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Delito de Opinião

Feira do Livro de Lisboa, edição 2025

Pedro Correia, 27.06.25

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A história repete-se. Vou à Feira do Livro apenas com a intenção de espreitar escaparates de alfarrabistas e "passar em revista" os pavilhões das editoras a que me ligam laços afectivos - Guerra & Paz, E-primatur, Contraponto. 

Como compro livros durante o ano inteiro, digo sempre para mim mesmo, a cada Feira que passa: «Desta vez é só para ver.» 

Puro engano: continuo a vir de lá com a mochila cheia. Tendo a sorte de receber também livros oferecidos por pessoas que me são mais próximas. Gosto que me ofereçam livros, tal como gosto de os oferecer. Faz parte dos salutares rituais da vida.

Deixo aqui a colheita deste ano. (Como foi a vossa?)

Para mais tarde recordar, certamente com um doce travo de nostalgia.

 

ADENDA:

Sobre dois destes livros já escrevi aqui: História de um Homem Comum (George Orwell) e Visitar Amigos (Luísa Costa Gomes).

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 21.06.25

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Livro dez: A Neve Estava Suja, de Georges Simenon

Edição Cavalo de Ferro, 2025

257 páginas

 

Surpreendente romance existencial de Georges Simenon ambientado durante a expansão nazi na Europa, em país ou região nunca expressamente mencionados – talvez na Flandres Oriental, numa vila afastada do oceano, atmosfera alegórica mesclada com o real. Onde nada é o que parece, sob o primado do medo. Onde todos suspeitam de todos. Onde ninguém, no fundo, pode reclamar inocência. Onde não sobra uma alma sem parcela de culpa para expiar. Onde cada pecado individual ganha dimensão colectiva. 

«Há muita gente a fazer um jogo duplo. Fuzilaram um que todos os dias era visto na companhia de oficiais superiores, e era tão conhecido que as crianças cuspiam na calçada quando ele passava. Agora, afirma-se que era um herói» (p. 65, tradução de Diogo Paiva).

O prolífico escritor belga escreveu-o longe dali, no seu voluntário exílio de Tucson, sudoeste dos Estados Unidos, onde se instalou depois da guerra. Não podia haver maior contraste climático entre as viscosas brumas da noite flamenga e a secura poeirenta do Arizona.

 

Esta “neve suja” simboliza a corrupção moral e política, irmãs siamesas. Ideias e escrita estão ao nível d’ O Estrangeiro, de Albert Camus, surgido seis anos antes, em 1942. Dois romances marcados pelo mesmo estigma do homicídio gratuito: quem prime o gatilho situa-se para além do bem e do mal. Mas enquanto Mersault mata por impulso na praia alegando súbita cegueira devido ao excesso de sol, o Fred Friedmaier de Simenon chega aos 19 anos sem jamais ter visto o mar e torna-se assassino com premeditação, instigado pelas trevas neste romance que decorre num Inverno que parece interminável. Quase todos os verbos estão no presente do indicativo, indiciando que o pesadelo pode perpetuar-se. Impossível restituir a neve à pureza original.

«Porque é que essas pessoas o haveriam de executar? Ele não lhes fez nada. Na verdade, abatem sobretudo aqueles que, de entre os seus, os traem, e Frank não pode traí-los, visto que os não conhece. É certo que o desprezam. Mas, tal como a sua mãe, tem muito mais a temer da cólera dos vizinhos, que se baseia em inveja, que não é senão um assunto de carvão, roupas quentes e provisões» (p. 141).

 

É possível aprender como se escreve ficção de qualidade lendo com a indispensável atenção livros como este não-policial de Simenon. A Neve Estava Suja é um dos seus 117 «romances duros» - ou negros ou psicológicos – publicados entre 1931 e 1972. Dois agora disponíveis em Portugal nesta nova série da Cavalo de Ferro. 

O criador de Maigret tinha como lema «escrever é cortar». Notável economia de meios, acentuando a tensão dramática. 

Hoje, pelo contrário, vai sendo rara a obra literária com menos de 400 ou 500 páginas. Também na literatura portuguesa. Gente que gasta cada vez mais palavras para dizer cada vez menos.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz (Cavalo de Ferro)

Sugestão 10 de 2021:

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China)

Sugestão 10 de 2022:

De Quase Nada a Quase Rei, de Pedro Sena-Lino (Contraponto)

Sugestão 10 de 2023:

Perseguição, de Jorge de Sena (Assírio & Alvim)

Sugestão 10 de 2024:

O Príncipe da Democracia, de Nuno Gonçalo Poças (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 20.06.25

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Livro nove: Visitar Amigos e Outros Contos, de Luísa Costa Gomes

Edição D. Quixote, 2024

227 páginas

 

É, sem favor, um dos melhores livros de contos surgidos em Portugal nos últimos anos. Não por falta de concorrência: temos excelentes praticantes deste género literário, felizmente ressurgido após anos de incompreensível queda na hierarquia do gosto dominante, sempre tão volúvel.

Luísa Costa Gomes tem vasta experiência nesta área, iniciada como autora em 1981, ao publicar Treze Contos de Sobressalto. Distinguiu-se como directora de Ficções, revista especializada na divulgação de contos. De temática variada, sem regras nem dogmas, excepto a adesão ao formato curto.

Visitar Amigos e Outros Contos reúne 13 histórias de âmbito muito diverso com linguagem camaleónica, apropriada a cada relato ficcional, designadamente à época e ao local em que se situam. Há inegável experiência oficinal neste acto de moldar palavras e inseri-las com exactidão no contexto adequado, em espaço estreito. Pode parecer simples, mas poucos conseguem cultivar esta técnica com tanto esmero.

Veredicto sem hesitação: alguns destes contos justificarão lugar cativo em futuras antologias do género. Logo o primeiro, “A Ditadura do Proletariado”, prodigiosa alegoria de revoluções falhadas a propósito de banais obras numa vivenda. “O Menino-Prodígio”, voo rasante sobre a atmosfera social e política nos anos crepusculares do chamado Estado Novo. “O Bem de Todos”, assumido pastiche do imaginário neo-realista. “As Estrelas”, tocante parábola sobre a culpa e o perdão. “Impaciência”, sobre os labirintos da solidão neste mundo juncado de medos apocalípticos.

Sem mutilar consoantes, a escritora recorre alternadamente a códigos linguísticos hoje em voga ou a chavões de outras eras, recuperados com intenção precisa. E subtil vénia literária a autores tão diversos como Agustina Bessa-Luís na criação de certas atmosferas femininas (“Cabeça Falante”; “o Lenço de Seda Italiano”), Mário de Carvalho na proliferação de neologismos e na ironia por vezes cáustica ou José Cardoso Pires na música da escrita (patente em “Rotas”, diálogo telefónico que encerra o livro, subtil evocação de “Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros”, obra-prima do conto português).

Somados aos restantes méritos, detecta-se aqui o mais louvável de todos: a paixão de narrar histórias.

Repare-se no início de “Património”: «Na Primavera dos seus quarenta e um anos, saindo de um duche frio, Félix teve a consciência de que nunca por nunca viria a ser rico.» Ou nas primeiras linhas d’ “O Menino-Prodígio”: «Ele vivia com a mãe e uma criada velha e escrevia livro atrás de livro numa salinha com vista para um jardim chuvoso conhecido como “o escritório do menino”. (…) Era sobretudo romance histórico, mas não se acanhava da poesia, drama, ficção científica. Nunca lhe veio à cabeça publicar. Ninguém o lia, só ele, com um prazer a roçar o criminoso.»

Assim se dignifica uma nobre arte: a de seduzir o leitor. Ao contrário do protagonista da sua história, repassada de sarcasmo, Luísa Costa Gomes não escreve para a gaveta. Todos ganhamos com isso.

 

  Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review, (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Sugestão 9 de 2020:

Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)

Sugestão 9 de 2021:

Woke - Um Guia para a Justiça Social, de Titania McGrath (Guerra & Paz)

Sugestão 9 de 2022:

Carta à Geração que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann (Guerra & Paz)

Sugestão 9 de 2023:

A Vida por Escrito, de Ruy Castro (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2024:

Por Amor à Língua e à Literatura, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 19.06.25

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Livro oito: Stoner, de John Williams

Edição D. Quixote, 2023 (9.ª edição)

263 páginas

 

Pode um romance sobre um obscuro professor numa universidade de província, situada nos confins dos Estados Unidos, tocar-nos ao ponto de vislumbrarmos nele um fascinante painel sobre as diversas estações da vida, a ilusão do sucesso, a fragilidade do amor e o peso quase insuportável da solidão?

Resposta positiva. De tudo isto fala Stoner, terceira e penúltima obra de ficção que nos legou John Edward Williams (1922-1994), docente universitário quase tão discreto como o William Stoner deste livro, publicado inicialmente em 1965. Dele pouco se ouviu falar na altura: vendeu apenas dois mil exemplares e recebeu uma curta resenha na revista The New Yorker. Depois eclipsou-se por quatro décadas.

