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À atenção do Diácono Remédios

por Pedro Correia, em 05.03.21

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A jornalista Liliana Valente assinou, no Expresso da semana passada, a melhor reportagem que já li sobre a angústia e até o pânico que a pandemia provocou nos bastidores do Governo. Contou, para o efeito, com a colaboração de vários membros do Executivo naquilo que deve ter sido um laborioso e paciente exercício de jornalismo desdobrado por vários meses.

Merece ser felicitada por este trabalho, sob o título "Um ano a governar em aflição", inserido em quatro páginas do caderno principal. Pode haver quem imagine ser fácil, mas garanto que não é. 

 

Esta reportagem suscita reflexões de diverso tipo. Desde logo porque, entre os depoimentos recolhidos, há quem assuma a existência no Governo de uma "ala mais sanitarista", composta até por "hipocondríacos que não deviam estar ao leme" em situação de pandemia. Isto estimula a curiosidade dos leitores: quem serão os membros desta ala?

Mas o depoimento mais interessante - e, este sim, identificado - surge da boca de Tiago Antunes, secretário de Estado adjunto de António Costa, que a dado momento declara o seguinte: "Muitas vezes foi preciso assustar as pessoas e explicar que as coisas estavam piores do que se imaginava, muitas vezes foi preciso antecipar a opinião pública e influir na psicologia colectiva."

 

Destaco as expressões "assustar as pessoas" e "influir na psicologia colectiva". Sugerindo evidente manipulação da opinião pública.

Apetece-me perguntar ao Diácono Remédios, que na sua recente carta aberta no Público veio em socorro do Governo Costa e a vergastar os jornalistas que ousam perturbar o sossego de Suas Excelências, se não vai escrever outra cartinha, agora a propósito deste assunto. Fico a aguardar.

Do meu baú (6)

por Pedro Correia, em 09.02.21

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É sempre arriscado fazer previsões no jornalismo. E muito mais sobre os destinos da Igreja Católica, que são por natureza insondáveis, tais como os do Pai Eterno. Exemplo? Aqui está ele: veio publicado na primeira página do Expresso e transmitia uma certeza inabalável aos leitores «João Paulo II vai abdicar». Nem uma interrogação, sempre defensiva nestes casos, nem um daqueles verbos auxiliares - como poder ou admitir - que se utilizam para suavizar arestas quando a convicção está longe de ser absoluta. 

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A "notícia" - chamemos-lhe assim - veio estampada na primeira página daquele semanário, a 26 de Março de 1994. E baseava-se numa única "fonte" - chamemos-lhe assim também - identificada como tal: o correspondente no Vaticano da revista católica espanhola Vida Nueva. «O jornalista refere que destacadas figuras do aparelho do Estado da Santa Sé apontam mesmo alguns problemas clínicos com que o Papa se debate, como a falta de irrigação cerebal [sic] e células cancerígenas», escrevia o conceituado periódico. Acrescentando: «De facto, ultimamente João Paulo II tem vindo a perder vivacidade nas aparições públicas, desde que sofreu o atentado a tiro na Praça de S. Pedro, no dia 13 de Maio de 1981, que lhe atingiu o abdómen, e que o obrigou a diversas intervenções clínicas». 

O referido atentado, note-se, ocorrera quase 13 anos antes. E João Paulo II, apostado em contrariar o Expresso, manter-se-ia mais 11 anos sentado no trono de Pedro, terminando o seu pontificado não por renúncia mas por morte natural, a 2 de Abril de 2005. Aliás, depois desta bombástica "revelação" da primeira página, ainda visitou 47 países (incluindo a sua célebre deslocação a Cuba, em 1998, e a não menos badalada viagem a Fátima, em 2000, para a beatificação dos pastorinhos), publicou quatro encíclicas e divulgou oito exortações apostólicas

Falta acrescentar que a Santa Sé nem se deu ao incómodo de desmentir o Expresso. A História encarregou-se disso.

Do meu baú (5)

por Pedro Correia, em 08.02.21

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Se há exercício no jornalismo que se aproxima da quiromancia ou da cartomância, é este de predizer o futuro. O Expresso gosta de praticá-lo, a cada final de ano. É um pouco como praticar trapézio sem rede - embora as respostas surjam em regra muito arredondadas, para nelas caber tudo e o seu contrário, o que facilita de algum modo a tarefa.

