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Delito de Opinião

Catalunha: amarga derrota do separatismo

Pedro Correia, 14.05.24

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Os separatistas catalães sofreram uma das suas maiores derrotas nas eleições regionais de domingo, que o Partido Socialista venceu por margem confortável. Perderam mais de 200 mil votos em relação ao escrutínio anterior, realizado em 2021. E conseguiram apenas 61 lugares - repartidos por quatro siglas partidárias - num parlamento autonómico com 135 assentos. Os restantes 74 cabem a partir de agora às forças políticas constitucionalistas, que combatem o separatismo.

Em percentagem a diferença é ainda mais expressiva: 53,4% para os diversos partidos que advogam a organização territorial inscrita na matriz constitucional espanhola e 43,2% para os que querem romper com ela. Incluindo os 4,1% da CUP (extrema-esquerda) e os 3,8% da novíssima Aliança Catalã (extrema-direita). 

Estas eleições confirmam uma evidência: existe em solo catalão uma facção separatista claramente minoritária, apostada em impor a sua cartilha ideológica à maioria dos habitantes da Catalunha, que não quer cortar os vínculos políticos com o Estado espanhol e se revê no actual quadro constitucional e estatutário.

 

Isto acontece enquanto alguns em Portugal teimam em reclamar aos gritos o «direito à autodeterminação», como se este não vigorasse já na Catalunha - autonomia dotada de mais poderes do que a esmagadora maioria dos Estados federados na União Europeia. Tem órgãos próprios em matéria política, judicial, policial, tributária, sanitária, educativa, linguística, cultural e desportiva.

Não existe democracia sem o império da lei. Neste caso, o conjunto do Estado espanhol - Catalunha incluída - rege-se pela Constituição de 1978 que, ao contrário da lei fundamental portuguesa, recebeu luz verde em referendo, com 95% de aprovação dos eleitores catalães (segunda maior percentagem a nível nacional). Rege-se ainda pelo Estatuto Autonómico da Catalunha, igualmente validado em referendo, a 25 de Outubro de 1979, com o voto favorável de 88% dos eleitores catalães. O mesmo sucedeu com o Estatuto Autonómico de 2006, que entrou em vigor precedido de referendo regional, realizado a 18 de Junho desse ano, com a aprovação de 73,9% dos catalães.

 

A comparação com Portugal é-nos desfavorável: nunca os eleitores da Madeira e dos Açores foram consultados para se pronunciarem nas urnas sobre os respectivos estatutos de autonomia política. 

Nesta matéria, a Constituição portuguesa tem uma visão mais estreita do que a espanhola. A tal ponto que a nossa proíbe expressamente a existência de partidos regionais, em manifesta tentativa de dissuadir movimentos de índole separatista nas regiões autónomas. No seu artigo 51, parágrafo 4, a lei magna de 1976 é categórica: «Não podem constituir-se partidos que, pela sua designação ou pelos seus objectivos programáticos, tenham índole ou âmbito regional.» Interdição repetida, palavra a palavra, no artigo 9 da Lei dos Partidos Políticos.

Esta sim, é uma norma absurdamente restritiva à luz dos padrões europeus. Basta recordar que Alemanha e França, por exemplo, autorizam partidos regionalistas na Baviera e na Córsega.

Se queremos defender o "direito à autodeterminação", comecemos pela nossa própria casa, em defesa da revogação deste interdito constitucional.

Os que por cá dizem que a Constituição de Espanha é para rasgar são os mesmos que invocam a Constituição portuguesa com sacrossanta veneração. Os "direitos adquiridos" nas tábuas da lei afinal são só para alguns. Deste lado da fronteira, não do outro.

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Quando o jornalismo se torna literatura

Pedro Correia, 05.05.24

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Kim Kardashian: «lábios de embuste»

 

Já falei aqui sobre o meu crescente interesse pela literatura espanhola. Ao ponto de vários dos meus romances ou novelas favoritos dos últimos cem anos serem de autores do país vizinho. Estes, por exemplo: Tirano Banderas (Ramón de Valle-Inclán), Nada (Carmen Laforet), Os Mares do Sul (Manuel Vásquez Montalbán), Coração Tão Branco (Javier Marías), Instruções Para Salvar o Mundo (Rosa Montero), Pátria (Fernando Aramburu) e Os Teus Passos nas Escadas (Antonio Muñoz Molina).

Este interesse estende-se aos colunistas da imprensa. Pelo mais óbvio dos motivos: escreve-se muito bem nos jornais espanhóis. São peças de literatura as crónicas, as reportagens, até os editoriais. Abundam os escritores que recusam enclausurar-se em torres de marfim, molhando os pés e exercitando a pena em colunas quotidianas onde exibem a sua prosa inconfundível, marcada pelo "ruído da rua" (título da coluna de Raúl del Pozo no El Mundo). E não faltam jornalistas que em nada se distinguem dos melhores prosadores contemporâneos de língua castelhana: Pedro Cuartango, Lucía Méndez, Ignacio Camacho, Jorge Bustos, Manuel Jabois, Emilia Landaluce, José Peláez, Maite Rico, Daniel Gascón, Rebeca Argudo. Falei de alguns aqui, em 2017, quando o El Mundo deixou de distribuir edição impressa em Portugal - decisão felizmente revertida algum tempo depois.

O melhor colunista é aquele que não se limita a emitir opinião: consegue criar metáforas e expressões tão sugestivas que se incorporam na linguagem comum. Tivemos nós também um deles, o melhor de todos: Vasco Pulido Valente, que cunhou o termo geringonça, aplicado à solução política que António Costa encabeçou entre 2015 e 2019. Mas, de modo geral, quem escreve na imprensa portuguesa perde fatalmente na comparação com Espanha. Mesmo nos temas mais fúteis.

Acabo de ler, no ABC de ontem, uma crónica de Ángel Antonio Herrera sobre a "influenciadora" norte-americana Kim Kardashian - talvez uma das mulheres mais fotografadas do mundo. Descreve-a com aquela linguagem castiça que tanto aprecio entre os espanhóis dizendo que ela tem «lábios de embuste». Espantosa expressão, tão inesperada e sugestiva.

Eis um caso concreto em que o jornalismo se transforma em literatura, libertando-se do estéril lugar-comum. Quem gosta de ler agradece. E que não restem dúvidas: continuamos a ser muitos. 

Outra derrota de Pedro Sánchez

Pedro Correia, 20.02.24

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Derrota copiosa dos socialistas espanhóis. Mais uma, neste domingo. Agora foi na Galiza. Como já tinha sido em Madrid, na Andaluzia, em Castela e Leão, na Extremadura, em Valência, em Múrcia, na Cantábria, em Aragão, na Rioja e nas Baleares. A nível territorial, o PSOE só conserva hoje a presidência por maioria absoluta de um dos 17 territórios autonómicos do país vizinho: Castela-A Mancha, aliás governada pelo maior opositor interno de Pedro Sánchez, Emiliano García-Page.

Um descalabro.

Já tinham sido derrotados nas legislativas de Julho de 2023, embora acabassem por formar governo traindo tudo quanto haviam prometido ao celebrarem um acordo pós-eleitoral com cinco forças nacionalistas, três das quais assumidamente separatistas. Sánchez, tentando manter-se no poder a qualquer preço, cedeu em toda a linha aos independentistas catalães e aos herdeiros políticos da ETA no País Basco.

O caderno reivindicativo destes parceiros de coligação, que não escondem a intenção de destruir o Estado espanhol, vai acumulando cada vez mais exigências: a frágil maioria do PSOE irá quebrar-se a curto prazo. Algo inevitável, quando uma deputada independentista proclama no plenário das Cortes, em Madrid: "Não podemos estar submetidos ao poder judicial." Alude à magistratura nacional espanhola, em linguagem de "povo colonizado" contra a potência colonizadora. Parece que vão a bordo de uma nave de loucos.

