Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Premiando sempre os mesmos

por Pedro Correia, em 17.07.20

1488293.png

Foto: Nuno Ferreira Santos / Público

 

Mário Cláudio acaba de vencer pela terceira vez o Grande Prémio de Romance e Novela instituído em 1982 pela Associação Portuguesa de Escritores. Pelo romance Tríptico da Salvação. Não discuto o mérito da obra, que desconheço. Interrogo-me apenas se faz sentido atribuir três vezes mais prémios a Mário Cláudio do que (por exemplo) a José Saramago, que só foi distinguido em 1991, com o Evangelho Segundo Jesus Cristo. E, em complemento, questiono se este passou a ser um prémio de consagração ou de carreira, de que os jovens romancistas ficam quase por sistema excluídos. Não era assim quando Mário Cláudio o venceu pela primeira vez, em 1984, com Amadeo. Mas já seria em 2014, quando voltou a receber o prémio, por Retrato de Rapaz

Entre os autores duas vezes contemplados com este Grande Prémio figuram Vergílio Ferreira (1987 e 1993), António Lobo Antunes (1985 e 1999), Agustina Bessa-Luís (1983 e 2001), Maria Gabriela Llansol (1990 e 2006) e Ana Margarida de Carvalho (2013 e 2016). Mas só Mário Cláudio mereceu até agora um terceiro tributo. Quer isto dizer que é ele o romancista mais digno de mérito em Portugal? Duvido muito. Dir-se-á antes que é o típico escritor que escreve para ser premiado - e neste campo tem alcançado assinalável sucesso, como se comprova pelo facto de também haver recebido o Prémio Pessoa, em 2004. Honra doméstica que Saramago - o nosso único Nobel da Literatura e o mais universal dos escritores portugueses desde Fernando Pessoa - nunca mereceu. 

Saramago devia ter um problema qualquer com os júris literários nacionais, que costumam ser atacados pelo vírus da endogamia. Só isso explicará que os seus melhores romances nunca tenham merecido o Grande Prémio da APE. Refiro-me logo ao da primeira edição, que distinguiu Balada da Praia dos Cães, título menor na obra de José Cardoso Pires, em vez do Memorial do Convento. E também à de 1984, que consagrou Mário Cláudio pela primeira vez, esquecendo O Ano da Morte de Ricardo Reis. E à de 1995, que entre o lapidar Ensaio Sobre a Cegueira e A Casa da Cabeça de Cavalo, de Teolinda Gersão, optou por este. 

Sinal de menoridade cultural num país tornado ainda mais diminuto pela irrelevância numérica das suas elites literárias? Se não é, parece. Mas também não é assim, premiando sempre os mesmos com tão cansativa redundância, que estas elites se alargarão.

Sete anos

por Pedro Correia, em 10.06.20

Mais logo publicarei a última nota inserida na rubrica "Sugestão: um livro por dia" . Faço-o após sete anos consecutivos, colocando assim um ponto final naquela que é, porventura, a mais antiga série ininterrupta de postais subordinada ao mesmo título e ao mesmo tema da blogosfera portuguesa. Desde Maio de 2013, trouxe aqui mais de 2500 pistas de leitura - dos mais diversos géneros, das mais diversas proveniências, dos mais diferentes autores. Tendo como fio condutor, salvo muito esporádicas excepções que só serviram para confirmar a regra, a recusa da escrita acordística, cheia de consoantes mutiladas, que continua a ser rejeitada pela larga maioria dos nossos escritores.

Termino por cansaço natural e porque tudo tem necessariamente de chegar ao fim. Assim farei, simbolicamente, neste 10 de Junho - um Dia de Portugal em formato minimal, outra experiência inédita deste ano que tem sido fértil em inovações. Fica desde já o aviso porque os leitores do DELITO - que durante tanto tempo me incentivaram a prosseguir - merecem esta atenção.

Falta acrescentar que, dos títulos que aqui fui destacando ao longo de todo este tempo, só menos de 5% me chegaram às mãos por ofertas espontâneas de autores ou editoras. Nem nunca solicitei o envio de obra alguma - para reforçar a minha independência de critério e a minha integral liberdade de escolha.

Espero que tenham gostado. Este extenso inventário aqui permanecerá, para memória futura. Agora é tempo de virar a página.

Lição de arte, lição de vida

por Pedro Correia, em 17.04.20

           Rubem Fonseca - 1 - 1987 - LÚCIA MCCARTNEY.jpg Luis+Sepulveda+Discussing+New+Book+La+Lampara+PFWQ

 

Um contraste gritante. Com horas de intervalo morreram dois grandes escritores, Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. O primeiro foi praticamente ignorado enquanto o segundo era merecidamente enaltecido. Uma chocante disparidade de tratamento jornalístico. Desmentindo aquela frase batida acerca da equivalência universal imposta pela morte. Existe uma hierarquia nos obituários que por vezes não entendo.