Viria a ser resgatado graças a um artigo elogioso do escritor irlandês Colum McCann no Guardian em 2006, definindo-o deste modo lapidar: «É um dos grandes romances esquecidos do século passado.» Depois por iniciativa da novelista parisiense Anna Gavalda, que em 2011 traduziu Stoner para francês. Produziu-se então um efeito de contágio que Williams já não pôde testemunhar: tornou-se celebridade póstuma.

«Romance formidável, de uma latejante tristeza», adjectivou Julian Barnes. «Magnificamente escrito, em prosa simples mas brilhante», realçou Ruth Rendell. «Não percebo como é que um romance tão bom passou despercebido tanto tempo», interrogou-se Ian McEwan. «Quase perfeito», sentenciou Bret Easton Ellis.

 

Ninguém exagera. E, no entanto, dir-se-ia que toda a informação relevante se esgota nas onze linhas do parágrafo inicial, sinopse dos dados biográficos de Stoner, nascido em 1891 e falecido em 1956 após uma carreira dedicada em exclusivo à universidade local, onde leccionou literatura inglesa. De permeio houve duas guerras mundiais, mas delas só lhe chegaram ecos distantes. Caiu a bolsa em 1929, o país afundou-se na depressão, mas passou-lhe quase ao lado.

Emoções fortes? Nem por isso. «Era como se, aos poucos, a sua mente se esvaziasse de tudo o que sabia e a força se lhe esvaísse da vontade. Por vezes, sentia-se como uma espécie de vegetal e ansiava por qualquer coisa – nem que fosse a dor – que o trespassasse, que o insuflasse de vida» (p. 164, tradução de Tânia Ganho).

Um narrador omnisciente, senhor absoluto do tempo e do espaço, conduz-nos pela juventude, maturidade e velhice do protagonista, filho único de um casal de humildes camponeses do Missouri. Estuda, trabalha, constitui família. Um homem como qualquer outro, envolto na banalidade do quotidiano. 

Quase sem rasto de alegria exuberante, quase sem vestígio de tristeza insuperável. No próprio casamento: «Tinham chegado àquele ponto da sua vida juntos em que raramente falavam de si próprios ou um do outro, para não quebrarem o delicado equilíbrio que tornava essa vida possível» (p. 110).

A escrita linear, a clareza discursiva, os diálogos sincopados e a simplicidade do enredo tornam-se aqui, no entanto, prodigiosos ingredientes ficcionais. Chaves que nos ajudam a decifrar a natureza humana.

Pequeno mundo singelo na aparência. Mas parcela ínfima em comparação com o que permanece soterrado, fundamento e raiz de tortuosos comportamentos e desvairadas motivações. Como na vida, afinal. Há nestas personagens movidas por uma pulsão determinista algo comum a qualquer de nós, em linhas e entrelinhas. E é quanto basta para que nos interroguemos sobre tudo isto muito depois de a leitura deste livro terminar.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Sugestão 8 de 2021:

Ernestina, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Sugestão 8 de 2022:

Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras)

Sugestão 8 de 2023:

A Biblioteca de Estaline, de Geoffrey Roberts (Zigurate)

Sugestão 8 de 2024:

A Próxima Guerra Civil, de Stephen Marche (Zigurate)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 18.06.25

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Livro sete: Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva

Edição D. Quixote, 2025

271 páginas

 

Há momentos que mudam a vida de uma pessoa para sempre. Aconteceu com Marcelo Rubens Paiva num dia que ele jamais esquecerá. Foi a 20 de Janeiro de 1971, feriado municipal no Rio de Janeiro, sufocante jornada de Verão: sujeitos ligados à aeronáutica militar entraram sem avisar na residência da família, na zona Sul da cidade, e levaram com eles o pai. Rubens Beyrodt Paiva nunca mais foi visto.

Engenheiro de profissão, antigo deputado, neto de imigrantes portugueses por via paterna, Beyrodt Paiva tinha 42 anos. Participou na equipa pioneira dos construtores de Brasília. Não lhe era conhecida militância política desde que integrara a bancada parlamentar do Partido Trabalhista entre 1962 e 1964, quando um golpe militar pôs fim ao regime democrático.

Na altura perdeu direitos políticos e esteve nove meses exilado na Europa. Regressado ao Brasil em 1965, trabalhou como engenheiro civil e detinha as empresas Geobrás e a Paiva Construtora. O pai, advogado e grande proprietário rural no estado de São Paulo, era apoiante assumido da ditadura castrense, então no seu período mais duro.

 

Naquele dia, Paiva foi conduzido ao quartel do comando da III Zona Aérea, onde começou a ser agredido. Depois levaram-no ao quartel da Polícia do Exército, onde seria alvo de sevícias até à morte ao som da canção “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos. Sucumbiu implorando que lhe dessem água e repetindo sem cessar o próprio nome. Factos comprovados por outros detidos naquele antro de tortura.

Marcelo Rubens Paiva tinha 11 anos quando viu o pai sumir para sempre. A partir daí acompanhou de perto a tenaz luta da mãe, Eunice, em busca da verdade. Outras pessoas, no lugar dela, teriam desistido. Mas Eunice revelou fibra de resistente. Jamais baixou os braços. Desmontou todas as mentiras que o poder político e as cúpulas militares iam vomitando, sem assumirem o cobarde homicídio.

O corpo nunca seria recuperado.

 

Ainda Estou Aqui narra-nos esta história, dramaticamente verídica. História de que emerge, como heroína, a mãe do autor. Sem Eunice, o crime ficaria por investigar. Nem teria sido confirmado pela Comissão Nacional da Verdade, quatro décadas após o rapto e homicídio do malogrado engenheiro Paiva.

Ela ficou viúva com 41 anos e cinco filhos menores a seu cargo.  Marcelo, o único rapaz, confessa nesta tocante autobiografia de 2015 ter passado por um período traumático na pré-adolescência. «Me fechei. Meu olhar ficou triste, como o de nenhum outro moleque. Muitos me passaram a evitar. Eu era filho de um terrorista que atrapalhava o desenvolvimento do país, eles aprendiam com alguns pais e professores, liam na imprensa, viam nos telejornais.»

Durante demasiado tempo, nada se sabia do engenheiro: só que estava desaparecido. A família viu-se impedida de exercer o direito ao luto. Até hoje nem se sabe o dia exacto da sua morte, que terá ocorrido na madrugada de 22 de Janeiro de 1971. «Cada um dos filhos o enterrou à sua maneira, em épocas diferentes, silenciosamente. Depois de um, dois anos, dois anos e meio… O tempo era o seu atestado de óbito. A demora, a comprovação que faltava.»

Estamos perante um livro impressionante. Pungente a espaços, mas sem nunca puxar à lágrima fácil nem fazer a menor concessão a chavões ideológicos. Denota uma claridade moral que transparece também no recente filme homónimo de Walter Salles, com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, justamente galardoado com o Óscar para melhor filme estrangeiro.

A realidade, neste caso, confere forma e conteúdo à ficção. Nada disto exclui a arte. Porque a arte, sendo autêntica, é prolongamento natural da vida.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)

Sugestão 7 de 2020:

Acordo Ortográfico - Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)

Sugestão 7 de 2021:

O Silêncio, de Don DeLillo (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2022:

Diários (1950-1962), de Sylvia Plath (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2023:

«O Mais Sacana Possível», de António Araújo (Tinta da China)

Sugestão 7 de 2024:

Inglaterra: Uma Elegia, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 17.06.25

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Livro seis: Se Eu Quisesse, Enlouquecia, de João Pedro George

Edição Contraponto, 2025

895 páginas

 

Espécie de dois-em-um: extensa biografia por um lado, ambicioso ensaio analítico da poesia de Herberto Helder por outro. Tudo mesclado em 50 desequilibrados capítulos – consequência de querer dar o passo maior do que a perna. Haveria vantagem em separar os dois segmentos. E eliminar óbvias redundâncias em edições posteriores deste Se Eu Quisesse, Enlouquecia (frase inicial de Os Passos em Volta, para muitos o melhor livro de Herberto). Exemplo: quando chegamos à página 40 já lemos cinco vezes que ele nasceu a 23 de Novembro de 1930. Não havia necessidade.

Com tais ressalvas, cumpre sublinhar: este livro capta a atenção até daqueles que nunca se interessaram pela obra de um escritor que para alguns - com manifesto exagero - é, a par de Fernando Pessoa, o melhor poeta de Portugal no século XX.

Desde logo, há aqui inegável valor documental. Em três marcos assinaláveis. Primeiro: a infância e a adolescência do madeirense Herberto Helder de Oliveira na ilha-natal a que só voltaria uma vez, de fugida, após trocar em definitivo o Funchal por Lisboa. Segundo: a sua passagem por Luanda em 1971-1972, única experiência africana (e extra-europeia) na sua vida largamente sedentária. Terceiro: a minuciosa descrição da atmosfera intelectual de Lisboa, entre os anos 50 e 90, com as suas invejas, as suas quezílias, os seus grupinhos, o seu estendal de pequenas e médias mediocridades.