 

Neste quadro, as regionais na Galiza funcionaram também como sondagem à gestão política de Sánchez, indivíduo totalmente desprovido de escrúpulos. Basta lembrar que formou o governo anterior com a esquerda mais extrema após ter afirmado, durante a campanha, ser «incapaz de dormir à noite, tal como 95% dos espanhóis», se o Podemos chegasse a ter pastas ministeriais. Contados os votos, mandou a jura às malvas e abraçou-se a eles.

Agora vê o seu partido sofrer a maior derrota de sempre no noroeste peninsular. Com apenas 14%, o PSOE perde cinco deputados: restam-lhe nove. Atrás do Partido Popular (47,4%, 40 deputados) e do Bloco Nacional Galego (31,6%, 21 deputados). Houve ainda um deputado regionalista, eleito por Ourense. 

O PP atraiu 60 mil novos eleitores, em comparação com as anteriores autonómicas, em 2020, enquanto os socialistas viram fugir mais de 50 mil votos. Os extremistas mantiveram-se fora do parlamento regional: nem a ultra-direita do Vox (2,2%) nem os comunistas do Sumar (0,89%) nem o Podemos (0,26%) conseguiram representação. Todos naufragaram nas urnas, excelente notícia.

 

O cerco ao PSOE, cada vez mais evidente, está a suceder por via das sucessivas eleições regionais. Em 2021, em Madrid, o PP teve mais mandatos do que toda a esquerda: então, também aí, os socialistas registaram o seu pior resultado de sempre. Em 2022 sofreram uma inédita derrocada eleitoral no seu feudo andaluz. 

Sánchez, a partir de agora, vai dormir cada vez pior. Não por causa do Podemos, que quase desapareceu do mapa político devido a uma série de convulsões internas, mas das ligações perigosas ao supremacismo catalão - incluindo o partido que mantém comprovados vínculos com Moscovo.

Tem tudo para acabar mal. E não duvidem: vai acabar mesmo.

Um banco com vista: Cuenca

Ana CB, 24.01.24

Se existe um lugar na Espanha que desafia a gravidade e desperta a sensação de vertigem em cada esquina, esse lugar é Cuenca. Vista de cima, das redondezas do Castelo, a cidade parece uma montagem fotográfica. As casas são como que um prolongamento dos penhascos calcários, absolutamente verticais nas suas formas orgânicas que a erosão criou. São camadas de pedra e telha sobre camadas de rocha estratificada, suavizada até perder as suas arestas, e não se percebe onde acaba uma e começam as outras. Não se distingue a obra da Mãe Natureza da que foi feita por mão humana.

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Lá em baixo corre o rio Huécar, tão fino que nem se vê, escondido pela altura, pela vegetação, ofuscado pela dimensão do antigo Convento de San Pablo, agora tornado Parador e centro cultural. Pairando acima da garganta sinuosa por onde desliza o rio e das estradas igualmente serpenteantes rasgadas na encosta, salta à vista o metal vermelho-escuro da ponte pedonal de San Pablo, que liga o casco antíguo à colina preenchida pela robustez das formas do convento.

 

Arquitectura em suspensão

 

Entre a mole de edifícios aglomerados sobre os penhascos destaca-se também a corpulência da Catedral, e só aqui de cima é que é possível perceber a sua verdadeira dimensão. Mais ao longe, a enganadoramente mudéjar Torre de Mangana e o seu relógio, e a cúpula azulada do Museo de las Ciencias de Castilla-La Mancha. Mais distantes ainda, adivinham-se os contornos dos edifícios da parte mais moderna da cidade, com a Serranía de Cuenca como cenário.

 

Sobre o abismo, como se tivessem sido coladas ao penhasco numa brincadeira de criança, as Casas Colgadas parecem flutuar no ar, contrariando as leis da física. Remontam aos séculos XIV e XV, período em que Cuenca teve um rápido desenvolvimento, e destacam-se pelos seus balcões suspensos, que se projectam para fora da borda do desfiladeiro rochoso sobre o qual a cidade está construída. Serviam originalmente como residências e armazéns para os comerciantes locais, com a sua posição proeminente a facilitar o acesso directo ao rio Huécar. Os balcões tornaram-se uma característica distintiva da arquitectura local, mas ao longo dos séculos algumas das casas foram modificadas e reconstruídas para satisfazer as necessidades dos proprietários. No início do século XX, as Casas Colgadas começaram a atrair a atenção de artistas e escritores, e tornaram-se um ícone da cidade. Por iniciativa do pintor Fernando Zóbel, em 1966 passaram a abrigar o Museo de Arte Abstrato Español, o que contribuiu significativamente para o reconhecimento e preservação destes singulares edifícios medievais. Por estranho que possa parecer alojar um museu dedicado às correntes mais modernas da arte nestes edifícios seculares, a parceria resulta: o intimismo singelo dos interiores, que mantêm alguns elementos arquitectónicos antigos, casa bem com a abstracção das obras expostas, e dá-lhes o relevo necessário, sem as abafar. E as janelas abertas sobre a vertigem da altura a que as Casas Colgadas estão suspensas são um bónus que não pode ser desprezado.

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Vertigem invertida

 

A vista a partir deste banco-miradouro esconde o outro lado da cidade, aquele onde corre o rio Júcar, de que o Huécar é um afluente. O Júcar define o flanco norte dos penhascos, a face mais sombria de Cuenca mas também a mais fresca, onde um parque e um percurso ordenado ao longo do rio são um refúgio abençoado nos dias quentes da região manchega. Ali a vertigem sente-se em sentido inverso, de baixo para cima, o olhar subindo pelas paredes de rocha e depois pelos edifícios que parecem perder-se nas alturas.

É à beira do Júcar que estão dois dos locais religiosos mais importantes da cidade. Junto à ponte de San Antón, mirando o rio, brilha a igreja barroca da Virgen de la Luz, “casa” da padroeira da cidade – uma virgem negra, cuja veneração remonta aos séculos XII-XIII por via de uma lenda associada à reconquista de Cuenca pelos cristãos. Seguindo o desfiladeiro para montante do rio, chegamos ao Santuário de Nuestra Señora de las Angustias, outra virgem muito popular entre os devotos conquenses. Não fossem as placas indicativas e o seu portal quase excessivamente barroco, esta ermida poderia passar despercebida, rodeada que está de arvoredo e quase encaixada no penhasco. Esta parte da cidade, onde a presença e a beleza do rio Júcar se impõem, tem uma atmosfera particularmente romântica.

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Marcos da História

 

Aninhada nas profundezas da região de Castilla-La Mancha, Cuenca foi fundada pelos mouros numa posição defensiva no coração do Califado de Córdova. Conquistada pelos castelhanos no século XII, a sua localização entre Madrid e Valência tornou-a um centro comercial estratégico durante a época medieval. O casco antíguo da cidade é um museu vivo, com as suas ruas labirínticas ladeadas por edifícios medievais e renascentistas bem preservados.

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A Catedral de Santa María e San Julián de Cuenca foi a primeira catedral gótica de Espanha, e um dos exemplos mais emblemáticos deste estilo arquitectónico no país. É um monumento invulgar, cuja fachada parece inacabada e tem a particularidade de exibir elementos gótico-normandos, com detalhes decorativos, incluindo esculturas religiosas e motivos ornamentais. Está situada na Plaza Mayor, de formato oblongo e dimensões modestas por comparação com as plazas homónimas de outras cidades espanholas, ocupada numa das extremidades pela Casa Consistorial, sede do Ayuntamiento de Cuenca e facilmente identificável por estar construída sobre os três arcos que dão acesso à Calle Alfonso VIII. Nesta rua esguia do bairro de San Martín, os edifícios altos e estreitos, colados uns aos outros e pintados de cores que não passam despercebidas, com as suas janelas-varandas adornadas de ferro forjado, fazem lembrar arranha-céus, e o olhar apenas distingue uma nesga de espaço acima deles.

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Cuenca é um daqueles lugares fora do comum, que deixam uma marca duradoura na memória pela sua singularidade. Mas é mais do que isso. Ao explorar a cidade, onde o orgânico e o construído se misturam sem atropelos, percebemos como é possível integrar e harmonizar a inventividade humana com o ambiente, em vez de irmos pelo caminho mais curto, subjugando-o aos nossos desejos. Cuenca é um exemplo inspirador de como a presença humana e a natureza não têm de puxar para lados opostos.

