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Delito de Opinião

Latim: língua morta?

Pedro Correia, 29.01.25

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Cena do filme Júlio César (1953), com Marlon Brando

 

Há pouco tempo, um daqueles leitores que adoram falar sobre o que desconhecem garantiu aqui que hoje «já ninguém quer saber do latim para nada».

Está equivocado. Todos os que proclamam a inutilidade do latim como «língua morta» usam palavras e locuções latinas no dia-a-dia. Por vezes até sem se aperceberem disso.

Nas últimas duas semanas, anotei estas, lidas ou escutadas no espaço público. São mais de cento e vinte:

 

a latere

a posteriori

a priori

ab initio

ad aeternum

ad hoc

ad hominem

ad infinitum

ad lib(itum)

ad nauseam

alea jacta est

alter ego

alma mater

alumni

annus horribilis

audaces fortuna juvat

aurea mediocritas

avis rara

bis

bona fide

campus

carpe diem

casus belli

census

citius altius fortis

Cogito, ergo sum

coitus interrumptus

consummatum est

continuum

contra naturam

credo

cum laude

curriculum vitae

delirium tremens

de jure

delirium tremens

de profundis

Deo gratias

Deus ex machina

dixit

dura lex, sed lex

e pluribus unum

ecce homo

errare humanum est

etcétera

ex-aequo

ex libris

facies

fiat lux

finis patriae

forma mentis

grosso modo

habeas corpus

habemus Papam

habitat

homo erectus

homo homini lupus

homo sapiens

honoris causa

idem

in absentia

in dubio pro reo

in extremis

in illo tempore

in loco

in memoriam

in vino veritas

in vitro

inter pars

ipsis verbis

ipso facto

lato sensu

mare nostrum

mea culpa

memento mori

mens sana in corpore sano

modus faciendi

modus operandi

motu proprio

nec plus ultra

numerus clausus

Opus Dei

quo vadis?

panem et circenses

pari passu

pater familiae

per capita

per se

persona non grata

post factum

post mortem

post scriptum

praxis

pro bono

quid pro quo

quis juris

quod erat demonstrandum

quorum

reductio ad absurdum

reductio ad Hitlerum

requiescat in pace (RIP)

rigor mortis

semper fidelis

sic

sic transit gloria mundi

sine die

sine qua non

statu quo

stricto sensu

sui generis

tempus fugit

ultima ratio

ultimatum

urbi et orbi

vacatio legis

vade retro

veni vidi vici

versus

via crucis

vice versa

vox populi

 

Certamente os leitores do DELITO se lembrarão de mais.

Não está mal, para uma «língua morta».

 

Leitura complementar: Ela estava lá.

Teme-se o pior

Pedro Correia, 28.06.23

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Todos os dias docentes universitários - quase sempre os mesmos - acampam durante horas nas pantalhas, perorando sobre a mais vasta gama de temas, da guerra soviética na Ucrânia às alterações climáticas, passando pela desflorestação da Amazónia e das pequenas peripécias da política doméstica. Tanto faz: qualquer coisa lhes serve de motivo para longa prelecção televisiva.

Ficamos mais sábios ao escutá-los? Não. Espantosamente, estes professores parecem pouco ou nada ter para ensinar. Alguns distinguem-se por falar português de forma deficiente, parecendo cópias de carne e osso do rudimentar Google tradutor.

Uma senhora com pergaminhos académicos proclamava há dias a intenção de se pronunciar com «accuracy» a propósito já não me lembro de que assunto. Confirmando que em certas universidades cá da terra o idioma dominante se tornou o crioulo luso-"amaricano". 

Outra, também com lugar cativo em estabelecimento de ensino alegadamente superior, dizia que «quaisqueres» garantias estariam a ser dadas por alguém, irrelevante para o caso. E um cavalheiro, igualmente docente universitário, assegurava que «vão haver» surpresas num futuro próximo.

Quando os professores falam assim, admira quase nada que os alunos passem o tempo a grunhir inanidades, sem conseguirem debitar três frases seguidas de modo inteligível. Oiço-os nos transportes públicos: em cada cinco palavras, dizem «bué»; em cada três, dizem «tipo». Quase sempre rematado com o onomatopaico «iá»

São as supostas elites do futuro. Estão a ser formadas por «quaisqueres» especialistas em ignorância de alto nível. Teme-se o pior.

"Novo paradigma", patati-patatá

Pedro Correia, 23.06.23

Esta semana semana passei uma tarde a ouvir umas quantas luminárias discorrer sobre questões de magna irrelevância perante um reduzido auditório. E de novo pensei como se fala cada vez pior: o vocabulário está infestado de estrangeirismos dispensáveis, modismos de todo o tipo, eufemismos que dão vontade de bater em retirada. Uma espécie de linguajar de gestor bancário cruzado com jargão de treinador de futebol contamina o nosso léxico comum. Complicando o que é simples. E tornando demasiadas frases quase incompreensíveis.

Temos o fatal "colocar" usado e abusado, com exclusão total do claro e eficaz verbo "pôr". Ou "arrancar", que parece ter destronado por completo o singelo "começar". Ou "distinto", na sua ambiguidade semântica, como obstinado substituto de "diferente". E por aqui me fico: a lista seria imensa.

Fui ouvindo penosamente aquele patati-patatá infestado de conteúdos, disruptivo, perfomativo, implementar, sustentabilidade. Por parte de quem se propunha colocar a questão, abrir janelas de oportunidade, deixar tudo em cima da mesa, analisar o estado da arte, entoar hossanas ao novo paradigma

De repente parecem todos perorar à maneira do professor Boaventura numa prelecção do Centro de Estudos Sociais, em Coimbra.

