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Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.

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Postais da Feira (2)

por Pedro Correia, em 14.06.19

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O livro do DELITO DE OPINIÃO em destaque no pavilhão da E-primatur - uma das chancelas editoriais com melhores capas no mercado livreiro português.

Estamos muito bem acompanhados, tendo por perto o icónico Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins.

 

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Política de A a Z, livro de que sou co-autor, à disposição do público no vasto quadrilátero do grupo Porto Editora. Tendo como vizinho, no andar de cima, um dos volumes de Álvaro Cunhal biografado por José Pacheco Pereira.

Hoje o tempo está enevoado, mas o sol brilhará para todos nós.

 

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Ainda no espaço da Porto Editora, o meu livro 2017 - As Frases do Ano, com chancela da Contraponto.

Deixo a fotografia só como forma de publicidade gratuita ao imprescindível Amar Depois de Amar-te, da Fátima Lopes, que está por cima, e ao imperdível Também Há Finais Felizes, da Fernanda Serrano, que está por baixo.

Salvo seja.

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Memórias de Dona Teresa

por Cristina Torrão, em 10.06.19

Estamos em tempo de Feira do Livro de Lisboa. Poucos momentos haverá, em Portugal, em que se vendam tantos livros (talvez este seja mesmo único). Aproveito, assim, para fazer um pouco de publicidade ao meu romance histórico sobre Dona Teresa, já que muito poucos sabem da sua existência.

Os leitores deste blogue que ficaram curiosos podem perguntar pelas "Memórias de Dona Teresa" nos Pavilhões onde se encontra representada a distribuidora Companhia das Artes (Pavilhões A45-A47). E não se deixem desencorajar, se quem lá estiver a servir o público diga que não conhece o livro. Insistam para que o procurem!

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«Fernando [Peres de Trava] possuía o condão de me fazer acreditar que podíamos desafiar as leis mais sagradas, como se possuíssemos feitiço que nos permitia inverter o mundo e nos fosse possível caminhar sobre o tecto, enquanto todos os outros continuavam agarrados ao chão, o que nos dava a embriagante sensação de sermos os únicos sábios num mundo de ignorantes.»

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Postais da Feira (1)

por Pedro Correia, em 08.06.19

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Mais acolhedora que nunca, excepto quando atravessamos o espaço Leya, rodeado de sensores que desatam a apitar à entrada e à saída já sem quase ninguém fazer caso. Prefiro sempre demorar-me pelos pequenos pavilhões, onde há menos aglomeração, muito menos "celebridades" e nula poluição sonora. Ali tratam os livros com justificada veneração e não como simples mercadoria.

Uma dessas tendinhas, a velha Minerva, tem um escaparate que me parece igual ao de décadas atrás, quando comecei a frequentar a Feira do Livro de Lisboa - então ainda com poiso na Avenida da Liberdade. Trago de lá O Homem do Braço de Ouro, de Nelson Algren - o romance que originou o célebre filme homónimo de Otto Preminger, protagonizado por Frank Sinatra. Literalmente em estado novo: tem as páginas por cortar.

«Dantes os livros eram assim para as pessoas ficarem com a certeza de que ainda não tinham sido lidos por ninguém», explica-me o senhor do pavilhão. Eu sorrio, por julgá-lo realmente convencido de que estava a dar-me uma novidade.

 

Fátima Lopes, a vedeta da televisão, exibe um magnífico bronzeado para impressionar basbaques que a apontam a dedo. Daniel Sampaio fala de psicologia infantil para um auditório muito atento. Jorge Silva Melo lê poemas de Sophia. Demoro-me a escutá-lo, com um fascínio antigo em dose dupla: por estes versos tocados de beleza intemporal e pela arte da declamação, apenas ao alcance de alguns eleitos.

Na primeira fila da assistência, Maria, filha mais velha da autora do vibrante Livro Sexto.  Folheei há dias uma biografia recém-surgida de Sophia, escrita em acordês e com pelo menos um erro de datação que logo detectei numa legenda. A biógrafa chama-lhe, cansativamente, «a poeta». Indigno-me com este absurdo banimento da palavra poetisa - sempre a associei a pitonisa - que alguns adoptaram, correndo desenfreados atrás da norma brasileira.

 

Este ano, na Feira, anda tudo muito "biológico" e "natural". Sugerem-me um copinho de chá gelado, infusão de ervas com "limão da Sicília" que acho refrescante. Mais adiante, um pacotinho com quatro cenouras, para roer, à Bugs Bunny: «Faz-lhe bem», garante-me a morena de sorriso rasgado. A avaliar por ela, deve fartar-se de comer cenoura.

O calor aperta, a sede desperta. Duas donzelas ali postas em desassossego queixam-se da «falta de consciência ambiental» da Câmara de Lisboa, que autoriza a venda ao público de água em garrafas de plástico. É a fruta da época: há dois anos andava tudo aos berros contra o eucalipto, este ano berra-se desalmadamente contra o plástico.

A meia-dúzia de passos há um bebedouro, daqueles antigos: dá-se à manivela e jorra água, fresca e reconfortante. Bebo com gosto e, tendo-lhes ouvido os insistentes queixumes, sugiro às donzelas esta tradicional maneira de matar a sede. Rejeitam, desdenhosas: «Água da torneira, nem pensar.» Volto a sorrir: eis desvendada a genuína «consciência ambiental» destas betinhas, prováveis votantes do PAN.

 

E o que trago de três incursões já consumadas às alamedas do Parque?

Um Amor Feliz, romance único de David Mourão-Ferreira, autor que hoje só encontramos entre alfarrábios: foi banido, tal como a bela palavra poetisa. Como sucedeu com outros escritores de vetusta nomeada: basta lembrar Luís de Sttau Monteiro, que desapareceu das estantes, talvez por ser politicamente incorrecto, sujeito ao apertado crivo do cânone actual.

