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Instantes em sépia com capa de muitas cores (15)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.06.19

Bisa

 

Eu sou uma pessoa de sorte, tive quatro mães: a minha Avó Adelaide, a minha Mãe, a minha Madrinha Maria Emília e a minha Bisavó Júlia, qual delas a melhor. Sou um patchwork de todas elas, mas no feitio intempestivo sou igualzinha à (bis)Avó Júlia, um furacão com pelo na venta.


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A minha bisavó era uma força da natureza: de saia comprida, lenço preto e xaile, era o protótipo da matriarca dos primórdios do século 20, que enviuvou cedo e trabalhava de sol a sol para sustentar os três filhos. Era uma cozinheira de mão cheia, e quando jovem e antes da Implantação da República, trabalhou nas cozinhas do palácio nas Necessidades, onde conheceu os soberanos reinantes, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia.

Como viver em pecado era contra os princípios da Rainha, a minha Bisavó Júlia e o meu Bisavô Alberto, carpinteiro também no Palácio e que nunca cheguei a conhecer, levado muito novo pela Consumpção, foram ”aconselhados” a casar pelo seu capelão, e ofertados pela Rainha depois do enlace, de camas de ferro com florões espectaculares para os rapazes dormirem (pois que já tinham dois filhos), camas essas que perduraram gerações fora, até serem vendidas com o espólio da casa do Fiandal, quando o meu pai faleceu.

Teve três filhos: o Álvaro (o protótipo do dandy, chapéu de lado e suaves maneirismos), o Américo, homem bonito, calmo e um tanto mulherengo, e a Adelaide, o patinho feio, que compensou a falta de beleza física com a muita determinação e perseverança que possuía, e que teve dois maridos e quase um terceiro.

O filho favorito era o filho do meio, o meu Avô Américo, ao qual a Mãe e os meus irmãos foram buscar os olhos azuis. O Avô casou com uma criada de servir de seu nome também Adelaide (a Avó), casamento que não foi do total agrado da Bisavó, o que preconizou uma vida nada fácil para o casal. O Avô, que era serralheiro e arbitro de futebol, era também o menino da mãe, ficando por isso, a morar com ela em Belém. Tiveram três filhas, a Maria Emília (a Madrinha), a Luzia e a Ivone (a Mãe).

A Mãe foi o rapaz que o Avô sempre desejou mas não teve. Era o terror das redondezas, e completamente adorada e apoiada pela Bisavó, impunha a sua vontade e ditava as suas leis com tal vigor que foi cognominada “O Veneno”. Ainda nos dias de hoje, se eu passar pela igreja da Memória, qualquer velhinho que descanse num qualquer banco do jardim me poderá facilmente reconhecer como “a Filha do Veneno” ou à minha filha mais velha como “a Neta do Veneno”.

A Mãe, apesar de maria rapaz e a mais novinha do trio, foi a primeira a casar, e então nasci euzinha, a menina na mão das bruxas, o ai Jesus de todos, mas não era o rapaz que ansiavam. Apesar dum bocado masculinizada pelo Avô no vestir e nos cortes de cabelo (o que tirava a Mãe do sério), foi com o advento do Nascimento do Rapaz que a família rejubilou verdadeiramente. O Avô ficou encantado, o Pai realizado, a Mãe triunfante, a Avó feliz e a Bisavó tão maravilhosamente deslumbrada que tornou o meu irmão o propósito de toda a sua existência. Transferiu toda a ternura que as agruras da vida lhe reprimiram no peito para aquele pequeno ser e amou-o incondicionalmente enquanto viveu.

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Sobreviveu ao Avô, a quem um devastador AVC roubou anos de vida, e ainda embalou o meu irmão mais novo com canções de ninar. Passou os últimos anos numa Casa de Repouso, a que agora chamamos Lar da 3ª idade, donde fugia sempre que podia, para poder estar junto dos seus meninos.
A minha herança genética veio praticamente toda dos albicastrenses do lado da família do Pai.
Penso que o mau feitio e a maneira de encarar a vida herdei inteirinhos da Bisavó Júlia, e estou grata por poder contar com o seu ADN nas horas mais complicadas da minha existência.

