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Os livros que fomos lendo

por Pedro Correia, em 15.10.13

 

Durante quatro meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 19 etapas.

 

O João Campos, a 6 de Junho, dava o pontapé de saída. Revelando qual era o seu livro de cabeceira: Consider Phlebas, de Iain M. Banks.

 

O José Gomes André, a 12 de Junho, falou-nos de um livro que acabara de ler: Fatherland, de Robert Harris.

 

O José Maria Gui Pimentel, a 21 de Junho, saltava da ficção científica para a História. Com a leitura da História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos.

 

O José Navarro de Andrade, a 27 de Junho, rumava à América Central com a leitura do romance El Señor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, galardoado com o Nobel.

 

O JPT, a 2 de Julho, dava-nos notícia d' A Maldição de Ondina, de António Cabrita -- radicado em Moçambique, tal como ele.

 

A Laura Ramos, a 10 de Julho, levantava o véu sobre o seu livro de cabeceira: Uma Vida Francesa, de Jean-Paul Dubois, "mestre no retrato da sociedade e da cidadania política".

 

A Leonor Barros, a 21 de Julho, ia lendo "com prazer" Mentiras & Diamantes, de José Rentes de Carvalho.

 

O Luís Menezes Leitão, a 24 de Julho, escreveu sobre as Memórias, de Humberto Delgado, publicadas originalmente em Londres, em 1964 -- meses antes de o "general sem medo" ter sido assassinado.

 

A Marta Spínola, a 29 de Julho, mencionou um dos livros que acabara de ler: Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci.

 

A Patrícia Reis, a 1 de Agosto, reafirmava que gosta de ler várias obras ao mesmo tempo: Os Antiquários, de Pablo de Santis, era uma delas.

 

A 5 de Agosto, foi a minha vez: aqui escrevi o que pensava sobre uma obra muito estimulante: De Gaulle, de Éric Roussel -- uma das minhas melhores leituras deste Verão.

 

A Teresa Ribeiro, a 9 de Agosto, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Enamoramentos, de Javier Marías. Um escritor digno do Nobel, como garante Pedro Mexia, que revelou ter boa pontaria ao vaticinar a escolha de Alice Munro pelo júri de Estocolmo.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 30 de Agosto, lamentava-se da falta de tempo para leituras. Mesmo assim ainda conseguiu ler O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas.

 

A Ana Lima, a 8 de Setembro, falou-nos dos Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís. Há sempre uma primeira vez para ler Agustina: chegou a vez dela.

 

A Ana Vidal, a 20 de Setembro, falou-nos de El Amor de mi Vida, de Rosa Montero. E foi tão convincente que eu corri a comprar o livro.

 

O Bandeira, a 28 de Setembro, trouxe-nos notícias de uma colectânea: The Collected Stories of Lydia Davis.

 

O Fernando Sousa, a 30 de Setembro, apresentou-nos Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie.

 

A Ivone Mendes da Silva, a 4 de Outubro, lia A Ilha de Sukkwan, de David Vann.

 

E a série terminou ontem, 14 de Outubro, com o João André. Leitor da obra The German Genius, de Peter Watson.

 

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Como ele bem disse, em breve haveremos de ter outra série colectiva. Conto dar-vos notícia dela a curto prazo. E de outra mais pessoal, sobre jornalismo e política, depois de ter conseguido arrumar a biblioteca.

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O que estou a ler (19)

por João André, em 14.10.13

Uma dos maiores falhas no ensino que sofri foi a nível de história. Recebi uma introdução à pré-história, algo sobre as civilizações da antiguidade (Suméria, Egipto, Grécia, Roma) e depois disso só voltei a aprender algo sobre história não portuguesa quando cheguei às guerras mundiais do século XX. Para a disciplina de história (pelo menos de quem estudou as ciências naturais na escola secundária), o resto do mundo ou pelo menos da Europa pouco interesse tinha. Desde então que vou tentando compensar as minhas enormes lacunas nessa área, especalmente levando em consideração que vivo no centro da Europa.

 

É nesse sentido que acabei por comprar este livro: The German Genius, de Peter Watson. No prefácio/introdução, o autor explica que se decidiu a escrever o livro dada a falta de conhecimento em Inglaterra acerca da História e Cultura alemãs exceptuando as duas Guerras Mundiais (especialmente a segunda). O objectivo é então falar acerca do que chama de terceiro Renascimento europeu (a seguir ao italiano e ao britânico e francês - essencialmente o iluminismo) e da influência que teve na cultura alemã e europeia. Deve ser notado que quando Watson fala da Alemanha, está essencialmente a referir-se ao espaço de língua alemã, que incluía a região que é hoje Alemanha mas também a Suíça, a Áustria (com um território bastante mais extenso nos séculos XVIII e XIX) e a partes do que é hoje Polónia, República Checa, Eslováquia, etc.

 

O livro lê-se a espaços muito bem, quando Watson escreve sobre os movimentos históricos, as reformas institucionais ou a mudança de paradigma que estas acarretaram. Quando entra em pormenores como filosofia, filologia, literatura ou outros semelhantes, confesso que me sinto de tempos a tempos perdido, por me faltarem bases mais sólidas nestas áreas do saber. Quando entra pela área da Biologia, Matemática, Física ou Química sinto-me mais à vontade para o seguir, mas também se nota que o autor tem mais dificuldade em explicar estas áreas e prefere referir a sua importância histórica em vez de se debruçar mais profundamente sobre a revolução que estes conceitos científicos acarretaram.

 

De uma forma geral o livro lê-se bem e dá uma excelente perspectiva sobre a influência que este Renascimento alemão teve sobre o mundo que temos hoje. Entre outros explica como foi fundada a nova universidade, com a integração do doutoramento como o entendemos hoje; as publicações científicas; as novas visões filosóficas do mundo e como influenciaram a sociedade alemã e, a espaços, a inglesa e americana; a forma alemã de ver a História, baseada nas relações entre sociedades e potências e menos debruçadas sobre o indivíduo ou pequenos grupos; etc.

 

Os principais defeitos são uma enervante tendência de cair em name dropping, onde certos nomes são dados, por vezes indicando que são importantes ou até mesmo acompanhados de uma curta biografia, mas sem grandes esclarecimentos sobre a sua importância. Outro defeito é uma tendência para engrandecer a influência alemã ou mesmo o esforço para demonstrar que foram alemães os primeiros autores de certos conceitos, em desfavor de outros nomes ou países europeus (franceses, ingleses e escoceses são frequentemente referidos como contribuindo com um conceito inicial mas pouco desenvolvido ou como receptores da sabedoria alemã).