Romances para ler não apenas nas férias que se aproximam mas durante o ano inteiro: Oficiais e Cavalheiros, de Evelyn Waugh; O Outro Eu, de Daphne du Maurier; Passa Lá um Rio, de Norman Maclean; Arquipélago, do Joel Neto (que está a dever-me um texto para o DELITO). Teatro: Pigmalião, de George Bernard Shaw. Poesia: Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal, que não se limita a escrever bem - é também uma excelente declamadora. Crónicas de Jorge Silva Melo (coincidência) reunidas na Cotovia sob um título feliz: A Mesa Está Posta. Espero que me dêem tanto prazer como me deu uma anterior recolha de textos dele, com a mesma chancela editorial: Século Passado.

Escrever bem, para mim, é isto.

 

Trago ainda, quase com júbilo clandestino, A Torre da Barbela, de Ruben A - outro autor que parece proscrito nestes dias em que meio mundo anda a roer cenouras biológicas, come "hamburgers" veganos, faz odes de louvor ao tofu e sorve infusões - mas sem a temível palhinha, também quase em vias de interdição.

Regresso do Parque Eduardo VII com uma mochila cheia de livros. E esta dúvida existencial: porque chamaremos "palhinha" a algo que não é feito de palha? Soa-me a burrice, mas nesta era de fervor animalista soa mal atribuir conotações depreciativas à bicharada. Se calhar até já com direito a coima. Vou calar-me: assim evito fazer figura de urso.

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Feira do Livro: nove sugestões

por Pedro Correia, em 01.06.19

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1. O FUNDO DA GAVETA, Vasco Pulido Valente

«Um título com sentido duplo: não apenas alude ao facto de incluir dois ensaios, escritos desde 1989 e até hoje inéditos, mas funciona também como metáfora de um certo destino português.»

 

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2. A LÍNGUA RESGATADA, Elias Canetti

«O centro do mundo visto pelo olhar de uma criança tornada adolescente com maturidade precoce: assim pode ser resumida esta envolvente autobiografia, inicialmente publicada em 1977.»

 

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3. LÁ FORA, Pedro Mexia

«Mexia tem características inconfundíveis: uma irrepreensível elegância formal, sem concessões aos coloquialismos de turno; uma erudição que jamais se confunde com exibicionismo; um olhar interessado e atento ao “desconcerto do mundo”.»

 

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4. DOIS PAÍSES, UM SISTEMA, Rui Ramos e outros

«Fascinante digressão por essas décadas irrepetíveis da monarquia constitucional, iniciada na década de 20 do século XIX, com a revolução liberal do Porto, e só terminada em 1910, quando o último Rei português, D. Manuel II, foi deposto pela insurreição republicana.»

 

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5. JÚLIO DE MELO FOGAÇA, Adelino Cunha

«Quando saiu enfim em liberdade, quatro anos antes da Revolução dos Cravos, estava alquebrado pela velhice prematura e pela exclusão política e social. Perdera o PCP, sua família de substituição.»

 

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6. COMO SER UM CONSERVADOR, Roger Scruton

«Ser conservador é, essencialmente, um estado de espírito. Impulsionado pelo nosso instinto de preservação e alicerçado na convicção de que é inútil dissipar energias na mudança do que funciona bem. Que é quase sempre mais do que parece.»

 

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7. UM FUTURO DE FÉ, Papa Francisco

«Revela-nos um Papa que na Argentina natal sentiu necessidade de fazer psicanálise. Que fala de Platão, Hegel e Dostoievski. Que menciona filmes como Tempos Modernos e A Festa de Babette. Que se comove ao ver o quadro A Conversão de São Francisco, de Caravaggio.»

 

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8. PORTUGAL CONTEMPORÂNEO, Oliveira Martins

«É um monumento, equivalente naquilo que hoje se convencionou chamar escrita de “não-ficção” a esse ponto cimeiro do romance intitulado Os Maias. Não por acaso, Joaquim Pedro Oliveira Martins e Eça de Queiroz eram amigos, companheiros de geração e de múltiplas tertúlias (sob o lema Vencidos da Vida), além de cúmplices no essencial das ideias.»

 

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9. LA LLAMADA DE LA TRIBU, Mario Vargas Llosa

«Afastado das cartilhas que o empolgaram na juventude, Vargas Llosa insurge-se hoje contra a ascensão – com novo nomes – do velho "espírito tribal, fonte do nacionalismo", que foi, a par do fanatismo religioso, uma das causas dos mais sangrentos morticínios que a História registou.»

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 11.06.18

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Livro dez: Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias

Edição D. Quixote, 2018

287 páginas

 

Num país onde é cada vez mais invulgar a edição de livros sobre filmes, esta excepção à regra já seria uma boa notícia. Acontece que se trata de um excelente guia sobre cem longas-metragens estreadas no século XXI, o que reforça a satisfação do leitor cinéfilo. Mais: é uma obra muito bem escrita, com rara elegância e atenção aos detalhes, ainda por cima sem mutilar consoantes - justificando destaque também por isso.

Joana Amaral Dias gosta de cinema, tem uma vasta cultura fílmica e fornece-nos peculiares pistas de análise, reforçando-nos a vontade de ver ou rever cada película aqui destacada. São de géneros muito diferentes, das mais diversas origens, e ultrapassam largamente os chamados blockbusters que hoje quase monopolizam as atenções daquilo a que antes costumávamos chamar crítica mas que há muito se rendeu à pressão publicitária.