Mas o que por vezes mais interessa são as perguntas. Repare-se na questão n.º 9 destas «100 perguntas para 2020» dadas à estampa na edição de 28 de Dezembro de 2019 daquele semanário. Uma questão afinal desdobrada em duas, sobre um tema sem a menor relevância neste mês de Fevereiro de 2021: «Joacine sai do Livre? E do Parlamento?» Poderá isto interessar a alguém excepto à própria deputada?

O jornal responde não respondendo, como acontece na grande maioria dos temas que aqui suscita: «A palavra à deputada Joacine.» Assim é demasiado fácil: qualquer um é capaz de escrever o mesmo.

 

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Os temas dividem-se em blocos que muito nos indicam sobre a hierarquia noticiosa do Expresso: política, sociedade, mundo, desporto e cultura. A economia está ausente porque foi tratada em local próprio, já aqui lembrado.

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No segundo bloco, destaque para dois temas relacionados com o SNS. Eis uma questão: «As urgências vão continuar a dar problemas?» Como hoje sabemos, raros assuntos estiveram tão em foco como este ao longo do ano que passou. Aqui o jornal não foge à questão, respondendo desta forma: «O atendimento de doentes urgentes será sempre o problema agudo do sistema de saúde. Com a saída de médicos (para a reforma, privados ou estrangeiro) as equipas do SNS não chegam para a procura e é utópico pensar que um dia irão chegar.» Isto porque - menciona-se na resposta à pergunta seguinte, a n.º 23 - «as condições de trabalho na rede pública - edifícios e equipamentos obsoletos, horários sobrecarregados, progressões congeladas e baixos salários, por exemplo - não irão mudar o suficiente para devolver atractividade ao SNS.»

E ainda ninguém adivinhava o que iria passar-se.

 

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Algumas perguntas, face ao sucedido, perderam razão de ser. Esta, por exemplo: «A selecção portuguesa irá revalidar o título europeu?» A resposta, como quase todas, vem arquitectada num estilo que permite diversas leituras no fim do ano. Mas neste caso não havia fuga possível: não chegou a acontecer o Campeonato da Europa de Futebol, tal como não ocorreram os anunciados Jogos Olímpicos de Tóquio.

Ou esta, pergunta n.º 85: «O concerto do ano vai ser o dos Faith No More?» Na resposta, dava-se como garantido que o regresso desta banda «irá consumar-se no festival NOS Alive». 

Como hoje sabemos, tudo ficou adiado para 2021. Se não chover.

 

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Ao nível ambiental, o Expresso não hesita em profetizar que «os episódios de seca tendem a ser mais extensos e intensos devido às alterações climáticas», registando-se nomeadamente «menos chuva». Podemos queixar-nos muito do sucedido em 2020, mas não da progressão da seca, pelo contrário: há muitos anos que o guarda-chuva e os impermeáveis não eram tão indispensáveis por cá.

Relacionada de algum modo com esta, surgia a pergunta n.º 71: «Greta vai entrar na política?» Assim, de repente, deixaria hoje vários leitores confundidos: é que esta activista sueca, tratada com tanta familiariedade pelo nome próprio, andou praticamente desaparecida ao longo de 2020 - e assim tem continuado nestes quase 40 dias de 2021. O Expresso proclamava-a «ícone de uma geração», com manifesto exagero. Porque, infelizmente, esta não se tornou a Geração Greta: tornou-se a Geração Covid.

 

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Tendo sido 2020 marcado pela pandemia do novo coronavírus, que causou mais mortos portugueses do que as guerras que travámos em África entre 1961 e 1974, pela queda mais abrupta alguma vez registada no PIB nacional, por dez inéditos estados de excepção e longas semanas de confinamento forçado, aliás ainda sem fim à vista, isto demonstra como são fúteis estes exercícios de jornalismo: entretêm alguma coisa, mas informam quase nada.

Repare-se só, a título de exemplo final, na pergunta n.º 98, em que o Expresso responde de algum modo em ca(u)sa própria: «A SIC vai consolidar a liderança nos canais generalistas?»

Resposta: «É provável que sim. (...) Tem vindo a reforçá-la ao longo dos meses, deixando o canal público e a estação de Queluz de Baixo para trás. Cristina Ferreira tornou-se num activo estratégico para o canal, mas os números provam que não é o único.»

Cristina Ferreira - «activo estratégico» da SIC em Dezembro de 2019 e hoje accionista e directora da TVI - confirma que o melhor mesmo é os jornalistas deixarem a quiromancia para os quiromantes. 

