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Estátuas para derrubar (5)

por Pedro Correia, em 25.09.20

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Estátua de Francisco Franco, encostada à muralha de Melilha, enclave espanhol em Marrocos

Dois pesos e duas medidas

por Pedro Correia, em 11.08.20

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Juan Carlos em 1975 com o filho, o actual Rei

 

Dizem-me que alguns dos mais estridentes defensores de José Sócrates no espaço mediático, que nunca cessaram de proclamar a presunção de inocência do antigo primeiro-ministro, encontram-se agora entre os que negam esse mesmo direito constitucional ao Rei emérito de Espanha.

Tomam as imputações feitas ao pai do actual monarca por uma notória trampolineira social como se fossem verdades absolutas, jamais as questionando, e apressam-se a condená-lo na praça pública.

Negando a Juan Carlos o que sempre reclamaram para Sócrates.

 

Duplicidade de critério, dupla moral - admitindo que existe alguma. Dois pesos e duas medidas. Para esta gente, a presunção da inocência cai à medida das conveniências políticas do momento e da trincheira em que se instalam.

Gostem ou não gostem, o emérito não foi constituído arguido, sobre ele não pesa qualquer acusação, tem todo o direito de se deslocar para onde entender e de fixar residência sabe-se lá onde. 

 

Algumas carpideiras poderão acusá-lo de ser mulherengo e trair os votos de fidelidade conjugal feitos à Rainha Sofia, sua legítima mulher desde 1962.

Convenhamos que é uma crítica repassada de moralismo passadista, além de uma invasão da esfera íntima do cidadão Borbón. Aliás também aqui sujeita a duplo critério analítico: não me recordo de ouvir os queixumes destas beatas quando o antigo Presidente francês François Mitterrand foi a enterrar na presença simultânea da esposa, da amante e da filha adolescente nascida fora do longo e aparentemente feliz enlace conjugal com Danielle Mitterrand.

 

Sobra a questão do regime.

A esquerda radical, aliada aos separatistas catalães, pretende transformar um suposto caso de ilícito penal e tributário associado ao pai de Filipe VI em pretexto para proclamar a república. Parece-me algo tão absurdo como se os norte-americanos tivessem aproveitado em 1974 o caso Watergate, que levou à demissão de Richard Nixon, para iniciarem uma acalorada discussão em torno da forma de Estado, admitindo a instauração da monarquia nos EUA.

Acresce que a república esteve sempre associada ao pior da vida política espanhola nos dois curtos períodos em que vigorou, acabando por morrer de implosão. Na primeira versão durou 22 meses, entre Fevereiro de 1873 e Dezembro de 1874. Na segunda, decorreu entre Abril de 1931 e Março de 1939, embora sobre a totalidade do território espanhol só até Julho de 1936, quando eclodiu a guerra civil, que partiu o país ao meio.

Não deixou saudades em qualquer dos casos.

O editorial que vai faltando cá

por Pedro Correia, em 10.08.20

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El País, o jornal mais influente de Espanha, publicou ontem um editorial que já é uma peça de antologia. Um texto demolidor para o Governo liderado por Pedro Sánchez, que tem revelado uma incompetência capaz até de causar indignação àquele diário, que nunca escondeu afinidades com o PSOE, principal partido do actual Executivo do país vizinho.

 

Seguem-se alguns excertos deste editorial, com tradução minha:

«O balanço das infecções é tudo menos tranquilizador. Os focos activos aproximam-se dos 600, o que converte Espanha no país da Europa Ocidental com maior número de contágios acumulados de coronavírus. As reuniões familiares ou sociais e os locais de lazer já superam em importância, como fonte de infecção, os precários alojamentos dos trabalhadores sazonais do sector agrícola. Os indicadores básicos da epidemia vão aumentando - isto inclui os diagnosticados, os hospitalizados, os internados em unidades de cuidados intensivos e os mortos. Neste quadro, é difícil entender o discurso sem autocríticas feito esta semana pelo presidente do Governo, Pedro Sánchez. Houve erros, que continuam a existir. É imperioso identificá-los e corrigi-los perante uma segunda vaga que cada vez parece mais próxima, se é que não está já entre nós.

Desde a chegada da pandemia a Espanha, os falecimentos por Covid-19 estão certamente mais perto dos cerca de 44 mil sugeridos pelo excesso de mortalidade registada do que dos 28 mil confirmados pela autoridade sanitária; mais de 50 mil trabalhadores da área da Saúde foram infectados e 20 mil pessoas morreram em lares de recolhimento de idosos. Estas cifras situam o país entre os mais afectados do mundo. A preparação do sistema sanitário revelou-se obviamente deficiente, e em aspectos importantes assim continua. (...) A gestão dos dados tem sido desastrosa, com disparidade de critérios entre comunidades autónomas e mudanças de rumo a meio do processo. O país não pode ficar à mercê da repetição destes erros no caso de uma segunda vaga. É compreensível que o Governo não queira afugentar ainda mais o turismo, mas não enquanto desvaloriza a gravidade da situação. Há vidas em jogo.