É certo que a morte de Sepúlveda veio embrulhada no registo monotemático do coronavírus. Tivesse Rubem falecido de Covid-19, e não de um banal enfarte aos 94 anos, certamente merecia mais espaço e maiores loas. Sem desprimor para Sepúlveda, que cheguei a conhecer numa Feira do Livro de Lisboa e me comoveu com o seu O Velho que Lia Romances de Amor, o autor de A Grande Arte teria merecido no mínimo igual destaque. Para mim, admirador confesso da sua escrita, inconfundível como poucas, este mineiro de nascimento e carioca de adopção era o maior contista vivo do nosso idioma.

Sepúlveda, sem dúvida, tinha uma relação afectiva com Portugal. E foi cá, infelizmente, que terá sido infectado, embora as dúvidas persistam pois nenhum dos outros participantes nas Correntes d' Escrita acusou positivo no teste ao vírus, que o malogrado escritor chileno poderia ter contraído antes. Mas o autor d' O Caso Morel trazia Portugal não apenas no coração mas também no sangue: era filho de imigrantes transmontanos e as alusões à pátria de origem abundavam na sua obra. Uma das maiores alegrias que recebeu foi a merecida consagração com o Prémio Camões, em 2003. Podia e devia ter recebido outros, de diferentes latitudes, pois o seu talento tinha expressão universal.

«Parecendo amoral, encerra uma profunda nostalgia por uma moralidade perdida ou por reencontrar», como justamente observou Jaime Nogueira Pinto.

 

Devo a Rubem Fonseca algumas das mais proveitosas horas que tenho vivido como leitor. Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas e raras vezes se deixava fotografar. O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado.

Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado. Fruto da inspiração? Não: produto de muito trabalho, invisível e persistente. «Escreva todo dia. Se estiver com preguiça, senta e escreve qualquer coisa, nem que seja uma vírgula», recomendava Rubem, agora invocado por Jô Soares.

Lição de arte, lição de vida.

 

Leitura complementar:

Um mar de lama. Sobre Agosto, romance de Rubem Fonseca.

Grandes contos (11). Sobre Passeio Nocturno, conto de Rubem Fonseca.

Luís Sepúlveda (1949-2020).

por Luís Menezes Leitão, em 16.04.20

Tenho imensa pena pelo falecimento do escritor Luís Sepúlveda, do qual li a maioria dos seus livros. Era um escritor que adorava Portugal, o que lhe ficou do facto de, ao contrário do que habitualmente lhe sucedia, não ter sido controlado na nossa fronteira, tendo antes o guarda do aeroporto lhe perguntado se não era o autor do livro O velho que lia romances de amor, e perante a resposta afirmativa, tê-lo mandado imediatamente passar.

A sua morte é um aviso para os que querem minimizar os riscos da doença Covid-19. A pessoa infectada pode adquirir uma insuficiência respiratória que, nos casos mais graves, o obriga a estar entubado com um ventilador durante semanas. Os doentes só conseguem suportar esse tratamento se forem colocados em coma induzido. Depois se vê quem recupera e quem infelizmente não sobrevive a esse inimigo insidioso e traiçoeiro.

Luís Sepúlveda perdeu infelizmente essa batalha. Ficamos com os seus livros para recordar a sua passagem pelo mundo.

 

Cinquenta livros de 39 autores

por Pedro Correia, em 15.02.20

               emigrantes[1].JPG  agustina[1].JPG

            quando_os_lobos_1[1].jpg  A-Escola-Paraíso[1].jpg

 

Já tinha falado disto aqui, venho só fazer uma actualização ao tema. Em Maio do ano passado, quando tentei elaborar a lista dos dez melhores romances e novelas portugueses do século XX, verifiquei que para esse efeito ainda me faltava conhecer muitas obras. Elaborei então um ambicioso plano de leituras que me permitisse colmatar tal falha.

E assim foi. Nestes nove meses, no estrito cumprimento desse plano, li (ou reli) cinquenta livros. Aproveitando todos os momentos disponíveis - de manhã, à noite, ao fim de semana, em férias, em viagens de trabalho, nas deslocações quotidianas de transportes públicos pela cidade.

Consegui. Ampliei os meus horizontes literários, conheci autores que nunca havia lido, elegi umas quantas obras-primas que passam a integrar o meu panteão pessoal.