Que tal experimentarem?

Pedro Correia, 02.11.23

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Pedro Sánchez renovou o pacto de governação com a esquerda radical em Espanha. Mais do mesmo, mas num quadro muito frágil: o PSOE necessitará do apoio dos separatistas e republicanos catalães, por um lado, e dos soberanistas e filo-terroristas bascos, por outro, além dos nacionalistas da ultra-esquerda galega, para conseguir uma precária aritmética parlamentar. Que promete vida curta ao próximo Executivo.

Reformas à vista? Para já, apenas no plano vocabular. Em vez de "consumidores" a novilíngua socialista instituiu a designação "pessoas consumidoras". Em vez de trabalhadores, "pessoas trabalhadoras". Enquanto se dirige aos "cidadãos e cidadãs" prometendo (por exemplo) transportes de qualidade "para todos e todas".

 

Disparates que contrastam em absoluto com aquilo que Emmanuel Macron defendeu na terça-feira, ao inaugurar a Cidade Internacional da Língua Francesa. O inquilino do Eliseu pronunciou-se contra a chamada linguagem inclusiva, que distorce uma regra fundamental dos nossos idiomas de raiz latina: o masculino prevalece enquanto fórmula neutra e para a formação do plural indiferenciado, sem especificações de género.

Nunca percebi, aliás, por que motivo os cultores de redundâncias, que adoram duplicar palavras em nome do combate ao "heteropatriarcado tóxico", não levam esta lógica até ao fim. Para serem coerentes, deviam dizer "os ricos e as ricas, os poderosos e as poderosas, os corruptos e as corruptas". Etc, etc.

Que tal experimentarem?

A gota de água

Cristina Torrão, 15.09.23

Algo está podre. Desta vez, não no reino da Dinamarca.

As futebolistas espanholas campeãs do mundo e outras jogadoras decidiram não responder à próxima convocatória da selecção, considerando insuficientes as mudanças na Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) após o designado "caso Rubiales".

Logo nos dias posteriores à final do mundial, mais de 80 futebolistas espanholas divulgaram um comunicado de solidariedade com Jenni Hermoso e anunciaram que recusavam jogar na selecção nacional de Espanha se não houvesse mudanças na federação.

Mais deste assunto?

A procissão parece ir apenas no adro. O episódio do beijo mais não foi do que a gota de água.

E não subestimemos a "nossa" Mariana Cabral.

O futebol foi exclusivamente masculino durante quase um século. É natural que, atingindo o futebol feminino grande notoriedade, as estruturas entrem em convulsão. Natural e necessário.

Espero que as jogadoras espanholas sirvam de exemplo nos quatro cantos do mundo.

A ler

Cristina Torrão, 27.08.23

A nova Europa

Cristina Torrão, 21.08.23

No passado dia 6, apresentei aqui as últimas sondagens alemãs, indicando o AfD como segunda força política do país. O AfD é um partido conotado com a extrema-direita, o que, vindo da Alemanha, tem sempre um peso especial.

Tem? Ou tinha?

Na verdade, no que a este blogue diz respeito, os comentadores, em geral, contemporizaram, filosofando sobre o valor das sondagens, os fracassos dos actuais governos europeus e o verdadeiro significado da expressão “extrema-direita”. Fiquei surpreendida. Há uns anos (não muitos), uma sondagem alemã que apontasse um partido destes como segunda força do país provocaria uma torrente de indignações. Falar-se-ia das tendências racistas alemãs, de Hitler, do nazismo e haveria decerto quem se apressasse a distanciar o líder do Chega de tais correntes.

Hoje já não é possível. O referido líder português esteve, há pouco tempo, num congresso do AfD, em Magdeburgo. O que não deixa de ser estranho, tendo em conta a aversão que os nossos “cheguistas”, na afirmação da sua lusitanidade, têm em relação aos europeus loiros e de olhos azuis. A verdade é que o nosso “chefe” debitou (em inglês) uns lugares-comuns sobre a construção de mesquitas em solo europeu e foi muito aplaudido. Ou, pelo menos, assim parece, num vídeo publicado no canal do seu partido no YouTube.

Para quem torne a duvidar do carácter extremista do AfD, não é segredo nenhum, na Alemanha, que o partido conta, nas suas fileiras, com elementos do antigo NPD, esse, sim, assumidamente nazi. E, de vez em quando, surgem exemplos, indicando as suas verdadeiras tendências. O seu líder revelou, recentemente, os planos que tem no caso de chegar ao poder na região de Turíngia e, para a educação, deu a entender que irá determinar que as crianças com deficiência seriam proibidas de frequentar as escolas do ensino regular. Gerou uma onda de protestos dos outros partidos. Este é um tema muito sensível, na Alemanha, pois, como se sabe, o regime nazi era muito discriminatório, nesta questão, chegando a aplicar a eutanásia em pessoas com deficiência.

O chefe do AfD em Hamburgo causou igualmente perplexidade, numa entrevista de Verão, ao defender a construção de uma qualquer barreira à volta de um centro de apoio a viciados em droga, a fim de os esconder dos turistas. Esse centro situa-se perto da Estação Central de Hamburgo e, na sua opinião, os visitantes da cidade têm o direito de não serem incomodados com a visão da “miséria” (já agora, digo eu, escondam-se igualmente os pobres e os pedintes). Estas declarações chocaram ainda mais, pois havia a ilusão de que os representantes do partido, em Hamburgo, teriam princípios mais democráticos do que os seus colegas do Leste.

Também o aumento do anti-semitismo, neste país, é motivo de preocupação. A extrema-direita, incluindo a alemã, é cada vez mais aceite e ganha adeptos. Os partidos dos vários países unem-se. Mesmo o nosso representante, como vimos, já é “tu cá, tu lá” com a versão branqueada dos nazis. E, se os partidos crescem, nada mais nos resta do que aceitar a escolha popular.

Que seja! Pergunto-me, sobretudo, se esse camaradismo a nível europeu continuaria, caso os partidos chegassem ao poder. Não me custa imaginar uma guerra entre a Alemanha e a França, pela liderança da “nova Europa” (sim, que a Le Pen tem pêlo na venta e não se deixava ficar). E, se o VOX chegasse a um qualquer acordo com o vencedor da disputa, Portugal seria, finalmente, uma província espanhola. O nosso “chefe” com muito gosto se subjugaria, em nome de uma qualquer segurança, ou de uma sociedade limpa de misérias e de teorias inclusivistas.

Uma estratégia falhada a longo prazo

João Pedro Pimenta, 30.07.23

As eleições de Espanha, que redundaram num triunfo relativo do PP de Feijóo e na resistência do PSOE, mostraram ainda mais, como se fosse necessário, como o país está partido e se tenta fazer uma divisão esquerda-direita intransponível. Pedro Sánchez preferiu aliar-se com tudo o que mexia a permitir por abstenção a investidura de um governo minoritário do PP, respaldado a pactos de regime. Isso permitiria que o Vox não interferisse com um governo PP, mas para Sanchez isso não era suficiente, e, como se viu, para conservar o seu poder, preferiria aliar-se ao diabo do que ver um governo do PP, com ou sem Vox. E de facto isso pode acontecer, se tiver de novo o apoio da esquerda radical, o Sumar que deixou o Podemos nas lonas, tão cor-de-rosa por fora e tão retintamente vermelho por dentro, herdeiro em linha directa das que por ali se encontravam no tempo da Guerra Civil. A nova estrela local, Yolanda Díaz, afirmou há não muitos anos querer acabar com o espírito da transição e com a própria monarquia. Realce-se que Díaz é natural do Ferrol, ironicamente tal como o Generalíssimo Franco, cidade que outro ilustre conterrâneo, Gonzalo Torrente Ballester, dissera nunca ter criado nada que prestasse. Para além do Sumar, Sánchez precisará do apoio de muitas outras formações, como os desavindos partidos independentistas catalães, que até caíram estrondosamente, uma data de formações regionalistas, e do País Vasco, o habitual PNV, que governa a região, mas sobretudo o Bildu, sucessor directo do Herri Batasuna, o braço político da ETA, que continua a ser chefiado pelo mesmo Arnaldo Otegui. É com este saco de gatos que Sánchez pretende manter o PP afastado do poder.