Se o Governo não vê motivos para críticas à sua própria actuação, terão de ser os especialistas a encontrá-los. (...) Os cientistas questionam como é possível que Espanha, que supúnhamos dotada de um dos melhores sistemas sanitários do mundo, tenha sofrido o golpe do coronavírus com tanta intensidade e identificam os factores mais prováveis que originaram isto. O país carecia de um plano de preparação antipandémica, com sistemas de vigilância insuficientes, reduzida capacidade para fazer testes e uma generalizada escassez de equipamentos de protecção individual. As autoridades centrais e autonómicas reagiram tarde e os processos de decisão foram lentos.»

 

Porque transcrevo estas linhas? Pelo mais simples dos motivos: porque gostaria que houvesse editoriais destes na imprensa portuguesa. 

Infelizmente, procuro mas não os encontro. Se existem, estão bem escondidos. O que se vai lendo por cá é conversa mole, cheia de rodriguinhos e de complacência perante os decisores políticos e sanitários. O que é sintoma da profunda crise em que mergulhou a nossa imprensa.

A exclusão de eleitores doentes

por Pedro Correia, em 16.07.20

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A pandemia traz péssimas notícias para a democracia. Desde logo na participação eleitoral, como ficou patente em eleições muito recentes: a segunda volta das autárquicas em França e as regionais no País Basco registaram o menor índice de afluência às urnas de que há memória. No primeiro caso, a abstenção subiu aos 60% (o anterior máximo era de apenas 36%, ocorrido em 2014). No segundo caso, praticamente metade dos eleitores permaneceu em casa (um aumento de oito pontos percentuais). 

A baixa participação eleitoral favorece todos os extremismos e todos os populismos, que mobilizam com facilidade o voto de protesto, fazendo recuar em proporção os eleitores mais moderados, que são menos militantes.

 

Mas o mais preocupante é o precedente que acaba de ser inaugurado nas eleições espanholas - além do País Basco, também os galegos foram às urnas no passado domingo para escolherem os novos deputados do parlamento autonómico. Sem aparente respaldo constitucional, mas amparados por uma controversa decisão da junta eleitoral central, cerca de cinco centenas de eleitores recenseados nestas duas comunidades autónomas viram-se privados do direito de voto por estarem infectados com Covid-19.

O aviso que receberam foi categórico: se pretendessem votar seriam processados por delito de desobediência contra a saúde pública.

Como se não bastasse a estigmatização reputacional que estas pessoas já sofrem, ei-las agora também vítimas de estigmatização política. Com chancela oficial.

 

Esta restrição da capacidade eleitoral a pretexto da pandemia em curso é inaceitável por ferir o direito à igualdade, pedra basilar dos ordenamentos constitucionais democráticos. E pelo perigoso precedente que inaugura: em futuras eleições, qualquer pretexto sanitário pode ser invocado para retirar capacidade eleitoral aos cidadãos portadores de doença. Hoje são poucos, amanhã podem ser milhões.

Este, sim, é o "distanciamento social" que alguns idiotas apregoam por aí, confundindo-o com distanciamento físico. O adjectivo social congrega, não segrega. Quem não percebe isto dificilmente perceberá seja o que for.

Amarga lição para o Bloco

por Pedro Correia, em 14.07.20

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Pablo Iglesias: «derrota sem paliativos» na Galiza e no País Basco

 

Sabe-se hoje que o Bloco de Esquerda esteve a um passo de integrar um Governo de coligação com os socialistas, em Novembro de 2015. Naquela altura António Costa estava disposto a tudo para ascender ao poder na sequência imediata da derrota aritmética sofrida nas legislativas, meses após ter defenestrado o seu camarada António José Seguro por averbar uma vitória eleitoral nas europeias que lhe soube a "poucochinho".

Durante alguns dias, diversos cenários foram equacionados. Só a intransigente recusa do PCP em participar no Executivo fez recuar o BE. O partido da foice e do martelo vive permanentemente assombrado com o fantasma de 1981, quando François Mitterrand integrou quatro ministros comunistas num Executivo de coligação dominado pelos socialistas em Paris: foi o primeiro passo para a irremediável decadência do Partido Comunista, que chegou a ser o mais votado em França e hoje está quase extinto.

O BE não quis deixar o PCP à solta na oposição de esquerda a Costa: os dois partidos detestam-se e vigiam-se mutuamente, monitorizando cada passo. Assim nasceu a chamada "geringonça" - solução esdrúxula em que todos se uniam pela negativa, rejeitando novo Executivo PSD/CDS, mas sem acordo de legislatura além de umas linhas rabiscadas à sucapa num gabinete parlamentar com os jornalistas mantidos à distância e nem uma câmara de televisão a registar o acontecimento. Como se tivessem vergonha uns dos outros.