 

P.S.: Quem possa pensar que transparece uma ponta de ciúme nestes meus escritos, desengane-se. EU fui a primeira e única Princesa Com Sorte da família

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 19.02.18

Adolescente Prieto, ó mãe, tenho uma coisa para pedir. Então diz lá. É que lá na escola, como estamos na quaresma, não fazem pão com chouriço à sexta. Ai sim? Pois, em vez de pão com chouriço, fazem pão com Nutella. E é tão bom, mas tão bom, mãe. É um granda pão, assim cheio de Nutella. Queria pedir-lhe se na próxima sexta feira posso levar dinheiro para comprar seis pães, mãe. Assim, todos os dias levava um para comer na escola.
E eu ah e tal, que Cristão e tal.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.01.18

blá, blá, blá, blá, ó mãe, a minha amiga tal de tal, quando se zanga fica rude. Rude mesmo, mãe. E eu, ai sim, então e tu, Rita, quando te zangas, como é que ficas? E ela, eu fico raivosa e agressiva, mãe. Raivosa e agressiva, mas não fico rude. E eu, enfim, muito mais descansada. Pelo menos não fica rude.

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Porque é Natal

por Francisca Prieto, em 22.12.16

Nos últimos dias tenho querido escrever sobre o Natal, mas confesso que com a brutalidade que vai por este mundo fora, fico com a sensação de que só consigo falar de banalidades.
Quando sabemos de gente que é assassinada à luz do dia, de famílias que levam com bombas em cima da cabeça e autocarros que trespassam multidões, parece que qualquer menção a rabanadas é uma falta de respeito.
Não me interpretem mal. Gosto de ouro, de incenso e de mirra. Mas parece que entre o avanço da idade e a desgraça que vai no mundo, estas coisas vão tendo cada vez menos importância.
Fica-nos um aperto por quem passa mal. Mas talvez esse aperto nos faça voltar ao essencial. À reflexão de como podemos ser melhores no ano que se avizinha, à mensagem que queremos passar aos nossos filhos sobre a importância dos gestos de amor, à escolha de ofertas que tenham a nossa marca e que despertem uma alegria no coração de quem as recebe.
Há vários anos que, em casa dos meus pais, cada pessoa só recebe um presente. Com a pelintrice que foi assolando toda a família, o orçamento da oferenda já vai num louco máximo de 10 euros. Mas é incrível como todos os anos temos sido capazes de puxar pela criatividade de maneira a continuar a fazer da manhã de dia 25 uma animação. Há sempre alguém que descobre uma foto hilariante, ou um pimenteiro gigante para quem não passa sem temperos fortes, ou um garrafão de nutella para o guloso máximo, ou um disco da Tonicha, ou seja lá o que for. Na verdade, não é o ouro que nos une (felizmente, que senão era uma tragédia), é o sentido de humor e a cumplicidade que temos uns com os outros.
Que este Natal seja mais um tempo para trocarmos gargalhadas, que é, afinal, a nossa dádiva de afecto. E que em 2017 tenhamos todos energia para contribuir para um mundo mais sereno.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Noite de calor insuportável. Chego à cozinha e dou com as Prietas de impermeáveis vestidos, uma delas a jantar de gorro de orelhas. Explicam-me que fizeram uma breve interrupção nas suas investigações. Que são espias russas e que já encontraram uma data de pistas para a resolução do enigma. Mostram-me a lista, escrevinhada à pressa num pedaço de papel rasgado de um bloco:

  • Duas balizas de futebol
  • Uma bicicleta
  • Um carro amarelo

E eu digo, tá bem, e fico descansada por terem tido o bom senso de se agasalharem enquanto investigam casos sérios na Sibéria.

Uma mãe preocupa-se sempre com os agasalhos dos filhos, mesmo que pertençam ao KGB.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

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Ser mãe de rapazes é dar com "Lord Eder" escrevinhado na poeira do capô do carro.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Amor Vulcânico

por Francisca Prieto, em 04.09.16

Este ano calhou ir aos Açores e passar de esguelha pela ilha do Faial. Fiz questão de visitar o Vulcão dos Capelinhos. Não porque me interesse particularmente por catástrofes naturais, mas porque me lembro de sempre ter ouvido dizer que o meu pai tinha sido um dos operadores de câmara destacados para cobrir o acontecimento. Em 1958, com a RTP a dar os primeiros passos da televisão em Portugal, lá embarcou o pai Zé António nesta aventura, com os parcos recursos que na época existiam.

