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Delito de Opinião

Histórias da Carochinha

Cristina Torrão, 23.08.21

Nesta minha estadia alargada em Portugal e apenas com acesso a oito canais televisivos (que são só seis, pois dois estão de férias), quase me limito aos da RTP. Acontece que a RTP Memória passa, nesta altura, a série “Walker, o Ranger do Texas”, não pertencente às minhas preferências, mas de algum agrado do meu marido (o meu sogro era fanático). E como é de minha opinião que podemos aprender com tudo, mesmo com coisas de que não gostamos, ou com as quais não concordamos, tenho visto alguns episódios. Pensei que me pudessem servir de reflexão. E serviram mesmo.

“Walker, o Ranger do Texas” é baseada num velho pressuposto: há alguém que tem sempre razão. A série assenta numa personagem de moral indiscutível, inteligência a toda a prova, forma física infalível e técnicas de combate invencíveis. Para ser ainda mais politicamente correcta, esta personagem reconhece as qualidades das artes marciais, é sensível aos ensinamentos cherokee e muito amiga dos negros (conquanto estes não lhe contestem a supremacia e estejam dispostos a desempenhar o papel do "banana", quando dá jeito). Concluindo: estamos perante um homem que sabe sempre tudo e age sempre de forma correcta, de acordo com os princípios que lhe foram ensinados na infância e na juventude, por pessoas (entenda-se, homens) igualmente sem defeitos e de uma moral ímpia.

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Homens assim não existem. O Walker é tão fictício, que podia ser representado por uma figura de desenhos animados. Esta série está ao nível de “Uma Casa na Pradaria”, ou dos contos de fadas dos Irmãos Grimm. O Ranger Walker mais não é do que a fada da Gata Borralheira, um ser com toque de Midas, pronto a resolver os problemas de gente em aflição.

E qual é o problema, perguntam vocês. Não se pode sonhar um bocadinho? Claro que pode. Desde que se tenha consciência disso. Não levamos as peripécias da família Ingalls a sério, assim como sabemos não existirem fadas. Mas muitos acreditam no Walker! E acreditam que o mundo pode ser como o da série: nunca há dificuldade em distinguir o Bem do Mal, todos têm o seu papel bem definido na vida e, caso esta ordem seja ameaçada, há sempre um justiceiro que põe tudo no lugar, um justiceiro que nunca cai em tentação, nunca se deixa corromper, nem nunca comete abusos. Quando o Walker pega numa arma, dispara sempre na direcção certa e atinge sempre o alvo certo. Quando o Walker faz um juízo sobre uma pessoa, nunca se engana (e raramente tem dúvidas). O Walker só agride alguém que o merece, nunca perde a calma nem a paciência com outros. Não há dinheiro no mundo que leve o Walker a fechar os olhos a uma incorrecção, a um desvio que seja.

Estes sonhos transformados em realidade são aproveitados por manipuladores. Até há pouco tempo, os EUA tiveram um Presidente que convenceu muitos norte-americanos ser capaz de construir uma América à medida da série do Walker, um mundo onde não há lugar para desvios, onde todas as famílias vivem felizes e seguras para sempre, onde as crianças têm sempre paciência para ouvirem os sermões dos adultos e onde as mulheres, profissionalmente, têm o rigor da Procuradora Alex Cahill e, em família, são dóceis, cumprindo o papel que dela se espera (mas, sinceramente, alguém consegue ver a Alex Cahill despenteada e desmaquilhada a levar com os salpicos de óleo, enquanto frita peixe?).

«Casaram e viveram felizes para sempre» - este é o final de chave de ouro nas histórias da Carochinha. Na vida real, todas as famílias escondem os seus podres.

Notícias do crime, cá e lá

Pedro Correia, 25.03.21

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Como aconteceu no mesmo dia, a comparação pode ser feita.

Nos EUA, um indivíduo desata aos tiros numa superfície comercial e acaba por matar dez pessoas, em Boulder, Colorado: horas depois ficamos a saber quase tudo sobre este crime. O nome e a idade do presumível criminoso, se tinha ou não cúmplices, como agiu, quanto tempo demorou a ser detido, que tipo de armamento utilizou, que acusação formal lhe é agora imputada pela justiça criminal. Tomo conhecimento disto assistindo ao Jornal da Noite da SIC, na terça-feira.

Em Portugal, algures no concelho do Seixal, várias viaturas da polícia de intervenção são mobilizadas para um alegado bairro por supostos moradores devido a «alguns distúrbios» nunca concretizados. As forças da autoridade são ali «recebidas com disparos» (revela o mesmo Jornal da Noite) e demoram horas a controlar a situação, havendo necessidade de recorrer ao Grupo de Operações Especiais da PSP e a brigadas de intervenção rápida, que se fizeram transportar em veículos blindados. «Uma força de elite foi chamada depois de almoço», sublinha o repórter num directo feito já de noite.

 

Quase nada ficamos a saber sobre o que realmente aconteceu, no caso português: nem quantos eram os elementos envolvidos, nem a idade deles, nem o tipo de armamento, nem o que esteve na origem dos incidentes, nem quais foram ao certo os danos causados.

Sabe-se apenas que «um suspeito foi detido e outros dois estão em fuga», deixando-se antever que estariam envolvidos só três indíviduos - algo que custa a crer dados os meios policiais utilizados e o longo tempo («a operação demorou perto de sete horas», diz o repórter da SIC) que demoraram a efectuar a solitária detenção.

Na RTP, uma testemunha, de costas para a câmara, alude a «caçadeiras» - não haveria armamento mais sofisticado? E o que terá causado aqueles distúrbios? Alguma festarola clandestina em violação do estado de emergência ou um motivo muito diferente? Justificava-se verdadeiramente o aparato policial envolvido na operação?