Enfim, a vida de Herberto Helder daria um filme. Por enquanto, deu um livro enorme. Só isto já justificaria a leitura desta descomunal biografia que levou anos a concretizar, vencendo resistências de toda a ordem. Começando pela do biografado, que foi ocultando aspectos essenciais da sua vida privada, o que contribuiu para a aura de que usufruiu a partir de certa altura. E que ele próprio reforçou, recorrendo a requintadas artimanhas de marketing literário: impôs tiragens reduzidas, com o anúncio prévio de que não haveria reedições e até a proibição da venda de mais de um exemplar por cliente. Isto gerou preços astronómicos das suas obras no mercado de revenda, aumentando o valor de troca e suscitando o fenómeno do «fetichismo da primeira edição». Servidões (2013) chegou aos 460 euros. O raríssimo Kodak (1969) ultrapassou tudo, oscilando entre 900 e 2800 euros. «Os livros de Herberto Helder entravam assim numa bolsa de valores que nada tem a ver com as leis da consagração de um escritor.»

Recusou prémios - incluindo o Pessoa, do Expresso, em 1994. Negava entrevistas. Impedia que o fotografassem e evitava repastos com políticos. Mário Soares, por exemplo, queria muito conhecê-lo. Mas não chegou a ser bem-sucedido nos reiterados convites que lhe fez para almoçarem juntos.

No fundo, era alguém que muitos descreviam nesta síntese: «Era um bicho de concha, taciturno e tímido, esquivo nas suas aparições. De uma reserva quase agressiva.» Outros observam que «a sua poesia é uma luta furiosa contra a morte».

Também envolto em numerosas contradições. Proclamando feroz independência intelectual, aceitou dois «subsídios de mérito cultural» atribuídos por diferentes governos e uma avença vitalícia da Fundação Gulbenkian. Vigiado pela PIDE, assinou documentos em que exprimia adesão ao regime salazarista. Em 1980, inscreveu-se no Partido Comunista mas afastou-se sem demora. O editor Aníbal Fernandes, que o conheceu muito bem, faz esta síntese das suas ideias políticas: «O Herberto, além de ser uma pessoa perfeitamente instável nesse tipo de coisas, nunca foi uma pessoa de esquerda. Politicamente, o Herberto era de uma direita anarquista, se é que essas duas coisas se podem juntar.»

João Pedro George, durante anos, leu centenas de cartas escritas pelo poeta a várias pessoas com quem manteve intimidade. Falou com largas dezenas de outras, que lhe prestaram preciosos depoimentos – começando pela viúva, Olga Lima, cuja vida também daria um filme. Assim abriu caminho. Esta biografia torna-se desde já obra de referência a partir da qual outras gravitarão.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 6 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão 6 de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humanode Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Sugestão 6 de 2021:

Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva (Contraponto)

Sugestão 6 de 2022:

O Barulho das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

Sugestão 6 de 2023:

Professor Unrat, de Henrich Mann (E-primatur)

Sugestão 6 de 2024:

Canção de Rolando (E-primatur)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 16.06.25

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Livro cinco: O Pacto Nazi-Soviético, de Manuel S. Fonseca

Edição Guerra & Paz, 2025

143 páginas

 

Durante 22 meses, entre Agosto de 1939 e Junho de 1941, a Alemanha nazi e a Rússia comunista uniram-se em aliança. Política, económica, militar. Contra as «decadentes» democracias liberais do continente europeu, que esmagaram em obscena parceria naquele terço inicial da II Guerra Mundial – a mais mortífera de todos os tempos, com 27 milhões de mortos.

Peça fundamental neste conluio foi o tratado de não-agressão assinado na capital soviética pelos chefes das diplomacias de Moscovo e Berlim, sob o olhar sorridente de Estaline, em 23 de Agosto de 1939. Serviu de detonador para a invasão, violação e mutilação da Polónia: alemães na metade ocidental, russos na parcela restante. As primeiras vítimas da guerra tombaram lá.

«O pacto foi um desastre moral, militar e humano», assinala Manuel S. Fonseca, ensaísta e editor, nesta obra tornada ainda mais oportuna desde que Vladimir Putin invadiu em força a Ucrânia, há mais de três anos, numa tentativa - felizmente falhada - de mimetizar a Blitzkrieg conduzida pelos nazis contra diversos países europeus em 1939-1940: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, França. Após a anexação da Áustria, a conquista da Checoslováquia e a captura da Polónia. Como ensinou Marx, a História repete-se, resvalando da tragédia à farsa.

O que nos traz O Pacto Nazi-Soviético? O que mais importa: factos. Alguns já esquecidos, outros deliberadamente ignorados. Por serem incómodos. Por desmentirem certas narrativas pseudo-heróicas.

Falam as evidências: «Foi o acordo com Estaline que garantiu a Hitler as costas quentes a leste e providenciou até às tropas do III Reich os meios – petróleo, borracha e outras matérias-primas – que punham em movimento o exército nazi. Foi Estaline quem alimentou o monstro.»

Esta obra fala-nos dos antecedentes do pacto e das negociações que o tornaram possível. Transcreve o seu articulado na íntegra. E as cartas que Hitler e Estaline trocaram antes de se rubricar o documento. Inclui o protocolo suplementar secreto, que atribuía à União Soviética “direito de pernada” sobre diversos Estados: Finlândia, Estónia, Letónia e Lituânia, além de parte da Polónia e da Roménia. Outros protocolos, subscritos pelas diplomacias dos dois países a 28 de Setembro daquele ano, demarcaram zonas de influência. Tudo isto é lembrado aqui.

A 22 de Setembro de 1939, uma parada conjunta em Brest-Litovsk (Bielorrússia) selou a infame aliança comuno-nazi. Na presença do general alemão Heinz Guderian e do general soviético Semyon Krivoshein. A gratidão de Hitler levou-o a oferecer à Rússia 200 milhões de marcos e vários barcos de guerra, incluindo um cruzador.

Em Janeiro de 1941, a parceria reforçou-se com a assinatura do Acordo Germano-Soviético Comercial e de Fronteiras em que o Kremlin reclamava a posse da Bulgária, do Irão e até do Iraque.

Quando a Polónia caiu, Estaline congratulou-se junto de Georgi Dimitrov, cabecilha da Internacional Comunista: «A destruição deste Estado, nas presentes circunstâncias, significa um Estado burguês fascista a menos!» Quando a propaganda oficial de Moscovo repetia sem escrúpulos nem pudor a palavra paz.

Fascismo e comunismo irmanados então, tal como hoje – basta ver que forças políticas votam a favor de Putin no Parlamento Europeu. Há coisas que não mudam.

 

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

Sugestão 5 de 2020:

Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)

Sugestão 5 de 2021:

Gramática Para Todos, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Sugestão 5 de 2022:

As Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão (Quetzal)

Sugestão 5 de 2023:

Como Perder uma Eleição, de Luís Paixão Martins (Zigurate)

Sugestão 5 de 2024:

A Porta, de Magda Szabó (Cavalo de Ferro)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 15.06.25

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Livro quatro: Autocracia Inc., de Anne Applebaum

Edição Bertrand, 2024

192 páginas

 

Caminharemos de modo irreversível para um mundo iliberal, onde autoritarismos de diversos matizes impõem a lei da força? Historiadora e jornalista, especializada na investigação de temas ligados à Europa de Leste e à Rússia, a norte-americana Anne Applebaum era repórter da revista britânica The Economist quando caiu o comunismo na Polónia, início da derrocada da Cortina de Ferro. Foi colunista do Washington Post e editora-adjunta da revista The Spectator, hoje escreve ensaios noutra publicação de referência: The Atlantic. Em 2004 recebeu o Prémio Pulitzer de não-ficção por Gulag: Uma História, assombrosa descida ao inferno dos campos da morte soviéticos. 

Autocracia Inc. toma como ponto de partida a brutal agressão da Federação Russa à Ucrânia, em Fevereiro de 2022, com Vladimir Putin a tentar impor um anacrónico e aberrante "direito de pernada" ao Estado vizinho, combinando a lógica feudal do czarismo com o impiedoso desprezo pela vida humana que Estaline sempre evidenciou. 

«Prenderam funcionários do governo e líderes cívicos: presidentes de câmara, polícias, directores de escolas, jornalistas, artistas, conservadores de museus. Construíram câmaras de tortura para civis na maior parte das povoações que ocuparam no sul e leste da Ucrânia. Raptaram milhares de crianças, arrancando algumas aos braços das famílias e retirando outras de orfanatos, deram-lhes novas identidades "russas" e impediram o seu regresso à Ucrânia. Atingiram deliberadamente os trabalhadores dos serviços de emergência. Varrendo para um canto os princípios de integridade territorial que a Rússia tinha aceitado na Carta das Nações Unidas e nos Acordos de Helsínquia, Putin anunciou, no Verão de 2022, a sua intenção de anexar território que o seu exército nem sequer controlava» (pp. 21-22, tradução de Joaquim Gafeira.)

