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Delito de Opinião

Férias...

Maria Dulce Fernandes, 25.07.23

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“Este ano vamos todos a Cuba”… "Este ano não dá, que trabalho até Outubro e a os meses que se seguem não são bons para viajar para lá. "Como sabes se nunca lá foste?” Li! Eu leio. Não me fico pelos livros. Leio sobre tudo um pouco, principalmente sobre viagens. “Então deves ter lido que uma semana num hotel de luxo em Cuba, com tudo incluído, voo, transferes e com a água a 30°, custa metade do preço de um, digamos “resort” no Algarve, a uns quilómetros da praia, para onde insistes em passar as férias todos os anos e cuja qualidade pós-pandemia tem tido um decréscimo acentuado, principalmente a nível das refeições, e um acréscimo no que toca a preço que chega a rondar uns ridículos 200%. Por vezes penso que, além de seres teimosa, és masoquista e arreigada ao que há 20 anos era bom e deixou de ser. Já pensaste nisso?”

"Já…"

Em nome do Papa

Pedro Correia, 21.05.23

Este ano, rompendo um hábito antigo, farei férias em Agosto. Quero fugir de Lisboa - já hoje quase intransitável - na altura da grande enchente que se anuncia com a Jornada Mundial da Juventude. 

Procuro o mesmo hotel onde fiquei no Verão passado, à beira-mar, a cerca de 40 km da capital. Com entrada a 29 de Julho.

Ainda há vagas. Mas pedem-me um preço absurdo: cerca do dobro do que paguei em 2022. «Efeito da inflação?», pergunto na recepção, com óbvia ironia.

«Não, é por causa do Papa.»

Questiono-me se Francisco fará ideia desta obscena espiral especulativa praticada em nome dele, que tantos exemplos de frugalidade e desprendimento material nos tem dado. É óbvio que não. 

Alarguei o perímetro: vou distanciar-me ainda mais de Lisboa. A preços do ano passado, também junto ao mar. Já feita a reserva. Fico a ganhar com a troca.

Haja Comidinha

José Meireles Graça, 28.07.22

Há muito tempo que vou de férias para Lagos. Foi o meu primeiro destino no Algarve, em 1970, e uns anos por outros fui para a Oura, Albufeira, Vilamoura, Tavira, mas há uns anos encalhei na Meia-Praia. A visita à Comidinha era sagrada, tanto que algumas vezes esperei de pé que vagasse mesa, coisa que não me lembro de fazer em mais lado nenhum.

O dono, o senhor Pedro, não era exactamente um modelo de simpatia, nem eu  me dou ao trabalho de me fazer conhecido e menos ainda íntimo, mas acabava-se por apreciar o homem – dava, se solicitado, bons conselhos em vinhos, e a cozinha, pratos tradicionais, muitos que dificilmente se encontram, estava invariavelmente acima de qualquer crítica.

Fechou, aparentemente por causa da histeria covidesca e correspectivas medidas para “combater” o “flagelo”, na realidade também, talvez, pela idade e por razões familiares.

Reabriu. E ontem fui lá, a medo: outra gerência, malta nova.

O espaço foi rearranjado, diminuíram ao número de mesas e retocaram daqui e dali: a coisa tem um aspecto menos atravancado mas, graças a Deus, não parece que tenha havido mão de decorador; o pessoal é novo e excepcionalmente simpático; tem wi-fi e a apresentação dos menus, bem como numerosos outros detalhes, é diferente.

E então, o tacho? Ora aqui é que mora o bem-bom: inovação zero, venham de lá a tiborna de muxama, as ameijoas à Bulhão Pato, as lulinhas cheias e as ervilhas com chouriço, tudo regado com um Lacrau moscatel galego (no Algarve há, ao contrário da lenda, óptimos vinhos, mas uma pessoa desempoeirada vai  buscar o vinho onde lhe der na telha).

Foi isto, podiam ter sido outras coisas.  Que seriam, a julgar pela amostra, superlativas.

Vim cá fora fumar e encontrei o moço que superintendia e que também fumava, um excelente indicador – as pessoas que deixam de fumar dão provas de grande egocentrismo, por imaginarem que fazem grande falta neste mundo, e das que fumam pode-se razoavelmente supor que não têm vícios ocultos. E, em breve conversa, fiquei sabendo que os sócios eram quatro, dos quais só um tinha anteriormente experiência de restauração, e que o que os movia era o desejo de preservar um espaço que respeitavam e do qual foram clientes. As coisas boas estão a fechar, sabe? – disse-me. O senhor Pedro cedeu-nos as receitas todas e nós o que queremos é manter a tradição da Comidinha.

O novo nome do restaurante é Haja Comidinha.

Bem hajam.

De férias

José Meireles Graça, 21.08.21

No passeio até à ria de Alvor fui surpreendido, quase a chegar, com o voo grácil de um galharoz anão, uma visão rara, e logo a seguir dois nefelins rasando a água.