 

O pretexto do Vox redunda em falsidade, como se vê, mas é muito usado e aparentemente eficaz. Aqui, Sánchez está muito próximo de António Costa, que usou e abusou do fantasma do Chega para obter votos à esquerda e impedir o PSD de melhores resultados e também obteve visível êxito. A estratégia pode ser boa agora, mas poderá trazer graves consequências mais tarde. A eternização do poder, a falta de alternativas e a normalização da direita radical podem fazer com que esta cresça mesmo a médio prazo, rompendo quaisquer cordões sanitários e aproveitando-se da terra que os socialistas vão queimando. E há precedentes além-Pirenéus.

Nos anos oitenta, estando no poder, onde conseguiu controlar os comunistas, e para evitar a progressão da direita gaullista e republicana, François Mitterrand conseguiu alterar a regra eleitoral do modelo de voto maioritário para um proporcional. Permitiu assim que a Frente Nacional de Le Pen ganhasse um número apreciável de deputados no parlamento às custas da direita e, desde então e por arrasto, dos comunistas, coisa que Mitterrand talvez não imaginasse à época mas lhe seria útil para se desembraçar deles colocando o PSF como partido hegemónico da esquerda francesa. O então presidente era um tacticista sob as vestes do idealista, e seguia as teses maquiavélicas que tanto influenciaram dois estadistas do século XVII: os cardeais Richelieu e Mazarino. Essa influência transmitiu-se-lhe mesmo de forma pessoal: soube-se que tinha uma segunda família e uma filha a que deu o nome de...Mazarine, o que não era certamente por acaso.

 

 

 

Só que tudo isto teve um preço. Hoje em dia, não só o PCF é quase irrelevante e a direita republicana está em declínio como o próprio PSF se tornou um partido de terceira categoria, de influência quase nula, empastelado numa coligação chefiada por um demagogo de esquerda radical, ao passo que o cenário político está dividido entre este último, o centro radical de Macron e a dinastia Le Pen, que Mitterrand ajudou a guindar-se. Eis o resultado de se querer manter o poder a todo o custo insuflando-se as direitas radicais para enfraquecer as moderadas: um dia, o desespero e a revolta de ver o poder ocupado pelos mesmos acabará por dar aos radicais o poder, catapultando-os com enorme aumento de votos. Isso já está a acontecer noutras paragens. Aconselhava-se por isso os srs. Sánchez e Costa a olhar para França e a não brincarem aos defensores da democracia - e sobretudo a não brincarem apenas com os radicais do seu espectro político.

Eleições em Espanha: dez apontamentos

Pedro Correia, 25.07.23

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Pedro Sánchez e Nuñes Feijóo: doce derrota para um, amarga vitória para outro

 

1. Vitória escassa do PP - primeira deste partido, em eleições legislativas, desde 2015. Alberto Nuñez Feijóo, ex-presidente regional galego e agora líder nacional dos conservadores, recupera 47 lugares no Congresso dos Deputados, subindo de 89 para 136. Mas ainda a 40 da maioria que lhe permitiria governar sem coligação. Nem lhe basta o eventual apoio do Vox, que perdeu 19 assentos parlamentares, caindo de 52 para 33. Desfecho «com o sabor amargo de um penálti falhado», na certeira síntese de Ignacio Camacho ontem no ABC.

 

2. Pedro Sánchez sai derrotado, mas por pouco. Ganha dois deputados: tinha 120, fica com 122. O seu Partido Socialista Operário Espanhol tem fortes hipóteses de voltar a formar governo, embora em condições mais difíceis. Sua parceira natural: a nova agremiação Sumar, que congrega 15 partidos e movimentos distribuídos por 31 lugares no parlamento. Aquém dos 38 antes pertencentes ao Unidas Podemos e dois partidos adjacentes, todos da esquerda radical. E com menos 600 mil votos.

 

3. Para governar, Sánchez necessita não apenas do apoio da ultra-esquerda, claramente escasso, mas também do conjunto das forças separatistas da Catalunha e do País Basco, tanto moderadas como radicais. Com riscos adicionais: estas forças competem entre elas e saem enfraquecidas das urnas, derrotadas pelos socialistas, e proclamarão novas exigências. O PSOE venceu nas quatro províncias catalãs, reforçando ali o seu poder. E foi o mais votado pelos eleitores bascos, que em 2024 voltarão às urnas, desta vez para eleições autonómicas. 

 

4. Se Sánchez for reconduzido como líder do Executivo, esta será a estreia de um partido a governar sem ter vencido as legislativas desde que a democracia foi restabelecida em Espanha, há quase meio século. "Geringonça" à espanhola, oito anos depois da nossa. Quando o modelo português já se extinguiu. 

 

5. Um dos partidos desta provável coligação "Frankenstein", como lhe chamam no país vizinho, é o Bildu. Herdeiro político da ETA, que nunca condenou expressamente os mais de 800 homicídios cometidos pela organização terrorista. 

 

6. A maior novidade neste bloco de forças nacionalistas e separatistas prestes a viabilizar nova legislatura socialista será a inclusão do Juntos Pela Catalunha, partido independentista catalão liderado por Carles Puidgemont, exilado na Bélgica após ter sido condenado em Espanha pelos crimes de sedição, peculato e desobediência.

 

7. Feijóo, que agora levou o PP à vitória em 38 das 50 províncias espanholas, reivindica a oportunidade de formar governo, alimentando a expectativa de que será convocado pelo Rei Filipe VI com esse objectivo, certamente condenado ao fracasso. Sobretudo pela presença tóxica do Vox nessa muito improvável coligação de poder: nenhuma força autonomista dialoga com a ultra-direita, que quer restaurar o Estado centralista e unitário, contrariando a Constituição de 1978.

 

8. O Vox - partido-irmão do Chega, de André Ventura - vê fugir nestas legislativas mais de 600 mil votos. Perde, além disso, dois importantes instrumentos políticos: o direito de apresentar recursos ao Tribunal Constitucional (só permitido a grupos parlamentares com pelo menos 50 deputados) e a apresentar moções de censura (apenas ao alcance de uma bancada com 35 representantes no Congresso). A partir de agora, nem um, nem outro.

 

9. Mas a missão alternativa de Sánchez não será muito mais fácil. Desde logo porque o PP conquistou maioria absoluta no Senado, segunda câmara legislativa. Após uma campanha muito crispada, o diálogo entre os dois partidos é quase inexistente. Se os bloqueios persistirem, serão convocadas novas eleições antes do fim do ano. 

 

10. Desaparecido o Cidadãos - partido liberal que chegou a vencer as autonómicas na Catalunha em 2017 e elegeu 57 deputados nas legislativas de Abril de 2019 - e o Podemos hoje reduzido à irrelevância, os dois maiores blocos políticos, conservador e social-democrata, somam 64,6% dos votos. O bipartidarismo sai, portanto, reforçado das urnas. Mas é um reforço sem pontes, só com trincheiras. Porque os dois partidos parecem cada vez mais reféns dos extremos nesta era tão propícia aos radicalismos. O "bloco central" que reclama o director do jornal digital El Español, Pedro J. Ramirez, está longe do horizonte. Eis um filme sem a menor garantia de ter final feliz.

Ler (24)

História sem teias de aranha e cheia de alusões a Portugal

Pedro Correia, 22.07.23

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Este é o género de livro que abre o apetite para o estudo da História. Escrito por Arturo Pérez-Reverte, que se distinguiu como grande jornalista e excelente repórter de guerra e é hoje um dos mais notáveis romancistas espanhóis. Um livro original: lembra factos históricos do país vizinho - desde muito antes de a actual Espanha se chamar assim - e desenrola-os como se colasse cromos numa caderneta. Comentando com frequência cada acontecimento ou cada episódio de modo sarcástico. Estabelecendo por vezes contrastes com o momento presente.

