotando, no exercício da sua actividade profissional, algumas falhas mais frequentes, que aqui anota em benefício de todos. O esbanjamento de adjectivos, que devem ser usados com parcimónia. O desgaste do verbo ser – como se não existissem outros. A invasão de pleonasmos (“sorriso nos lábios”, “elo de ligação”, “surpresa inesperada”). O uso e abuso de lugares-comuns. A proliferação de cacofonias (“boca dela”, “fica agora”, “uma mão”). A desmedida multiplicação de pronomes pessoais, possessivos e relativos. O emprego até à náusea de pontos de exclamação e reticências («Um ponto de exclamação é como rires da tua piada», alertava Scott Fitzgerald).

Preservar este secular idioma passa pela revalorização de vocábulos antigos e pelo combate ao portinglês que nos invade, mesmo quando surge disfarçado de português (é o caso do anglicismo “evento”, hoje omnipresente). E por darmos luta sem tréguas ao chamado “acordo ortográfico”, que separou famílias lexicais (lácteo mas laticínio, epilético mas epilepsia, tato mas táctil), inventou termos aberrantes (como corréu em vez de co-réu ou conavegador em vez de co-navegador) e substituiu a regra pelo arbítrio (materno-infantil coexiste com infantojuvenil, bissetriz com trissectriz, cor-de-rosa com cor de laranja).

«Evitamos assim que a nossa escrita se junte à massa indistinta de fotocópias de fotocópias de fotocópias», preservando a memória das palavras e resistindo à uniformização, conclui Manuel Monteiro. É uma boa causa: a língua portuguesa merece.

 

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

 

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 30.08.20

250x[1].jpg

 

Livro quatro: Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo

Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020

67 páginas

 

Fala-se pouco ou nada disto por cá. Dos Alcoólicos Anónimos (AA), movimento iniciado em 1935 nos EUA e hoje com implantação em 175 países. Um deles é Portugal.

João Tordo, romancista, surge aqui como repórter. Bem preparado, bem municiado dos testemunhos concretos de pessoas que largaram tudo para saciar o vício até à última gota. Neste caso não apenas o álcool: também drogas diversas, que as levaram aos Narcóticos Anónimos, similar à pioneira.

Com técnica de ficcionista adaptada à reportagem, Tordo alterna esta impressionante sucessão de depoimentos com a descrição do percurso nada linear do fundador dos AA, Bill Wilson, cujo nome – em estrito respeito à regra do anonimato ali vigente – só foi tornado público quando morreu, em Janeiro de 1971, com 75 anos.

Wilson concebeu um «percurso espiritual» em 12 passos para os alcoólicos em recuperação. Na certeza antecipada de se tratar de uma patologia crónica. Só rotulada assim pela Organização Mundial de Saúde a partir dos anos 60.

Eis o primeiro passo: «Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que as nossas vidas se tinham tornado ingovernáveis.» A partilha do problema com outros, em reuniões periódicas e muito discretas, tornou-se método terapêutico. Baseado no lema «viver um dia de cada vez». E reconhecendo o alcoolismo «como doença do corpo e do espírito, e não fracasso moral».

Milhões de alcoólicos (entre 8% e 12% da população mundial) passaram a ter a certeza de que alguém, algures, lhes daria acolhimento. “Desistir” tornou-se palavra proibida.

Portugal, nesta matéria, está longe do drama dos EUA, onde morrem cem mil pessoas por ano devido ao alcoolismo. Mas, entre nós, «a prevalência do consumo de qualquer bebida alcoólica [é] das mais elevadas a nível europeu – 88% ao longo da vida, 83% nos últimos 12 meses».

Em boa hora João Tordo lança o alerta. Sem confundir esclarecimento sereno com sermão. Esta obra confirma: um viciado em álcool ou drogas tem hoje a certeza de encontrar uma porta aberta – e alguém a esperar ali por ele. Na esperança sempre renovada de que o adicto de ontem possa estar amanhã a receber outros no limiar da mesma porta.