Para subir para o paredão há muitos caminhos, através da areia escaldante, serpenteando por entre a flora dunar – cardos, bromélias, feno das areias, cactos, inúmeras outras plantas. Interpelando-me isolada numa clareira, a flor espectacular de uma braquissária reticulata oferecia aos meus olhos deslumbrados as suas onze pétalas – uma fúcsia, três verde menta e as restantes de um azul anilado raiado de infinito.

Fiquei comovido com a experiência e venho aqui partilhá-la, confiando em que alguém fará ideia do que estou a dizer. Não posso ajudar porque, como inventei o nome dos pássaros e da flor, não me encontro em condições de informar do significado destes encontros fauno-florais.

Oscilações

Maria Dulce Fernandes, 11.10.20

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Em Dezembro de 2019 preparei Abril de 2020. Tem sido um destino adiado, principalmente pelas escalas nos voos até ao destino, duas na ida, uma na volta. Tudo com a Lufthansa, quando nós somos TAPpers de primeira água. Enfim, em querendo muito, não se pode ser esquisito e resolvemos agendar Dubrovnik, com duas escapadas, uma a Kravice e Mostar, e outra a Kotor e Budva.

Como é de calcular, não houve qualquer viagem em Abril e foi um filme conseguir remarcar, já que o reembolso nunca se pôs. Remarcámos para Novembro. Afinal fazemos quarenta anos de casados (é obra!) e merecemos oferecer-nos o presente de não ficar a arder com o valor já pago pela viagem. Ora, isto passa tudo até lá e vamos comemorar com a melhor vista para os muros da cidade velha.

Eis-nos então a praticamente um mês do acontecimento e estamos abalados nesta resolução com apenas duas opções: viajamos ou não viajamos.

No pico da primeira vaga retraímo-nos, receámos, acatámos, alterámos. E agora? Já chegou a segunda vaga ou ainda está em pré-campanha? Afinal o bicho é um globetrotter, caramba, atacando em força nos quatro pontos cardeais com todos os colaterais.

Vou contactar a agência para me aconselharem, tendo em consideração que tenho que oferecer algo, propor um qualquer upgrade, porque desta vez não encerrámos fronteiras apesar de os números contrariarem grandemente as previsões.

Não sei se quero arriscar. Mas se vou adiando para o final da segunda vaga, quem garante que fica por aqui? E depois vem-me sempre à ideia, não a tal frase batida, mas  aquela brincadeira com a estátua de Bocage em Setúbal (ainda no mesmo lugar e sem pinturas!), em que se diz que o poeta está com um corte de fazenda ao ombro, a aguardar pela última moda.

 

Foto do Google

Quando cai a noite

Pedro Correia, 03.09.20

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A roda andava ali, a namorar-me há vários dias. Passava pela feira popular, junto à marina de Lagos, e aquelas luzes tocavam-me de nostalgia: serão após serão, aumentava a vontade de dar uma voltinha. Como um irresistível regresso aos carrosséis da infância.

 

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Por imediata associação de ideias, senti-me remetido ao Prater, em Viena - àquela roda gigante onde foi rodada uma cena crucial de um dos meus filmes favoritos: O Terceiro Homem, com Orson Welles e Joseph Cotten. Recordo a emoção de me sentar numa daquelas cabinas que figuram na história do cinema, com o célebre parque de diversões a diminuir de tamanho aos nossos olhos enquanto a roda ia girando com deliberada lentidão.

 

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Tal como aqui. Sem a magnífica partitura de Anton Karas em fundo, mas com uma visão soberba desta cidade algarvia que me acolhe como se estivesse em casa. Vista de vários ângulos. Desde logo o da marina, que ganha um encanto muito especial quando cai a noite.

 

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O ângulo inverso não é menos atraente. Com a ribeira pronta a desaguar no oceano, ali bem próximo, e a sensual urbe perseguindo-a nesta rota - orgulhosa dos seus pergaminhos históricos, consciente do fascínio que continua a exercer sobre os forasteiros. Mesmo em tempo de sustos pandémicos. 

Voltei a pôr os pés no chão com refrescante alegria. Nada de especial tinha acontecido, apenas isto: durante uns minutos, senti-me miúdo outra vez.

Elas, eles e as máscaras

Pedro Correia, 01.09.20

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Diálogo entre duas mulheres em férias algarvias:

- A minha máscara cheira a merda.

- Credo! Porque é que não a deitas fora?

- Era o que faltava, andar a comprar máscaras. Tenho muito mais em que gastar o meu dinheiro.

 

.....................................................................

 

Diálogo entre dois homens em férias algarvias:

- Ontem, ali no urinol, mijei na máscara. Levava-a na mão, estava distraído e não reparei.

- E o que fizeste?

