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A cultura entre dois homens de espectro oposto

por João Pedro Pimenta, em 13.06.19

 

Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo.

Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Ruben.

 

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Comemorar o 28 de Maio

por jpt, em 29.05.19

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A notícia é de 28 de Maio ("curiosa data", se glosando Mota Amaral): "Divulgar informação sobre grandes devedores ameaça a estabilidade, avisa o Banco de Portugal", uma veemente defesa dessa verdadeira "evolução na continuidade" feita pelo organismo dirigido por um indivíduo tendente à amnésia. Nesse mesmo dia se soube que o Banco de Portugal "calcula em 23,8 mil milhões de euros os fundos públicos injetados na banca nos últimos 12 anos. Falta recuperar cerca de 80%.". E ainda no vigoroso 28 de Maio, a GNR sai para a estrada para penhorar os carros aos micro-devedores fiscais.

Entretanto, durante a referida data, imensos portugueses se afadigam celebrando a "vitória da esquerda" e, acima de tudo, "a derrota da direita", esta um magma neoliberal ao serviço do capitalismo desumano. Outros, e bastantes, dissertam ainda sobre as causas da "abstenção eleitoral", especulando, implícita ou explicitamente, sobre o quanto esta influenciou a "derrota da (pérfida) direita" e/ou apoucou a "vitória da (bondosa) esquerda".

Que dizer de tudo isto, desta gente festiva? Só "Ah, Ah, Ah", para citar José Berardo, o apaniguado de José Sócrates.

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Os nazis, esses esquerdalhos

por João Pedro Pimenta, em 06.04.19

Segundo Jair Bolsonaro, esse grande pensador político, o nazismo era de esquerda porque "tinha socialismo no nome". Pois tinha, provém do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E a República Democrática Alemã e a República Popular Democrática da Coreia do Norte sempre foram modelos de democracia porque tinham "democrática" no nome. Se calhar vêm daí as dúvidas de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte. Vai-se a ver, Bolsonaro e Bernardino até têm ideias parecidas.

Mas há quem tenha ideias fixas. Muitos dos apoiantes desta tese continuam a defendê-la nas redes sociais, como Maria Vieira, actriz convertida em comentadora política, que aparentemente descobriu agora que nazi é abreviatura de nationalsozialismus (ou nem tanto, porque também diz que "os nacionais-socialistas depois ficaram nazis) e sente-se defraudada "pelos historiadores comunistas" que "andaram a passar a ideia de que o nazismo era de extrema-direita" (confirmar isto na página de Facebook da senhora).

Esta estranha ideia de rever a posição do nazismo no espectro político mostra bem como as massas hoje em dia se deixam arrastar pelas redes sociais e por demagogos, tanto os messiânicos como os de caixa de comentários. Houve uma discussão idêntica, há uns anos, entre José Rodrigues dos Santos, que jurava a pés juntos que o fascismo provinha do marxismo, e António Araújo (longe de ser marxista), que o contradisse com sólida argumentação. Ao menos aí houve polémica nos jornais; quase que me atrevo a dizer "como antigamente", só que sem os numerosos pontos de exclamação e a ameaça de bengaladas.

Mas só para dar uma pequena ajuda à ideia revisionista de que o nazismo era de esquerda e que o fascismo "era marxista", lembrei-me de um livro meio esquecido mas que ainda tenho num estante qualquer, o "Testamento Político de Mussolini" com prefácio de Alfredo Pimenta (não é meu parente, asseguro). Mais do que a herança da Duce, interessam aqui as palavras do historiador português fundador da Acção Realista, monárquico tradicionalista e com ideias próximas do Integralismo Lusitano. Pimenta eleva Mussolini aos píncaros, apesar de "não se considerar feixista" (podíamos usar o aportuguesamento do termo, como fazem os galegos), considera-o restaurador do império romano" como Hitler tinha restaurado "o império germânico" e Salazar "o império lusitano". Mussolini começou no socialismo, como se sabe, mas as suas convicções mudaram com os anos. Alfredo Pimenta, tal como António Sardinha, o ideólogo do Integralismo, também teve um percurso de extremos: começou no anarquismo, passou pelo republicanismo moderado e acabou na tradicionalismo anti-liberal e anti-democrata. É um bom exemplo de como há mudanças profundas em certos percursos políticos, e uma testemunha óbvia de que os compagnons de route dos fascistas por esta altura eram os tradicionalistas e não os marxistas e que o nacional-socialismo era uma doutrina da direita revolucionária e nunca da esquerda.