 

Foram estes os escritores que me acompanharam desde Maio: Eça de Queiroz, Raul Brandão, Judith Teixeira, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Henrique Galvão, Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis, Tomaz de Figueiredo, Miguel Torga, Joaquim Paço d'Arcos, Manuel da Fonseca, Alves Redol, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Isabel da Nóbrega, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Orlando da Costa, Rentes de Carvalho, Helena Marques, Fernando Assis Pacheco, Teolinda Gersão, Vasco Graça Moura, Américo Guerreiro de Sousa, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Teresa Veiga, Eduarda Dionísio, Lídia Jorge e Rui Zink. Trinta e nove, no total: ficam aqui anotados pela ordem de nascimento. Entre 1845 e 1961.

Reparo agora que a lista inclui nove escritoras, algumas das quais desconhecia por completo enquanto leitor. E autores do Minho (Tomaz de Figueiredo) ao Algarve (Lídia Jorge), não faltando naturais dos nossos antigos territórios ultramarinos (Orlando da Costa, moçambicano de ascendência goesa; Almada, nascido em São Tomé).

Li ou reli quatro livros de Agustina, quatro de Lobo Antunes, três de Aquilino, três de Miguéis, três de Vergílio: foram os autores que mais frequentei ao longo destes meses.

 

Hei-de falar mais em pormenor destas leituras que me sensibilizaram não apenas no plano intelectual e estético mas também no plano histórico e social, enquanto retratos da sociedade portuguesa no século em que nasci.

Mas queria anotar desde já alguns dos melhores romances, por ordem de publicação: Emigrantes (Castro, 1928), Vindima (Torga, 1945), A Sibila (Agustina, 1954), A Casa Grande de Romarigães (Aquilino, 1957), Quando os Lobos Uivam (Aquilino, 1958), A Escola do Paraíso (Miguéis, 1960), Barranco de Cegos (Redol, 1961), Sinais de Fogo (Sena, 1979), Os Cus de Judas (Antunes, 1979), Para Sempre (Vergílio, 1983), Auto dos Danados (Antunes, 1985), O Último Cais (Helena Marques, 1992), Trabalhos e Paixões de Benito Prada (Assis, 1993) e O Vale da Paixão (Lídia, 1998).

Se quiserem, digam-me quais são os romances de que mais gostam, entre todos quantos foram publicados em Portugal durante o século XX. Pela minha parte, prometo publicar aqui a tal lista dos dez melhores que me serviu de mote a tão gratificante empreitada.

Confesso: só não o faço já porque ainda me restam alguns livros para ler.

 

Leitura complementar:

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

Do excelente ao execrável

Do excelente ao execrável

por Pedro Correia, em 02.01.20

20200101_131823-1-1.jpg

 

Em 2019 apostei comigo mesmo que manteria níveis de leitura semelhantes aos que tinha no final da adolescência, quando devorava livros atrás de livros. No ano em que fiz 18, li 72. Nessas idades, o tempo parece sempre que nos sobra - ao contrário do que sucede nas décadas posteriores. Mas no ano passado levei muito a sério a meta que me impus, a tal ponto que acabei até por superá-la: 74 livros completos - não contabilizo, portanto, os três ou quatro que deixei a meio.

Em Maio, como já confidenciei aqui, verifiquei que me faltavam leituras para fazer uma lista consciente e convincente dos 25 melhores romances portugueses do século XX. Ou até dos dez melhores. Tinha acabado então de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que funcionou como ignição para prosseguir nesse trilho. Seguiram-se outras 38 obras literárias só de autores nacionais do século passado, escritas entre as décadas de 10 e 90. Nesta sucessão de leituras e releituras, a mais antiga foi A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro (1914) e a mais recente O Vale da Paixão, de Lídia Jorge (1998).

Os escritores que mais li ou reli foram Agustina Bessa-Luís (quatro romances), António Lobo Antunes (quatro) e Vergílio Ferreira (três). E não li apenas romances: também visitei ou revisitei alguns livros de contos.

Além dos já mencionados, também frequentei estes - vários dos quais pela primeira vez: Almada Negreiros, Alves Redol, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, Aquilino Ribeiro, Eduarda Dionísio, Fernando Assis Pacheco, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Helena Marques, Joaquim Paço d' Arcos, José Cardoso Pires, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Manuel da Fonseca, Miguel Torga, Nuno Bragança, Raul Brandão, Rui Zink, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teolinda Gersão, Tomaz de Figueiredo e Urbano Tavares Rodrigues.

Li um pouco de tudo - do excelente ao execrável. Mas sinto-me agora capacitado para elaborar a tal lista dos dez melhores romances portugueses do século XX: irei divulgá-la aqui em breve, pondo-a em debate.  E eis-me também quase pronto a concluir a dos 25 melhores.

Hoje, primeiro dia deste promissor ano bissexto, quero destacar apenas alguns dos que mais gostei de ler ou reler em 2019, sem cuidar do lugar que lhes estará reservado no nosso cânone académico. Ei-los, por ordem cronológica de publicação: A Sibila, Barranco de Cegos, Montedor, Sinais de Fogo, Para Sempre, Auto dos Danados, O Último Cais e O Vale da Paixão. Cada um por seu motivo, foram dos que mais gostei.