- Tive que a pôr na cara mesmo assim. Sabes que eles não nos deixam andar sem máscara aqui no hotel.

- Mas não a lavaste antes?

- Olha, nem me lembrei disso.

Tão boas praias aqui tão perto

Pedro Correia, 30.08.20

Algumas das mais belas praias do País encontram-se também entre as mais desconhecidas dos portugueses. Situam-se no Barlavento algarvio, entre Lagos e Sagres, e (salvo honrosas excepções) quase nunca ouvimos falar delas.

Basta reparar nos telediários: cada vez que algum alude ao Algarve, em geral e abstracto, só nos mostra imagens de Quarteira, Vilamoura ou Albufeira. É preciso ser muito ignorante para presumir que a nossa região mais meridional pode sentir-se representada por aquelas povoações.

 

Confesso-me cada vez mais rendido aos encantos desta zona costeira, que tenho percorrido com atenção e vagar nesta segunda quinzena de Agosto.

Aproveito para partilhar convosco alguns postais (fotos minhas) destas praias que merecem ser visitadas. Cada qual com o seu charme, cada qual com o seu encanto.

Se ainda não as conhecem, visitem-nas assim que puderem. Espero que gostem.

 

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Praia Dona Ana (Lagos)

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Praia de Porto de Mós (Lagos)

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Praia de Burgau (Vila do Bispo)

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Praia de Cabanas Velhas (Vila do Bispo)

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Praia da Salema (Vila do Bispo)

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Praia do Zavial (Vila do Bispo)

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Praia da Ingrina (Vila do Bispo)

De boca bem tapada

Pedro Correia, 28.08.20

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Passeio nas ruas de Lagos, onde me desloco pela segunda vez neste Verão. Mais gente por estes dias, mas confirma-se a tendência: muito menos turistas do que no ano passado. Tanto em terra como sobre as águas, fluviais ou marítimas.

Cruzo-me com um número crescente de pessoas, na rua, usando máscaras. Devem confundir o Algarve com a Madeira, onde - aí sim - as autoridades forçam a utilização permanente de máscara em todos os locais públicos ao ar livre, exceptuando (por enquanto) praias e piscinas.

 

Não falta, no entanto, quem utilize aquilo só como enfeite. Transportando-a na testa, no queixo, na orelha, no ombro, no pulso, no cotovelo, onde calha. Para andar assim, não será melhor ficar guardada?

No passeio público, junto à ribeira de Bensafrim, cruzo-me com um pai e dois filhos pequenos: vão todos de máscara encarnada, com o símbolo do Benfica. Sinto-me como espectador de um Carnaval antecipado.

 

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Bem à portuguesa, na hora de comer, formam-se filas. Todos acorrem à mesma hora aos mesmos locais. Largas dezenas de pessoas - sem manterem distância de segurança - amontoam-se, aguardando vez, à porta de estabelecimentos como a Casa do Prego e a Adega da Marina.

Chegam a esperar mais de uma hora por um lugar em espaços apinhados, onde a comida é de uma banalidade confrangedora, quando existem, ali bem perto, muitos restaurantes com melhor ementa e espaço disponível.

 

Nunca hei-de entender estes comportamentos. Mais risíveis só as pessoas que vou vendo, de toalha estendida no areal da Meia Praia, também de máscara posta: devem imaginar que a brisa marítima transporta o vírus.

Reparo num par de namorados caminhando de mão dada à beira-mar. Vão ambos mascarados, como se receassem contaminação mútua. Até o amor cede passo à disciplina sanitária, mesmo na idade em que a líbido comanda a vida.

Também se beijarão de máscara? Não me custa imaginar tal coisa. Em tempo de pandemia, todas as precauções são poucas.

 

O maior dilema ocorre na hora de comer. Creio ter chegado a hora de o Presidente da República fazer um apelo aos criativos da indústria portuguesa, incentivando-os a conceber uma máscara com fresta removível na zona labial para permitir a rápida ingestão de alimentos sem necessidade de retirar o famigerado adereço. Portugal registaria a patente e mostraria ao mundo como se faz.

Poderia chamar-se Máscara Marcelo, em merecida homenagem ao cidadão português que transporta aquilo há mais tempo e durante mais tempo. Foi, aliás, o primeiro a correr sagazmente para casa, encerrando-se durante duas semanas em voluntária quarentena doméstica, enquanto quase todos andávamos por aí, à vontadinha, expostos à codícia do Covid.

Ele é que a sabe toda, vou pensando entre dois mergulhos. A praia continua desafogada - sinal evidente de que o inquilino de Belém permanece longe daqui.

 

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Férias II

José Meireles Graça, 19.08.20

Ao chegar à praia, nem me sento. E, como há muitos anos, digo: vamos, minha senhora, que não estamos aqui para nos divertirmos.

A senhora em questão levanta-se e vamos os dois para a esquerda (salvo seja) até à ria de Alvor ou, para a direita, até à marina de Lagos.