Este ensaio é uma lúcida, apaixonada e vibrante defesa da democracia liberal num mundo em que a ameaça dos regimes autocráticos se consolida em diferentes latitudes. Da Bielorrússia onde vigora a mais velha ditadura da Europa à Venezuela chavista hoje transformada em narco-Estado sob a força dos fuzis, sem esquecer a anquilosada teocracia iraniana, especializada em enforcar jovens que se atrevem a contestar os dogmas islâmicos e em torturar mulheres por ousarem sair à rua de cabelo descoberto.

Applebaum não tem dúvidas: estamos hoje ameaçados por um implacável eixo de autocracias com características divergentes mas unidas pelo ódio à liberdade. Estes regimes cultivam afinidades com Estados onde os mecanismos formais da democracia se mantêm, embora em situação precária: Turquia, Israel, Hungria, Índia, Filipinas. Assim se desenha uma nova geopolítica, marcada pelo condicionamento ou supressão de direitos fundamentais. Na actual circunstância, impõe-se uma palavra de ordem: resistir. Obras como esta são passos fundamentais no combate ao despotismo global.

 

Sugestão 4 de 2016:

Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)

Sugestão 4 de 2017:

Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)

Sugestão 4 de 2018:

Não Respire, de Pedro Rolo Duarte (Manuscrito)

Sugestão 4 de 2019:

Dois Países, um Sistema, de Rui Ramos e outros (D. Quixote)

Sugestão 4 de 2020:

Que Nós Estamos Aqui, de João Tordo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Sugestão 4 de 2021:

Uma História da ETA, de Diogo Noivo (E-primatur)

Sugestão 4 de 2022:

História de um Homem Comum, de George Orwell (E-primatur)

Sugestão 4 de 2023:

Biblioteca Pessoal, de Jorge Luis Borges (Quetzal)

Sugestão 4 de 2024:

Tempestades de Aço, de Ernst Jünger (Guerra & Paz)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 14.06.25

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Livro três: A Tradução do Mundo, de Juan Gabriel Vásquez

Edição Alfaguara, 2024

149 páginas

 

Livro que se recomenda a todos os apaixonados pela literatura. Escrito por um deles: o romancista Juan Gabriel Vásquez, autor de O Barulho das Coisas ao Cair, uma das melhores obras de ficção surgidas neste primeiro quartel do século XXI. Prosa em carne viva, dissecando com desassombro a tragédia do terrorismo ligado ao narcotráfico, que paralisou o Estado e estilhaçou a sociedade na Colômbia, seu país natal.

Passou com distinção no teste do romance, género que Balzac dizia ser «a história privada das nações». Superou as fasquias mais exigentes também no conto - ainda tão menosprezado por certas bempensâncias, obecadas em medir com fita métrica a qualidade da ficção. O seu talento ficou evidente em Canções Para o Incêndio: nada a ver com o lirismo fantasioso e algo ingénuo inscrito no realismo mágico, que teve outro colombiano - Gabriel García Márquez - como cultor supremo. Nestes contos, tal como no romance que lhe deu fama, Vásquez alude à violência inscrita num quotidiano de aparente normalidade e à culpa que lhe está associada.

A Tradução do Mundo resulta de um ciclo de conferências que proferiu a convite da Universidade de Oxford sobre a ficção como espelho da vida e bisturi da sociedade. Destacando a perenidade do romance, que sobreviveu a mil sentenças de execução proferidas por gurus de cenáculos académicos que se gabam de ter lido tudo e já não se surpreendem com nada. Proclamou-se o seu óbito no início dos anos 60, coincidindo com as mortes consecutivas de Hemingway e Faulkner. Inscreveu-se o seu precipitado epitáfio quando surgiu o nouveau roman que sepultava personagens, enredos, ideias, verosimilhança - prestando tributo ao vácuo, abrindo alas à ilegibilidade.

Mas a literatura tem múltiplas vidas. Mudam os séculos, sucedem-se as gerações, alternam-se vagas doutrinárias - e ela resiste, contra ventos e marés. Encontramos aqui pistas para decifrar o enigma. Eis uma: «A ficção existe porque as nossas verdades são diversas e porque há forças que limitam as nossas liberdades; dito de outro modo, a ficção existe porque não aceitamos de bom grado que a vida humana tenha limites. É talvez por isso que continuamos a precisar dela: por pura rebeldia.»

Juan Gabriel Vásquez conduz o leitor numa fascinante digressão por obras-primas da literatura mundial: Em Busca do Tempo PerdidoGuerra e PazMemórias de AdrianoCem Anos de SolidãoConversa na CatedralO Coração das TrevasLord JimO Bom SoldadoBeloved. Partilhando sem hesitar algumas das suas paixões literárias. «Tornamo-nos homens (ou mulheres) enquanto lemos - em busca de algo similar, temos, pois, recorrido à ficção ao longo dos séculos», conclui. Impossível não nos sentirmos contagiados.

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)

Sugestão 3 de 2018:

Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

Sugestão 3 de 2019:

Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)

Sugestão 3 de 2020:

ABC da Tradução, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Sugestão 3 de 2021:

Intervenções, de Michel Houellebecq (Alfaguara)

Sugestão 3 de 2022:

O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral (Leya)

Sugestão 3 de 2023:

Malina, de Ingeborg Bachmann (Antígona)

Sugestão 4 de 2024:

Memórias Minhas, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 13.06.25

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Livro dois: Bambino a Roma, de Chico Buarque

Edição Companhia das Letras, 2025

169 páginas

 

Chico Buarque, desenrolando o fio da nostalgia, lembra-nos os dias felizes vividos em Roma com os pais e os seis irmãos entre 1953 e 1955 – dos 9 aos 11 anos. O autor de “Tanto Mar” não mergulha a fundo, permanecendo quase só à superfície, mas é quanto basta para atrair o leitor nesta sedutora viagem no tempo a um bairro da Cidade Eterna em morada que jamais esqueceu: apartamento 2, um rés-do-chão na Via Marino, 12. Revisita-a 70 anos depois. Remontando àqueles dias irrepetíveis em que cozinheiras da Sardenha confeccionavam petiscos regionais para a família Buarque e em que ele frequentava uma escola americana de orientação católica na capital italiana.

Acompanhamos o criador de “Construção” em imagens verbais que logo associamos aos filmes saídos dos estúdios da Cinecittà quando cineastas como Rossellini, Visconti, Fellini, Lattuada e Monicelli moldavam os novos ídolos da Sétima Arte. Não falta sequer a aparição de Alida Valli, diva daquela fábrica de sonhos, sua inesperada parceira de dança. Em prosa contaminada pela toada poética, tão familiar ao criador de temas musicais que muitos sabemos de cor.

Foi lá que o menino Chico – Prémio Camões em 2019 - aprendeu a amar os livros como janelas abertas ao mundo enquanto o pai historiador, Sérgio Buarque de Hollanda, batia incessantemente à máquina no escritório lá de casa. «Também me serviu de passaporte a leitura dos livros italianos que roubei do meu irmão mais velho, a começar pelo Corsário Negro, de Emilio Salgari. Depois vieram O Filho do Corsário Vermelho, mais a A Filha do Corsário Verde.»

Foi lá que viu Pio XII: o Papa «dirigia ao público um sinal da cruz fatigado», parecendo «saído de um museu de cera». E aprendeu as primeiras palavras em italiano: calcio, pallone, fuorigioco, và a fancullo. E via Martine Carol nas matinés: dizia-se dela que era a actriz mais limpa de Paris «porque tomava banho em todos os seus filmes».

Foi lá que memorizou as primeiras canções. “That’s Amore”, interpretada por Dean Martin. Frank Sinatra e o seu “Young at Heart”. Leslie Caron no musical Lili popularizando “Hi-Lili, Hi-Lo” com sucesso imediato. «Eu tinha pressa de crescer e ser adulto e namorar mil e uma mulheres.»

O menos bom do livro é saber a pouco: chegamos depressa ao fim e fica a apetecer-nos mais.

 

Sugestão 2 de 2016:

Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2017:

Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)

Sugestão 2 de 2018:

Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d'Água)

Sugestão 2 de 2019:

A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

Sugestão 2 de 2020:

Três Retratos - Salazar, Cunhal, Soares, de António Barreto (Relógio d'Água)

Sugestão 2 de 2021:

Presos por um Fio, de Nuno Gonçalo Poças (Casa das Letras)

Sugestão 2 de 2022:

Primeira Memória, de Ana María Matute (Narrativa)

Sugestão 2 de 2023:

O Plantador de Malata, de Joseph Conrad (Sistema Solar)

Sugestão 2 de 2024:

Kokoro, de Natsume Soseki (Presença)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 12.06.25

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Livro um: As Janelas Defronte, de Georges Simenon

Edição Cavalo de Ferro, 2025

157 páginas

 

Envolvente novela onde encontramos algumas das melhores características de Georges Simenon (1903-1989), muito para além das suas populares ficções policiais protagonizadas pelo comissário Maigret: capacidade de introduzir no enredo personagens credíveis, inserindo-as em ambientes muito bem descritos e enquadrados em dilemas existenciais, sem receio de navegar contra a corrente.

