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Falar muito e comer quase nada

por Pedro Correia, em 04.07.19

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Já aqui expressei a minha perplexidade pelo facto de haver tão escassas descrições de lautos manjares na literatura portuguesa. Perplexidade tanto maior quanto é sabido que gostamos de comer e encontramos uma apreciável variedade de opções gastronómicas no País, viajemos para onde viajarmos dentro das nossas fronteiras. Às vezes parece-me que os nossos escritores consideram o tema um assunto menor. Ou, para ser mais directo, que não apreciam mesmo os prazeres da mesa. Podemos percorrer a obra inteira de vários autores sem depararmos com um único repasto memorável. 

Há excepções, claro, e bem notáveis. Mas, certamente não por acaso, são aquelas que todos conhecemos - com destaque para a inesquecível ceia proporcionada a Jacinto na sua primeira noite em Tormes. 

 

Foi, portanto, com imenso agrado que deparei há dias com uma apetecível refeição descrita por Agustina Bessa-Luís na terceira e última parte do seu romance Fanny Owen. Abriu-me o apetite, confesso. De tal modo que não resisto a partilhar convosco esse excerto:

«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»

 

Caramba, uma descrição destas até dá gosto. Sobretudo por ser tão rara nas nossas pomposas letras, jamais propícias a trocar a sala pela cozinha. Falta-nos um Rex Stout, falta-nos um Georges Simenon, falta-nos um Vázquez Montalbán - escritores que não tinham complexos em demonstrar a sua paixão pela arte culinária. Ao contrário do que sucede na literatura portuguesa, em que muito se fala e quase nada se come.

Mais um motivo para aqui lhe deixar a minha vénia grata enquanto seu leitor muito atento, Dona Agustina. 

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Chico Buarque: justa distinção

 

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Chico Buarque é o galardoado este ano com o Prémio Camões. Acho muito bem. Pelo menos três álbuns dele são discos da minha vida. Sei de cor dezenas de canções que ele compôs. E confesso-me admirador da ficção que tem publicado: vai fazer três anos, cheguei até a analisar no DELITO um desses livros, Leite Derramado, de que muito gostei.

Em 2016, quando foi anunciado o Nobel da Literatura a Bob Dylan, na caixa de comentários de um texto meu elogiando tal escolha, deixei esta observação: «Em português, elegeria sempre Chico Buarque.»

2

Recordo isto só para que fique bem claro: aplaudo o prémio a Chico, como aplaudi o de Dylan. Nada contra, tudo a favor.

Mas registo omissões nesta lista de premiados que já leva três décadas - algumas das quais considero chocantes.

Do lado brasileiro, destaco as três que me parecem mais gritantes: Nélida Piñon, Adélia Prado e Luís Fernando Veríssimo. Tanto mais que entre os distinguidos do Brasil figura pelo menos um, Raduan Nassar, que não tem obra nem currículo para merecer o Camões: publicou quatro títulos em 21 anos, não tem um original editado desde 1994 e a obra completa deste autor não excederá 500 páginas. Ele próprio, aliás, não escondeu a sua admiração no discurso de agradecimento, em 2016: «Tive dificuldade para entender o Prémio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri.»

Também eu tive.

 

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Graça Moura: esquecido pelo júri

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Quanto aos portugueses, o essencial do cânone está cumprido. Alguns até fora do cânone mais óbvio, como esse singular poeta das pequenas emoções quotidianas que foi o Manuel António Pina. 
Faltou Fernando Assis Pacheco, que já não foi a tempo: este prémio não é concedido a título postúmo. Vasco Graça Moura, infelizmente também já falecido, é uma omissão escandalosa. E (só por factores cronológicos) talvez seja ainda um pouco cedo para o meu amigo Francisco José Viegas, autor daquele que considero o melhor romance português da primeira década deste século: Longe de Manaus.

 

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Mário de Carvalho: prémio já tarda

4

Por mim, não hesitaria em atribuir o Prémio Camões a Mário de Carvalho, de longe o melhor romancista (mas também contista e ensaísta) português vivo, autor de obras-primas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto. Omissão que também já começa a ser escandalosa. 

Caramba, alguém julgará que Pepetela (premiado em 1997) merece mais que ele?

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Fora dos trilhos canónicos, daria sem pestanejar o galardão a Vasco Pulido Valente, para mim o mais brilhante - desde logo porque controverso, iconoclasta - ensaísta, historiador e cronista português contemporâneo.