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Reformismo e revolução

por Pedro Correia, em 02.04.19

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O Bloco - bloqueado como nunca - acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada "verdadeira esquerda", os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em "locomotiva da história", não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares - seu principal mentor ideológico - iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma "geringonça", fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio - autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

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A melancolia de António Costa

por Pedro Correia, em 13.02.19

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A mais recente debandada de vários membros do Bloco de Esquerda - entre os quais se encontram diversos fundadores daquela que constitui hoje a maior bancada parlamentar situada à esquerda (embora à direita, no hemiciclo) da do PS - constitui certamente um aviso de que poderá estar para breve uma recomposição deste tabuleiro político. Em alternativa à sua definitiva decomposição.

 

Com a formação da "geringonça", em Novembro de 2015, António Costa secou os dois principais blocos políticos que ainda se afirmam defensores da via revolucionária - ou "socialista" - para a tomada do poder e a transformação da sociedade.

O BE equivale hoje à ala esquerda do PS, sendo notórios os vasos comunicantes entre os dois partidos e a ambição do núcleo dirigente bloquista de integrar um Executivo liderado pelo partido que Mário Soares fundou em 1973.

O PCP abandonou a via do protesto, trocando-a pela via do resmungo ocasional enquanto baixa os decibéis para não ferir a sensibilidade governativa.

Ambos os partidos aceitaram nesta legislatura o que recusaram na anterior: a ortodoxia financeira de Bruxelas, o aperto na despesa pública, a primazia atribuída ao controlo do défice. Costa anestesiou BE e PCP com umas vagas flores de retórica "socialista" enquanto entregava a condução integral dos assuntos do Estado, na componente financeira, a Mário Centeno, recém-convertido à austera disciplina imposta pelo Banco Central Europeu. E com tanto zelo o professor de Finanças se prestou à missão que acabou glorificado com o título honorífico de presidente do Eurogrupo. Uma justa recompensa por se ter revelado o campeão das cativações. Ou dos orçamentos mentirosos, para evitar um eufemismo.

 

Há quase quatro anos que não escutamos ninguém, por bandas do BE, exigir a renegociação da dívida - estribilho incessantemente martelado nos quatro anos anteriores - nem reivindicar a saída de Portugal do sistema monetário europeu. Ainda menos se ouve por aquelas bandas um vago sussurro em defesa da "revolução socialista". Os bloquistas, já com um pé no umbral da porta que lhes dará acesso directo à próxima coligação governamental, nada fazem para ensombrar o sorriso de Centeno.

Quanto ao PCP, continua a reivindicar em teoria o adeus ao euro e o regresso ao escudo, mas já ninguém leva a sério esta proclamação mecânica após a bancada comunista ter votado cordatamente, de braço dado com o PS, quatro orçamentos que validavam a moeda única e as políticas a ela associadas. Transfiguração reformista e proto-capitalista que lhe valeu, de resto, uma derrocada eleitoral nas autárquicas de 2017. E vem gerando muita contestação interna, que seguramente seria alvo de notícias nos jornais se estes aplicassem ao PCP os critérios informativos que reservam aos restantes partidos.

 

O socialismo europeu há muito ultrapassou a sua fase épica: limita-se hoje a gerir o sistema capitalista, desempenhando a tarefa insubstituível de secar as alternativas de cariz revolucionário que ainda lhe mordiam o flanco esquerdo. É este o papel que António Costa tem exercido em Portugal. Um papel histórico, podemos já dizê-lo sem desmentido.