Com uma vantagem suplementar: esta é uma das primeiras obras de ficção que nos descrevem sem disfarce o terror estalinista durante a Grande Fome do início da década de 30. Cenário distópico num mundo real – neste caso a Geórgia soviética.

Iniciado no jornalismo ainda adolescente, como estagiário da imprensa tablóide junto de morgues e esquadras policiais, o autor belga insistia em escrever apenas sobre aquilo que conhecia. Com o decorrer dos anos alargou horizontes, aliando o gosto pelas viagens à paixão da escrita. Sempre com pulsão de repórter, visível nestas páginas.

«As pessoas, quando questionadas, afastavam-se com assombro. Outras respondiam muito depressa e iam-se embora. Um rapaz, a quem ele dera um rublo, recebeu, um pouco adiante, uma bofetada de um transeunte que vira a cena e que atirou o rublo para o rio.» (trecho da p. 98, tradução de Diogo Paiva).

Enquanto vários romancistas, ensaístas e filósofos do seu tempo entoavam hossanas ao comunismo, funcionando como papagaios da propaganda de Moscovo, ele procurou ver para além das aparências. Interessavam-lhe mais as sombras do que as luzes. Encontrou-as em Batúmi, cidade portuária do Mar Negro, onde se desenrola a trama protagonizada pelo jovem cônsul turco Adil, que ali se instala em missão diplomática. Entre «pendões com a efígie de Lenine» e «um retrato monstruosamente aumentado de Estaline» na praça principal, enquanto nas ruas adjacentes pairava o espectro da miséria e as palavras permaneciam sepultadas no silêncio.

Retrato de uma sociedade sufocante, em que a repressão policial alarga os tentáculos às mais ínfimas esferas do quotidiano. Vigilância simbolizada nas janelas defronte a que alude o título: impossível escapar-lhe.

O próprio mar parecia asfixiante. «Estava plano como um pântano, com biliões de pequenos círculos desenhados pelas gotas de chuva, biliões de biliões, até ao horizonte, até à Turquia, talvez até mais longe ainda.»

Kafka encontra Orwell em Batúmi. Publicado originalmente em 1933, este aclamado «romance russo» de Simenon não é policial, nem precisa: toda a atmosfera está impregnada de crime. Crime de Estado, juiz e carrasco em simultâneo. 

 

Sugestão 1 de 2016:

O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)

Sugestão 1 de 2017:

A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)

Sugestão 1 de 2018:

Delito de Opinião, de vários autores (Bookbuilders)

Sugestão 1 de 2019:

O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote)

Sugestão de 2020:

As Sílabas de Amália, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão de 2021:

No Devagar Depressa dos Tempos, de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote)

Sugestão de 2022:

O Caminho Fica Longe, de Vergílio Ferreira (Quetzal)

Sugestão de 2023:

O Olhar Mais Azul, de Toni Morrison (Presença)

Sugestão de 2024:

Canções Para o Incêndio, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

TUDO É TABU: ecos do meu livro

Pedro Correia, 11.06.25

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Ana Miguel dos Santos:

«Recomendo a leitura do novo livro do Pedro Correia, Tudo é Tabu. Num tempo de ideias rígidas e debates limitados, este livro provoca, questiona e faz pensar.»

Facebook, 12 de Março

 

António Bagão Félix:

«Um livro necessário e corajoso para aumentar a consciência das novas e sinuosas formas de ditadura do pensamento, com um método de exemplificação muito eficaz.»

24 de Setembro

 

António Costa Amaral:

«Contra todos os que reclamam "na dúvida proíba-se", com convicção resista-se. Contra o obscurantismo, a visibilidade. Contra o silenciamento, a partilha. Contra os tabus tribalistas, a civilização. Contra a mesquinhez, a integridade, coragem, humor, e inteligência. E o Pedro Correia está a fazer a sua parte, e que grande parte, com o "Tudo é Tabu".»

Linkedin, 5 de Julho

 

Fernando Alvim:

«[O livro vai] ao fundo buscar casos de censura, casos de cancelamento, muitos deles em Portugal. São muitos os casos aqui tratados, alguns deles nem eu conhecia.»

Prova Oral (Antena 3), 12 de Junho

 

Fernando Madaíl:

«Kant tinha uma "faceta misógina", Darwin era "racista", Gauguin "pedófilo", Voltaire "defendeu" a escravatura, Hemingway revelou "antissemitismo", a estátua que Miguel Ângelo fez de David é "pornográfica", a peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, pode levar espectadores ao "suicídio". Os cem exemplos escolhidos por Pedro Correia para o livro "Tudo é Tabu" (ed. Guerra & Paz) sublinham alguns dos absurdos da actual tendência para condicionar a liberdade de expressão, com "patrulheiros" a "ditar dogmas" e a "decretar anátemas".» 

Correio da Manhã, 4 de Agosto

 

Francisco José Viegas:

«Hoje, a censura progressista espalhou-se pela universidade, pela imprensa e pelas artes. Para registar esses atropelos, Pedro Correia escreveu um livro precioso, Tudo é Tabu

Correio da Manhã, 28 de Junho

 

Francisco Seixas da Costa:

«O meu amigo Pedro Correia recentemente escreveu "Tudo é tabu - cem casos de novas censuras". O livro, muito bem escrito e muito polémico, é sobre isso mesmo. No texto, o autor sublinha o que entende serem os exageros desta onda avassaladora de pressão para a adoção de novas atitudes. Estou a lê-lo aos poucos. Há coisas com que estou de acordo, outras bastante menos. Mas recomendo francamente a leitura.»

Blogue Duas ou Três Coisas, 9 de Setembro

 

Henrique Raposo:

«A obsessão dos woke com o cancelamento de autores e livros - (vejam este resumo feito por Pedro Correia) – massacra autores ainda vivos.»

Expresso, 10 de Julho

 

Jaime Nogueira Pinto:

«É o absurdo entronizado como valor; a cega imposição e burocratização do dogma; a esterilização e a asfixia de toda a criatividade, de toda a ficção e até de todo o diálogo. O livro de Pedro Correia, de uma forma simples, dá 100 exemplos deste massacre. Vale a pena ler.»

Crítica XXI N.º 9, edição de Outubro-Dezembro

 

Joana Amaral Dias:

«Gostava de ter sido eu a escrever este livro.»

«Isto não só é jornalismo, mas é de facto serviço público.»

Jornal Nascer do Sol (videodcast "Córtex Frontal"), 29 de Julho

 

João Paulo Sacadura:

«Um trabalho jornalístico, de investigação, de pesquisa. (...) Uma boa maneira de celebrar estes 50 anos de democracia -- luta que continua todos os dias.»

Rádio Observador, 16 de Julho

 

José Pimentel Teixeira:

«Estou a ler o imprescindível "Tudo é Tabu" do Pedro Correia (Guerra e Paz Editores) , um rol de 100 casos de censura promovida pela vigente e descabelada ideologia "identitarista".»

Blogue Nenhures, 16 de Outubro

 

Luciana Leiderfarb:

«"Cem casos de novas censuras" é o subtítulo deste ensaio que documenta situações de limitação da liberdade de expressão em pleno primado do chamado "mundo livre" e das sociedades democráticas ocidentais.»

Expresso, 2 de Agosto

 

Luís Miguel Gomes:

«O quarto livro lido este ano foi este fantástico TUDO É TABU do Pedro Correia. Cerca de 100 casos de novas censuras, uma grande chamada de atenção para o inaceitável que tenta dominar a pauta social.»

Facebook, 8 de Abril 

 

Luís Pinheiro de Almeida:

«Mais um livro para a "estante de autores" dos Amigos do Snob e do Albino. Não, não sou o autor, é o Pedro Correia. (Tudo é Tabu, Pedro Correia, Guerra e Paz, 2024, 222 págs, 17 euros). Já agora, há referências a actos de censura aos Rolling Stones, Tintim, Poirot, Shakespeare, mas nada de Beatles!!!»

Facebook, 2 de Janeiro 

 

Rodrigo Saraiva:

«[Pedro Correia] acaba de publicar um novo livro: Tudo é Tabu, edição Guerra & Paz. É um livro sobre a Liberdade. Ou melhor, um livro sobre a Vida. Sem liberdade de falar ou escrever não há liberdade para pensar. O que significa que não há liberdade para criar. (...) Qualquer tentativa de censura, chamem-lhe bloqueio, mitigação, afinação, depuração ou profilaxia, acaba num desejo de ambiente único, de narrativa única. Ou seja, de uma ditadura.»

Expresso, 20 de Agosto

 

Rui Calafate:

«Um livro curioso sobre a actualidade.»

