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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.06.20

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I

Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei. 

Um bom título deve captar a atenção do leitor, deve atraí-lo, deve seduzi-lo. 

Se for necessário, alguém interrompe outras tarefas na azáfama de uma Redacção e concentra-se nisto até encontrar o título ideal. Por vezes, é o próprio autor do texto. Mas acontece, quase sempre, que seja um editor de caderno ou de secção. Ou até um membro da direcção com mais talento para esta função, o que nem sempre acontece. Conheci directores e subdirectores que mal sabiam fazer um título. Ou até uma simples legenda.

 

Um título bem conseguido é uma forma de mostrar consideração e apreço por quem nos lê.

Seja onde for. Também num blogue. E sempre com regras: aqui no DELITO, por exemplo, uma "regra" tácita e de adesão voluntária recomenda que um título não tenha mais de 32 batidas, incluindo espaços. Evitando assim que uma palavra salte, solitária, para uma inútil e redundante segunda linha. Nada recomendável até por motivos estéticos.

 

Quando havia mais tempo e mais gente para elaborar jornais, as pessoas organizavam-se de acordo com as suas aptidões. Havia os repórteres, que andavam quase sempre fora e ligavam a dar dicas ou a ditar entradas de notícias, e os redactores, com mais talento para a escrita, que se encarregavam da versão final dos textos.

Na hora do fecho, com a primeira página prestes a concluir, convocava-se sempre um especialista em títulos. Que podia ser alguém que nem estava munido com carteira profissional. Houve até um arquivista com especial talento para a arte de titular que acabou por tornar-se jornalista deste modo: forneceu tantas sugestões certeiras para manchetes com sucesso à equipa directiva que um dia saltou do arquivo para um lugar destacado na Redacção.

 

II

Há muito tempo que o Expresso abdicou de fazer bons títulos - criativos, chamativos, sintéticos, sem distorcer factos - e optou pela forma mais preguiçosa e previsível de titular. Aquilo a que costumo chamar "títulos de funcionário": aplica-se o molde chapa cinco e fica despachado. 

Exemplos de "títulos de funcionário": aqueles que usam e abusam de títulos de livros ou filmes ao ponto de se tornarem insuportáveis lugares-comuns. Foi o caso, durante anos, da expressão "à beira de um ataque de nervos", decalcada de um filme de Almodóvar.

Ou os que empregam locuções verbais que pela sua natureza já estão mais que vistas e gastas, incluindo as que incluem o verbo haver, o verbo ir, o verbo ser ou o verbo estar.

Ou os que recorrem até à náusea aos pronomes relativos, sobretudo o famigerado "que", quase sempre substituído com vantagem por elegantes dois pontos.

Ou os intermináveis, cheios de vírgulas e palavras inúteis, que cansam o leitor ao ponto de o dissuadirem de passar do título ao texto.

Ou, na política, os que insistem em "dar murros na mesa", em "querer" ou "não querer" ou em "disparar" contra tudo quanto mexe ou em "arrasar" seja o que for - bocejantes expressões mil vezes escritas, mil vez lidas, ao ponto da saturação total. E reveladoras de uma confrangedora pobreza lexical nestes tempos de galopante supressão de vocábulos, condenados à extinção pela iliteracia dominante.

 

Basta-me folhear a mais recente edição do Expresso para encontrar "títulos de funcionário". 

Eis alguns: «Vai começar uma "revolução científica" no Vale do Côa»; «Portugal vai ter mais um centro para refugiados»; «Emergência social dispara em 2 meses»; «Tempo arrasa agricultura»; «Merkel quer resposta rápida»; «Costa quer entendimento à esquerda até 2023»; «Marcelo não quer público nos jogos da Champions»; «Comércio quer aumentar lotação, DGS recusa, "neste momento"».

Isto já para não falar dos títulos incompreensíveis. Deixo uns exemplos, também colhidos desta edição: «Fusão junta SRS Advogados e AAA» (na primeira página); «Leão adia LEO para 2023»; «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses»

 

III

Mas, felizmente, há excepções. E a que aqui trago é bem honrosa: refiro-me ao título de capa da revista do próprio Expresso, nesta sua mais recente edição. Sob o rosto de Amália Rodrigues no auge da carreira, comprovando a prodigiosa fotogenia da grande diva do fado, nascida vai fazer cem anos. 