 

Sugestão 4 de 2016:

Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)

Sugestão 4 de 2017:

Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)

Sugestão 4 de 2018:

Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)

Sugestão 4 de 2019:

Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 29.08.20

250x[1].jpg

 

Livro três: ABC da Tradução, de Marco Neves

Edição Guerra & Paz, 2020

106 páginas

 

Há muitas ideias feitas sobre a tradução – quase todas profundamente erradas. Não falta quem acredite ser tarefa ao alcance de qualquer pessoa versada num idioma estrangeiro, munida da primeira ferramenta digital que lhe apareça sob a designação de dicionário. E há até quem julgue tratar-se de ofício condenado à extinção face à galopante progressão desse esperanto dos nossos dias chamado inglês.

Marco Neves – tradutor, revisor, professor de Prática da Tradução na Universidade Nova de Lisboa – escreveu este livro para desfazer tais equívocos. Ao contrário do que muitos supõem, nunca a tradução foi tão procurada. Para os mais diversos efeitos: legislação, investimento empresarial, consumo, lazer. «Todos usamos traduções todos os dias (talvez mesmo todas as horas).»

Com linguagem escorreita e acessível, o autor desmonta outros mitos: o de que existem palavras ou expressões intraduzíveis (incluindo a nossa saudade); o de que traduzir é substituir palavras de uma língua para outra, quando o que se exige é «recriar frases e textos»; o de que legendar um filme se faz num ápice (pelo contrário, «demora muito mais do que a duração do próprio filme»).

É útil sabermos estas coisas. Para darmos valor a uma actividade profissional quase sempre invisível, exercida na solidão e muitas vezes no anonimato, mesmo tendo sido praticada por nomes ilustres. Como Eça, que traduziu As Minas de Salomão, de H. Rider Haggard, ou Blaise Cendrars, que popularizou em França - numa tradução ainda hoje elogiada - A Selva, de Ferreira de Castro.

Vale o esforço? Claro que sim. A nossa vida seria impensável sem estes «operários das palavras» que traduzem «livros, séries, documentários, notificações, manuais, artigos científicos, programas de computador, aplicações de telemóvel, sistemas de GPS, mensagens encontradas pela Polícia Judiciária». Fica a sugestão: visitemos os bastidores desta actividade intelectual que verte para outro idioma tudo quanto possamos imaginar – de um manual de instruções a um relatório secreto, de um romance policial a um catálogo de máquinas de café. Cientes de que «a tradução é mesmo a arte da aproximação entre culturas». E desengane-se quem pensar que é fácil. Porque não é.

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)

Sugestão 3 de 2018:

Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

Sugestão 3 de 2019:

Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)

 

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 28.08.20

500x[1].jpg

 

Livro dois: Três Retratos - Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto

Edição Relógio d' Água, 2020

213 páginas

 

António Barreto destaca três figuras que deixaram marca no século XX português e justifica os motivos desta escolha em sucessivos blocos ensaísticos que nunca fogem da polémica. Os eleitos são António de Oliveira Salazar (1889-1970), Álvaro Cunhal (1913-2005) e Mário Soares (1924-2017). O primeiro, porque concentrou o poder quase absoluto durante quatro décadas consecutivas, moldando o País à sua vontade. O segundo, porque manteve o PCP durante meio século sob rígido controlo, impondo-lhe uma marca muito pessoal. O terceiro, porque rivalizou com o segundo na oposição ao salazarismo, sem destronar a hegemonia comunista neste combate mas vencendo-o no turbulento processo revolucionário pós-25 de Abril: protagonista no lançamento dos alicerces da democracia política em Portugal, foi primeiro-ministro e Presidente da República. «Estes três políticos viveram uns dos outros, porque viveram uns contra os outros.»

Não são olhares isentos nem descomprometidos. Barreto detesta Salazar e Cunhal, mantendo um indisfarçável apreço por Soares, com quem trabalhou como ministro no primeiro Governo Constitucional, e pertenceu ao núcleo central da sua campanha presidencial, em 1985.