Tristes Olhos Castanhos

por Maria Dulce Fernandes, em 07.02.21

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Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos "Olhos Castanhos" , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve  "informar" o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo.

Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o "mal" já estava feito.

O caso "Chico Zé" teve  repercussões populares à boca pequena a nível nacional e, como seria de esperar, a sua carreira em Portugal acabou ali.

Teve um revivalismo anos mais tarde após a Revolução de Abril, mas nunca voltou a atingir a popularidade de que gozava antes de 1964.

Para ler

https://expresso.pt/cultura/2021-02-06-O-dia-em-que-o-cantor-Francisco-Jose-desafiou-a-RTP-em-direto

https://museu.rtp.pt/livro/50Anos/Livro/DecadaDe60/RTPAos10Anos/Pag30/default.htm

 

Foto Google/Expresso

O estado da arte

por jpt, em 25.10.20

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Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. E recomendo-a, pois é uma boa descrição do actual "estado da arte" português. Trata-se de "O Torso Dispensável".

(Como o texto tem acesso reservado a assinantes poder-se-á ler uma transcrição parcial, mas quase completa, aqui.)

Do meu baú (4)

por Pedro Correia, em 20.10.20

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É sempre arriscado fazer previsões para o ano que vai seguir-se. Sobretudo quando a bola de cristal está embaciada.

Razões acrescidas para felicitar o risco corrido por quem escreveu e editou o último suplemento de 2019 do semanário Expresso. Parecia um exercício de trapézio sem rede - e era mesmo.

Mal havia decorrido o primeiro trimestre do ano em curso e já muitas previsões estavam estilhaçadas.

 

O prestigiado periódico não fez a coisa por menos, substituindo a prudência jornalística alicerçada em factos por exercícios de adivinhação, submetidos ao mote 50 perguntas para 2020.

Tentando responder a esta questão de âmbito mais genérico: «O que vai acontecer em Portugal e no mundo do ponto de vista económico ao longo do próximo ano?»

Selecciono aqui algumas dessas previsões:

- «Em 2020 perfila-se margem para [o turismo] crescer em valor.»

- «A segurança, o clima, a gastronomia e sobretudo a simpatia das pessoas irão continuar a cativar estrangeiros de várias origens e também para a compra de casas.»

- «Tudo indica que os salários vão subir.»

- «O Estado vai ter excedente [financeiro] se a economia crescer acima de 3% em termos nominais.»

- «A Alemanha não vai entrar em recessão.»

- «Outras cidades poderão seguir o caminho de Lisboa ou do Porto, que fixaram este ano limites [ao alojamento local] nas suas zonas históricas.»

- «Por vontade do Governo, sim, mas logo se verá [se começa a construção do aeroporto do Montijo].»

 

Relendo hoje o suplemento, datado de 28 de Dezembro de 2019, parecem ter passado longos anos - e não apenas dez meses.

Começando logo pela manchete: «Classe média resistiu à crise».

 

Outros títulos da mesma edição:

- Preços sobem menos que salários no próximo ano

- Três anos para mudar Coimbra, do Choupal até à Lapa

- Há 3964 imóveis à venda no arquipélago dos Açores

- Six Senses investe 10 milhões no luxo

- Há cada vez mais pessoas a viajar e Hong Kong está no topo

 

Mas valha a verdade: nem todas as previsões do Expresso saíram furadas. Esta ampla antevisão de 2020 vaticinava, com acerto, que continuaríamos a pagar "buracos" na banca e que a guerra comercial China-EUA prosseguiria.

Prognósticos que até o conceituado Professor Karamba seria capaz de ter emitido. Em 2019 ou noutro ano qualquer.

 

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Costa: «Os gajos são cobardes»

por Pedro Correia, em 25.08.20

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Foto: António Pedro Santos / Lusa

 

Em Abril de 2016, o primeiro-ministro exonerou o titular da pasta da Cultura, lançando-lhe um solene aviso: os membros do Executivo «nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo». Isto porque João Soares, em escrita ligeira de Facebook, prometera umas "bofetadas" (retóricas) em dois comentadores que o haviam criticado.

«Costa põe João Soares na ordem e obriga-o a pedir desculpa», apressou-se a titular o Diário de Notícias.

 

Quatro anos depois, ignorando as suas próprias advertências, Costa comporta-se com uma leviandade que, em comparação, remete a do ex-ministro da Cultura à gaveta das traquinices infantis.

