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Todos devem apoiar Trump

por Alexandre Guerra, em 12.06.18

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No sistema internacional, por vezes, as relações pessoais entre líderes contam muito/Foto: Evan Vucci/AP 

 

Por mais que custe a admitir aos opositores e detractores de Donald Trump, e independentemente do parco conteúdo da declaração conjunta da cimeira de Singapura e do inexistente “road map” a ser seguido nos próximos tempos, ao fim de várias décadas de gelo diplomático entre os EUA e a Coreia do Norte, seria sempre preferível ter um encontro amigável de alto nível, mesmo que inócuo, do que não ter nada e manter-se o clima instável e volátil que se vinha sentindo nos últimos meses entre Washington e Pyongyang. A guerra de palavras entre Trump e Jong-un tinha escalado para níveis nunca dantes vistos nas relações internacionais entre dois chefes de Estado, mas o problema maior tinha a ver com o processo nuclear norte-coreano que, apesar de tudo, foi fazendo o seu caminho, com testes atrás de testes e lançamentos atrás de lançamentos. Se a Coreia do Norte continuasse a seguir este caminho, seria muito provável que viesse a conseguir dotar-se de uma capacidade plena e eficaz nuclear, quer ao nível dos seus vectores de lançamento, quer na miniaturização das respectivas ogivas. Até ao momento, daquilo que se foi sabendo, ainda havia muito trabalho a fazer, mas algum dia esse percurso teria que ser travado… diplomática ou militarmente. Sendo a capacidade nuclear um factor de poder enormíssimo na hierarquia dos Estados no sistema internacional, uma coisa é Washington negociar com Pyongyang nesta fase, outra coisa seria um líder americano sentar-se à mesa com o seu homólogo norte-coreano numa altura em que este país já fizesse parte do exclusivo “clube” das potências nucleares. Aqui, as condições de negociação seriam certamente outras.

 

Trump deslocou-se a Singapura numa altura em que a Coreia do Norte ainda está longe de ser reconhecida como uma potência nuclear, com capacidade para militarizar a tecnologia até agora desenvolvida. Ainda não alcançou o estatuto de países como a Índia, o Paquistão ou Israel. Mas para lá caminha(va). Mais, Trump foi até Singapura com a certeza de que a Coreia do Norte está desesperadamente à procura de recursos financeiros (e outros) para colmatar a “falência” daquele país. Tudo na Coreia do Norte é uma ficção, uma ilusão, excepto a crise humanitária que aflige milhares de pessoas em proporções que, na verdade, não são verdadeiramente conhecidas.

 

Além disso (e isto em política internacional é muito importante), nota-se uma ânsia de diálogo e abertura por parte do líder Kim Jong-un. Não quer dizer necessariamente que seja uma vontade de suavizar o regime ou de “abrir” a sociedade, mas, para quem tem acompanhado com alguma atenção o percurso deste jovem líder, constata que há em si um ímpeto para ir além-fronteiras e estabelecer pontes com outros países e governantes. Às vezes quase que parece uma criança num loja de chocolates quando se confronta com a novidade. Parecem pormenores, mas, num regime unipessoal como é o da Coreia do Norte, estas matérias de personalidade podem fazer toda a diferença nos desígnios de uma nação.

 

Trump poderá estar certo quando diz que sentiu da parte do seu interlocutor vontade genuína para negociar. Resta saber o que será negociado e em que condições. Para já, pouco se sabe, mas presume-se, caso a cimeira tenha sido bem conduzida os seus protagonistas bem assessorados, que tenham sido estabelecidas as metas, os grandes objectivos políticos a serem alcançados. É para isso que servem estes encontros. Depois a forma de como lá se chega, concessão aqui, concessão ali, é um trabalho de bastidores, de muita paciência e, sobretudo, confiança entre as partes.

 

Se for verdade aquilo que Trump tem anunciado nestas últimas horas, então o mundo deve congratular-se pelo facto de aqueles dois líderes terem definido a “desnuclearização da Península da Coreia” como o principal objectivo. Provavelmente, os EUA terão que pagar um preço muito elevado como contrapartida, mas, a médio e a longo prazo, quem sabe se Washington não terá na Coreia do Norte um gigantesco receptor de ajuda financeira, à semelhança do Egipto e da Jordânia, países que, apesar das suas diferenças religiosas, culturais e políticas, se mantiveram sempre como preciosos aliados da Casa Branca.

 

Para já, e por mais disparates e erros que Trump tenha feito nos últimos meses e ódios que suscite, este esforço diplomático merece ser reconhecido e é por isso que ainda esta semana o insuspeito Nicholas Kristof escrevia que os democratas no Congresso não deveriam adoptar a mesma atitude dos republicanos e criticar por criticar a iniciativa do Presidente americano. Porque, neste momento, é do interesse de todos que esta jogada arrojada de Donald Trump se revele certeira.

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Gibson, uma parte da América que faliu

por Alexandre Guerra, em 02.05.18

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Donald Trump observa várias Gibson expostas na Casa Branca durante o evento "Made in America", realizado em Julho do ano passado e que juntou 50 marcas emblemáticas americanas

 

Quando um jovem decide ser guitarrista, quando acalenta o sonho de um dia poder desferir uns valentes acordes e solos em cima de um palco, creio que, inspirado pelos seus ídolos, há uma decisão que toma de forma quase involuntária, que tem a ver com o estilo que vai assumir: se vai ser um guitarrista Gibson ou um guitarrista Fender. É certo que esta divisão é bastante redutora, atendendo às muitas marcas de guitarras (algumas históricas), no entanto, parte da sonoridade da história do rock da segunda metade do século XX assenta, precisamente, na diferenciação vincada entre aquelas duas marcas. Na diferença dos estilos das guitarras, nos seus braços, nas suas formas, nas suas afinações, nos seus pickups, no seu som...

 

Qualquer guitarrista, profissional ou amador, qualquer entusiasta de música perceberá de imediato o que é o som Gibson e o som Fender. Mesmo as pessoas que gostam de música, mas não nutrem aquela verdadeira paixão, quase de certeza que perceberão as diferenças do som da Gibson Les Paul de Jimmy Page e da Fender Stratocaster de Eric Clapton, da Les Paul de Gary Moore e da Strato de Jimi Hendrix, da Gibson “Lucille” de BB King (adaptação da ES-355) e da Fender Telecaster de Stevie Ray Vaughan, da Les Paul de Slash e da Strato de John Frusciante.

 

A Gibson e a Fender representam, de certa maneira, uma parte do espírito americano. Tal como a Harley Davidson, a Coca Cola, o Jack Daniels, a Levi's ou a Ford, são um elemento da consciência colectiva da cultura popular dos Estados Unidos e que deu o contributo para a América exportar o seu “soft power” como potência global. Por isso, é também uma parte da alma americana que se perde, quando a Gibson anunciou esta Quarta-feira que accionou o mecanismo de protecção de credores, o tristemente célebre “Chapter 11”, reconhecendo a falência perante uma dívida brutal que pode ir até aos 500 milhões dólares. Este desfecho já era expectável e resulta, em parte, de três factores.

 

O primeiro tem a ver com os inúmeros erros de gestão, sendo que um deles prende-se com as más estratégias de investimento e diversificação de negócio, levando a Gibson a descurar o seu “core business” e a dedicar-se a outras áreas que, definitivamente, não correram bem. O segundo factor, que não será propriamente um erro, resulta, paradoxalmente, de a Gibson ser uma marca ainda cem por cento americana, significando, isso, que as guitarras têm elevados custos de fabrico. São construídas à mão nos Estados Unidos, com as melhores madeiras e materiais, indo para o mercado a preços absurdos, praticamente inacessíveis para a maioria dos guitarristas, não apenas os amadores ou aspirantes, mas também os profissionais. Uma questão que se torna ainda mais evidente quando a também histórica Epiphone, detida pela Gibson, além das guitarras originais, fabrica excelentes réplicas devidamente validadas pela “casa mãe”, a preços muito mais competitivos que, em muitos casos, podem ser 10 vezes menos.

 

Veja-se, por exemplo, o caso de uma guitarra acústica que adquiri no ano passado, a Epiphone EJ-200SCE. Neste momento, pode ser comprada a 450 euros, apresentando uma construção sólida, com madeira standard para este tipo de instrumento, equipada com pickups tecnologicamente avançados e acabamentos cuidados. Nos sites da especialidade, as “reviews" são muito favoráveis. Esta guitarra começou a ser produzida pela Epiphone recentemente e recuperou a “King of the Flat Tops”, o famoso modelo J-300 introduzido pela Gibson em 1937. Vários sites no Youtube comparam as duas guitarras e num deles, que representa uma importante loja especializada americana, os dois guitarristas chegam ao ponto de brincar com a situação. E porquê? Porque, atendendo às (poucas) diferenças de som entre as duas guitarras, se eu quiser comprar a Gibson J-300 terei que desembolsar mais de 3000 euros!!! É óbvio que existem diferenças entre as guitarras, e que qualquer guitarrista prefere ter uma Gibson a uma Epiphone, porém, a diferença de preços é de tal forma abismal que chega a ser ridícula. Perante este cenário, e sem qualquer mudança na estratégia da Gibson, era previsível que um dia viesse a perder capacidade competitiva, dado ser incomportável para um guitarrista adquirir umas das suas icónicas guitarras. É certo que, segundo a Gibson, as vendas de guitarras (provavelmente à custa da Epiphone e não da Gibson) mantêm-se estáveis, no entanto, essa dinâmica dificilmente chegará para revitalizar a marca.

 

A tudo isto junta-se um terceiro factor, mais abrangente e sociológico, e que reflecte as tendências culturais dos últimos anos, nas quais a evolução dos gostos musicais e da criação da própria música transitou para o digital. Os instrumentos clássicos tendem a dar lugar a caixas de ritmo, sintetizadores, pedais, “samplers”, mesas de mistura, a programação em computador, entre outras formas electrónicas de gerar sons e ritmos. A formação clássica de banda é coisa cada vez mais “old school” e o consumo de instrumentos tradicionais tende a ser menos atractivo junto das gerações mais novas de músicos ou aprendizes. A Gibson acabou por ser vítima dessa transformação e a determinada altura dedicou-se ao negócio de componentes electrónicos e digitais, na tentativa de responder às novas tendências, desvirtuando a sua essência, quando o que devia ter feito era focar-se naquilo que a tornou famosa e tentar fabricar guitarras a preços mais competitivos. Não é por isso de estranhar que, no comunicado de imprensa enviado esta Quarta-feira, a Gibson informe que pretende alienar as áreas de negócio mais recentes e volte a focar-se nas guitarras. Diz ainda que depois do processo de revitalização, espera que os mais jovens possam ficar a conhecer aquilo que torna tão único o som de uma Gibson. A questão, como bem colocava a revista Rolling Stone, é saber se essas novas gerações estão predispostas a aprender a tocar guitarra. Esperemos que sim e que a Gibson continue “Made in USA” durante muitos e bons anos. De preferência a preços mais acessíveis.

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Convidado: JOSÉ MILHAZES

por Pedro Correia, em 11.04.18

 

Putin, Trump e a crise no Sporting

 

A situação em torno da Síria agrava-se de hora a hora. Os Estados Unidos parecem mesmo dispostos a bombardear lugares estratégicos, incluindo Damasco. Moscovo ameaça responder, mas, por enquanto, ressalva que só no caso de serem atingidos alvos e militares russos.

A situação poderá atingir o nível de perigo da Crise das Caraíbas, em 1962, mas com uma nova interrogação. Serão os dirigentes dos EUA e da Rússia sensatos ao ponto de travarem a tempo a escalada? Há linhas vermelhas que já foram ultrapassadas, mas falta a fundamental: a continuação da existência do ser humano. Ambos os países têm armas suficientes para rebentar com o globo terrestre.

 

P.S. Ironia à parte, espero que a crise no Sporting termine o mais rápido possível, pois, em termos de tempo de antena, Bruno de Carvalho está claramente a bater Putin e Trump. Talvez, no futuro, os livros de história universal venham a rezar: "A crise na Síria, que ocorreu no tempo em que BC era Presidente do Sporting, em 2018, terminou com uma cimeira russo-americana."

 

 

José Milhazes

(blogue DA RÚSSIA)

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O que se pode aprender com uma "porn star"

por Alexandre Guerra, em 27.03.18

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Não foi tanto pelos contornos políticos (e muito menos por outro tipo de contornos), foi sobretudo por interesse profissional na vertente comunicacional que vi com atenção a entrevista que Stormy Daniels deu a Anderson Cooper. Sempre gostei da forma como os americanos fazem estas coisas, porque parece que têm um talento inato para fazer informação em televisão, tanto os entrevistadores como os entrevistados. Não é por acaso que o 60 Minutes da CBS News está a celebrar meio século de existência (imagine-se) e ainda consegue proporcionar momentos de grande qualidade informativa e televisiva.

 

Analisando a entrevista, percebe-se como Stormy Daniels estava muitíssimo bem preparada para enfrentar aquele momento. Se eu tivesse que apostar, diria que há ali muito trabalho por trás, tudo é muito profissional. Não há hesitações, as respostas são curtas, assume o que fez, reconhece as suas fraquezas, tem ideias objectivas e claras. E mesmo perante perguntas mais escorregadias por parte de Anderson Cooper, não há silêncios comprometedores, mas sim declarações assertivas. É uma autêntica lição de media training dada por uma porn star. Quem diria... Por outro lado, na sociedade americana este tipo de fenómeno não é assim tão raro, em que a ascensão social é um “elevador” onde todos querem entrar, seja quem for, em que “andar for”. E quando a oportunidade surge, neste caso, quando uma porn star tem um slot para ascender ao estrelato mainstream, não o desperdiça.