As palavras mais agrestes estão reservadas ao antigo chefe do Governo e ao dirigente histórico comunista. Barreto, aliás, equipara-os em várias características: «Invulgarmente inteligentes, parece que detestavam os medíocres, mas estes foram-lhes indispensáveis. (…) O essencial, para ambos, era o seu próprio poder.» Mas nem Soares escapa ao crivo crítico do autor. No último capítulo, reservado ao fundador do PS, elege-o como herói da contra-revolução vitoriosa em 1976, mas critica-o na descolonização com a sua escrita acutilante que nunca perde elegância formal: «Queria simplesmente ver-se livre de África.» Em 1974 e 1975, sublinha, «os portugueses não negociaram coisa nenhuma, cederam, assinaram e vieram embora». Soares, ministro à época, viverá mal com esta memória até ao fim. Barreto testemunhou e cá está, felizmente, para nos lembrar.

 

Sugestão 2 de 2016:

Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2017:

Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)

Sugestão 2 de 2018:

Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d' Água)

Sugestão 2 de 2019:

A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 27.08.20

x9789722070676_1593790484.jpg.pagespeed.ic.aPl48RN

 

Livro um: As Sílabas de Amália, de Manuel Alegre

Edição D. Quixote, 2020

63 páginas

 

Em ano de centenário do nascimento de Amália Rodrigues, Manuel Alegre presta tributo à inigualável cantora que levou as três sílabas de Portugal aos quatro cantos do mundo. Reunindo aqui os seus poemas que Amália tão bem cantou na década de 70 e outros que ele foi compondo em tempos posteriores, com a intérprete de Fado Português como fonte explícita de inspiração.

É um «livrinho» - assim lhe chama o autor no prefácio. Em número de páginas, na verdade, sabe a pouco: apetecia-nos mais. Mas pressinto que Alegre usa o termo sobretudo na acepção carinhosa de um pai incapaz de enjeitar um novo filho, mesmo quando já tem a descendência mais que assegurada. E é também um diminutivo que rima com os «versinhos» mencionados por Amália, aludindo à sua própria condição de letrista - iniciada com Estranha Forma de Vida, tão marcante no reportório e no imaginário amaliano.

«A sua maneira de cantar dava outra dimensão a cada verso e fazia da própria língua uma música inconfundível. Ela sabia dizer cada palavra e, quando cantava, nem uma sílaba se perdia», assinala Alegre no sucinto mas emocionado texto introdutório deste opúsculo dividido em quatro partes: "As Sílabas de Amália" (com duas homenagens em forma de poema, uma das quais inédita); "Quatro Poemas Cantados por Amália com Música de Alain Oulman" (incluindo o popular Meu Amor é Marinheiro, que viria a ser gravado em 1997 por Maria Bethânia, e uma versão alternativa da Trova do Vento que Passa, antes popularizada na voz de Adriano Correia de Oliveira); "Teoria do Fado" (com dois inéditos); e "Eu Queria Dar-te um Fado" (que inclui o poema Lisboa Ainda, escrito já durante o surto pandémico, quando o País se encontrava em estado de emergência).

Lê-se num ápice. Mas o mais importante é o que fica depois, a vibrar-nos na memória e a interpelar-nos as raízes. Um sentimento que Alegre tão bem traduz nestes versos (de Teoria do Fado): «É um íntimo tremor obscuro impulso / que devagar aperta na garganta / pulsa no coração bate no pulso / e é por isso que dói quando se canta.»

 

Sugestão 1 de 2016:

O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)

Sugestão 1 de 2017:

A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)

Sugestão 1 de 2018:

Delito de Opinião, de vários autores (Bookbuilders)

Sugestão 1 de 2019:

O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote)

Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

20190605_202614.jpg

 

A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.

Postais da Feira (2)

por Pedro Correia, em 14.06.19

20190612_202755-1.jpg

 

O livro do DELITO DE OPINIÃO em destaque no pavilhão da E-primatur - uma das chancelas editoriais com melhores capas no mercado livreiro português.

Estamos muito bem acompanhados, tendo por perto o icónico Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins.