 

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Um papel rabiscado à pressa: assim nascia a "geringonça"

 

A verdade é que, desta forma, Costa conseguiu o melhor de dois mundos: a troco de cedências mínimas, viu todos os Orçamentos do Estado aprovados sem o ónus de trabalhar com ministros filiados noutras forças partidárias. Vocacionado para exercer como força de protesto, cada vez mais simbólico e residual, o PCP fez um enorme favor ao primeiro-ministro. 

Mas também acabou por fazer um favor ao Bloco. Repare-se no que acaba de suceder em Espanha: em duas importantes eleições de âmbito regional - as primeiras ali realizadas desde a formação da aliança governativa entre PSOE e Unidas Podemos (UP), marca similar ao BE no país vizinho - a grande derrotada foi precisamente a esquerda radical, hoje com cinco representantes no Conselho de Ministros. Incluindo uma das vice-presidências do Governo: a da área social, confiada a Pablo Iglesias.

É o primeiro Governo de coligação em Espanha desde 1936. E é também a primeira vez desde a precária "Frente Popular" formada nesse ano que a esquerda de matriz marxista-leninista ascende ali a postos governativos. Seis meses depois, já com graves consequências para os seus desígnios: a formação liderada por Iglesias acaba de sofrer duas vergastadas nas eleições autonómicas disputadas em terrenos emblemáticos. Fica sem representação no parlamento da Galiza, onde há quatro anos fora a segunda força mais votada, com 14 deputados e 19% dos votos (agora só conseguiu 4%), e perde quase metade do seu elenco parlamentar no País Basco, onde cai para o quarto posto, recuando de 11 para seis deputados e baixando de 15% para 8%.

«Uma derrota sem paliativos», como a descreveu o próprio Iglesias numa mensagem do Twitter - única reacção de um dirigente nacional da UP na noite eleitoral de domingo, dominada pelas vitórias do Partido Popular na Galiza e do Partido Nacionalista (conservador moderado) no País Basco. A chamada "verdadeira esquerda", que ascendeu ao poder nas circunstâncias mais adversas (após ter registado um claro recuo nas urnas a nível nacional e escassas semanas antes do início da crise pandémica) paga agora o preço da erosão governativa. E também das suas fracturas internas: na Galiza, Iglesias impôs um fiel à revelia das estruturas locais, desmobilizando as bases; no País Basco, a marca UP - que congrega várias forças à esquerda do PSOE - teve quatro líderes em cinco anos. 

 

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Catarina e Costa: antes ser Sísifo do que Fausto

 

Catarina Martins olha para estes catastróficos resultados do seu camarada Iglesias e certamente já terá agradecido intimamente ao PCP o favor de ter contribuído para manter o Bloco fora do Governo, mesmo com os socialistas sem maioria. Porque a derrocada dos "podemistas" em Espanha ilustra bem o dilema insolúvel das forças políticas situadas à esquerda do PS em Portugal: o poder, para elas, situa-se sempre numa dimensão utópica. Optam por Sísifo em vez de Fausto: estão condenadas a reclamá-lo em permanência sem jamais cederem à tentação de o experimentar. Só assim evitam um rápido declínio e a imparável extinção.

Eis uma amarga lição para todos aqueles que, no interior do Bloco, ainda sonham com um lugar no Conselho de Ministros. É a vida, como dizia o outro.

Diz-me quem te elogia

por Pedro Correia, em 09.04.20

Acompanhei hoje, em directo, o debate parlamentar em Espanha. Tanto o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, como o líder parlamentar do Podemos, Pablo Echenique, elogiaram Rui Rio. Nunca me lembro de ter ouvido tantos elogios a um político português no Congresso dos Deputados em Madrid. 

Diz-me quem te elogia, dir-te-ei quem és.

Aqui ao lado, demasiado perto

por Pedro Correia, em 03.04.20

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Com mais de 10 mil falecidos, Espanha regista 20% das mortes por coronavírus em todo o mundo.

 

Pandemia deixa já em Abril três milhões de espanhóis sem trabalho.

 

Desemprego: a maior subida de sempre. 900 mil postos de trabalho foram destruídos na última quinzena de Março.

 

Sete vezes mais supressão de empregos agora em Espanha do que na crise financeira de 2008.

 

511 pessoas morrem de Covid-19 em lares de idosos na Catalunha.

 

Barcelona: parque de estacionamento convertido em morgue para prevenir repetição do colapso ocorrido em Madrid.

 

Aprender como (não) se faz

por Pedro Correia, em 31.03.20

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Os exemplos devem vir de cima. Mas convém que os espanhóis duvidem das boas práticas daqueles que pretendem pastoreá-los. Como se não bastasse haver três membros do Governo infectados com o coronavírus, além da própria mulher do presidente do Executivo, agora até o director do Centro de Coordenação de Alerta e Emergência Sanitária, Fernando Simón, ficou de quarentena por ter sido declarado portador de Covid-19

Vários dos habituais protagonistas das conferências de imprensa diárias sobre a pandemia emitidas a partir do Palácio da Moncloa têm revelado inoportunos assomos de tosse. Pior ainda: por vezes esquecem-se por completo de cumprir as normas sanitárias que eles mesmo proclamam. Aconteceu com o director-adjunto da Polícia Nacional, José Ángel González, que no domingo começou a tossir e de imediato reagiu como a imagem documenta.