«Amália - Nem chegaste a partir» - eis o título-legenda. Justo, conciso e feliz. Quase um verso. Aliás, é mesmo um verso, extraído da letra que David Mourão-Ferreira escreveu para o Barco Negro, a que ela deu expressão eterna: «Eu sei, meu amor, / Que nem chegaste a partir / Pois tudo em meu redor / Me diz que estás sempre comigo.»

 

Para atingir este clímax não basta conhecer todas as potencialidades do nosso belo idioma, tão cheio de ambiguidades e cambiantes, tão vocacionado para uma ampla gama de vocalizações, tão propício a ser cantado. É preciso também ter cultura e conhecer a fundo o tema sobre o qual se escreve.

Sendo o jornalismo uma actividade cuja carpintaria se desenvolve com frequência no anonimato das salas de trabalho, ignoro a quem devemos, enquanto leitores, este título tão digno de elogio. Mas foi seguramente alguém que leu com muita atenção o primeiro dos três textos que justificam esta capa. Um texto de Jorge Calado que vivamente recomendo, em que o autor equipara Amália a Maria Callas e Ella Fitzgerald, convicto de que ela «habita o panteão das maiores vozes do século XX»

Porquê? «Amália ampliava as vogais, arrastava as consoantes, esticava a linha vocal sem a partir, antes percorrendo todas as notas intermédias num alucinante legato cromático que nos deixava estupefactos e em transe, como ela.» E cá surge a referência explícita à canção que ela estreou no filme francês Os Amantes do Tejo, rodado em Lisboa: «Ouça-se, por exemplo, o que Amália faz com a palavra "loucas", do Barco Negro (em que virou do avesso a Mãe Preta, de Maria da Conceição), e a seguir compare-se com o "Amami, Alfredo" da Callas em La Traviata

 

Felizmente ainda surge por vezes um texto que basta, só por si, para nos levar a comprar um jornal sem arrependimentos. É o caso deste, que bem justifica o belo título que lhe serve de chamariz.

O Expresso

por jpt, em 04.04.20

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Quem me conhece (ou blogo-conhece) saberá que eu abomino Marcelo Rebelo de Sousa mais do que as brigadas do Al Shabaab odeiam as barracas de bifanas e coiratos no Campo Grande em dia de jogo do Sporting. E que quanto a Costa e seus sequazes tenho frémitos de os enviar para a arena do José de Alvalade (o nome é esse mesmo) rodeados de leões.

Dito isto fica a questão: será que nem os idólatras notam o desvario de uma capa destas? Que não é preciso ser tão rasteiro?

Por outro lado é um aviso: vêm aí tempos ainda mais difíceis para a imprensa. Há que garantir que Armando Vara se disponibiliza a deixar as grandes empresas pagarem publicidade. Não é nada mais do que isso.

Expresso

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.03.20

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Ao ler a edição desta semana (29/02/2020) interroguei-me sobre se andarão em autogestão.

No Expresso online temos lido de tudo e mais alguma coisa, mas ainda não me tinha apercebido verdadeiramente do rumo da edição em papel.

Desta vez, não bastava o título da primeira página, alarmista e descontextualizado, quase como que a deixar no ar a ideia de que há gente ansiosa para que comecemos a morrer com o COVID-19, quando me deparo com um artigo de George Soros, traduzido para português (página 5, Primeiro Caderno), que foi publicado online duas semanas antes ("Europe must recognize China for what it is", Project Syndicate).

Talvez seja então a altura de passarem a quinzenário. Assim, se publicarem o velho e requentado ninguém estranhará a falta de actualidade. Ou a demora na tradução.

Se há coisa que me custe é assistir à morte dos jornais e revistas que sempre li.

Da falta de memória

por Pedro Correia, em 26.10.19

Leio hoje no Expresso, em peça muito destacada, que há a partir de agora três mulheres à frente de bancadas parlamentares -- «são as sucessoras de Manuela Ferreira Leite, a única mulher até agora líder de um grupo parlamentar, entre 2001 e 2002».

Erro factual grave. A primeira mulher que liderou um grupo parlamentar foi Maria José Nogueira Pinto, à frente da bancada do CDS entre 1997 e 1999.

Um erro que é consequência directa da galopante falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo não começou anteontem.