 

20190605_193855.jpg

 

Política de A a Z, livro de que sou co-autor, à disposição do público no vasto quadrilátero do grupo Porto Editora. Tendo como vizinho, no andar de cima, um dos volumes de Álvaro Cunhal biografado por José Pacheco Pereira.

Hoje o tempo está enevoado, mas o sol brilhará para todos nós.

 

20190605_210720-1.jpg

 

Ainda no espaço da Porto Editora, o meu livro 2017 - As Frases do Ano, com chancela da Contraponto.

Deixo a fotografia só como forma de publicidade gratuita ao imprescindível Amar Depois de Amar-te, da Fátima Lopes, que está por cima, e ao imperdível Também Há Finais Felizes, da Fernanda Serrano, que está por baixo.

Salvo seja.

Memórias de Dona Teresa

por Cristina Torrão, em 10.06.19

Estamos em tempo de Feira do Livro de Lisboa. Poucos momentos haverá, em Portugal, em que se vendam tantos livros (talvez este seja mesmo único). Aproveito, assim, para fazer um pouco de publicidade ao meu romance histórico sobre Dona Teresa, já que muito poucos sabem da sua existência.

Os leitores deste blogue que ficaram curiosos podem perguntar pelas "Memórias de Dona Teresa" nos Pavilhões onde se encontra representada a distribuidora Companhia das Artes (Pavilhões A45-A47). E não se deixem desencorajar, se quem lá estiver a servir o público diga que não conhece o livro. Insistam para que o procurem!

Memorias de Dona Teresa.jpg

«Fernando [Peres de Trava] possuía o condão de me fazer acreditar que podíamos desafiar as leis mais sagradas, como se possuíssemos feitiço que nos permitia inverter o mundo e nos fosse possível caminhar sobre o tecto, enquanto todos os outros continuavam agarrados ao chão, o que nos dava a embriagante sensação de sermos os únicos sábios num mundo de ignorantes.»

Postais da Feira (1)

por Pedro Correia, em 08.06.19

thumbnail_20190605_213957-1[1].jpg

 

Mais acolhedora que nunca, excepto quando atravessamos o espaço Leya, rodeado de sensores que desatam a apitar à entrada e à saída já sem quase ninguém fazer caso. Prefiro sempre demorar-me pelos pequenos pavilhões, onde há menos aglomeração, muito menos "celebridades" e nula poluição sonora. Ali tratam os livros com justificada veneração e não como simples mercadoria.

Uma dessas tendinhas, a velha Minerva, tem um escaparate que me parece igual ao de décadas atrás, quando comecei a frequentar a Feira do Livro de Lisboa - então ainda com poiso na Avenida da Liberdade. Trago de lá O Homem do Braço de Ouro, de Nelson Algren - o romance que originou o célebre filme homónimo de Otto Preminger, protagonizado por Frank Sinatra. Literalmente em estado novo: tem as páginas por cortar.

«Dantes os livros eram assim para as pessoas ficarem com a certeza de que ainda não tinham sido lidos por ninguém», explica-me o senhor do pavilhão. Eu sorrio, por julgá-lo realmente convencido de que estava a dar-me uma novidade.

 

Fátima Lopes, a vedeta da televisão, exibe um magnífico bronzeado para impressionar basbaques que a apontam a dedo. Daniel Sampaio fala de psicologia infantil para um auditório muito atento. Jorge Silva Melo lê poemas de Sophia. Demoro-me a escutá-lo, com um fascínio antigo em dose dupla: por estes versos tocados de beleza intemporal e pela arte da declamação, apenas ao alcance de alguns eleitos.

Na primeira fila da assistência, Maria, filha mais velha da autora do vibrante Livro Sexto.  Folheei há dias uma biografia recém-surgida de Sophia, escrita em acordês e com pelo menos um erro de datação que logo detectei numa legenda. A biógrafa chama-lhe, cansativamente, «a poeta». Indigno-me com este absurdo banimento da palavra poetisa - sempre a associei a pitonisa - que alguns adoptaram, correndo desenfreados atrás da norma brasileira.