Nenhum destes canais me esclarece.

 

Consulto o Público de ontem e continuo sem nada saber. «Cerco policial em Corroios durou várias horas e terminou ao início da noite. Há dois elementos em fuga com PJ no encalço», eis o máximo de pormenores fornecidos na pág. 16. Após duas páginas (centrais) dedicadas à questão do «acesso às armas»... nos Estados Unidos. Na peça sobre o tiroteio na margem sul do Tejo, quase todo o destaque é reservado a críticas de alegados residentes à intervenção policial. Nem sequer ficamos a saber o local preciso onde aquilo aconteceu (Corroios é uma vasta freguesia do concelho do Seixal e a segunda vila mais populosa do País) ou até se foi num verdadeiro "bairro" ou não.

Só na terceira linha a contar do fim, numa peça com 79, surge um vislumbre do que possa ter ocasionado os distúrbios violentos. Quando uma presumível moradora solta esta frase: «De há um tempo para cá começou a história da maldita droga.»

 

De um lado, clareza informativa; do outro, uma nebulosa de interrogações não esclarecidas. Mas logo ali se ensaia, pelo menos num canal televisivo que acompanhei, toda uma narrativa pronta a servir de pseudo-sociologia justificativa da delinquência. Sem nunca se questionar o poder autárquico da zona - no caso, a Câmara Municipal do Seixal, há quase meio século monopólio do PCP. 

De um lado, jornalismo. Do outro, uma coisa em forma de assim, na tentativa canhestra e mal sucedida de o imitar.

Ficámos mais bem informados? Sim, sobre o que aconteceu nos EUA. Só nisso, uma vez mais. 

Esperança

Sérgio de Almeida Correia, 21.01.21

3313.jpg(Kevin Lamarque/Reuters)

Our history has been a constant struggle between the American ideal that we are all created equal and the harsh, ugly reality that racism, nativism, fear, and demonization have long torn us apart. 

The battle is perennial. 

Victory is never assured.

Through the Civil War, the Great Depression, World War, 9/11, through struggle, sacrifice, and setbacks, our "better angels" have always prevailed. 

In each of these moments, enough of us came together to carry all of us forward.

And, we can do so now. 

History, faith, and reason show the way, the way of unity.

We can see each other not as adversaries but as neighbors.

We can treat each other with dignity and respect.

We can join forces, stop the shouting, and lower the temperature.

For without unity, there is no peace, only bitterness and fury.

No progress, only exhausting outrage.

No nation, only a state of chaos.

This is our historic moment of crisis and challenge, and unity is the path forward.” (Joe Biden, 46th President of the USA)

 

Chris Wallace, o incontornável jornalista que, entre outros prémios, venceu três Emmy, disse ter sido o melhor discurso que ouviu na tomada de posse de um presidente dos EUA.

Eu não sei se terá sido. Não tenho nem a memória, nem a experiência, nem o conhecimento de Wallace.

Admito, no entanto, que seja essa a verdade para quem, sendo filho de Mike Wallace, acompanha a política do seu país pelo menos desde que em meados da década de 60 do século passado, como adjunto daquele que foi “o homem mais confiável da América”, Walter Cronkite Jr., cobriu a II Convenção Nacional do Partido Republicano.

Mas não custa perceber, mesmo para quem não segue regularmente o que se passa na vida pública dos EUA, que depois de quatro anos caóticos na Casa Branca, em que a ignorância, o nepotismo e a loucura andaram de braço dado com a mentira, a irresponsabilidade, a trafulhice e a vigarice, o simples facto de se sentir que existe um regresso à norma, às instituições, à racionalidade e à civilidade constituem um respirar fundo, um aliviar da tensão e um reagrupar de energias para fazer face a um difícil futuro.

A tomada de posse de um Chefe de Estado é sempre um momento solene, prenhe de simbolismo, incerteza e esperança.

Esperança nos homens e nas instituições. Esperança nas exigentes tarefas de manutenção da paz, também no equilíbrio entre as diferentes instituições e os poderes que representam. Esperança na capacidade dos povos e das nações superarem a adversidade e construírem algo de útil em que todos se possam rever, sem que se desprestigie a história, se arrisque a confiança no presente e se hipoteque a que um dia se espera que seja a herança do futuro.

Quaisquer que venham a ser as contingências do dia-a-dia da vida política norte-americana ou as vicissitudes das suas relações externas, num mundo que atravessa uma crise profunda, num país dilacerado pela pandemia, pelo racismo sistémico e socialmente desequilibrado, o apelo de Biden à unidade e aos princípios fundacionais da democracia que tanto entusiasmou Tocqueville, constituiu o mais poderoso estímulo para a reconstrução de um país fracturado e a abertura de uma nova página no relacionamento internacional dos EUA, com o regresso deste a uma agenda de responsabilidade e ao convívio internacional através da imposição de um rumo definido.      

Não será fácil juntar os cacos deixados pelo seu antecessor, restabelecer um diálogo sereno e profícuo nas duas câmaras do Congresso, e encetar um caminho nas relações externas que permita a recuperação da confiança dos parceiros e o respeito de adversários e inimigos declarados.

Ciente da magnitude da tarefa que o espera, com o apoio de uma mulher que é o melhor exemplo do espírito de compromisso que emergiu de Filadélfia, Biden começou pelo mais difícil, pelo apelo à unidade nacional.

Saber se conseguirá levar a carta a Garcia é outra questão, para a qual só teremos resposta definitiva dentro de quatro anos.

Por agora, sabemos apenas que começou uma viagem e que todos, dentro e fora dos EUA, esperam da dupla Biden/Harris quase o impossível. De que ainda assim o mais fácil era começar por fazer esquecer, o que conseguiu, o troglodita a quem sucedeu. E esse só por si seria um bom começo.