Hoje, num jornal de referência

por Pedro Correia, em 28.09.19

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Eis o nosso idioma cada vez mais em xeque: a iliteracia ganha terreno, dia após dia. Sem "greves linguísticas" de protesto, equivalentes às "greves climáticas". Toda a gente encolhe os ombros. Se calhar até acham bem.

It's a steady job

por Pedro Correia, em 24.07.19

Expresso é um jornal de ideias fixas. Convicto de que os leitores são pessoas distraídas, incapazes de reter aquilo que lêem, chega a publicar a mesma notícia não apenas uma, nem sequer duas, mas três vezes na mesma edição. Com um intervalo de oito páginas.

Aconteceu assim na Revista do sábado que passou. Logo na página 10, vinha a primeira, intitulada «Lashana Lynch». Rezava assim: «O mundo está a mudar quando até o machismo de 007 é posto em causa. Embora Daniel Craig ainda faça uma perninha, a lindíssima a[c]triz britânica será a nova agente secreta em 'Bond 25'.»

 

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Estava eu ainda a interrogar-me se o faro das patrulhas de turno detectaria odor machista no superlativo «lindíssima» e se a expressão «fazer uma perninha» pode ter cunho heteropatriarcal, em alusão ao direito de pernada dos senhores medievais, e já deparava com a renotícia e o retítulo na página 14 da mesma edição do mesmíssimo periódico:

«Lashana Lynch não será James Bond, mas será a primeira mulher a tomar-lhe o lugar. Nascida em Londres, sonhou cantar e tem crescido a pulso na representação. 'Bond 25', nome provisório do 25.º filme da saga, está a pô-la nas bocas do mundo.»

Ilustrada pela cara que já vira quatro páginas atrás.

 

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Matutava eu ainda na expressão figurativa «crescer a pulso», de eventual pendor sexista sobretudo quando associada a «pô-la nas bocas do mundo», sentindo uma remota indignação a avolumar-se perante os insidiosos estereótipos de género induzidos pelo imaginário falocêntrico nesta escrita jornalística, e lá me ressurgia, na página 18, a fotografia da tal senhora que eu já vira estampada duas vezes antes no referido periódico.

 

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«O papel será interpretado pela a[c]triz britânica Lashana Lynch, que junta uma outra dimensão a esta mudança pelo facto de ser negra», alvitrava a re-renotícia da Revista do Expresso, tomando como fonte (só à terceira ficamos a saber) o tablóide londrino Daily Mail. Que ficou imortalizado na letra de uma canção contemporânea do James Bond original, Paperback Writer: «His son is working for the Daily Mail / It's a steady job, / But he wants to be a paperback writer...»

Canção dos irrepetíveis Beatles. Quatro rapazes de pele branquinha: expoentes de um mundo que não volta mais.

Bruno de Carvalho

por jpt, em 06.07.19

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Ainda que apoiado pelo "institucional" jornal Expresso (a razão pela qual o jornal preferido da "classe média" Bloco Central político-económico apoia este homem é algo difícil de entender, se não se tiver uma interpretação economicista) Bruno de Carvalho acaba de ser definitivamente expulso do meu clube, na Assembleia-Geral do Sporting hoje decorrida. No último ano houve momentos em que o julguei personagem dramática. Mas afinal nem isso, tamanha a rábula que vem interpretando. Ainda assim esta perversa personagem - que a quase todos nós sportinguistas seduziu e exaltou -. ainda consegue, após todos estes desmandos e desvarios, receber apoio militante, e mesmo exasperado, de 30% dos associados.

É uma legião, sem calções, de gente disponível para quem a saiba arrebanhar. Esperem pouco, que alguém aparecerá. E não terá que ser do mundo da "bola". Nem sobre coisas da "bola".

 

Expresso por encomenda

por jpt, em 29.06.19

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Aqui longe, hoje, sábado à tarde, vejo as notícias portuguesas. Ecos de uma entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso. "Outra vez?", resmungo, "ainda?", "a que propósito?", indago. O homem vitimiza-se, como sempre: que foi indexado como terrorista, que foi prejudicado e traído por todos os que o rodearam, que não tem emprego, que muito sofreu com uma doença da filha, algo que tudo explica da sua deriva aquando presidente do Sporting. E ameaça, voltar a candidatar-se e ser eleito, processar o Estado, etc.