Perante pelo menos três jornalistas do Expresso, em frase à margem de uma entrevista mas que ficou registada numa gravação remetida (por dolo, irresponsabilidade ou negligência profissional) por aquele semanário a dois canais televisivos, o chefe do Governo disse esta frase, aludindo aos médicos que prestaram serviço em Reguengos de Monsaraz: «É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram.»

Foram palavras proferidas off the record, mas não deixam de ser indignas de um primeiro-ministro - sobretudo de um primeiro-ministro que já tinha sido profundamente infeliz em Junho, quando afirmou que a escolha de Lisboa como palco da Liga dos Campeões era «um  prémio para os profissionais da saúde» que há seis meses combatem o Covid-19 em Portugal. Como se a pandemia tivesse alguma coisa a ver com o futebol.

 

O Costa de 2020 devia seguir o conselho do Costa de 2016: um primeiro-ministro nem à mesa do café deve deixar de se lembrar que é membro do Governo.

Eu, se fosse o João Soares, recordava-lhe isto agora.

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.06.20

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I

Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei. 

Um bom título deve captar a atenção do leitor, deve atraí-lo, deve seduzi-lo. 

Se for necessário, alguém interrompe outras tarefas na azáfama de uma Redacção e concentra-se nisto até encontrar o título ideal. Por vezes, é o próprio autor do texto. Mas acontece, quase sempre, que seja um editor de caderno ou de secção. Ou até um membro da direcção com mais talento para esta função, o que nem sempre acontece. Conheci directores e subdirectores que mal sabiam fazer um título. Ou até uma simples legenda.

 

Um título bem conseguido é uma forma de mostrar consideração e apreço por quem nos lê.

Seja onde for. Também num blogue. E sempre com regras: aqui no DELITO, por exemplo, uma "regra" tácita e de adesão voluntária recomenda que um título não tenha mais de 32 batidas, incluindo espaços. Evitando assim que uma palavra salte, solitária, para uma inútil e redundante segunda linha. Nada recomendável até por motivos estéticos.

 

Quando havia mais tempo e mais gente para elaborar jornais, as pessoas organizavam-se de acordo com as suas aptidões. Havia os repórteres, que andavam quase sempre fora e ligavam a dar dicas ou a ditar entradas de notícias, e os redactores, com mais talento para a escrita, que se encarregavam da versão final dos textos.

Na hora do fecho, com a primeira página prestes a concluir, convocava-se sempre um especialista em títulos. Que podia ser alguém que nem estava munido com carteira profissional. Houve até um arquivista com especial talento para a arte de titular que acabou por tornar-se jornalista deste modo: forneceu tantas sugestões certeiras para manchetes com sucesso à equipa directiva que um dia saltou do arquivo para um lugar destacado na Redacção.

 

II

Há muito tempo que o Expresso abdicou de fazer bons títulos - criativos, chamativos, sintéticos, sem distorcer factos - e optou pela forma mais preguiçosa e previsível de titular. Aquilo a que costumo chamar "títulos de funcionário": aplica-se o molde chapa cinco e fica despachado. 

Exemplos de "títulos de funcionário": aqueles que usam e abusam de títulos de livros ou filmes ao ponto de se tornarem insuportáveis lugares-comuns. Foi o caso, durante anos, da expressão "à beira de um ataque de nervos", decalcada de um filme de Almodóvar.

Ou os que empregam locuções verbais que pela sua natureza já estão mais que vistas e gastas, incluindo as que incluem o verbo haver, o verbo ir, o verbo ser ou o verbo estar.

Ou os que recorrem até à náusea aos pronomes relativos, sobretudo o famigerado "que", quase sempre substituído com vantagem por elegantes dois pontos.

Ou os intermináveis, cheios de vírgulas e palavras inúteis, que cansam o leitor ao ponto de o dissuadirem de passar do título ao texto.

Ou, na política, os que insistem em "dar murros na mesa", em "querer" ou "não querer" ou em "disparar" contra tudo quanto mexe ou em "arrasar" seja o que for - bocejantes expressões mil vezes escritas, mil vez lidas, ao ponto da saturação total. E reveladoras de uma confrangedora pobreza lexical nestes tempos de galopante supressão de vocábulos, condenados à extinção pela iliteracia dominante.

 

Basta-me folhear a mais recente edição do Expresso para encontrar "títulos de funcionário". 