Donald Trump(a)

Pedro Belo Moraes, 14.01.21

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A imagem que acompanha este texto reforça o que aqui quero dizer e com urgência: de Trump só se aproveitam as piadas que dele se fazem. O todo e o resto do Donald são deploráveis. 

O legado que deixa é imensamente vergonhoso para a Nação norte-americana, toda ela, a que do mesmo é cúmplice e a que dele é vítima. A herança que deixa é preocupante, assustadora. O Donald é um cancro cujas metástases prosperam na política e na sociedade daqueles que são hoje - por enorme e afincado empenho de Don - os grandes Estados Desunidos da América.  

Já lá vai o tempo em que à antiga estrela de reality show se dava o mero e desculpabilizante rótulo de sintoma. "Ele é um sintoma, não é a causa dos verdadeiros e profundos males do mundo", disseram-me e repetiram-no vezes e vezes sem conta. Fizeram-no durante quatro anos e ainda o fazem hoje. Espantosamente há ainda quem isso afirme, passando uma esponja embebida, talvez, em hidroxicloroquina ou até lixívia sobre os quatro desastrosos anos de permanentes atropelos ao Estado de direito e de violações constantes de todas as regras do jogo democrático, que Trump inquinou, corrompeu e instrumentalizou em benefício próprio.

Não! Trump não é um sintoma do que está mal entre governos e governados. A ainda administração da maior potência do mundo depressa se emancipou da ligeira condição sintomática para se transformar numa das verdadeiras causas dos males do mundo de hoje.

Prova disso é a complacência com que o evasor fiscal é tratado e analisado depois de todos os abusos, ilegalidades e mesmo crimes cometidos sentava-se ele na Sala Oval.

Os trumpistas, os ruidosos e os serenos racionais, uns e outros, ao nomearem uma só que seja nota positiva da miserável presidência que agora finda (a económica, é sempre essa mais que discutível virtude que invocam), ao não exigirem o seu imediato afastamento da presidência e compulsivo julgamento pelos sucessivos e gravíssimos atentados à democracia, todos eles compõem afinal a deslumbrada plateia que em 2016 aplaudiu a tirada alarve e alarmante do destruidor de casinos, disparada no decorrer da primeira corrida à Casa Branca: "Podia dar um tiro em alguém na 5.ª Avenida e não perdia votos."

Ao contrário de outros assuntos, neste Trump não está mesmo nada longe da verdade: dos 75 milhões que votaram nele no último 3 de Novembro, 71% continuam ao seu lado, permanecem fiéis ao maestro, cuja batuta incitou uma multidão marioneta à insurreição, ao inédito e chocante assalto ao Capitólio, com o único e determinado propósito de impedir que o Congresso, os senadores e os representantes, uns e outros eleitos pelo povo, confirmassem a vitória eleitoral de Joe Biden, o candidato cuja maioria dos americanos escolheu para desalojar Trump da Casa Branca e desempenhar o papel de 46.º presidente dos EUA. 

"We love you!", mimou-os a figura laranja, esforçada na missão impossível de sequer aparentar estadismo. Como o cabelo e a cor da pele, tudo nele é fake, instrumental, encapotado. A declaração de amor feita ao mesmo tempo que pedia à turba cega que deixasse o edifício que invadia e destruía assegurando-lhes que "We love you!", fazendo de novo uso da ferramenta preferida dele, o dog whistle, o som soprado pelo apito que só a matilha ouve. E a matilha desembestada ladrou, mordeu e matou. Morreram cinco pessoas e a democracia ferida de morte. 

Trump tem de ser julgado e condenado no Senado mas também nos tribunais. Tem de ser destituído da presidência e também barrado, impedido com força de lei de exercer todo e qualquer cargo federal para o resto da vida. 

Aquilo que ele mais abomina nos outros é o que ele é: um loser. Perdeu tudo. A Casa Branca, a começar e a acabar, primeiro nas urnas, depois nos tribunais, passando pelos Congressos estaduais e culminando no gritinho sumido do Ipiranga berrado pelo seu vice no Congresso Federal. Mentiroso e ele sim fraudulento, em tribunal nunca provou a fraude eleitoral que alegou ter dado a vitória ao adversário e assim perdeu em todas as mais de 60 tentativas interpostas na justiça para na secretaria inverter a derrota que Biden lhe impôs.

Trump é um loser, um falhado, como é o projecto de poder que encabeçou e que culminou na revelação de outro enorme derrotado. Chama-se Partido Republicano e hoje assusta-se com a besta que alimentou para benefício maquiavélico e que agora lhe ameaça o futuro. Ao fim de quatro anos, o trumpismo devolveu a maioria da Câmara dos Representantes e do Senado aos democratas. Enfraqueceu os republicanos, portanto, e isso dividiu-os. Divisão que poderá ser larvar e que por sobrevivência de alguns poderá ditar a facada mortal nas costas de Trump como nos Idos de Março quando no Capitólio for o momento de votar o processo de destituição.

O vendedor de muros deixou de ser um trunfo para os republicanos, passou a ser incómodo.  

Desconcertantemente há por cá gente mais trumpista que o Trump. São os anti-Partido Democrata que o rotulam de feroz e perigoso esquerdista. Um quase promotor de uma nova Cortina de Ferro. Por cegueira ideológica e anti-esquerdismo primário alinham, portanto, na conveniente propaganda do empresário da construção. A esses trumpistas tenho a dizer que a dita direita moderada e liberal portuguesa está à esquerda do Partido Democrata. Veja-se como são as economias, os papéis e pesos do estado num e noutro país. O Partido Democrata é pelo capitalismo mas mais regulado, é pela iniciativa privada, nasce e cresce no caldo cultural da meritocracia avessa a amiguismos e clientelismos. Podemos dizer isto da dita direita moderada e liberal portuguesa? Não. 