Faz-nos sorrir, faz-nos pensar.

Esta obra, Una Historia de España, é redigida em vários tons, conforme se sucedem os temas e as épocas - do melancólico ao agreste, do empolgante ao desencantado. Típico de quem ama intensamente o seu país, por mais pragas que lhe rogue. Eis um exemplo: «A Carlos III sucedeu o imbecil do seu filho, Carlos IV» (p. 111) Uma pátria é assim mesmo: como alguém da nossa família. Com quem nos alegramos, com quem nos zangamos, com quem nos reconciliamos. Alguém que nos toca sempre.

Título do primeiro texto: "Tierra de conejos". Eis os nove seguintes (seguem no original, para não se perder a expressiva verve castelhana): "Roma nos roba"; Rosa, rosae. Hablando latín"; "Roma se va al carajo"; "El puñal del godo"; "Y nos molieron a palos"; "Um niño pijo de Oriente"; "Moros y cristianos"; "Una frontera de quita y pon"; "Llegan más moros". O último, não por acaso, chama-se "Epílogo Triste, O No".

 

Falando do passado, fala-nos também do presente. Em diálogo permanente com o leitor: parece fácil, mas não é. Com um talento só ao alcance dos melhores escritores.

Alguns excertos - tradução minha - caracterizam a terra e as gentes: «A inveja, poderoso sentimento nacional» (p. 57); «A marca de Caim, que todo o espanhol transporta na sua memória genética» (p. 64); «Nisto de darmos tiros no próprio pé, aos espanhóis sempre nos parece pouco» (p. 87); «Napoleão deu-nos como presente envenenado a devolução do rei mais infame de que há memória» (p. 123); «A velha e turva Espanha, pródiga em rancores, nunca esquece os seus ajustes de contas» (p. 163); «Espanha seria um país estupendo se não estivesse cheia de espanhóis» (p. 181); «Ninguém se suicida historicamente com tão enternecedora naturalidade como um espanhol com uma arma na mão e uma opinião na língua» (p. 246).

 

Portugal é várias vezes mencionado: contei 15 referências. Destaco duas.

«Herdeiro de Portugal inteiro (sua mãe, a belíssima Isabel, era princesa de lá) após fulminar os discordantes na batalha de Alcântara, Filipe II cometeu, se me permitem esta opinião pessoal e intransmissível, um dos maiores erros históricos nesta secular balbúrdia em que tão mal vivemos: em vez de mudar a capital para Lisboa - antiga e senhorial - e dedicar-se a cantar fados contemplando o Atlântico e as possessões da América, que eram o esplêndido futuro (calculem o que somavam os impérios espanhol e português, juntos sob a mesma coroa), o nosso timorato monarca enclausurou-se no centro da Península, no seu mosteiro-residência do Escorial, gastando o dinheiro que vinha das possessões ultramarinas hispano-lusas, além dos impostos com que sangrava Castela.» (p. 74)

«Marginalizados, inundados de impostos, desatendidos nos seus direitos e pagando também o preço nas suas possessões ultramarinas acossadas pelos piratas inimigos de Espanha, com um império colonial próprio que em teoria lhes fornecia abundantes recursos, em 1640 os portugueses decidiram recuperar a independência após 60 anos sob domínio espanhol. Vão àquela parte, disseram. Assim proclamaram o rei João IV, antes duque de Bragança, dando início à guerra, longa de 28 anos, em que se acabou por capar o porco» (p. 94).

 

Li de um fôlego Una Historia de España na versão original. Ainda antes de haver tradução portuguesa. De imediato senti que gostaria imenso de ver obra semelhante produzida entre nós. Sobre a nossa História, tão desprezada e tão esquecida.

Poderia algum dos nossos prosadores mais consagrados descer do pedestal da verborreia lusa, espanejar teias de aranha e conseguir algo semelhante?

Havia um, mas infelizmente já cá não está: Vasco Pulido Valente. Seria um livro adequado à pena dele.

A espada de D. Dinis, Alcanices e os meus antepassados espanhóis

Cristina Torrão, 30.10.22

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A recuperação da espada funerária de D. Dinis, em sequência do restauro do seu túmulo, é uma sensação arqueológica mundial. Escolhi, de propósito, uma imagem com legenda em inglês, de uma página do Facebook intitulada Swordmaker, a fim de mostrar o quanto este achado já agitou a comunidade internacional, tanto de profissionais, como de entusiastas e amantes da época medieval. É uma espada lindíssima, que será restaurada e dará informações preciosas sobre a arte e a estética medievais ibéricas, mas também sobre a sua relação com as restantes tendências europeias.

Com a abertura do túmulo, recuperaram-se, igualmente, restos mortais, nomeadamente, o crânio, possibilitando uma reconstituição do rosto de D. Dinis (algo que aguardo com grande expectativa), assim como os tecidos das suas vestes. Ainda há muito para descobrir sobre a Idade Média. Em muitos campos, como o do vestuário, continua a trabalhar-se com hipóteses ou probabilidades (não exclusivamente).

D. Dinis é conhecido por ter sido poeta/trovador, fundado a Universidade e incrementado a agricultura, mas os seus quarenta e seis anos de reinado (1279-1325) tiveram bem maior significado. O cognome Lavrador não lhe faz justiça. Além da agricultura, ele incrementou a pesca e o comércio. Além disso, incentivou a substituição do latim pelo português nos documentos oficiais (dando um grande contributo para a uniformização da nossa língua), reformou quase todos os castelos e foi um diplomata de excepção (importantíssimo para a estabilidade do reino castelhano, à época, cheio de convulsões internas). O seu reinado teve, porém, facetas amargas, como o conflito armado com o irmão Afonso e os desentendimentos com o seu próprio herdeiro, futuro D. Afonso IV, que mergulharam o reino numa guerra civil e terão inclusive tirado anos de vida ao Rei Poeta.

Há ainda algo que raramente se refere, mas de uma importância extrema: D. Dinis foi o responsável pelas fronteiras definitivas de Portugal, ao incluir no reino, de forma pacífica, as localidades de Moura, Serpa, Noudar e Mourão, e alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal. Foi este o resultado do Tratado de Alcanices (ou Alcañices), assinado a 12 de Setembro de 1297, entre D. Dinis e D. Fernando IV, sob a tutela de D. Maria de Molina, mãe do rei castelhano, que, à altura, tinha apenas onze anos.

Emociona-me que D. Dinis possa, sete séculos depois da sua morte, contribuir tanto para entendermos melhor a sua época. Ele tem sido uma presença recorrente na minha vida, ao longo da última década. Comecei por gozar da sua “companhia” nos dois anos passados em trabalhos de pesquisa e na escrita da sua biografia romanceada, hoje existente apenas numa reedição de autor (neste caso, de autora).

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Mas o meu elo de ligação ao Rei Lavrador passa também por Alcanices, uma ligação que não reside apenas no facto de já lá ter passado dezenas de vezes, nas minhas viagens entre a Alemanha e Portugal, pois entro pela fronteira de Quintanilha. Uma das minhas bisavós (avó paterna do meu pai), Maria de Jesús Rodriguez, era natural de Fonfría, uma localidade do concelho de Alcanices, por onde aliás também passo (não há auto-estrada entre Zamora e Quintanilha). Os pais e os avós de Maria de Jesús Rodriguez (meus tris- e tetravós) eram todos daquela zona. Além de Fonfría, registam-se outros lugares com nomes tão interessantes como Carvajales, Mancenal del Barco e Perrilla de Castro. Tudo isto eu apurei no Arquivo Distrital de Bragança, onde já passei horas e horas a consultar, transcrever e fotografar registos dos livros paroquiais antigos. Se quiser ir mais longe na árvore genealógica, terei, aliás, de ir ao Arquivo de Zamora.