 

Stormy Daniels chegou lá, tornou-se numa estrela pop e ela sabe-o bem. Não é a primeira actriz de “filmes para adultos” a fazer esta transfiguração. O caso mais conhecido é o de Jenna Jameson, que a partir de determinada altura da sua ascensão ao mundo pop, disse que “não voltaria a abrir as pernas” para ganhar a vida. A mesma Jenna Jameson que foi citada no final da entrevista, com Anderson Cooper a recuperar esta frase que ela disse recentemente em relação à situação de Daniels: “The left looks at her as a whore and just uses her to try to discredit the president. The right looks at her like a treacherous rat. It’s a lose-lose. Should’ve kept her trap shut.” É uma frase ácida, que poderia abalar a capacidade de resposta da visada, mas Stormy Daniels não hesitou e disse: “I think that she has a lotta wisdom in those words.”

 

Um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos, que foi New York Times Best Seller, foi precisamente a biografia de Jenna Jameson, que teve como co-autor, Neil Strauss, jornalista, escritor, ghost writer, e colunista da Rolling Stone e do New York Times. Neste livro, Strauss ajuda a contar a história de vida de Jameson que, de estela porn star passou a ícone da cultura pop norte-americana. O livro está longe de ser uma grandeza literária, mas tem o seu valor, por ser cru e pragmático, espelhando aquilo que a sociedade americana é. Se, por um lado, os preconceitos e o puritanismo fazem parte do quotidiano de uma certa América, por outro lado, aquela sociedade é de tal forma livre ao ponto de uma pessoa poder chegar ao topo, sendo aceite pelo sistema mainstream e não ser julgada pela sua “profissão” ou passado. De facto, o “céu é o limite” e o american dream é sempre possível, independentemente de onde se venha ou do que se tenha feito.

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Ninguém o atura

por Pedro Correia, em 18.03.18

 

A Casa Branca parece um reality show. Daqueles que Donald Trump protagonizava antes de ascender ao posto máximo da política mundial.

Em 14 meses o sucessor de Barack Obama já despediu ou viu partir 28 altos funcionários da sua administração - incluindo o secretário de Estado, Rex Tillerson, o conselheiro de segurança nacional, Mike Flynn, a conselheira adjunta de segurança nacional, Dina Powell, o director do FBI, James Comey, o secretário da Saúde, Tom Price, o director do Conselho Económico Nacional, Gary Cohn, a directora do gabinete das relações públicas da Casa Branca, Omarosa Manigault-Newman, três directores do gabinete de comunicação da Casa Branca, Mike DubkeAnthony Scaramucci e Hope Hicks, o principal conselheiro de imprensa, Sean Spicer, o seu principal conselheiro para os assuntos estratégicos, Steve Bannon, o seu assessor pessoal John McEntee e o seu próprio chefe de gabinete, Reince Priebus, ex-presidente do Partido Republicano.

O canal de televisão ABC fez as contas: já foram pelo menos 28 com guia de marcha. Trump não atura ninguém. E é retribuído, pois ninguém o atura.

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Os trolls que eu conhecia...

por Alexandre Guerra, em 23.02.18

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Os únicos trolls que conhecia, até há umas semanas, eram aqueles que fazem parte do folclore escandinavo, figuras que de encantador têm pouco e que vivem afastadas dos humanos, no meio da escuridão das montanhas. São feios, rudes, pouco simpáticos, talvez um pouco estúpidos e cínicos e, dizem, transformam-se em pedras sempre que expostos à luz solar. Quando há muitos anos visitei a Noruega, gostei de ouvir os mitos e lendas associados aos trolls, uma tradição que as pessoas mantinham viva (e provavelmente mantêm), fosse através da actividade turística e comercial ou de rituais, como o de se fazerem pequenos montes de pedras ao longo das estradas, simbolizando as tão queridas criaturas. Estes eram os trolls que conhecia, tendo, inclusive, trazido comigo um debaixo do braço (na foto) até ao bom clima de Portugal.

 

Os anos passaram, o mundo foi mudando e os trolls lá continuaram descansados, na longínqua e misteriosa Escandinávia. Até que, com as eleições presidenciais norte-americanas, se descobriu que o Kremlin tinha mobilizado um exército de “trolls”, com o objectivo de influenciar aquele acto eleitoral, através da manipulação da opinião pública, com a propagação de informação falsa via Facebook e Twitter.  Mas estes trolls não se dedicaram apenas a divulgar publicidade enganosa ou “fake news”, utilizaram também as redes socias (recorrendo aos bots, software usado na internet para simular acções humanas com determinado padrão), para criarem e influenciarem movimentos sociais e políticos que servissem os interesses de Moscovo.

 

Quem não andasse atento à agenda mediática de Washington, ainda iria julgar que Moscovo tinha contratado os trolls à Noruega, mas não, estes trolls de que agora tanto se fala, e que os principais responsáveis da comunidade de “intelligence” dos Estados Unidos já admitiram ser uma ameaça real e perigosa, são bem humanos. Provavelmente, serão feios e estúpidos como os outros, mas, seguramente, serão mais cínicos e maléficos. O troll da internet é um indivíduo que, de forma anónima ou através de diferentes identidades falsas, motivado por crenças exacerbadas ou apenas por dinheiro, utiliza as redes socias e outras plataformas digitais para propagar ideias disruptivas, divisionárias e provocatórias, orientadas para fomentar discussões ou comportamentos emocionais.

 

Daquilo que se vai sabendo, muitos destes trolls estarão a operar na penumbra a partir de Moscovo, com a cobertura do Kremlin, numa actividade que parece continuar em alta. Ainda há duas semanas, os principais responsáveis das agências de "intelligence" norte-americanas, perante o comité do Senado para estes assuntos, disseram de forma clara que as operações levadas a cabo pelos trolls contra os Estados Unidos vao continuar durante este ano e, muito provavelmente, terão as eleições intercalares de Novembro como um dos principais alvos da sua acção. Aquilo que, basicamente, os chefes dos "espiões" americanos disseram foi que é quase impossível ir atrás destes operacionais e capturá-los, já que podem estar a laborar em qualquer parte do globo, sendo, por isso, mais realista assumir que os ataques irão continuar. Cabe, pois, aos EUA tomarem todas as medidas de ciber-segurança para combater estes trolls que, ao contrário das típicas figuras escandinavas, facilmente se confundem no meio da multidão e não se transformam em pedras à luz do sol. 

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Ilustração de Andrea Ucini/NYT 

 

Quem diria que seria Donald Trump a propor uma mudança legislativa restritiva em matéria de armas... É certo que a ordem executiva que o Presidente assinou, e que obriga o Departamento de Justiça a rever a lei, é bastante limitada e incide apenas na proibição da venda de acessórios ("bump-stocks) que permitem modificar armas semi-automáticas em automáticas, mas, mesmo assim, já é qualquer coisa. É também certo que Trump, num laivo de bom senso político ou bem aconselhado, percebeu rapidamente que precisava de aliviar a pressão. Antes, já tinha também anunciado que estava disponível para apoiar legislação que aperte o controlo ao "background" de possíveis compradores de armas. Estas medidas são claramente insuficientes e, na verdade, até têm o apoio da National Rifle Association (NRA), o que se compreende, já que, através destas cedências, aquela organização vai gerindo a agenda das armas nos EUA, mantendo intacto o enquadramento legal que verdadeiramente interessa e que permite ter no mercado todo o tipo de armas.

 

Aliás, poucos acreditam que a vontade reformadora de Trump vá ao ponto de se poder vir a discutir a proibição da venda de armas de assalto. No entanto, isso não significa que a Casa Branca, nesta altura, não alimente junto da opinião pública a percepção de que Trump poderá estar comprometido com novas medidas restritivas. E neste sentido, as declarações da sua porta-voz, Sarah Huckabee Sanders, são muito interessantes, porque quando questionada pelos jornalistas sobre a possibilidade da proibição da venda de armas de assalto, responde que a Casa Branca "não fecha a porta em nenhuma frente". Isto é o mesmo que dizer que Trump admite rever a lei para proibir a venda daquele tipo de armas, o que é uma posição arrojada, para um Presidente republicano que se assumiu um "true friend and champion in the White House" da NRA.  A questão é que mesmo sabendo-se que dificilmente será concretizada algum tipo de iniciativa, a "intenção" presidencial já foi lançada para a opinião pública.

 

Se olharmos com clareza para as últimas décadas, constatamos que em matéria de controlo de armas os presidentes americanos têm sido impotentes ou passivos, ficando sempre amarrados aos seus interesses e ao "gun lobby". Nem Barack Obama conseguiu mexer substancialmente no sistema vigente. Os massacres sucedem-se, mas a acção política tem-se ficado pelos lamentos. Pelo menos, até agora. Trump, por pouco que seja, está a fazer algo de concreto e, como foi acima referido, tem tido a preocupação de passar a ideia da "intenção" de fazer ainda mais. E esta "intenção" não deve ser desvalorizada, tendo em conta as pressões, os lobbies e os financiamentos eleitorais que se fazem sentir e jogam na arena das armas. Trump parece estar a ir um pouco mais além do que, por exemplo, Barack Obama terá ido em matéria de controlo de armas.

 

O que terá então acontecido para que Trump, um republicano "amigo" das armas, esteja a ter uma posiçao aparentemente mais interventiva do que Obama, claramente identificado com um outro tipo de sociedade? A resposta, na minha opinião, tem a ver com um fenómeno que está a acontecer desta vez e que não se verificou em tragédias anteriores semelhantes: a resposta e a mobilização dos jovens estudantes. Para quem tem acompanhado os meios de comunicação social norte-americanos nos últimos dias, percebe que há uma dinâmica crescente, que tem potencial para se transformar numa questão política e social, sobretudo a partir do momento em que os jovens estudantes decidiram fazer uma "marcha" sobre Washington. A Casa Branca percebeu o que tinha pela frente, porque desta vez não se trata apenas de uma campanha dos media das elites de Washington contra a administração. A causa dos jovens estudantes tem um aliado muito mais poderoso: os seus pais. Se, por um lado, a irreverência e temeridade da juventude dá a dinâmica ao movimento, os pais dão a consistência e a dimensão. Trump percebeu isso ao ponto de alguém ter "passado" ao Washington Post a informação de que o Presidente tinha ficado muito sensibilizado quando viu as reportagens dos jovens estudantes e que se terá virado para os seus convidados, que estavam com ele na residência de férias de Mar-a-Largo na Flórida, e lhes terá perguntado o que mais poderia fazer pelo controlo de armas. Provavelmente, Trump saberia melhor do que ninguém naquela sala o que poderia fazer, mas a questão é que da forma como a história é contada e transmitida (como se de uma grande cacha do Post tratasse), as pessoas ficam com a percepção de que o Presidente, na sua intimidade, se importa genuinamento com o assunto. E isso em comunicação política é o que, por vezes, mais conta.

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Massacres à conta da Segunda Emenda

por Alexandre Guerra, em 15.02.18

A América, mais uma vez, chocada, chora os seus mortos. Não aqueles que pereceram em combate algures no Iraque ou no Afeganistão, mas aqueles que tiveram a trágica infelicidade de estarem na mira de uma semi-automática nas mãos de um perturbado jovem americano numa escola secundária de Parkland, na Flórida. A história sangrenta repete-se. Desta vez, foram 17 mortos e outros tantos feridos. Nestes momentos, vem sempre ao de cima o eterno debate sobre a questão da posse de arma nos EUA, esse princípio constitucional e, para muitos, sagrado. De um lado, aparecem os habituais e impotentes críticos ao actual sistema e do outro lado, com a poderosa National Rifle Association (NRA) à cabeça, os defensores da liberdade de acesso às armas. Nesta arena política não há meios-termos. Os campos estão bem delimitados, com as palavras (ou ausência delas) a denunciarem as posições dos governantes. Veja-se, por exemplo, o senador Mark Rubio e o Governador republicano Rick Scott da Florida, em que lamentaram a tragédia, apelando a orações e ao fim da violência nas escolas, mas ao mesmo tempo, hipocrisia das hipocrisias, ambos têm “A+” dada pela NRA, um rating atribuído àqueles que mais têm feito pela defesa da Segunda Emenda e pelos esforços na promoção do direito pela posse e porte de arma.

 

O lobby das armas nos Estados Unidos é poderosíssimo e, em parte, essa força advém do culto à arma e ao papel que esta desempenhou na construção da América, assente num certo ideal de Nação, onde cada cidadão tem o direito a proteger-se. E sendo para muitos um bem de necessidade básica, eis que pode ser adquirido em qualquer grande superfície perto de si, nomeadamente a tristemente célebre AR-15, a arma mais usada nos massacres nas escolas. A NRA ostenta com orgulho o estatuto de a AR-15, uma adaptação civil da M-16, ser a arma mais popular dos EUA, porque, imagine-se, é “costumizável, adaptável, de confiança e precisa”. De acordo com a NRA, ainda há mais razões para comprar uma: é uma arma “versátil”, que tanto dá para “tiro desportivo, caça e situações de auto-defesa”. E a cereja no topo de bolo é o facto de ser uma arma “personalizável” nas suas peças, "o que a torna tão única”. Estima-se que esta arma esteja em 8 milhões de lares americanos.

 

Tudo isto é perturbador e faz-me lembrar uma cena do documentário Bowling for Columbine, onde, a determinada altura, Michael Moore entra num banco para abrir uma conta e sai de lá com uma arma. Ou seja, como se fôssemos ali à Caixa ou ao BCP para abrir uma conta e nos oferecessem uma pasta ou um relógio para incentivar à concretização do negócio.

 

Obviamente que qualquer acção legislativa no sentido de um maior controlo na venda e posse de armas suscitará um debate intenso e polémico na sociedade americana. E porquê? Como acima foi dito, porque, basicamente, uma grande parte dos americanos acha-se no direito constitucional de ter uma(s) arma(s). E, efectivamente, a Segunda Emenda (1791) sustenta essa realidade quando defende o “Right to Bear Arms”. Mas, a Segunda Emenda também é clara no propósito final subjacente a esse direito: “A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed.” Ou seja, os “legisladores” providenciaram o direito constitucional aos cidadãos de terem armas e de poderem andar com as mesmas como meio para garantir a virtude do Estado e do seu Governo e não como instrumento de defesa pessoal ou de serviço a outros interesses particulares.