Psicóloga de profissão, a autora recorre com frequência à bagagem científica para conferir um toque adicional de originalidade à sua visão cinéfila, aqui repartida por dez capítulos temáticos: "O cinema de guerra, terror e dor"; "Amar no século XXI: bebés, vampiros & lagostas"; "Seja um animal & prove que não é um robô"; "Filmes falantes - o cinema do século XXI sobre o século XX"; "Crise e a cultura maníaca do novo milénio"; "Apocalipses, distopias, super-heróis & muitos zombies"; "Politicamente insurrectos - clichês, estereótipos e linguagem"; "Os media têm efeitos especiais?"; "Cinema sonho" e "Terá o cinema um final feliz? O cinema, as outras artes e o século XXII".

Por aqui passam, naturalmente, vários filmes da minha vida. E das vidas de tantos de nós. Cito alguns: Disponível Para Amar, Fala Com Ela, Cidade de Deus, Antes que o Diabo Saiba que Morreste, Estado de Guerra, A Troca, Amor, Nebraska, Birdman, Manchester by the Sea

«Pensar os filmes é ganhar perspectiva sobre as pessoas e a sociedade. Os filmes são janelas, janelas espelhadas sobre e da comunidade, que permitem olhá-la mas, simultaneamente, reflectem-na. Reflectem-nos.» Palavras de Joana Amaral Dias na introdução àquilo a que chama o seu "quarto escuro".

Poucas vezes uma escuridão nos terá iluminado tanto.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

 

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 09.06.18

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Livro nove: Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla

Edição Sibila, 2017

236 páginas

 

É um erro remetermos a prosa jornalística para a gaveta dos textos efémeros. Desde logo porque o jornalismo é «o primeiro rascunho da História», na certeira definição de um antigo director da revista Time, Phil Graham. E também porque alguns dos maiores escritores de sempre passaram pelo jornalismo e deveram a esta aprendizagem da «mais bela profissão do mundo», como dizia Albert Camus, muito do que lhes viria a ser útil nos seus livros - desde a técnica de escrita à consolidação das rotinas de trabalho, passando pelo indispensável olhar atento à realidade circundante. Gigantes da literatura como Balzac, Poe, Dickens, Twain, Eça, Chesterton, Hemingway, Orwell, Greene, García Márquez, Vargas Llosa e o próprio Camus experimentaram o jornalismo profissional antes de se consagrarem em exclusivo à escrita literária.

Os melhores textos jornalísticos sobrevivem largamente à circunstância que os viu nascer. Textos de Nelson Rodrigues ou Luís Fernando Veríssimo no Brasil, de Rosa Montero ou Manuel Vásquez Montalbán em Espanha, de Rodrigues Miguéis ou José Saramago em Portugal.

Pensei nisto enquanto lia uma das mais surpreendentes obras que me passou pelas mãos nos últimos meses - precisamente uma recolha de textos jornalísticos de Maria Antónia Palla, quase todos publicados na extinta revista O Século Ilustrado, de excelente memória. Aqui pulsa o quotidiano amargo de um certo Portugal que tende a eternizar-se, onde a compaixão pelos mais fracos e pelos que mais sofrem é genuína e não postiça, onde uma era que ainda muitos de nós vivemos ressurge documentada em carne viva.

É um conjunto de reportagens publicadas entre 1970 e 1979, reunidas originalmente em livro pela Bertrand em 1979 e em boa hora relançadas, numa nova chancela editorial que junta dois textos inéditos, escritos em datas posteriores, e conta com um bom prefácio de Helena Matos, que nos chama a atenção para o facto de estas histórias de violência serem protagonizadas ou sofridas por mulheres, jovens e crianças. Num evidente desmentido à falácia dos "brandos costumes" que supostamente nos caracterizam.

Cada texto é uma espécie de murro no estômago do leitor - testemunho de época, num país em que perduravam fortíssimas marcas rurais, a pobreza era endémica e a guerra em África ainda se divisava no horizonte. Mas é também um alerta para situações que não pertencem apenas ao passado. A menina que desapareceu e é encontrada dias depois, num silvado, com sinais de ter sido assassinada. A idosa violentada por um rapazola alcoolizado. O jovem homossexual algarvio que se terá suicidado numa prisão de Huelva. A filha de uma prostituta morta à patada pelo companheiro da própria mãe. A rapariga abandonada que asfixia o bebé que acabara de dar à luz.

Retalhos de um país sombrio, em perfeito contraste com as vidas bonitas e esplendorosas que costumam fazer manchetes. Ao contrário do que Chico Buarque canta, aqui a dor da gente saiu mesmo no jornal. Agora regressa já como literatura. Vai perdurar, estou certo disso.

 

Sugestão 9 de 2016:

Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)

 

Sugestão 9 de 2017:

Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 08.06.18

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Livro oito: Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido

Edição Contraponto, 2018

215 páginas

 

O colapso do sistema financeiro português na última década apanhou desprevenidos quase todos os nossos especialistas da imprensa econímica. Foram raros - excepções honrosas - aqueles que souberam prevenir em tempo útil a opinião pública sobre os sérios riscos que o País corria, entregue à ganância de uns e à incompetência de outros, com a cumplicidade de um poder político que não olhava a meios para atingir os fins.

Helena Garrido esteve entre aqueles que souberam interpretar os sinais, separando o trigo do joio. Sem entoar hossanas aos protagonistas dos poderes fácticos de turno. Tem agora, portanto, autoridade moral para recapitular pormenores do despudorado assalto à banca cometido por uma turba de comissários políticos travestidos de gestores. Já o tinha feito num livro anterior, intitulado A Vida e a Morte dos Nossos Bancos. Prossegue a empreitada com Quem Meteu a Mão na Caixa, surgido nos escaparates há poucas semanas.

Nome feliz para retratar uma infelicíssima realidade: aqui se disseca uma «história que envergonha o País», como assinala o subtítulo da obra assinada pela experiente jornalista que passou pelas direcções do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios. Banco público, a Caixa Geral de Depósitos foi pasto de jogos políticos e empresariais que quase a conduziram à ruína.

