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It's a steady job

por Pedro Correia, em 24.07.19

Expresso é um jornal de ideias fixas. Convicto de que os leitores são pessoas distraídas, incapazes de reter aquilo que lêem, chega a publicar a mesma notícia não apenas uma, nem sequer duas, mas três vezes na mesma edição. Com um intervalo de oito páginas.

Aconteceu assim na Revista do sábado que passou. Logo na página 10, vinha a primeira, intitulada «Lashana Lynch». Rezava assim: «O mundo está a mudar quando até o machismo de 007 é posto em causa. Embora Daniel Craig ainda faça uma perninha, a lindíssima a[c]triz britânica será a nova agente secreta em 'Bond 25'.»

 

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Estava eu ainda a interrogar-me se o faro das patrulhas de turno detectaria odor machista no superlativo «lindíssima» e se a expressão «fazer uma perninha» pode ter cunho heteropatriarcal, em alusão ao direito de pernada dos senhores medievais, e já deparava com a renotícia e o retítulo na página 14 da mesma edição do mesmíssimo periódico:

«Lashana Lynch não será James Bond, mas será a primeira mulher a tomar-lhe o lugar. Nascida em Londres, sonhou cantar e tem crescido a pulso na representação. 'Bond 25', nome provisório do 25.º filme da saga, está a pô-la nas bocas do mundo.»

Ilustrada pela cara que já vira quatro páginas atrás.

 

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Matutava eu ainda na expressão figurativa «crescer a pulso», de eventual pendor sexista sobretudo quando associada a «pô-la nas bocas do mundo», sentindo uma remota indignação a avolumar-se perante os insidiosos estereótipos de género induzidos pelo imaginário falocêntrico nesta escrita jornalística, e lá me ressurgia, na página 18, a fotografia da tal senhora que eu já vira estampada duas vezes antes no referido periódico.

 

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«O papel será interpretado pela a[c]triz britânica Lashana Lynch, que junta uma outra dimensão a esta mudança pelo facto de ser negra», alvitrava a re-renotícia da Revista do Expresso, tomando como fonte (só à terceira ficamos a saber) o tablóide londrino Daily Mail. Que ficou imortalizado na letra de uma canção contemporânea do James Bond original, Paperback Writer: «His son is working for the Daily Mail / It's a steady job, / But he wants to be a paperback writer...»

Canção dos irrepetíveis Beatles. Quatro rapazes de pele branquinha: expoentes de um mundo que não volta mais.

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Bruno de Carvalho

por jpt, em 06.07.19

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Ainda que apoiado pelo "institucional" jornal Expresso (a razão pela qual o jornal preferido da "classe média" Bloco Central político-económico apoia este homem é algo difícil de entender, se não se tiver uma interpretação economicista) Bruno de Carvalho acaba de ser definitivamente expulso do meu clube, na Assembleia-Geral do Sporting hoje decorrida. No último ano houve momentos em que o julguei personagem dramática. Mas afinal nem isso, tamanha a rábula que vem interpretando. Ainda assim esta perversa personagem - que a quase todos nós sportinguistas seduziu e exaltou -. ainda consegue, após todos estes desmandos e desvarios, receber apoio militante, e mesmo exasperado, de 30% dos associados.

É uma legião, sem calções, de gente disponível para quem a saiba arrebanhar. Esperem pouco, que alguém aparecerá. E não terá que ser do mundo da "bola". Nem sobre coisas da "bola".

 

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Expresso por encomenda

por jpt, em 29.06.19

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Aqui longe, hoje, sábado à tarde, vejo as notícias portuguesas. Ecos de uma entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso. "Outra vez?", resmungo, "ainda?", "a que propósito?", indago. O homem vitimiza-se, como sempre: que foi indexado como terrorista, que foi prejudicado e traído por todos os que o rodearam, que não tem emprego, que muito sofreu com uma doença da filha, algo que tudo explica da sua deriva aquando presidente do Sporting. E ameaça, voltar a candidatar-se e ser eleito, processar o Estado, etc.

"Porquê?" repito, não haverá mais assuntos para o Expresso explorar, em Portugal e no mundo, do que voltar à "vaca-fria", à enésima entrevista com o ex-presidente do Sporting, que encheu horas de ecrã e rios de papel há um ano? 