 

Este ano, na Feira, anda tudo muito "biológico" e "natural". Sugerem-me um copinho de chá gelado, infusão de ervas com "limão da Sicília" que acho refrescante. Mais adiante, um pacotinho com quatro cenouras, para roer, à Bugs Bunny: «Faz-lhe bem», garante-me a morena de sorriso rasgado. A avaliar por ela, deve fartar-se de comer cenoura.

O calor aperta, a sede desperta. Duas donzelas ali postas em desassossego queixam-se da «falta de consciência ambiental» da Câmara de Lisboa, que autoriza a venda ao público de água em garrafas de plástico. É a fruta da época: há dois anos andava tudo aos berros contra o eucalipto, este ano berra-se desalmadamente contra o plástico.

A meia-dúzia de passos há um bebedouro, daqueles antigos: dá-se à manivela e jorra água, fresca e reconfortante. Bebo com gosto e, tendo-lhes ouvido os insistentes queixumes, sugiro às donzelas esta tradicional maneira de matar a sede. Rejeitam, desdenhosas: «Água da torneira, nem pensar.» Volto a sorrir: eis desvendada a genuína «consciência ambiental» destas betinhas, prováveis votantes do PAN.

 

E o que trago de três incursões já consumadas às alamedas do Parque?

Um Amor Feliz, romance único de David Mourão-Ferreira, autor que hoje só encontramos entre alfarrábios: foi banido, tal como a bela palavra poetisa. Como sucedeu com outros escritores de vetusta nomeada: basta lembrar Luís de Sttau Monteiro, que desapareceu das estantes, talvez por ser politicamente incorrecto, sujeito ao apertado crivo do cânone actual.

Romances para ler não apenas nas férias que se aproximam mas durante o ano inteiro: Oficiais e Cavalheiros, de Evelyn Waugh; O Outro Eu, de Daphne du Maurier; Passa Lá um Rio, de Norman Maclean; Arquipélago, do Joel Neto (que está a dever-me um texto para o DELITO). Teatro: Pigmalião, de George Bernard Shaw. Poesia: Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal, que não se limita a escrever bem - é também uma excelente declamadora. Crónicas de Jorge Silva Melo (coincidência) reunidas na Cotovia sob um título feliz: A Mesa Está Posta. Espero que me dêem tanto prazer como me deu uma anterior recolha de textos dele, com a mesma chancela editorial: Século Passado.

Escrever bem, para mim, é isto.

 

Trago ainda, quase com júbilo clandestino, A Torre da Barbela, de Ruben A - outro autor que parece proscrito nestes dias em que meio mundo anda a roer cenouras biológicas, come "hamburgers" veganos, faz odes de louvor ao tofu e sorve infusões - mas sem a temível palhinha, também quase em vias de interdição.

Regresso do Parque Eduardo VII com uma mochila cheia de livros. E esta dúvida existencial: porque chamaremos "palhinha" a algo que não é feito de palha? Soa-me a burrice, mas nesta era de fervor animalista soa mal atribuir conotações depreciativas à bicharada. Se calhar até já com direito a coima. Vou calar-me: assim evito fazer figura de urso.

Feira do Livro: nove sugestões

por Pedro Correia, em 01.06.19

21118845_zicvp.jpeg

 

1. O FUNDO DA GAVETA, Vasco Pulido Valente

«Um título com sentido duplo: não apenas alude ao facto de incluir dois ensaios, escritos desde 1989 e até hoje inéditos, mas funciona também como metáfora de um certo destino português.»

 

21155059_ofOD9.jpeg

 

2. A LÍNGUA RESGATADA, Elias Canetti

«O centro do mundo visto pelo olhar de uma criança tornada adolescente com maturidade precoce: assim pode ser resumida esta envolvente autobiografia, inicialmente publicada em 1977.»

 

21217307_TZkuu.jpeg

 

3. LÁ FORA, Pedro Mexia

«Mexia tem características inconfundíveis: uma irrepreensível elegância formal, sem concessões aos coloquialismos de turno; uma erudição que jamais se confunde com exibicionismo; um olhar interessado e atento ao “desconcerto do mundo”.»