Admirador dos Estados Unidos da América que sou, a Trump não lhe perdoo tê-los tornado pequenos no Mundo. O nacionalismo bacoco, o isolacionismo estéril, a rejeição do multilateralismo criaram mais desordem e incerteza no globo. Apostando naquelas máximas e comprando uma guerra tarifária com a China deixou vazios que os chineses exploraram nos bastidores, reforçando-se à conta da inépcia diplomática e geostratégica de Donald John Trump, o 45.º presidente dos Estados Unidos da América de quem nada se aproveita a não ser as piadas que dele podemos e devemos fazer.

Dia de Reis, 2021, fim de década

jpt, 08.01.21

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Dia de Reis, 2021: Washington, parlamento.

Estes anos 10 de XXI foram, de facto, a "década chinesa" - e isso notou-se bem quando em final de 2020 se assinou o tratado de comércio livre dos 15 da Ásia-Pacífico, enquanto a semi-intelligentsia cristo-"ocidental" discutia com minúcia erotizada o iminente Brexit e as eleições americanas. Julgo que daqui a largos anos sobre esta era os vindouros afirmar-lhe-ão ainda outros dois traços centrais: a continuidade do até surpreendente solavanco indiano (pois o choque dos gigantes asiáticos será estruturante desse futuro); e - num nível que lhes será bem mais fundamental do que tanto tonto ainda grasna - a incapacidade dos países ricos em enfrentarem a reconversão industrial ecologicamente imposta.

Mas neste nosso reduto, o tal "Ocidente" - esgarçando-se como o centro do mundo, que o foi nos últimos 250 anos -, a "década" teve outros traços fundamentais muito, demasiado, marcados pelos abalos internos nos EUA, provocados pela decadência da pax americana, promovida por forças bem mais relevantes do que a óbvia incompetência externa das suas últimas presidências. Por um lado, o crisma das eunucas "agendas identitárias" - total reprise do que a lenda narra como ambiente ideológico aquando da queda de Constantinopla diante do imperialismo islâmico, aquilo da querela sobre o "sexo dos anjos" - submergiu o velho pensamento progressista, metastizado após a queda do comunismo.

E por outro lado, o recrudescer das "agendas soberanistas" - mero invés das outras, pois de facto também elas apenas "identitárias" -, de cariz ferozmente reacccionário, mesclando laivos de liberalismo económico, demagogicamente apropriados, com um conservadorismo radical. Foi esta a "década" encetada pelo movimento Tea Party, de facto um proto-fascismo teocrático. E mais perto de nós, entre outros epifenómenos na Mitteleuropa, os manobrismos de Farage, acoitados pelo paupérrimo Cameron. E tudo isto exponenciado nesta ascensão de Charles Foster Kane à presidência do país mais poderoso do mundo. 

Muito se diz que a democracia ("sempre frágil, sempre vulnerável, corruptível e muitas vezes corrupta", disse-a Bobbio, quando dela fez a apologia) é frágil. Sim, é-o, tem esse enorme vigor. O da fragilidade. No Dia de Reis de 2021 a "década" acabou - esta, que tanto demonstrou essa fragilidade. Findou de modo algo sanguinolento. Mas como farsa. Resta-nos, acima de tudo, olhar os farsantes e seus adeptos, seja lá qual for a sua "identidade", como o que são: farsantes. Alguns malévolos. A maioria apenas imbecis. E combatê-los. Com denodo, aos primeiros. E com infinita ferocidade aos outros, pois muito mais perigosos. E numerosos. Vera pandemia que são.

Assaltar parlamentos

João Pedro Pimenta, 08.01.21

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Ao ver as imagens do "índio" a encabeçar a invasão do Capitólio, só posso pensar que o slogan de Trump era afinal de contas "make America indian again" (desculpem não usar "first nations", como agora se usa em correctopolitiquês, mas realmente não ficava bem).

Aquelas imagens devem ter deixado todas as repúblicas das bananas a rir-se, ou pelo menos a sentir-se vingadas. Aliás isso já se viu através de comunicados da Venezuela. São imagens que esperaríamos que viessem de países assim.

Isto choca mais por ser numa das maiores, mais antigas e mais sólidas democracias liberais, com todos os seus defeitos. Mas já aconteceu antes, sim.

Em França, em 1934, uma massa de antigos combatentes, grupos nacionalistas, tradicionalistas (como na altura pujante Action Française) e fascistas tentou marchar sobre o parlamento, no que resultaram dezenas de mortos e feridos. Anos depois iriam na sua maioria colaborar com a ocupação alemã.

Em 1981, um grupo de militares espanhóis, comandados pelo pitoresco Tejero Molina e o seu chapéu da Guardia Civil, ocupou as Cortes de Espanha, com o intuito de instalar um novo regime militar-franquista, impedindo a tomada de posse do novo governo, e só se renderam quando o Rei Juan Carlos a isso os obrigou.
 
E mesmo em Portugal, em 1975, recorde-se o celebre episódio em que as "forças populares", isto é, alguns milhares de trabalhadores da construção civil, cercaram o parlamento por 36 horas, não deixando os deputados sair nem sequer para comer, excepto os das suas cores políticas. Depois disso, o então primeiro-ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo, diria aquele icónico "fui sequestrado, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia".
 
Escusado será dizer que todas estas tentativas não pretendiam instalar nada de bom e acabaram por ser vencidas pela força das instituições e pela vontade popular, a autêntica, expressa nos votos.
 