Jornal Económico (podcast "Maquiavel para Principiantes", minuto 28), 1 de Julho

 

Rui Daniel Rosário:

«O Pedro Correia, amigo de longa data, lançou hoje mais um livro sobre o que ele designa dos novos polícias do pensamento, no qual reúne 100 exemplos de uma espécie de nova censura, da literatura ao cinema, a que nem as séries de culto escapam. Sempre mantive com o Pedro uma saudável discordância na política, mas não deixo de o considerar um pensador livre e um excelente escritor e jornalista, talvez o mais talentoso blogueiro nacional que resiste no seu Delito de Opinião.»

Facebook, 2 de Julho

 

Rui Zink:

«Hoje, o OFF (Ofendidismo Foleiro-Fanático) alastrou a todas as camadas da sociedade. No meu tempo, eram os mais velhos que se indignavam comigo, agora são os mais jovens. É chato viver com tabus, encurtam-nos as vistas e, ao encurtar-nos as vistas, encurtam-nos a vida. "Tudo é Tabu" é um livro de Pedro Correia, que em entradas breves faz um educativo catálogo de 100 casos recentes de OFF. Podiam ser mais.»

Correio da Manhã, 22 de Setembro

 

Sofia Marques Faia:

«Mais um livro para a "estante de autores": "Tudo É Tabu", Pedro Correia.»

Instagram, 3 de Janeiro

 

«Neste livro fala-se do wokismo e dos impactos que este tem vindo a ter, primeiro nos estabelecimentos escolares e cenáculos intelectuais, e agora na sociedade, através de 100 casos de censura atual e que vão desde a "purificação" de Mark Twain à "fúria castanha contra a Disney", do "mamilo incómodo" de Almodóvar ao "chocolate amargo" de Bernardo Silva, do "risco do riso" de Dave Chappelle ao "silêncio forçado" de Patti Smith.»

Revista Líder, 18 de Outubro

 

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Agradeço também as referências ao livro feitas por Anabela Risso, André Azevedo AlvesAndré Rubim RangelAntónio Oliveira MartinsDiogo Noivo, Fátima Linhares, João Eduardo SeverinoJosé António de Sousa, Manuel CamposPaulo MoutaPedro Oliveira.

Também na newsletter Cardápio e no espaço digital do Centro Nacional de Cultura.

 

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TUDO É TABU pode ser adquirido via Almedina, Apple BooksAmazon, Barnes & NobleBertrand, Boa Leitura LivrariaBooksmarket, El Corte InglésFNAC, GomesBooks, IndigoJBNetMercado Livre, RepsolWook. Também por encomenda à Guerra & Paz.

E agora, claro, também na Feira do Livro de Lisboa.

Ler (34)

Nada melhor do que um prazer que se partilha

Pedro Correia, 22.06.24

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Adquiri estes nas minhas três deslocações à Feira do Livro de Lisboa em Maio e Junho. De variados géneros - da ficção ao ensaio, passando pelo teatro e até ao desenho.

A Hora dos Lobos, de Harald Jähner (D. Quixote)

A Próxima Guerra Civil, de Stephen Marche (Zigurate)

Agarra o Dia, de Saul Bellow (Relógio d' Água)

Entre a Mentira e a Ironia, de Umberto Eco (Gradiva)

Fui Tão Feliz Com a Minha Thompson, de Sérgio Sousa Pinto (Avenida da Liberdade Editores)

Goodbye, Columbus, de Philip Roth (D. Quixote)

Jornada Para a Noite, de Eugene O'Neill (Cotovia)

O Render dos Heróis, de José Cardoso Pires (Moraes)

Os Ratoneiros, de William Faulkner (Portugália)

Pnim, de Vladimir Nabokov (Relógio d' Água)

 

São muito diferentes. Dois foram adquiridos em pavilhões de alfarrabistas, com chancelas de editoras há muito extintas (Moraes e Portugália). Andei anos em busca de ambos. Num caso por se tratar de um dos romances menos conhecidos de Faulkner, aliás há muito esgotado no mercado português. Noutro por ser talvez o único que me falta ler de Cardoso Pires.

A original obra pictórica de Sousa Pinto comprova que o talento deste deputado socialista - que conheço há 27 anos - não se esgota na escrita ou na oratória: está patente também nos seus desenhos, com óbvia influência de mestres da banda desenhada, como Hugo Pratt. A jovem editora que lhe lançou a obra merece-me igualmente simpatia. Gosto de incentivar novos projectos nesta área, contrariando os profetas da desgraça sempre prontos a jurar que os livros estão condenados. Alguns evacuam há décadas sentenças deste género, felizmente nunca confirmadas.

Russo que renegou o seu país sob a ditadura soviética, Nabokov escreveu Lolita, romance fundamental do século XX - é quanto basta como carta de recomendação. Bellow e Roth são ficcionistas norte-americanos que aprecio - mais o Nobel de 1976, confesso, mas senti curiosidade em conhecer a primeira novela do autor de A Conspiração Contra a América, publicada quando tinha apenas 26 anos. O dramaturgo O'Neill - Nobel de 1935 - é autor que lerei pela primeira vez.

Quanto aos ensaios políticos, um vira-se para o futuro próximo, outro para o passado. A Hora dos Lobos detalha a vida quotidiana na Alemanha em ruínas do pós-guerra, com raro aliciante: observar factos históricos na perspectiva dos derrotados em conflitos bélicos. Contrariando o relato dominante, na óptica dos vencedores.

Há ainda o livrinho de Eco, pensador sempre estimulante. Mesmo quando escreve sobre temas aparentemente menores.

 

Destes dez, já li dois. E sobre um deles até escrevi aqui, recomendando-o sem reservas: A Próxima Guerra Civil Americana. Tema mais actual que nunca: está já em marcha a próxima corrida à Casa Branca.

Sobre o outro terei ocasião de escrever também. Quando gosto a sério de um livro, sinto vontade de divulgar a notícia. Faz parte do sortilégio da leitura: nada melhor do que um prazer que se partilha.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 16.06.24

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Livro dez: O Príncipe da Democracia, de Nuno Gonçalo Poças

Edição D. Quixote, 2024

462 páginas

 

À medida que o tempo passa, o nome de Francisco Lucas Pires (1944-1998) vai ficando cada vez mais esquecido. E, no entanto, foi um dos políticos mais brilhantes dos dois decénios iniciais do regime democrático. O primeiro que teve o desassombro de se dizer de direita, primeiro, e de se proclamar liberal, depois. Etiquetas que ainda hoje, para algumas almas penadas que pululam nas pantalhas, fazem soar campainhas de alarme: soam a «fascismo» e «extrema-direita». Quem não viveu esses tempos de geometria deturpada, quando Diogo Freitas do Amaral era apontado como «o homem mais à direita de Portugal» (título de um célebre editorial de Artur Portela Filho), nem imagina como andava tanta coisa às avessas. Começando pelo fundador do CDS, que se dizia «rigorosamente ao centro» e acabou a carreira política como ministro de José Sócrates e a partilhar palcos de comício com Francisco Louçã.

Nuno Gonçalo Poças escreveu esta biografia de Lucas Pires pelo motivo mais elementar: não haver nenhuma. Fez bem em colmatar esta lacuna. Nascido em Coimbra, onde se licenciou em Direito e se especializou em Ciências Jurídico-Políticas, adquirindo justa reputação como constitucionalista, Lucas Pires foi ministro, deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, conselheiro de Estado, presidente de um dos quatro partidos históricos da democracia portuguesa.

Deu aulas no ensino universitário a largas centenas de alunos (tive o privilégio de ser um deles), revelando-se mestre na pedagogia e na arte da oratória política. Incomparável criador de metáforas contundentes mas sem nunca humilhar um adversário. Com irrepreeensível fleuma britânica, muito distante da berraria incendiária que alastra dos extremos para contaminar o centro.

Pareceu sempre um homem à frente do seu tempo: esta longa biografia reforça tal noção entre aqueles que o conhecemos. Quando ainda meio mundo suspirava de nostalgia pelo «Portugal africano», já ele olhava para a Europa. Quando juravam que a cultura era indissociável da esquerda, ele revelou-se o primeiro e mais brilhante ministro desta pasta, entre 1981 e 1983. Quando quiseram impor o socialismo como via de sentido único para o rumo pós-revolucionário, ele advertiu que nos sobrava peso do Estado e nos faltava crença nas virtudes da sociedade - desequilíbrio que pagávamos em défice de prosperidade e desenvolvimento. Então em Portugal «vivia-se sob quase permanente assistência financeira, em perpétuo estado de austeridade, inflação, dificuldades, absentismo e corrupção».