Eis alguns: «Vai começar uma "revolução científica" no Vale do Côa»; «Portugal vai ter mais um centro para refugiados»; «Emergência social dispara em 2 meses»; «Tempo arrasa agricultura»; «Merkel quer resposta rápida»; «Costa quer entendimento à esquerda até 2023»; «Marcelo não quer público nos jogos da Champions»; «Comércio quer aumentar lotação, DGS recusa, "neste momento"».

Isto já para não falar dos títulos incompreensíveis. Deixo uns exemplos, também colhidos desta edição: «Fusão junta SRS Advogados e AAA» (na primeira página); «Leão adia LEO para 2023»; «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses»

 

III

Mas, felizmente, há excepções. E a que aqui trago é bem honrosa: refiro-me ao título de capa da revista do próprio Expresso, nesta sua mais recente edição. Sob o rosto de Amália Rodrigues no auge da carreira, comprovando a prodigiosa fotogenia da grande diva do fado, nascida vai fazer cem anos. 

«Amália - Nem chegaste a partir» - eis o título-legenda. Justo, conciso e feliz. Quase um verso. Aliás, é mesmo um verso, extraído da letra que David Mourão-Ferreira escreveu para o Barco Negro, a que ela deu expressão eterna: «Eu sei, meu amor, / Que nem chegaste a partir / Pois tudo em meu redor / Me diz que estás sempre comigo.»

 

Para atingir este clímax não basta conhecer todas as potencialidades do nosso belo idioma, tão cheio de ambiguidades e cambiantes, tão vocacionado para uma ampla gama de vocalizações, tão propício a ser cantado. É preciso também ter cultura e conhecer a fundo o tema sobre o qual se escreve.

Sendo o jornalismo uma actividade cuja carpintaria se desenvolve com frequência no anonimato das salas de trabalho, ignoro a quem devemos, enquanto leitores, este título tão digno de elogio. Mas foi seguramente alguém que leu com muita atenção o primeiro dos três textos que justificam esta capa. Um texto de Jorge Calado que vivamente recomendo, em que o autor equipara Amália a Maria Callas e Ella Fitzgerald, convicto de que ela «habita o panteão das maiores vozes do século XX»

Porquê? «Amália ampliava as vogais, arrastava as consoantes, esticava a linha vocal sem a partir, antes percorrendo todas as notas intermédias num alucinante legato cromático que nos deixava estupefactos e em transe, como ela.» E cá surge a referência explícita à canção que ela estreou no filme francês Os Amantes do Tejo, rodado em Lisboa: «Ouça-se, por exemplo, o que Amália faz com a palavra "loucas", do Barco Negro (em que virou do avesso a Mãe Preta, de Maria da Conceição), e a seguir compare-se com o "Amami, Alfredo" da Callas em La Traviata

 

Felizmente ainda surge por vezes um texto que basta, só por si, para nos levar a comprar um jornal sem arrependimentos. É o caso deste, que bem justifica o belo título que lhe serve de chamariz.

O Expresso

por jpt, em 04.04.20

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Quem me conhece (ou blogo-conhece) saberá que eu abomino Marcelo Rebelo de Sousa mais do que as brigadas do Al Shabaab odeiam as barracas de bifanas e coiratos no Campo Grande em dia de jogo do Sporting. E que quanto a Costa e seus sequazes tenho frémitos de os enviar para a arena do José de Alvalade (o nome é esse mesmo) rodeados de leões.

Dito isto fica a questão: será que nem os idólatras notam o desvario de uma capa destas? Que não é preciso ser tão rasteiro?

Por outro lado é um aviso: vêm aí tempos ainda mais difíceis para a imprensa. Há que garantir que Armando Vara se disponibiliza a deixar as grandes empresas pagarem publicidade. Não é nada mais do que isso.

Expresso

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.03.20

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Ao ler a edição desta semana (29/02/2020) interroguei-me sobre se andarão em autogestão.

No Expresso online temos lido de tudo e mais alguma coisa, mas ainda não me tinha apercebido verdadeiramente do rumo da edição em papel.

Desta vez, não bastava o título da primeira página, alarmista e descontextualizado, quase como que a deixar no ar a ideia de que há gente ansiosa para que comecemos a morrer com o COVID-19, quando me deparo com um artigo de George Soros, traduzido para português (página 5, Primeiro Caderno), que foi publicado online duas semanas antes ("Europe must recognize China for what it is", Project Syndicate).

Talvez seja então a altura de passarem a quinzenário. Assim, se publicarem o velho e requentado ninguém estranhará a falta de actualidade. Ou a demora na tradução.