 

Esta Emenda foi criada com base na desconfiança filosófica e ideológica que os legisladores tinham em relação ao Governo, por acreditarem que este poderia, nalgum momento, desvirtuar-se. Só com o povo dotado de armas poderia depor esse Governo e repor um novo “príncipe” virtuoso. De certa maneira, estaria aqui subjacente o princípio bíblico de armar o mais fraco (o justo) para derrotar o mais forte (o ímpio), e que permitiu a David, com a sua funda, derrotar Golias.

 

Ora, o problema, é que algures no caminho, os americanos esqueceram-se dos propósitos virtuosos e das boas intenções dos “legisladores”, agarrando-se apenas ao “Right to Bear Arms” para se armarem até aos dentes.

 

 

 

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Foto:Reuters/Jonathan Ernst 

 

A notícia passou quase despercebida, mas esta segunda-feira o Presidente Donald Trump tomou a primeira medida concreta que dá corpo à retórica agressiva que tem proferido durante o último ano contra a liberalização do comércio internacional. A retirada dos EUA do Acordo Transpacífico (TPP) e o anúncio da revisão da sua participação no NAFTA foram sinais importantes e reveladores do caminho que a nova administração queria seguir, mas não foram mais do que isso, sinais. Pelo menos, até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos, anunciou que vai aumentar as tarifas de importação para máquinas de lavar e painéis solares. Estas medidas afectam, principalmente, países como a China e a Coreia do Sul e, segundo conselheiros citados pelo New York Times, outros produtos, como aço e alumínio, poderão vir a ser alvo de semelhante medida. Trump parece ter sido sensível ao “lobby” de empresas norte-americanas, como a Whirlpool (máquinas de lavar) ou a Suniva e a SolarWorld Americas (ambas de painéis solares). Os números revelados são muito significativos. Por exemplo, no primeiro ano, as primeiras 1,2 milhões de máquinas importadas sofrerão um acréscimo de 20 por cento nas respectivas tarifas, subindo para 50 por cento sobre todos os equipamentos comprados ao estrangeiro acima daquele número. A partir do terceiro ano, os valores descem para 16 por cento, no primeiro caso, e 40 por cento, no segundo. Quanto aos painéis solares importados, sofrerão um aumento de 30 por cento, um valor que cairá para 15 por cento no quarto ano.

 

Se aquelas empresas têm motivos para celebrarem, o sentimento não parece ser unânime na indústria da energia solar nos EUA, receando que estas medidas tornem o mercado menos competitivo. Também os ambientalistas temem que o aumento dos painéis solares comprometa o investimento da população nestas soluções. Além disso, são evidentes os potenciais efeitos nocivos que estas medidas podem ter no comércio internacional e nas relações de confiança entre os principais actores mundiais. Pequim e Seul já demonstraram o seu desagrado e ameaçam recorrer à OMC, no entanto, não anunciaram, para já, qualquer represália. Trump passou da retórica aos actos, naquilo que considera ser a concretização do seu lema: “America First”. Ora, aquilo que Trump não parece estar a ver é que, num primeiro momento, estas medidas até poderão beneficiar algumas empresas americanas e galvanizar uma parte do eleitorado, sobretudo aquele mais ligada à indústria pesada americana, mas, a médio prazo, os efeitos serão contraproducentes para a economia americana. A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Isso é dos livros, mas sobre essa matéria, Donald Trump não deverá estar muito ciente daquilo que é verdadeiramente benéfico para a América.

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Um ano de Trumpismo

por João André, em 03.01.18

Ao longo de 2017 fui-me abstendo de comentar a presidência de Trump. Fi-lo essencialmente por três razões: 1) nao tenho humanamente tempo para comentar toda a estupidez que sai da Casa Branca a um ritmo diário; 2) seria cansativo para qualquer leitor; 3) a asneira poderia muito bem ser minha e vale a pena não condenar alguém excessivamente cedo (especialmente quando eu não vou ser lido por ele e não o posso influenciar). Agora, ao fim do primeiro ano de Trump na Casa Branca, tento deixar uma reflexão.

 

Antes de mais é-me complicado escrever "trumpismo". A única característica do "trumpismo" enquanto política é a crença de Trump num mundo de soma zero, onde há vencedores e vencidos em cada conversa, diálogo ou negociação e a medida em que cada parte é vencedora é a mesma em que a outra é vencida. Esta visão é obviamente errada: basta ver o resultado de negociações que ponham fim a guerras, que acabam com o sofrimento da esmagadora maioria das pessoas. Haverá quem perca (por exemplo a indústria do armamento) mas nunca na mesma medida em que os outros vençam.

 

Já as outras características que Trump tem usado ao longo desta sua presidência não são políticas. Narcisismo, bullying, insultos, estupidez, egoísmo, interesse pessoal, mentira, etc, nada disso é política, mesmo quando usados ao serviço da mesma. Estas características são apenas aquelas que, a menos que me engane muito, colocarão Trump como o pior presidente da história dos EUA (ou muito perto disso).

 

Como o avaliar? Comecemos com as suas vitórias. Aqui teve duas: nomeou Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal e conseguiu passar a sua reforma do sistema de impostos. Tudo o resto até ao momento pouco teve de vitória. Mudar leis para permitir às empresas poluir mais ou colocar centenas de milhar de pessoas em risco de serem deportadas do país onde viveram toda a sua vida não são vitórias. São actos de estupidez e maldade. Nem há argumentação em defesa do que ele fez.

 

A nomeação de Gorsuch pode ser vista como uma vitória, mesmo que o seja mais do braço parlamentar, quando impediu Obama de cumprir o seu papel e apresentar o seu nomeado. Gorsuch veio inclinar a balança do Supremo Tribunal para o lado mais conservador mas, para ser sincero, Trump parece ao menos ter escolhido alguém com sólidas credenciais intelectuais, ao contrário de algumas das suas outras escolhas para juízes, tão incapazes que até conservadores lançam as mãos aos céus. Mesmo assim é bom lembrar que Gorsuch foi aquilo a que os americanos chamam um gimme, tão fácil num congresso completamente dominado pelo Partido Republicano que seria o mesmo que aceitar elogios por um pôr do sol bonito.

 

Os impostos então. É uma clara vitória, isso sem dúvida. Trump conseguiu avançar com a sua reforma, a mais profunda desde Reagan, mesmo contra as objecções do seu próprio partido. Conseguiu ainda colocar-lhe cláusulas que provavelmente acabarão com o Affordable Care Act, conseguindo assim aquilo que não foi possível por via legal normal. Claro que conseguiu esta vitória de uma forma exclusivamente partisan, sem diálogo, sem apoio de mais ninguém, contra todos os conselhos dos especialistas, contra aquilo que todos os estudos indicam e de uma forma que vai aumentar o défice, aumentar a carga fiscal da esmagadora maioria dos americanos depois da próxima eleição (que coincidência) e aumentar a sua fortuna e a dos membros do seu gabinete. Mas foi uma vitória. Para a sua conta bancária, pelo menos.

 

De resto? Bom, não só não conseguiu impedir a Coreia do Norte de adquirir um arsenal nuclear credível (embora provavelmente ninguém o conseguisse), mas conseguiu também hostilizar o ditador que tem o dedo nesse mesmo arsenal. Claro, os EUA provavelmente não temem verdadeiramente o arsenal norte-coreano. Uma coisa é possuir um míssil com alcance para chegar a Washington DC, outra é acertar no alvo e ainda outra é conseguir que o mesmo não seja abatido pelas defesas americanas. Além disso os EUA sabem que podem transformar a Coreia do Norte num planalto se forem atacados. Não serão os norte-americanos a sofrer com a estupidez e egotismo de Trump. Poderão antes ser os sul-coreanos, que morreriam às centenas de milhar se as hostilidades começassem a sério; ou os norte-coreanos que já são oprimidos mais que qualquer outro povo no planeta e que morreriam aos milhões. Mas Trump já provou que se está nas tintas para o sofrimento que causa a outros.

 

Que mais? Decidiu aceitar a transferência da embaixada em Israel para Jerusalém. Não contente com isso e perante a condenação internacional, decidiu "punir" o resto do mundo ao cortar financiamento de programas da ONU. Agora, pensando que ainda há quem possa sofrer mais, ameaça cortar o financiamento aos palestinianos, especificamente à Autoridade Palestiniana. Mais uma vez estupidez pura: se pensa que os palestinianos irão agora baixar os braços depois de serem punidos, vai provavelmente ser acordado ao som de bombas. Mas não vai ser ele a sofrê-las, serão antes os israelitas a morrer, aqueles que ele diz querer ajudar a proteger. Mais: o processo de paz na Palestina chegou ao fim por muito tempo. Dado que os EUA são indispensáveis ao mesmo, não será retomado tão cedo. Lá poupou umas viagens ao genro, o manequim que tem uma enorme pasta que deve servir de pisa papéis lá em casa.

 

Saiu da UNESCO. A sério, que lógica tem isto? Esqueceram-se de designar a monstruosidade que é a torre Trump como património da Humanidade?

 

Saiu do acordo de Paris. Basta ver a reacção da indústria americana para saber que foi mais uma estupidez.

 

Está a tentar destruir alianças de décadas na Europa. A curto prazo é mau para os europeus. A longo prazo nem tanto. Entretanto a CIA, o FBI e a NSA devem andar a tentar reparar os danos para poderem continuar a receber informação.

 

Ainda vai acabar com o Irão a construir armas nucleares. Sinceramente, o homem deve querer que o resto do mundo se arme.

 

A sua administração fez um bom trabalho com um furacão e depois, quando o outro caiu sobre os hispânicos, decidiu que esses não mereciam a mesma atenção.

 

Não deixou uma palavra de crítica à Rússia (não falo da investigação sobre o potencial conluio, isso pertence á justiça dos EUA) mas criou um vazio que Xi Jinping tem vindo a aproveitar para expandir a influência chinesa, essa grande democracia.

 

Conseguiu em um ano perder um porta-voz, um chefe de staff, um conselheiro nacional para a segurança, dois directores de comunicação e a única mulher negra que tinha num posto sénior. As suas nomeações para as centenas de posições que já deveria ter preenchido têm sido tarde e esmagadoramente masculinas e brancas (80%, se não me engano). Conseguiu ainda que o seu Secretário de Estado tivesse a relevância de um peixe fora de água.

 

Claro. posso estar errado. Trump pode estar a quebrar o molde dos políticos mas poderá conseguir resultados que o mundo deseja desde há décadas. Poderá conseguir levar a paz ao médio oriente, atingir uma nova era de colaboração entre as Coreias, desenvolver a economia dos EUA para níveis não atingidos desde há muito e obter uma conciliação interna no seu país entre as diversas correntes de pensamento. Já houve coisas mais estranhas a acontecer (se bem que me falha a memória do que fosse).

 

No entanto penso que não e, para dizer a verdade, não sei o que seria pior.  Se um mundo mais inseguro, menos próspero, mais intolerante, mais desigual e mais dominado por ditadores ou iliberais; ou um mundo que está melhor mas que lá chegou devido a um ogre na Casa Branca. Por agora fico-me. Talvez volte ao assunto no próximo ano se ainda cá estivermos.

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John McCain

por Alexandre Guerra, em 28.07.17

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Há uns dias Barack Obama referia-se a John McCain como um herói americano e um dos mais corajosos lutadores que conheceu. E num acto de força e encorajamento, o ex-Presidente escrevia no Twitter que o "cancro não sabia com quem se tinha metido", numa alusão ao tumor cerebral diagnosticado a McCain. Eu só posso subscrever as palavras de Obama, sobre um homem e político republicano que tenho acompanhado ao longo dos anos e que, acima de tudo, foi sempre fiel aos seus valores e princípios. Herói de guerra, nunca se deixou enlamear pelas guerras intestinas partidárias do Congresso, em defesa daquilo em que acredita e sempre a pensar no superior interesse dos seus concidadãos. Ontem à noite, McCain voltou a ser um herói e um lutador ao votar ao lado dos democratas contra o desmantelamento do Obamacare, um dos mais importantes saltos civilizacionais da sociedade americana das últimas décadas. Ele e mais as colegas Susan Collins e Lisa Murkowski desafiaram a "disciplina partidária" tão cegamente seguida em Portugal e foram contra o seu próprio Partido Republicano. No final, a votação no Senado ficou 51-49 a favor da manutenção do Obamacare. Coube a McCain o voto decisivo e é nesses momentos em que se definem os bravos lutadores, que se desprendem de interesses e conivências em benefícios egoístas, para assumirem um combate duro, muitas vezes solitário, em prol de um bem maior.

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Old Spice

por João Campos, em 21.07.17

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Curioso, o timing da demissão de Sean Spicer: será apenas uma cortina de fumo para um momento particularmente bizarro (passe o eufemismo) da administração Trump, ou terá Spicer finalmente cedido aos gritos desesperados de socorro da última vértebra da sua espinha dorsal? Por um lado, e por mais tempestuosa que tenha sido a sua relação com a imprensa (passe outro eufemismo), não consigo deixar de sentir alguma simpatia pelo ex-porta-voz da Casa Branca: sempre que o vi na televisão a proferir os disparates mais inusitados fiquei com a sensação de que não acreditava verdadeiramente neles; que, algures no canto mais recôndito da sua mente, ele sabia quão absurdas eram as suas palavras e as suas acções. De resto, o contraste com o fanatismo gelado de Sarah Huckabee Sanders, com a alucinação permanente de Kellyanne Conway, e com o aspecto de Voldemort-de-trazer-por-casa do outro imbecil que emergiu há um par de meses para debitar dois ou três disparates não podia ser mais evidente. Enfim, propaganda por propaganda, prefiro aquela que seja divertida, e as declarações delirantes de Spicer sempre proporcionaram algumas gargalhadas, tanto pelo próprio como pela forma como "alimentou" momentos muito inspirados nos programas de John Oliver, Stephen Colbert, ou Trevor Noah. Enfim, ou muito me engano (e espero enganar-me), ou os norte-americanos ainda irão ter muitas saudades de Sean Spicer. 