Esta obra tem, desde logo, a enorme vantagem de chamar as coisas pelos seus nomes: basta esta garantia para o leitor saber que não lhe é servido gato por lebre. Helena Garrido diz ao que vem nas linhas iniciais: «Na recente história da Caixa há de tudo. Credora discreta de homens sem dinheiro que “querem” ser donos de grandes negócios. Investidora em projectos de “interesse nacional”. Accionista nos bastidores a dar palco aos defensores dos “centros de decisão nacional”. Canal de dinheiro para viabilizar “investimento directo estrangeiro”. Financiadora de especuladores bolsistas e imobiliários. Centro de empregos, influência e poder dos governos.»

Dá que pensar: isto é serviço público, na medida em que funciona como um poderoso alerta cívico. Para evitarmos que os mesmos erros lapidares e os mesmos inaceitáveis ilícitos possam repetir-se outra vez.

 

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

 

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 07.06.18

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Livro sete: O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven

Tradução de Manuela Gomes

Edição Antígona, 2014

235 páginas

 

O cenário é o mesmo em todos os contos: o pobre México rural de meados do século XX, mergulhado nas suas angústias, nas suas crenças rudimentares, na sua singeleza, na sua capacidade de fazer das fraquezas força. O autor é um dos mais misteriosos de que há memória - ao ponto de a sua existência real ter sido posta em causa. Não faltou quem especulasse que B. Traven seria pseudónimo de Jack London ou Ambrose Bierce, por exemplo. Soube-se mais tarde que se tratava de um antigo revolucionário germânico, Ret Marut, que se viu forçado a mudar de país e de continente em 1919, após a malograda tentativa de implantar na Alemanha uma revolução em tudo idêntica à soviética. Mas só houve certezas quando morreu aos 87 anos, em 1969, na Cidade do México e as suas cinzas foram dispersas pelo Rio Chiapas.

No país adoptivo, o anarquista Marut adoptou o pseudónimo literário e passou a viver numa espécie de clandestinidade perpétua, que nem a inesperada popularidade de uma das suas obras literárias, O Tesouro da Sierra Madre, conseguiu modificar. Reza a lenda que terá acompanhado a rodagem do filme homónimo como tradutor do cineasta John Huston, galardoado em 1949 com o Óscar de melhor realizador - enquanto o pai, Walter Huston, recebia a estatueta para melhor actor secundário pela mesma película, rodada no México com Humphrey Bogart como protagonista.

Aventureiro na vida, Traven soube povoar a sua ficção de personagens tão aventureiras como ele. Dispostas a sacrificar conforto, tranquilidade e segurança em nome de causas ou crenças à medida dos seus sonhos, mesmo com risco da própria vida – como estas narrativas documentam. Leia-se o conto que dá nome ao livro, por exemplo. Ou histórias como Na Ausência do Padre, Macario e Amizade. Pequenas obras-primas capazes de empolgar-nos, indignar-nos ou comover-nos. Nenhuma nos deixa indiferente: eis um dos maiores elogios que pode ser feito a qualquer escritor.

 

Sugestão 7 de 2016:

O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água)

 

Sugestão 7 de 2017:

1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 06.06.18

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Livro seis: Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho

Edição Porto Editora, 2015

275 páginas

 

Confesso-vos: este é um dos livros que mais prazer me proporcionaram no último ano. Tem todos os atributos a que Mário de Carvalho já nos habituou, desde logo na sua ficção, e um suplemento de originalidade que suplanta as nossas melhores expectativas.

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão – o título é um verdadeiro achado – aparenta ser um manual de escrita de ficção, destinado àqueles que sonham ser romancistas. Quase em jeito de paródia desses opúsculos de “escrita criativa” que pululam no nosso mercado editorial e se propõem transformar água em vinho como Jesus nas bodas de Caná.

Geralmente, as aparências iludem. Mas Mário de Carvalho leva a tarefa a sério. Sem, contudo, se levar demasiado a sério, o que aliás é característico da sua forma de estar. Na vida e na literatura.

O que nos oferece então? Numa espécie de diálogo permanente com o leitor, em capítulos polvilhados de suave ironia, discorre com vagar sobre os desafios da escrita e a capacidade que ela tem para nos transformar por dentro: «A boa literatura liberta.» Tendo a precaução de nos alertar que «boa parte dos grandes romances cimeiros da história da literatura começaram por ser publicados, periodicamente, em folhetim». Eis outra forma de nos confidenciar que estas empreitadas não são irrealizáveis, como às vezes parecem.

De caminho vai-nos falando um pouco de si próprio, dos seus gostos (e alguns desgostos) literários. Sem prosápia de erudito nem a menor tentativa de nos iludir com assomos de sabença postiça, estabelecendo uma singular relação de cumplicidade com quem o acompanha, parágrafo após parágrafo.

Nem sempre parece, mas é um ensaio – aliás justamente galardoado com o Prémio PEN Clube de Ensaio em 2015. No fim, podemos continuar sem saber ao certo como escrever um romance, mas adquirimos a noção exacta de tudo quanto não devemos fazer para concretizar tal meta. E ficamos gratos ao autor por nos ter fornecido excelentes pistas de leitura. Eis a lição fundamental: para escrever bem há que consagrar muitas horas à leitura.

Ler Mário de Carvalho, por exemplo: é um dos raros que conseguem conciliar a densidade do tema com a leveza do estilo. Tendo sempre atenção às minudências. De resto, como sublinha, «o pormenor é essencial em literatura». Aprendam com ele.