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Amen ... e Awoman

jpt, 06.01.21

Não são as lutas pela estrita igualdade de direitos e pela tendencial equidade de oportunidades que são erradas. Mas sim estes devaneios de roupagem interseccional, o "radicalismo pequeno-burguês de fachada identitária". Tralhas folclóricas originadas nos campi norte-americanos, e que por cá @s conselheir@s Acáci@s seguem em falsetes mui abespinhados. E nisso tudo o mais ridículo ainda serão os ademanes da "linguagem inclusiva".
 
Diante destes constantes dislates "interseccionais" estava hoje de madrugada a rir-me com  isto da cantora Sara Tavares - que dobra personagens de animação ciganas mas não quer que brancos dobrem personagens negras - e dou com isto.  Trata-se da oração na abertura do Congresso americano, já de si uma coisa risível. Enfim "americanices"... Mas o notável é como o parlamentar gringo, Cleaver, segue a cartilha multicultural do "politicamente correcto" - apelou à protecção de várias entidades, as aceitáveis lá no espectro dele. E depois termina a oração, prenhe de "linguajar inclusivo", com o sacramental "Amen ... e Awoman".
 
Awoman!!!
 
Que belo corolário desta tralha toda, desta gente tão ciosa das suas reflexões ... Perdão, dest@ gent@. Que patetas. E tão convictos deles-mesmos ...

E se Joe Biden usasse bigode?

Pedro Correia, 09.12.20

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Há 110 anos, o inquilino da Casa Branca era um republicano de grande corpulência e bigodes farfalhudos chamado William Howard Taft. A imagem dele, vista pelos olhos actuais, é totalmente anacrónica: Taft (na foto em baixo) foi o último presidente dos EUA a poupar nas lâminas de barbear.

Os 18 líderes norte-americanos que se seguiram, de Woodrow Wilson a Donald Trump, apresentaram-se aos eleitores de face escanhoada. Barba, pêra ou um prosaico bigode ficaram desde então arredados do número 1700 da avenida Pensilvânia, em Washington.

Com o atraso sempre habitual nestas coisas, os políticos europeus adoptaram a moda americana. Desde logo no Reino Unido, onde o rei Jorge V, falecido em 1936, foi o último monarca a usar barba, outrora um indispensável adereço da aristocracia britânica. Os filhos que lhe sucederam, Eduardo VIII e Jorge VI, disseram adeus aos pêlos faciais: patilhas, cavanhaques ou bigodes retorcidos tornaram-se símbolos de outros tempos, associados a vultos oitocentistas como Otto von Bismarck e Giuseppe Garibaldi.

 

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Apesar de tudo, o bigode resistiu mais tempo no Reino Unido. O último chefe do Governo a usá-lo foi Harold Macmillan, um conservador que abandonou o poder em 1963. Seis anos depois, os franceses viam partir do palácio do Eliseu o general Charles de Gaulle, último chefe do Estado gaulês militar, último chefe do Estado gaulês com bigode.

Mais finos ou mais exuberantes, os bigodes estiveram associados ao poder totalitário. Talvez isto explique o facto de todos os líderes políticos subsequentes a Hitler e Estaline, na Alemanha e na Rússia, terem optado pela lâmina de barbear. Foi logo assim com o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, Konrad Adenauer (1949), e com o homem que em 1953 substituiu Estaline no Kremlin, Nikita Krutchov. E assim tem sido com todos os outros de então para cá, mais à esquerda ou mais à direita.

 

Hoje seria quase impensável um político obeso e de grandes bigodes, como Taft (1857-1930), vencer uma eleição presidencial ou legislativa. Embora esta seja a regra, há sempre uma excepção que a confirma: José María Aznar, um homem de baixa estatura e farfalhudo bigode, foi primeiro-ministro em Espanha entre 1996 e 2004. Isto apesar de a pilosidade infranasal estar associada à longa ditadura do país vizinho: Francisco Franco e outros destacados membros da sua ditadura ostentavam bigode.

Hoje as ditaduras estão fora de moda. E os bigodes também. Até na América Latina, onde outrora pontificavam tiranos como Trujillo, Stroessner, Videla e Pinochet (que usavam bigode). Ninguém gosta de ser associado a elas, ainda que de forma subliminar. Excepto os déspotas venezuelano e nicaraguense, Nicolás Maduro e Daniel Ortega, que de algum modo confirmam a regra. Ou, no continente europeu, o ditador da Bielorrússia, Aleksandr Lukachenko.

O próprio Aznar - que passou a viajar com frequência aos EUA - rendeu-se, dizendo adeus ao bigode. De Taft aos nossos dias foi uma longa caminhada.

 

Portugal: de D. Pedro a Santana Lopes

 

Em Portugal, o último chefe do Estado com bigodaça foi o marechal Óscar Carmona, falecido em 1951. Todos os dirigentes militares da ditadura instalada em 28 de Maio de 1926 – como Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o próprio Carmona – ostentavam esse enfeite facial.

A moda vinha de trás: os últimos reis portugueses, de D. Pedro IV a D. Manuel II, usavam um bigode bem característico da dinastia de Bragança. E entre os sete presidentes da breve I República (1910-26), apenas o almirante João Canto e Castro, inquilino de Belém durante alguns meses, de 1918 a 1919, tinha a cara barbeada. Tal como viria a suceder com todos os presidentes e primeiros-ministros pós-25 de Abril.

António Guterres chegou a usar um típico bigode mexicano e Pedro Santana Lopes, nos seus verdes anos, gostava de aparecer de barba. Mas ambos se apresentaram de face escanhoada quando chegaram ao poder.

Em política, o que parece é.

Lamento por um título arruinado

Paulo Sousa, 29.11.20

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Ontem vi o filme “Hillbilly ElegyGosto de histórias baseadas em factos verídicos. Na ficção existem limitações de razoabilidade de que a realidade se deve rir à gargalhada.