Sigo na procura das notícias. Passado um pouco vejo no És a Nossa Fé, que o Pedro Correia coordena, que hoje há uma assembleia geral do Sporting, para aprovação do orçamento, para reiterar confiança na actual direcção do clube. E, no mesmo dia, o "institucional" Expresso faz uma entrevista "higiénica", auto-vitimizadora, ao antigo presidente (e que personagem) do Sporting. Assim como se não fosse nada ... Não ao presidente do clube, não aos seus oponentes eleitorais (Benedito, por exemplo, candidato que perdeu por muito pouco), não a membros da direcção - o que poderia ser entendido como inserido no debate interno ao clube. Mas ao antigo presidente, com o historial todo, com um processo inédito de deposição e de expulsão do clube.

Isto é uma encomenda. Paga. É óbvio. 

É o Expresso. O que resta? Ou o que sempre foi. Pouco importa. É o Expresso.

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A eleição dos desconhecidos.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.19

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O primeiro número do Expresso, saído em Janeiro de 1973, informava que 63% dos portugueses nunca tinham votado. Era a demonstração cabal de como os portugueses encaravam a farsa que eram as eleições no Estado Novo. Agora, nas vésperas de uma eleição para o Parlamento Europeu, o Expresso informa que 69% dos portugueses não sabem o nome de nenhum eurodeputado. É a demonstração cabal de como os nossos eurodeputados andam afastados dos eleitores. Na verdade, a esmagadora maioria limita-se a fazer campanha aqui no burgo de cinco em cinco anos, para depois rumarem a Bruxelas para um longo mandato, durante o qual não se ouve falar deles. Deve ser por isso que nesta campanha só se falou de política nacional. A política europeia está longe e, se ninguém sequer conhece as personagens, como é que pode perceber o enredo da história? Depois admirem-se com a abstenção.

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Marcelo, Marcelo, Marcelo

por Pedro Correia, em 14.01.19

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Eu sei que o actual Presidente da República é uma figura popularíssima e que as notícias dignas desse nome não nascem para aí aos pontapés. Sei também que o Expresso cumpre ainda uma fase de penitência por ter noticiado há três meses, em manchete nada verdadeira, que o sucessor de Cavaco Silva iria reconduzir a procuradora-geral da República Joana Marques Vidal. Mas, caramba, era mesmo necessário escreverem "Marcelo" três vezes em título na primeira página deste sábado?

Nos anos 80, em que foi assinalado o centenário do nascimento do autor de Mensagem, popularizou-se a expressão «tanto Pessoa já enjoa». Não me admirava que um destes dias alguém comece a dizer «Marcelo, já cansa vê-lo». Agora a triplicar no semanário onde chegou a ter o nome no cabeçalho, como director.

 

P. S. - "Marcelo acha", em título de capa, é o cúmulo do achismo. Confundindo o Presidente com um Sherlock Holmes.

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Expressamente

por Pedro Correia, em 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

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O esquecimento do 'Expresso'

por Pedro Correia, em 27.10.18

Há dias escrevi aqui sobre as indignações selectivas, a propósito de política internacional. Pois nem de propósito: o editorial do Expresso de hoje - num estilo e com uma linguagem muito diferentes do habitual - constitui um exemplo vivo disto mesmo. 

«O Brasil somar-se-á à história sombria que, com matizes diferentes, está a ser construída nos últimos anos, com o endurecimento de regimes como o da Turquia e o das Filipinas, a eleição de populistas nos Estados Unidos, as subidas eleitorais de candidatos nacionalistas na Europa em países como França e Alemanha, o radicalismo na Polónia ou o antieuropeísmo em Itália.» Assim se pronuncia o preocupado e pomposo editorial sobre o que se vai passando por esse mundo fora.

Esquece o anónimo editorialista do Expresso o drama da Venezuela, que desde 2013, sob a gerência do populista ultranacionalista Nicolás Maduro, tem empurrado o país para a ruína económica, a tirania política, a violência impune e a asfixia das liberdades democráticas, condenando quase quatro milhões de compatriotas ao exílio noutras paragens - incluindo Portugal.