Fica este breve balanço, na expectativa de fornecer boas pistas a quem visita o DELITO e funcionando como incentivo suplementar a mim próprio. Tenciono prosseguir em 2020 o meu plano de leitura: falta-me ainda conhecer cerca de duas dezenas de relevantes obras do século XX. Depois transitarei enfim para este século, mantendo-me ainda na ficção literária portuguesa. Nessa altura será a minha vez de vos pedir sugestões.

 

Leitura complementar:

Com olhos de ler

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

Política e literatura

por Pedro Correia, em 27.11.19

   thumbnail_20191125_151029-1[2].jpg thumbnail_20191125_151018-1[1].jpg

 

Passo por cá só para vos chamar a atenção para o meu trabalho publicado na edição n.º 155 da revista Ler: Dez romances sobre política, três dos quais de autores portugueses (Eça de Queiroz, Agustina Bessa-Luís e José Saramago).

Chegou esta semana às bancas.

O sucesso é um fracasso adiado

por Pedro Correia, em 24.10.19

O que têm em comum livros como Guerra e Paz, Lolita, O Coração das Trevas, A Casa de Bernarda Alba, A Condição Humana, O Poder e a Glória, 1984, Admirável Mundo Novo, O Processo, Memórias de Adriano, Debaixo do Vulcão, Viagem ao Centro da Terra, Em Busca do Tempo Perdido, O Grande Gatsby, Servidão Humana, Música Para Camaleões, Longe da Multidão e A Oeste Nada de Novo? Foram todos escritos por autores que, podendo ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, se viram privados deste galardão, do qual os académicos de Estocolmo não os acharam merecedores.

A lista de galardoados com o Nobel, que no campo das letras se destina a premiar anualmente “a obra que mais se distinguir, numa perspectiva idealista”, conforme Alfred Nobel deixou escrito em testamento, é – salvo raras excepções – uma antologia da ilegibilidade. Que começou aliás logo em 1901, com um poeta francês pouco menos que obscuro: Sally Proudhomme.

É uma lista que ignora a grande maioria dos gigantes da literatura do século XX, e mesmo de escritores do século XIX que ainda viviam em 1901: esquece Lev Tolstoi, Émile Zola, Joseph Conrad, Marcel Proust, Pérez Galdós e Thomas Hardy. E se até nem admira que nomes imensamente populares – como Júlio Verne, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, Georges Simenon e Conan Doyle – tivessem sido esquecidos pela exigentíssima Academia Nobel, outros estão ausentes da lista de premiados de forma quase escandalosa, como Henryk Ibsen, Rainer Maria Rilke, Pio Baroja e Anton Tchekov. Enquanto autores como Wladyslaw Reymont, Carl Spitteler, Karl Gjellerup, Verner von Heidenstam, Gerhart Hauptmann, Rudolf Eucken, Grazia Deledda e Giosuè Carducci integram a lista de premiados. Ninguém hoje os lê, e provavelmente ninguém nunca os leu, mas também já ninguém lhes retira a distinção que foi negada a Marguerite Yourcenar, José Lezama Lima, Malcolm Lowry, Paul Bowles, Ernst Jünger, Katherine Mansfield, Evelyn Waugh, John dos Passos, Tolkien, Italo Calvino e Norman Mailer.

 

250px-Jorge_Luis_Borges_1951,_by_Grete_Stern[1].jp

As omissões são, pelo menos, democraticamente distribuídas por diversos idiomas. A começar na língua inglesa, que não viu conferir o Nobel a autores como Henry James, Scott Fitzgerald, G. K. Chesterton, Aldous Huxley, D. H. Lawrence - ou até Jack London, de quem Lenine, no leito de morte, pedia que lhe lessem alguns dos trechos que mais admirava.

Da língua francesa estão ausentes autores como André Malraux, Marguerite Duras e Saint-Exupéry.

Entre os italianos, nenhuma menção a Cesare Pavese ou Alberto Moravia. Dos russos, nada de Vladimir Nabokov (que até escreveu principalmente em inglês), Marina Tsvetaeva ou Maiakovski.

Escandalosa também a omissão de grandes figuras da literatura de expressão espanhola, como Federico García Lorca, Unamuno, Rubén Darío, Julio Cortázar, Cabrera Infante, Antonio Machado e Juan Carlos Onetti. Ou da literatura germânica, como Franz Kafka, Robert Musil e Stefan Zweig. Ou mesmo da japonesa, como Yukio Mishima.