Daí o ar melancólico que o primeiro-ministro vem exibindo nas suas mais recentes aparições públicas. Ele não ignora nada disto. Nem a debandada em curso nos dois parceiros da "geringonça" - ruidosa no BE, muito mais silenciosa no PCP - o apanha de surpresa. No fundo, está lá para cumprir esta missão, por mais que intimamente lhe custe. Sem estados de alma, Centeno - o seu operacional máximo nesta estratégia - foi devidamente recompensado. O mesmo sucederá com ele, num futuro próximo. Mas, de algum modo, o essencial do seu encargo já pertence ao passado.

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Que esquerda é esta?

por Pedro Correia, em 01.02.19

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Jerónimo de Sousa diz-se de esquerda.

Mas que esquerda é esta, que apoia o capitalismo selvagem na China, a plutocracia criminosa de Moscovo, o sistema totalitário vigente na Coreia do Norte e a miserável "revolução bolivariana" que levou a Venezuela ao extremo da penúria, com 47% das famílias a passar fome?

Acabo de ler uma mensagem de «calorosas saudações» do secretário-geral do PCP, com o habitual jargão leninista, saudando o «caminho libertador» inaugurado por Nicolás Maduro e os seus esbirros que prendem, torturam e matam opositores, liquidam órgãos de informação, silenciam magistrados independentes e já condenaram três milhões de venezuelanos ao exílio. Num país que, possuindo as maiores reservas de petróleo do hemisfério ocidental, tem um salário mínimo de sete dólares,  ostenta a maior inflação a nível planetário e sofre de permanente escassez de medicamentos e alimentos básicos.

Releio esta carta com papel timbrado do PCP, em nome dos valores da "esquerda", e de novo me interrogo: que esquerda é esta que apoia a fome, cultiva a pobreza, justifica a miséria, aplaude a violência, enaltece a prisão política, amordaça a liberdade e renega a esperança?

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O equívoco Mário Machado

por João Pedro Pimenta, em 15.01.19

 

A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que caem nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não exactamente conhecidos por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.

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Frases de 2018 (35)

por Pedro Correia, em 17.09.18

«Ser de esquerda não é a mesma coisa que ser franciscano.»

Ricardo Araújo Pereira, em entrevista ao Observador

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Ser de esquerda ou de direita

por Pedro Correia, em 11.09.18

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Não passa um dia sem que leia alegados analistas políticos usando e abusando de rótulos identitários sem um menor esboço de rigor. Incluo nestes rótulos a estafada dicotomia "esquerda/direita". Que tenho cada vez mais dificuldade em aceitar como forma de interpretar o mundo contemporâneo, caracterizado por fracturas de outro género.

O que é ser "de direita"? Quais os requisitos necessários para meter alguém na gaveta da "esquerda"? E quem está habilitado a emitir certidões deste tipo?

 

Estes dísticos têm, desde logo, o defeito de nunca valerem por si: necessitam sempre de uma bengala. Neste caso, uma bengala geográfica. Porque quem se diz de esquerda ou de direita situa-se invariavelmente em função de terceiros: ninguém está à esquerda ou à direita de si próprio.

O que nos conduz ao aparente paradoxo de qualquer de nós poder ser, em simultâneo "de esquerda" e "de direita". A menos que se trate de alguém tão colado a um extremo do espectro político que tenha a leste ou a oeste, conforme o caso, apenas um muro.

Falo por mim: sou de esquerda e de direita. Porque me situo muito mais à esquerda do que o PNR e muito mais à direita do que o MRPP. Seguramente 99% dos meus compatriotas estarão como eu.

 

Os cenários podem multiplicar-se, estreitando as margens da equação mas conduzindo ao mesmo resultado: não faz sentido alguém assumir-se politicamente em função de coordenadas geográficas que dependem sempre do contexto e das circunstâncias.