Hoje aconteceu o mesmo, também na Moncloa, ao general Miguel Villarroya, chefe do Estado Maior do Exército. Confirma-se: os maus hábitos são contagiosos do lado de lá da fronteira.

Já recomendava o Frei Tomás: façam o que ele diz, não façam como ele faz.

 

ADENDA, às 23.30: José Ángel González, submetido ao teste do coronavírus, acusou positivo. Outra baixa no combate em Espanha. E motivos acrescidos de preocupação a quem estava com ele quando tossiu repetidamente no Palácio da Moncloa. 

"Isto está a estabilizar", dizem

por Pedro Correia, em 28.03.20

 

Itália: o mais elevado número de mortos por Covid-19 de sempre.

 

Espanha regista o maior número de vítimas mortais num só dia.

 

Portugal: já 100 mortos e 754 profissionais de saúde infectados.

 

Da irresponsabilidade

por Pedro Correia, em 24.03.20

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Estas duas senhoras são Carmen Calvo, a primeira vice-presidente do Governo espanhol, e Begoña Gómez, mulher do presidente do Executivo, Pedro Sánchez. A imagem foi captada no dia 8 de Março, em Madrid, na primeira fila da marcha comemorativa do Dia Internacional da Mulher, que ali reuniu cerca de 120 mil manifestantes. Quando já havia 202 pessoas infectadas e oito falecidas devido à expansão do coronavírus na capital espanhola.

O desfile realizou-se apesar de todas as advertências públicas. Não apenas da Organização Mundial de Saúde, que a 30 de Janeiro havia declarado este surto epidémico como situação de "emergência internacional de saúde pública", mas também do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que a 2 de Março desaconselhou a concentração de multidões para prevenir a galopante transmissão do Covid-19. E do próprio Departamento de Segurança Nacional que funciona junto da Presidência do Conselho de Ministros, que a 3 de Março assinalava a mais recente avaliação de risco sanitário para a população, "entre moderada e elevada", podendo o contágio "generalizar-se" nas semanas seguintes. 

Uma semana depois do desfile, foi tornado público que Begoña Gómez estava infectada. Carmen Calvo encontra-se hospitalizada devido a uma infecção respiratória. Também o sogro e a mãe do chefe do Governo estão internados em consequência da imparável progressão do coronavírus em Espanha, país que regista agora 2.229 mortos e mais de 35 mil infectados.

Se há uma imagem perfeita da irresponsabilidade, é precisamente a que reproduzo acima.

Ventos pandémicos de Espanha [Pub]

por Diogo Noivo, em 22.03.20

Espanha tem mais de 20 mil contagiados e ultrapassou a barreira dos 1000 mortos. O dobro do previsto pelo governo para esta fase da pandemia. Muitos hospitais acabaram com as especialidades médicas: já não há obstetras nem oncologistas, pois estão todos alocados ao esforço de combate ao Covid-19. Assumiram também ter chegado o momento das decisões horrorosas, uma vez que não há capacidade para tratar todos os pacientes. Estão a decidir quem vive e quem morre.

Porque Portugal não é uma ilha, há três lições a tirar dos ventos que vêm de Espanha. Em primeiro lugar, ser proactivo no combate à pandemia. Não há medidas perfeitas, mas há medidas tardias. Hoje, no Observador

Aqui ao lado, demasiado perto

por Pedro Correia, em 20.03.20

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Espanha pode chegar aos 2,5 milhões de infectados nos próximos 20 dias.

 

Madrid em situação limite: morre uma pessoa vítima do coronavírus de 16 em 16 minutos.

 

Grave desabastecimento de máscaras: falta material sanitário em Espanha

 

Unidades de cuidados intensivos atingem limite máximo na capital espanhola.

 

Hospitais preparam-se para privar os mais velhos de acesso a ventiladores.

 

Médicos forçados a optar: prioridade aos doentes com mais hipóteses de sobreviver.

 

Lares da terceira idade transformados em focos de infecção: pelo menos 60 mortos.

 

Dramas permanentes nos lares geriátricos, que imploram auxílio por falta de meios.

 

Restaurantes desistem de entregar comida ao domicílio por medo do contágio.

 

Todos os hotéis e alojamentos turísticos serão encerrados no prazo de uma semana.

 

Hotel Colón e Hotel Marriott despejam hóspedes e começam a acolher doentes.

 

Metade dos espanhóis receia perder o emprego por consequência directa desta crise.