A língua portuguesa, que até hoje viu apenas reconhecidos os méritos de José Saramago (em 1998), é das que tem mais razões de queixa: a Academia Nobel ignorou Fernando Pessoa - o que até pode desculpar-se pelo facto de o autor de Mensagem ter sido quase nada publicado em vida. Mas também Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Clarice Lispector. Havia que premiar, em alternativa, ilustres desconhecidos, como Erik Axel Karlfeldt, Harry Martinson e Eyvind Johnson, representantes das línguas nórdicas, as mais favorecidas por Estocolmo.

 

2533[1].jpg

A lista de omissões é interminável. Inclui Virginia Woolf, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Raymond Carver, John Updike e Arthur Miller, por exemplo. Em flagrante contraste com Winston Churchill, galardoado em 1953, quando exercia pela segunda vez as funções de primeiro-ministro do Reino Unido – menos por motivos de ordem estética do que de ordem política.

Não deixa de ser irónico, já que muitos autores ficaram à margem do Nobel por motivos políticos – uns de esquerda, como Bertolt Brecht, Arthur Koestler e George Orwell, outros de direita, como Ezra Pound, Céline e Jorge Luis Borges. Embora Churchill escrevesse inegavelmente bem e até tivesse deixado um dos mais sábios conselhos de escrita aos seus leitores: «Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor.»

Graham Greene, uma das ausências mais imperdoáveis na lista dos premiados, encolhia os ombros em cada ano que passava sem lhe atribuírem o Nobel. E costumava afirmar: «Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado.» De muitos que a Academia Nobel distinguiu não se pode dizer mais nada senão isto.

 

Imagens: Jorge Luis Borges e Graham Greene

Booker mais que merecido

por Pedro Correia, em 15.10.19

t1larg.atwood.margaret.courtesy[1].jpg

 

Margaret Atwood não ganhou o Prémio Nobel, como antevi há seis dias, mas acaba de vencer o Booker. Mais que merecido.

Quem será o Nobel da Literatura?

por Pedro Correia, em 09.10.19

              s-l300[1].jpg 2019-09-time-atwood-mbj-murphy-cover-flip_800x600[

 

Quem serão os contemplados com o Nobel da Literatura? Este ano deverão ser anunciados dois - não apenas o de 2019 mas também o de 2018, que não chegou a ser atribuído.

Faltam 24 horas para sabermos. Gostaria de perguntar aos leitores do DELITO em quem apostam. Pela minha parte, reitero desejos antigos: ver Milan Kundera ou John Le Carré distinguidos pelo Comité Nobel. Mas talvez o Nobel, desta vez, premeie uma mulher. A canadiana Margaret Atwood ou a norte-americana Joyce Carol Oates, por exemplo.

Seria justo.

Outro livro fora do mercado

por Pedro Correia, em 31.08.19

13633026[1].jpg

 

Há pouco mais de um mês fiz um apelo público - aliás motivado por um inquérito sobre leituras de Verão promovido pelo Sapo, em que participei - à aquisição do romance Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco. Logo vários leitores, com inegável simpatia, me deram boas pistas para chegar ao livro, o que muito lhes agradeço. Li-o num instante e, como já esperava, é um romance que recomendo sem a menor dúvida - considero-o um dos melhores que se publicaram em Portugal nas últimas décadas do século XX. Julgo que terá sido editado inicialmente pela Asa, depois passou a integrar o catálogo da Assírio & Alvim. Estranhamente, encontra-se ausente das livrarias: nem na recente Feira do Livro de Lisboa consegui vislumbrá-lo.

Agora faço outro apelo, desta vez para encontrar outro romance que se encontra igualmente fora do mercado: Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis. Dizem-me na Bertrand que não dispõem sequer de um exemplar em fundo de armazém. Desde a declaração de insolvência da Editorial Estampa, em 2017, as obras deste escritor - um dos maiores prosadores portugueses do século XX - deixaram de estar disponíveis ao público fora das bibliotecas. Ao que me garantem, por supostas desavenças entre os seus herdeiros, algo infelizmente bastante mais comum do que muitos imaginam.

É um delito de lesa-cultura. E eis-me agora, por via disso, à procura dos dois volumes deste Milagre Segundo Salomé. Quem souber fornecer-me alguma pista, será bem-vinda. E declaro-me muito grato desde já.

Tempos difíceis

por Pedro Correia, em 29.08.19

Vivemos tempos difíceis. A todo o momento temos gente a policiar os nossos gestos, os nossos olhares, as nossas palavras, as nossas expressões de escárnio ou de enfado, os nossos hábitos alimentares.

As patrulhas andam aí. Mais ferozes e autoritárias que nunca. Tratam-nos como se vivêssemos em regime de internato, impondo os dogmas da correcção política com fúria punitiva.