Tomemos alguns exemplos: Ramalho Eanes, eleito em 1976 como hipotético "candidato da direita" à Presidência da República, seria reeleito quatro anos depois como suposto "candidato da esquerda" - sem nunca ter deixado de ser a mesma pessoa nem abdicado do essencial do seu pensamento político. E o Mário Soares que combateu Álvaro Cunhal em 1975, perante a fúria da "esquerda", não seria estruturalmente o mesmo que colidiu com Cavaco Silva no seu segundo mandato em Belém, escandalizando parte da "direita"?

 

Um ser humano é muito mais do que a soma ou a subtracção de pontos cardeais. Gostaria que os comentadores e os jornalistas que reduzem a vida partidária aos gestos mecânicos de um polícia-sinaleiro se lembrassem mais vezes disto, rejeitando rótulos que podem ser úteis para os amantes da taxidermia mas empobrecem o debate político, reduzindo-o a tosca caricatura. Cada ser humano é demasiado complexo para caber por inteiro numa etiqueta.

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Mnemosyne

por Diogo Noivo, em 10.07.18

Na semana passada assinalou-se o terceiro aniversário do referendo onde uma parte importante do eleitorado grego deu um cartão vermelho à austeridade e recusou a “escravatura” da dívida. Tendo esta efeméride como pano de fundo, Zoe Konstantopoulou, ex-Presidente do Parlamento grego e antiga militante do Syriza, publicou um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian onde faz a revisão da matéria dada. Eis as passagens dignas de antologia:

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“Pense como o povo britânico olharia para um primeiro-ministro eleito com o intuito de acabar com as privatizações e que, em vez disso, privatizou quase todos os bens públicos; que foi eleito para servir a paz e que, em vez disso, facilitou a acção militar contra alvos na Síria e concordou com a venda de armas a países acusados de crimes internacionais; que foi eleito para proteger as casas das pessoas, e que ficou parado enquanto os bancos se apoderavam delas, deixando as pessoas sem abrigo; que foi eleito para servir a democracia e a independência do seu país e que, em vez disso, o entregou à UE, ao FMI e ao BCE. Isto foi o que Tsipras fez ao povo grego.”

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“A vida tornou-se insuportável. O desemprego dos jovens é a norma e estima-se que 8% da população abandonou o país em busca de trabalho. O salário mínimo não paga as contas e centenas de milhares de famílias ficaram sem eletricidade”.

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“Tsipras prometeu destruir os oligarcas da comunicação social. Hoje, os velhos oligarcas ainda controlam a imprensa grega, enquanto uma nova geração, os “oligarcas da era Tsipras”, se estabeleceram”.

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“Em outubro do ano passado, representando um estado falido, ele [Tsipras] gastou 2,4 mil milhões de dólares na compra de caças F-16 aos EUA. Elogiou Donald Trump por continuar a “tradição de democracia e liberdade” que nasceu na Grécia.”

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A hipocrisia da esquerda.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.18

O que caracteriza certos políticos de esquerda é precisamente a sua refinada hipocrisia. Enchem-se de proclamações morais, quando eles próprios dão um péssimo exemplo no seu comportamento pessoal. Na Espanha em 2012 Pablo Iglésias publicou no twitter uma crítica ao Ministro da Economia do PP perguntando: "Entregarias a economia do país a quem gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?". Agora foi ele próprio gastar 615.000 euros num apartamento de luxo.

 

Mas António Costa não lhe fica atrás. Em 7 de Maio, na sua moção ao Congresso, acusou o governo do PSD e do CDS de ter criado "uma lei das rendas injusta e desumana que nem os idosos poupa à especulação imobiliária". Agora ficou-se a saber que, não apenas anda a fazer negócios imobiliários enquanto exerce as funções de primeiro-ministro, como também comprou a um casal de idosos um apartamento na Rua do Sol ao Rato, que vendeu 10 meses depois pelo dobro do preço. Pelos vistos, quando fala em lesão de idosos pela especulação imobiliária, António Costa possui "um saber só de experiências feito". Aliás, por muito grande que seja a especulação imobiliária em Portugal, deve ser caso único um investidor ter obtido em dez meses uma mais-valia de 100% na venda de um imóvel. António  Costa merece seguramente ganhar o óscar da especulação imobiliária.