Se há coisa que me custe é assistir à morte dos jornais e revistas que sempre li.

Da falta de memória

por Pedro Correia, em 26.10.19

Leio hoje no Expresso, em peça muito destacada, que há a partir de agora três mulheres à frente de bancadas parlamentares -- «são as sucessoras de Manuela Ferreira Leite, a única mulher até agora líder de um grupo parlamentar, entre 2001 e 2002».

Erro factual grave. A primeira mulher que liderou um grupo parlamentar foi Maria José Nogueira Pinto, à frente da bancada do CDS entre 1997 e 1999.

Um erro que é consequência directa da galopante falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo não começou anteontem.

Hoje, num jornal de referência

por Pedro Correia, em 28.09.19

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Eis o nosso idioma cada vez mais em xeque: a iliteracia ganha terreno, dia após dia. Sem "greves linguísticas" de protesto, equivalentes às "greves climáticas". Toda a gente encolhe os ombros. Se calhar até acham bem.

It's a steady job

por Pedro Correia, em 24.07.19

Expresso é um jornal de ideias fixas. Convicto de que os leitores são pessoas distraídas, incapazes de reter aquilo que lêem, chega a publicar a mesma notícia não apenas uma, nem sequer duas, mas três vezes na mesma edição. Com um intervalo de oito páginas.

Aconteceu assim na Revista do sábado que passou. Logo na página 10, vinha a primeira, intitulada «Lashana Lynch». Rezava assim: «O mundo está a mudar quando até o machismo de 007 é posto em causa. Embora Daniel Craig ainda faça uma perninha, a lindíssima a[c]triz britânica será a nova agente secreta em 'Bond 25'.»

 

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Estava eu ainda a interrogar-me se o faro das patrulhas de turno detectaria odor machista no superlativo «lindíssima» e se a expressão «fazer uma perninha» pode ter cunho heteropatriarcal, em alusão ao direito de pernada dos senhores medievais, e já deparava com a renotícia e o retítulo na página 14 da mesma edição do mesmíssimo periódico:

«Lashana Lynch não será James Bond, mas será a primeira mulher a tomar-lhe o lugar. Nascida em Londres, sonhou cantar e tem crescido a pulso na representação. 'Bond 25', nome provisório do 25.º filme da saga, está a pô-la nas bocas do mundo.»

Ilustrada pela cara que já vira quatro páginas atrás.

 

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Matutava eu ainda na expressão figurativa «crescer a pulso», de eventual pendor sexista sobretudo quando associada a «pô-la nas bocas do mundo», sentindo uma remota indignação a avolumar-se perante os insidiosos estereótipos de género induzidos pelo imaginário falocêntrico nesta escrita jornalística, e lá me ressurgia, na página 18, a fotografia da tal senhora que eu já vira estampada duas vezes antes no referido periódico.

 

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«O papel será interpretado pela a[c]triz britânica Lashana Lynch, que junta uma outra dimensão a esta mudança pelo facto de ser negra», alvitrava a re-renotícia da Revista do Expresso, tomando como fonte (só à terceira ficamos a saber) o tablóide londrino Daily Mail. Que ficou imortalizado na letra de uma canção contemporânea do James Bond original, Paperback Writer: «His son is working for the Daily Mail / It's a steady job, / But he wants to be a paperback writer...»

Canção dos irrepetíveis Beatles. Quatro rapazes de pele branquinha: expoentes de um mundo que não volta mais.

Bruno de Carvalho

por jpt, em 06.07.19

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Ainda que apoiado pelo "institucional" jornal Expresso (a razão pela qual o jornal preferido da "classe média" Bloco Central político-económico apoia este homem é algo difícil de entender, se não se tiver uma interpretação economicista) Bruno de Carvalho acaba de ser definitivamente expulso do meu clube, na Assembleia-Geral do Sporting hoje decorrida. No último ano houve momentos em que o julguei personagem dramática. Mas afinal nem isso, tamanha a rábula que vem interpretando. Ainda assim esta perversa personagem - que a quase todos nós sportinguistas seduziu e exaltou -. ainda consegue, após todos estes desmandos e desvarios, receber apoio militante, e mesmo exasperado, de 30% dos associados.

É uma legião, sem calções, de gente disponível para quem a saiba arrebanhar. Esperem pouco, que alguém aparecerá. E não terá que ser do mundo da "bola". Nem sobre coisas da "bola".