Esta é uma história pessoal e familiar, que se tivesse sido inventada pouco passaria de um chorrilho de clichés. Baseia-se num Best Seller com o mesmo nome, escrito por J.D.Vance.

Uma gravidez involuntária nos anos 50 leva um jovem casal a fugir do Kentuky e a estabelecer-se no Ohio. Além da história familiar, o filme mostra-nos também as grandes mudanças ocorridas desde então no midwest, com destaque para a desindustrialização, para a falta de oportunidades da classe média, para a facilidade no acesso a drogas e no fundo para a degradação social.

Olhando à imensidão de informação que foi divulgada nos últimos meses por ocasião das eleições americanas, esta é a América que, por estar descontente com a evolução das suas perspectivas de vida, vota Trump. Salta à vista que ali se comunica com o jargão a que Trump nos habituou. Quando as elites liberais e bem sucedidas dos grandes centros urbanos ficam corados com a rudeza com que o ainda POTUS se dirige aos seus cidadãos, não fez ideia de que é assim que se fala nas zonas rurais. É assim que os rednecks se manifestam e é assim que funcionam. Mal comparado, podemos imaginar o choque de um lisboeta com pedigree quando pára num café duma terriola na cintura urbana do Porto e troca dois dedos de conversa com um local. Eu adoro as nossas diferenças, as nossas pronúncias e a liberdade como moldamos a língua à forma como pensamos e somos, mas no filme, os recorrentes palavrões dentro das conversas familiares surgem como um sinal da degradação moral.

Histórias como esta, algumas com final bem mais triste, desenrolam-se perto da nossa casa, à volta das grandes cidades no nosso país e por todo o mundo.

Apesar do difícil percurso de J.D.Vance, dos momentos traumáticos que a sua instável mãe lhe proporcionou, e assente na sua relação com a irmã e sobretudo com a avó, esta é uma história de superação e até inspiradora para jovens à procura de uma fasquia a que possam ambicionar.

A tradução literal do título desta obra poderia ser qualquer coisa como “Elegia campónia” ou “Elegia provinciana” ou até “Elegia matarruana”. No Brasil, que tem uma tradição bem cómica na tradução de títulos de filmes, este filme chama-se “Era uma vez um sonho”. Em Portugal, alguém que quis sublinhar a sua visão pessoal, poupando-nos assim o esforço de uma análise, achou que a história de um miúdo que cresceu fora das elites, num ambiente terrível, e ainda assim (spoiler alert) consegue formar-se em Yale, deveria ser “Lamento de uma América em ruínas”, o que retrata melhor o tradutor, que o filme.

Acabou a bebedeira

Sérgio de Almeida Correia, 25.11.20

Aos poucos, o circo das eleições presidenciais estadounidenses vai chegando ao fim.
Passada a fase do folclore, dos foguetes, do barbecue e da bebedeira, perdidas que foram mais de quarenta acções judiciais nos tribunais federais, num deplorável espectáculo de sombras em que se seguiu um guião escrito por um fantasma e com executantes medíocres, por cujo rosto escorria a tinta mais ordinária, chegou a hora da ressaca.
Torna-se evidentemente natural que a bebedeira não poderia ser eterna, pois todos sabemos que, também, nem o amor o é, sendo assim natural que assentada a poeira as coisas comecem a regressar à normalidade.
É verdade que nada voltará a ser como antes. Trump está politicamente morto, aguardando-se agora as exéquias. Obama não voltará; os Clinton e os Bush fazem parte dos livros de história. A página virou-se.
Neste momento, o palco pertence a Joe Biden. E por muita desconfiança que se pudesse ter relativamente às suas propostas, às suas capacidades físicas e intelectuais e à composição da equipa, o que ontem se viu justifica a mais fundada das esperanças.
Num discurso curto, claro e bem articulado, alinhavando as linhas de força da política interna e externa dos EUA para os próximos quatro anos, rodeado de gente devidamente qualificada, experiente e de uma honradez a toda a prova, Biden foi capaz de fazer em poucos minutos o que há mais de quatro anos não se via: apresentar um discurso de Estado sem floreados, mentiras, graçolas de mau gosto e ignorância.
No ouvido ficou-me a frase de que “America leads not only by the example of power, but by the power of the example”, o que não sendo tudo diz muito.
A partir de Janeiro veremos o que acontece, mas o simples facto de passar a haver um programa e uma agenda na Casa Branca, depois de quatro anos de bacanal político, delírio, insânia e balbúrdia melbrookiana são afinal uma pequena prova, se não da existência de Deus, pelo menos de que também a loucura não é eterna.

E este é um excelente sinal para o futuro. Para todos nós que ainda acreditamos nalguma coisa antes de nos levarem para a vida eterna.

Censura em directo

Pedro Correia, 22.11.20

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«Na noite das eleições presidenciais, as três televisões com mais audiência nos Estados Unidos (CBS, ABC, NBC) cortaram em directo o discurso do Presidente Trump, invocando que ele faltava à verdade. Nunca visto. Três semanas mais tarde contam-se pelos dedos da mão as análises e os comentários da imprensa europeia sobre este singular procedimento, assim reduzido a banal acontecimento. Nunca visto, também.

Uma primeira conclusão é possível tirar, já: a do grande embaraço - direi mal-estar - que a decisão dessas televisões provocou no universo dos media do Velho Continente. Não se aprova, nem se condena. Ora o silêncio nunca é uma tomada de posição, nesta matéria. É apenas uma omissão, envergonhada, acho eu. É claro que o corte no discurso foi noticiado. Mas não foi comentado. Ora cortar em directo um discurso, por muito desonesto e miserável que ele seja, do Presidente dos EUA, não é um problema das televisões, é um problema da liberdade de expressão. Quer se goste ou não de Trump, o Presidente legitimamente eleito tinha o direito de falar e os cidadãos a quem ele se dirigia tinham o direito de o ouvir - a menos que os considerem inimputáveis.