 

Aqui se vê bem como o discurso de certos políticos de esquerda entra sempre em total contradição com a sua prática. Como bem diz o povo, "bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz". Depois admiram-se do descrédito que atinge a classe política.

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Descubra as diferenças

por Pedro Correia, em 11.12.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

 

«Não precisamos da direita para governar mas pode vir a acontecer.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista à TSF

9 de Dezembro

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Dez meses é muito tempo

por Pedro Correia, em 28.11.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

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- Não há dinheiro para tudo; 

- Não há problema em deslocalizar trabalhadores mais de 350km;
- Devemos ficar felizes pelo "Portugal cumpridor" das obrigações assumidas junto das Instiuições europeias; 
- As pessoas estão primeiro mas apenas se continuarem a pagar IMI por casas que arderam na tragédia dos incêndios;
- O trabalho ao Domingo pode ser pago em vales de desconto do Pingo Doce.

 

Mais duas semanas assim e temos de pedir a intervenção da troika para nos salvar destes austeritários cegos e fundamentalistas.

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Costa, o farolzinho da solidariedade

por Rui Rocha, em 14.11.17

Quer dizer então que o Costa, o príncipe da política, o estadista das emoções, esse ser empático e altruísta, o farolzinho da solidariedade, o alfa e o ómega do humanismo, bem como a maioria que suporta o seu goverrno, os de esquerda, os das pessoas, os dos direitos, dos progressos e das conquistas, das indignações, do diabo a quatro, aprovaram um regime de compensação pela tragédia de Pedrógão que deixa de fora os feridos graves, seres humanos que ficarão indelevelmente marcados para toda a vida por consequência da incúria de um Estado que os deixou abandonados à sua sorte? Pois muito me contam.

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Abriu a época de tiro ao Marcelo

por Pedro Correia, em 26.10.17

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Nada ficará na mesma entre o Presidente da República e o primeiro-ministro depois do trágico 15 de Outubro. Os primeiros indícios estão já aí: Marcelo Rebelo de Sousa vai passar a estar sob a bateria de críticas de alguns destacados apoiantes do Governo no espaço mediático.

Sintomaticamente, o mote foi dado pelo ex-ministro Pedro Silva Pereira faz hoje uma semana, em declarações à TSF. «O Presidente da República está naquela posição fácil de poder alinhar com expressões de indignação e sofrimento do país sem ter que subscrever responsabilidade na solução de problema nenhum», afirmou o antigo braço direito de José Sócrates.

 

A narrativa anti-Marcelo começava assim a ser construída. E nessa mesma noite prolongou-se - em tom mais veemente - numa intervenção feita por Fernando Rosas na TVI 24, acusando o Chefe do Estado de se deixar «atrair pela intriga política» e «exceder o magistério presidencial». Para este fundador do Bloco de Esquerda, e ex-candidato a Belém, não restam dúvidas: «O Presidente quis entalar o Governo.»

Na mesma linha, pronunciou-se Daniel Oliveira, na sua coluna da última edição do semanário Expresso: «O Presidente, uma raposa disfarçada de peluche, aproveitou. Distanciou-se de Costa no tom, o que é fácil para quem apenas tem a parte perfomativa da representação do Estado. (...) Não se enganem: o rei do teatro sensível tem uma frieza invejável no cálculo político.»

 

Hoje a escalada prosseguiu, engrossando o tom. Com "fonte do Governo", não identificada, a confessar-se em estado de choque com Marcelo na manchete do jornal Público. Enquanto Porfírio Silva, membro do Secretariado Nacional socialista, rasgava as vestes perante o «inaceitável aproveitamento politiqueiro de uma enorme tragédia que o País viveu». O alvo continua a ser o Chefe do Estado.

Cereja em cima do bolo: no jornal oficial do PS, há já quem chegue ao ponto de apontar tentações ditatoriais ao inquilino de Belém, lançando o toque a rebate. «A esquerda deve estar unida e coesa, para impedir esta caminhada preocupante e perigosa, combatendo a tentação presidencialista de Marcelo, que ameaça a democracia. E o presidencialismo, é bom ter presente, descamba, por vezes, em ditadura.»