 

Expresso por encomenda

por jpt, em 29.06.19

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Aqui longe, hoje, sábado à tarde, vejo as notícias portuguesas. Ecos de uma entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso. "Outra vez?", resmungo, "ainda?", "a que propósito?", indago. O homem vitimiza-se, como sempre: que foi indexado como terrorista, que foi prejudicado e traído por todos os que o rodearam, que não tem emprego, que muito sofreu com uma doença da filha, algo que tudo explica da sua deriva aquando presidente do Sporting. E ameaça, voltar a candidatar-se e ser eleito, processar o Estado, etc.

"Porquê?" repito, não haverá mais assuntos para o Expresso explorar, em Portugal e no mundo, do que voltar à "vaca-fria", à enésima entrevista com o ex-presidente do Sporting, que encheu horas de ecrã e rios de papel há um ano? 

Sigo na procura das notícias. Passado um pouco vejo no És a Nossa Fé, que o Pedro Correia coordena, que hoje há uma assembleia geral do Sporting, para aprovação do orçamento, para reiterar confiança na actual direcção do clube. E, no mesmo dia, o "institucional" Expresso faz uma entrevista "higiénica", auto-vitimizadora, ao antigo presidente (e que personagem) do Sporting. Assim como se não fosse nada ... Não ao presidente do clube, não aos seus oponentes eleitorais (Benedito, por exemplo, candidato que perdeu por muito pouco), não a membros da direcção - o que poderia ser entendido como inserido no debate interno ao clube. Mas ao antigo presidente, com o historial todo, com um processo inédito de deposição e de expulsão do clube.

Isto é uma encomenda. Paga. É óbvio. 

É o Expresso. O que resta? Ou o que sempre foi. Pouco importa. É o Expresso.

A eleição dos desconhecidos.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.19

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O primeiro número do Expresso, saído em Janeiro de 1973, informava que 63% dos portugueses nunca tinham votado. Era a demonstração cabal de como os portugueses encaravam a farsa que eram as eleições no Estado Novo. Agora, nas vésperas de uma eleição para o Parlamento Europeu, o Expresso informa que 69% dos portugueses não sabem o nome de nenhum eurodeputado. É a demonstração cabal de como os nossos eurodeputados andam afastados dos eleitores. Na verdade, a esmagadora maioria limita-se a fazer campanha aqui no burgo de cinco em cinco anos, para depois rumarem a Bruxelas para um longo mandato, durante o qual não se ouve falar deles. Deve ser por isso que nesta campanha só se falou de política nacional. A política europeia está longe e, se ninguém sequer conhece as personagens, como é que pode perceber o enredo da história? Depois admirem-se com a abstenção.

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Marcelo, Marcelo, Marcelo

por Pedro Correia, em 14.01.19

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Eu sei que o actual Presidente da República é uma figura popularíssima e que as notícias dignas desse nome não nascem para aí aos pontapés. Sei também que o Expresso cumpre ainda uma fase de penitência por ter noticiado há três meses, em manchete nada verdadeira, que o sucessor de Cavaco Silva iria reconduzir a procuradora-geral da República Joana Marques Vidal. Mas, caramba, era mesmo necessário escreverem "Marcelo" três vezes em título na primeira página deste sábado?

Nos anos 80, em que foi assinalado o centenário do nascimento do autor de Mensagem, popularizou-se a expressão «tanto Pessoa já enjoa». Não me admirava que um destes dias alguém comece a dizer «Marcelo, já cansa vê-lo». Agora a triplicar no semanário onde chegou a ter o nome no cabeçalho, como director.

 

P. S. - "Marcelo acha", em título de capa, é o cúmulo do achismo. Confundindo o Presidente com um Sherlock Holmes.

Expressamente

por Pedro Correia, em 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

O esquecimento do 'Expresso'

por Pedro Correia, em 27.10.18

Há dias escrevi aqui sobre as indignações selectivas, a propósito de política internacional. Pois nem de propósito: o editorial do Expresso de hoje - num estilo e com uma linguagem muito diferentes do habitual - constitui um exemplo vivo disto mesmo. 

«O Brasil somar-se-á à história sombria que, com matizes diferentes, está a ser construída nos últimos anos, com o endurecimento de regimes como o da Turquia e o das Filipinas, a eleição de populistas nos Estados Unidos, as subidas eleitorais de candidatos nacionalistas na Europa em países como França e Alemanha, o radicalismo na Polónia ou o antieuropeísmo em Itália.» Assim se pronuncia o preocupado e pomposo editorial sobre o que se vai passando por esse mundo fora.