Consta que foi durante as filmagens que tomou a resolução de casar com a minha mãe, de maneira que a boda se celebrou um ano mais tarde. Depois nascemos nós em escadinha, e ainda hoje permanecem juntos com um companheirismo e sentido de humor invejáveis.

Ora eu sou uma sentimentalona incorrigível, de maneira que, estando nas redondezas, não podia perder a oportunidade de visitar o local onde uma decisão deste calibre tinha sido tomada. Lá fui, com marido e filhos e, apesar da paisagem crua, não consegui deixar de me comover quando vi a minha filha Rita saltitar por entre as pedras com uma fita cor de laranja no cabelo. De alguma maneira, passados quase sessenta anos, dei com uma neta a marcar o amor dos avós, levando um traço de cor a este local de cinzas.

Rita no Vulcão.JPEG

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 03.09.16

Rita Prieto, oito e meia da manhã:
Mãe, quem foi a Floribela Espanca?


(mãe ainda emudecida com o choque)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 01.08.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 11.06.16

Rita Prieto, zangadíssima por eu a ter contrariado, declarou que a partir daquele momento não me conhecia. De maneira que, quando a interpelei daí a uns minutos, respondeu-me que a mãe dela não a deixava falar com desconhecidos.
E atreveu-se a acrescentar que eu era a pior desconhecida que ela conhecia. Aí os irmãos confrontaram-na com a incoerência. “Se não conheces a mãe, não podes dizer que é uma desconhecida que conheces”. Rita, já no cúmulo da fúria, avança para a declação bombástica: “És a pior desconhecida que desconheço”.

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A Fantasia dos Nossos Tempos Dá Cá Uma Trabalheira

por Francisca Prieto, em 10.05.16

Quando eu era pequena era normal acreditar-se em quase tudo. Acreditavamos no Pai Natal e, em simultâneo, no Menino Jesus, acreditavamos no coelho da Páscoa, no homem do saco, no palhaço Batatinha, no lobo mau, na avózinha, nos glutões do Presto, em fadas e em duendes.

Como não havia cento e tal canais de televisão, muito menos internet, e não se falava ao telefone trezentas vezes ao dia, não havia hipótese de nos virem com caraminholas que trouxessem a angústia da dúvida ao nosso imaginário. Acreditavamos em tudo, piamente, e até muito tarde.

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais difícil manter as tradições seculares no que toca a enganar a criançada.

Ora cá em casa, na senda dos ensinamentos do meu pai, o Ratón Pérez é a entidade oficial que toma conta da ocorrência cada vez que um dente de leite resolve dar o ar da sua graça.

No meu tempo a logística era simples: o dente caía, nós deixavamo-lo dentro de um copo de água na mesinha de cabeceira, e o rato lá vinha durante a noite para deixar uma lembrança.

Uma vez a minha irmã Luísa cometeu a heresia de apregoar aos quatro ventos que “isso do Ratón Pérez é uma grande treta” e teve o dissabor de, em vez da habitual lembrança, receber uma pesarosa carta em castelhano, remetida pelo próprio Ratón, a dizer que “si no creía en el, no la podria regalar”. É evidente que, em nossa casa, nunca mais ninguém se atreveu a duvidar da existência do bom e velho Pérez, pelo menos até à chegada da maioridade.

Já eu, que pertenço à geração de mães do novo milénio, vejo-me grega para prolongar o mito. Tive de me adaptar aos novos tempos e arranjar uma data de argumentos para tornar credível o facto de haver um rato se mete à estrada a partir de Espanha com um embrulho às costas.

No século XXI, como é sabido, qualquer actividade tem de ter um interesse económico, senão cheira logo a aldrabice. De maneira que o Ratón Pérez é evidentemente um coleccionador de dentes que só deixa um presente porque está interessado em aumentar o espólio. E é sabido que quando um dente se apresenta em mau estado não há qualquer hipótese de “regalo”.

Como o castelhano não é o forte cá de casa, optou-se por lhe dar uma origem galega, o que, em caso de missiva, fornece alibi perfeito para os portunhólicos pontapés na gramática da língua de Cervantes.