Lucas Pires era maior do que o CDS, partido em que esteve filiado de 1976 a 1991, e que liderou entre 1983 e 1985. Quando saiu, ficou numa espécie de terra de ninguém. Reservaram-lhe só um discreto quarto lugar na lista europeia do PSD, em 1994, como independente. Noutro contexto, poderia ter sido presidente do Parlamento Europeu, função que nenhum português desempenhou. A incógnita jamais se dissipará: morreu subitamente, demasiado cedo, com apenas 53 anos

Não deixou sucessor: faz parte da sina de homens raros como ele. Isto também ajuda a explicar que a sua primeira biografia surja só 26 anos após a sua morte. Nuno Gonçalo Poças está de parabéns por ter posto fim a tão lamentável omissão editorial: enquanto figuras menores da política das três últimas décadas do século XX são lembradas a propósito de quase nada, Lucas Pires vinha sendo esquecido a respeito de quase tudo. Até agora.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz (Cavalo de Ferro)

Sugestão 10 de 2021:

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China)

Sugestão 10 de 2022:

De Quase Nada a Quase Rei, de Pedro Sena-Lino (Contraponto)

Sugestão 10 de 2023:

Perseguição, de Jorge de Sena (Assírio & Alvim)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 14.06.24

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Livro nove: Por Amor à Língua e à Literatura, de Manuel Monteiro

Edição Objectiva, 2024

296 páginas

 

Este livro presta serviço público. Diz ao que vem e cumpre o prometido: é na verdade uma admirável declaração de amor à língua portuguesa, hoje tão maltratada no jornalismo, na escola, na academia, na publicidade e na linguagem de todos os dias. Com a contínua supressão de vocabulário, ameaçando de extinção milhares de palavras. Com a profusão sem freio de erros gramaticais e sintácticos - em jornais, revistas, livros, anúncios, folhetos de supermercado, rodapés de televisão e até no Diário da República. Com o famigerado aborto ortográfico, que aboliu a noção de norma num emaranhado de «duplas grafias» e «facultatividades» à mercê de uma nebulosa «pronúncia culta» que nega qualquer pressuposto científico.

Nesta versão revista e ampliada do livro Por Amor à Língua, publicado em 2018, Manuel Monteiro reforça o combate à banalização do erro e pugna contra a complacência perante tantos atentados ao nosso idioma. Emenda, corrige, esclarece. Nunca em tom de mestre-escola, mas com humor, vivacidade e a contagiante alegria de quem se declara sem rodeios apaixonado pela língua portuguesa.

Não é livro para arrumar em prateleiras destinadas a acumular pó, mas instrumento útil a quem faz do português ferramenta de trabalho e veículo privilegiado de comunicação, partilhado por quase 300 milhões de pessoas no mundo. Levanta o polegar perante «círculo vicioso» (correcto) e baixa-o em «ciclo vicioso». Esclarece que só «quando muito» faz sentido («quanto muito», que alguns papagueiam, é erro crasso). Dissipa a confusão entre «ter de» e «ter que» desta forma lapidar: «Nunca vi um "de" quando deveria estar um "que", ou seja, em caso de dúvida, opte sempre pelo "de", que, garanto-lhe, não errará. O erro é sempre ao contrário.»

Na linha do que já fizera em O Mundo Pelos Olhos da Língua (2022), este escritor e professor que foi revisor profissional enumera várias palavras usadas e abusadas nos contextos mais abstrusos. Como o famigerado verbo «colocar» que parece ter destronado o claro e conciso «pôr». Manuel Monteiro observa: «Coloca-se algo/alguém de lado/de parte/à margem, colocamo-nos na pele de outros, coloca-se a mão/o dedo/qualquer parte do corpo algures, coloca-se o carro na garagem, coloca-se o dinheiro no banco; progressivamente, tudo se coloca.» Até já leu esta frase num título da RTP, atribuída a um sindicalista da polícia: "Era o que faltava não podermos colocar baixa".»

Eis outros vocábulos que alastram como pulgas em dorso de cão vadio: abordagem, arrasar, empatia, inclusão, incontornável, tóxico, privilégio, literalmente, foco, evento, tolerância, fascista. E até filosofia, em expressões ridículas como «a filosofia de jogo do treinador», «a filosofia de vendas», «a filosofia de atendimento ao cliente». Assim «trivializamos e abandalhamos Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant» e tantos outros.

Merece também aplauso a justa luta do autor contra a despudorada profusão do portinglês, que transforma a nossa língua numa espécie de pátio das traseiras do idioma de Donald Trump. 

«Jornalistas há que escrevem metade das crónicas em português (e que, quando escrevem a metade em português, escrevem a pensar em inglês, seja quanto aos significados, seja quanto à construção sintáctica (...), seja quanto ao decalque de expressões idiomáticas, como "no fim/final do dia" ou "pôr-se nos sapatos dos outros/calçar os sapatos dos outros", quando em português são "no fim de contas/afinal de contas" e "pôr-se no lugar do outro") e a outra metade em inglês, que até nos títulos despejam palavras inglesas quando para as quais há palavras portuguesas de uso corrente.» Lembrei-me logo do Camilo Lourenço com o seu chorrilho de títulos à amaricana: «One Sided Stories»; «Unfit and Unproper»; «Scratch my back, I'll scratch yours».

Amor à língua, sim. Também é fogo que arde sem se ver. Mas lê-se. E não deixa lugar a dúvidas.

 

  Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review, (Tinta da China)

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

Sugestão 9 de 2018:

Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)

Sugestão 9 de 2019:

La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Sugestão 9 de 2020:

Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)

Sugestão 9 de 2021:

Woke - Um Guia para a Justiça Social, de Titania McGrath (Guerra & Paz)

Sugestão 9 de 2022:

Carta à Geração que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann

Sugestão 9 de 2023:

A Vida por Escrito, de Ruy Castro (Tinta da China)

Na Feira do Livro

jpt, 14.06.24

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A culpa foi do José Navarro de Andrade. O outro dia fui a uma cena dessas literárias, o que me é raríssimo. O tipo também comparecera, coisas de amizades lá dele. Enfim, fiz o que me cabia, sem murmúrios ouvi algumas palavras (auto)laudatórias e depois uns mui sentidos versos bem mortais. No final daquilo, e também para evitar uns apparatchikos PS (daqueles mesmo..) que por lá constavam, roliços ronronantes, vim para a rua fumar, e o Navarro também avançou. A gente vê-se (via-se, melhor dizendo) era na bola, ele levava-me a ver o Sporting, e também nos jantares de sportinguistas no Império. Mas ali não falámos de futebol, descaímos para livros. E não é que o Navarro me diz - ao fim destes anos todos - que tem este "Terra Firme", pequeno livro sobre a formação dos preços dos víveres, isso que nos esmaga. Narrou o ciclo, dos produtores até aos Pingos Doces da vida...

Enfim, fui agora à Feira do Livro, tendo jurado nada comprar, dadas as estantes atafulhadas e, acima de tudo, devido à... formação dos preços dos víveres, cruéis. Mas lembrei-me do livro do Navarro, e fui comprá-lo, até por ser bem barato. Mas foi o desastre, foi o ceder do dique moral. Malditas pechinchas!, as que logo se seguiram, que do Benoliel aos monos (e que belos monos) da Relógio D'Água já disparatei. E a culpa, repito, é do Navarro.

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 13.06.24

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Livro oito: A Próxima Guerra Civil, de Stephen Marche

Edição Zigurate, 2024

223 páginas

 

No seu primeiro século de vida, os EUA foram dilacerados pela Guerra da Secessão, carnificina que provocou cerca de 750 mil mortos e deixou feridas que demoraram décadas a sarar, fracturando o país muito após o armistício assinado em 1865. Subsistem cicatrizes desse conflito, um dos mais sangrentos do século XIX.

Stephen Marche, escritor e colunista no The New York Times e nas revistas The Atlantic, EsquireNew Yorker, desenvolve uma tese controversa mas sustentada em indícios sólidos: os norte-americanos mergulharam numa nova guerra civil, por enquanto de baixa intensidade, mas que ameaça desencadear uma espiral descontrolada de violência. Qualquer rastilho pode soltar ferozes ódios ideológicos, pondo-os em confronto. A nação una e sólida do passado parece ter passado à história. O maior inimigo de um habitante dos EUA, pense ele o que pensar, é hoje um compatriota seu.

Há vários países dentro do país. No Texas, por exemplo, todos os candidatos presidenciais do Partido Republicano venceram desde 1980: os democratas não ganham ali uma eleição estadual desde 1994. Na Califórnia, pelo contrário, não há um só republicano em cargos executivos estaduais e São Francisco não tem um mayor deste partido desde 1964. Conclusão: «Num certo sentido, ambos os estados já se separaram de metade do país.» Podiam ser independentes? Sim. A Califórnia seria a quinta maior economia do mundo e o Texas teria o décimo PIB à escala planetária.

Marche observa o fenómeno com olhar preocupado mas desapaixonado. Tem, neste caso, a vantagem de ser estrangeiro: é canadiano, da província de Alberta. Evita a contaminação política, procurando analisar o que se passa nos EUA com objectividade. E o que vê deixa-o pessimista. Ao ponto de admitir que o país vizinho entrou já num caminho sem retorno em matéria de confrontação interna, com as paixões ideológicas à solta.