 

Não restam dúvidas: abriu a época de tiro ao Presidente.

São só as linhas iniciais de uma novela que promete ter muitos capítulos. Marcelo estará certamente preparado para ela. Só alguns tontos à direita ainda não perceberam. Mesmo depois de ele ter avisado com todas as letras, na visita que fez a Andorra no mês passado: «Quando viro à direita em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda, não nota. Em vez de aproveitar, não nota.»

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A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

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A Nova Ordem da Culpa

por Rui Rocha, em 08.05.17

Assistimos periodicamente à introdução de determinados temas na discussão pública que seguem os interesses de uma determinada agenda. Foi o que aconteceu, recentemente, com vários textos que pretendem fundamentar um direito de regresso (direito de regresso de quem é aliás coisa que em geral não nos conseguem explicar) sobre o apuramento e a imputação de responsabilidades pela escravatura. Vejamos:
1º Não é sem espanto que constatamos que num momento histórico em que Deus se vai progressivamente retirando do espaço público, se é que não morreu como nos afiançou Nietzsche, a ideia de culpa que era inerente e fundamental em territórios tomados pelo divino, longe de partir para parte incerta, é apropriada por alguns para construir uma nova condenação decalcada sobre a ideia de pecado original (já lá iremos no ponto 2º ao esclarecimento de que pecado é esse afinal) num sistema construído para proporcionar a esses mesmos uma redenção final sem necessidade sequer de confissão e contrição (como se verá no ponto 3º). Por agora, é suficiente sublinhar o primeiro traço da hipocrisia: são os mais ferozes soldados da guerra santa pela erradicação de Deus e da religião da comunidade que, longe de nos libertarem das amarras da heteronormatividade imposta pelo divino, quase sempre alicerçada nos conceitos operacionais de culpa e de expiação, tomam para si a missão de anunciar, evangelizar e, se os deixássemos, punir, a partir de uma ideia de culpa de cujas escrituras se arrogam agora ser os únicos intérpretes. Pense-se o que se quiser sobre a culpa com Deus (ou por Deus, ou contra Deus), mas parece óbvio que não ficaremos melhor com uma culpa que persiste sem Deus, ainda por cima com tais pastores.
2º Num mundo interconectado, com acesso amplo a informação, é fácil promover a expansão da culpa (de uma determinada culpa) no tempo e no espaço. A nossa culpa, se a quisermos tomar ou se nos deixarmos convencer dela, pode estender-se à pobreza extrema de África, à exploração do trabalho na Ásia ou às catástrofes ambientais na América. Note-se que num estado inicial, a culpa perante Deus era individual ou de um grupo, mas suportava-se num nexo de causalidade com actos próprios de que o indivíduo ou a comunidade eram responsáveis. A divindade castigava por um comportamento concreto (devassidão, apostasia, etc.) e com uma consequência directa (perda das colheitas, cheias, uma doença, para só dar alguns exemplos). Agora, o nexo de causalidade e punição perderam a sua relação unívoca com o prevaricador. A culpa tem o tamanho do mundo. Qualquer acto meu de consumo pode aparentemente desencadear a barbárie a milhares de quilómetros. Qualquer acto meu pode desencadear a punição não de mim ou dos meus, mas de pessoas que não conheço que são castigadas com incêndios ou inundações do outro lado do mundo. Esta é uma culpa universal e expansionista. Uma culpa incontrolável e insaciável. Uma culpa que se estende também no tempo. Somos culpados aqui e agora. Mas também somos culpados pelo que aconteceu há 200 anos. Ou mais, se for preciso. Mas não há então limites a essa culpa? Há, claro. Para percebermos quem e o que fica aquém e além dessa culpa é necessário interpretarmos os textos dos acólitos que nos querem impingir este novo tempo. E o traço comum a esta Nova Ordem da Culpa é a sua natureza unidireccional. Embora persistente e expansível até ao infinito no espaço e no tempo, esta culpa é