Devemos falar como elas falam, comer o que elas comem, desfraldar as mesmas bandeiras, idolatrar os mesmos ídolos. Só assim receberemos atestados de idoneidade que nos salvaguardam do banimento cívico.

 

Vale-me a prosa iconoclasta e dissolvente de Aquilino Ribeiro, que frequento por estes dias, em elegias constantes à boa mesa e à boa cama.

Em trechos como este:
«Estavam de morrer por mais, os infalíveis bolinhos de bacalhau sobre o vinagre, e digno de D. João VI, grande papa-frangos, o polho de grão assado no espeto. Comeram e untaram a barbela, fazendo-lhes dignas honras um palhetinho alegrete e gajeiro de Leitões, colheita do Corregedor

E este:

«O que mais lisonjeia a mulher de parte dum homem em matéria de finezas é que ele a deseje. Desejada de lábios contra lábios, de braços nos braços, de poros nos poros a comunicarem-se toda a lia de que é feita a atracção universal.»

E mais este:

«Capaz de todas as tontarias, sabia por experiência o perigo que há em esbarrar quer na timidez improdutiva quer na audácia espalha-brasas, situações por igual contraproducentes no plano da sedução. Sempre tivera uma certa confiança em si e na imperiosidade de que se acompanham as leis da natureza. Não é que tudo entre homem e mulher se reduz a sexo?»

 

Parágrafos recolhidos desse magnífico romance que é A Casa Grande de Romarigães, esplendoroso tributo à língua portuguesa.

Se escrevesse hoje, estava mestre Aquilino bem tramado.

Louvor à prosa de Cardoso Pires

por Pedro Correia, em 22.08.19

35652358[1].jpg

 

Ia lendo penosamente um laureado romance de um dos bonzos das letras pátrias, publicado na década de 80, e a cada página encalhava naquela prosa macilenta, mastigada e conselheiral, parida sem um pingo de emoção, com o intuito deliberado de vergar os basbaques ao "estilo" do autor.

A meio, enjoei - e pus o obeso livro de lado. Para desenjoar, peguei noutro. Com metade do tamanho e o dobro da qualidade: O Hóspede de Job, que já tinha lido há uns trinta anos, em edição da defunta Arcádia.

Não é o melhor romance de José Cardoso Pires, mas tem uma prosa vibrante, que ama o idioma e não trata o leitor com desdém. Reli-o em dois dias e deu-me grande prazer, em contraste com o calhamaço anterior.

 

«No largo de terra batida passeiam dois cavaleiros armados e perguntam com o olhar se é isto Cimadas - este terreiro, este poço.

Nem uma árvore. Tudo apagado, tudo branco; alto silêncio do meio-dia. Os cavaleiros, que trazem farda de cotim e carabina na sela, empinam as montadas ao sol. Fazem-nas rodar, movem-nas como uma arena deserta. Sabem muito bem que há gente na taberna e, a cada porta do largo, uma mulher muda a espiá-los.»

 

Confirmo nesta obra as maiores virtudes de Cardoso Pires enquanto ficcionista: criador de atmosferas envolventes e sugestivas, com notável economia verbal mas sem perder capacidade descritiva, enquanto mantém mão firme nos diálogos, que nunca soam a reprodução postiça.

Isto sim, é a literatura a que me apetece voltar sempre. Seja Verão ou seja Inverno.

Falar muito e comer quase nada

por Pedro Correia, em 04.07.19

101152.jpg

 

Já aqui expressei a minha perplexidade pelo facto de haver tão escassas descrições de lautos manjares na literatura portuguesa. Perplexidade tanto maior quanto é sabido que gostamos de comer e encontramos uma apreciável variedade de opções gastronómicas no País, viajemos para onde viajarmos dentro das nossas fronteiras. Às vezes parece-me que os nossos escritores consideram o tema um assunto menor. Ou, para ser mais directo, que não apreciam mesmo os prazeres da mesa. Podemos percorrer a obra inteira de vários autores sem depararmos com um único repasto memorável. 

Há excepções, claro, e bem notáveis. Mas, certamente não por acaso, são aquelas que todos conhecemos - com destaque para a inesquecível ceia proporcionada a Jacinto na sua primeira noite em Tormes. 

 

Foi, portanto, com imenso agrado que deparei há dias com uma apetecível refeição descrita por Agustina Bessa-Luís na terceira e última parte do seu romance Fanny Owen. Abriu-me o apetite, confesso. De tal modo que não resisto a partilhar convosco esse excerto:

«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»

 

Caramba, uma descrição destas até dá gosto. Sobretudo por ser tão rara nas nossas pomposas letras, jamais propícias a trocar a sala pela cozinha. Falta-nos um Rex Stout, falta-nos um Georges Simenon, falta-nos um Vázquez Montalbán - escritores que não tinham complexos em demonstrar a sua paixão pela arte culinária. Ao contrário do que sucede na literatura portuguesa, em que muito se fala e quase nada se come.