 

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O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

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Rollback

por Alexandre Guerra, em 29.03.17

Com mais ou menos polémica e trapalhada, mais ou menos anúncio espalhafatoso, a verdade é que, até ontem, Donald Trump ainda não tinha concretizado qualquer medida que fosse verdadeiramente maléfica para a Humanidade. Nalguns casos até se mostrou mais moderado em relação à sua posição inicial, como observou (e bem) o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, esta semana numa conferência em Lisboa, ao lembrar que Trump “fez a revisão do acordo NAFTA, mas não o denunciou, como não denunciou o acordo com o Irão, optando por vigiá-lo” e também “abandonou a ideia de transferir a embaixada [dos EUA] de Telavive para Jerusalém”. E já houve até um ou outro caso de humilhante derrota face àquilo que tinha prometido em campanha, como aconteceu na passada Sexta-feira ao ser obrigado a retirar do Congresso a “ bill” que iria revogar o Obamacare.

 

Mas ontem, não. Ontem, Trump clamou “vitória” e assinou um decreto presidencial na Sala Oval que tem como objectivo reverter muitas das medidas implementadas por Barack Obama em matéria ambiental. Algumas ainda nem sequer estavam em vigor, mas, muito provavelmente, e à luz desta nova orientação, nunca chegarão sequer a concretizar-se. Como também dificilmente se alcançarão as metas definidas nos Acordos de Paris de 2015, aquilo que tinha sido um marco histórico na política ambiental norte-americana.

 

É um autêntico “rollback” na política ambiental da administração Obama, com consequências nefastas a médio e a longo prazo e que depois serão difíceis de reparar. Porque, a questão não se põe só ao nível das medidas que Obama tinha implementado (já por si muito importantes), mas também no exemplo e motivação que os Estados Unidos deram ao mundo para que outras nações, nomeadamente algumas das mais poderosas e poluentes, seguissem políticas mais sustentáveis em termos ambientais. Quando Obama se comprometeu com os Acordos de Paris estava claramente a dar um sinal ao mundo, em nome dos Estados Unidos, para a necessidade de serem adoptados modelos de sustentabilidade nas economias mais desenvolvidas, por modo a fazer-se face à realidade inequívoca das alterações climáticas e do aquecimento global.

 

Ao assinar aquele decreto presidencial, Trump não só deitou por terra todo o esforço e pedagogia que Obama desenvolveu, como legitimou e recuperou as teses mais ignorantes e retrógradas em matéria ambiental. E isso é assustador e triste.

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Quando o ex-Presidente George W. Bush teve a rara oportunidade de nomear dois juízes para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, John Roberts, em 2005, e Samuel Alito, um ano depois, conseguiu impor um registo mais conservador naquele órgão de nove elementos, cujos seus membros são vitalícios. Estas nomeações foram vistas como um dos principais legados da administração republicana de Bush para a posteridade, já que a sorte das circunstâncias permitiu-lhe perspectivar marcar ideologicamente futuras decisões sobre as questões mais fracturantes da sociedade americana. Na altura, não se esperava que tão cedo um outro Presidente tivesse a oportunidade de voltar a ter uma interferência tão influente na composição do Supremo. Mas, depois do Presidente Barack Obama ter tido a oportunidade de nomear Sonia Sotomayor logo no seu primeiro ano de mandato, após a saída do juiz David Souter por vontade própria, voltou, em 2010, a ter a possibilidade de escolher outra mulher para o Supremo, neste caso Elena Kagan. Tal só foi possível com a retirada do juiz John Paul Stevens.

 

Apesar destas mudanças de cadeiras, em termos de equilíbrio ideológico o Supremo ficou na mesma, já que os dois juízes que tinham saído alinhavam quase sempre pelo campo liberal, ou seja, Obama não conseguiu trocar um juiz conservador por um progressista. Essa oportunidade só surgiu em Fevereiro de 2016, com a morte do juiz conservador Antonin Scalia, só que, com as eleições presidenciais à vista, os republicanos do Congresso e o então candidato Donald Trump avisaram logo que não valeria a pena Obama tentar propor algum nome para o Supremo, já que nem sequer seria considerado, quanto mais nomeado. Apesar das ameaças, Obama propôs o juiz Merrick B. Garland que, se tivesse sido aceite, teria, efectivamente, voltado a fazer pender o cariz ideológico do Supremo para o lado mais progressista, uma vez que ficariam cinco juízes mais liberais contra quatro mais conservadores. Ora, tal não aconteceu e o processo de substituição de Scalia ficou suspenso até ontem, com a escolha, por parte de Trump, do juiz conservador Neil Gorsuch. É o mesmo que dizer que o Supremo manterá a sua maioria conservadora. Aliás, para o New York Times, Gorsuch está muito próximo do estilo e da filosofia do falecido Scalia e adivinha-se agora uma batalha feroz no Senado, onde os republicanos têm uma maioria de apenas 52 lugares (em 100), sendo que uma maioria simples não é suficiente para fazer passar o nome proposto por Trump. São precisos pelo menos 60 votos. Aqui, deverá acontecer o primeiro grande embate entre democratas e republicanos nesta nova presidência. 

 

Mas antes de se entrar num debate histérico, com troca de argumentos muito pouco fundamentados, é importante ter alguma noção histórica do papel dos nove juízes do Supremo Tribunal e conhecer o perfil de cada um deles, porque se percebe que há uma certa lógica ideológica na composição daquele órgão. A verdade é que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos é daqueles órgãos de soberania que, independentemente da sua composição ideológica, revela sempre um elevado nível de bom senso e um sentido muito apurado dos tempos. O que de certa forma é surpreendente, se tivermos em consideração que os seus nove juízes são nomeados vitaliciamente e carregam consigo, quase sempre, uma carga ideológica bem vincada, seja mais para o lado conservador, seja mais para o lado liberal. Mas o que é certo, e a avaliar pelas decisões mais importantes dos últimos anos, o discernimento daquele instituição não costuma ser afectada e, quase sempre, vai no sentido certo do progresso da Humanidade. 

 

Publicado originalmente no Diplomata.

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Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder

por Alexandre Guerra, em 31.01.17

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma "boca" ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a "insuspeita" FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do "inauguration day" em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a "bomba" da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a "immigration order". Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

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Trump

por José António Abreu, em 26.01.17

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Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia.

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A elegância no ódio

por Diogo Noivo, em 23.01.17

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Pedantes, cultos, sagazes e penas magníficas. Vistos desta forma, William Buckley e Gore Vidal eram faces da mesma moeda. Talvez por isso não se pudessem ver. Vidal era o enfant terrible liberal, um transgressor por vocação, convicção e prazer. Buckley era o poster boy da intelectualidade conservadora, um provocador elegante que defendia a política como arena de debate ideológico. Dois génios em lados opostos da barricada.
Em 1968, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos da América, a ABC tinha de encontrar uma forma de se manter à tona, de captar audiências, aproximando-se das líderes de mercado CBS e NBC. É neste contexto que alguém na ABC se lembra de criar um modelo de debate entre comentadores, um frente-a-frente, no qual Gore Vidal se sentaria de um lado e William Buckley do outro. E assim nasceu um dos episódios mais marcantes da História do audiovisual e assim se criou uma inimizade lendária.

 

 

Os debates foram animais da sua época, muito embora não sejam conversas datadas. Para o bem e para o mal. É curioso ver como temas quentes nos Estados Unidos no final da década de 1960 continuam hoje a ocupar um lugar de destaque na agenda política e social desse país - a tensão racial é um dos vários exemplos possíveis. Mais curioso ainda é perceber como os argumentos aduzidos pouco ou nada mudaram. O que sim mudou foi a tarimba e o flâneur dos intervenientes. Eloquentes, mordazes e incisivos, Vidal e Buckley foram peças únicas. Único foi também o incidente ocorrido no último debate, um excesso que cavou o abismo que já separava os dois. Não estragarei a surpresa aos que não conhecem o caso e querem ver Best of Enemies, o documentário onde esta relação entre titãs é descrita e analisada.
Se há algo a retirar de Best of Enemies é que a inimizade, tal como o seu antónimo, exige uma atenção total e esmerada. Vidal era um cultor da língua, mas também do ódio. Mais do que um sentimento, o ódio era um compromisso tratado com tamanha elegância que quase foi elevado à categoria de virtude. Buckley era mais provocador do que amante de ódios, mas não deixou Vidal a detestar sozinho.
É verdade que o documentário tem falhas, algumas das quais analisadas com exagero (e talvez com algum ressabiamento) por Michael Lind no Politico, mas nem por isso é menos interessante. Narrado por John Litgow e por Kelsey Grammer, o documentário Best of Enemies prova que intelectuais públicos dignos desse nome não são matéria do domínio da ficção. Estreado em 2015 no Sundance Film Festival, Best of Enemies está disponível no Netflix.

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A Mãe

por Bandeira, em 21.01.17

A ti, generoso amigo norte-americano que me diz soluçando, entre dois goles de whiskey, “Por muito que me custe, este é o meu presidente e eu apoiá-lo-ei sem reservas”, lembro as imortais palavras do (literalmente) grande Chesterton:

“’O meu país, com razão ou sem ela’, é algo que a um patriota jamais ocorreria dizer excepto em casos desesperados. Seria como dizer ‘A minha mãe, bêbada ou sóbria.'"

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Saudades antecipadas de Obama

por Pedro Correia, em 20.01.17

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Barack Obama não foi o santo milagreiro que alguns desejavam. Mas prepara-se para deixar um país melhor do que encontrou ao tomar posse, em Janeiro de 2009. Os Estados Unidos, embora longe da prosperidade de outrora, registam crescimento económico, o desemprego foi reduzido para metade, a inflação situa-se a níveis residuais e nunca tantos americanos beneficiaram de medidas de protecção social como no seu mandato.

No plano externo, o Presidente agiu com prudência no vespeiro do Médio Oriente, enfrentou as tentativas de expansionismo russo e pôde anunciar ao mundo a captura de Bin Laden - cérebro dos atentados do 11 de Setembro e autoproclamado inimigo público nº 1 dos EUA. Já nesta recta final do mandato, obteve dois trunfos na frente externa, levando o Irão a admitir restrições ao programa nuclear e pondo fim a quase seis décadas de congelamento das relações diplomáticas com Cuba.

 

"Vim aqui enterrar os restos da Guerra Fria nas Américas. (...) Acredito que os cidadãos devem ser livres para falarem sem receios, para criticarem os governos e organizarem protestos de forma pacífica. Acredito que o Estado de Direito não inclui a detenção arbitrárias de pessoas por exercerem esses direitos. E, sim, acredito que os eleitores devem poder escolher os seus governos em eleições livres e democráticas. El futuro de Cuba tiene que estar en las manos del pueblo cubano", declarou Obama no Grand Teatro de Havana, num discurso que foi transmitido em directo pelos meios de comunicação do país, ainda há pouco especializados em diabolizar os Estados Unidos.

Importante por este carácter inédito, na primeira viagem de um Presidente americano a solo cubano desde 1928, o discurso confirmou um Obama conciliador e diplomático, mas também firme nos princípios e suficientemente realista para perceber que a prioridade estratégica de Washington quanto ao continente americano é quebrar o eixo Havana-Caracas para isolar o insolvente regime chavista e proporcionar aos cubanos uma abertura idêntica à que Richard Nixon possibilitou na China maoísta em 1972. E ninguém percebeu isso tão bem como Fidel Castro, como demonstraram as farpas dedicadas pelo ex-ditador a Obama, que recusou vê-lo nesta visita.

 

O inquilino da Casa Branca semeou o que o seu sucessor em Washington colherá. Honrando as melhores tradições da política externa do seu país, nomeadamente o que fizeram Nixon ao visitar Mao Tsé-tung em 1972, e Ronald Reagan na sua bem-sucedida deslocação ao Kremlin em 1988. Nada ficou como antes, tanto em Pequim como em Moscovo.

Pressinto que não tardaremos a ter saudades de Obama. Do seu gesto inspirador, da sua palavra eloquente, da sua apaziguadora bonomia. Em suma: da sua decência, que parece um pouco fora de moda e muito deslocada no tempo.

 

Texto reeditado

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Relembro aqui os primeiros três textos que escrevi no DELITO DE OPINIÃO sobre o Presidente Obama:

O que disse Obama (20 de Janeiro de 2009)

Com a graça de Deus (22 de Janeiro de 2009)

Obama: o sonho americano (25 de Janeiro de 2009)

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Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

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2017, o ano do renascimento do Czar Putin

por Alexandre Guerra, em 02.01.17

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

 

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Czar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Governo entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

 

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

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Escolhas interessantes de Trump

por Alexandre Guerra, em 23.11.16

Interessantes, é o que se pode dizer de algumas escolhas que Donald Trump tem feito para a sua equipa. Contrariando um pouco a ideia que reinou nos primeiros dias após a sua eleição, de que se estaria perante uma equipa de transição caótica e que se estava perante um "assalto ao poder" por parte de "amigos" e familiares, não deixam de ser curiosos os nomes que Trump escolheu para a Educação, Habitação e Desenvolvimento Urbano e para o lugar de Embaixador dos EUA nas Nações Unidas. Betsy DeVos, na Educação, é republicana, activista conservadora, filantropista e presidente da American Federation for Children, um grupo de interesse bastante agressivo na defesa da atribuição de vouchers de dinheiro público para que as famílias mais carenciadas possam colocar os seus filhos a estudar em escolas privadas. É claro que por detrás desta medida está uma opção ideológica, com a qual se pode concordar ou não, mas a verdade é que DeVos não é propriamente uma pessoa de quem se possa dizer que é completamente desajustada ao lugar. Penso que, efectivamente, qualquer que fosse o candidato republicano, o seu nome seria visto com normalidade.