Muito mais merecido que certas "glórias" efémeras das letras lusófonas, condenadas num futuro pouco distante a dissolver-se como bolhas de sabão. 

 

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Vasco Pulido Valente: se pudesse, votava nele

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Há muitas coisas belas na terra

por Pedro Correia, em 14.05.19

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Às vezes é quanto basta. Abrimos um livro, lemos a frase inicial e logo ela nos agarra, despertando-nos a atenção para ler as frases seguintes, sem desgrudar da obra até ao fim.

Alegro-me cada vez que me acontece. Sucedeu há dias, ao abrir um exemplar do romance As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís, em boa hora regressado aos escaparates no âmbito do lançamento da obra completa da grande escritora que tem vindo a ser conduzido por Francisco Vale na editora Relógio d' Água.

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.» Começa assim, da melhor maneira, este romance de Agustina, muito menos (re)conhecido do que merece. 

Superado o primeiro teste, logo avanço na leitura. Um grande escritor avalia-se, desde logo, pela sua capacidade de nos seduzir pela palavra, sua ferramenta de eleição. É o caso de Agustina. Tal como sucede com Jorge de Sena, na magnífica frase de arranque do seu Sinais de Fogo: «Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus.»

Ou Cardoso Pires, n' O Anjo Ancorado: «Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» Ou Vergílio Ferreira, nesse fabuloso romance intitulado Alegria Breve: «Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?»

Saber escrever, saber captar a atenção de quem nos lê - eis o desafio supremo, ao alcance de poucos. Aprendamos com os mestres da palavra a trabalhá-la. Como se fosse terra fértil lavrada por um camponês, como se fosse pedra esculpida por um escultor, como se fosse filigrana nas mãos de um ourives.

Escrever é muito mais do que alinhavar palavras. Como durante anos ensinei aos meus estagiários em jornalismo, para escrever bem nada melhor do que ler muito. Enquanto leitores, aprendamos com quem sabe. Com Camus, que nos introduz no reino mágico da ficção - «a mentira através da qual se diz a verdade». Com Simenon, que em apenas três palavras nos transmite uma das melhores lições: «Escrever é cortar.»

Para escrever bem, há que apelar à sensibilidade e ao intelecto em simultâneo, o que não está ao alcance de qualquer um. Como Agustina demonstra na obra que nos foi legando. «Há qualquer coisa de premonitório neste romance. Pelos costumes das pessoas, pelos sentimentos, pelas relações entre parentes e familiares, percebe-se que já muita coisa mudou ou está em mudança antes mesmo de a revolução acontecer», observa António Barreto no prefácio à novíssima reedição d' As Pessoas Felizes.

Há muitas coisas belas na terra. E algumas experiências sem substituição possível, como o prazer único que só a leitura nos proporciona. Ao rasgar-nos horizontes e ao elevar-nos vários palmos acima do chão.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.01.19

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"Somos a nossa memória, começou por dizer, a memória determina o que sentimos, o que sabemos, o que imaginamos, o que intuímos, somos a nossa memória e quando lhe perdemos o acesso, mergulhamos num vazio inimaginável, sem acesso à memória não poderemos saber dos valores morais que nos guiam, dos amores e dos medos, das ambições, dos erros e fracassos, tornamo-nos tão imprevisíveis e misteriosos como qualquer recém-nascido, mas enquanto o recém-nascido é um desmemoriado programado para criar memória, para se tornar um adulto autónomo e independente, estes desmemoriados estão impedidos de criar e guardar memórias, estão impedidos de tornar a ser, de mentis, do latim, mente vazia, podemos dizer sem exagero que se assiste à construção do nada, percebe?" (Dulce Maria Cardoso, Eliete, Tinta-da-China, Lisboa, 2018, pp. 244/245)

 

Parti para a sua leitura sem saber o que iria encontrar, embora pensasse que de uma consagrada como Dulce Maria Cardoso, vencedora de inúmeros prémios, traduzida e publicada em duas dezenas de países, nunca se pode esperar pouco. E não me enganei.

Não sei se existe aquilo a que já alguém chamou uma "escrita no feminino", expressão que considero detestável mas que entendo como querendo referir-se a uma escrita feita por mulheres e que por isso mesmo carregaria um estilo muito próprio, com preocupações que não seriam as decorrentes de um texto sobre o mesmo tema escrito por homens.