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

 

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 05.06.18

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Livro cinco: Octaedro, de Julio Cortázar

Tradução de Isabel Pettermann

Edição Cavalo de Ferro, 2017

125 páginas

 

Cortázar (1914-1984), escritor argentino nascido na Bélgica e naturalizado francês, verdadeiro cidadão do mundo, é um mestre da narrativa breve - ao nível de um Tchekov, de um Maupassant ou do seu compatriota Borges. Vários dos seus contos foram adaptados ao cinema, como Las Babas del Diablo, que originou Blow-Up, de Michelangelo Antonioni (1966), ou La Autopista del Sur, transposto para a Sétima Arte por Jean-Luc Godard sob o título Week End (1967).

O título desta breve colectânea com chancela da Cavalo de Ferro - editora que tem vindo a publicar a obra completa de Cortázar, incluindo títulos inéditos no mercado português, como este - é bem ilustrativo da escrita deste prosador que concebia a escrita à semelhança de uma construção geométrica tão elegante e tão complexa como um octaedro, com as suas oito faces triangulares, as suas 12 arestas e os seus seis vértices.

Oito histórias fragmentadas no tempo e no espaço, permitindo múltiplas leituras, interpelando o leitor, convidando-o a decifrar todos os veios da delicada arte de transmitir emoções através da escrita sem concessões ao estereótipo ou à vulgaridade.

Histórias como Liliana a Chorar, em que o narrador imagina as reacções de vários daqueles que lhe são mais próximos após a sua própria morte, aliás iminente; ou Verão, onde temores ancestrais se infiltram no banalíssimo quotidiano de um casal sem filhos, conduzindo-os a uma atribulada viagem ao fim da noite; ou Manuscrito Encontrado num Bolso, em que uma simples digressão de metropolitano em Paris, com as imagens de vultos projectadas nas vidraças da carruagem, gera imprevistas reminiscências no subconsciente do protagonista. 

«A ti, que me lês, nunca te aconteceu uma coisa começar num sonho e voltar em muitos sonhos mas não é aquilo, não é apenas um sonho?», questiona-nos Cortázar. É isto mesmo: de literatura se trata. 

 

 

Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d' Água)

 

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.18

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Livro quatro: Não Respire, de Pedro Rolo Duarte

Edição Manuscrito, 2018

295 páginas

 

Pedro Rolo Duarte (1964-2017) foi sempre um homem da palavra. Escrita e oral. Deixou-nos um legado precioso em páginas do melhor jornalismo português, impresso em publicações como o semanário O Independente, a revista Capa e o suplemento DNa, do Diário de Notícias. Foi também um profissional conceituado aos microfones da rádio ou nos estúdios da televisão. Partiu demasiado cedo, há seis meses, vítima de cancro no pulmão. Mas teve tempo de transmitir este precioso legado em forma de livro a todos nós, que o admirávamos como figura de referência nos diversos palcos da comunicação.

Não Respire é obra de evocações várias, tanto no plano pessoal como profissional, de um homem que atravessou três décadas de jornalismo. Viu muito, ouviu muito, aprendeu muito, transmitiu muito do que sabia, cultivou amores, suscitou paixões, sofreu na pele invejas e rancores. Tudo próprio de alguém que não passa pela vida com indiferença.

Nestas páginas que de algum modo lhe servem de testamento, transporta-nos a grande parte do seu trajecto profissional, inseparável em larga medida do seu percurso biográfico. Sem ocultar o drama da doença, que aliás serviu como detonador imediato para o livro. Vem logo num dos parágrafos de abertura, em que recorda estas palavras que soavam como diagnóstico fatal: «Pedro, não são boas notícias, confirma-se: tem um tumor no pulmão. No estádio III. O estádio IV é o último.» Seguimos com ele nestes dias dolorosos: «Começo a perceber o que significa a palavra estigma. Parece que fui colocado numa prateleira: a das pessoas que "estão doentes". Não têm gripe, nem pneumonia, nem hepatite - estão. Vá lá que ainda não são. Mas estão.»

Foram treze meses de luta contra o cancro. Também treze meses de elaboração deste singular volume de memórias que talvez outros aproveitassem como veículo para ajustar contas com terceiros ou com o próprio destino, mas que Rolo Duarte elege afinal como perdurável e comovente celebração da vida.

 

 

Sugestão 4 de 2016:

Páginas de Melancolia e Contentamento, de António Sousa Homem (Bertrand)

 

Sugestão 4 de 2017:

Os Filipes, de António Borges Coelho (Caminho)

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Temos um vizinho chamado Platão

por Pedro Correia, em 03.06.18

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Num pavilhão da Feira do Livro, só com obras em segunda ou terceira mão, uma livreira insiste em impingir-me uma treta alegadamente escrita por José Sócrates integrada num pacote "leve dois volumes por cinco euros". Respondo de imediato: «Isso nem de borla levaria.» Várias pessoas em redor exprimem concordância. Vale o que vale, como os políticos costumam dizer das sondagens. 

Deixo a tal treta inerte no escaparate e trago O Último Imperador, de Edward Behr, e A Ponte, de Manfred Gregor: nada mal, por cinco euritos.

 

Como de costume, todos os anos, venho da Feira com a mochila carregada. Com obras de Paul Auster (4321), Evelyn Waugh (Enviado Especial), Karen Blixen (África Minha), Stephen Crane (A Insígnia Vermelha da Coragem), Javier Marías (Negras Costas do Tempo), Branquinho da Fonseca (Rio Turvo), Henry Fielding (Tom Jones) e Elias Canetti (As Vozes de Marraquexe). 

Como sempre também, encontro muita gente conhecida: Júlio Isidro, Francisco Moita Flores, António Araújo, Fernando Sobral, Joaquim Vieira, Maria Inês Almeida, Carlos Rodrigues Lima, Rogério Beltrão Coelho, Margarida Balseiro Lopes. Passa Nuno Artur Silva, em ritmo lento. E Ricardo Araújo Pereira, em trote acelerado, deixando para trás vários suspiros femininos que certamente já não escutou. 