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Esta zona espanhola (eu gosto de dizer leonesa), tão parecida com Trás-os-Montes, no seu isolamento e nas suas pequenas aldeias (algumas não chegam a atingir a centena de habitantes) tornou-se de grande importância para mim. Não passo lá uma única vez sem imaginar os meus antepassados nos seus trabalhos quotidianos e D. Dinis a assinar um dos tratados mais importantes da nossa História.

As duas Espanhas

Pedro Correia, 17.07.22

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«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 86.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Alberti, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha «enterrado os seus mortos e os rancores», decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre». Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña.

A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham - mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

«Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.»

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta.

Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

Judiarias

Ana CB, 04.05.22

 

Sou mais de pensar no futuro do que no passado, mas nas minhas viagens gosto de visitar bairros antigos. Presto atenção particular à arquitectura, sobretudo quando não está “maquilhada” pelas falsas reconstituições que tantas vezes alteram o carácter original dos lugares (assunto com pano para mangas, que poderá ser motivo para outro artigo). Estes bairros são muitas vezes a linha que me conduz a conhecer um pouco da história de cada lugar, frequentemente a posteriori, e também frequentemente para tentar separar o trigo do joio, ou seja, o que é facto histórico verificado daquilo que é efabulação ou exagero para chamariz turístico. Nos últimos anos, o acaso tem levado os meus passos até algumas antigas judiarias em cidades e vilas europeias, e tenho vindo a interessar-me progressivamente por estes bairros, que de uma forma geral mantêm algumas das suas características originais e terão sido menos adulterados pelos modismos da passagem dos séculos.

 

HERVÁS

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Diz a publicidade turística que o seu bairro judeu é um dos mais interessantes e melhor conservados em Espanha. Para mim, foi um dos que mais gostei de visitar até hoje. Hervás fica a pouco mais de 100 km da nossa fronteira, entre Plasencia e Salamanca, entre florestas de castanheiros e carvalhos na região do vale do rio Ambroz. A vila tem as suas raízes em finais do século XII, quando as terras foram doadas por Afonso VIII a monges templários, que ali erigiram uma ermida e apoiaram o povoamento local, submetido à autoridade do Duque de Béjar.

 

Em 1391, estalou em Sevilha uma revolta contra a população judaica, que se alastrou depois a várias cidades dos reinos de Castela, Aragão e Navarra. A Europa sofria os efeitos devastadores da peste de 1348, e no imaginário colectivo havia que atribuir a tragédia a alguém. Ferrán Martínez, arcediago de Écija, foi o grande instigador da revolta, no culminar de vários anos de pregação antijudaica, e os seus seguidores ficaram conhecidos como “matadores de judeus”. Para escaparem aos assassinatos em massa, muitos judeus foram obrigados a assumir a fé católica, e outros fugiram para localidades mais pequenas, onde a convivência religiosa era pacífica e os senhores feudais asseguravam alguma protecção aos habitantes das suas terras. As primeiras referências documentadas sobre a presença de judeus em Hervás datam de 1464, mas é provável que algumas famílias já se tivessem instalado na localidade em datas anteriores.

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Em 1492, quando finalmente unificaram o Reino de Espanha, os Reis Católicos decretaram a expulsão de todos os judeus. Das 45 famílias judaicas que viviam em Hervás, apenas 14 decidiram ficar na localidade, convertendo-se ao cristianismo; as restantes foram conduzidas à fronteira com Portugal, onde se refugiaram. No entanto, vários desses exilados regressaram a Hervás dois anos mais tarde, beneficiando de um édito régio que conferia uma carta de segurança aos conversos castelhanos que quisessem retornar ao reino, garantindo-lhes também formas de recuperarem os seus bens. Uma das pessoas regressadas foi o rabino Samuel, que ingressou na confraria de São Gervásio e pôde assim continuar dissimuladamente a apoiar a prática judaísta e a coesão desta comunidade em Hervás. Apesar de tudo, a aceitação de cristãos-novos na vida da localidade permaneceu difícil e demorada, com estatutos discriminatórios e perseguições que levaram alguns deles à fogueira até que, em 1661, a duquesa D. Teresa Sarmiento de la Cerda aboliu as discriminações impostas e a integração das famílias de cristãos-novos pôde finalmente prosseguir sem grandes entraves.

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O bairro judeu de Hervás começa junto ao rio Ambroz, na ponte medieval da Fonte Chiquita, que é o monumento mais antigo da vila. Vai depois subindo suavemente por ruas estreitas e sinuosas (a Callejilla tem apenas 55 cm de largura!), cheias de recantos e becos, até ao local simplesmente conhecido como La Plaza, uma confluência de ruas marcada por uma oliveira e uns bancos de jardim. As placas toponímicas com uma estrela de David ajudam a identificar as ruas do bairro, que foi declarado conjunto histórico-artístico em 1969 e alvo de uma reabilitação profunda nos anos 90, na qual os próprios habitantes também se empenharam. A arquitectura das casas é tradicional, com paredes de pedra e adobe ou taipa, e tabique em madeira de castanheiro – construções irregulares que ignoram a simetria, com dois ou três pisos, o último sendo muitas vezes saliente ou até mesmo unido à casa do lado oposto da rua. As paredes estão ocasionalmente cobertas por telhas árabes invertidas, colocadas na vertical, ou por pranchas de madeira em sobreposição – soluções de isolamento térmico pensadas para aligeirar os rigores do calor estival e os ventos frios que sopram do Pico Pinajarro. Cabos eléctricos e tubos metálicos convivem com varandins de ferro forjado e vasos de flores, e as portas e janelas ainda não sucumbiram à tentação do alumínio.

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Para capitalizar o potencial turístico da judiaria de Hervás, desde 1997 que se realiza em inícios de Julho a festa “Los Conversos”. Há exposições, música, degustações e uma recriação histórica teatralizada da vida na localidade em tempos medievais e de eventos marcantes na história da sua comunidade.

 

 

BOLONHA

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de quinze famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de onze – mais do que as existentes em Roma – e Bolonha tinha uma prestigiada academia rabínica. Famosas eram também as oficinas gráficas da cidade, onde em 1482 foi impressa a primeira versão física do Pentateuco com comentários do Rabi Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi.

 

Em 1555, um decreto do Papa Paulo IV ordenou que os judeus fossem separados do resto da população, e em Bolonha ficaram confinados a um bairro definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutros locais, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de não abranger as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Além disso, eram obrigados a usar uma marca distintiva, para serem facilmente identificados, e apenas foi permitido que uma sinagoga continuasse em funcionamento. Uma das entradas deste gueto ficava na Via de’ Giudei, uma rua estreitinha e sombria que principia na Piazza di Porta Ravegnana, onde se erguem as famosas Duas Torres de Bolonha (durante o período fascista e anti-semita em Itália, a Via de’ Giudei passou a chamar-se precisamente Via delle Due Torri); outra encontrava-se no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni; e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria.

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A criação do gueto judaico de Bolonha suscitou óbvia agitação e alguma resistência, e apesar de ter sido escolhida a zona da cidade onde a maioria das famílias já vivia, muitas outras foram forçadas a vender as suas casas e mudar-se. Por outro lado, cristãos que viviam dentro do perímetro definido para o gueto tiveram de sair dos seus domínios e arrendá-las aos novos habitantes (os judeus passaram a não estar autorizados a possuírem propriedades). Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitou todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O nome da rua não se devia a nenhum motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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Uma nova bula pontificial expulsou em 1569 os judeus que viviam em quase todos os territórios directamente governados pela Igreja Católica Romana. Readmitidos por Bolonha em 1586, voltaram a ser banidos sete anos depois, desta vez por mais de dois séculos, até à chegada dos franceses de Bonaparte em 1796, que libertou a cidade da influência papal.

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O traçado do gueto judeu de Bolonha permanece bem identificável na actualidade, definido por um labirinto de becos e ruelas que se entrelaçam, arcadas e passagens suspensas, casas muito próximas umas das outras, com janelas pequenas e várias portas (algumas delas falsas, estando as entradas verdadeiras mais dissimuladas), varandas que se misturam com semi-arcadas, e onde a pedra e os grafitis alternam com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

 

 

BUDAPESTE

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A presença judaica na área de Budapeste data do período romano, e há documentos que atestam a sua importância e prosperidade tanto na Idade Média como durante o tempo em que a região pertenceu ao Império Otomano. No entanto, quando em 1686 uma coligação de exércitos cristãos reconquistou Buda, a sinagoga foi incendiada e todas as pessoas que nela se encontravam presentes pereceram. A comunidade judaica que vivia a oeste do Danúbio foi praticamente dizimada.