Esquece o anónimo editorialista do Expresso o drama da Venezuela, que desde 2013, sob a gerência do populista ultranacionalista Nicolás Maduro, tem empurrado o país para a ruína económica, a tirania política, a violência impune e a asfixia das liberdades democráticas, condenando quase quatro milhões de compatriotas ao exílio noutras paragens - incluindo Portugal.

Faria bem o sobressaltado plumitivo em ler uma excelente reportagem de João Carvalho Pina, publicada esta semana na revista Sábado sob o título «Venezuela: a grande fuga». Em que se relata, a partir do local, como a vizinha Colômbia tem acolhido centenas de milhares de venezuelanos que ali acorrem em circunstâncias dramáticas.

Maduro, caudilho num Estado onde o salário mínimo paga apenas um rolo de papel higiénico e os preços subiram 223,1% só no mês de Agosto, embrulha as bravatas patrioteiras com retórica socialista e "anti-imperialista". Será isso que leva o conspícuo semanário a ser tão selectivo nas suas indignações?

Jornalismo de referência: o estado da arte

por Teresa Ribeiro, em 19.10.18

Expresso. Edição em papel de 13 de outubro. O título "A reforma que Rio quer fazer em Segredo", desperta-me a curiosidade. Começo a ler. O texto do artigo revela que o PSD entregou aos partidos com assento na AR uma proposta para um pacto de reforma da Justiça. No segundo parágrafo afirma-se que esta iniciativa de Rui Rio "foi considerada estranha por diversos responsáveis  dos partidos" abordados pelo Expresso, "sob condição de anonimato". O jornalista que assina a peça escreve a seguir que "ninguém quis fazer a desfeita de recusar à partida a iniciativa, mas tudo é considerado "insólito", entre outras razões por "partir do pressuposto de que os partidos devessem chegar a acordo sobre a reforma da Justiça".

 

Enquanto leio vem-me à lembrança a quantidade de vezes que ouvi figuras de vários quadrantes políticos defenderem pactos de regime que viabilizassem as reformas estruturais de que o país carece em áreas sensíveis, uma delas a da justiça. Por isso não percebi o que pode ter de insólito uma iniciativa deste tipo. Continuo a ler, já com a percepção clara de que ao texto pretensamente jornalístico subjaz a opinião de quem o assina.

Segue-se um subtítulo que é, em si mesmo, uma opinião: "ideias concretas e princípios vagos". E o jornalista prossegue exprimindo de facto a sua opinião sobre o documento que diz que consultou: "Mistura ideias concretas, algumas originais, com princípios vagos e propostas de temas a debater em que o PSD não revela a sua posição". Diz isto a primeira vez, no final do terceiro parágrafo; a segunda vez , no quinto parágrafo ("a par de ideias concretas também as há bastante vagas - enunciação de princípios ou objectivos sem explicação de como fazê-lo"). Chegada a este ponto pergunto-me: Mas numa proposta para debate de vários itens não basta enunciá-los, ou é preciso detalhar opiniões prévias?

Continuo a ler. No sétimo parágrafo o jornalista repete a crítica: "Há outras questões que o documento do PSD levanta, mas sem definir uma posição". No oitavo parágrafo, lê-se: "...Parece ser uma ideia que o PSD apadrinha, mas não fica claro no documento". Seis linhas depois, o jornalista volta a afirmar que o documento do PSD "não explica". Cinco linhas depois, insiste: "O documento não avança com qualquer análise". E vão seis!

Nessa mesma página, num segundo texto sobre o assunto, assinado pelo mesmo jornalista sublinha-se a mesma ideia: "... Que medidas em concreto? Que tipo de ponderação? O documento não esclarece" (3º parágrafo). No parágrafo seguinte escreve-se: "...o assunto é despachado em pouco mais de cinco linhas, sem qualquer proposta concreta". E no que se segue: "...mais uma vez sem mais pormenor sobre propostas concretas". 

Na secção Gente nesta mesma edição do jornal, das quatro alfinetadas que constam neste espaço, três são para Rui Rio. Finalmente uma nota no editorial faz-me saber que o líder do PSD enviou um email para militantes do partido a acusar o Expresso de publicar mentiras e bla, bla, bla. Fiquei esclarecida. Trata-se mesmo de jornalismo de trincheira. Mas eu que - juro - não sou apoiante de Rio e já agora nem dos passistas, nem dos centristas que também querem fritar o Rio, para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?


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