 

Apesar de ainda não ter terminado o livro (na edição que estou a ler tem umas extensas 700 páginas), é já possível entender as origens de certas formas de pensar que noto no meu dia a dia em colegas alemães. The German Genius terá lacunas e defeitos, certamente, mas para um público genérico é um excelente ponto de partida para entender as origens daquele que será o mais importante estado europeu dos nossos tempos.

 

Quando terminar este livro, avançarei para um outro que se debruça também sobre um momento fundamental da história alemã, mas com repercussões muito mais extensas para toda a Europa: a Guerra dos Trinta Anos, no livro Europe's Tragedy, de Peter H. Wilson. Depois darei notícias.

 

Com este post terminamos a série O que estou a ler. Em breve teremos outras.

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O que estou a ler (18)

por Ivone Mendes da Silva, em 04.10.13

 

Não foi por esta ilha que comecei David Vann mas pela outra, a de Caribou. Prendi-me logo àquela escrita de mundo fechado e passado incessante a alagar o quotidiano dorido das personagens. E a paisagem. A paisagem impiedosa, também ela personagem e das agrestes. Ou alter-ego das personagens. Espelho, às vezes.

A ilha que leio é A ilha de Sukkwan, editada pela Ahab numa tradução de José Lima e há por lá um pai, Jim, e um filho, Roy, enclausurados em si mesmos. Jim já falhou demasiado e nem sempre falhou melhor, do trabalho ao amor. O desafio de passarem um ano juntos na ilha, longe do mundo, é um projecto de beatitude rapidamente transformada em frio, solidão, medo. Incapacidade. Ódio também. Roy, nos seus treze anos, é o menos frágil. Menos passado, menos peso a puxá-lo para o fundo, para a águas negras que Vann conhece como ninguém.

Eu sabia, porque li as críticas, que a dado momento uma reviravolta narrativa iria surpreender o leitor. Já lá cheguei. Grandioso. Evito aqui o fascinante porque é o raio de um adjectivo que não combina com o tom do texto.

Digo como se lê David Vann: a respirar de vez em quando. Depois fecha-se o livro, sorve-se uma grande golfada de ar e dizemos que já passou. 

 

 

E agora conta tu, João André. Que andas a ler?

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O que estou a ler (17)

por Fernando Sousa, em 30.09.13

 

Não sei quantas vezes interrompi um livro ou o pus de lado. De forma que esta nota teria mais cabimento numa rubrica como a do Pedro sobre livros deixados do que aqui. Mas foi o que acabou de acontecer com mais um da Mercè Rodoreda. A gente veste a roupa conforme o frio e talvez seja assim também com os livros e a disposição, isto para libertar desde já a autora de A Praça de Diamante, de qualquer culpa. Para ir ao ponto: deixei A Morte e a Primavera a meio, literalmente a meio, ainda sem saber como lá cheguei. O relato começou por me atrair, na Feira do Livro, pelos seus 3 euros e a meditação sobre os ciclos da vida, mas assim que me senti um freguês da sua aldeia desolada, tanto a cheirar a estrume como a glicínias, entre gente sem cara, cruel e comedora de cavalos, divertida a esmagar abelhas, dentro de uma atmosfera medievalizante e irreal, e de uma escrita obsessiva, comecei a torcer o nariz e a roer as unhas, e a sentir-me mal; e interrompi. Já me tinha acontecido isso com Quanta, quanta guerra e o seu herói, Adriá Guinart, que nunca a viu e tudo o que fez foi matar uma velha. Quem uma vez leu A Praça do Diamante quis com certeza ler mais alguma coisa de Rodoreda, cuja vida, a fugir de franquistas e nazis, justifica a densidade dramática da sua escrita, que se nos mete debaixo da pele, que inflama. Mas como disse precisamos de estar com a disposição certa, e eu não estava. [Ia fazer também um apontamentozinho sobre o Brumário, de Arménio Vieira, Prémio Camões de 2009, mas inibi-me]. Entretenho agora a alma com o Meio Sol Amarelo (ASA), da nigeriana Chimamanda Adichie. Já sei para onde me leva e ainda vou no cenário, nos sonhos revolucionários do senhor Odenigbo e nos amores das irmãs Olanna e Kainene; cheira-me a petróleo e a genocídio. Era muito miúdo quando o pivot da televisão anunciou que iam transmitir imagens susceptíveis de chocar as pessoas e mandaram-me para a cama. Terá sido aí por 1967. Ainda hoje vejo pela frincha da porta um ibo a ser fuzilado. Disse “ai, aiiii” – e caiu. Tenho-o nos ouvidos. Mas hoje já ninguém me manda para a cama.

 

E tu, Ivone? Que leituras andas a fazer?

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O que estou a ler (16)

por Bandeira, em 28.09.13

«The girl wrote a story. "But how much better it would be if you wrote a novel," said her mother. The girl built a dollhouse. "But how much better if it were a real house," her mother said. The girl made a small pillow for her father. "But wouldn't a quilt be more practical," said her mother. The girl dug a small hole in the garden. "But how much better if you dug a large hole," said her mother. The girl dug a large hole and went to sleep in it. "But how much better if you slept forever," said her mother.»


 

 

 

Manuel António Pina dizia que qualquer texto pode, no limite, ser reduzido a uma palavra apenas. A nova-iorquina Lydia Davis ainda não chegou a tanto (ou tão pouco), mas não por falta de tentar:


“It has been so long since she used a metaphor!”


Percebe-se melhor a opção de Lydia Davis pelo conto curto quando se conhece dois factos: 1) é preguiçosa, e 2) traduziu Proust. Mas nem todos os contos de Lydia Davis são tão curtos quanto o supracitado. Os maiores estendem-se por uma dúzia de páginas. Outros, sendo de facto curtos, apenas porque conhecem o porteiro entram na categoria de contos. Não há propriamente respeito pelas regras do género. 
Os personagens só excepcionalmente têm nome, ou por nome têm todo um programa (“Old Mother”, “the Grouch”). Os locais são de geografia incerta. O narrador, quase sempre uma mulher, pode ou não ser a autora (que sei eu), mas em muitos casos é impossível ignorar uma voz autobiográfica. E por sobre todos os textos, não importa o quão desconcertantes ou desesperados, adeja um sentido de humor apurado. Certo é que cada conto - ou o que se lhes chame – é como que um monobloco, uma entidade tão acabada e expurgada de elementos supérfluos que qualquer adição ou subtracção, parece-me, a tornaria uma coisa completamente outra.

 

“My mother's dream is that someday she will save enough money to leave me and live in the country.”