Porquê, então, este silêncio, que cheira a envergonhado? Em parte porque a quase totalidade da Imprensa europeia "votou" contra Trump, ainda antes de os americanos terem votado. E, em parte também, pela injustificada deferência com que os europeus olham para as televisões dos EUA.

(...)

Temos, portanto, que as televisões se arrogaram no direito de decidir no lugar dos eleitores entre o bom e o mau, o Bem e o Mal. Fizeram-no ao contrário da CNN (próxima dos democratas), da Fox (próxima dos republicanos) e da PBS (pública), que passaram o discurso na íntegra, contraditando-o nos oráculos, e depois comentaram que o Presidente tinha faltado à verdade ou produzira afirmações sem fundamento.

Colocam-se, pois, algumas questões para as quais será bom encontrar uma resposta a curto prazo. A partir de que momento o responsável de uma televisão tem legitimidade para silenciar um Presidente? Pode um jornalista interferir na transmissão em directo de acontecimentos com manifesto interesse público? E, na afirmativa, não estará esse mesmo jornalista, em vez de proceder como um observador isento da acção política, a actuar como um agente político que faz prevalecer a sua opinião sobre um acontecimento que, ademais, não comunicou à opinião pública?

Resta saber aonde conduzirá este precedente, não só nos EUA mas também nas outras democracias, de cada vez que as televisões julgarem, a partir de agora, que têm o direito de calar um Presidente eleito, porque, na opinião delas, ele está a faltar à verdade.»

 

Reflexões de José Manuel Barata-Feyo, novo Provedor do Leitor do Público, em texto ontem publicado neste jornal. Um longo texto que subscrevo da primeira à última linha.

Um homem normal na Casa Branca

João Campos, 19.11.20

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil - quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (...) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (...)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(...)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (...)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

Um homem comum na Casa Branca

Pedro Correia, 18.11.20

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Harry Truman com Franklin Roosevelt (Julho de 1944)

 

Naquela quinta-feira, dia 12 de Abril de 1945, havia chuva em Washington. Às 19.09, um homem de 60 anos, natural do Missouri, de óculos com lentes grossas e estatura acima da média, tomava posse como 33.º Presidente dos Estados Unidos. Finda a cerimónia, que durou menos de um minuto, o empossado beijou a Bíblia sobre a qual prestara julgamento.

Esse homem fora vice-presidente apenas 82 dias por escolha de Franklin Delano Roosevelt, falecido duas horas e 24 minutos antes da singela cerimónia de posse na Casa Branca. A um gigante da política norte-americana, que conduzira com sucesso o país no combate à Grande Depressão e nas encruzilhadas da II Guerra Mundial, sucedia «o típico americano médio», como assinalou o jornalista Roy Roberts, no Kansas City Star, acrescentando: «Que teste à democracia se funcionar!»

Nessa noite, Harry Skipp Truman deitou-se um pouco mais tarde do que era costume, depois de comer uma sanduíche de peru e beber um copo de leite. Terminava o dia mais longo da sua vida, em que certamente rememorou as críticas recebidas na imprensa oito meses antes, quando Roosevelt surpreendeu tudo e todos ao escolher para vice-presidente, no seu último e brevíssimo mandato, este senador que nunca frequentara a universidade, passara a infância e a juventude numa humilde zona rural e viajara apenas uma vez na vida – em 1918, como capitão de artilharia, quando chegou a França para combater na I Guerra Mundial.

Truman terá certamente recordado também os editoriais demolidores com que a imprensa o brindara no Verão anterior. A Time chamara-lhe «medíocre», o Post-Gazette, de Pittsburgh, garantira que era «um dos mais fracos vice-presidentes» de sempre. Richard Strout, no New Republic, desabafara: «Pobre Truman. E pobre povo americano.»

 

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No momento em que tomou posse, Harry Truman tornou-se o comandante supremo das forças armadas norte-americanas, com 16 milhões de efectivos em guerra. O 9.º Exército encontrava-se às portas de Berlim, a última ilha das Filipinas fora reconquistada aos japoneses, 400 superfortalezas despejavam bombas diárias sobre Tóquio. A guerra custara já 196.999 vidas americanas. Mesmo assim, o estado-maior, em Washington, previa que durasse mais seis meses na Europa e ano e meio no Pacífico.

Logo na primeira conferência de imprensa, no dia a seguir à posse, Truman exibiu o estilo franco e directo que o celebrizou. «Rapazes, se souberem rezar, rezem por mim. Quando ontem me contaram o que acontecera, foi como se a lua, as estrelas e todos os planetas caíssem em cima de mim», disse aos jornalistas. Dez anos depois, escreveria nas suas memórias: «Quando Roosevelt morreu, senti que havia um milhão de homens mais qualificados que eu para lhe suceder. Mas a tarefa estava a meu cargo – e tinha de ser feita.»

 

«Nenhum outro Presidente americano tomou decisões tão difíceis nos primeiros quatro meses de mandato, relacionadas com a criação da ONU, a presença ameaçadora do Exército Vermelho na Europa de Leste, a bancarrota britânica, o horror do Holocausto e o advento da era nuclear no Novo México, Hiroxima e Nagasáqui», escreveu David McCullough na sua monumental biografia Truman (1992), que lhe valeu o Prémio Pulitzer. Um livro fundamental para viajarmos aos 2841 dias da presidência deste homem que jogava póquer, tocava piano e bebia bourbon, chamava “aquário” à Casa Branca e não ligava nada às sondagens. «Até onde chegaria Moisés se tivesse encomendado uma sondagem no Egipto?», costumava dizer Truman.