Pensei nisso várias vezes ao longo da leitura desta "Parte I A Vida Normal". A vida de uma mulher escrita por outra mulher, num período histórico muito próprio, percorrendo momentos pré e pós-revolucionários, a revolução social operada em Portugal e o universo muito particular e espacialmente localizado de Cascais e da linha do Estoril, percorrendo a emancipação profissional e sexual da mulher, os dramas da família e do casamento, a partida, a separação, a ausência, a dor, o esquecimento, o nascimento, a velhice e a morte. Um olhar que até no julgamento que faz de Jorge se torna cruel de tão cristalino. 

Está lá tudo numa narrativa consistente, com uma escrita poderosa, que flui e nos agarra ao longo das quase três centenas de páginas, antes de um final que será tudo menos expectável. A linguagem é desprovida de ornamentos, forte, por vezes mesmo agreste, rude, apesar de perfeitamente enquadrada nas cenas descritas, nas deambulacões da personagem principal. 

Costumo dizer que os melhores livros são os que me surpreendem pela qualidade da escrita do seu autor e pela projecção da narrativa. Quando um livro me faz esquecer as suas páginas ao longo da leitura, para me fazer saltar as suas próprias barreiras e é capaz de me levar para uma outra dimensão do pensamento e da palavra, com a mesma simplicidade com que me transporta ao longo dos seus parágrafos, quase como que projectando as suas diversas histórias numa só, e misturando as nossas com as do texto, é sinal de que está muito para lá daquilo que é o romance ou a novela convencional, fazendo esquecer a obra em que todos os cânones se revêem, são respeitados, onde tudo surge muito limpinho, muito formal, muito compenetrado e insípido.

O sal da escrita de Dulce Maria Cardoso está na luz que projecta, no modo como ilumina ao leitor o trajecto de Eliete e o faz dele participar, muitas vezes sem que seja possível para quem lê aperceber-se logo das opções tomadas pela autora e da multiplicidade de sentimentos que assolam vidas aparentemente simples e normais. Como que a dizer-nos que não existem vidas simples nem normais. Há apenas vidas. Cada uma tem a sua cor. O segredo está em saber colocá-las todas nas páginas de um livro, sem cansar e enriquecendo-nos a memória.

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Agustina

por Pedro Correia, em 15.10.18

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Agustina Bessa-Luís, romancista maior da língua portuguesa, nasceu faz hoje 96 anos. Será motivo para celebração na intimidade familiar a que se recolheu e é seguramente motivo para todos nós, seus leitores, lhe desejarmos votos de felicidade pessoal, certos como estamos de se tratar de alguém que ainda em vida já cruzou o portal da perenidade – algo que muitos ambicionam mas raros alcançam.

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Carta para Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.18

Querido Eduardo
Sobrevivemos mais um ano e as histórias são múltiplas, impressas numa vertigem que te encantaria e, depois, seria pretexto para te sentires derrotado. Existem poucas pausas. Não te faria sentido esta velocidade e, embora possa perceber que tivesses a tua página aqui ou em outra rede social, serias mais voyeur do que participante, creio. Tu gostas de observar, bem sei, de ver como se vai de A para B e que atalhos puros ou conspurcados farão esse caminho. Darias muitas gargalhadas com as enormidades recheadas de pensamentos pequenos, pequeninos, minados de inveja - ah, esse sentimento tão português!. E pasmarias com a quantidade de imagens e comentários sobre a perfeição de uma vida para consumo alheio. A intimidade é aterrorizadora, arranjámos uma montra para disfarçar as pregas, os buracos, as bainhas descaídas de uma vida que se entende cada vez menos. O planeta tem gestos políticos cada vez mais fortes, cada vez mais, mas pasmamos e fazemos pouco, fazer implica um movimento de auto preservação que parece que só teremos na iminência de um ataque daqui a doze horas. Até lá empurramos com a barriga. Ficarias desgostoso com as politiquices e com a política fria e pouco humanista que parece crescer e multiplicar-se pelo mundo fora. Não é o Trumpo, é tudo, são todos. É assustador como a banalidade do mal de que falava Arendt não prescreveu, como não conseguimos melhorar. Sim, tenho de te dizer que não melhorámos em nada. De resto, querido Eduardo, a tua morte parece estar calada nas coisas da cultura, quem se lembra de quem? Seria bom estares aqui para explicar o conceito: cultura, o que é? Porquê a sua importância? Rumores e boatos temos em fartura, conquistas poucas, egos mexidos em excesso. Infelizmente, o tempo traz a idade e a idade as limitações - quantas vezes falámos sobre isto? - e, também por isso, a nossa mm escreve com a sua velocidade de cágado e protege-se numa cápsula protector que tem uma porta invisível, apenas reconhecida por ela. Não a vejo como gostaria. Não falamos ao telemóvel, bem sabes como odeia essa coisa de falar para dentro de uma pequena caixa que vai aquecendo na pequenez das mãos. Not even the rain has such small hands, não é assim? Das mãos da mm nasce uma rede de apoio e de afecto que se estende por mim, pelos meus. Embora longe não existe distância. E de ti, querido, mantemos a proximidade, em pensamento, em saudades. Já te disse que não deverias ter ido tão cedo? Sim, eu sei, é tarde. Beijo-te daqui