 

Eu queria ser mais crítico, escrever uma recensão digna do nome, falar em como o estilo cirúrgico de Lydia Davis contém e transforma, mas de todo anula, as emoções; fico com a sensação de que já escrevi palavras a mais quando o que queria dizer era tão-só "Leia Lydia". Ponto. E desculpe as citações em inglês, mas tenho apenas a versão na língua original.

 

“I have decided to take a certain book with me when I go. I am tired and can’t think how I will carry it, though it is a small book. I am reading it before I go, and I read: 'The antique bracelet she gave me with dozens of flowers etched into the tarnished brass.' Now I think that when I go out I will be able to wear the book around my wrist."


E tu, caríssimo Fernando, diz cá – por que páginas vens tu passeando os olhos nestes dias?

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O que estou a ler (15)

por Ana Vidal, em 20.09.13

De nenhum livro poderei dizer com tanta propriedade que é o que "estou a ler" como de um livro de poesia. Porque um bom livro de poesia nunca está definitivamente lido, volto a ele muitas vezes e descubro-lhe sempre novas leituras, novas nuances que dependem mais do meu estado de espírito e do meu olhar do momento do que daqueles que presidiram à sua escrita original. Neste sentido, mais do que qualquer outro género literário, a poesia pode equiparar-se à pintura abstracta ou à música, tem o mesmo efeito de interacção cúmplice que estas exercem em quem se deixa envolver por elas. São artes caleidoscópicas, que requerem interpretação e retorno alheios para estarem verdadeiramente completas. Sou cada vez mais uma leitora apaixonada de poesia. As minhas mesas de cabeceira sufocam, encantadas, debaixo dos deslumbrantes delírios de Borges ou de Pessoa, das delicadas rendas de Nuno Júdice ou de Astrid Cabral, dos intrigantes labirintos de Drummond ou de Rilke, das íntimas pulsões de Maria Teresa Horta ou de David Mourão-Ferreira, das domésticas alquimias de Ana Luisa Amaral ou de Adélia Prado. Entre muitos, muitos outros. Vou intervalando poesia com outras leituras, e mesmo dessas raramente leio só um livro de cada vez.

 

Mas não é de poesia o livro de que quero aqui falar. O livro que agora "estou a ler", ou, melhor dizendo, aquele que neste momento mede forças com os meus poetas, é El amor de mi vida, de Rosa Montero. Todo o livro é uma empolgada e empolgante declaração de amor à literatura, às leituras que mais impressionaram esta escritora que sigo religiosamente desde esse extraordinário livro que é "La loca de la casa", curiosamente também ele dedicado à sua grande paixão pela escrita. El amor de mi vida é uma compilação de crónicas publicadas no El País (além de escritora e psicóloga, Rosa é também uma respeitada e muito premiada jornalista) com o tema da literatura, cada uma mergulhando num livro específico e no seu universo muito próprio. Mas Rosa Montero não se limita à simples crítica literária, nem sequer a uma apresentação mais aprofundada da narrativa e das personagens. Vai ainda mais longe, traçando-nos um perfil psicológico do autor através de episódios da sua vida, de factos que influenciaram directa ou indirectamente a sua escrita. É, também, um fascinante trabalho de investigação. Revela-nos, por exemplo, as verdadeiras razões que atiraram Charles Darwin para uma volta ao mundo a bordo do pequeno Beagle - "Viagem de um naturalista à volta do mundo" -, transformando um médico e um sacerdote frustrados num apaixonado cientista que deixaria ao mundo a colossal teoria sobre "A Origem das Espécies". Ou os abismos de outra aterradora viagem - "Até ao Amanhecer" - desta vez aos labirintos mais tenebrosos da loucura, voluntária e corajosamente enfrentada pelo escritor Michael Greenberg por amor a uma filha bipolar em pleno transe psicótico.

 

Enfim, são quase cinquenta preciosas reflexões sobre outras tantas obras literárias, a maioria de referência (em alguns casos sobre toda a obra de um escritor), guiadas pela pena de mestre e visão original de uma leitora compulsiva e muito bem documentada. Recomendo vivamente.  Nas suas palavras de introdução a este El amor de mi vida, Rosa Montero deixa bem clara a natureza da sua relação com os livros:

 

"Sempre tive pena das pessoas que não lêem, não por serem mais incultas, que sem dúvida o são; ou por estarem mais indefesas ou serem menos livres, o que também é verdade; mas, sobretudo, porque vivem muitíssimo menos. A grande tragédia dos seres humanos é virem ao mundo cheios de ânsias de viver e estarem condenados a uma existência efémera." *


"Graças aos livros partilhamos os nossos sentimentos, aprendemos com os outros e sentimo-nos acompanhados não só na nossa pequena existência, mas também em algo muito mais abrangente, muito maior que nós, algo que nos une através do tempo e do espaço. Não é prodigioso poder vibrar com as palavras de alguém que já morreu há um século, por exemplo?" *


"Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem exitem horas perdidas quando me deixo submergir num texto." *

 

 

Nota* - A escolha e tradução das citações é minha (desde já as minhas desculpas a Rosa Montero) porque estou a ler o livro no original.

 

E tu, amigo Bandeira, em que leituras te perdes actualmente?

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O que estou a ler (14)

por Ana Lima, em 08.09.13

Nem sei bem porquê mas a verdade é que nunca tinha lido, até agora, uma obra de Agustina Bessa-Luís. Talvez tenha sido o ano passado ou no ano anterior que, na Feira do Livro, resolvi comprar os Contos Impopulares. As duas palavras despertaram-me a atenção. Eram contos, género que, se não é o meu preferido, está entre os meus preferidos, e eram impopulares o que, à partida, os afastava das histórias mais clássicas com um final ligado a alguma moral. É desta que vou ler Agustina, pensei.

 

Afinal algum tempo passou. Mas este Verão peguei no livro. Percebi, então, que se tratava de uma das primeiras obras da escritora, publicada no início dos anos 50 do século passado. Os diferentes ambientes e personagens são de uma enorme riqueza, desde os contos mais extensos aos mais pequenos. E a língua portuguesa! Que prazer ler palavras que vamos esquecendo! E que bom que é sentir a necessidade de ir ao dicionário consultar outras que andam tão arredadas do nosso quotidiano!

Não resisto a deixar aqui o mais pequeno destes contos que diz tanto, mas tanto...