Saí de lá com esta convicção: qualquer dia desaprendo de falar.

Falar a escrever

Maria Dulce Fernandes, 20.10.22

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Eu falo pelos cotovelos. Já vos contei que fui um bebé prodígio no que concerne a articular sons. Reza a história que esta criatura de Deus pronunciou a primeira palavra com – pasmai - 6 meses, e não foi uma palavra qualquer: pedi um guardanapo!

A partir daí, parece que nunca mais me calei. Quando tinha cerca de um ano, sentavam-me com um livro no colo e eu “recitava” a história do Lobo e dos 7 Cabritinhos, com todas as pausas, respirações e virares de página, como se estivesse realmente a ler o livro. Tudo o que era poema ou lengalenga, mesmo longa longa, era comigo, tanto que cheguei a ser notícia nos Ecos de Belém. Até parece anedota…

Adoro uma boa conversa, tanto falada como escrita. No meu tempo de lente, éramos encorajadas a ter correspondentes, crianças como nós de outras escolas do País, com as quais trocávamos postais dos correios, postais ilustrados, cartas, recortes e fotografias .

A minha primeira amiga literária era de Borba e escrevíamos sobre a escola e a família tudo sob o escrutínio da professora D. Fernanda Barroso. No Liceu, algumas de nós foram escolhidas para trocar correspondência com garotos de outras nacionalidades nas suas línguas natais, o que servia como exercício à nossa aprendizagem das mesmas.

Ter correspondentes, ou pen-pals, foi um excelente trampolim para a aprendizagem de outras línguas, de que me orgulho de falar e escrever com um bom nível de qualidade, como o francês e o inglês. Lamento que a conversação em alemão, que requer muita prática, não me seja frequentemente solicitada; entendo quase tudo, mas torna-se cada vez mais complicado pensar em alemão para bem articular as frases com as correctas declinações.

Tive a Brigitte, francesa de Toulon, a Christina de Passau na Alemanha, e o Urs Kamber, um desportista suíço, que mais tarde representou o seu país nos jogos Olimpicos de Moscovo em 1980, onde ganhou a medalha de bronze dos 400 metros, e que reencontrei no Facebook passados 35 anos.

Já pensei fazer um update, mas não sei se terei vontade de  voltar para a escola. O regresso às aulas estaria previsto para os tão sebastiânicos "anos dourados", mas por muito caleidoscópico que desejemos o futuro, a sombra da incerteza não deixa de pairar pardacenta e desanimadora.

 

(Republicado/Imagem Google)

Sotaques

Maria Dulce Fernandes, 07.08.19

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Não sou fã de abrir links, principalmente se desconheço a sua proveniência. Podem ter sido enviados por um amigo confiável e bem intencionado e mesmo assim estarem carregados de bicho, que a curto ou longo prazo seguramente me irão dar água pela barba, ou pelo buço, mais apropriado no meu caso específico.
Ontem recebi um link do Vortexmag e abri. Gosto de ler curiosidades e achei esta publicação bastante interessante, do meu ponto de vista alfacinha: trata do sotaque lisboeta.
Não pude deixar de sorrir e constatar a veracidade do texto. Não sei se lhe chamaria sotaque, se evolução da língua, consequência da lei do menor esforço, se calão, mas na verdade temos esta tendência de criar sonoridades homófonas que de algum modo nos facilitam a comunicação .
Fica o link e a pergunta: teremos nós, os alfacinhas ditadores de tendências, um sotaque lisboeta?

Sotaque

Imagem Vortexmag

Complicar o que é simples

Pedro Correia, 23.03.19

Temos a mania de complicar o que é simples. O que logo se detecta na linguagem comum. Reparo tantas vezes na expressão "bom dia para si", hoje de uso corrente, como se um claro e belo "bom dia" não bastasse como saudação. Ou na quantidade de vezes que alguém, em diálogo connosco ou perorando na pantalha, inicia uma frase com esta inútil bengala retórica, insuflada de pleonasmos bem à lusitana: "Na minha opinião pessoal..."

Sempre tive a sensação de que o desdobramento das frases em inúteis partículas vocais é inversamente proporcional àquilo que se sente. O que vale para a expressão oral funciona também para a escrita. Quando dava formação a estagiários no jornalismo, recomendava-lhes esta regra: nunca usem palavras com mais de dez caracteres em títulos. Há que simplificar o que parece complicado. No nosso idioma, o essencial fica quase sempre dito em vocábulos de escassas letras: luz, lua, dom, mar, mágoa, ler, cor, água, som, ar, dor, dar, ver, rio, calor, frio, flor, sol, amor. 

Tanto se fala em mudar, reformar, transformar: comecemos por alterar o modo como falamos. Toda a verborreia é dispensável. Libertemo-nos dela, como um acto higiénico. 

Penso rápido (17)

Pedro Correia, 05.07.14

Não sei se já repararam: há uma enorme quantidade de expressões que persistimos em utilizar no nosso dia-a-dia à revelia do seu significado literal. Expressões como “fazer a barba” (“desfazer” seria a fórmula correcta), “pôr a mesa” (que está “posta” há muito tempo pelo marceneiro) ou “fazer a cama” (idem, aspas). Adoptámo-las e já não conseguimos passar sem elas. Todas as línguas – e a língua portuguesa não é excepção – têm imensos alçapões. Mas isto faz parte integrante do seu encanto. Alguns puristas não entendem isto. Pior para eles: fazem a cama onde se deitam.