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Cepa torta

por Ana Vidal, em 08.02.18

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Engraçado, não nos livramos da hipocrisia nem à bala. Nem da incoerência, já agora: as mesmas pessoas que aplaudem entusiasticamente o facto de o movimento "metoo", denunciando casos de assédio e abuso sexual, tenha tido uma projecção mediática estratosférica, tenha explodido numa cerimónia pública e sido encabeçado por figuras conhecidíssimas, vêm agora condenar prontamente a denúncia de Lobo Antunes contando o seu próprio caso de abuso, portanto sobre o mesmíssimo tema, e igualmente numa cerimónia pública. Por causa disso já lhe ouvi chamar gagá, inconveniente, incontinente mental, ofensivo, exibicionista, etc.  

E pasmo. Será por ser homem? Será por ser uma figura tão amada como odiada no meio literário, mas seguramente invejada pela liberdade de dizer tudo o que pensa e sente, doa a quem doer? Será por ter sido perante uma plateia de crianças, como se não fossem precisamente essas que devem ser alertadas para estes perigos? Será por ter "embaraçado" o Presidente da República, ingrato, depois de este lhe ter chamado Genial? Não entendo. Ou entendo bem demais, no fundo. É a velha fórmula que nos faz ser pequeninos desde sempre: tudo o que se passa "lá fora" é bom, mas se alguém se atreve a fazer o mesmo dentro de portas, agitando as águas e incomodando os brandos costumes, aqui d'el rei que devia era estar calado.

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Atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do Prémio Oceanos, que é o mais importante prémio literário para literatura de língua portuguesa ( à excepção do Prémio Camões, claro - mas esse é um prémio de consagração pela totalidade da obra, e aliás é também escandaloso que Maria Teresa Horta ainda não o tenha recebido) representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado. Não achavam Anunciações - a obra em causa neste prémio - digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho Inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados. 

Maria Teresa Horta é uma voz absolutamente singular, original e renovadora na poesia contemporânea de língua portuguesa; isso mesmo tem sido realçado por alguns dos mais notáveis poetas e críticos - como Ana Luísa Amaral, que se estreou na poesia em 1990 com Minha Senhora de Quê, glosando e dialogando com Minha Senhora de Mim (1967).  Escreve sobre o desejo das mulheres pelo corpo dos homens com um desassombro, uma exactidão e uma liberdade que abala todos os preconceitos e incomoda visivelmente muitas e mui solenes eminências pardas. Tem talento e tem leitores, dois pecados que só se admitem a um escritor do sexo feminino se aparecerem separados, com fumos de humildade e contrição, para exorcizar o poder que unidos representam. 

Os prémios podem ajudar a divulgação e a tradução dos livros, é certo, mas, em última análise, são fenómenos temporais e temporários; nenhum conjunto de jurados tem o poder de fazer entrar na posteridade, ou excluir dela, nenhum autor. Tolstoi perdeu o primeiro Prémio Nobel da Literatura, em 1901, para o escritor francês Sully Prudhomme, que ninguém hoje lê nem se sente tentado a publicar. Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras e Clarice Lispector nunca o receberam, e continuam a deslumbrar gerações sucessivas de leitores. Para quem se sente permanente e infinitamente grato à obra de Maria Teresa Horta, como é o meu caso, é indiferente que os seus livros cintilantes como relâmpagos sejam ou não reconhecidos por este ou por aquele grupo de inteligências críticas suas contemporâneas; mas que, ao cabo de 57 anos de um trajecto literário de raro pioneirismo e inovação se lhe ofereça um prémio de consolação e a meias com outro escritor, é simplesmente ofensivo.       