A água do copo tem de ser bebida quase até ao fim porque o pobre rato vem a alta velocidade desde Espanha e chega cá sedento. Por vezes, chego mesmo a ser obrigada a deixar um bocadito de queijo Emmental (que sou forçada a mordiscar lá pela uma da manhã) porque é natural que, à chegada, o amigo Ratón traga uma certa larica.

Isto tem-me dado uma trabalheira, sobretudo quando tenho de puxar pela memória para manter a coerência dos factos, mas o que é certo é que, até à data, nunca dei pelo menor resquício de dúvida face à existência do Ratón Pérez.

Já no Pai Natal ninguém acredita. Que isso de haver um velho gordo puxado num trenó voador por meia dúzia de renas está-se mesmo a ver que é fantasia.

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Mistérios da Memória

por Francisca Prieto, em 07.04.16

Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto.

No entanto, é vulgar chegarmos lá a casa e darmos com ela a encaixar num trecho de texto qualquer coisa que lhe dizemos (supondo que alguém elogia as flores do jardim, sai-lhe imediatamente uma canção de antigamente do tipo “Floooores do meu Jaaardim, tão belas como sóis...” ou qualquer coisa parecida).

É uma habilidade que, por ter sido actriz de teatro, lhe sai naturalmente, mas que ao fim de meia dúzia de frases trocadas, inviabiliza qualquer conversa.

De maneira que nós, os cinco filhos, embora achando graça a esta idiossincrasia, já lhe suplicámos várias vezes que tenha dó e que deixe a conversa fluir sem tanta declamação e cantoria.

No entanto, há um dia do ano em que deixamos a minha mãe declamar tudo o que ela quiser: a 14 de Março, por ser o seu aniversário.

É assim que, diante de netos estupefactos, a minha mãe dá um abanão às sinapses, abre a boca e dali desatam a jorrar páginas e páginas de texto, sempre acompanhadas de gestos grandiosos e eloquentes.

No fim, já depois de um remate estrondoso e das palmas merecidas, inevitavelmente lança uma gargalhada e confessa que não faz a mínima ideia de onde aquilo lhe vem.

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Distracções

por Francisca Prieto, em 02.04.16

As distracções da minha mãe atingiram uma dimensão épica na semana passada quando lhe falei de um velho amigo que morreu vai para mais de quinze anos.

“Fulano de tal morreu? Não me digas. Fico tão triste.” Espantada, assegurei-lhe de que tinha a certeza de que ela tinha estado a par do seu padecimento na devida altura e que já então tinha ficado desolada. “O que é que queres? Não me lembrava”, respondeu com um encolher de ombros resignado.

O que me preocupa é que, se bem a conheço, é bem capaz de voltar a sofrer do mesmo desgosto daqui a um par de anos, se alguém voltar a mencionar o assunto.

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Madalenas de Proust

por Francisca Prieto, em 21.02.16

Hoje o meu irmão Zé fez anos. Temos os dois uma sintonia estratosférica que faz com que, para além de irmãos, sejamos companheiros de quotidiano. É raro o dia em que não mandamos mensagens parvas um ao outro com pequenos episódios que acabámos de presenciar, ou com frases que encontrámos num livro, ou com uma qualquer piadola que sabemos que vai fazer com que o outro se ria.

Muitas vezes, aproveito esta nossa cumplicidade para pregar o sermão aos meus filhos sobre a importância de serem manos uns para os outros. Sempre que há gritaria, eu berro num décibel acima a já célebre frase “Parem com isso. Sejam manos”.

Calhou que o meu filho Manel fosse hoje jogar ténis a um torneio em Belas, de maneira que aproveitei o caminho para pensar no que é que podia oferecer ao meu irmão como presente de anos. Não é fácil oferecer presentes a quem já tem idade para não dar muita importância a quinquelharia material.

Foi quando dei de frente com a pastelaria que vende Fofos de Belas que se me fez luz no espírito. O que me apetecia oferecer-lhe era uma madalena de Proust, ou, no caso, um par de Fofos, iguaizinhos aos que o avô Eduardo lhe comprava quando resolviam ir em passeata de domingo, ainda antes de eu nascer.

Parei o carro e expliquei ao Manel o que ia fazer, evocando a história das madalenas de Proust.

Levando em conta que muito provavelmente o Manel não faz a mínima ideia de quem foi Proust, muito menos da sua ligação a um bolo da família do queque, perguntei-lhe se ele sabia o que era aquilo de que eu estava a falar.