Diário do coronavírus (2)

por Pedro Correia, em 15.03.20

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Não me recordo de ter visto a cidade tão vazia - nem nos feriados de Agosto, há cerca de dez anos, quando Lisboa estava fora dos circuitos turísticos. Hoje, a meio da manhã, eram assim as vistas na Praça de Alvalade e na Avenida de Roma: podíamos circular a meio do asfalto sem nos preocuparmos com os carros, ausentes em parte incerta. Há vírus por aí - o ameaçador coronavírus. Mas, seguramente, respiramos menos dióxido de carbono.

Junto às farmácias, que abundam nesta zona da capital, concentram-se pessoas em estrito respeito das distâncias de segurança. Muitas delas, no entanto, vão em busca do que já não há. Os letreiros nas fachadas esclarecem os incautos: «Não temos álcool, álcool-gel, luvas, máscaras.» Ou seja, tudo quanto é mais procurado de momento.

Apesar de ser um bem escasso, cruzo-me na rua com várias pessoas de máscara na cara. Numa paragem de autocarro, duas mulheres discutem em voz alta, gesticulando muito - ambas mascaradas, o que torna a situação ridícula. Dois fulanos circulam de máscara na testa - outra imagem caricata, tal como a desta jovem que suspende a máscara para fumar, sem suspeitar sequer que a zona do filtro do cigarro pode estar contaminada pois acabou de lhe tocar com os dedos.

 

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Não é de mais sublinhar que as máscaras devem ser usadas apenas por quem já está contaminado, como modo de precaução acrescido para esses doentes, ou para quem trabalha na área da saúde. O único meio seguro para travar a propagação do vírus é o gel desinfectante. Além, claro, do mais antigo, simples e acessível: água e sabão.

Boris Johnson recomendou aos britânicos que cantassem duas vezes os "parabéns a você" enquanto lavavam as mãos, cada vez que chegassem a casa. Boa recomendação: é precisamente isso o que faço. Enquanto vou sabendo que em Espanha o número de mortos já ultrapassa as duas centenas e a própria mulher do presidente do Governo, Pedro Sánchez, está contaminada. Há uma semana, irresponsavelmente, Begoña Gómez e as ministras da Igualdade, Irene Montero, e da Política Territorial, Carolina Darias, participaram num grande desfile em Madrid para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Ignorando todos os avisos e as mais elementares medidas de precaução, distribuíram beijinhos e abraços durante horas: na quinta-feira, as ministras ficaram a saber que também são portadoras do vírus. Consequência de terem menosprezado as mais elementares normas de saúde pública.

 

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Com os péssimos exemplos a virem de onde vêm, não admira que Espanha seja já o segundo país na Europa e o quinto à escala mundial com mais vítimas mortais e mais infectados. Agora Sánchez e Pablo Iglesias - companheiro de Irene Montero e vice-presidente do Governo, que apesar de estar de quarentena compareceu ontem no Conselho de Ministros, noutra evidente demonstração de irresponsabilidade - correm atrás do prejuízo, declarando o estado de emergência e mandando aplicar as primeiras multas aos transgressores. 

Entretanto os espanhóis, sobretudo os residentes em Madrid, fogem para o nosso país. E vários deles, contaminados, estão a ser tratados nos nossos hospitais, tão carecidos de meios técnicos e recursos humanos. O que justifica este comentário de Miguel Sousa Tavares: «É inacreditável que o Governo nos recomende que fiquemos em casa enquanto a porta está aberta para os espanhóis virem para cá tratarem-se.»

Um desabafo compreensível, sem tropeçar nas palavras. E sem necessitar de máscara.

A linha invisível

por Diogo Noivo, em 31.01.20

A 7 de Junho de 1968 a Europa estava com os olhos postos no outro lado do Atlântico. As cerimónias fúnebres de Robert Kennedy, senador norte-americano e irmão do antigo Presidente John Fitzgerald Kennedy, captavam o interesse da generalidade da imprensa mundial. Mas, nesse mesmo dia, do lado de cá do oceano, ocorreu um facto que mudaria para sempre a história do País Basco e de Espanha: a organização nacionalista basca ETA matou pela primeira vez.

Txabi Echebarrieta e Iñaki Sarasketa, ambos membros da ETA, viajavam num carro roubado pela estrada Nacional I Madrid-Irún. Tinham como destino Beasáin, em Guipúscoa, localidade onde receberiam um carregamento de explosivos. Por força de obras na via, tomaram um desvio pela estrada local de Aduna, também na província guipuscoana, onde passaram por uma operação de controlo de tráfego da Guardia Civil composta por dois militares em motociclo. Porventura por ter associado o carro a uma informação interna sobre uma viatura roubada, José Antonio Pardines, um dos gendarmes, seguiu-os e deu-lhes ordem para parar. Estacionou a motorizada em frente ao carro e pediu a documentação aos dois ocupantes. Após detectar irregularidades foi alvejado cinco vezes no torso.