apenas a da civilização ocidental. Sim, temos culpa pelo esclavagismo em África. Mas jamais poderemos culpar os muçulmanos pela invasão da Península Ibérica. Ou criticar os maridos que lêem no Corão que a palavra de Deus é infligir maus tratos às mulheres como forma de reforçar os sagrados laços do casamento. Para um determinado acto, a existência da culpa não é determinada pelo seu valor intrínseco mas pela condição de quem o pratica. É ocidental? Culpado. Não é? Então não temos nada que nos meter nisso. Temos então aqui esclarecido o novo fundamento teológico da culpa. O novo pecado original é o pecado ocidental. A culpa que interessa impôr é então infinita no espaço e no tempo mas é simultaneamente descontínua. Ali onde não se possa imputar à civilização ocidental, entendida como aquela que resulta das democracias liberais, da economia de mercado e, trema-se, do modo de produção capitalista, simplesmente não existe culpa. É este entendimento que permite a um estrénuo defensor do pecado ocidental que nos faz responsáveis pela escravatura do século XVIII, fechar no momento seguinte os olhos à carnificina de Estaline, ao genocídio de Pol Pot, à tortura de Fidel Castro ou à violência de Estado na Venezuela. Não integram no património genético o cromossoma fundador da civilização ocidental? Não são culpados, coitados. Está então desmascarado o 2º traço da hipocrisia dos sacerdotes do Templo da Culpa Ocidental: derrotados pela História, confrontados com os resultados de uma ideologia que desembocou invariavelmente na miséria, na morte e na repressão, não desistem de um impulso de desforra, ainda que para isso tenham que incorrer na mais tortuosa arbitrariedade.
3º Esta culpa que nos querem vender é então uma culpa só dos ocidentais. Mas de todos os ocidentais? Não, na verdade. Qualquer sistema de culpa inclui uma hipótese de redenção. Os judeus acertavam contas pelo sacrifício de bodes expiatórios. Os católicos redimem-se pela contrição, pela confissão e pelas avés-marias. Os vigários da Nova Ordem da Culpa encontraram um mecanismo mais sofisticado. A confissão, por exemplo, pressupõe a assunção de culpa. Os vigários querem a alma lavada mas não assumem culpa nenhuma. Para se eximirem ao pecado ocidental, identificam-se com a vítima. Quando pedem o pagamento de uma reparação pela escravatura, colocam-se do lado de lá. É como se eles próprios tivessem sido levados da costa de África em barcos de negreiros para trabalhos forçados nas roças de café do Brasil. E é isto mesmo que lhes permite usar um Iphone sem problemas de consciência. Bebem do fino mas não estão disponíveis para pagarem por ele. É este o 3º traço de hipocrisia e, no final, aquele que desmascara definitivamente a imoralidade do sistema de culpa, expiação e redenção que nos propõem e que nunca os inclui como réus do julgamento que pretendem conduzir.

NOTAS FINAIS:
1) O sistema de culpa baseado no pecado ocidental funciona, mutatis mutandis, para outras questões como o colonialismo ou as questões ambientais.
2) Sou ateu mas não sou parvo (creio que ainda me vou arrepender de ter usado a adversativa). Entre culpa julgada pelo Deus do Antigo Testamento ou a vida virtuosa orientada de acordo com os ensinamentos de um Livro das Expiações ditado por Boaventura Sousa Santos, fico como o Burro de Buridan: que venha o Diabo e escolha.

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O valor dos argumentos

por Diogo Noivo, em 15.02.17

Sou, sempre fui, favorável à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Porém, discordâncias à parte, tenho de aplaudir o João Pedro Pimenta pela forma como responde aos talibãs do komentariado nacional que, nesta e noutras matérias, procuram fazer da ética um argumento de disciplina (e de imposição) em detrimento de um debate são, sério e democrático. 

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Frases de 2016 (36)

por Pedro Correia, em 21.12.16

«O puritanismo está hoje do lado da esquerda.»

Ricardo Araújo Pereira em entrevista à Visão, 30 de Novembro

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