Roosevelt, com quem reuniu apenas duas vezes enquanto vice-presidente, jamais o pusera a par dos assuntos da guerra. E nem o informara da sua ida à cimeira de Ialta. Mas ele tinha «uma imensa determinação», como dizia Churchill. Conseguiu defraudar as piores expectativas a seu respeito. A três meses das presidenciais de 1948, a Newsweek pediu a 50 analistas um vaticínio eleitoral: todos apostaram na vitória do republicano Thomas Dewey contra o democrata Truman. A Life fez uma capa com Dewey, chamando-lhe «o próximo Presidente». E o Baltimore Sun concluiu: «Votar nele seria uma tragédia para o país e o mundo.»

 

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Contra ventos e marés, Truman venceu. E convenceu. Ao cessar funções, em Janeiro de 1953, apresentava uma excelente folha de serviços: a reconstrução da Alemanha e do Japão, o lançamento das Nações Unidas, a criação da NATO, o Plano Marshall, a inédita ponte aérea que permitiu salvar Berlim em 1949. Na frente interna, também tinha motivos para orgulhar-se: criou 11 milhões de postos de trabalho, reduziu a dívida pública, evitou o colapso económico que todos anteviam e jamais aconteceu.

Na última das suas 324 conferências de imprensa como Presidente, a 15 de Janeiro de 1953, sublinhou: «Quando a história disser que o meu mandato assistiu ao início da Guerra Fria, dirá também que nestes oito anos iniciámos o caminho para a vencer.» Acertou em cheio.

Na hora da partida, a mesma imprensa que lhe lançara pedras ovacionava-o em editoriais. «É um homem com muitos opositores e poucos inimigos, e com muitos mais que o apoiam e gostam dele», escreveu o insuspeito Walter Lippmann.

«Dever cumprido», disse Truman ao deixar a Casa Branca. Poucos presidentes tiveram tantos motivos como ele para pensar assim.

Quando o gigante se torna anão

Pedro Correia, 06.11.20

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Os EUA são um gigante económico, militar e cultural. Mas são também um anão político, como vêm demonstrando ao mundo desde terça-feira. 

Três dias depois, os norte-americanos permanecem em suspenso, sem fazerem ideia se o vencedor desta corrida à Casa Branca foi o ex-vice-presidente Joe Biden (que lidera nos votos populares e no número de "grandes eleitores") ou o actual presidente Donald Trump. Sabendo-se que têm um quadro eleitoral permeável à fraude, como ficou patente nas eleições de 1960 (que poderão ter sido ganhas por Richard Nixon em vez de John Kennedy) e de 2000 (alegadamente ganhas por George W. Bush contra Al Gore por apenas 537 votos na Florida, estado governado por um irmão do candidato republicano). E também um sistema que despreza o voto directo, num incompreensível entendimento do que é a democracia representativa: 538 delegados pronunciam-se em nome de 150 milhões de eleitores. Estão mandatados por eles, mas no limite podem até votar em sentido contrário, como sucedeu em 2016, quando sete desses membros - incluindo cinco em suposta representação de Hillary Clinton - assumiram outras opções de voto no colégio eleitoral. 

Estamos enfim perante um sistema eleitoral que permite eleger o menos votado. Aconteceu com os presidentes John Quincy Adams (que derrotou Andrew Jackson em 1824), Rutherford Hayes (que derrotou Samuel Tilden em 1876) e Benjamin Harris (que derrotou Grover Cleveland em 1888). Aconteceu também com Bush em 2000. E com Trump há quatro anos.

 

No momento em que escrevo, permanecem as incertezas em torno do desfecho da corrida presidencial em pelo menos cinco estados: Arizona (com 3 milhões de eleitores), Carolina do Norte (5,4 milhões), Geórgia (5,8 milhões), Nevada (1,2 milhões) e Pensilvânia (6,5 milhões).

Qualquer deles registou a maior afluência eleitoral de sempre, em todos eles o vencedor poderá emergir com a margem mais reduzida de que há memória. Mas é incompreensível a extrema lentidão deste processo de contagem. Não imaginamos algo semelhante em Portugal.

 

Há 60 anos, Nixon reconheceu sem demora a derrota: viria a ser recompensado com o triunfo nas urnas, oito anos mais tarde. Há 20 anos, o litígio em torno dos boletins da Florida terminou a 13 de Dezembro, quando Gore admitiu ter perdido - por uma reduzidíssima margem de 0,009% - naquele estado, 36 dias após as eleições. Evitando assim que o país mergulhasse num profundo impasse político e numa grave crise constitucional.

Trump, já se percebeu, não seguirá o exemplo daqueles dois antecessores. Tudo pode acontecer quando o gigante se torna anão.

Confusão

Pedro Correia, 05.11.20

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Faz-me confusão que os EUA tenham um sistema eleitoral tão anquilosado. Só há dois partidos, ambos geridos por contas milionárias, e nenhuma força política alternativa quebra este velho rotativismo - nem sequer a nível estadual.

Faz-me confusão que mais de dois terços dos eleitores se mobilizem numa espantosa demonstração de civismo, raras vezes vista sequer entre nós, para que o voto de mais de cem milhões de pessoas seja transferido para 538 "grandes eleitores" que confeccionam o destino da mais poderosa democracia mundial.

Faz-me confusão que em duas das últimas cinco eleições presidenciais o vencedor tenha sido aquele que menos votos recolheu nas urnas.

Faz-me confusão que por lá, aparentemente, nenhuma voz relevante se erga a contestar isto.