Respondeu-me prontamente: “Está a ser mana”.

Afinal, sabia mais do que pensava.

 

Fofos de Belas.jpg

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De Quem nos Deixa Saudades

por Francisca Prieto, em 04.12.15

enfeite de natal.jpg

A tia Mette sempre foi a nossa tia exótica. Dinamarquesa, casou com o meu tio Eduardo por duas vezes. Da primeira, de vestido branco, comprido, como manda a tradição. O cabelo curto e os dentes da frente ligeiramente encavalitados faziam adivinhar um espírito irreverente. Pelo menos nos anos sessenta de uma Lisboa onde as mulheres ainda andavam de saias e nem todas eram detentoras de carta de condução.

A tia Mette era para mim o cúmulo da sofisticação. Fumava longos cigarros SG gigante em pose de revista; à noite, na cozinha, segurava num copo de vinho de pé alto e brindava em dinamarquês com o meu tio e, sobretudo, conduzia o seu citroen com as mãos na parte de dentro do volante.

A sua casa combinava o melhor gosto das tradições portuguesas, com móveis de madeira nórdica, maciça, e algumas referências de pintura taitiana do seu bisavô – o pintor Paul Gauguin.

No Natal, ao contrário das árvores com bolas de todas as cores e fitas estridentes que povoavam as nossas casas, em casa da tia Mette havia sempre decorações de um bom gosto inédito. Claro que hoje sabemos que eram compradas no Ikea de Copenhaga, mas na altura sabíamos lá o que era o Ikea.

Como o aniversário de um dos meus primos é a 31 de Dezembro, passávamos sempre lá o ano em família. Os adultos à mesa, com talheres de um dourado baço a combinar com o serviço de loiça egípcio da minha avó, e nós, a miudagem, a correr pela casa, fazendo razias à árvore de Natal com velas verdadeiras acesas. Nem sei como nunca nos imolámos inadvertidamente.

Um dia, quando eu tinha uns doze anos, os meus tios desentenderam-se e a tia Mette pegou nos três filhos e em meia dúzia de malotes e rumou à Dinamarca.

Tive um desgosto tremendo e durante muitos anos lembrava-me desta tia com uma imensa saudade.

Passaram-se uma catrefada de anos e um dia fiquei a saber que o tio Eduardo e a tia Mette se iam casar outra vez. Parece que foram jantar fora um dia e que ela, arisca, lhe terá perguntado se ele queria ser seu amante. Reza a história que ele terá respondido que sim, mas só se ela se casasse com ele.

De maneira que foi assim que a tia voltou às nossas vidas. Um par de décadas mais velha, com mais meia dúzia de quilos, mas sempre com um sorriso e um piscar de olho que nos fazia saber o quanto gostava de nós.

Viveu em Portugal os últimos quinze ou vinte anos da sua vida, feliz, sempre de porta aberta para receber com pratos exóticos esta família que também era a sua.

Um dia, a dormir, chamaram-na do céu e lá foi ela, deixando-nos a nós outra vez cheios de saudades.

Lembrei-me disto tudo a propósito de uns enfeites de Natal que comprei no outro dia, iguaizinhos aos que ela costumava ter. Não sei se agora está no céu a evangelizar o Menino Jesus sobre a importância do sentido de humor, ou se só vive nos interstícios dos nossos corações mas, seja como for, desejo-lhe um Natal de arromba.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 24.05.15

Caiu um dente ao Pinto. Claro que o perdeu. Estava no caixote do lixo embrulhado num guardanapo de papel. O Ratón Perez trouxe-lhe 5 euros e deixou um post-it a agradecer.

(O Ratón é galego, claro, para não haver hipótese de ser apanhado no portuñol dos post-its que escreve)

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 30.04.15

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

 

Reedito este texto no dia em que os meus pais fariam 60 anos de casados. Sempre associo esta data a um clima de alegria redobrada lá em casa. Festejaram-na durante 55 anos. Hoje, pela primeira vez, evoco-a sem nenhum dos dois cá estar.

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manos.png

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.03.15

Uma pessoa põe uma filha na ordem e, quando chega à cama, tem uma ameaça destas em cima da almofada. Céus.

 

ameaça.jpg

 

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