 

No século XVIII, começou a nascer em Pest um novo bairro judeu, que corresponde actualmente à metade interior do Erzsébetváros (o Distrito VII), dentro do perímetro definido pela rua Király, avenida Erzsébet, rua Dohány e avenida Károly. Em 1867, os judeus húngaros passaram a ter direitos civis idênticos aos da restante população, e a comunidade floresceu. Budapeste estava em rápido crescimento urbano e económico, atraindo cada vez mais habitantes, que em 1910 já ultrapassavam o milhão – e quase um quarto das pessoas professavam a fé judaica. O bairro judeu era uma área comercial e residencial vibrante, e constituía o núcleo cultural e religioso da comunidade, contando com três sinagogas.

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Depois da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro desintegrou-se e a Hungria perdeu dois terços do território que detinha antes do conflito e mais de metade da sua população. A instabilidade económica crescente levou ao descontentamento social e a uma cada vez maior animosidade contra os judeus, que se transformaram em alvo preferido dos líderes húngaros, em especial depois da subida ao poder de Miklós Horthy, que instaurou um regime de extrema-direita influenciado pelas políticas anti-semitas da Alemanha nazi. Após a ocupação alemã em Março de 1944, as autoridades húngaras ordenaram que o bairro judeu fosse transformado em gueto e completamente separado do exterior. Em apenas 56 dias, muitos milhares de judeus foram deportados para os campos da morte na Polónia, e o partido ultranacionalista NYKP, que esteve no poder entre 15 de Outubro de 1944 e 28 de Março de 1945, matou mais de dez mil. Dos que restaram, a maioria morreu de fome, doença ou hipotermia nas ruas do gueto.

 

A chegada do exército soviético em Janeiro de 1945 libertou o gueto e os seus poucos sobreviventes, mas durante a era comunista a população do bairro foi diminuindo, atraída pela modernidade dos distritos mais periféricos de Budapeste. O declínio e as adulterações imobiliárias foram alterando o carácter original da judiaria, e a gentrificação ocorrida nos últimos vinte anos deu-lhe um rumo diferente. Permanecem as três sinagogas, das quais a da rua Dohány é a mais frequentada e também a mais famosa, por ser a maior da Europa. E é de facto um edifício belíssimo e impressionante, construído em meados do século XIX em estilo neo-românico combinado com elementos mouriscos e bizantinos. Permanece também o traçado meio irregular das ruas densamente construídas, onde ainda predominam os edifícios de arquitectura historicista, as suas fachadas debruadas ou forradas a pedra, com grandes janelas e elementos ornamentais ilustrativos de todos os “neos” – neoclássicos, neogóticos, neobarrocos.

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As cicatrizes dos acontecimentos da Segunda Grande Guerra ainda são visíveis actualmente, como também o são os danos provocados pelas décadas de abandono a que o bairro foi votado. E no entanto, qual fénix renascida das cinzas, é precisamente devido à sua degradação que este antigo bairro judeu é agora um dos locais mais trendy da Europa, elevando o Erzsébetváros à categoria de distrito mais populoso de Budapeste. As rendas baixas de edifícios dilapidados em ruas negligenciadas começaram a atrair, nos primeiros anos deste século, uma população jovem e empreendedora, pese embora com poucos meios financeiros para investir. O primeiro caso de sucesso foi o Szimpla Kert, ícone dos chamados “ruin bars” que são agora uma espécie de imagem de marca da cidade. O que começou por ser uma tentativa de salvar da demolição um complexo que em tempos abrigou habitações e uma fábrica, tornou-se primeiro no local mais cool de Budapeste, frequentado pela juventude liberal e vanguardista, e depois numa atracção turística que é obrigatório visitar. O espaço degradado foi sendo progressivamente preenchido com toda a espécie de móveis velhos, objectos mais ou menos estranhos, bugigangas, plantas, luzes e tudo o que se possa imaginar, funcionando simultaneamente como café e bar, local de espectáculos, festas e eventos, mercado de produtos agrícolas ao domingo de manhã, e loja de artigos kitsch. Cada sala é um mundo diferente, há escadas e recantos, grafitis nas paredes, cores vibrantes, banheiras que são assentos, bicicletas penduradas no tecto, manequins, e até um carro. Uma miscelânea caótica que atordoa os sentidos à noite, quando o barulho das pessoas e da música alta nem nos deixa pensar, mas é surpreendentemente convidativa durante o dia, quando o lugar está tranquilo e quase vazio. Duas faces de uma mesma moeda.

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Atrás do sucesso do Szimpla Kert vieram lojas, ateliers, restaurantes com comida de todo o mundo, mais bares, e muita arte de rua. Na nova vida deste bairro convivem o antigo e o novo, judeus e gentios, habitantes e turistas, a tradição e o vanguardismo. Claro que nem tudo são vantagens, e como em tantos centros históricos de outras cidades, a popularidade e o turismo estão a fazer subir os preços das habitações, e a afastar os residentes para outros distritos mais baratos e mais tranquilos. É mais uma fase na história do bairro judeu de Budapeste.

 

 

CASTELO DE VIDE

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Embora não haja certezas quanto às origens do bairro judeu de Castelo de Vide, há indícios de que as primeiras famílias judias se tenham instalado na localidade em princípios do século XIV. Apesar da segregação existente, que tinha como vantagem fortalecer laços dentro da própria comunidade e manter inalterados os seus hábitos religiosos e culturais, a convivência entre cristãos e judeus era pacífica e mutuamente benéfica. Por tradição, além da sua vocação mercantil, a comunidade judaica apostava no estudo e no desenvolvimento intelectual, razão pela qual muitos dos seus elementos desempenhavam funções socialmente importantes, fosse como físicos, botânicos, professores, prestamistas ou homens de leis. Foi aqui que nasceu Garcia da Orta, filho de judeus conversos, que mais tarde estudou medicina na Universidade de Salamanca e exerceu esta profissão em Goa a partir de 1534.

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O número de famílias judaicas em Castelo de Vide cresceu sobretudo após 1492, ano em que os Reis Católicos de Espanha ordenaram a expulsão de todos os judeus que viviam nos seus territórios, muitos dos quais se refugiaram em Portugal, onde ainda podiam professar a sua religião sem incómodos de maior. Crê-se que mais de cinco mil judeus vindos de Espanha tenham passado por ali, e bastantes terão ficado. No entanto, o Portugal como refúgio tranquilo foi sol de pouca dura. A negociação do casamento de D. Manuel I com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos, levou a que o nosso rei fosse pressionado a, também ele, expulsar do reino quem não se convertesse ao catolicismo, o que acabou por suceder em 1496. Quarenta anos mais tarde foi criado em Portugal o Tribunal da Inquisição, marco negro na história da convivência religiosa no nosso país, onde se iniciou um terrível período de perseguição aos cristãos-novos que só terminaria em 1767 com a reforma pombalina e com o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

 

Apesar das conversões forçadas, a prática do judaísmo nunca desapareceu completamente em Portugal, e Castelo de Vide testemunha bem esse facto. Nas ruas do antigo bairro judeu, entretanto sujeito a modificações e recuperações, ainda se notam elementos característicos do tipo de ocupação que tiveram, e que continuaram preservados ao longo dos séculos. A judiaria desenvolveu-se na encosta nascente da vila, a partir das muralhas do castelo. O largo onde fica a Fonte da Vila é o centro radial deste bairro – e a fonte é, além disso, o ex-libris de Castelo de Vide. Aproveitando as águas de uma nascente, a fonte terá sido ampliada ao longo dos tempos, datando do século XVI o essencial da forma que lhe conhecemos hoje: rectangular, ornamentada e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Deste largo saem as ruas da Fonte, do Arçário, do Mestre Jorge e a rua Nova, que ligam a várias outras num padrão sinuoso e irregular. Nas ruas empedradas que levam ao Castelo, as casas têm habitualmente duas portas no piso térreo: uma daria acesso às escadas que levavam ao piso superior, de habitação, e a outra seria a da loja onde era desenvolvida a actividade comercial da família. Muitas destas casas ainda conservam os pórticos ogivais de granito, alguns com gravações nas impostas que suportam o arco, que podem ser símbolos profissionais ou pequenos entalhes com cerca de 10 cm, característicos do culto judaico, que têm o nome de “mezuzot”.