 

21251947_BFoKa.jpeg

 

4. DOIS PAÍSES, UM SISTEMA, Rui Ramos e outros

«Fascinante digressão por essas décadas irrepetíveis da monarquia constitucional, iniciada na década de 20 do século XIX, com a revolução liberal do Porto, e só terminada em 1910, quando o último Rei português, D. Manuel II, foi deposto pela insurreição republicana.»

 

21319385_GzYIn.jpeg

 

5. JÚLIO DE MELO FOGAÇA, Adelino Cunha

«Quando saiu enfim em liberdade, quatro anos antes da Revolução dos Cravos, estava alquebrado pela velhice prematura e pela exclusão política e social. Perdera o PCP, sua família de substituição.»

 

21361963_1vvRY.jpeg

 

6. COMO SER UM CONSERVADOR, Roger Scruton

«Ser conservador é, essencialmente, um estado de espírito. Impulsionado pelo nosso instinto de preservação e alicerçado na convicção de que é inútil dissipar energias na mudança do que funciona bem. Que é quase sempre mais do que parece.»

 

21391489_S8Ces.jpeg

 

7. UM FUTURO DE FÉ, Papa Francisco

«Revela-nos um Papa que na Argentina natal sentiu necessidade de fazer psicanálise. Que fala de Platão, Hegel e Dostoievski. Que menciona filmes como Tempos Modernos e A Festa de Babette. Que se comove ao ver o quadro A Conversão de São Francisco, de Caravaggio.»

 

21451200_V3qkv.jpeg

 

8. PORTUGAL CONTEMPORÂNEO, Oliveira Martins

«É um monumento, equivalente naquilo que hoje se convencionou chamar escrita de “não-ficção” a esse ponto cimeiro do romance intitulado Os Maias. Não por acaso, Joaquim Pedro Oliveira Martins e Eça de Queiroz eram amigos, companheiros de geração e de múltiplas tertúlias (sob o lema Vencidos da Vida), além de cúmplices no essencial das ideias.»

 

21187569_D3ZtB.jpeg

 

9. LA LLAMADA DE LA TRIBU, Mario Vargas Llosa

«Afastado das cartilhas que o empolgaram na juventude, Vargas Llosa insurge-se hoje contra a ascensão – com novo nomes – do velho "espírito tribal, fonte do nacionalismo", que foi, a par do fanatismo religioso, uma das causas dos mais sangrentos morticínios que a História registou.»

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 11.06.18

images[1].jpg

 

Livro dez: Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias

Edição D. Quixote, 2018

287 páginas

 

Num país onde é cada vez mais invulgar a edição de livros sobre filmes, esta excepção à regra já seria uma boa notícia. Acontece que se trata de um excelente guia sobre cem longas-metragens estreadas no século XXI, o que reforça a satisfação do leitor cinéfilo. Mais: é uma obra muito bem escrita, com rara elegância e atenção aos detalhes, ainda por cima sem mutilar consoantes - justificando destaque também por isso.

Joana Amaral Dias gosta de cinema, tem uma vasta cultura fílmica e fornece-nos peculiares pistas de análise, reforçando-nos a vontade de ver ou rever cada película aqui destacada. São de géneros muito diferentes, das mais diversas origens, e ultrapassam largamente os chamados blockbusters que hoje quase monopolizam as atenções daquilo a que antes costumávamos chamar crítica mas que há muito se rendeu à pressão publicitária.

Psicóloga de profissão, a autora recorre com frequência à bagagem científica para conferir um toque adicional de originalidade à sua visão cinéfila, aqui repartida por dez capítulos temáticos: "O cinema de guerra, terror e dor"; "Amar no século XXI: bebés, vampiros & lagostas"; "Seja um animal & prove que não é um robô"; "Filmes falantes - o cinema do século XXI sobre o século XX"; "Crise e a cultura maníaca do novo milénio"; "Apocalipses, distopias, super-heróis & muitos zombies"; "Politicamente insurrectos - clichês, estereótipos e linguagem"; "Os media têm efeitos especiais?"; "Cinema sonho" e "Terá o cinema um final feliz? O cinema, as outras artes e o século XXII".