 

Para a Habitação e Desenvolvimento Urbano, é surpreendente a escolha de Trump ao ir buscar Ben Carson, negro, neurocirurgião retirado, e que foi seu rival nas primárias. Embora não tenha qualquer experiência governativa, merece pelo menos o benefício da dúvida. Também hoje se ficou a conhecer a Embaixadora dos EUA para as Nações Unidas. Nikki Haley parece ser uma escolha acertadíssima. "Rising star" no Partido Republicano, de 44 anos, era até agora a primeira mulher governadora do estado da Carolina do Sul. É filha de imigrantes indianos e por várias vezes já demonstrou ser uma pessoa defensora dos valores da integração e do diálogo.

 

Ao nomear estas três pessoas, Trump tem, por um lado, o objectivo estratégico de aliviar a pressão sobre si, escolhendo duas mulheres e um negro, passando a ideia de diversidade e escapando ao estigma de que se estava a criar uma administração maioritariamente "branca" ligada aos interesses de grupos de direita mais radical. Por outro lado, e esse é um lado mais curioso, Trump revela algum desportivismo, porque todos estas pessoas foram suas críticas. E a ironia disto é que muitos dos políticos europeus arautos da liberdade que tanto têm criticado Trump (e existem razões para isso) jamais nomeariam alguém que os tivesse criticado. Nesse aspecto, Trump parece estar a dar algumas lições. Logo se verá se é para durar. Até ver...

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Trump, Obama e o jornalismo

por Pedro Correia, em 14.11.16

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1

No meio dos dislates de Donald Trump - que os houve, e graves - ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teve aos olhos do eleitorado norte-americano. Algum terá, seguramente, caso contrário o "sábio povo" que elegeu Barack Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no "estúpido povo" que agora votou como votou.

Acontece que a Portugal, durante a campanha, só chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta de âmbito social, nenhuma proposta de âmbito económico. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?

Era uma excelente história. Mas ficou por contar nos meios de comunicação portugueses. No meio de tanta reportagem “editorializada” não houve tempo para fazer jornalismo.

 

2

Trump, um milionário que fez questão de pagar a sua própria campanha sem recorrer a fontes de financiamento externas, conseguiu passar a mensagem de que era ele o candidato anti-sistema. Mal ou bem, o escrutínio confirmou esta evidência. Financiador das campanhas de Bill Clinton na década de 90 e recém-filiado no Partido Republicano, o magnata pulverizou o establishment político de Washington.

Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Talvez isto explique o facto de 20% dos eleitores que preferiam Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata terem votado Trump.

Porquê? Outra boa história que ficou por contar nos meios de comunicação portugueses, pré-formatados para a "inevitável" vitória de Hillary Clinton. Entre tanta reportagem “editorializada” contaminada pela propaganda de uma facção, não houve tempo para fazer jornalismo.

 

3

Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha – com uma intensidade e uma frequência raras vezes vistas num inquilino da Casa Branca prestes a abandonar o cargo.

De Obama, no entanto, também cá chega apenas a versão benévola disseminada pelos seus diligentes assessores de imagem e aceite nas redacções sem um assomo de interrogação: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído, elegante e bem humorado - em jantares risonhos, passeios informais, bailes de gala e divertidos talk shows.

Um político com imensas qualidades, sem dúvida, mas cujo mandato foi agora avaliado negativamente pelos eleitores norte-americanos, que recusaram a candidata de Obama e optaram pelo Partido Republicano nas corridas à Presidência dos Estados Unidos, ao Senado e à Câmara dos Representantes. Numa jornada eleitoral em que os republicanos também conquistaram terreno nas eleições para  governadores (onde dispõem da mais larga maioria desde 1922) e para os parlamentos estaduais.

Quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas? Outra excelente história que não chegou a ser contada. Porque a propaganda se sobrepôs ao jornalismo.

 

4

Uma personagem de um filme de John Ford, jornalista de profissão, proclamava no Velho Oeste: “Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

Imitando essa figura de ficção, demasiados jornalistas andam por cá a imprimir a lenda, impondo-a como verdade unidimensional. Tudo isto esbarra no entanto com um sério problema: quando os factos desmentem a lenda, toda a construção mediática anterior cai pela base. E o descrédito dos meios de comunicação clássicos amplia-se ainda mais.

Não admira portanto que as pessoas se virem em doses crescentes e maciças para as "redes sociais". Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o indispensável e elementar contraditório que os media tradicionais estupidamente lhes vão negando.

 

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Na manhã seguinte à derrota de Hillary Clinton já estava em curso uma suposta campanha em prol da candidatura presidencial de Michelle Obama, em 2020. Nem vou comentar a estupidez política da iniciativa, tão óbvia é: uma das razões da rejeição de Hillary foi a questão "dinástica", pelo que propor imediatamente Michelle só pode servir para a queimar. Nem vou alongar-me sobre a - também óbvia - misoginia desta ideia de que a melhor candidata mulher terá de ter sido necessariamente mulher de um Presidente. A minha questão é outra, e ética: a arrasadora imoralidade deste abandono imediato de Hillary. Não gostavam dela, é isso? Mesmo que seja isso: quando apoiamos alguém, o mínimo olímpico de ética que se exige é que fiquemos ao lado dessa pessoa no momento da sua queda. Que lhe seguremos a mão quando tudo se esboroa, caraças. Pergunto a esses febris corredores de lebres: gostariam que os vossos próximos desertassem no momento de maior dor? Achariam natural? 

Como o próprio T***p acabou por dizer no discurso da vitória (depois de ter passado a campanha eleitoral a insultá-la soezmente e até a prometer mandá-la para a prisão, é preciso não esquecer), Hillary Clinton tem uma vida inteira de dedicação ao serviço público. Em 1977, co-fundou a associação Advogados em Defesa das Crianças e Famílias do Arkansas. Entre 1979 e 1992, liderou a reforma do sistema de ensino do Arkansas. O seu plano de saúde (de 1993) era muito mais avançado do que o de Obama - tão avançado que não conseguiu que fosse aprovado. Entre 1997 e 1999, criou o Programa de Seguro de Saúde para Crianças, a Lei da Adopção e da Segurança Familiar e a importantíssima e inovadora Lei dos Adoptivos Indepententes. Como secretária de Estado de Obama, visitou mais países do que qualquer dos seus antecessores e incentivou o acesso das mulheres aos cargos de poder. Terá cometido erros, evidentemente: só quem não faz nada não os comete. E foi sujeita a um escrutínio e a uma crueldade que não se aplica a nenhum político do sexo masculino: a eleição de T***p é prova disso. Ah, é que T***p não era político, e por conseguinte não sofre de nenhum dos múltiplos vícios de que essa classe padece - é esta a lengalenga do populismo triunfante. Sabem que 87% do dinheiro da Fundação Clinton é mesmo aplicado em programas destinados a melhorar o mundo? Quantas fundações portuguesas conhecem que façam isto? E o que fez T***p em prol do seu semelhante?      

O empenhamento e a capacidade política de Hillary pareceram-me sempre muito maiores do que os de Bill - que, aliás, várias vezes tem afirmado que foi ela quem o empurrou para a política. Tive pena que não fosse ela a candidata em 1992; evidentemente, não teria qualquer hipótese, nessa época. Nem agora a teve, não só porque a misoginia custa muito mais a ultrapassar do que o racismo, mas também por ser a mulher de um ex-presidente. Até das infidelidades do marido a acusaram: T***p chegou a dizer publicamente que, se Hillary nem sequer conseguia satisfazer o marido, certamente não conseguiria satisfazer a América. Sim, é nisto que ainda estamos. Ou que cada vez mais voltamos a estar. Poucos meses antes de morrer, em 1993, Natália Correia disse-me que não tinha vontade de continuar a viver porque o início do milénio seguinte seria de acentuado retrocesso civilizacional, e preferia não assistir a isso. Lembro-me muitas vezes dessas palavras proféticas. 

Não é só T***p nem o que ele significa; é o facto de, no lado pretensamente oposto ao racismo, ao sexismo, ao isolacionismo e à arrogância que o dito cujo representa, se encontrar gente para a qual palavras como lealdade e solidariedade não representam nada. Este cavalo perdeu a corrida? Apostemos já noutro, adiante. É a febre do next, a ambição sem freio nem reflexão, uma visão da existência como gigantesca onda a surfar, de sucesso em sucesso. Quando lhes dizemos: «tenham vergonha», espantam-se do nosso arcaísmo. Boa sorte com esse modo de vida.  

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Prevendo uma Presidência Trump

por João André, em 10.11.16

E passaremos a escrever Presidente Trump. Não sei se o farei, custa-me. Para explicar o que aconteceu, que se leiam os especialistas, coisa que não sou. Pelo que leio na imprensa internacional que respeito, alguma da tal em decadência, Trump terá vencido ao concentrar o voto do eleitorado branco sem educação superior mas não necessariamente de rendimentos mais baixos. De certa forma parece que Trump soube ir capturar os ressentimentos de todos os Archie Bunkers americanos para quem os candidatos nunca ou raramente falaram (não eram um verdadeiro grupo demográfico para as sondagens) e que queriam ser ouvidos.

 

Por isso Trump atacou muçulmanos, latinos, asiáticos, negros e todo o establishment que permitiu a ascenção de tais grupos. Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica - de longe - do planeta. Por isso admirou ditadores e autocratas que lembrassem a este grupo a força que perderam mas que ainda poderia ser deles.

 

Não invoco isto para explicar a vitória de Trump. Invoco isto para falar do que poderá vir a ser a sua presidência. É que Trump foi eleito por estas pessoas e sabe que não conseguirá reconquistar aqueles que antagonizou sem virar o seu eleitorado base contra si. Por isso é provável que não abrande a mensagem mas que a reforce. Por isso é provável que, uma vez na Casa Branca, não passe a ser mais moderado e centrista. Não poderá fazer tudo quanto gostaria, devido ao balanço de poder dos EUA e das leis que estão em vigor, mas não será certamente por falta de vontade.

 

Vejamos algo que poderá ser o caso mais desastroso: o golpe duplo de rasgar o NAFTA e erigir um muro na fronteira com o México. Se rasgar o acordo NAFTA acabará a, senão destruir, pelo menos a dar um golpe enorme na economia mexicana, que envia 80% das suas exportações através da fronteira. Se ao mesmo tempo colocar um muro na fronteira, teoricamente impede mexicano de entrar. Só que há aqui um problema: pessoas desesperadas - como os mexicanos ficariam numa economia a colapsar - correm os riscos que forem necessários. Os mexicanos acabariam a destruir a fronteira pelos meios que pudessem a menos que os EUA colocassem o exército ao longo da sua fronteira de 3.200 quilómetros. Isto destruiria a economia do país vizinho e criaria uma situação de guerra nas fronteiras do peóprio país. A piorar o cenário estaria o simples facto que os produtos que não chegassem do México teriam de ser produzidos internamente, a custos mais elevados (e assumindo que existiria mão de obra para tal). Isto levaria a um aumento da inflação, que levaria a aumentos de salários para manter a base satisfeita e acabaria numa economia completamente fora de controlo.

 

E esse é apenas um aspecto. Vejamos agora a política externa. É de crer que ou Trump terá um encontro com Putin nas primeiras semanas da sua presidência ou que Putin colocará o exército em exercícios extensivos nas fronteiras dos países bálticos, só para ver como Trump reage. Uma cimeira é mais provável e é altamente crível que Putin acabe a conseguir de Trump tudo o que quer. Não seria de espantar se Trump aceitasse uma intervenção russa na Síria ainda mais alargada que agora em troca de ficar com algum território (ou recursos) para si. Imagino facilmente Trump e Putin a dividir o território no Médio Oriente. Para cúmulo, com Trump a cumprir a promessa de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a aceitar a expansão dos colonatos - além de rasgar o acordo com o Irão - a região acabaria ainda mais a ferro e fogo, numa revolta dos árabes aos piores níveis do passado. Uma Europa sem a protecção americana, um Médio Oriente em chamas e um extremo oriente com Coreia do Sul, Japão e Coreia do Norte numa corrida nuclear. Soa bem, não é?

 

E quanto à sociedade americana? Bom, Trump prometeu rasgar o Obamacare, algo que não pode ser feito sem grandes custos financeiros, independentemente do resto das consequências. Trump não deu nenhum plano de saúde - quase de certeza porque nem pensou no assunto - mas as indicações que deu já foram consideradas por republicanos como um apanhado sem sentido de propostas do passado. Seja como for, para não antagonizar a sua base, Trump terá que acelerar o desmantelamento do Obamacare, o que custará (muito) dinheiro (nada que o incomode) e que terá de ir buscar a outros lados (já lá vamos). Além disto, poderá nomear o próximo juiz do Supremo Tribunal e fazer tender a balança para o lado conservador. Como dois dos juízes liberais e um dos conservadores já estão com 78 ou mais anos de idade, poderá até escolher outros três. No final de um primeiro mandato poderia escolher 4 juízes, passando o equilíbrio de 4-4 (ou 5-4 a favor de conservadores) agora para 7-2 a favor de conservadores, os quais o seriam provavelmente ainda mais que o tradicional, dado que não enfrentariam oposição de monta no Congresso.

 

Estas mudanças na sociedade iriam embater em vários avanços ou situações presentes. As leis que sustentam Roe vs Wade seriam provavelmente alteradas e Trump chegou mesmo a prometer uma forma de punição para as mulheres que abortem. O casamento homossexual estará em risco se ele o puder conseguir e a NRA poderá obter concessões verdadeiramente escabrosas, como a possibilidade de licenças de porte de arma serem transportáveis entre estados (permitindo que criminosos possam adquirir armas noutros estados e levá-las para o seu). Além disto prometeu uma polícia mais musculada e com menos controlos externos. Mortes a tiro de suspeitos poderão tornar-se depressivamente mais comuns.

 

Tudo isto sem falar no próprio comportamento de Trump, que demonstrou já o seu desprezo por quase toda a gente que não seja família e a sua falta de respeito por qualquer pessoa que não seja Donald Trump. Mulheres estarão particularmente ameaçadas. Se não directamente pelo próprio Trump, então por outros que se revejam no seu (execrável) exemplo. A título muito pessoal, não me admirarei se acabarmos um dia com a notícia de Trump ter violado alguma estagiária em plena Casa Branca.