Faria bem o sobressaltado plumitivo em ler uma excelente reportagem de João Carvalho Pina, publicada esta semana na revista Sábado sob o título «Venezuela: a grande fuga». Em que se relata, a partir do local, como a vizinha Colômbia tem acolhido centenas de milhares de venezuelanos que ali acorrem em circunstâncias dramáticas.

Maduro, caudilho num Estado onde o salário mínimo paga apenas um rolo de papel higiénico e os preços subiram 223,1% só no mês de Agosto, embrulha as bravatas patrioteiras com retórica socialista e "anti-imperialista". Será isso que leva o conspícuo semanário a ser tão selectivo nas suas indignações?

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Jornalismo de referência: o estado da arte

por Teresa Ribeiro, em 19.10.18

Expresso. Edição em papel de 13 de outubro. O título "A reforma que Rio quer fazer em Segredo", desperta-me a curiosidade. Começo a ler. O texto do artigo revela que o PSD entregou aos partidos com assento na AR uma proposta para um pacto de reforma da Justiça. No segundo parágrafo afirma-se que esta iniciativa de Rui Rio "foi considerada estranha por diversos responsáveis  dos partidos" abordados pelo Expresso, "sob condição de anonimato". O jornalista que assina a peça escreve a seguir que "ninguém quis fazer a desfeita de recusar à partida a iniciativa, mas tudo é considerado "insólito", entre outras razões por "partir do pressuposto de que os partidos devessem chegar a acordo sobre a reforma da Justiça".

 

Enquanto leio vem-me à lembrança a quantidade de vezes que ouvi figuras de vários quadrantes políticos defenderem pactos de regime que viabilizassem as reformas estruturais de que o país carece em áreas sensíveis, uma delas a da justiça. Por isso não percebi o que pode ter de insólito uma iniciativa deste tipo. Continuo a ler, já com a percepção clara de que ao texto pretensamente jornalístico subjaz a opinião de quem o assina.

Segue-se um subtítulo que é, em si mesmo, uma opinião: "ideias concretas e princípios vagos". E o jornalista prossegue exprimindo de facto a sua opinião sobre o documento que diz que consultou: "Mistura ideias concretas, algumas originais, com princípios vagos e propostas de temas a debater em que o PSD não revela a sua posição". Diz isto a primeira vez, no final do terceiro parágrafo; a segunda vez , no quinto parágrafo ("a par de ideias concretas também as há bastante vagas - enunciação de princípios ou objectivos sem explicação de como fazê-lo"). Chegada a este ponto pergunto-me: Mas numa proposta para debate de vários itens não basta enunciá-los, ou é preciso detalhar opiniões prévias?

Continuo a ler. No sétimo parágrafo o jornalista repete a crítica: "Há outras questões que o documento do PSD levanta, mas sem definir uma posição". No oitavo parágrafo, lê-se: "...Parece ser uma ideia que o PSD apadrinha, mas não fica claro no documento". Seis linhas depois, o jornalista volta a afirmar que o documento do PSD "não explica". Cinco linhas depois, insiste: "O documento não avança com qualquer análise". E vão seis!

Nessa mesma página, num segundo texto sobre o assunto, assinado pelo mesmo jornalista sublinha-se a mesma ideia: "... Que medidas em concreto? Que tipo de ponderação? O documento não esclarece" (3º parágrafo). No parágrafo seguinte escreve-se: "...o assunto é despachado em pouco mais de cinco linhas, sem qualquer proposta concreta". E no que se segue: "...mais uma vez sem mais pormenor sobre propostas concretas". 

Na secção Gente nesta mesma edição do jornal, das quatro alfinetadas que constam neste espaço, três são para Rui Rio. Finalmente uma nota no editorial faz-me saber que o líder do PSD enviou um email para militantes do partido a acusar o Expresso de publicar mentiras e bla, bla, bla. Fiquei esclarecida. Trata-se mesmo de jornalismo de trincheira. Mas eu que - juro - não sou apoiante de Rio e já agora nem dos passistas, nem dos centristas que também querem fritar o Rio, para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?