Por aqui passam, naturalmente, vários filmes da minha vida. E das vidas de tantos de nós. Cito alguns: Disponível Para Amar, Fala Com Ela, Cidade de Deus, Antes que o Diabo Saiba que Morreste, Estado de Guerra, A Troca, Amor, Nebraska, Birdman, Manchester by the Sea

«Pensar os filmes é ganhar perspectiva sobre as pessoas e a sociedade. Os filmes são janelas, janelas espelhadas sobre e da comunidade, que permitem olhá-la mas, simultaneamente, reflectem-na. Reflectem-nos.» Palavras de Joana Amaral Dias na introdução àquilo a que chama o seu "quarto escuro".

Poucas vezes uma escuridão nos terá iluminado tanto.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

 

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 09.06.18

250x[1].jpg

 

Livro nove: Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla

Edição Sibila, 2017

236 páginas

 

É um erro remetermos a prosa jornalística para a gaveta dos textos efémeros. Desde logo porque o jornalismo é «o primeiro rascunho da História», na certeira definição de um antigo director da revista Time, Phil Graham. E também porque alguns dos maiores escritores de sempre passaram pelo jornalismo e deveram a esta aprendizagem da «mais bela profissão do mundo», como dizia Albert Camus, muito do que lhes viria a ser útil nos seus livros - desde a técnica de escrita à consolidação das rotinas de trabalho, passando pelo indispensável olhar atento à realidade circundante. Gigantes da literatura como Balzac, Poe, Dickens, Twain, Eça, Chesterton, Hemingway, Orwell, Greene, García Márquez, Vargas Llosa e o próprio Camus experimentaram o jornalismo profissional antes de se consagrarem em exclusivo à escrita literária.

Os melhores textos jornalísticos sobrevivem largamente à circunstância que os viu nascer. Textos de Nelson Rodrigues ou Luís Fernando Veríssimo no Brasil, de Rosa Montero ou Manuel Vásquez Montalbán em Espanha, de Rodrigues Miguéis ou José Saramago em Portugal.

Pensei nisto enquanto lia uma das mais surpreendentes obras que me passou pelas mãos nos últimos meses - precisamente uma recolha de textos jornalísticos de Maria Antónia Palla, quase todos publicados na extinta revista O Século Ilustrado, de excelente memória. Aqui pulsa o quotidiano amargo de um certo Portugal que tende a eternizar-se, onde a compaixão pelos mais fracos e pelos que mais sofrem é genuína e não postiça, onde uma era que ainda muitos de nós vivemos ressurge documentada em carne viva.

É um conjunto de reportagens publicadas entre 1970 e 1979, reunidas originalmente em livro pela Bertrand em 1979 e em boa hora relançadas, numa nova chancela editorial que junta dois textos inéditos, escritos em datas posteriores, e conta com um bom prefácio de Helena Matos, que nos chama a atenção para o facto de estas histórias de violência serem protagonizadas ou sofridas por mulheres, jovens e crianças. Num evidente desmentido à falácia dos "brandos costumes" que supostamente nos caracterizam.

Cada texto é uma espécie de murro no estômago do leitor - testemunho de época, num país em que perduravam fortíssimas marcas rurais, a pobreza era endémica e a guerra em África ainda se divisava no horizonte. Mas é também um alerta para situações que não pertencem apenas ao passado. A menina que desapareceu e é encontrada dias depois, num silvado, com sinais de ter sido assassinada. A idosa violentada por um rapazola alcoolizado. O jovem homossexual algarvio que se terá suicidado numa prisão de Huelva. A filha de uma prostituta morta à patada pelo companheiro da própria mãe. A rapariga abandonada que asfixia o bebé que acabara de dar à luz.

Retalhos de um país sombrio, em perfeito contraste com as vidas bonitas e esplendorosas que costumam fazer manchetes. Ao contrário do que Chico Buarque canta, aqui a dor da gente saiu mesmo no jornal. Agora regressa já como literatura. Vai perdurar, estou certo disso.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

 

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D