 

Os imigrantes nos EUA, por seu lado, poderão estar a tremer, sejam legais ou não. Há quem diga que deportar 11 milhões de pessoas é impraticável, mas os EUA têm um hábito de conseguir o impraticável. Se o fizerem haverá certamente muitas crianças atiradas fora com a água do banho. As consequências numa economia que em muitos sectores está dependente destas pessoas é essencialmente imprevisível. Já impedir a entrada de muçulmanos, mesmo que isto seja inconstitucional, pode ser conseguindo contornando o problema (como Trump já o fez), dizendo que será apenas com aumento do controlo (já de si extremamente exigente) de imigrantes vindos de "países com terrorismo islâmico". Isto na prática permitiria impedir a entrada de qualquer muçulmano mas também colocaria obstáculos à entrada de, por exemplo, franceses, ingleses ou belgas. O país de imigrantes (Trump é neto de um alemão e casado com uma eslovena) fecharia as portas como talvez nunca antes na sua história.

 

Financeiramente a situação é ainda mais preocupante. Trump prometeu acabar com as cláusulas que permitem a directores de hedge funds pagarem impostos mais baixos. Isto seria (pelo menos parcialmente) promissor se não fossem outras promessas, como cancelar a lei Dodd-Frank que mantém algumas medidas de controlo sobre a especulação financeira. Os financeiros poderiam não mais ter certas cláusulas para explorar, mas pdoeriam provavelmente explorar outras. E sendo Trump quem é, também é muito possível que passe leis que se destinem a beneficiar (ou às suas empresas) directamente. Os cálculos aos custos dos planos económicos e financeiros de Trump indicam uma explosão da dívida de quase 50% em 10 anos. Isto sem que os gastos viessem beneficiar muito a população em si. Adicionando a isto a sua tendência isolacionista que pode perfeitamente causar uma guerra comercial (os chineses, para salvar a face, estariam culturalmente e em princípio muito mais dispostos a sofrer tais consequências que os americanos). Mesmo não percebendo muito de economia, imagino que o valor do dólar teria tudo para cair, os preços internamente para subir e a inflacção para disparar. E se quando a economia americana tem uma constipação a economia mundial apanha uma pneumonia, imaginem-se as consequências da pneumonia americana.

 

Claro que é possível que Trump não faça tudo isto (é inclusivamente provável) e até é possível que faça só algumas destas coisas. É possível que o Congresso, o Partido Republicano, ou os lobbies lhe façam frente. É possível que ignore tudo isto e deixe Mike Pence fazer tudo (seria de si mau, mas não tanto quanto a alternativa). É possível que Trump seja capturado pelo establishment (uma Casa Branca a cumprir os seus caprichos é algo que mesmo a sua - suposta- fortuna não pode comprar). Mas o risco está aí. Acima está apenas uma análise a algumas das promessas de Trump. É simplista, mas menos que os planos em si. Se há alguma coisa que desejo, é que me venham dizer, daqui a 4 anos, que eu estava completamente errado.

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A decadência do jornalismo

por Pedro Correia, em 09.11.16

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«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»

José Saramago (2001)

 

Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.

Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.

 

Andámos assim durante 16 meses.

Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o  Presidente Obama e a primeira dama - mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.

Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.

Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?

Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.

 

Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.

Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.

Um dos marcos desta campanha - pela negativa - ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.

 

Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.

Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.

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O futuro é um lugar imprevisível

por José António Abreu, em 09.11.16

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1.

Será interessante ver se Donald Trump - claramente alguém que não se preocupa com o detalhe ou com a coerência - irá aplicar muitas das medidas que defendeu. Sendo certo que o Partido Republicano controlará Câmara dos Representantes e Senado, muitos dos seus elementos discordam de Trump; porém, o poder tende a atenuar divergências. E os eleitores estão à espera de mudança - em parte, a que Obama prometeu e não concretizou.

 

2.

Se Hillary Clinton perdeu, Obama é o outro grande derrotado da noite. A eleição de Trump permite verificar quão insatisfeitos estão os norte-americanos com a sua presidência. Tivesse Obama conseguido os resultados que muitos por cá - e por lá - lhe atribuem, Clinton teria vencido. Pessoas satisfeitas não querem mudança - ainda por cima, com elevadíssimo grau de risco.

 

3.

Algumas medidas parecem certas. Por exemplo, o fim do Obamacare e o adiamento de qualquer medida para controlar a venda e posse de armas. Do ponto de vista de um europeu, são questões irrelevantes, exclusivamente de política interna. Há, no entanto, três temas com alcance global: o eventual proteccionismo económico, a política externa e a política monetária. Em nenhum deles o comportamento de Trump pode ser dado como adquirido.

 

4.

No campo da Economia, depois de tudo o que disse e das expectativas que criou, Trump está forçado a fazer algo. O TTIP já morrera durante a presidência Obama, mas veremos o que sucede com o NAFTA, que muitos congressistas republicanos têm apoiado, e em que bases se estabelecerá a relação com a China. Seja como for, o comércio global irá quase certamente ressentir-se. Quem hoje celebra, poderá rapidamente constatar que fechar fronteiras não significa mais riqueza - especialmente no caso de países pequenos como Portugal, que apenas poderão crescer captando recursos no exterior.

 

5.

Vladimir Putin foi o outro grande vencedor do dia. Uns Estados Unidos focados na política interna e desinteressados da NATO abrem-lhe as portas para todos os impulsos. Resta saber em que moldes Trump procurará cumprir a promessa de acabar com o Daesh. E se, mais cedo ou mais tarde, como sucedeu a George W. Bush, não acabará arrastado para conflitos que deseja evitar. Para Israel (mas também para a Palestina), os riscos acabam de aumentar exponencialmente.

 

6.

Para o bem e para o mal, a acção dos Bancos Centrais tem sido decisiva no equilíbrio do castelo de cartas em que a Economia se transformou. Irá Trump permitir uma correcção dos mercados, que terá sempre reflexos violentos na vida diária das pessoas? Parece-me improvável. Trump anunciou investimento público; necessita de uma Economia capaz de lhe fornecer o dinheiro necessário (ainda que artificialmente). E mais: Trump é um especulador e um milionário; fará tudo para evitar prejuízos.

Evidentemente, os desejos dele podem mostrar-se irrelevantes. Ninguém segura um castelo de cartas depois de ele estar em queda.

 

7.

Nos países mais prósperos, onde as últimas décadas criaram a ilusão de que era possível manter os níveis de enriquecimento e protecção social sempre a subir, as pessoas andam insatisfeitas. É compreensível. Menos compreensível é que exprimam a insatisfação de forma irracional, votando para acabar com algo em vez de para construir uma alternativa coerente. Inevitavelmente, uma alternativa surgirá; contudo, numa época em que globalmente se vive muito melhor do que em qualquer outra na História, ela pode revelar-se bastante pior do que a situação de partida. Será então demasiado tarde para lamentos. Isto aplica-se à eleição de Trump, mas também à vitória do «sim» no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, à vitória do Syriza na Grécia, à quase-eleição de Norbert Hofer na Áustria (no dia 4 de Dezembro ver-se-á se o «quase» está a mais), à eventual vitória de Marine LePen em França, aos resultados do Podemos em Espanha ou do AfD na Alemanha, etc., etc., etc.. Quando se unem todos os pontos, a imagem final é assustadora. Mas é o que é, e não vale a pena cair em lamentos. Ou talvez apenas para constatar que a expressão «que possas viver em tempos interessantes» terá resultado da adulteração de uma mensagem defendendo exactamente o contrário.

 

(Foto recolhida na net; não consegui determinar o autor.)

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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

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Imperdoável

por Teresa Ribeiro, em 09.11.16

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"Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas quanto ao universo ainda não tenho a certeza"

- dedico esta frase de Einstein ao povo americano. O que votou em Trump e o que não se deu ao trabalho de votar. 

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Barulho

por Diogo Noivo, em 09.11.16

Logo nas primeiras linhas de Ravelstein, Saul Bellow escreve que é “curioso que os beneméritos da sociedade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também que o entreter”.
Vista a campanha dos dois principais candidatos, os beneméritos estão em parte incerta, gente divertida também não se viu (a inimputabilidade, por um lado, e o cinismo sem sinal de projecto político, por outro, não divertem), e seja qual for o resultado duvido que haja entretenimento de qualidade. Estas eleições são de tal forma atípicas e decepcionantes que nem o maior escritor americano do pós-guerra equacionou uma coisa assim.

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EUA: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 02.11.16

Em vésperas da eleição presidencial norte-americana, vale a pena lançar um olhar retrospectivo pelo último meio século, lembrando quem foram os anteriores inquilinos da Casa Branca e a que partido pertenciam.

Faço aqui essa evocação recorrendo às cores tradicionais do Partido Republicano (vermelho) e do Partido Democrata (azul) para identificar os presidentes que dominaram cada ano deste meio século. E dividindo este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil.

Tenciono fazer o mesmo em breve com outros países já com eleições marcadas a curto prazo.

 

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1967/76

1967 - Lyndon Johnson

1968 - Lyndon Johnson

1969 - Richard Nixon

1970 - Richard Nixon

1971 - Richard Nixon

1972 - Richard Nixon

1973 - Richard Nixon

1974 - Richard Nixon

1975 - Gerald Ford

1976 - Gerald Ford

Década dominada por presidentes republicanos, que ocuparam a Casa Branca durante oito anos. Nixon foi a figura principal.

 

 

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1977/86

1977 - Jimmy Carter

1978 - Jimmy Carter

1979 - Jimmy Carter

1980 - Jimmy Carter

1981 - Ronald Reagan

1982 - Ronald Reagan

1983 - Ronald Reagan

1984 - Ronald Reagan

1985 - Ronald Reagan

1986 - Ronald Reagan

O Partido Republicano voltou a ser a força dominante, com Reagan ocupando a presidência durante seis anos desta década.

 

 

George_H._W._Bush,_President_of_the_United_States,

 

1987/96

1987 - Ronald Reagan

1988 - Ronald Reagan

1989 - George Bush

1990 - George Bush

1991 - George Bush

1992 - George Bush

1993 - Bill Clinton

1994 - Bill Clinton

1995 - Bill Clinton

1996 - Bill Clinton

Outra década com maioria republicana. Figura dominante: Bush, somando os quatro anos da sua presidência ao período em que foi vice-presidente com Reagan.

 

 

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1997/06

1997 - Bill Clinton

1998 - Bill Clinton

1999 - Bill Clinton

2000 - Bill Clinton

2001 - George W. Bush

2002 - George W. Bush

2003 - George W. Bush

2004 - George W. Bush

2005 - George W. Bush

2006 - George W. Bush

Voltou a haver predomínio republicano ao longo deste período: Bush - filho do antigo presidente - ocupou a presidência em 60% deste período.

 

 

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2007/16

2007 - George W. Bush

2008 - George W. Bush

2009 - Barack Obama

2010 - Barack Obama

2011 - Barack Obama

2012 - Barack Obama

2013 - Barack Obama

2014 - Barack Obama

2015 - Barack Obama

2016 - Barack Obama

Nenhuma dúvida: década dominada pelo primeiro presidente com origem africana. Também a única com maioria democrata.

 

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Balanço: o Partido Republicano dominou a Casa Branca em 28 dos últimos 50 anos (percentagem: 56%). Com cinco presidentes: Nixon, Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho.

O Partido Democrata dominou os 22 anos restantes (44%). Com quatro presidentes: Johnson, Carter, Clinton e Obama.

 

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Leituras

por Pedro Correia, em 15.10.16

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"In 1948, normal domestic issues dominated the presidential campaign. Foreign policy did not become a major point because the Republicans did not choose to make it one, for a very good reason. They were very much a part of the existing policies, and more important, they did not think they needed the issue. Out of power for sixteen years, they were now confident, indeed overconfident, of victory; they felt themselves rich in Democratic scandals, and they overestimated the degree of unhapiness in the country. They also underestimated Truman as a political figure."

David Halberstam, The Best and the Brightest (Penguin, 1972)

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As eleições vistas por Lavrov

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.10.16

 

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 11.10.16

Para nos irmos mantendo a par de tudo quanto se passa na corrida eleitoral norte-americana - e não têm faltado notícias nos últimos dias, como bem sabemos - nada melhor do que consultar um excelente blogue informativo dos States: Five Thirty Eight. Com análises, comentários, dados estatísticos e toda a contextualização que a eleição do próximo inquilino da Casa Branca exige.

Eis um exemplo de como a blogosfera pode ser um verdadeiro serviço público, neste caso com projecção além-fronteiras. Bem merece ser eleito blogue da semana.

 

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Food for thought (1)

por José Maria Gui Pimentel, em 25.08.16

Fareed Zakaria entrevistou recentemente na CNN Bryan Stevenson, um advogado, professor e activista americano que pôs o dedo na ferida ao classificar os EUA como uma "post-genocidal society". A questão racial na América está, de facto, muito longe de estar resolvida. À superfície, na opinião publicada e politicamente correcta, existe há muito um consenso que vê o tema como tabu, e que faria o leitor distante supor o fim do racismo. Nos últimos anos, noutras frentes, como no entretenimento, e sobretudo em meios urbanos, a questão racial parecia ter praticamente desaparecido. Como se isso não fosse suficiente, um presidente negro foi eleito - e reeleito - em 2008 e 2012. 

 

Apesar destes passos, é hoje evidente que subsiste um largo substracto da população que manteve as suas convicções e foi acumulando, escondido dos media, ódio e ressentimento. Isto mesmo foi visível nos recentes confrontos entre a polícia e a população negra, e não foi também irrelevante para a absolutamente imprevista candidatura de Donald Trump.

 

Os eventos recentes mostram, com efeito, que a questão racial nunca foi bem sarada. Stevenson alega que parte do problema reside no facto de esse trauma nunca ter sido discutido abertamente, como noutras geografias com problemas semelhantes (e.g. Apartheid). Terá, pelo menos, razão parcial. Dá que pensar.