 

O CORTEJO

- Quando passará? - perguntava a si próprio. Em vão arredava a fímbria da cortina, e olhava. A vidraça, onde aderiam as pequenas moscas dos estábulos, era baça, como que porosa e penetrada de bolhas de ar. E a rua era excêntrica, isolada, poeirenta, com margens de terrenos baldios onde cresciam, como abetos ponteagudos em miniatura, arbustos calcinados; as múltiplas flores bravias rompiam das valas, fulgurantes e apenas perceptíveis. Quando passará, quando virá o cortejo? - perguntava. Ali estava desde a madrugada, procurando divisar o cortejo que desceria das bandas da cidade, com as suas flâmulas brilhando e voando, enchendo o horizonte de cores inesperadas e palpitantes. Alongou-se o dia, as sombras mudaram de lugar; os cães de pastor trotavam circundando os campos, vigiando os rebanhos. A rua, deserta, com as suas velhas paredes que se desmoronam, mantidas ainda pelas garras das heras e a aglomeração dos silvados. «Quando virá o cortejo, quando será?» Cansado, ele inclina um momento a cabeça sobre o parapeito, e adormece. Não por muito tempo, não por muitas horas. Quando volta a arredar a orla da cortina, a olhar pela janela a rua desamparada que se perde na distância entre arbustos calcinados e flores apenas perceptíveis, ainda que fulgurantes, ele, perplexo e inquieto, indaga de si próprio: «Já teria passado o cortejo, quando teria passado?!» Abre a janela, e os vidros, mal seguros pelo betume ressequido, caem no chão, sem ruído, sobre a poeira. Todo o sol parece revolto, e um rasto de pegadas como que ondula e se entrecruza e se perde, por fim, varrido nos turbilhões de pó. Ele experimenta na boca, ao respirar, o sabor áspero e absurdo desse pó. Depois, fecha a janela, e, por detrás das vidraças partidas, continua a esperar.

 

in, Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares, Guimarães Editores, 2004, pág. 25-26

 

E agora que vou iniciar as Últimas Entrevistas a Roberto Bolaño gostava de saber o que andas tu a ler, Ana Vidal?

 

 

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O que estou a ler (13)

por Ana Cláudia Vicente, em 30.08.13

Enquanto o Adolfo não vem, aproveito o ensejo para falar das minhas leituras. Este foi o Verão no qual menos pude ler, em muitos anos. Um só livro me acompanhou por estes dias : O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas. Vou a páginas cento e nove, cento e dez:

 

 

 

«Alguma coisa acabou entretanto, alguma coisa que nunca mais registámos no deve e haver, naquela contabilidade inocente das nossas vidas.

Jaime Ramos pensou nisto porque o rosto de Irina era impenetrável, uma espécie de desafio à sua habilidade para arrancar confissões ou para perceber um caminho no meio dos becos dos subúrbios.»

 

Regresso então a Isaltino de Jesus, a Jaime Ramos, ao mundo da investigação de crimes de sangue num Portugal não tão ficcional quanto seria de desejar. Dois traços autorais me prendem a atenção, aí: a presença sensível de um território que nunca é apenas cenário ou decoração; a insistente sombra do insolúvel, apesar do progresso da acção.  Desta feita, há dois russos e uma africana aparecidos sem vida não longe do Porto, e uma portuguesa de velhas famílias desaparecida algures na Galiza. Ajustes novos, diferenças antigas. E o fim? E o título? Ainda não sei  comos nem porquês - prefiro disdesfrutar o caminho para lá chegar.  

     

 

Então e tu, Ana Lima, o que andas a ler?

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O que estou a ler (12)

por Teresa Ribeiro, em 09.08.13

Tenho um amigo que chama ao canal da cabo Foxlife o "Fox Gajas", por só passar "séries sobre relacionamentos". O tom desdenhoso que usa para pronunciar a palavra "relacionamentos" é todo um tratado sobre masculinidade. O sorrisinho e as sílabas marteladas indicam desde logo que "relacionamentos" não é, na sua opinião, tema com interesse para os homens nem aqui nem na China. Relacionamentos? Não há pachorra. Seguir historietas sobre namoros e famílias é para quem brincou às casinhas na infância e gostou.

Vem tudo isto a propósito do livro que estou a ler, um título que poria em pé os cabelos desse meu estereotipado amigo: "Os enamoramentos"(editado pela Alfaguara - Edições Prisa e traduzido por Pedro Tamen). Usando a expressão dele, é indiscutivelmente um "título de gaja", portanto dissuasor de "gajos", embora o nome do autor leve muitos, com certeza, a dar-lhe o benefício da dúvida.

Assinado por Javier Marias, este romance foi eleito pela imprensa espanhola "o melhor livro de 2011", ano que consagrou o autor com o Prémio Literário Europeu" pelo conjunto da sua obra.

O que posso dizer sobre "Os enamoramentos", além de lhe elogiar a escrita envolvente é que nos engana. Até meio nada na sua narrativa amável e serena nos faz pressentir um desvio para uma zona de sombra. Mas é o que acontece e a manipulação do autor resulta em cheio. Sobressaltos destes só em policiais ou livros de aventuras. Este romance não é um policial e não prima pela acção, antes nos arrasta para uma inesperada e inteligente reflexão sobre os limites éticos e morais do amor. Sim, pode dizer-se que é um livro sobre (eheheh) "relacionamentos". Mas recomendo-o certa de que não vai desapontar nem "gajas" nem "gajos".

 

Adolfo, agora és tu. Diz-nos: o que andas a ler? 

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O que estou a ler (11)

por Pedro Correia, em 05.08.13

 

Vivemos num tempo fragmentado, que convida a uma dispersão crescente, e somos vítimas desse fenómeno. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, passamos o tempo a indagar se há novas mensagens no telemóvel mesmo quando não esperamos nenhuma, as redes sociais solicitam-nos a todo o instante um pequeno pensamento em inócuas pastilhas de 140 caracteres.

Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos não propicia leituras muito profundas.

 

Acabo também por viver fragmentado. Mas em matéria de leituras, valha a verdade, sempre fui errante. Enquanto um livro não me prende a atenção por inteiro, sobrepondo-se aos demais, vou-me dividindo por títulos e géneros muito diversos em coexistência pacífica um pouco por toda a casa.

Dos mais recentes que li, destaco a biografia de Mário Soares por Joaquim Vieira. Um livro sobre o qual tenciono escrever aqui muito em breve.

Neste momento vou lendo alternadamente O Intruso, de William Faulkner (interrompido, à espera de fôlego suplementar, na página 100), Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham (em ponto morto desde a página 48), Pensar, de Vergílio Ferreira (suspenso sine die na página 46), Os Ditadores, de Richard Overy (obra gigantesca interrompida, até ver, na página 178), La Aventura de Pensar, de Fernando Savater (de que tenho lido pedaços não consecutivos), e o segundo volume da biografia do general Charles de Gaulle, de autoria de Eric Roussel.