Mais um motivo para aqui lhe deixar a minha vénia grata enquanto seu leitor muito atento, Dona Agustina. 

images.jpg

Chico Buarque: justa distinção

 

1

Chico Buarque é o galardoado este ano com o Prémio Camões. Acho muito bem. Pelo menos três álbuns dele são discos da minha vida. Sei de cor dezenas de canções que ele compôs. E confesso-me admirador da ficção que tem publicado: vai fazer três anos, cheguei até a analisar no DELITO um desses livros, Leite Derramado, de que muito gostei.

Em 2016, quando foi anunciado o Nobel da Literatura a Bob Dylan, na caixa de comentários de um texto meu elogiando tal escolha, deixei esta observação: «Em português, elegeria sempre Chico Buarque.»

2

Recordo isto só para que fique bem claro: aplaudo o prémio a Chico, como aplaudi o de Dylan. Nada contra, tudo a favor.

Mas registo omissões nesta lista de premiados que já leva três décadas - algumas das quais considero chocantes.

Do lado brasileiro, destaco as três que me parecem mais gritantes: Nélida Piñon, Adélia Prado e Luís Fernando Veríssimo. Tanto mais que entre os distinguidos do Brasil figura pelo menos um, Raduan Nassar, que não tem obra nem currículo para merecer o Camões: publicou quatro títulos em 21 anos, não tem um original editado desde 1994 e a obra completa deste autor não excederá 500 páginas. Ele próprio, aliás, não escondeu a sua admiração no discurso de agradecimento, em 2016: «Tive dificuldade para entender o Prémio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri.»

Também eu tive.

 

GetResource.jpg

Graça Moura: esquecido pelo júri

3

Quanto aos portugueses, o essencial do cânone está cumprido. Alguns até fora do cânone mais óbvio, como esse singular poeta das pequenas emoções quotidianas que foi o Manuel António Pina. 
Faltou Fernando Assis Pacheco, que já não foi a tempo: este prémio não é concedido a título postúmo. Vasco Graça Moura, infelizmente também já falecido, é uma omissão escandalosa. E (só por factores cronológicos) talvez seja ainda um pouco cedo para o meu amigo Francisco José Viegas, autor daquele que considero o melhor romance português da primeira década deste século: Longe de Manaus.

 

200px-218Y0007.jpg

Mário de Carvalho: prémio já tarda

4

Por mim, não hesitaria em atribuir o Prémio Camões a Mário de Carvalho, de longe o melhor romancista (mas também contista e ensaísta) português vivo, autor de obras-primas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto. Omissão que também já começa a ser escandalosa. 

Caramba, alguém julgará que Pepetela (premiado em 1997) merece mais que ele?

5

Fora dos trilhos canónicos, daria sem pestanejar o galardão a Vasco Pulido Valente, para mim o mais brilhante - desde logo porque controverso, iconoclasta - ensaísta, historiador e cronista português contemporâneo.

Muito mais merecido que certas "glórias" efémeras das letras lusófonas, condenadas num futuro pouco distante a dissolver-se como bolhas de sabão. 

 

transferir.jpg

Vasco Pulido Valente: se pudesse, votava nele

Há muitas coisas belas na terra

por Pedro Correia, em 14.05.19

thumbnail_20190512_123232.jpg

 

Às vezes é quanto basta. Abrimos um livro, lemos a frase inicial e logo ela nos agarra, despertando-nos a atenção para ler as frases seguintes, sem desgrudar da obra até ao fim.

Alegro-me cada vez que me acontece. Sucedeu há dias, ao abrir um exemplar do romance As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís, em boa hora regressado aos escaparates no âmbito do lançamento da obra completa da grande escritora que tem vindo a ser conduzido por Francisco Vale na editora Relógio d' Água.

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.» Começa assim, da melhor maneira, este romance de Agustina, muito menos (re)conhecido do que merece. 

Superado o primeiro teste, logo avanço na leitura. Um grande escritor avalia-se, desde logo, pela sua capacidade de nos seduzir pela palavra, sua ferramenta de eleição. É o caso de Agustina. Tal como sucede com Jorge de Sena, na magnífica frase de arranque do seu Sinais de Fogo: «Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus.»

Ou Cardoso Pires, n' O Anjo Ancorado: «Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» Ou Vergílio Ferreira, nesse fabuloso romance intitulado Alegria Breve: «Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?»

Saber escrever, saber captar a atenção de quem nos lê - eis o desafio supremo, ao alcance de poucos. Aprendamos com os mestres da palavra a trabalhá-la. Como se fosse terra fértil lavrada por um camponês, como se fosse pedra esculpida por um escultor, como se fosse filigrana nas mãos de um ourives.