 

Lá em cima à direita, no quarteirão do Grupo Leya, acumula-se uma multidão dentro da multidão: é a fila de admiradores de António Lobo Antunes: o romancista, de caneta na mão, assiste impávido ao desfile de fãs.

O "meu" território encontra-se no quadrante oposto, em baixo à esquerda. O quarteirão da Porto Editora, onde é sempre um prazer cavaquear com o Francisco José Viegas e o Rui Couceiro.

Numa fileira de autores, descobrimo-nos seis tristes adeptos do Sporting (não contabilizo o Francisco, que tem duas costelas leoninas). O mais procurado para autógrafos é Jaime Nogueira Pinto, ali presente com uma reedição do seu Salazar Visto Pelos Seus: qualquer livro com Salazar na capa é sucesso de vendas - seja mau ou seja bom. Este é dos bons.

 

Reparo que a poucos metros está Luis Sepúlveda, compenetrado a autografar várias obras. Pego num exemplar de Patagónia Express, peço-lhe uma dedicatória com determinado nome feminino - oferta especial.

Sepúlveda é o mais "português" dos escritores chilenos: sempre lhe admirei a escrita depurada. Sei bem como é difícil escrever de forma clara, legível e aparentemente simples.

 

Cruzo-me quatro vezes com o embaixador Seixas da Costa, co-prefaciador do mais belo livro em exposição na Feira. E nem de propósito: lá surge ela, a colectânea do DELITO DE OPINIÃO, no tranquilo pavilhão da E-primatur. 

Está muito bem acompanhada: ao lado da República, de Platão. Discípulo de Sócrates - do outro, do genuíno. Há uma diferença abissal entre Platão e Carlos Santos Silva. Desde logo em termos financeiros: não consta sequer que o autor de República tivesse conta bancária.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 03.06.18

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Livro três: Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares

Edição Clube do Autor, 2018

362 páginas

 

Não há segunda oportunidade para uma primeira impressão. Este é um livro que nos conquista logo à primeira. Desde logo pelo originalíssimo título, que é um achado. Refere-se à merenda que o pequeno Miguel comia em casa dos padrinhos, numa aldeia do Marão onde frequentou os dois anos iniciais do ensino básico. Ali aprendeu lições para a vida que desfia neste saboroso volume de memórias, subintitulado "Da Infância Para o Mundo".

É talvez o melhor livro deste jornalista que foi infatigável viajante antes de se tornar escritor. Um livro escrito com visível prazer e indisfarçável vontade de eleger o leitor como cúmplice. Fala-nos de um Portugal que já não existe - o Portugal triste e ensimesmado da ditadura, o Portugal festivo do 25 de Abril, o Portugal alucinado do PREC, o Portugal errático mas transbordante de esperança da primeira década em democracia.

Ao contrário do que costuma suceder entre nós, onde as memórias partilhadas em público são escassas e as recordações surgem embargadas entre biombos para não melindrar terceiros, aqui o autor liberta-se de eufemismos e não se furta a fazer desfilar nestas páginas personalidades com nome próprio. Por vezes com episódios divertidíssimos, como quando Mário Soares e Maria Barroso adormeceram durante uma projecção caseira de Lawrence da Arábia na residência algarvia, deixando embaraçadíssimo Sousa Tavares, que ali estava como visitante. Ou o director do defunto jornal A Luta, o socialista Raul Rego, que todos os dias encomendava um bitoque para almoçar à mesma hora, fechado no gabinete, e só aparecia na Redacção para berrar com um chefe depois de Soares ter berrado com ele por não gostar da suposta manchete do dia seguinte. Ou da mãe do cineasta João César Monteiro, «ainda mais doida do que ele», que apareceu um dia lá em casa chorando porque o filho tinha morrido «e ela não tinha dinheiro para o funeral», arrancando lágrimas - e dinheiro - a toda a família. «No dia seguinte, sem nada saber da própria morte, aparece-nos o morto, ressuscitado, a pedir almoço.»

Algumas das melhores páginas desta memórias que se lêem de um jacto são dedicadas aos pais. Sobretudo à mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen, que lhe legou máximas inesquecíveis. Eis uma delas: «Viajar é olhar.» Miguel, justamente comovido, confidencia-nos: «Também aprendi com ela que saber partilhar o silêncio é a forma mais íntima de estar com alguém. E, na verdade, por maior que seja o silêncio, nunca deixou de falar comigo. Quanto mais não seja nos poemas que deixou nas páginas dos seus livros, alguns dos quais escrevi nas paredes da minha casa para que ela saiba que continuo a escutá-la.»

 

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

 

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras):

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 02.06.18

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Livro dois: Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís

Edição Relógio d' Água, 2017

150 páginas

 

Foi um dos acontecimentos literários da mais recente temporária literária em Portugal. O primeiro romance de Agustina Bessa-Luís - escrito ao 19 anos, entre Agosto e Outubro de 1942, na quinta da famíllia em Godim, na Régua, junto ao Douro - passou enfim ao prelo, com a chancela da editora que promete lançar a sua obra completa, dando cumprimento a uma meta antes traçada pela Babel, sem resultado palpável.

Agustina, romancista maior, já revela nesta obra de aprendizagem alguns dos seus traços essenciais. Desde logo a inclusão dos protagonistas em espaços mentais herméticos, mesmo quando inseridas em cenários naturais de horizontes largos, como acontece neste livro onde os ecos remotos da II Guerra Mundial chegam ao espaço rural onde se movimentam figuras da burguesia citadina ali em férias – sem o deslumbramento que o Jacinto de Eça sentiu ao descobrir Tormes.