Este é o que me tem captado mais a atenção.

 

É uma edição de bolso da editora francesa Perrin intitulada simplesmente De Gaulle II. 1946-1970, tendo na capa o último retrato conhecido do velho general, tirado poucos dias antes da sua morte. O primeiro volume, que ainda não abri, vai de 1890 a 1945 - do nascimento até ao ponto culminante do seu primeiro período no poder, quando conseguiu fazer ascender uma França desonrada e exangue, que chorava 600 mil mortos, ao reduzido patamar das potências do mundo pós-Ialta, com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (juntamente com os EUA, a URSS, o Reino Unido e a China) e ocupando uma parcela da Alemanha desmilitarizada (embora sem adquirir a soberania permanente do Sarre e do Rur, como o general pretendia).

 

Não sei se convosco acontece o mesmo: eu começo muitas vezes a leitura de biografias pelo fim. Sucedeu-me novamente com esta, em que me apressei a ler as cem páginas finais antes de ir às primeiras 170 (este volume tem 605 páginas).

Esta opção deveu-se, no caso concreto, à minha curiosidade em saber como respondeu o então presidente francês à rebelião de Maio de 1968, que apanhou de surpresa todas as estruturas políticas. Incluindo, à esquerda, o influente Partido Comunista, incapaz de compreender como aqueles "filhos da burguesia", sem "consciência revolucionária", abalaram os alicerces da nação francesa, prenunciando o advento de uma nova era - consumista, hedonista, individualista. Sans Dieu ni maître.

 

De Gaulle era um "príncipe da ambiguidade", como lhe chama o biógrafo, sem esconder o fascínio pela personagem, certamente um dos melhores políticos do século XX e um dos maiores franceses de todos os tempos. "Superior a Napoleão", como reconheceu em 1990 o insuspeito François Mitterrand, seu inimigo de estimação.

Mas não há políticos imunes ao erro. E, quanto maior a dimensão da luz, mais vastas são as sombras que projecta.

De Gaulle cultivava um aura de mistério mesmo para os colaboradores mais próximos e ostentava uma aura majestática que ia muito para além da pose, integrando-se na sua verdadeira personalidade. Era um homem que exigia dos outros um grau de lealdade que se confundia com devoção e não tolerava o mais leve indício de dissidência.

Os seus anos crepusculares no Palácio do Eliseu foram marcados por uma surda hostilidade entre o general e o primeiro-ministro Georges Pompidou, o mais destacado e brilhante elemento da corte gaullista. 

Maio de 68 foi o ponto de ruptura entre ambos.

Pompidou percebeu, muito mais cedo do que o idoso presidente, a natureza fracturante da revolta estudantil - condição indispensável para conseguir neutralizá-la. De Gaulle começou por desvalorizar a rebelião, considerando-a uma "rapaziada". Depois, ultrapassado pelos acontecimentos, quis "normalizar" a situação com mão pesada, recorrendo à repressão policial e chegando a equacionar a intervenção do exército para esvaziar as ruas de Paris. O chefe do Governo trocou-lhe as voltas com uma hábil estratégia negocial com a poderosa CGT, central sindical pró-comunista, destinada a isolar os estudantes.

O Partido Comunista, tão horrorizado como a burguesia parisiense com o "aventureirismo" da bagarre estudantil, pôde reclamar o triunfo que Pompidou sabiamente lhe concedeu nesta brilhante manobra táctica, concretizada no aumento de 33% do salário mínimo, que abrangeu dois milhões de trabalhadores, e benefícios de diversa ordem relacionados com a formação profissional, a segurança social e o reforço da presença sindical nas principais empresas.

 

 

Isolados os estudantes, sem suporte dos comunistas e dos seus parceiros sindicais, Maio de 68 chegava ao fim. E terminava também a longa carreira de Pompidou à frente do Governo: em Junho, De Gaulle substituiu-o por Maurice Couve de Murville. Como acontece tantas vezes às grandes personalidades, o presidente não tolerava que alguém pertencente ao seu reduto político brilhasse mais que ele.

Por ironia, um ano após ter cessado funções, o ex-primeiro-ministro ascenderia à Presidência da República, como sucessor do velho general, retirado da vida pública. De Gaulle e Pompidou não voltaram a encontrar-se.

O destino é tão imprevisível e caprichoso como os voláteis humores dos governantes. É disto que nos fala também a biografia escrita por Eric Roussel. E é este um dos motivos que me levam a gostar tanto deste livro.

 

(E agora pergunto à Teresa: o que tens andado a ler?) 

Foto de baixo: De Gaulle e Pompidou (ao centro) em 1964

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O que estou a ler (10)

por Patrícia Reis, em 01.08.13

"Na minha casa não havia livros. Vi um livro pela primeira vez naquele dia em que parti o vidro da escola com uma fisga, feita com um ramo em forma de Y, duas tiras de pneu e um bocado de couro."

 

É assim que começa o livro "Antiquários" do escritor argentino Pablo De Santis (Prémio Planeta - Casa de América 2007, Prémio da Academia Argentina de Letras 2008 com o livro anterior, "O Enigma de Paris", já editado em Portugal pela mesma editora, Dom Quixote).

Eu gosto de misturar leituras - acho que tenho esse defeito ou qualidade, partilho com o Pedro Correia:) - e não consigo ler apenas um livro, mas escolhi este por ter um começo que me agarrou de imediato e por estar relacionado com máquinas de escrever (uma pancada minha), jornalismo, misticismo, livros antigos e antiquários.

É fantástico? Sim, é uma fantasia, com várias voltas e revoltas, com surpresas e momentos que nos transportam para Buenos Aires na década de cinquenta do século passado. Ao mesmo tempo, vou relendo coisas, mas "Os Antiquários", li em dois dias. Não é um livro grande, tem 231 páginas, a tradução é de Helena Pitta. A escrita é apelativa, a história transporta-nos com facilidade. Como gosto de literatura latino americana e gostei muito do livro anterior, lá fui por arrasto para esta fantasia. Nos tempos que correm, onde todos precisamos de um pouco mais de imaginação para viver, diria que é um livro aconselhável. Se pelo meio estiver a "Rua de Nenhures" de Pedro Tamen (poesia), pois melhor.

E agora a bola fica do lado do Pedro Correia.

Boas leituras 

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O que estou a ler (9)

por Marta Spínola, em 29.07.13

Pergunta o Luís. Eu estou sempre a ler muita coisa e leio nada. Livros a meio são mais de muitos (não são eles, sou eu) e tenho saudades de me prender a um livro de início ao fim. Entretanto, peguei num uma outra vez. 