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Expressamente

por Pedro Correia, em 29.09.18

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Já tínhamos o saco de plástico "inventado" pelo arquitecto Saraiva para resguardar o conteúdo do semanário do olhar alheio - e forçar assim os leitores a comprarem aquilo que ignoram, tornando opaco o jornalismo, algo que por definição deve ser transparente.

Já tínhamos as falsas primeiras páginas com conteúdos publicitários, anunciando uma conhecida marca ou propagandeando uma grande empresa.

Hoje passámos a ter uma primeira página inteirinha com promoção ("grátis", dizem eles) de uns livrinhos lançados pelo próprio jornal. Coisa pífia - sem escala, sem dimensão, sem classe.

Abdicam das notícias para isto.

Quando se fala da crise do jornalismo português, há que apontar responsáveis. A crise não é filha de pais incógnitos. Os responsáveis são gente que faz coisas como esta, mergulhando no ridículo aquele que ainda é o melhor jornal português.

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Um jornal de referência

por Rui Rocha, em 21.09.18

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Descubra as diferenças

por Inês Pedrosa, em 20.02.17

Na reportagem que o Expresso online publicou sobre a leitura pública do romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, realizada na Fundação José Saramago, escreve-se: "Foi a escritora e antiga presidente da Casa Fernando Pessoa quem deu início à leitura, lembrando que estavam todos ali por serem amigos do Valter" (conferir aqui). A gravação video da minha prestação demonstra que eu não "lembrei" isso - nem nunca o "lembraria", não só porque não sou íntima do Valter, mas sobretudo porque se tratava de valorizar a qualidade de um livro e de um escritor. O reconhecimento do talento faz muita confusão a certa imprensa; custa-lhe a crer que haja outras coisas entre a terra e o céu além do corporativismo. Deixo aqui a gravação, para mostrar a diferença.

 

 

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É uma perspectiva de ver as coisas

por Alexandre Guerra, em 02.05.16

No Sábado, o Expresso, aquele que é considerado o jornal de referência em Portugal, publica uma notícia a propósito da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique, onde se pode ler um disparate monumental (e para quem não se aperceba da questão, basta ler este take da Lusa de 2011). 

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Sem qualquer pedido de desculpa por parte do jornal, hoje, às 8h00 da manhã, a mesma jornalista faz uma suposta "actualização" da notícia na edição on line e onde se passa a ler isto (e atenção que a frase nem sequer termina com ponto). 

Marcelo. Não há momentos incómodos para visitar

E no final acrescenta a seguinte nota:Texto publicado na edição do Expresso de 30/04/2016 atualizado com informação relativa a encontro com filho do pintor Malangatana. Ora, para o jornal, nao se tratou sequer de um "erro" grosseiro, mas de informação que estava desactualizada. É uma perspectiva de ver as coisas...

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Dos mesmos autores de "O FMI Já Não Vem"

por Rui Rocha, em 23.11.15

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Maria Filomena Mónica

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.15

Escreve na edição de hoje do Expresso um texto simples e claro que deve ser lido com atenção. Quem leva a vida a queimar pestanas, fazendo sacrifícios, para poder ser um pouco menos ignorante e produzir alguma coisa séria, legível e que possa servir aos outros, só pode tirar uma conclusão: o texto peca por tardio. Quanto ao mais, incluindo a sua conclusão, não posso estar em desacordo. O que ela diz sobre o visado aplica-se igualmente a muitos outros que se passeiam pelos corredores das academias, da nossa vida pública e que vão agora compor as listas de deputados às legislativas de 4 de Outubro.

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Falta de respeito

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

O Expresso, semanário que muito prezo, anuncia a republicação integral de um texto que Sophia escreveu para aquele jornal nos idos de 1975. Por "republicação integral" eu entendo a republicação de uma obra na sua versão original, tal qual como conheceu a vida. Mas a primeira coisa que reparo é que na anunciada republicação aparece escrito "ato de criação", "ato de liberdade", "abstrata", "mundo atual", "25 de abril", "atividade"...