Dir-me-ão que o Prémio Oceanos contempla livros e não carreiras. Fraca e frequente desculpa, nesta nossa época de imorais relativismos, em que a literatura se tornou uma passarela de moda onde só brilha - e brevemente - a carne fresca. Mas mesmo assim, pergunto: leram Anunciações? A sério? 

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Na morte de B.B.

por Inês Pedrosa, em 11.05.17

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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele - com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

"O adjectivo é a prosa a tomar partido", disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. "Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido", repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

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A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

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Paulo Varela Gomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.02.17

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"A culpa não se expia, nem sequer pelo crime. Só Deus perdoa."

 

Partiste cedo, mas chegas sempre a horas. Obrigado.

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O que dizem de Dylan

por Pedro Correia, em 14.10.16

"Para mim, foi como terem dado a medalha ao Evereste: ele é o mais alto do mundo."

Leonard Cohen, El País

 

"De Orfeu a Faiz, canção e poesia sempre estiveram estreitamente ligadas. Dylan é um brilhante herdeiro da tradição trovadoresca. Grande escolha."

Salman Rushdie, Twitter

 

"Uma inspirada escolha do Comité Nobel. Muitos de nós fomos (quase literalmente!) assombrados pelas canções de Dylan na década de 60 - poderosos monólogos dramáticos e versos surrealistas (It’s All Over Now, Baby Blue,” “With God on Our Side,” “Blowin in the Wind,” “Like a Rolling Stone”)."

Joyce Carol Oates, Wall Street Journal

 

"Dylan e Leonard Cohen são grandes poetas."

Francisco José Viegas, Correio da Manhã

 

"Dylan é um dos grandes poetas do nosso tempo."

João Pereira Coutinho, Correio da Manhã

 

"Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais."

Miguel Esteves Cardoso, Público

 

"Já ouvi reacções indignadas de escritores portugueses, e até de um músico, o que é extremamente ridículo. Este é um prémio justíssimo."

Sérgio Godinho, Diário de Notícias

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À espera do Nobel da Literatura

por Pedro Correia, em 07.10.16

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 Amos Oz

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 John Le Carré

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  Rubem Fonseca

 

Aberta a época da distribuição dos prémios Nobel (apelido que a maioria dos jornalistas televisivos em Portugal continua a pronunciar erradamente com acento no o, quase emudecendo o e da sílaba tónica em sueco), faço desde já um desafio aos leitores do DELITO DE OPINIÃO: deixem aqui os vossos vaticínios sobre quem será o escritor que vai receber o galardão destinado a distinguir a literatura. Só o conheceremos no próximo dia 13, mas a gente arrisca. Ao contrário do outro, que só fazia prognósticos no fim.

Tomo a liberdade de antecipar desde já três escritores que a meu ver há muito mereciam receber o Nobel: Amos Oz, John Le Carré e Rubem Fonseca. Ainda vão a tempo, embora eu duvide do critério da academia de Estocolmo, que em 1978 - só para dar um exemplo - excluiu Graham Greene e Jorge Luis Borges.

Quem vos parece que vai ganhar?

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Frases de 2016 (30)

por Pedro Correia, em 30.09.16

«Trocava os meus sete romances por um filho.»

Valter Hugo Mãe, hoje, em entrevista ao DN

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Hoje, a propósito do Festival Internacional de Cultura, a Déjà Lu andou em polvorosa. A RTP tinha-nos pedido para filmar um par de entrevistas numa das nossas salas e nós não nos fizemos rogados. Estendemos a passadeira vermelha e vergámo-nos em vénia, mortinhos por assistir a tudo.

O primeiro entrevistado foi Andrew Morton, famoso biógrafo de várias personalidades, incluindo membros da família real inglesa. A conversa foi muitíssimo interessante, mas confesso que tinha o coração em pulgas. Sabia que o segundo convidado seria David Lodge. Ora, eu adoro o David Lodge, a tal ponto que já li três vezes o “Terapia” e sei várias passagens de cor.

De maneira que quando a equipa técnica, entre uma entrevista e outra, comentou que “o outro” ainda não tinha chegado, tive de me insurgir e de perguntar se se estavam a referir naqueles termos miseráveis a Sir David Lodge.