No regresso, marcho directo para o restaurante, e dali para casa, onde há sombra e fresco e areias insidiosas não se enfiam por cavidades reservosas.

Um ponto prévio: tinha na ideia que a frase feita que uso era de um rei francês, talvez Francisco I, que a disse à noiva na noite de núpcias. Mas o Google, que já de tantas coisas que não queria saber me pôs ao corrente, não tem rasto, de modo que fico na dúvida se não terei sido eu próprio, numa outra encarnação, que a usei com uma princesa virgem, aterrorizada com a perspectiva de perder o que lhe ensinaram era um capital precioso.

Outro ponto: de frases feitas gosto muito, incluindo algumas de minha autoria, e tenho um rico catálogo para múltiplas situações. Nem aliás compreendo, e menos aceito, uma ou outra reacção irritada quando, pela milésima vez, emprego uma expressão que puí pelo uso, e consagrei pela minha adesão.

Na praia fica a multidão, e o gosto que faz em lá permanecer é um grande mistério. As crianças gostam do mar, das pocinhas, das construções na areia, dos gelados e das bolas de Berlim; os adolescentes de nadar, mergulhar, jogar a bola – alguns – e espiar as riquezas postas em evidência pela moda com o louvável propósito de assegurar a propagação da espécie. Agora, os adultos esparramados ao sol, ou encolhidos numa cadeira desconfortável a ler uma revista ou livro, estão ali a fazer o quê?

Trabalhar para o bronze é o que muitos dirão. Grande asneira: os dessorados povos do Norte ficam da cor do camarão da Quarteira; e nós outros, os que não sofrem de um lamentável défice de melanina, adquirimos um aspecto falsamente saudável, depois do cuidado prévio de untar dias a fio o corpo com unguentos repugnantes, de gente que trabalha ao ar livre, mas que desaparece um mês volvido. Por que raio gente cujo sonho é sentar-se diante de um computador, se fizer um trabalho braçal, ou num conselho de administração, se julgar que para isso tem conhecimentos (nos vários sentidos da palavra), pretende dar a impressão que anda a acarretar baldes de cimento nas obras, desafia a imaginação. Acresce que os povos que estão habituados a lidar com o sol, como os tuaregues, se embrulham prudentemente da cabeça aos pés, em parte porque não têm um SNS habilitado a lidar com cancros na pele.

Outros declararão que estão a descansar. Como? Descansar? Essa está muito boa: a revista vê-se num instante, e a seguir adormece-se; e o livro, que invariavelmente é um best-seller da moda, dá ao cabo de um capítulo um sono invencível. Dormir é muito bom, acordar com as pernas, ou a cabeça, a escaldar porque o sol já não está onde estava, e o raio do toldo é ainda mais exíguo do que o Orçamento para a cultura, segundo o que dele dizem os avençados do regime, nem por isso.

De resto, tirando as insolações e as esperas anormais em restaurantes, agora consideravelmente reduzidas, os únicos riscos que se correm, estatisticamente menosprezáveis, são ser picado por um peixe-aranha ou topar com o professor Marcelo, isto é, ver dois dias estragados ou uma semana.

Depois há os atletas que vão jogar qualquer coisa para a orla do mar, incomodando quem passeia; as caminhadas longas, chapinando ocasionalmente, não eram piores se as praias não tivessem a desagradável característica, que caminhos honestos não têm, de ser inclinadas; a água é fria no barlavento algarvio, salvo para quem precisar de uma cura de emagrecimento, boa no sotavento, onde não se aguenta o calor, e abominável na costa Oeste, onde não se aguenta nada.

Parte da culpa deste estado de coisas vem do séc. XIX, onde se inventou que os ares do mar e, pior, a própria imersão na água salgada, curavam uma série de maleitas, incluindo nas torturas banhos gelados, com os quais Ramalho Ortigão, por exemplo, massacrou a prole, à boleia das teorias de um médico francês com a cabeça cheia de teorias chanfradas, mas possivelmente não de caspa, cujo nome esqueci. Disso e do acesso das classes laboriosas ao direito às férias, que evidentemente tinham de ser as férias dos ricos, processo ainda em curso que o nosso Governo se tem afadigado a estancar pelo expediente de dar cabo da economia.

Já não verei as praias a ceder o passo a outros destinos para efeito de férias. E não estou certo do regresso das termas e dos seus rituais obsoletos, ainda que não se perceba por que razão a água salgada a entrar pelo nariz haja de ser melhor do que  a água doce, cheia de milagrosas propriedades, a entrar pela boca (ou até igualmente pelo nariz, se alguém ainda quiser ir a curas da rinite para Vizela e outros lugares atraentemente decadentes).