Quando a corrente neo-realista impunha a sua particular visão do mundo, baseada em conflitos sociais, a jovem Agustina descrevia uma sociedade também muito estratificada – patente até nas marcas da oralidade de cada personagem – mas crivada de agrestes conflitos emocionais e pela atrofiada condição feminina, sujeita à moral do tempo.

A escritora tentou editá-lo na altura, sem sucesso, com o pseudónimo Maria Ordoñez. E logo rumou a outros textos de ficção, deixando o manuscrito juvenil de parte. Durante décadas.

«Este romance apareceu em 1976, quando a casa do Douro foi vendida e tive de a esvaziar de tudo o que gerações guardaram. Apareceu no fundo de uma mala de porão, entre maços de cartas de familiares de Zamora, e fotografias de afilhados esquecidos pelo mundo.» Palavras da filha, Mónica Baldaque, no imprescindível prefácio que nos introduz nestes Deuses de Barro.

Obra imperfeita, sim. Mas que merece leitura atenta. Para avaliarmos a carpintaria técnica e o imaginário de uma autora que viria a legar-nos A Sibila e Os Meninos de Ouro. Sempre com voz própria – incómoda e sedutora, desde logo também por isso.

 

 

Sugestão 2 de 2016:

Nada, de Carmen Laforet (Cavalo de Ferro)

 

Sugestão 2 de 2017:

Singularidades, de A. M. Pires Cabral (Cotovia)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 01.06.18

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Livro um: Delito de Opinião, de vários autores

Edição Bookbuilders, 2018

244 páginas

 

Perdoem-me a imodéstia, mas tenho vontade de começar o meu naipe de sugestões para a Feira do Livro de Lisboa com o livro do DELITO. Uma obra que resulta da vontade conjugada de 16 autores deste blogue e também da adesão pronta e calorosa dos leitores, que nos acompanham há quase dez anos.

Este DELITO passado a livro é uma recolha de alguns dos melhores textos aqui difundidos em primeira mão, segundo as opções dos autores que aceitaram integrar esta colectânea: Adolfo Mesquita Nunes, Ana Cláudia Vicente, Ana Vidal, Diogo Noivo, Francisca Prieto, Joana Nave, José Bandeira, José Gomes André, José Navarro de Andrade, Leonor Barros, Luís Naves, Patrícia Reis, Rui Rocha, Sérgio de Almeida Correia e Teresa Ribeiro. Além de mim próprio e do meu querido amigo e compadre João Carvalho, um dos fundadores do blogue, infelizmente falecido em 2013.

Sou insuspeito para me pronunciar sobre esta antologia, que andou a ser preparada durante um par de anos e resultou da subscrição antecipada de quase duas centenas de visitantes regulares do DELITO, muitos dos quais não conheço pessoalmente mas a quem aproveito para reiterar o agradecimento, em nome de toda a tribo que aqui participa com maior ou menor regularidade.

Abro portanto caminho a três olhares insuspeitos: os de Ferreira Fernandes e Francisco Seixas da Costa (que assinam os prefácios) e João Taborda da Gama (autor do posfácio).

O DELITO, observa o director do Diário de Notícias, é «um blogue resistente e vivo». Que «sempre funcionou como uma janela sobre um país digital que me era alheio», revela o embaixador e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Enfim, um «colectivo multiforme, não só política, sobretudo para lá da política», conclui o advogado e ex-secretário de Estado da Administração Local.

Espero que gostem tanto de o ler como nós gostámos de o escrever.

 

 

Sugestão 1 de 2016:

O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)

 

Sugestão 1 de 2017:

A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)

 

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Na Feira do Livro de Lisboa

por Pedro Correia, em 30.05.18

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Tinha prometido dar a notícia. Aqui fica, a pedido de vários leitores do blogue: o nosso livro DELITO DE OPINIÃO está já distribuído nas diversas livrarias dos grupos Bertrand, Leya, Almedina e El Corte Inglés. Podendo igualmente ser adquirido num largo número de pequenas livrarias espalhadas pelo País.

A nossa colectânea está igualmente disponível na Feira do Livro de Lisboa, nada menos do que em três pavilhões: D66, D68 e D70. E também irá ao Porto. Em devido tempo darei mais pormenores.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 10.06.17

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 Livro dez: Santos e Milagres, de Alexandre Borges

Edição Casa das Letras, 2017

287 páginas

 

De múltiplas histórias é feita a História. Para transmiti-las aos contemporâneos não basta o domínios dos factos: é também fundamental ter o dom da narração e um perfeito conhecimento deste nosso idioma, sedimentado ao longo de séculos. Importa ainda revelar alguma adesão emocional ao tema que se aborda, característica sem a qual a narração se torna árida e estéril.

Alexandre Borges – investigador, argumentista, licenciado em Filosofia – supera com distinção todas as provas atrás descritas neste seu mais recente livro, Santos e Milagres. Uma obra que, logo na capa, assume perante os leitores o solene compromisso de lhes proporcionar “uma história portuguesa de Deus”. E cumpre a promessa: aqui desfilam figuras em destaque ao longo de vinte séculos de cristianismo – todas de algum modo ligadas a este pedaço de chão no recanto mais ocidental da Europa hoje chamado Portugal, que só ascendeu à independência devido à íntima ligação entre o trono e o altar. Um elo que sempre nos serviu de senha de identidade.

Por estas páginas passam remotos protagonistas, alguns provavelmente mais lenda que facto: São Manços, São Torpes, São Vítor, São Vicente (hoje padroeiro da diocese de Lisboa), São Martinho de Dume, São Frutuoso, Santa Senhorinha, São Geraldo. Não faltam os santos nascidos ou radicados neste reino já independente: Santo António, a Rainha Santa Isabel, o Santo Condestável. Sem esquecer São Teotónio, conselheiro espiritual de D. Afonso Henriques: “Se um foi o primeiro rei de Portugal, o outro foi o primeiro santo. Nasceram portucalenses, morreram portugueses. Poder temporal e poder espiritual. A espada e a cruz que fundaram um dos mais antigos estados-nação do mundo.”