Que eu saiba, Sophia nunca escreveu nos termos do Novo Acordo Ortográfico. Nunca lhe foi perguntado se queria escrever nos termos do "acordês". E considero uma barbaridade reescrever ou republicar textos à luz desse documento profundamente demagógico. Não se respeita a integralidade do texto original, não se respeita a verdade histórica e manipula-se o texto em termos políticos e culturais.

Como nesse texto também se escreveu "a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar". Espero que não se atrevam a fazer o mesmo aos textos de Vasco Graça Moura que daqui a uns anos resolvam "republicar".

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Uma entrevista exemplar

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.04.14

Quer queiramos quer não, a entrevista de José Manuel Barroso ao Expresso foi uma excelente entrevista.

Ao contrário de muitos fait divers, reportagens e artigos absolutamente inócuos que preenchem as páginas dos jornais e revistas nacionais, uma entrevista é uma peça jornalística de interesse inquestionável pelo que revela das ideias e personalidade do entrevistado e da argúcia e perspicácia do entrevistador. Dessa perspectiva, a entrevista de Barroso é um tratado que durante muitos e bons anos será objecto de estudo e análise.

Confesso que graças a essa entrevista, pela primeira vez, pude compreender o verdadeiro alcance do pensamento barrosista e a forma como a cartilha maoísta se entranhou no espírito do ainda presidente da Comissão Europeia. Repare-se que a clareza, tantas vezes ausente do discurso de Durão Barroso, esteve agora insofismavelmente presente.

Clareza na forma como fazendo apelo ao interesse nacional - o mesmo que o levou a negociar a sua ida para Bruxelas depois de dias antes ter desmentido com toda a convicção que estivesse de partida ou interessado no lugar, manifestando inclusivamente na ocasião a sua intenção de levar o mandato em que fora investido até ao fim -, afirma a necessidade do próximo Presidente da República ser mais um fruto da trapalhada ideológica e da vacuidade em que medram os partidos do centrão. Estão lá tudo e todos, incluindo o apelo a essa desgraça chamada consenso, espécie de mistura de águas e detritos de variadas origens que conduziu a democracia portuguesa, formalmente inquestionável, à substantiva podridão actual.

Clareza também na afirmação de que não tem qualquer intenção de ser candidato às presidenciais, o que deve merecer tanta credibilidade quanto as declarações de Passos Coelho em campanha eleitoral sobre os cortes dos subsídios de férias e de Natal, a defesa do Serviço Nacional de Saúde, a reforma do Estado ou a redução défice pelo lado da despesa. Ou, se quiserem, colocando as coisas no seu devido lugar, dou-lhe o mesmo valor que às prédicas semanais de putativos candidatos presidenciais e ex-primeiros-ministros em final de sabática.

Clareza igualmente na forma como se predispôs a atacar Vítor Constâncio mais de dez anos depois dos factos que relatou na entrevista e de ter estado calado todo este tempo relativamente aos pornográficos negócios do BPN/SLN, fazendo de conta que o silêncio e a passividade não teriam consequências. A deficiente supervisão de Constâncio e do Banco de Portugal, sobre esse e outros assuntos, embora coloque em causa o seu desempenho e a eficácia da instituição no cumprimento das suas atribuições, em nada belisca a sua seriedade. Daí que não tenha podido deixar de registar, à semelhança de Silva Lopes, Beleza, Vilar, Santos Silva e Teodora Cardoso, o ataque doloso, que alguns diriam canalha, que foi feito ao ex-governador. Tendo sido o próprio Barroso, a fazer fé no relato, quem se quis chegar à frente, querendo substituir-se ao entrevistador na escolha e oportunidade do tema, atirando voluntariamente para a fogueira as achas com as quais pretendia continuar a imolação do infeliz Constâncio, a intenção letal do ataque foi manifesta, colocando-o ao nível de um qualquer desses deputados saídos das "jotas" que se apressam a dar lustro à voz de quem lhes garante o emprego. Atitude que, convenhamos, está ao nível de quem se afadigou em chegar às Lajes a tempo de se acocorar perante um dos mais vis - pelas consequências - ataques à verdade e ao direito internacional de que há memória. 