O cadáver foi encontrado com o coldre da arma de serviço fechado, o que demonstra que Pardines foi surpreendido - facto, de resto, corroborado por análises forenses e testemunhos. Ao contrário da versão divulgada pela propaganda etarra, o jovem Guardia Civil de 25 anos não morreu numa troca de tiros, mas foi executado a sangue-frio. A 7 de Junho de 1968 a ETA decidiu atravessar a linha que separa aventureirismo e terrorismo para dar início a uma espiral de violência que só terminou em 2018.

A história do primeiro homicídio terrorista da ETA foi agora adaptada à ficção televisiva na série 'La Línea Invisible', a estrear em Abril no serviço de streaming da Movistar. Teve como consultor o historiador Gaizka Fernández Soldevilla, um dos mais prolíficos e rigorosos investigadores da história do terrorismo nacionalista basco, autor de vários artigos e livros, entre os quais a primeira monografia dedicada ao caso de José Antonio Pardines. O trailer é sugestivo e a série um dos acontecimentos televisivos do ano em Espanha. A não perder.

Um voo cego a nada

por Pedro Correia, em 17.01.20

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1

Oitenta anos após o fim da guerra civil, a "verdadeira esquerda" - como se intitulam os filo-comunistas da coligação Unidas Podemos agora coligados com o outrora odiado Partido Socialista - chega enfim ao poder em Espanha. Pedro Sánchez, com apenas 28% de votos recolhidos nas urnas e só com 120 assentos entre os 350 lugares do Congresso dos Deputados, decidiu coligar-se com os radicais de quem andou a demarcar-se durante toda a campanha eleitoral que conduziu às legislativas de 10 de Novembro.

«Nem eu nem 95% dos espanhóis dormiríamos tranquilos com o Podemos no Governo», chegou a dizer Sánchez semanas antes da segunda ida às urnas para tentar ampliar a escassa percentagem alcançada nas legislativas de Abril - e de que saiu com uma margem de manobra ainda mais estreita. É uma frase que vai persegui-lo durante toda a legislatura, dure o tempo que durar, assombrando-lhe as noites no Palácio da Moncloa. Mal foram contados os votos, o líder socialista apressou-se a transformar em parceiros de coligação os mesmos que diabolizara com aquelas palavras tão duras.

 

2

Num parlamento atomizado como nunca, com 19 diferentes agrupamentos políticos agora ali representados, o Executivo de Sánchez só conseguiu ser eleito por maioria simples no segundo escrutínio, graças às abstenções de 18 independentistas republicanos da Catalunha e do País Basco em momentânea trégua com as instituições políticas de Madrid: recebeu 167 votos a favor e 165 contra no hemiciclo. Basta um deputado de uma das forças minoritárias mudar de campo para esta frágil maioria tremer - o que poderá acontecer já na votação do orçamento do Estado para 2020.

A margem pode ser pequena, mas o Executivo é indubitavelmente grande - ao ponto de ser o maior, em número de lugares, de toda a União Europeia. Ao todo, são quatro vice-presidentes, 22 ministros, 31 secretários de Estado e 22 subsecretários de Estado. Contando com Sánchez, somam 80 cadeiras. Prevendo-se que sejam acolitados por outra cifra recorde em Espanha: 182 assessores - o dobro do que havia no Executivo do PP, liderado por Mariano Rajoy.

O jornal El Confidencial fez as contas à factura, que promete ser bem pesada: mais cinco milhões de euros em salários governamentais até ao fim da legislatura.

 

3

Dispondo de uma maioria tão precária, Sánchez actua no entanto como se ostentasse maioria absoluta.

Numa das primeiras medidas, anunciou a nomeação da sua ministra da Justiça cessante, Dolores Delgado, para procuradora-geral do Estado - em óbvia colisão com o princípio da separação de poderes, contrariando não apenas a mais elementar ética política mas também toda a jurisprudência sobre a matéria firmada pelo Tribunal Constitucional espanhol e pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A mesma pessoa que andava há dois meses a fazer campanha eleitoral pelo PSOE, como quinta candidata socialista pelo círculo de Madrid, passa a dirigir um órgão que deve reger-se pela imparcialidade: nada bate certo aqui.

Sem surpresa, a nomeação não tardou a suscitar contestação aberta no Conselho Geral do Poder Judicial, a máxima instância de gestão e disciplina dos magistrados espanhóis, e a crítica frontal da presidente da Associação de Procuradores, que antevê a nova procuradora-geral a receber ordens daquele que até há poucos dias era seu superior hierárquico no Governo.

 

4

Eis uma decisão típica da «casta política» que o actual secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, denunciava nas pantalhas quando era comentador televisivo. Os tempos mudaram: Iglesias, que se gabava de morar então num modesto apartamento, é hoje o feliz proprietário de uma vivenda com jardim e piscina na serra madrilena. E a sua companheira, Irene Montero, que ele em 2017 escolhera para líder parlamentar do partido, coabita agora com ele também no Governo: Pablo é o vice-presidente para a área social, ela é a titular da pasta da Igualdade. Tudo em família, como nas vetustas casas nobiliárquicas.