«As forças que despedaçam a América são radicalmente modernas e tão antigas como o próprio país», observa o escritor, autor de três romances, quatro ensaios e diversas reportagens sobre temas contemporâneos. Aqui cruza a ficção com o jornalismo, concebendo cinco cenários calamitosos que podem ocorrer num futuro próximo. Com base no seu profundo conhecimento da realidade norte-americana e nos depoimentos de quase duzentas fontes que foi contactando - incluindo militares de alta patente, agentes dos serviços secretos, ambientalistas, historiadores e politólogos.

Este livro funciona como poderoso sinal de alerta: o pior pode mesmo acontecer num país onde existem mais de 400 milhões de armas em poder dos cidadãos. Os americanos adquirem 12 mil milhões de cartuchos por ano. Só em 2020, 17 milhões de indivíduos compraram ali armamento diverso, alegadamente para defesa pessoal - o maior número de que há registo. O resultado está à vista: «Há 57 vezes mais tiroteios nos Estados Unidos do que no conjunto dos restantes países industralizados.» Com quase 40 mil vítimas mortais em 2017.

Impressionante arsenal bélico, alarmante em qualquer contexto. Pior ainda num país como este: «O ódio, mais do que qualquer outra coisa, é o motor da política nos Estados Unidos.» Os exemplos abundam: «Os adolescentes negros em Baltimore e St. Louis sentem-se sob ocupação policial. Os rancheiros no Texas e no Oregon sentem-se ocupados pelo Governo federal. Cada uma das facções políticas opera como se estivesse cercada: os democratas, pela máquina política republicana; os republicanos, pela demografia, pela imigração, pela cultura popular. Todos querem construir algum tipo de muro.» (Tradução de Ilda Luís.)

Tem tudo para correr mal. E pode correr mesmo. A Próxima Guerra Civil Americana ajuda-nos a abrir ainda mais os olhos. Porque uma constipação séria na América é capaz de provocar uma pneumonia à escala mundial.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Sugestão 8 de 2021:

Ernestina, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Sugestão 8 de 2022:

Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras)

Sugestão 8 de 2023:

A Biblioteca de Estaline, de Geoffrey Roberts (Zigurate)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 12.06.24

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Livro sete: Inglaterra: Uma Elegia, de Roger Scruton

Edição Guerra & Paz, 2024

260 páginas

 

Este é um livro tocado de nostalgia. De saudável nostalgia. Roger Scruton (1944-2020), um dos mais brilhantes pensadores britânicos dos últimos decénios, fala do seu país natal sempre no passado. A Inglaterra, outrora Grã-Bretanha – não o Reino Unido, designação que lhe parecia espúria.

Ele não se envergonhava de ser o que era: um genuíno conservador, pessimista antropológico, avesso a subscrever as consabidas noções de «progresso». A nação a que presta tributo nestas páginas encerra algo de mítico, de intangível. Terá existido realmente, largas décadas atrás. Ou talvez nem isso. A elegia pela pátria pode confundir-se com um lamento pela juventude perdida.

Tal incógnita não retira interesse a este ensaio, publicado originalmente em 2001. O título resume o espírito da obra: estamos perante uma vibrante declaração de amor à Inglaterra, que Scruton pretendia ver como reino independente, sem elos directos com Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Mantendo a monarquia constitucional como pedra angular do Estado, a religião anglicana como vínculo com as gerações precedentes e preservando a inigualável paisagem inglesa, povoada de pastos, quintas de família e aldeias hoje abandonadas ou desfiguradas sem remissão. Esta é a mágoa maior do filósofo doutorado pela Universidade de Cambridge e autor de Como Ser um Conservador e O Ocidente e o Resto, entre outros títulos que lhe valeram uma legião de admiradores em vários países. Também entre nós.

«A pátria não é apenas um lugar; é também o que lá acontece. Um lugar torna-se uma pátria em virtude dos hábitos que o domesticam», observa com acerto enquanto discorre sobre o carácter inglês e até sobre «o amor dos ingleses pelo absurdo». Único povo do mundo «capaz de aceitar simultaneamente a ideia de que o sagrado é uma invenção humana e a ideia de que as coisas são realmente sagradas».

Scruton fala de política, da sociedade, das leis, do idioma de Shakespeare, de autores da sua predilecção (Dickens, Conrad, Eliot, Orwell, Larkin), de múltiplos aspectos da vida quotidiana, pontuada pelo individualismo e pelo cavalheirismo. Sempre no passado, convicto do inexorável desaparecimento do torrão que lhe serviu de berço. Ressalvando, porém, que «civilizações mortas têm muito para dizer a pessoas vivas».

Nada parece toldá-lo tanto como a perda do verde cenário da sua infância. Em linguagem poética que mais lhe acentua a melancolia: «O amor de um nativo pela paisagem da sua terra é bastante diferente do turista pelas vistas. A paisagem do nosso país de origem, tanto a natural como a urbana, é iluminada pelo carácter nacional, tal como o rosto é iluminado pela alma.»

Se alguém nunca sentiu o mesmo pela exígua parcela do planeta onde nasceu e cresceu, tornou-se imune às paixões humanas. Ou nem soube que existiam.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

Sugestão 7 de 2018:

O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)

Sugestão 7 de 2019:

Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)

Sugestão 7 de 2020:

Acordo Ortográfico - Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)

Sugestão 7 de 2021:

O Silêncio, de Don DeLillo (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2022:

Diários (1950-1962), de Sylvia Plath (Relógio d'Água)

Sugestão 7 de 2023:

«O Mais Sacana Possível», de António Araújo (Tinta da China)

Dez livros para comprar na Feira

Pedro Correia, 11.06.24

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Livro seis: Canção de Rolando, de autor desconhecido

Edição E-primatur, 2024

213 páginas

 

É, desde já, um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal - na sequência do lançamento de outros títulos da E-primatur, vocacionada para a divulgação de clássicos. Poucos serão tão antigos como esta Canção de Rolando, surgida em meados do século XI e concebida por penas incógnitas para divulgação através de jograis ou trovadores em festas, romarias e justas medievais nos burgos franceses. Daí transitaram para todo o espaço europeu.

São 4002 versos octossilábicos sem rima mas semeados de aliterações que narram a epopeia de Carlos Magno (742-812) enquanto conquistador de amplas extensões de território na Península Ibérica como rei dos francos e dos lombardos numa saga que o levou a unificar grande parte da Europa Ocidental e Central. Culminaria o seu percurso bélico e político já entronizado como Imperador dos Romanos - o primeiro em três séculos - pelo Papa Leão III, em 800.

O principal marco desta narrativa em verso é a mítica batalha de Roncesvales, que opôs a retaguarda do exército de Carlos Magno, comandada pelo conde Rolando, seu sobrinho, a um vasto destacamento de forças «pagãs», assim mencionadas no texto, aludindo a sarracenos em confusa amálgama com devotos do deus Apolo auxiliados por traidores francos.

Roncesvales, localidade dos Pirenéus navarros, é hoje o primeiro marco em território espanhol para quem vem de França nas peregrinações do Caminho de Santiago. Os feitos que conduziram à morte trágica de Rolando foram-se perpetuando por gerações até ser fixado o texto definitivo deste épico, em anglo-normando, no chamado Manuscrito de Oxford, identificado em 1835. Esta é considerada a fonte mais credível entre as nove que chegaram a circular em letra impressa.

Daqui surge finalmente a Canção de Rolando em versão integral no nosso idioma, graças ao meritório trabalho dos tradutores, Amélia Vieira e Pedro Bernardo, com base no francês moderno. A obra é apresentada de forma clara, sucinta e sugestiva numa nota editorial que explica ao leitor o contexto do poema, nomeadamente a sua íntima associação ao espírito das Cruzadas, então no auge. 

As cidades e reinos concretos (Salamanca, Saragoça, Bretanha, Normandia, Dinamarca, Etiópia) mesclam-se nesta épica com lugares que derivam da pura fantasia. Numa narrativa trepidante, digna do melhor filme de aventuras - Sam Peckinpah e Quentin Tarantino gostariam de filmar muitas das cenas aqui descritas.

Rigor histórico? É o que menos importa. O Rolando de carne e osso caiu no campo de batalha, mas sobrevive através dos séculos como herói literário. Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 6 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão 6 de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humanode Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Sugestão 6 de 2021:

Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva (Contraponto)

Sugestão 6 de 2022:

O Barulho das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

Sugestão 6 de 2023:

Professor Unrat, de Henrich Mann (E-primatur)

DELITO na Feira do Livro

Pedro Correia, 09.06.24

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O livro-antologia DELITO DE OPINIÃO está disponível no espaço E-primatur/Bookbuilders da Feira do Livro de Lisboa.

No lado direito de quem sobe, a partir do Marquês de Pombal, já lá em cima. Quiosques H34, H35 e H36.

Oportunidade, também este ano, para adquirirem este nosso livro (é o da lombada amarela). Quem não conhece seguramente irá gostar.