Dos últimos séculos, destacam-se São João de Deus, São Gonçalo Garcia (luso-indiano mártir em Nagasáqui), São João de Brito e – no capítulo final, intitulado “O Tempo de Agora” – os videntes de Fátima, dois dos quais acabam de ser elevados aos altares pelo Papa Francisco.

É um livro que sente o que descreve – e de poucos podemos hoje garantir o mesmo de forma tão categórica. Sem intuitos de catequização ou proselitismo. Dirigindo-se em simultâneo a leitores que acreditam ou duvidam, como fica evidente nas seguintes palavras do capítulo final que bem podiam aplicar-se a quem procurar esta obra: “Fátima não é dogma de fé. Muitos católicos não acreditam em Fátima – e muitos não católicos acreditam em Fátima. (…) Visitam o santuário todos os anos cinco milhões de peregrinos, oriundos de toda a parte. Católicos e de outras confissões. Crentes e ateus. Só cada um deles sabe o que o traz ali.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 09.06.17

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 Livro nove: Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke

Tradução de Isabel Castro Silva

Edição Ítaca, 2017

117 páginas

 

O que mais impressiona nesta obra de estreia em prosa do grande escritor de expressão germânica nascido no Império Austro-Húngaro é a plena maturidade do seu conteúdo, dado à estampa em 1898, quando o autor mal completara 22 anos. Ao Largo da Vida – pequeno volume de “novelas e esboços” em que apenas um dos textos se poderá considerar novela e os restantes são contos, aliás magníficos – propicia-nos personagens confrontadas com a dor, a doença, o luto, a velhice e a morte. Temas que se esperariam de um livro redigido por alguém com uma idade bastante mais avançada.

Seria talvez a sua sensibilidade poética a falar por ele: Rainer Maria Rilke foi acima de tudo um poeta, mesmo quando escrevia em prosa, como esta obra até agora inédita no mercado editorial português bem demonstra. De resto, a tradução merece elogio por respeitar o mais possível a musicalidade da escrita – sempre complexa, por mais simples que pareça.

Diz-se que o poeta não só sente: também pressente. Pressentiria o ainda tão jovem Rilke – falecido em 1926, com apenas 51 anos – que metade da sua vida estava já quase cumprida no momento em que escrevia estes “esboços” marcados por uma mágoa tão serena e luminosa?

A pergunta faz sentido ao lermos Festa em Família, onde somos introduzidos numa velha casa onde quase todas as cadeiras estão associadas a um óbito. Ou ao conhecermos a amargura de uma mãe servindo talvez a última chávena de chá ao filho acamado devido a uma grave doença cardíaca. Ou ao acompanharmos a revolta interior de um jovem de pernas paralisadas que passa os seus dias a talhar imagens da Virgem Maria com o rosto de uma inacessível mulher terrena. Ou ao lermos esse conto simplesmente intitulado O Menino Jesus que é uma das mais ternas, tristes e tocantes histórias de Natal que jamais alguém escreveu.

A melhor homenagem que pode prestar-se a este livro é considerá-lo uma via de comunicação directa com a poesia de Rilke. Aliás podiam servir-lhe de epígrafe estes versos dele que Jorge de Sena tão bem transpôs para português: “Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto. / Mas o mortal e monstruoso espanto / Como o suportas? — Canto. / E o que nome não tem, tu podes tanto / Que o possas nomear, poeta? — Canto.”

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 08.06.17

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 Livro oito: Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão

Edição Porto Editora, 2016

140 páginas

 

O conto volta a estar na moda entre nós? Se for assim, todos quantos apreciamos este género literário devemos congratular-nos. A satisfação redobra ao verificarmos que esta aposta das editoras distingue obras de indiscutível qualidade. Falei de uma há dias, falo desta hoje. São 14 histórias em que Teolinda Gersão se confirma como uma exímia cultora da ficção em formato curto. Sem uma palavra em excesso, com pleno domínio da técnica da escrita e uma gama larga de registos estilísticos que nunca deixa de surpreender o leitor.

“O que Teolinda faz é escrever a vida”, sublinha Maria Alzira Seixo, leitora atenta desta ficcionista que se estreou em 1981 com a publicação do romance O Silêncio, logo distinguido com o Prémio do Pen Club. É uma síntese certeira desta obra que nunca se compraz com a excelência formal ou o culto narcísico de quem tão bem domina o idioma: a prosa de Teolinda Gersão faz questão de nos conduzir a temas e variações da natureza humana, confrontando-nos com situações emblemáticas da nossa fragilidade existencial. Situações quase sem referências cronológicas ou geográficas, como se pudessem ocorrer em qualquer lugar e em épocas imprecisas das últimas décadas, despojadas de afectos na razão inversa da acumulação de bens materiais.

Alguns destes contos são autênticas peças de filigrana. “O Meu Semelhante” – delicioso preâmbulo à luta de classes num condomínio fechado, repassado de terna ironia. “Uma Tarde de Verão” – reencontro entre dois antigos amantes confrontados com a irreversível erosão do tempo no mesmo cenário de outrora. “As mimosas” – magoado exercício de nostalgia, com as flores simbolizando a frágil e fugaz matéria de que são feitos os sonhos. Ou a magistral autenticidade que emana de histórias escritas na primeira pessoa do singular, como “Pranto da Mãe Mentirosa” e “A Mulher Cabra e a Mulher Peixe”.

"É tudo um equívoco, nunca deixamos de estar sós. A vida não é fácil, nem feliz." Palavras de uma personagem que Teolinda aqui nos traz. Podemos escutar nela os ecos mais profundos da nossa própria voz.

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