O livro que reli mais recentemente, coisa que faço frequentemente com este livro, é o "Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci". Desta vez, a propósito de um post no facebok que coincidiu com a altura em que assisti a um curso sobre a Mesa Aristocrática no século XVIII (e aconselho o blog da autora Ana Marques Pereira, Garfadas On Line) e me lembrou muito as notas de Mestre Leonardo dois séculos antes.

Este livro, mais do que me interessar pelo conteúdo histórico, está cheio de pérolas de preocupação de Leonardo Da Vinci não só com a apresentação à mesa, como os modos dos seus contemporâneos. Percebe-se que sofria com a falta de civismo o que resulta, admito que também pela tradução, em notas engraçadíssimas. Ainda que a intenção dele não fosse fazer rir. 

Inocentemente - ou não - acaba por ser indiscreto nos hábitos de Sforzas e Borgias à mesa, dá-nos conta de algumas receitas da época e são mostrados alguns projectos de objectos para cozinha e mesa como o saca-rolhas e a batedeira (à escala humana, com pedais, impraticável uma vez que ou o conteúdo era pouco e o efeito não o pretendido, ou o "batedor" se afogaria). 

Relativamente a soluções práticas, diz-nos que o melhor para não ter a cozinha a cheirar a cabra é não ter cabras na cozinha. 

É um livro recheado de pepitas. Deixo umas imagens, mas vale bem a pena lê-lo. 

 

É com este livro que tenho andado para trás e para a frente, enquanto a vida se prepara para dar uma reviravolta.

 

Passo a vez à Patrícia Reis, para sabermos o que lê de momento.  

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O que estou a ler (8).

por Luís Menezes Leitão, em 24.07.13

 

Em boa hora a D. Quixote resolveu reeditar estas Memórias de Humberto Delgado, publicadas originariamente em Londres em 1964, que adquiri na última feira do livro. Sendo esta reedição de 2009, não está escrita felizmente no inenarrável "acordês" com que insistem em maltratar a nossa língua.

 

O livro é fascinante, permitindo-nos conhecer o percurso e o pensamento de uma personagem altamente complexa. Humberto Delgado faz uma avaliação histórica muito rigorosa do país, demonstrando uma erudição incomum. Inicialmente apoiante de Salazar, é curioso como se vai afastando dele por não conseguir concordar com o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia no pós-guerra em virtude do plano Marshall. Nas suas palavras, os outros países europeus tinham moedas fracas e inflação, mas as pessoas tinham dinheiro. Portugal tinha um escudo forte, sem inflação, mas o povo vivia na miséria. Não consegui deixar de fazer um paralelismo com a actual situação do euro.

 

É muito curioso que Humberto Delgado, que tinha uma posição de prestígio no Estado Novo, como Director-Geral da Aeronáutica, tenha aceite prescindir disso tudo para se envolver numa eleição presidencial, onde sabia desde o início que as cartas estavam viciadas. A explicação que ele próprio dá reside numa frase de Napoleão: "on s'engage et puis on voit". E efectivamente envolveu-se profundamente na campanha presidencial, tendo pronunciado a frase sacrílega para o regime: "Obviamente demito-o!", referindo-se a Salazar. No livro o autor refere as consequências do episódio, que a censura deixou passar, pois julgava que o país ia ficar indignado com Humberto Delgado, apressando-se os jornais a publicar diariamente ridículos comunicados de pessoas diversas, a desagravar Salazar por essa declaração. O efeito foi o contrário, sendo que a enorme adesão popular que Humberto Delgado suscitava fez o regime perceber que o país estava farto de Salazar.

 

 
Naturalmente que as eleições foram viciadas, como se esperava. Curiosamente Humberto Delgado aguardava uma reacção de indignação geral que não surgiu. Mesmo pessoas próximas encolhiam os ombros quando ele denunciava a fraude eleitoral: "Em Portugal as eleições foram sempre viciadas, até no tempo da Monarquia". O mesmo não se conformou, escolhendo o exílio, de onde procurou comandar a revolta contra o regime. Mas a oposição tradicional ia-se envolvendo nas suas questiúnculas internas, levando a que o regime ainda conseguisse durar mais 16 anos após o mais brutal ataque que sofreu.
 
O livro por isso diz muito, não apenas sobre um homem excepcional, mas também sobre o verdadeiro espírito do povo português, cuja enorme tolerância lhe permitiu viver 48 anos em ditadura. Não terá sido por acaso que recentemente outro Ministro das Finanças qualificou o povo português como o melhor povo do mundo.
 
E a Marta Spínola, o que anda a ler?

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O que estou a ler (7)

por Leonor Barros, em 21.07.13

Não há nada tão determinante num livro como as primeiras linhas ou as primeiras páginas. Em tempo de esbulho e saque e com o inevitável ajustamento das minhas finanças o exercício que faço para me decidir se o livro é merecedor dos euros sobejantes é o de ler o primeiro parágrafo. Quando pedi o livro emprestado o aviso foi peremptório Essas primeiras cenas são horríveis. E eram. E são. Escritas com um enorme realismo e sem pudores bacocos oscilamos entre parar ali ou ultrapassar aqueles primeiros horrores para acompanhar Jorge. Resolvi acompanhá-lo. Até agora não me arrependi. Um bocado ensimesmado, é verdade, aquele tal episódio declarou-lhe uma existência reservada e sofrida, feita de silêncios grandes no casarão algures lá para os Algarves onde habita com as Manas, suas fiéis zeladoras e das lides domésticas e outras da mansão, Samuel, e D. Rosa. Quando um dia, Sarah, uma escritora excêntrica aventureira e a viver no limite, se muda lá para casa, tudo muda. E muda ainda mais quando surge em cena Biafra, ávido por uma chantagem. E quando mais personagens se juntam para adensar a trama. E mais não digo.

Depois da desilusão de Mazagran e da paixão imediata e irrevogável – boa palavra – por A Amante Holandesa, este Mentiras & Diamantes de José Rentes de Carvalho tem um ritmo alucinante, uma deambular incessante entre mundos, palavras sem rodeios, e personagens fortes que não conseguimos esquecer. Lê-se com prazer. Cavalgam-se páginas para saber mais. Nesta minha nova condição de comprar livros de seis em seis meses, um Rentes de Carvalho será merecedor dos parcos euros. Só posso recomendar.

 

 

E agora passo a leitura ao Luís Menezes Leitão. Que andará ele a ler? 