Isto demonstra que o elevador social funciona em Espanha para a esquerda radical. Mesmo aquela que, quando a direita governava, não hesitaria em qualificar de nepotismo esta inédita parceria conjugal num Conselho de Ministros do país vizinho. Por muito menos os dirigentes do Podemos fizeram ferozes críticas a Ana Botella, mulher de José María Aznar, ao assumir a presidência da Câmara Municipal de Madrid quando o marido já não liderava o Governo.

 

5

Sánchez - um tacticista puro, só preocupado com as manobras de curto prazo e os exercícios de contorcionismo político que lhe permitam sustentar-se no poder - anda agora de braço dado com os mesmos que, segundo ele, tirariam o sono a 95% dos espanhóis. Não lhe faltarão noites de insónia. Ao empossá-lo como presidente do Executivo, a 8 de Janeiro, o Rei Filipe VI ironizou: «Foi rápido, simples e sem dor. A dor virá depois.»

Palavras que se revelarão proféticas. Vejo esta coligação entre socialistas e comunistas - que inclui, como ministro do Consumo, o coordenador federal da Esquerda Unida, Alberto Garzón, autor do livro Por Qué Soy Comunista  - amparada pela fina flor do nacionalismo separatista e vem-me à memória um verso de Reinaldo Ferreira: «Um voo cego a nada.»

Há países e povos que parecem aprender muito pouco com as lições da História.

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por Pedro Correia, em 11.01.20

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«Para un golpe bueno de verdad que tuvo, que fue heredar Portugal entero (su  madre, la guapísima Isabel, era princesa de allí) tras hacer picadillo a los discrepantes en la batalla de Alcántara, Felipe II cometió, si me permiten una opinión personal e intransferible, uno de los mayores errores históricos de este putiferio secular donde malvivimos: en vez de llevarse la capital a Lisboa - antigua y señorial - y dedicarse a cantar fados mirando al Atlántico y a las posesiones de América, que eran el espléndido futuro (calculen lo que sumaron el Imperio español y el portugués juntos en una misma monarquía), nuestro timorato monarca se enrocó en el centro de la Península, en su monasterio-residencia de El Escorial, gastándose el dineral que venía de las posesiones ultramarinas hispanolusas, además de los impuestos con los que sangraba a Castilla en las contiendas (...), y en pasear a sua embajadores vestidos de negro, arrogantes y sobierbos, por una Europa a la que con nuestros tercios, nuestros aliados, nuestras estampitas de Vírgenes y santos, nuestra chulería y tal, seguíamos teniendo acojonada.»

Arturo Pérez-ReverteUna História de España, pp. 74-75

Ed. Alfaguara, Barcelona, 2019

Ainda é cedo

por Diogo Noivo, em 08.01.20

George W. Bush foi eleito em 2000 com menos votos populares do que o seu adversário. Cedo surgiram comentários visceralmente indignados. Era anti-democrático, diziam. Recordo ler análises que encontravam a causa do problema na natureza capitalista do sistema, sempre favorável à direita.

A vaga de irritação repetiu-se em 2016, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Mais uma vez, os Estados Unidos da América entregavam o poder a um candidato que não obtivera a maioria do voto popular. O sistema eleitoral era perverso, pois desequilibrava a competição democrática. Trump era o poster boy de todos os males da democracia representativa, sempre favorável aos interesses instalados e contrária à vontade popular. Por cá, os suspeitos do costume rasgaram as vestes e por pouco não apelaram à revolução.

 

Ontem, Pedro Sánchez foi eleito presidente do governo espanhol no Congresso dos Deputados. Os votos a favor da investidura representam cerca de 10,9 milhões de eleitores e os votos contra cerca de 11,3 milhões. Não ouvi qualquer crítica. Será porque ainda é cedo – e nada terá que ver com a orientação política do partido de governo e das forças políticas que o respaldam. Estou certo que mais dia, menos dia alguém se imolará.

Em viagem - Parte 4

por Maria Dulce Fernandes, em 22.12.19

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Depois do rio de lágrimas que é tão típico das despedidas, num dia tão nublado como o nosso estado de espírito, voltámos à Variant para começar mais uma etapa da grande aventura dos cinco, que na realidade éramos seis.

Desta vez, “quitado" com alguns gadgets avant garde que adquirimos na Alemanha e na Holanda, tais como uma capa impermeável adaptável, própria para porta-malas de tejadilho, o trisavô do funcional porta-sogras que substituiu a lona, e uns ganchos “aranha” que se prendiam aos ferros e seguravam malas e outras tralhas no lugar, e que substituíram as cordas tornando o manuseamento da bagagem mais funcional e elegante; já parecíamos então turistas a sério!

Claro que o problema das fraldas do menino foi imperativo durante a viagem de ida, com muitas bandeiras da paz a despontar da janela do pendura durante toda a vigem. Muito mais avançadas, as crianças alemãs, holandesas e francesas já utilizavam fraldas descartáveis, as célebres couches, produto de luxo para nós, mas eficaz  e acessível, e que nos proporcionou uma volta muito mais tranquila e turística.