A entrevista de Barroso ao Expresso, sendo ele um ex-primeiro ministro e ex-titular dos Negócios Estrangeiros, por tudo aquilo que põe a nu, é o espelho da ambiguidade europeia, do permanente desencontro em que vive a União, da ausência de um líder e de um pensamento ideológico estruturado e coerente. Incapazes de encontrarem um líder que a una e prestigie, os burocratas eunucos que mandam na União preferem figuras menores, inconstantes, de pensamento proteiforme e com uma visão enviesada e ajustável à medida dos seus interesses.

Percebe-se, por isso mesmo, que a recente anexação da Crimeia pela Rússia não foi fruto de um acaso. Putin sabia que o barrosismo, digno sucessor do blairismo, tomou conta da Europa e se assume como uma espécie de wilsonianismo tardio e à deriva. Os resultados das municipais francesas são a melhor prova do triunfo da estupidez e do esgotamento da paciência dos eleitores.                                                                                  

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A redacção da vaca do boy

por Rui Rocha, em 20.10.13

O pássaro de que vos vou falar é o Teixeira dos Santos. O Teixeira dos Santos não vê nada de dia e à noite é mais cego que uma toupeira. Para ele não se magoar, coloquei-o numa gaiola durante dois anos. Um dia, deixei a porta aberta e o Teixeira dos Santos pôs-se a andar. O Teixeira dos Santos já não interessa nada e por isso vou continuar com outro tema de que quero falar – o PEC IV. O PEC IV era uma vaca que nos ia dar muito leite. A vaca tem seis lados. O da direita que é o dos filhos da mãe. O da esquerda que é só meu embora o Soares e os outros reumáticos pensem que é deles. O de cima, onde vivia a Fernanda. O de baixo, onde vivia o Diogo, que não sei quem é e com quem nunca me encontrei. Aliás, detesto que discriminem os homossexuais. Ser homossexual não tem mal nenhum. Agora percebo um bocado mais destas questões até porque já li coisas do Freud para aí umas quatro vezes. Mas ofende-me muito que digam que sou paneleiro. O último lado da vaca é o de trás que tem o rabo e é onde o Santana Lopes está pendurado. Com o Santana Lopes espantam-se as moscas para que não estraguem o leite. A cabeça serve para que lhe saiam os cornos (refiro-me à vaca e não ao Santana Lopes) e também para ter a boca que tem de estar em algum lado. A Merkel pensa que a vaca é dela, mas a vaca é da minha mãe que também é proprietária de terrenos, casas  e mansões em Cascais e em todo o lado com excepção das Ilhas Caimão. O que rima e é verdade. Só a CGD é que tem mais vacas que a minha mãe e por isso pôde fazer-me um empréstimo para eu passar uns meses em Paris a aprender coisas sobre a tortura. A tortura é má, magoa muito e faz mal às pessoas. Eu não gosto da tortura. Gosto da minha mãezinha, do PEC IV e do Lula. E do Stuart Mill e do Bentham. Do Kant não. Já li o Kant dez vezes e não gosto. O slogan do Obama era Yes, We Can. O meu é No, I Kant. E o marido da vaca é o boi. O boi não é um mamífero. O Schauble é um boi. A vaca não come muito, mas o que come, come duas vezes, ou seja: já tem bastante. Quando tem fome, muge; quando não diz nada, é porque está cheia de erva por dentro. As suas patas chegam ao chão. A vaca tem um olfacto muito desenvolvido, pelo que se pode cheirá-la desde muito longe. É por isso que o ar do campo e eu somos tão puros. Antes de terminar quero agradecer à minha professora Clarinha que me fez perguntas tão difíceis sobre a minha licenciatura ao Domingo e me deixou responder com o episódio da minha chegada a Coimbra. E ao Lula e à CGD e à mamã.

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Capas históricas do Expresso

por Rui Rocha, em 01.07.13

Em 5 de Fevereiro de 2011:

 

 

 

Em 21 de Junho de 2013:

 

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Claro como a água

por José Navarro de Andrade, em 04.05.13

O exemplar de hoje do Expresso gratifica-nos com uma conversa protagonizada pela magistral Clara Ferreira Alves que por uma vez, excepcional e extraordinariamente, se coíbe de tratar o entrevistado tu cá tu lá com’ós caldeireiros. Do outro lado da mesa assentou João Ferreira do Amaral (JFA), mais um prócere da economia, uma ciência cujas benesses e maravilhas temos vindo a experimentar e sobre a qual uns certos espíritos contumazes ultrajam ser mais aparentada com os princípios da alquimia do que com as exactas chatezas newtonianas.