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E se alguém, com pena desempoeirada e solta, olhar de lince e poucas proclamações, escrevesse um romance na primeira pessoa, retratando o quotidiano social português dos últimos 50 anos segundo uma engenharia capitular coincidente com os mandatos dos Presidentes da República?

Original, no mínimo. Apetecível. Tremendamente conforme à cabeça de um cidadão europeu do século XX.

Pois não é sobre nós… e sim sobre Uma Vida Francesa que esta diacronia se desenvolve, pela mão de Jean-Paul Dubois (sociólogo, jornalista do Nouvel Obs, escritor) levando-nos a percorrer, nesta obra ampla mas muito ágil, um lapso de cinco décadas marcantes para a sociedade francesa, arrumando a história da família, do país e do mundo nos marcos temporais dos consulados de De Gaulle (que habita o seu televisor Grandin…), e depois de Pompidou, Giscard e Chirac, retratando uma França tolhida pelo seu lastro histórico e ávida de todos os dias seguintes eleitorais. É aliás com muita pena minha que este livro, datado de 2005, não chega ao mandato psicótico seguinte, o de Sarkozy... simplesmente porque a escrita de Dubois é uma escrita que (com)promete e que me agrada particularmente: escorreita e franca, sem tentações clássicas, pouco dada a preconizações ou exibições de estilo, deixando-nos o prazer de colher as coisas grandes que, discretamente, nos vai dizendo por entre a narrativa.

A obra corre os dias de Paul Blick, o narrador, filho mais novo de um casal da média burguesia de Toulouse (e Espanha ali tão perto), amarfanhado e veladamente disfuncional desde a morte do irmão mais velho de Paul, cuja figura tutelar o acompanhará para sempre, vida fora. A narrativa começa precisamente assim, com a notícia da morte de Vincent, que Paul via como «um rapaz escultural, destinado a construir os alicerces de um novo mundo», no momento em que assiste ao fatídico telefonema do fundo do corredor, com 8 anos, já ciente da margem de clemência que o tempo ainda lhe concede até ser admitido, pelos adultos, ao vórtice da tragédia.
Paul, fruto daquele instinto profundo de sobrevivência prática tão cru nas crianças, corre antes de mais ao quarto do irmão para se apoderar do  brinquedo icónico que sempre lhe invejara: um coche de metal cromado puxado por seis cavalos brancos.

E assim vai crescendo o livro: através dos desencontros com o pai (vendedor de Simcas, «republicano, sem dúvida, mas concessionário em primeiro lugar»!), e depois através dos dias da adolescência, dos primeiros amores, do casamento, do nascimento dos filhos e, por fim, do divórcio, cruzando sempre, com um humor finíssimo, os grandes acontecimentos -  a morte de Franco, de Che Guevara, ou o Maio de 68 - com os simples jantares de família, a mediocridade do dia-a-dia, a usura do tempo, o labirinto sofrido ou glorioso das relações entre as pessoas, esse terrível exercício eternamente mal resolvido da condição humana.

Jean-Paul Dubois é mestre no retrato da sociedade e da cidadania política (enquanto estatuto imperfeito e paradoxal) e, neste livro em particular, caracteriza um período fascinante para qualquer pessoa da minha geração:

«A tomada de consciência política era ainda incipiente, mas estava em formação uma geração que já não queria que lhe cortassem o cabelo à escovinha, nem que lhe traçassem a vida a régua e esquadro ou a arrastassem para a missa (…), ansiosa por marcar distância em relação aos deuses e antigos mestres».

- Quem não se vê um pouco ao espelho nestas palavras?

Ou ainda nestas, sobre o Maio de 68, de que todos somos tributários enquanto membros de uma geração a cem mil léguas da precedente:

«Nunca houve, com certeza, na História, uma ruptura tão violenta, brutal e profunda no continuum de uma época. 1968 foi uma viagem intergaláctica, uma epopeia bem mais radical do que a modesta conquista espacial americana que ambicionava simplesmente dominar a Lua».

Não percam este, ou mesmo outro livro, de um autor a quem injustamente chamaram (certamente a  frase é de algum fresco trintão...) um cínico tranquilo.

- E tu, Leonor, o que andas a ler?

Uma Vida Francesa, Jean-Paul Dubois

1ª edição, Outubro de 2005

ASA Editores


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(Re)acabei agora este "A Maldição de Ondina" de António Cabrita. O autor, patrício imigrado em Moçambique há uma série de anos, que o XXI vai passando, poeta, prosador, jornalista, argumentista, crítico, professor, bloguista, editor, tradutor, vai tendo por cá uma actividade intensa, constante e profunda, afixada em vários livros, disseminada em múltiplos textos, um ritmo que não lhe prejudica densidade e ponderação. Este romance, publicado inicialmente no Brasil (Letras Selvagens, 2011) sairá em breve em Portugal (Abysmo), e também por isso aproveito esta nossa "série" no Delito de Opinião para o anunciar, coisa que vem do interesse do livro e desta vontade de amiguismo, que o Cabrita é um tipo que vale a pena e também porque se o bloguismo vale para algo é para dar uns abraços a quem nos apetece.

Aqui deixa o seu olhar, desencantado parece-me, sobre o seu Moçambique, esse onde nos encastramos. Um verbe mais depurada do que a sua habitual. Sem pitada de exotismos, das belezas tropicais ou das pobrezas bíblicas, sem mistérios austrais ou abismos pós-coloniais, utopias desvanecidas ou boas causas, mais ou menos poetizadas, que abundam em tantos outros. Com recurso a uma linha policial - e nisso, só nisso, se aparentando a algumas outras construções ficcionais portuguesas recentes sobre o país -, que acaba por ser apenas o fio de prumo para equilibrar as múltiplas variáveis do bailado melancólico que avassala as personagens.

Um manifesto iluminista, até expresso no título, em que o Cabrita se insurge com a persistência da história (de uma tradição moderna, direi), que vê como desagregadora, violadora da reciprocidade necessária ao bem comum, comunitarista que assim se desvenda o autor. Ainda assim, talvez paradoxal, europeu desiludido, deixando entender como é a prática africana que alimenta a acção europeia - é assim que vejo a articulação entre os dois protagonistas, o moçambicano Raul e o pós-moçambicano César (neste habitando algo do próprio autor, digo eu). No final, optimista trágico (?), deixa o autor a ténue esperança de uma mitigada redenção.

Raramente gostei tanto de um livro com o qual tanto discordo. Leiam-no, é a minha palavra.

 

E a seguir virão as (actuais) leituras da Laura Ramos.