"Porquê?" repito, não haverá mais assuntos para o Expresso explorar, em Portugal e no mundo, do que voltar à "vaca-fria", à enésima entrevista com o ex-presidente do Sporting, que encheu horas de ecrã e rios de papel há um ano? 

Sigo na procura das notícias. Passado um pouco vejo no És a Nossa Fé, que o Pedro Correia coordena, que hoje há uma assembleia geral do Sporting, para aprovação do orçamento, para reiterar confiança na actual direcção do clube. E, no mesmo dia, o "institucional" Expresso faz uma entrevista "higiénica", auto-vitimizadora, ao antigo presidente (e que personagem) do Sporting. Assim como se não fosse nada ... Não ao presidente do clube, não aos seus oponentes eleitorais (Benedito, por exemplo, candidato que perdeu por muito pouco), não a membros da direcção - o que poderia ser entendido como inserido no debate interno ao clube. Mas ao antigo presidente, com o historial todo, com um processo inédito de deposição e de expulsão do clube.

Isto é uma encomenda. Paga. É óbvio. 

É o Expresso. O que resta? Ou o que sempre foi. Pouco importa. É o Expresso.

A eleição dos desconhecidos.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.19

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O primeiro número do Expresso, saído em Janeiro de 1973, informava que 63% dos portugueses nunca tinham votado. Era a demonstração cabal de como os portugueses encaravam a farsa que eram as eleições no Estado Novo. Agora, nas vésperas de uma eleição para o Parlamento Europeu, o Expresso informa que 69% dos portugueses não sabem o nome de nenhum eurodeputado. É a demonstração cabal de como os nossos eurodeputados andam afastados dos eleitores. Na verdade, a esmagadora maioria limita-se a fazer campanha aqui no burgo de cinco em cinco anos, para depois rumarem a Bruxelas para um longo mandato, durante o qual não se ouve falar deles. Deve ser por isso que nesta campanha só se falou de política nacional. A política europeia está longe e, se ninguém sequer conhece as personagens, como é que pode perceber o enredo da história? Depois admirem-se com a abstenção.

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Marcelo, Marcelo, Marcelo

por Pedro Correia, em 14.01.19

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Eu sei que o actual Presidente da República é uma figura popularíssima e que as notícias dignas desse nome não nascem para aí aos pontapés. Sei também que o Expresso cumpre ainda uma fase de penitência por ter noticiado há três meses, em manchete nada verdadeira, que o sucessor de Cavaco Silva iria reconduzir a procuradora-geral da República Joana Marques Vidal. Mas, caramba, era mesmo necessário escreverem "Marcelo" três vezes em título na primeira página deste sábado?

Nos anos 80, em que foi assinalado o centenário do nascimento do autor de Mensagem, popularizou-se a expressão «tanto Pessoa já enjoa». Não me admirava que um destes dias alguém comece a dizer «Marcelo, já cansa vê-lo». Agora a triplicar no semanário onde chegou a ter o nome no cabeçalho, como director.

 

P. S. - "Marcelo acha", em título de capa, é o cúmulo do achismo. Confundindo o Presidente com um Sherlock Holmes.

Expressamente

por Pedro Correia, em 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

O esquecimento do 'Expresso'

por Pedro Correia, em 27.10.18

Há dias escrevi aqui sobre as indignações selectivas, a propósito de política internacional. Pois nem de propósito: o editorial do Expresso de hoje - num estilo e com uma linguagem muito diferentes do habitual - constitui um exemplo vivo disto mesmo. 

«O Brasil somar-se-á à história sombria que, com matizes diferentes, está a ser construída nos últimos anos, com o endurecimento de regimes como o da Turquia e o das Filipinas, a eleição de populistas nos Estados Unidos, as subidas eleitorais de candidatos nacionalistas na Europa em países como França e Alemanha, o radicalismo na Polónia ou o antieuropeísmo em Itália.» Assim se pronuncia o preocupado e pomposo editorial sobre o que se vai passando por esse mundo fora.

Esquece o anónimo editorialista do Expresso o drama da Venezuela, que desde 2013, sob a gerência do populista ultranacionalista Nicolás Maduro, tem empurrado o país para a ruína económica, a tirania política, a violência impune e a asfixia das liberdades democráticas, condenando quase quatro milhões de compatriotas ao exílio noutras paragens - incluindo Portugal.