O bom das férias resulta, creio, do efeito conjugado de não trabalhar, mudar de ares e exibir o testemunho, a quem ficou a dar o corpo ao manifesto, de invejáveis experiências. Isso, uns pequenos segredos, consoante os destinos e as inclinações de cada qual, e o imenso suspiro de alívio no fim, como quando se tiram ao fim do dia os sapatos novos que magoavam os pés.

Para o ano cá estarei, provavelmente no mesmo sítio. Com a crise, é pouco provável que o celebrado poder local, que com pertinácia vem destruindo as cidades e aldeias costeiras com o propósito de requalificar, que é o verbo que os arquitectos usam quando querem entupir o horizonte com catedrais de mau gosto, tenha muitas oportunidades de engordar os cofres municipais com receitas oriundas de licenças de construção.

Não conseguiram melhor que isto?

Pedro Correia, 19.08.20

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Há muito que me espanto com a absoluta falta de talento revelada pelos nossos compatriotas quando decidem atribuir nomes aos estabelecimentos comerciais. É como se a imaginação e o bom gosto entrassem subitamente em greve por tempo ilimitado. 

Eis um exemplo: o que levará alguém a dar um nome destes a um restaurante, situado numa das artérias mais movimentadas do centro de Lagos? Sou incapaz de vos dizer se é ou não poiso recomendável. Pelo mais óbvio dos motivos: passo à distância quando encontro um charco.

Psicodrama à mesa

Pedro Correia, 18.08.20

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"Os portugueses sabem comer bem e apreciam boa comida." Oiço esta frase desde sempre e há muitos anos que a contesto.

Penso cada vez mais o contrário. E tenho a prova por estes dias. Janto num dos restaurantes que servem melhor peixe e marisco em Lagos. Fica junto à lota, os frutos do mar desembarcam praticamente do barco para a cozinha.

Aqui só como peixe, devo confessar. Apesar disso, nas mesas em redor escuto insistentes pedidos de gente a suplicar por "bitoque" e "picanha". O que me deixa estarrecido.

 

Há dois dias, um miúdo malcriado pôs-se a fazer birra, dizendo que só comia piza. Com palavrinhas doces, os pais procuravam convencê-lo que ali não havia disso: o "melhor" que se arranjava era um hambúrger.

Ao fim de muito tempo, lá acabaram num consenso: o puto acedeu mas o pai da criancinha teve de implorar por um prato "cheio de batatas fritas" para calar o palerma do filho. Que daqui a uns anos andará obeso e a competir no campeonato nacional do colesterol.

 

Enquanto este psicodrama decorria, eu degustava um petisco bem algarvio: barriga de atum, acompanhada com batata cozida e salada mista, temperada a meu gosto. Pensando: a instrução gastronómica faz parte da educação integral. Os pais que começam por falhar aqui, acabam por falhar em quase tudo.

Depois são capazes de culpar tudo e todos: o Estado, o Governo, os partidos, os políticos, sei lá o quê.

Mas a culpa é só deles - e dos péssimos exemplos que dão aos filhos.

Férias

José Meireles Graça, 15.08.20

Já tive férias que começaram com melhores auspícios. Ontem, ao chegar perto da VCI, vindo de Guimarães, via-se a cauda da interminável fila em direcção à ponte do Freixo. Acontece cada vez mais, aquele acesso está à espera de uma obra que corrija o erro do previsível estrangulamento que a obra original provocou. Esperto como sou, resolvi ir pela Arrábida, razão pela qual andei no pára-arranca durante quase duas horas.

Ao chegar à Arrábida, percebi: estavam dois ou três operários a trabalhar na junta de dilatação da ponte, devidamente enfarpelados em amarelo, e quatro ou cinco fiscais, ou engenheiros, mais o carro da GNR e os respectivos agentes. A proporção usual, portanto nada a dizer.

Sucede que das três faixas estavam interrompidas duas. Aparentemente, não ocorreu nem ao dono da obra, nem ao responsável local, nem aos prestimosos agentes da ordem, que interromper desnecessariamente (porquê duas em três e não uma em três; porquê de dia e não de noite), em horas de grande circulação, um eixo viário daqueles, justificaria que, sem danos físicos permanentes (sou um defensor estrénuo da moderação  em matéria penal) o dono da obra, o responsável, os agentes da GNR – se não denunciaram o caso superiormente – fossem objecto de um mínimo de dez chibatadas.

Antes de chegar à VCI, na A3, há daqueles pórticos luminosos em que se prodigalizam conselhos inanes das autoridades sobre incêndios, a Covid, a velocidade e mais um par de botas, igualmente cambadas pelo uso e pela justificada indiferença das pessoas.

O que não havia era informação sobre um facto simples: a ponte da Arrábida estava em obras; pelo lado do Freixo havia um considerável atraso; há um percurso alternativo, para quem queira ir para Sul, que nasce da portagem da Maia e passa o Douro em Crestuma. Se os senhores condutores se quisessem poupar aumentos da tensão arterial, e reforço da sua justificada aversão aos poderes públicos, não tinham mais do que ir por aí.