Então, através das maravilhosas autoestradas, partimos de Solingen rumo a Paris, onde chegámos já de noite.

Uns colegas do pai tinham-lhe indicado um “hotelzinho simpático" na Rue de la Paix. Tanta menina bonita e colorida, tanta beijoca e tanta festinha ao bebé. O pai sempre com um caloroso sorriso afivelado. A mãe abanava a cabeça, conformada, mas a tia Eugénia estava possessa. Que raio de hotel foi o pai arranjar? E com crianças na cáfila, caramba. O pai recomendava calma, que o hotel era limpo e que era apenas uma noite. De resto, a arraia-miúda não estava nem aí para tanto sururu, apesar de convir que os múltiplos sons de gritos, risos e  constantes águas  correntes que atravessavam velozes as paredes acromáticas, eram no mínimo bizarros.

Saímos para comprar mantimentos e voltámos com as compras do rol que a mãe e a tia Eugénia tinham preparado e que, como não podia deixar de ser, continha pão. Comprámos uns curiosos, finos  e muito aprumados pães compridos chamados baguettes, que os locais transportavam alegremente debaixo do braço sem qualquer protecção. Talvez o avô do pão com sabores? Nunca o saberei

O pai ficou febril. Como era o único que conduzia, resolveu na manhã seguinte percorrer o máximo de estrada possível antes que alguma gripe que estivesse à espreita o atacasse em força. Saímos bem cedo e, parando sempre que necessário naqueles lugares maravilhosos chamados áreas de serviço, chegámos a Bordeaux à hora de almoço. Nem mesmo os meus dotes linguísticos em francês ajudaram a decifrar o menu do restaurante. Sopa e pezinhos de coentrada. Toca a comer e a tentar gostar, porque depois só pararíamos para jantar, com sorte, em San Sebastián. Então foi um toca a encher, fazer papo e preparar para arrancar. Foi então que serviram os frangos! Dois. E grandes. Mas… mas… mas… estávamos cheios de sopa, porco, batatas e pão! Ninguém conseguiria comer frango, caramba! A tia Eugénia, no seu proverbial pragmatismo, sentenciou logo que as aves ali não ficavam. Então toca de sacar de um saco da sua enorme saca de senhora, ensacou os fragos e zumba, saca com eles sob o olhar reprovador do pai, a quem aquele tipo de situações  deixavam grandemente embaraçado.
A verdade é que piquenicámos um supimpa jantar de frango num quartinho arejado e com uma soberba vista para o mar do Golfo da Biscaia, já em San Sebastián, depois de uma breve paragem num Biarritz de brilho embaçado pelas muitas nuvens que corolavam um céu cor de chumbo.
Na manhã seguinte, e com o pai a não apresentar grandes melhoras, a trupe fandanga, já um tanto saturada, assumiu os seus lugar na Variant para regressar à pátria-mãe.
Chegámos a Ciudad Rodrigo pela tarde e preparámo-nos para pernoitar. Dia de “tarde livre" para a tradicional aquisição de caramelos, torrão, chocolates, leques, mantilhas e outras coisas desnecessárias com que nuestros hermanos tanto nos fascinavam. Aprendemos também ali que sopa de judias é apenas feijão verde cozido e que as cañas em nada contribuem para tratar constipações.

No outro dia, de manhãzinha bem cedo, partimos non stop até Lisboa. Como em todas as etapas dos percurso de ida e do percurso de volta, rimos e cantámos de tudo um pouco, mas principalmente as canções da vida do meu pai, constantes no seu LP favorito da Música no Coração.
Chegámos a casa ao final do dia. Cansados mas satisfeitos, com a bagageira cheia de novidades estrangeiras e experiências fabulosas, que contávamos a cinco vozes em todas as reuniões sociais e familiares e que ainda hoje dois de nós recordamos, quase sempre com um olhar demasiado brilhante.

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Sobre a Catalunha (7)

por Pedro Correia, em 15.11.19

O apoio à suposta "independência" da Catalunha prossegue em recuo acelerado. Segundo uma sondagem agora divulgada pela próprio Executivo autonómico catalão, apenas 41,9% dos habitantes naquela região são favoráveis à ruptura com Espanha enquanto 48,8% dos consultados nesta pesquisa de opinião não escondem a oposição ao separatismo.

Desde Junho de 2017 que não se registava uma percentagem tão baixa de apoio aos independentistas. Perdem suporte popular em proporção inversa ao barulho que vão fazendo nos jornais e televisões favoráveis à causa separatista. E também aos aplausos recebidos dos amigos portugueses, que gostariam de ver o Estado espanhol pulverizado em várias "repúblicas", talvez para vingar a ilegítima e ilegal anexação de Olivença. Sem perceberem que uma Espanha retalhada em pedaços é lesiva para os interesses estratégicos de Portugal.


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