Lá chegou então o senhor, muitíssimo discreto, que se deixou entrevistar com toda a candura.

No final, convidei-o a visitar a livraria. Expliquei-lhe que se tratava de uma livraria solidária, cujos lucros eram destinados a 100% para projectos de profissionalização de jovens com Síndrome de Down. Neste momento fui interrompida: “Down Syndrome, you said? Do you know that I have a son with Down Syndrome?’”.

E foi assim que tive direito a uma prolongada cavaqueira com um dos meus escritores predilectos, que autografou com toda a boa vontade e simpatia uma data de exemplares que lhe fui pondo à frente com toda a lata do mundo.

Depois, convidei-o a voltar à livraria para passar pelas brasas num dos nossos cadeirões, prometendo que não o ia maçar nada, nada, nada. Mesmo nada.

A vida às vezes dá-nos cada presentão.

 

Eu e David Lodge.jpg

 

Eu, em estado de comoção apocalíptica. 

 

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Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

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Sobre Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno

por Inês Pedrosa, em 04.09.16

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Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco - Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 - Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros - deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.    

"Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim  à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do  «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(...)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66)  «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa»."

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Coisas que nenhum Acordo Ortográfico resolve

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.16

"Tem toda a obra traduzida em Portugal o escritor que ontem foi anunciado como vencedor do Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa."

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Acredito que os portugueses ainda se pronunciarão em referendo sobre o chamado "acordo ortográfico" de 1990, vigente desde 2011 no país oficial mas votado ao desprezo pelo país real. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe escrever em acordês nem está interessada nisso.

Enquanto o referendo não se realiza, a opinião sobre o AO90 é emitida pelos nossos escritores - os mais qualificados utentes do idioma de Camões, Vieira, Camilo, Aquilino e Nemésio. Na sua esmagadora maioria, recusam exterminar as supostas consoantes mudas, recusando a ortografia acordística.

Interrogo-me: como é possível impor regras ortográficas que os escritores rejeitam em número tão expressivo?

São autores de várias gerações, diferentes tendências políticas e diversos estilos literários. Mas com este ponto em comum.

Aqui deixo os nomes deles, por ordem alfabética, prometendo alargar a lista à medida que alguém me for assinalando omissões - o que agradeço desde já:

 