JFA não hesita em desqualificar o actual rumo das finanças públicas: “O grande erro desta política foi exagerar na austeridade. É possível aplicar uma política com menos austeridade e melhores resultados orçamentais.”

A receita para tão suave milagre anda JFA a bradá-la há anos neste deserto: sair do €. Limpo, cirúrgico e indolor, ou pelo menos sem austeridade exageradas como a que hoje penamos – certo?

Vai daí e Clara, senhora de grande astúcia, pergunta pelas consequências de tão elegante e airosa magicação segregada pelo auspicioso cérbero de JFA:

Como seria pagar a dívida externa nesse cenário de saída ordeira?

Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior seriam os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem… a dívida externa, a pública só me preocupa na media em que é externa, é brutal.”

Persiste Clara:

Mas as prestações sociais teriam sempre de aumentar, o que aumenta o risco de hiperinflação.

E aí, o que me preocupa mais são os medicamentos, que são quase todos importados. Teria de ser feito um programa especial para isso. A despesa também não seria por aí além.”

Ou ainda:

As pessoas fazem perguntas concretas sobre a vida delas. Se tiverem uma dívida ao banco de uma casa, como é que essa dívida vai ser paga? Em euros? Em escudos?

Acho que o Estado se deve substituir ao devedor na proporção que resulta da desvalorização cambial. Pode fazer um empréstimo junto do banco de Portugal. A outra hipótese é a bonificação da taxa de juro. Ou se reduz o capital ou se reduz a taxa de juro.”

Temos assim que o remédio para nos livramos das diabólicas privações deste último par de anos, seria portanto mergulharmos em mais dois anos de caos absoluto. Os quais minusculamente perturbam o intrépido JFA e tão só “do ponto de vista da democracia.” Quanto às reles aflições dos cidadãos, mesquinhamente mais preocupados com as suas vidinhas do que com a democracia, quer os velhotes medicamentados, quer os vaidosos com casa própria, o Estado haveria de vir, suponhamos, a tapar o buraco precisamente com o dinheirinho de que tanto carece. Lógica perfeita: sair do € para pagar a dívida, de tal modo que se tenha de endividar brutalmente mais.

O resultado do questionário é ficarmos na dúvida acerca do género de avareza que tolhe JFA, se é uma pura avareza de espírito que o torna incapaz de medir como puro horror o resultado por ele mesmo explicado das suas maravilhosas teses, e então teremos que o ter na conta de alvar; ou se é uma avareza das que são inatas aos cândidos que de tanto contemplarem o firmamento caem num poço cavado a seus pés, o que nos obrigaria  infelizmente a reputá-lo como ridículo.

De qualquer modo estamos esclarecidos quanto à bondade da saída do € como alternativa aos tempos que correm.

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A página dez do Expresso (ii)

por André Couto, em 07.03.09

Na sondagem presente nesta página e que infra analisei, os entrevistados foram convidados a escolher entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite em sete categorias.

A categoria que mais me fez reflectir foi a que diz respeito à arrogância. Previsivelmente Sócrates bateu aos pontos a líder do PSD. O Expresso assume esta categoria como negativa, na análise que faz ao inquérito, o que me suscitou uma interrogação: será que queremos líderes moles, consensuais e sempre sorridentes? Quantos líderes com este perfil ficaram para a história por bons motivos? Não será a arrogância algo inerente a uma liderança de pulso firme, auto-confiante e tendencialmente inabalável, que se quer para um País que precisa como de pão para a boca de um Governo reformista, ainda para mais em tempo de crise? Não será que o principal problema de António Guterres (entre outros) foi o facto de ser excessivamente secular, sendo sabido que isso leva com maior facilidade ao desrespeito?
Creio que também neste ponto, algo polémico, Sócrates brilha nos resultados expressos.
Submeto-me às Vossas críticas!

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