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Pouco afeiçoado à tômbola das novidades, são muitas as vezes que melhor defino os meus gostos pelo que deliberadamente não estou a ler. O método, sendo um bocado cáustico, tem a enorme vantagem de reduzir ao mínimo as desilusões e dar sempre por bem empregue o dinheiro e o tempo despendido nas leituras selecionadas.

Bem podem os livros hibernarem anos na estante após a pulsão urgente da compra até ao dia em que misteriosos impulsos tornem a sua leitura imprescindível. Foi assim com “Tirano Banderas” comprado numa qualquer passagem por Badajoz e por motivos que as motivações esquecem (honni soit qui mal y pense) só convocado ao activo no princípio deste ano.

Já lido, apreciado e imaginado, que são estas as fases por que passam os livros, traz-se a obra-prima de Ramón del Valle-Inclán à colação porque a sua leitura inspirou prolongamento por “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias que hoje repousa na mesa de cabeceira durante o dia para à noite despertar quando lhe pego. É muito mais divertido os livros sucederem-se na órbitra uns do outros, este a pedir aquele e assim sucessivamente de universo em universo até sentir-se que é altura de mudar de viagem.

O picaresco da edad de oro, o castelhano adocicado e feroz do México e o ritmo truculento da modernidade daqueles épicos anos 20, convertem “Tirano Banderas” numa obra-prima do seu tempo, ou seja, sem uma ruga se lido hoje. É um livro faiscante em que os crioulismos disputam cada parágrafo ao finíssimo léxico clássico, e onde não há página em que não palpite o sangue, o suor e a canícula. Tais elementos são o combustível para a crueldade da narrativa e das personagens, às quais se equivale a escrita cruel de Valle-Inclán.

Publicado em 1926, “Tirano Banderas” foi lido pelo guatemalteco Asturias tinha ele 37 anos, já bem temperados pela luta política, cuja aventura mais trepidante fora a participação no derrube do tirano Manuel Estrada Cabreba. Que a obra de Valle-Inclán haja influenciado a inspiração de Ángel Asturias é um facto palpável quando se lêem ambos os livros de enfiada. Mal sabiam eles, infundidos na esperança típica dos escritores, que a Espanha estava a caminho de décadas "de sofrimento e que a Guatemala dele ainda não se tenha libertado, mesmo já século XXI adentro.

"El Señor Presidente foi escrito em 1933 mas ficou prudentemente guardado numa gaveta até 1946; o autor sabia bem as labaredas e os problemas que chamejavam daquelas páginas. Às rutilantes características da obra de Valle-Inclán, Asturias acrescentou uma elaboração narrativa pejada de acidentes verbais e linguísticos que há quem chame de surrealistas, mas entre nós basta dizê-los vigorosos, porque o amor à língua, não a tomando como um instrumento mas como um mármore escultórico, deveria ser a razão primeira que faz de alguém um escritor.

Se cada uma destas obras isoladamente refulge um brilho intenso, assim concatenadas como foram lidas, parece que nada fica por dizer da malvadez dos tiranos, da sabuja concupiscência dos seus acólitos, da amoralidade que inspiram na oposição e da violenta desesperança que derramam nas sociedades.

Na grave e ensimesmada literatura portuguesa do século XX, abarrotada de Dantas, Torgas, Namoras e quejandos urbano-telurismos, nenhuma obra ousou aproximar-se da vitalidade efusiva de “Tirano Banderas” e de “El Señor Presidente”; assim de longe talvez só “Dinossauro Excelentíssimo” de Cardoso Pires possa sugerir semelhante animação.

 

Passa ao outro e não ao mesmo, não é JPT?

 

 

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Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.

 

Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.

 

Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.

Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).

 

Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.

 

Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.

 

Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros. 

 

Siga a série, com o José Navarro de Andrade.

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O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

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Há qualquer coisa de muito interessante na leitura da obra de um escritor seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, pegando nos seus livros mais antigos e seguindo-os até aos mais actuais. Sobretudo quando esse autor estabelece um universo ficcional no qual vai enquadrando ao longo dos anos a sua ficção, ou uma parte dela, dando aos seus leitores a possibilidade de o acompanharem de forma única na sua evolução enquanto autor. Há mais ou menos dois anos comecei a ler assim Discworld, de Terry Pratchett (ver como a escrita e o mundo ficiconal evoluem a cada livro é fascinante - e ainda nem cheguei a metade); há dias, e com o mesmo propósito, peguei em Consider Phlebas, livro de 1987 com o qual o autor escocês Iain Banks - ou, no caso, Iain M. Banks, ganhando o "M." nos seus títulos de ficção científica - deu início à série "Culture" (com um título, já agora, retirado de uma passagem de The Waste Land, de T.S. Eliot).

 

Na prática, e por aquilo que já tive oportunidade de ler (ainda não vou a meio), Consider Phlebas parece ser uma aventura quase ao estilo de space opera, construída num universo fascinante que assenta em ideias e em conceitos tradicionais de ficção científica (as esferas e os anéis de Dyson, as Inteligências Artificiais muito... peculiares, os shapeshifters). E, claro, com uma prosa rica, evocativa nas descrições, e viva nos diálogos. Até ao momento, as desventuras do protagonista com aquele que será porventura o grupo de mercenários mais azarado que o género já conheceu são divertidas - mas todos os pequenos detalhes que Banks sopra para o leitor sobre aquele universo pós-escassez na qual a Humanidade, ou uma qualquer forma de Humanidade, construiu a sua utopia hedonista com a ajuda (e a governação) de Inteligências Artificiais são aliciantes. É este universo que Banks explora ao longo dos vários livros que compõem a série "Culture" - e que conto descobrir nos próximos tempos, dos livros mais antigos aos mais recentes (ainda que tal ordem de leitura não seja de todo necessária). 

 

Até ao momento, Iain M. Banks (que sem o "M." publicou livros como The Wasp Factory, Complicity ou Stonemouth) publicou nove livros e uns poucos contos dentro do universo ficcional de "Culture" - e, infelizmente, é improvável que venha a escrever mais algum. Em Abril, o autor apanhou os seus muitos leitores (de ambas as ficções) de surpresa com um diagnóstico de cancro terminal, que provavelmente não lhe permitirá viver mais um ano completo. O seu próximo livro, The Quarry, com publicação prevista para breve, será à partida o seu último romance. 

 

 

Este texto, já agora, é o primeiro episódio da segunda temporada de uma série que por aqui experimentámos há alguns meses (ano e meio, vá - fica aqui o recap), e à qual agora regressamos. Não sei qual será o argumento do próximo episódio, mas podemos perguntar ao José Gomes André, a cargo da realização. 

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