Razões pelas quais, depois de madura consideração, e passado mais de um dia para efeito de arrefecimento de uma exaltada indignação, me vejo na contingência de alargar a penalidade sugerida de dez para quinze chibatadas, incluindo na justa sanção o treteiro que faz a gestão dos pórticos informativos e, já agora, o presidente da Câmara do Porto, como responsável máximo local, pelo menos naquela embrulhada indigna da VCI que fica pertíssimo do seu tão estimado Dragão.

Férias sem testes nem máscaras

Pedro Correia, 13.08.20

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Praia de Burgau

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Na praia do Camilo

 

Enfim "desconfinado" (um dos nossos habituais eufemismos em jeito português suave), escolhi local de férias.

Dei prioridade aos Açores: quero conhecer a ilha de Santa Maria, antigo sonho meu, reforçado pela leitura recente de Crime em Ponta Delgada, romance (que recomendo) do meu amigo Francisco José Viegas. Azar: logo se lembrou o Governo Regional presidido pelo socialista Vasco Cordeiro de decretar testes obrigatórios ao novo coronavírus a todos os passageiros desembarcados do continente. Alguns destes supostos "empestados" chegaram a permanecer três dias compulsivamente encerrados em quartos de hotel em Ponta Delgada, sem possibilidade de rumar a outras ilhas, enquanto aguardavam os resultados dos testes.

Mudei de planos. E olhei então para a Madeira, mais concretamente para Porto Santo - onde existe uma das cinco ou seis mais belas praias portuguesas. Só lá estive uma vez, há mais de uma década: seria a ocasião ideal para regressar. Mas também aqui tudo se alterou: o Governo Regional presidido pelo social-democrata Miguel Albuquerque lembrou-se então de decretar o uso obrigatório da máscara nos espaços públicos do território insular, incluindo os que desfrutamos ao ar livre. Alguém com um módico bom senso vai de férias para andar o tempo todo de máscara arriscando pagar multas de 30 euros por ser visto sem ela? Não conheço ninguém, com excepção do Presidente da República, mesmo que tal medida - nunca aplicada no continente - suscite polémica entre os constitucionalistas.

 

Desisti, portanto. Vim para o Algarve, sem testes nem máscara ao ar livre. Um Algarve muito mais "desconfinado" do que o de 2019. Com muito menos turistas estrangeiros, alguns quase de todo ausentes - como os ingleses, os norte-americanos ou os canadianos. Mas, até por isso, com preços mais convidativos e mais espaço para manter distância física (não "distanciamento social", expressão absurda, que não é nem jamais pode ser regra sanitária) em relação a vizinhos de hotel, de apartamento, de praia ou de piscina. 

Fixei-me em Lagos. E tenho andado pelas praias das imediações, com destaque para a belíssima Burgau, que nos sugere um recorte da costa adriática. Mas também a praia do Camilo, com restaurante acoplado. E, claro, a icónica Meia Praia, onde há sempre lugar para todos - é de uma extensão só comparável a Montegordo ou ao quase vizinho Alvor.

Isto sim, é "desconfinamento". Enquanto o senhor Cordeiro e o senhor Albuquerque, regedores das ilhas, desesperam com falta de turistas, incluindo os continentais: só podem queixar-se deles mesmos. Que lhes faça bom proveito.

 

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Lagos ao anoitecer

Férias de Verão

Maria Dulce Fernandes, 26.06.20

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A Prima Rosalina era uma doce avozinha de Botero, com os seus olhos azuis e cabelos claros. Vivia em Cascais com o primo Manuel e com a Lena, uma menina ainda mais linda do que os pais. Ir a casa da Prima Rosalina era prenúncio de um bom domingo. A conversa durante a viagem era invariavelmente doce e salgada. Falávamos de mousse, de pudim e arroz doce, mas sobretudo de “batatas de pacote" que a Prima Rosalina fazia como ninguém. Às rodelas fininhas, secas e salgadas, as batatas da nossa prima faziam crescer água na boca de qualquer miúdo guloso. Enquanto os crescidos salivavam perante uma travessa enorme de mão de vaca com grão, os putos enchiam-se de batatas e doces, porque eram assim os domingos em Cascais em casa da Prima Rosalina. O Primo Manuel, com os óculos na ponta do nariz risonho e paciente, ensinou-nos a tocar os primeiros acordes no piano lá de casa e tinha um conhecimento enciclopédico sobre todas as coisas.


A casa de Alfeizerão fazia parte do espólio de magia da Prima Rosalina. Situada nos Casais do Norte, a vivenda Cruz era uma casa térrea com água furtada, quase paredes meias com uma enorme herdade de criação de bois de cobrição. A casa era alegre, com muitos quartos e anexos, decorada eclecticamente, uma cozinha enorme com muita loiça de barro e grandes vasos com tampa e torneira para a agua que provinha de um poço no exterior com uma bomba de alavanca, no melhor estilo Vovó Donalda e que fazia parte do nosso exercício matinal.