 

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Uma espécie de casa dos segredos

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.07.16

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Primeiro saiu o malfadado artigo da New Yorker que deixou o vendedor de banha da cobra a espumar, a que logo se seguiram as ameaças. Depois veio aquele discurso na Convenção Republicana da barbie Trump que deu origem ao hilariante comunicado de Meredith McIver. Ficámos então a saber que não só houve plágio, o que até aí todos negaram, como lá bem no fundo aquela tropa de matronas, agentes imobiliários e pregadores é admiradora dos democratas. É claro que aquilo não é o Watergate, mas como escreve Ryan Lizza, estes episódios esclarecem muita coisa. Quem não esteve pelos ajustes foi Ted Cruz. E o caso não é para menos, porque com um circo na estrada onde não falta rapaziada como Chris Cox, estou convencido de que Hillary Clinton só não vencerá folgadamente se der uma conferência de imprensa em topless. Oxalá que ninguém se lembre de lhe propôr isso. Para pior já basta assim.  

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Notas soltas

por Alexandre Guerra, em 18.07.16

1. Grande ambiente em Amarante, cidade banhada pelo Tâmega, com um dos centros históricos mais bonitos do país, que este fim-de-semana recebeu o Festival Mimo, naquela que foi a primeira vez que esta iniciativa decorreu fora do Brasil. Pena mesmo, foi não ter conseguido ver ontem à noite o concerto de Pat Metheny com o lendário Ron Carter. As autoridades locais e os promotores estão de parabéns.

 

2. Já aqui no Delito tinha falado sobre Kendrick Lamar e este fim-de-semana todos se renderam ao seu brilhantismo no Super Bock Super Rock. Mais do que um músico sofisticado, é também já uma figura influente com uma voz activa na cena social e política americana. 

 

3. Marques Mendes disse ontem que o Governo já tinha enviado para Bruxelas a famosa "carta" para evitar as sanções. Hoje, o Público foi atrás e deu também isso como certo. Como é hábito, os outros meios seguiram. Entretanto, a Comissão e o Governo fizeram saber esta manhã que, afinal, a carta ainda não tinha sido enviada. O documento só seguiu para Bruxelas já quase à hora de almoço desta Segunda. É preciso dizer mais?

 

4. Nem sempre aquilo que parece ser mais evidente corresponde ao que aconteceu. É preciso ainda tempo e mais informação para se perceberem os contornos que envolveram o brutal atentado de Nice e a tentativa de golpe de Estado na Turquia. 

 

5. Hoje, começa um grande show político em Clevelend: a Convenção do Partido Republicano para eleger Donald Trump como candidato formal às eleições presidenciais dos Estados Unidos.

 

6. Em Espanha, Pedro Sánchez devia mostrar mais inteligência e menos egoísmo na leitura dos resultados das duas eleições que já se realizaram naquele país no espaço de seis meses e, no mínimo, devia garantir a abstenção do PSOE e permitir a Rajoy formar Governo.

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O convidado de Obama no Fourth of July

por Alexandre Guerra, em 04.07.16

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 Barack Obama e Kendrick Lamar na Sala Oval, em Janeiro último

 

Barack Obama convidou o rapper Kendrick Lamar para actuar hoje nas celebrações do Fourth of July, naquele que será o seu último Dia da Independência enquanto Presidente dos Estados Unidos. Mais do que qualquer outro dos seus antecessores, Obama cultivou desde o início do primeiro mandato uma relação muito forte com artistas e músicos da área do hip hop e do rap. Em parte, acredito que tenha a ver com os seus próprios gostos pessoais (sim, Obama é um gajo verdadeiramente "cool"), mas não podemos deixar de ter também em consideração a componente política inerente à promixidade de Obama a músicos como Kanye West, Beyoncé ou Jay Z. Além de músicos excepcionais (e eu admiro bastante o trabalho de Kanye West, sobretudo a trilogia dedicada às questões do ensino e da estratificação social nos EUA), são vozes activas que amplificam os ânseios, os receios, as frustrações, os problemas, as esperanças, os sonhos de uma vasta faixa populacional urbana, um eleitorado mais jovem (e menos jovem) e que é sempre tão difícil de mobilizar.

 

Estes músicos aqui referidos, assim como muitos outros, têm evoluído e amadurecendo a sua visão que têm da sociedade e isso também se vai reflectindo nos seus trabalhos e na forma como intervêm social e politicamente. Beyoncé parece ser um bom exemplo desse processo, já que o seu último álbum, Lemonade (do qual só escutei umas faixas, mas que espero comprar), é, segundo os especialistas, o seu melhor trabalho, quer ao nível artístico, quer na mensagem que transmite, de forte cariz social, nomeadamente em matéria de questões raciais. A sua portentosa e polémica actuação no intervalo do Super Bowl, em Fevereiro último, com a apresentação do incendiário single "Formation", dava o mote político para o Lemonade, que viria ser aclamado pela crítica.

 

A estas vozes interventivas na cena do rap e do hip hop americano, houve uma que se juntou no ano passado, vinda do Compton, e que se chama, precisamente, Kendrick Lamar e que já aqui, no Delito, falei sobre ele. Na altura já tinha comprado, mas ainda não tinha ouvido o "To Pimp a Butterfly", embora toda a crítica já o tivesse (e com razão) considerado um dos melhores álbuns de 2015, um autêntico manifesto social, cultural e político, assinado por um rapper de 29 anos e que hoje é convidado de Obama. Já em Dezembro, o Presidente disse que a música "How Much a Dollar Cost", uma das faixas do álbum, era a sua preferida de 2015. Uma opinião muito acertada em termos musicais e politicamente muito inteligente, porque Lamar não deixou Obama isento de críticas no seu álbum, referindo que este poderia ter feito mais na defesa dos interesses dos afro-americanos. O que é efectivamente verdade e Obama deverá ter consciência disso. E ao convidar Lamar, hoje, para as celebrações da mais importante data dos Estados Unidos, Obama acaba por validar a mensagem dura e crua que se pode ouvir no "To Pimp a Butterfly", que, aliás, recomendo aos leitores deste blogue.  

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"Brincadeiras" que um dia podem correr muito mal

por Alexandre Guerra, em 23.06.16

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Lançamento na Quarta-feira de um dos dois mísseis de médio alcance Musudan com a presença de Kim Jong-un/Yonhap 

 

Nos últimos anos vai-se tendo cada vez mais a impressão de que, a acontecer qualquer drama militar de dimensões cataclísmicas, começará numa "brincadeira" para os lados da Ásia oriental. Se é na Península da Coreia (que, "by the way", continua formalmente em estado de guerra), no Mar do Japão ou no Mar Oriental ou Sul da China, ainda está para se ver (esperemos que não). Além dos interesses territoriais inconciliáveis entre várias nações que se jogam naquelas paragens, esta região é, no actual contexto geopolítico e geoestratégico, uma espécie de ponto de confluência de várias "placas tectónicas". Porque, além dos actores regionais directamente envolvidos nas disputas territoriais, tais como a China, o Japão, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul, a Rússia, o Vietname, as Filipinas, entre outros, o jogo de alianças e de interesses acaba por envolver também os EUA, sobretudo pela sua ligação aos aliados nipónicos e a Taiwan.

 

Qualquer acidente ou incidente que por ali aconteça (e têm acontecido alguns) pode acender o rastilho para algo de dimensões problemáticas. Da disputa das Ilhas Curilhas, entre o Japão e a Rússia, à das Ilhas Spratly, entre Pequim e várias nações, tais como as Filipinas ou o Vietname, passando pelas "escaldantes" Ilhas Senkaku (ou Diayou para os chineses), sob administração japonesa mas reclamadas por Pequim, os factores de ignição são muitos. São recorrentes os episódios militares hostis, sobretudo por parte de Pequim, com Washington, por exemplo, à distância, a ir dizendo que não permitirá qualquer ameaça à integridade territorial do Japão. Isto já para não falar do "dossier" Taiwan. Mas é principalmente de Pyongyong que vem a maior ameaça sistémica. A Coreia do Norte não abdica da sua retórica bélica e provocadora e tem dado claros sinais de que a acompanha com uma escalada militar. Ainda ontem testou mais dois mísseis balísticos de médio alcance, conhecidos no Ocidente como Musudan, tendo o primeiro falhado, mas o segundo alcançado os objectivos. E trata-se de informação já confirmada pela Coreia do Sul e EUA.

 

Se ainda estou recordado das aulas de Problemática e Controlo de Armamentos, um míssil balístico de médio alcance (MRBM/IRBM) poderá ter um raio de acção entre os 500 quilómetros e os 5000. A partir daí estamos a falar de mísses Intercontinentais (ICBM). Este míssil norte-coreano terá voado 400 quilómetros, o que, segundo os especialistas, representa uma melhoria em relação ao teste anterior. Há poucas dúvidas de que se o regime de Pyongyang continuar a testar os seus mísseis, irá conseguir desenvolver na sua plenitude de forma eficaz estes vectores de lançamento de eventuais ogivas nucleares. E, por isso, o líder norte-coreando, Kim Jong-un já veio dizer que o seu país está em condições de atacar interesses dos Estados Unidos na ilha de Guam, no Pacífico. Se é certo que muitas das vezes a retórica proveniente dos líderes daquele regime é mera propaganda, desta vez, e a julgar por algumas reacções, as palavras de Kim Jong-un estão a ser levadas mais a sério.

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Corey Lewandowski foi até ontem o "campaign manager" de Donald Trump/Foto Getty

 

O dia de ontem na cena política dos Estados Unidos foi dominado pelo despedimento de Corey Lewandowski, nada mais nada menos do que o até agora "campaign manager" de Donald Trump e um dos operacionais responsáveis pela caminhada triunfante daquele candidato até à Convenção do Partido Republicano. A notícia caiu que nem uma bomba, porque apesar das divergências internas no seio da campanha de Trump e que eram conhecidas há algum tempo, os sinais dos últimos dias não anunciavam uma decisão deste genéro e, sobretudo, tomada desta forma tão abrupta. De tal maneira que Lewandowski, em entrevista à CNN poucas horas depois de ter sido despedido (o que por si só já é estranho), afirmou desconhecer as razões que levaram ao seu afastamento. A alguns colaboradores teria dito que seria uma questão de tempo até se demitir ou ser demitido, talvez estando ciente das forças que começavam a crescer contra si. E, talvez por isso, quando na Segunda-feira foi informado por Trump de que os seus serviços não eram mais precisos, Lewandoswki nada disse, levantou-se e quando saiu da sala do quartel-general da campanha na Trump Tower em Manhattan já tinha segurança à sua espera para o acompanhar ao seu lugar, arrumar as suas coisas e abandonar o edifício. Seja como for, não mostrou ressentimento e à CNN manifestou todo o seu apoio a Trump e que tudo faria para ajudá-lo a chegar à Casa Branca.

 

Muitos republicanos viram neste gesto um passo positivo na direcção de um registo mais conservador e menos populista e conflituoso, características que marcaram o estilo de Lewandowski e que chegaram mesmo a criar situações extremadas, nomeadamente na relação com jornalistas. A verdade é que Trump bem pode agradecer ao seu antigo colaborador, mas a questão é que o processo do seu afastamento foi pouco claro, intempestivo e com contornos ainda por esclarecer. Talvez um dia, em livro, Lewandowski conte a história toda. Aquilo que se vai lendo é que Trump terá começado a sofrer muito pressão de alguns dos seus aliados e doadores para mudar a estratégia da campanha, numa altura em que vai iniciar uma corrida nacional e para a qual Lewandowski não estaria preparado. Também os filhos de Trump terão tido um papel no despedimento daquele assessor. Provavelmente, Lewandowski terá sido vítima da sua própria "criação" política, transformando um homem que era gozado pelo seu cabelo num temido candidato presidencial. Como disseram algumas pessoas próximas de Lewandowski, ele neste momento tinha inimigos em todo o lado e, perante este cenário, dificilmente se poderia assistir a outro desfecho.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

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E se o Trump for eleito ainda conseguimos comprar uns mísseis

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.06.16

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Bem podem dizer que em França estas armas que matam nos Estados Unidos, e todas as outras que serviram para actos terroristas na Europa, não são vendidas livremente e que ainda assim eles aconteceram. Mas se do outro lado do Atlântico tiverem mais doentes à solta e prontos a descarregarem os cartuchos em escolas, restaurantes ou salões de baile, como o tal Omar Mateen e todos os que o antecederam, a continuação deste hediondo comércio só vai ajudar a mais matanças, quaisquer que sejam as verdadeiras motivações dos assassinos.

Depois, o da melena loura mais os seus apoiantes podem continuar a berrar contra os muçulmanos, os gays, os mestiços e todos os que não pensem como eles. No dia em que deixarem de berrar é porque não há mais inocentes. Já foram todos exterminados com a maior segurança.

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Ser Presidente até ao último dia

por Alexandre Guerra, em 28.05.16

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Barack Obama na Sala Oval, 19 de Maio (Foto: White House/Pete Souza) 

 

Num dos episódios da realista série The West Wing, com o título "365", a equipa da presidência de Josiah Bartlet (Martin Sheen) vê-se confrontada com a inevitável aproximação do final do segundo mandato, num misto de nostalgia, desmotivação e desânimo. Normalmente, os poderes executivos, sejam Governo (em sistemas parlamentares ou semi-parlamentares) ou chefes de Estado (sistemas presidencialistas), olham para os últimos tempos de funções como um mero cumprimento de calendário, aguardando passivamente o dia em que os seus sucessores lhes tomem o lugar. Regra geral, a um, dois anos do término do mandato, há uma espécie de ideia tácita que pouco já nada há fazer, adiando-se grandes decisões e políticas para o próximo Executivo. Em países como Portugal, por exemplo, existe um consenso político-partidário em que os governantes que se encontrem nessa situação, ou seja, com a porta da rua semi-aberta, já não podem ousar assumir grande protagonismo, correndo o risco de serem acusados de estarem a condicionar o trabalho dos seus sucessores. 