Abel Barros Baptista

Abel Neves

Adília Lopes

Afonso Cruz

Afonso Reis Cabral

Agustina Bessa-Luís

Alexandre Borges

Alice Brito

A. M. Pires Cabral

Ana Casaca

Ana Cássia Rebelo

Ana Cristina Silva

Ana Isabel Buescu

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida Carvalho

Ana Marques Gastão

Ana Paula Inácio

Ana Teresa Pereira

Ana Vidal

Ana Zanatti

André Gago

António Carlos Cortez

António Barahona da Fonseca

António Barreto

António Borges Coelho

António Cabrita

António Costa Santos

António de Macedo

António Emiliano

António Feijó

António Guerreiro

António Lobo Antunes

António Louçã

António Manuel Venda

António Modesto Navarro

António Salvado

António Tavares

António Victorino d' Almeida

Armando Silva Carvalho

Arnaldo Saraiva

Artur Portela

Baptista-Bastos

Beatriz Hierro Lopes

Bernardo Pires de Lima

Bruno Vieira Amaral

Carla Hilário Quevedo

Carlos Campaniço

Carlos Fiolhais

Carlos Querido

Casimiro de Brito

Célia Correia Loureiro

César Alexandre Afonso

Clara Pinto Correia

Cláudia R. Sampaio

Cristina Carvalho

Daniel Jonas

David Machado

David Soares

Deana Barroqueiro

Desidério Murcho

Diogo Freitas do Amaral

Diogo Ramada Curto

Dulce Maria Cardoso

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Lourenço

Eduardo Pitta

Ernesto Rodrigues

Eugénia de Vasconcellos

Eugénio Lisboa

Fausta Cardoso Pereira

Fernando Alvim

Fernando Dacosta

Fernando Echevarria

Fernando Paulo Baptista

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Venâncio

Filipa Leal

Filipe Nunes Vicente

Filipe Verde

Francisco Moita Flores

Francisco Salgueiro

Frederico Lourenço

Frederico Pedreira

Gabriela Ruivo Trindade

Gastão Cruz

Gonçalo Cadilhe

Gonçalo M. Tavares

Helena Malheiro

Helena Sacadura Cabral

Henrique Manuel Bento Fialho

Hélia Correia

Inês Botelho

Inês Dias

Inês Fonseca Santos

Inês Lourenço

Inês Pedrosa

Irene Flunser Pimentel

Isabel da Nóbrega

Isabel Pires de Lima

Ivone Mendes da Silva

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Rocha

João Barrento

João Céu e Silva

João David Pinto Correia

João de Melo

João Lobo Antunes

João Luís Barreto Guimarães

João Miguel Fernandes Jorge

João Morgado

João Paulo Sousa

João Pedro George

João Pedro Mésseder

João Pedro Marques

João Pereira Coutinho

João Ricardo Pedro

João Tordo

Joaquim Letria

Joaquim Magalhães de Castro

Joaquim Pessoa

Joel Neto 

Jorge Araújo

Jorge Buescu

Jorge Morais Barbosa

Jorge Sousa Braga

José António Barreiros

José Augusto França

José Barata Moura

José do Carmo Francisco

José Fanha

José Gil

José Jorge Letria

José Manuel Saraiva

José Mário Silva

José Miguel Silva

José Navarro de Andrade

José Pacheco Pereira

José Rentes de Carvalho

José Riço Direitinho

José Viale Moutinho

Júlio Machado Vaz

Lídia Jorge

Lourenço Pereira Coutinho

Luís Carmelo

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Manuel Mateus

Luís Naves

Luís Quintais

Luísa Costa Gomes

Luísa Ferreira Nunes

Luiz Fagundes Duarte

Manuel Alegre

Manuel Arouca

Manuel da Silva Ramos

Manuel de Freitas

Manuel Gusmão

Manuel Jorge Marmelo

Manuel Tomás

Manuel Villaverde Cabral

Marcello Duarte Mathias

Margarida Acciaiuoli

Margarida Fonseca Santos

Margarida Palma

Margarida Rebelo Pinto

Maria Alzira Seixo

Maria de Fátima Bonifácio

Maria do Carmo Vieira

Maria do Rosário Pedreira

Maria Filomena Molder

Maria Filomena Mónica

Maria Helena Serôdio

Maria João Lopo de Carvalho

Maria Manuel Viana

Maria Saraiva de Menezes

Maria Teresa Horta

Maria Velho da Costa

Maria Vitalina Leal de Matos

Mariana Inverno

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Zambujal

Marlene Ferraz

Miguel Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Gullander

Miguel Real

Miguel Sousa Tavares

Miguel Tamen

Nuno Amado

Nuno Camarneiro

Nuno Costa Santos

Nuno Júdice

Nuno Lobo Antunes

Nuno Markl

Nuno Rogeiro

Octávio dos Santos

Orlando Leite

Patrícia Baltazar

Patrícia Reis

Paula Morão

Paulo Castilho

Paulo da Costa Domingos

Paulo Guinote

Paulo Moreiras

Paulo Tunhas

Pedro Almeida Vieira

Pedro Barroso

Pedro Chagas Freitas

Pedro Eiras

Pedro Guilherme-Moreira

Pedro Marta Santos

Pedro Medina Ribeiro

Pedro Mexia

Pedro Paixão

Pedro Sena-Lino

Pedro Tamen

Porfírio Silva

Possidónio Cachapa

Rafael Augusto

Raquel Nobre Guerra

Raquel Ochoa

Renata Portas

Ricardo Adolfo

Ricardo António Alves

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Paes Mamede

Rita Ferro

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Maria Martelo

Rosa Oliveira

Rui Ângelo Araújo

Rui Cardoso Martins

Rui Cóias

Rui Herbon

Rui Manuel Amaral

Rui Pires Cabral

Rui Ramos

Rui Vieira Nery

Rute Silva Correia

Ruy Ventura

Sarah Adamopoulos

Sérgio Godinho

Soledade Martinho Costa

Susana Gaião Mota

Sylvia Beirute

Tatiana Faia

Teolinda Gersão

Teresa Salema Cadete

Teresa Veiga

Tiago Cavaco

Tiago Patrício

Tiago Rebelo

Tiago Salazar

Valério Romão

Valter Hugo Mãe

Vasco Luís Curado

Vasco Pulido Valente

Vítor Aguiar e Silva

Vítor Oliveira Jorge

Yvette Centeno

 

Texto originalmente publicado a 7 de Maio.

A lista foi muito ampliada, mencionando agora 260 nomes

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