Tinha recantos fascinantes e imensos retratos da Amália, que chegou a fazer parte da família durante os anos em que foi casada com o Primo Chico, que sempre tive como uma simpatia de pessoa, mas cuja única nota alta no filme de 2008 foi ter sido interpretado pelo José Fidalgo.


A casa de Alfeizerão tinha a grande vantagem de ficar a 10 minutos de carro de S. Martinho do Porto, freguesia do concelho de Alcobaça que tem apenas a mais linda baía valviforme da Costa de Prata e uma praia fabulosa.


Cedinho, depois de grandes fatias de pão escuro torradas com manteiga caseira das vaquinhas da mãe da Celeste na quinta ao lado, ia-se ao mercado a S. Martinho, que fervilhava de agricultores, fregueses e aromas campestres, e de imediato se caía de chapão nas águas frescas da praia que proporcionava aos nadadores de banheira muitos metros sem perder o pé.


Depois de um peixinho fresco directo do grelhador do quintal com a manteiga, e com limões e salsa acabados de colher, as tardes eram invariavelmente de preguiça. Numa espécie de tabacaria minúscula entre o talho e a padaria, encontrei os primeiros três volumes das Aventuras de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, excelente leitura de férias para os meus 14 anos. Nas tardes menos quentes, íamos até à herdade ver os bois, enormes e pesados, que se estivessem em acção não poderiam ser “incomodados" pela presença de crianças, ou, liderados pelo Mano, mobilizávamo-nos pelos campos adentro para a apanha do caracol, que trazíamos em sacos de pano e ficavam no alguidar grande coberto com uma rede fina, para limpar durante uns dias.

Claro está que o Menino divertia-se a tirar a rede e a ver a caracolada “fugir” pela casa fora. Exceptuando uns gatitos, uma data de aranhas e os animais da quinta da mãe da Celeste, o pobre Menino não tinha muito para traquinar.

Outras vezes passeava-se pela costa ou dava-se um pulinho a Alcobaça, que tinha mais comércio. Quantas vezes não esperei com os meus livros na frescura do mosteiro...

O ponto alto das noites eram os pirilampos e as estrelas no céu. Num qualquer recanto campestre mais escuro, garanto que era difícil perceber onde terminavam uns e começavam as outras. Só agora consigo entender bem o significado daqueles suspiros profundos de satisfação que aqueciam e reconfortavam o coração.


Tempos de férias fabulosos, estes, antes do pai se apaixonar por Lagos e Pedras d'El Rei. Só voltei a Alfeizerão e S. Martinho há pouco tempo. Creio que existem os Casais do Norte, a casa, não garanto. Um prédio por outro aviva a memória mas nada, nada mesmo, faz lembrar sequer a casa do Pão de Ló que comíamos à boca cheia.

De volta à estrada

Maria Dulce Fernandes, 21.06.20

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Dulce, a pasta com os mapas está onde? Vi-a em cima da credência, pai. Se lá a viste, lá ficou. Vai buscá-la e deixa a porta bem trancada. Anda lá que está toda a gente à espera. Corri lance após lance, degraus dois a dois (sim, é verdade, acreditem!) até ao terceiro andar, peguei a pasta e voei escada abaixo. Os amigos já nos aguardavam, aqueles que não sendo da família em que nascemos, são a família que escolhemos e éramos inseparáveis. Os Afonso eram três, um casal com uma filha, a Tita, e os Silveira eram quatro, o casal, a Mica e o Gil, que o mano rabiava e apelidava de Gileia, por ser para o anafado.

Íamos todos partir de viagem e sempre que saíamos com o carocha atravancado com a proverbial data de tralha e equipamento essencial ao campista moderno, toda a vizinhança vinha dizer adeus à janela e desejar boa viagem. Adeus D. Sofia! Adeus D. Jo! Adeus!! Boa viagem! Adeus!

O destino era Andorra-la-Vieja, capital e principal cidade do pequeno principado de Andorra encalhado nos Pirenéus, verdinha e fresca no Verão e branca e fria no Inverno, apelativa para caminhadas e prática de desportos na neve, vivia e ainda vive do comércio e do turismo. Como as marcas consagradas mundialmente não pagam impostos nos seus representantes em Andorra, os preços são convidativos, num permanente ambiente de Outlet, que era exactamente o que os amigos Afonso procuravam: a André Jamet e uma tenda com duas assoalhadas e cozinha.

 

Metemo-nos à estrada, cada família no seu carro, e entre cantorias e despiques chegámos a Talavera de la Reina onde passámos a primeira noite. Dali seguimos para Toledo. Adorei Toledo: a sua catedral, o seu ar medieval com espadas e armaduras em todos os pontos de comércio, a glória de Espanha, nas palavras do da triste figura.