 

Mas a verdade, é que um primeiro-ministro ou um Presidente está de plenos poderes até ao último dia do mandato e, como tal, deve exercê-los com a mesma determinação e convicção como se estivesse a iniciar funções. Nesse episódio aqui referido, e perante o "baixar de braços" do Presidente e de quase todo o "staff", conformados com o fim à vista do seu mandato, entra em cena Leo McGarry (John Spencer), chefe de Gabinete da Casa Branca, experiente e sábio, que, num discurso emotivo, lembra à sua equipa que ainda faltam 365 dias para o mandato terminar e que em cada um destes dias eles tinham o poder, como mais ninguém tinha, de fazer algo pelo bem comum.  

Como em tantas outras passagens daquela série, também esta parece ter sido premonitória em relação ao que Barack Obama viria a fazer (e está a fazer) nos seus dois últimos anos de mandato, aproveitando todas as oportunidades para fazer história. Acordo do clima de Paris, Tratado Trans-Pacífico, reatamento das relações diplomáticas com Cuba, reaproximação ao Irão e agora a visita a Hiroshima, são apenas alguns eventos da agenda externa de Obama dos últimos meses, carregados de significado e importância histórica. Também a nível interno, Obama tem mantido uma actividade política constante, até porque ainda tem alguns dossiers da máxima importância para resolver. Tudo leva a crer que nestes meses finais Obama não irá abrandar a sua acção governativa. E caso isso se confirme, é assim mesmo que deve ser... Presidente até ao último dia.      

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O ideal era ser nas Spratly

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.05.16

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 Harry, um grande senhor do cartoon, sobre a visita de Obama a Tran Dai Quang. Esta manhã, no South China Morning Post.

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Bernie

por Alexandre Guerra, em 11.05.16

Bernie Sanders é um fenómeno político espectacular. Não tanto pelos resultados que tem alcançado nas primárias do Partido Democrata (embora de digno registo, tendo em conta a poderosa máquina de Hillary Clinton), mas sobretudo pela onda de entusiasmo que criou numa parte considerável do eleitorado norte-americano. Seria (tal como foi) impensável para qualquer analista ou comentador, até há poucos meses, que uma personalidade como o senador de Vermont pudesse sequer ser considerado um actor para ser levado a sério à escala nacional, atendendo àquilo que ele é e à forma como se apresentou aos americanos. No sistema político americano, políticos como Sanders, conotados com um proibitivo socialismo "vermelho", muito para lá da esquerda do Partido Democrata, foram sempre vistos como autênticos "párias", aos quais estava interdito qualquer acesso aos grandes palcos das disputas da política nacional. A verdade é que, tradicionalmente, a América sempre tolerou mais os políticos de correntes à direita do GOP do que à esquerda do Partido Democrata. Não importa agora aqui estudar o porquê dessa realidade, mas a questão central é que o sistema político dos Estados Unidos teve sempre mais espaço para a projecção nacional de figuras como Joe McCarthy, Sarah Palin ou Ted Cruz. Efectivamente, olhando para as décadas a seguir ao pós-II GM, pode-se constatar que Sanders é, porventura, o político (talvez o único) assumido de esquerda e socialista que mais projecção nacional conseguiu. 

 

A ascensão de Sanders ao estrelato nacional e a sua penetração nos "hearts and minds" de muitos americanos há de ser, a seu tempo, um "case study" e que, em parte, poderá ser explicado pelo distanciamento temporal ao fim da Guerra Fria e do fantasma "comunista", se tivermos em conta que muito do eleitorado que aquele candidato tem cativado é jovem. Além disso, como ainda há dias uma jovem apoiante de Sanders dizia na CNN, aquilo que para muitos americanos é visto como extrema esquerda, na Europa é considerado apenas de centro-esquerda, ou seja, mainstream, e daí não vir mal ao mundo. E é precisamente esta leitura que muitos jovens eleitores norte-americanos começam a fazer, alguns sem qualquer memória da ameaça "vermelha" e libertos dos preconceitos e medos da Guerra Fria. Para muitos destes jovens, inclusive, os despojos do comunismo fazem hoje parte de uma cultura pop muito apreciada. 

 

Dificilmente Sanders retirará a nomeação a Hillary, mas de todo este processo é sem dúvida ele quem mais personifica o "tempo novo" na política americana. Apesar dos seus 74 anos, encontrou um novo filão de eleitorado, com muitos jovens, que viram no seu discurso uma esperança e uma alternativa. De certa maneira, encontra-se aqui algum paralelismo com o que aconteceu com Barack Obama nas primárias de 2008 e, curiosamente, também contra a poderosa máquina de Hillary. 

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Isto está muito perigoso.

por Luís Menezes Leitão, em 07.05.16

 

 

Este vídeo ilustra bem a estratégia que vai ser ser seguida por Hillary Clinton na sua campanha presidencial: fazer uma campanha pela negativa, salientando os deméritos de Donald Trump e apostando na divisão do Partido Republicano. À primeira vista, a estratégia parece correctíssima. Donald Trump é um pesadelo para qualquer eleitor minimamente consciente e seria uma situação próxima do apocalipse imaginá-lo a liderar os Estados Unidos. Mas por acaso poderemos dormir descansados, convencidos de que isso não vai acontecer? Infelizmente acho que não.

 

E acho que não por uma simples razão: todos os candidatos republicanos que aparecem no vídeo são muito mais credíveis do que Donald Trump, e todos esses candidatos usaram a mesma estratégia de chamar a atenção para os enormes problemas da nomeação de um candidato racista, xenófobo e misógino. O problema é que apesar disso todos foram estrondosamente derrotados por Trump. Valerá por isso a pena Hillary Clinton voltar a apostar nesta estratégia? Tenho as maiores dúvidas. E especialmente a acentuação da divisão do partido republicano não me parece uma grande estratégia, quando Trump já é o virtual nomeado enquanto Hillary Clinton vai lutar até ao último segundo com Bernie Sanders.

 

O que as sondagens demonstram é que se Donald Trump bate todos os recordes de rejeição dos norte-americanos, Hillary Clinton também tem imensas rejeições. Em Novembro deveremos assistir assim a uma abstenção sem precedentes nas eleições americanas. E neste caso todos os resultados são possíveis. Depois da hipótese de um Brexit em Junho, o verdadeiro filme de terror seria ver Donald Trump atingir a presidência dos EUA em Novembro.

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A América extremista

por Rui Herbon, em 28.04.16

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A política estado-unidense encontra-se numa fase de profunda mudança. Nunca um candidato abertamente socialista havia conseguido a projecção e êxito de Bernie Sanders, e tão-pouco alguém com uma retórica tão brutalmente populista como a de Donald Trump havia desafiado com sucesso as estruturas políticas de poder, inclusive dentro do seu próprio partido, nem sido uma hipótese real de ocupar a Casa Branca. O mais significativo é que o sucesso de Sanders e Trump não é fortuito nem passageiro, antes reflecte grandes transformações que minaram os fundamentos tradicionais da sociedade norte-americana e a sua grande ideia-força: a de uma sociedade de oportunidades, onde o sucesso ou fracasso individual dependem, no essencial, do esforço e mérito de cada um. A nação divide-se de forma cada vez mais profunda, fenómeno que ocorre dentro de todos os grupos étnicos mas que adquire uma intensidade particular na população branca tradicional, afectando sobretudo a sua classe média, composta em grande medida por trabalhadores industriais bem remunerados. Há aparentemente o colapso dessa classe trabalhadora e, em simultâneo, o nascimento de uma nova classe alta. Tal significa uma brecha de oportunidades, que transforma o sonho americano numa frustrante miragem para muitos, e com isso entra em crise a tradicional aceitação e inclusive o enaltecimento das diferenças de rendimento e riqueza. Enquanto predominou a percepção de que a sociedade americana oferecia a todos uma igualdade básica para qualquer um triunfar, essas diferenças foram vistas como legítimas. Ora já não é maioritariamente assim, ainda que a maioria dos estado-unidenses gostasse que fosse. O sonho americano continua forte como desejo, mas já não é reconhecido com um componente real da sociedade. Por isso surge como nunca a denúncia dos muito ricos e as demandas redistributivas de inspiração social-democrata, quer dizer, que tendem a igualar os resultados e não o ponto de partida.

 

As estatísticas sobre a distribuição do rendimento sustentam esta nova percepção. Depois de um longo período de notável aumento simultâneo do bem-estar geral da população e de igualdade na distribuição dos frutos do progresso, a tendência inverte-se a partir da década de 70; primeiro de maneira pouco evidente, mas depois de forma acelerada, efectivando-se num espectacular aumento das fortunas da elite económica, o famoso 1%, ou ainda o 0,1%, que desde os anos 70 triplicou a sua quota no rendimento nacional. O que torna o facto escandaloso para muito americanos é que coincide com um período de salários congelados ou decrescentes para muitos, facto evidente desde finais dos anos 90 e sobretudo depois da crise financeira de 2007-2008.

 

Esta é a realidade que dá força aos ataques de Sanders contra os muito ricos e à agitação de Trump contra o establishment; e à denúncia de ambos de uma suposta aliança de Washington (a elite política) com Wall Street (a elite económica e financeira). Tanto Trump como Sanders denunciam a traição das elites, que abriu o país à nefasta concorrência dos produtos importados e também, no caso de Trump, a uma imigração ilegal massiva. Essa traição seria responsável pelo empobrecimento da classe média trabalhadora e, em especial, dos trabalhadores industriais transferidos para profissões inseguras e de menor rendimento. É dessa classe trabalhadora e predominantemente branca, deslocada e ameaçada, que provém o votante típico de Trump - em geral homens brancos de meia idade, com níveis de educação relativamente baixos. No caso de Sanders, o seu apoiante típico são os jovens desse mesmo estrato social, em muitos casos filhos dos primeiros.

 

O mais provável é Clinton ser a candidata democrata e, eventualmente, derrotar Trump, que ao mesmo tempo que agremia abstencionistas perde votos republicanos para a abstenção e parte do eleitorado moderado flutuante para a rival. Ainda que assim seja, as sementes do populismo e do radicalismo em ambos os partidos estão lançadas. Em suma, o futuro dos Estados Unidos não parece nada risonho; mas tão-pouco o nosso. O regresso dessa grande potência à velha política de auto-isolamento e proteccionismo, caminho para que ambos os extremos parecem apontar e que perdurou até à sua entrada na Segunda Guerra Mundial, seria uma tragédia para todos.

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 27.03.16

Desta vez destaco o Five Thirty Eight - elaborado nos Estados Unidos mas com leitores em todo o mundo. Recomendável a todos quantos queiram acompanhar em pormenor o complexo processo eleitoral norte-americano destinado a eleger o próximo inquilino da Casa Branca.

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Na América

por Helena Sacadura Cabral, em 03.03.16

Hillary.jpeg

Depois da "Super Tuesday" tudo começa a ficar mais claro no que ao resultado final das eleições primárias norte-americanas diz respeito.

No campo democrata, creio que Hillary parece imbatível e que Sanders, tido como da ala dos candidatos mais liberais, irá perder. A vida da provável candidata democrática não será contudo fácil, dada a excessiva exposição política que Clinton lhe trouxe.

Mas se o voto negro e o de algumas minorias estiver garantido, é muito possível que a vejamos no lugar que antes foi do marido. O que fazer a este, em caso de vitória, é que me parece uma questão importante, a menos que a Casa Branca deixe de ter mulheres...

Trump, por seu lado, provou que dificilmente alguém o superará no campo republicano. Cruz e Rubio podem arrumar as botas, porque o tempo deles já foi.

O que irão os republicanos fazer com uma candidatura que não corresponde à imagem real do partido? Esta é a outra pergunta que não pode deixar de ser posta...

Parece assim que Hillary, face a Trump, terá a vida facilitada em Novembro. Mas a América, de quem os europeus tanto gostam, às vezes traz tristes surpresas.

Esperemos que não, porque, confesso, há muito tempo que espero que Hillary seja colocada no lugar que, do meu ponto de vista, lhe compete de direito!

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.02.16

«Não consigo perceber como é que alguém como o [Bernie] Sanders que vive há décadas no (e do) establishment americano consegue dizer que é o candidato anti-establishment. Sem o establishment ele não era NADA.
O único que vejo nesses moldes é, para o bem ou para o mal, o [Donald] Trump, apesar de me dar calafrios a remota ideia de ele ser presidente. Contudo, já se viu que esteja quem estiver como POTUS, a política destes pouco difere, só os europeus é que acham que há enormes diferenças, externamente, não há.

Adiante.
Esta geração de "apoiantes" do Sanders (e de certa forma do Trump - mas estes muito menos messiânicos) é a geração mais preguiçosa das ultimas décadas - quase uma reinvenção dos babyboomers mas sem as drogas, sem toda "a" fase de descoberta e com 100000000x mais informação disponível. Lá está, têm toda a informação possível imaginária, todos os "luxos" associados a esta, à comunicação, aos meios de comunicação e de transportes, mas no entanto não entendem a realidade, alias odeiam a realidade ou odeiam ter de viver com ela. Não a querem compreender, tudo é "revoltante", tudo é "escândalo", tudo é "indignação", tudo é conspiração, tudo é um problema, até respirar é um drama.

Assim, com esta revolta toda digna do primeiro mundo, esta geração prefere apoiar messianismos, gente que pinte os inimigos por si, que aponte os seus e os erros dos outros (uma espécie de white man burden millennial edition) e que volte a invocar e a delinear estratégias e ideias que sabemos que são e estão erradas.

Um tipo ouve-os na academia, nos fóruns, nos reddits, e são tão previsíveis que chega a chocar. A contradição é fácil de detectar e é isso que os denuncia quanto ao que refiro em cima, basta mudar ligeiramente os intervenientes e toda a argumentação cai por terra.»

 

Do nosso leitor T. A propósito deste texto do Luís Naves.

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