Faria bem o sobressaltado plumitivo em ler uma excelente reportagem de João Carvalho Pina, publicada esta semana na revista Sábado sob o título «Venezuela: a grande fuga». Em que se relata, a partir do local, como a vizinha Colômbia tem acolhido centenas de milhares de venezuelanos que ali acorrem em circunstâncias dramáticas.

Maduro, caudilho num Estado onde o salário mínimo paga apenas um rolo de papel higiénico e os preços subiram 223,1% só no mês de Agosto, embrulha as bravatas patrioteiras com retórica socialista e "anti-imperialista". Será isso que leva o conspícuo semanário a ser tão selectivo nas suas indignações?

Jornalismo de referência: o estado da arte

por Teresa Ribeiro, em 19.10.18

Expresso. Edição em papel de 13 de outubro. O título "A reforma que Rio quer fazer em Segredo", desperta-me a curiosidade. Começo a ler. O texto do artigo revela que o PSD entregou aos partidos com assento na AR uma proposta para um pacto de reforma da Justiça. No segundo parágrafo afirma-se que esta iniciativa de Rui Rio "foi considerada estranha por diversos responsáveis  dos partidos" abordados pelo Expresso, "sob condição de anonimato". O jornalista que assina a peça escreve a seguir que "ninguém quis fazer a desfeita de recusar à partida a iniciativa, mas tudo é considerado "insólito", entre outras razões por "partir do pressuposto de que os partidos devessem chegar a acordo sobre a reforma da Justiça".

 

Enquanto leio vem-me à lembrança a quantidade de vezes que ouvi figuras de vários quadrantes políticos defenderem pactos de regime que viabilizassem as reformas estruturais de que o país carece em áreas sensíveis, uma delas a da justiça. Por isso não percebi o que pode ter de insólito uma iniciativa deste tipo. Continuo a ler, já com a percepção clara de que ao texto pretensamente jornalístico subjaz a opinião de quem o assina.

Segue-se um subtítulo que é, em si mesmo, uma opinião: "ideias concretas e princípios vagos". E o jornalista prossegue exprimindo de facto a sua opinião sobre o documento que diz que consultou: "Mistura ideias concretas, algumas originais, com princípios vagos e propostas de temas a debater em que o PSD não revela a sua posição". Diz isto a primeira vez, no final do terceiro parágrafo; a segunda vez , no quinto parágrafo ("a par de ideias concretas também as há bastante vagas - enunciação de princípios ou objectivos sem explicação de como fazê-lo"). Chegada a este ponto pergunto-me: Mas numa proposta para debate de vários itens não basta enunciá-los, ou é preciso detalhar opiniões prévias?

Continuo a ler. No sétimo parágrafo o jornalista repete a crítica: "Há outras questões que o documento do PSD levanta, mas sem definir uma posição". No oitavo parágrafo, lê-se: "...Parece ser uma ideia que o PSD apadrinha, mas não fica claro no documento". Seis linhas depois, o jornalista volta a afirmar que o documento do PSD "não explica". Cinco linhas depois, insiste: "O documento não avança com qualquer análise". E vão seis!

Nessa mesma página, num segundo texto sobre o assunto, assinado pelo mesmo jornalista sublinha-se a mesma ideia: "... Que medidas em concreto? Que tipo de ponderação? O documento não esclarece" (3º parágrafo). No parágrafo seguinte escreve-se: "...o assunto é despachado em pouco mais de cinco linhas, sem qualquer proposta concreta". E no que se segue: "...mais uma vez sem mais pormenor sobre propostas concretas". 

Na secção Gente nesta mesma edição do jornal, das quatro alfinetadas que constam neste espaço, três são para Rui Rio. Finalmente uma nota no editorial faz-me saber que o líder do PSD enviou um email para militantes do partido a acusar o Expresso de publicar mentiras e bla, bla, bla. Fiquei esclarecida. Trata-se mesmo de jornalismo de trincheira. Mas eu que - juro - não sou apoiante de Rio e já agora nem dos passistas, nem dos centristas que também querem fritar o Rio, para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?

Expressamente

por Pedro Correia, em 29.09.18

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Já tínhamos o saco de plástico "inventado" pelo arquitecto Saraiva para resguardar o conteúdo do semanário do olhar alheio - e forçar assim os leitores a comprarem aquilo que ignoram, tornando opaco o jornalismo, algo que por definição deve ser transparente.