Seguiu-se um detour para visitar a imponência do Valle de los Caídos, que é exactamente isso, imponente. Continuámos viagem e pernoitámos em Fraga, estreando um pequeno hostal recém construído, Las Brujas. Foi uma noite memorável.

 

A seguir ao jantar um céu de breu trouxe raios, trovões e um dilúvio. Acomodados nuns quartos catitas a cheirar a novo, ouvíamos os estrondos lá ao longe, encantados pelo aconchego dos lençóis.

De repente, boom! E tudo ficou escuro. Um apagão! A luz que entrava nos quartos era a que vinha da janela e apenas quando havia relâmpagos. Subitamente  o som de alguém a regurgitar, passos apressados e corpos a cair fez-nos sentar na cama meio desnorteados e completamente assustados, até outro som, o de incontroláveis gargalhadas chegar até nós, cada vez mais forte.

Qual enredo de tragicomédia, o Gil foi deitar-se indisposto e apavorado com a “noite nas Brujas”, extravasou a indisposição pelo chão, incapaz de, no escuro, localizar a porta da casa de banho. A sua mãe foi em seu auxílio e pumba, escorregou e caiu. O pai foi em auxílio da mãe, mas não teve melhor sorte e pimba, no chão. Os amigos nas outras suites vieram em socorro com fósforos acesos, acabando por se perder nos corredores… enfim. Ninguém dormiu muito, mas rimos que nem doidos.

Ainda hoje a história da noite nas Brujas nos leva às lágrimas.

 

A manhã seguinte cheirava a chuva e a verde e, depois de mais uma barrigada de riso, voltámos à estrada e chegámos finalmente a Andorra, quedando-nos por Encamp, Camping Meritxell, um paraíso para o campista habituado ao pó: era frondoso, arrelvado e com um ribeiro límpido e borbulhante.

Cada um foi à sua faina de estacas e cordas e ficámos prontos num par de horas para a primeira noite nos Pirenéus.

De manhã, enquanto os adultos foram ao minimercado eu, o mano, o menino, a Tita, a Mica e o Gil, fizemos o reconhecimento do camping e sentámo-nos a ler tranquilamente, todos com o recado de que não se podia deixar o menino sem vigilância, nem por um segundo que fosse. A verdade é que um segundo é seguramente uma infinidade de tempo…

Com os adultos de regresso ao Camping, almoçámos e preparámo-nos para ir às compras, quando demos pela falta dos chinelos. Ninguém tinha trazido os chinelos? Eu guardei os meus! E eu! Eu também!… Como que movidos por um magnete olhamos todos para o menino que sorria, safado e feliz… tiraste os chinelos? Para quê? Fiz corridas de barcos no ribeiro, retorquiu o pequeno patife com aquele olhar de céu travesso… bem que os procurámos, mas o mais certo seria terem já desaguado no Mediterrâneo... o que vale é que em Andorra o comércio é rei e tinham chinelos de todas as cores e feitios.

 

De Encamp sai o teleférico que sobe até ao pico Els Cortals. Fomos todos. Em 1976, as cabines eram pequenas. Não mais do que três pessoas por cabine. Depois de instalados, eu e o mano resolvemos asnear, nem sei porquê, mas chegou-nos a brilhante ideia de abanar a cabine na horizontal armados em thrill seekers, dare devils ou simplesmente palermas. Felizmente não teve desfecho trágico, mas valeu-nos sobejos ralhetes e descomposturas descomunais.

Lá em cima era lindo e valeu por tudo: a vista, o lago azul que espelhava o céu.

Os visitantes, homens principalmente, provavam a sua virilidade, ou fibra, vá, segurando com uma só mão um porrón, jarro de vidro de boca estreita e bico comprido cheio de vinho tinto. Com uma mão atrás das costas, tinham que beber sem tocar com a boca no bico do jarro nem sujar a roupa com vinho. Escusado será dizer que muito poucos desceram a Encamp com as camisas limpas.

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Depois de os Afonso se decidirem por uma tenda azul e branca e pelos apetrechos necessários à arte de bem acampar, deixámos Encamp, Andorra e os Pirenéus rumo a Barcelona. Já em Andorra os Silveira tiveram notícias menos boas de Oeiras. Barcelona foi de fugida, Valência também e regressámos a Lisboa muito mais cedo do que o previsto e ainda a tempo de passar as duas últimas semanas em Albufeira, mas desta feita com a tenda em casa.

On the road again

Maria Dulce Fernandes, 10.06.20

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Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.

Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.

Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.

E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.

Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.

O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.

A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta - muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.

Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.

No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.

Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.

Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.

Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.

Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco" mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.

Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.

A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.

No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.

O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.

Bom Dia de Portugal para todos.

Com a casa às costas - 1

Maria Dulce Fernandes, 28.12.19

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Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.