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Na esquina da Rua da Fonte com a Rua da Judiaria encontramos o edifício da antiga Sinagoga, que agora é um museu. As sondagens arqueológicas efectuadas durante as obras de recuperação revelaram que o edifício teve períodos de ocupação distintos desde pelo menos o século XIV, com uma primeira fase até ao século XVI e uma outra mais tardia. Crê-se que no piso superior se encontraria o Tabernáculo e um espaço dedicado ao ensino. Escavados na base do piso inferior descobriram-se três silos, que também apresentam indícios de terem sido usados em épocas diferentes. Terá passado a servir de residência particular no século XVIII, e foi reconstruída em 1972 de acordo com a sua traça original.

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Deste passado, mantém-se na memória colectiva a importância da celebração da Páscoa em Castelo de Vide. Da prática do judaísmo nesta vila foi herdada a bênção dos borregos, cujo abate posterior tem semelhanças com o ritual judaico tradicional.

 

***

 

Estes são apenas quatro exemplos de bairros judeus, entre os muitos que estão bem identificados em vários países da Europa. Como tudo o que envolve reconstituição histórica secular, há sempre alguma (por vezes bastante) controvérsia em torno destes bairros. Mas isso não lhes retira o encanto, nem afecta a minha capacidade de imperfeitamente imaginar como terá sido o dia-a-dia das pessoas que ali viveram ao longo dos tempos, e que outras histórias interessantes aquelas paredes contariam se pudessem falar.

Esquerda, direita

Pedro Correia, 16.11.21

Um partido espanhol recém-surgido, denominado España Vaciada (EV), já figura nas sondagens. Promete ser o representante dos esquecidos e negligenciados nas províncias mais pobres e despovoadas do país vizinho. Começando a alarmar os estados-maiores das principais forças políticas. Segundo uma recente pesquisa de opinião, poderá roubar seis deputados ao PP e cinco ao PSOE, conseguindo 15 representantes no parlamento.

Isto confirma que a política está em permanente mudança nos dias que vão correndo. Partidos como o EV - prefigurados no Teruel Existe, que já elegeu um deputado nas anteriores legislativas afirmando-se representante da Espanha profunda - não são de esquerda nem de direita. 

Aliás o que significam hoje a esquerda e a direita na política? Onde se situam Rui Rio, hipotético chefe da "direita", que vota a favor da legalização da eutanásia na Assembleia da República, e Jerónimo de Sousa, suposto representante da "esquerda", que vota contra a mesma iniciativa legislativa? Lamento decepcionar os cultores de etiquetas, mas esses conceitos geométricos ficaram lá para trás.

Ibéria unida

Cristina Torrão, 13.10.21

Espanha tem muito que celebrar e nada a arrepender-se”.

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No Dia da Espanha, o partido de extrema-direita VOX publicou no Twitter uma ilustração de um mapa-mundo com os territórios que pertenceram a Espanha durante o período colonial sinalizados a vermelho, entre eles Portugal, assim como Cabo Verde, Moçambique ou até a Guiné-Bissau.

(E eu acrescento o Brasil, ou é dos meus olhos?)

Ó Venturinha, os teus compinchas espanhóis andam a gozar contigo! Tens de os pôr na ordem! Ou só berras na nossa Assembleia?

Proibir o sexo

Pedro Correia, 02.07.21

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O Governo espanhol fez aprovar a Lei Trans e de Igualdade LGBTI, que introduz alterações no Código Civil, designadamente no capítulo sobre paternidade e filiação. As mudanças previstas - concedendo "autodeterminação de género" aos maiores de 16 anos sem autorização parental, conselho médico ou tratamento hormonal - interditam palavras como mãe e pai: a nova designação politicamente correcta é "progenitores". A partir de agora com monopólio legal. 

A mãe torna-se "progenitora gestante" e o pai será "progenitor não-gestante".

 

A engenharia social levada a cabo pelo Executivo de Pedro Sánchez investe contra outras palavras arcaicas, como mulherhomem. Neste admirável mundo novo, só há lugar para pessoas, sem distinção de sexo. Aliás, o próprio sexo é banido: a novilíngua, de tesoura em riste, apenas permite "género".

A comunista Irene Montero, ministra da Igualdade, congratula-se com esta "conquista civilizacional". Qualquer madre superiora diria o mesmo. O sexo regressa assim à clandestinidade. De onde, segundo algumas boas almas, nunca devia ter saído.

Rappers, lagartixas e jacarés

Diogo Noivo, 06.03.21

O rapper catalão Pablo Hasél foi detido há semanas. Desde então, as noites de Barcelona passam-se a ferro e fogo. A imprensa portuguesa explicou-nos que o crime de Hasél foi o de injuriar a Coroa. José Pacheco Pereira, sempre lesto na defesa da pátria catalã, pegou na explicação e embandeirou em arco. Porém, tudo isto sofre de um pequeno mal: é um embuste. A convite de revista Sábado, escrevi um artigo sobre o assunto, que pode ser lido aqui.

Pátria

Maria Dulce Fernandes, 09.11.20

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Baseada num livro de Fernando Aramburu (cuja leitura é fundamental antes de ver a série) a acção de Pátria inicia-se nos anos setenta e conta a história de duas famílias bascas e da sua relação com a ETA e com o conflito armado, da sua amizade, dos seus amores, ódios viscerais e hipocrisias, e termina em 2011 com a proclamação do cessamento da luta armada pela organização separatista basca. O autor explicou que só adquirindo o distanciamento necessário em tempo e espaço pôde ganhar o olhar isento necessário para escrever sobre as passagens ficcionadas da sua juventude em San Sebastián e isso é visível em toda a obra.

Há memórias que retemos mesmo involuntariamente. Uma que me chegou nítida, ao começar a ler Pátria, foi a de um cartoon de 1975 que fez capa num jornal dos vários que o meu pai comprava e que retratava um general Franco decrépito numa cadeira de rodas, a girar o garrote ao qual Espanha condenou à morte Garmendia e Otaegui, dois membros do braço armado da ETA. Apesar de em Espanha, em Portugal e em muitos outros países se manifestarem em favor da comutação da pena de morte, um dos etarras, Otaegui, foi executado pelo regime.

O livro é bom e a série recomendo vivamente.

Notícias do lado de lá da raia

Diogo Noivo, 03.11.20

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Cúmplices na miséria ética e nas pulsões totalitárias, extrema-esquerda e extrema-direita saíram às ruas de Espanha para partir e incendiar. Como é próprio dos cobardes e dos tarados, saíram pela calada da noite. A destruição foi rapidamente partidarizada ao bom estilo guerracivilista: o Vox vê antifascistas a queimar contentores; o Podemos vê fascistas a partir montras. Uns e outros só vêem meio país e só falam para meio país. A outra metade responde pelo nome “inimigo”. A radicalização da arena política espanhola está a alcançar patamares nunca vistos em democracia, nem mesmo nos anos de crispación entre o PP e o PSOE de Zapatero.

As causas são profundas e explicam-se com histórias antigas e vergonhas recentes. As mais imediatas encontram-se no momento da investidura do governo em funções. Afinal de contas, Pedro Sánchez jurou respeitar a Constituição e o Rei apoiado por partidos que desejam destruir a Constituição e depor o Rei. Só por milagre a coisa correria bem.

 

ADENDA: a propósito da violência urbana em curso, recomendo a leitura deste texto do Joseba Louzao no El Subjectivo.