Já tínhamos as falsas primeiras páginas com conteúdos publicitários, anunciando uma conhecida marca ou propagandeando uma grande empresa.

Hoje passámos a ter uma primeira página inteirinha com promoção ("grátis", dizem eles) de uns livrinhos lançados pelo próprio jornal. Coisa pífia - sem escala, sem dimensão, sem classe.

Abdicam das notícias para isto.

Quando se fala da crise do jornalismo português, há que apontar responsáveis. A crise não é filha de pais incógnitos. Os responsáveis são gente que faz coisas como esta, mergulhando no ridículo aquele que ainda é o melhor jornal português.

Um jornal de referência

por Rui Rocha, em 21.09.18

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Descubra as diferenças

por Inês Pedrosa, em 20.02.17

Na reportagem que o Expresso online publicou sobre a leitura pública do romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, realizada na Fundação José Saramago, escreve-se: "Foi a escritora e antiga presidente da Casa Fernando Pessoa quem deu início à leitura, lembrando que estavam todos ali por serem amigos do Valter" (conferir aqui). A gravação video da minha prestação demonstra que eu não "lembrei" isso - nem nunca o "lembraria", não só porque não sou íntima do Valter, mas sobretudo porque se tratava de valorizar a qualidade de um livro e de um escritor. O reconhecimento do talento faz muita confusão a certa imprensa; custa-lhe a crer que haja outras coisas entre a terra e o céu além do corporativismo. Deixo aqui a gravação, para mostrar a diferença.

 

 

É uma perspectiva de ver as coisas

por Alexandre Guerra, em 02.05.16

No Sábado, o Expresso, aquele que é considerado o jornal de referência em Portugal, publica uma notícia a propósito da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique, onde se pode ler um disparate monumental (e para quem não se aperceba da questão, basta ler este take da Lusa de 2011). 

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Sem qualquer pedido de desculpa por parte do jornal, hoje, às 8h00 da manhã, a mesma jornalista faz uma suposta "actualização" da notícia na edição on line e onde se passa a ler isto (e atenção que a frase nem sequer termina com ponto). 

Marcelo. Não há momentos incómodos para visitar

E no final acrescenta a seguinte nota:Texto publicado na edição do Expresso de 30/04/2016 atualizado com informação relativa a encontro com filho do pintor Malangatana. Ora, para o jornal, nao se tratou sequer de um "erro" grosseiro, mas de informação que estava desactualizada. É uma perspectiva de ver as coisas...

Dos mesmos autores de "O FMI Já Não Vem"

por Rui Rocha, em 23.11.15

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Maria Filomena Mónica

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.15

Escreve na edição de hoje do Expresso um texto simples e claro que deve ser lido com atenção. Quem leva a vida a queimar pestanas, fazendo sacrifícios, para poder ser um pouco menos ignorante e produzir alguma coisa séria, legível e que possa servir aos outros, só pode tirar uma conclusão: o texto peca por tardio. Quanto ao mais, incluindo a sua conclusão, não posso estar em desacordo. O que ela diz sobre o visado aplica-se igualmente a muitos outros que se passeiam pelos corredores das academias, da nossa vida pública e que vão agora compor as listas de deputados às legislativas de 4 de Outubro.

Falta de respeito

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

O Expresso, semanário que muito prezo, anuncia a republicação integral de um texto que Sophia escreveu para aquele jornal nos idos de 1975. Por "republicação integral" eu entendo a republicação de uma obra na sua versão original, tal qual como conheceu a vida. Mas a primeira coisa que reparo é que na anunciada republicação aparece escrito "ato de criação", "ato de liberdade", "abstrata", "mundo atual", "25 de abril", "atividade"...

Que eu saiba, Sophia nunca escreveu nos termos do Novo Acordo Ortográfico. Nunca lhe foi perguntado se queria escrever nos termos do "acordês". E considero uma barbaridade reescrever ou republicar textos à luz desse documento profundamente demagógico. Não se respeita a integralidade do texto original, não se respeita a verdade histórica e manipula-se o texto em termos políticos e culturais.

Como nesse texto também se escreveu "a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar". Espero que não se atrevam a fazer o mesmo aos textos de Vasco Graça Moura que daqui a uns anos resolvam "republicar".


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