Escrever é muito mais do que alinhavar palavras. Como durante anos ensinei aos meus estagiários em jornalismo, para escrever bem nada melhor do que ler muito. Enquanto leitores, aprendamos com quem sabe. Com Camus, que nos introduz no reino mágico da ficção - «a mentira através da qual se diz a verdade». Com Simenon, que em apenas três palavras nos transmite uma das melhores lições: «Escrever é cortar.»

Para escrever bem, há que apelar à sensibilidade e ao intelecto em simultâneo, o que não está ao alcance de qualquer um. Como Agustina demonstra na obra que nos foi legando. «Há qualquer coisa de premonitório neste romance. Pelos costumes das pessoas, pelos sentimentos, pelas relações entre parentes e familiares, percebe-se que já muita coisa mudou ou está em mudança antes mesmo de a revolução acontecer», observa António Barreto no prefácio à novíssima reedição d' As Pessoas Felizes.

Há muitas coisas belas na terra. E algumas experiências sem substituição possível, como o prazer único que só a leitura nos proporciona. Ao rasgar-nos horizontes e ao elevar-nos vários palmos acima do chão.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.01.19

eliete.jpg

"Somos a nossa memória, começou por dizer, a memória determina o que sentimos, o que sabemos, o que imaginamos, o que intuímos, somos a nossa memória e quando lhe perdemos o acesso, mergulhamos num vazio inimaginável, sem acesso à memória não poderemos saber dos valores morais que nos guiam, dos amores e dos medos, das ambições, dos erros e fracassos, tornamo-nos tão imprevisíveis e misteriosos como qualquer recém-nascido, mas enquanto o recém-nascido é um desmemoriado programado para criar memória, para se tornar um adulto autónomo e independente, estes desmemoriados estão impedidos de criar e guardar memórias, estão impedidos de tornar a ser, de mentis, do latim, mente vazia, podemos dizer sem exagero que se assiste à construção do nada, percebe?" (Dulce Maria Cardoso, Eliete, Tinta-da-China, Lisboa, 2018, pp. 244/245)

 

Parti para a sua leitura sem saber o que iria encontrar, embora pensasse que de uma consagrada como Dulce Maria Cardoso, vencedora de inúmeros prémios, traduzida e publicada em duas dezenas de países, nunca se pode esperar pouco. E não me enganei.

Não sei se existe aquilo a que já alguém chamou uma "escrita no feminino", expressão que considero detestável mas que entendo como querendo referir-se a uma escrita feita por mulheres e que por isso mesmo carregaria um estilo muito próprio, com preocupações que não seriam as decorrentes de um texto sobre o mesmo tema escrito por homens.

Pensei nisso várias vezes ao longo da leitura desta "Parte I A Vida Normal". A vida de uma mulher escrita por outra mulher, num período histórico muito próprio, percorrendo momentos pré e pós-revolucionários, a revolução social operada em Portugal e o universo muito particular e espacialmente localizado de Cascais e da linha do Estoril, percorrendo a emancipação profissional e sexual da mulher, os dramas da família e do casamento, a partida, a separação, a ausência, a dor, o esquecimento, o nascimento, a velhice e a morte. Um olhar que até no julgamento que faz de Jorge se torna cruel de tão cristalino. 

Está lá tudo numa narrativa consistente, com uma escrita poderosa, que flui e nos agarra ao longo das quase três centenas de páginas, antes de um final que será tudo menos expectável. A linguagem é desprovida de ornamentos, forte, por vezes mesmo agreste, rude, apesar de perfeitamente enquadrada nas cenas descritas, nas deambulacões da personagem principal. 

Costumo dizer que os melhores livros são os que me surpreendem pela qualidade da escrita do seu autor e pela projecção da narrativa. Quando um livro me faz esquecer as suas páginas ao longo da leitura, para me fazer saltar as suas próprias barreiras e é capaz de me levar para uma outra dimensão do pensamento e da palavra, com a mesma simplicidade com que me transporta ao longo dos seus parágrafos, quase como que projectando as suas diversas histórias numa só, e misturando as nossas com as do texto, é sinal de que está muito para lá daquilo que é o romance ou a novela convencional, fazendo esquecer a obra em que todos os cânones se revêem, são respeitados, onde tudo surge muito limpinho, muito formal, muito compenetrado e insípido.

O sal da escrita de Dulce Maria Cardoso está na luz que projecta, no modo como ilumina ao leitor o trajecto de Eliete e o faz dele participar, muitas vezes sem que seja possível para quem lê aperceber-se logo das opções tomadas pela autora e da multiplicidade de sentimentos que assolam vidas aparentemente simples e normais. Como que a dizer-nos que não existem vidas simples nem normais. Há apenas vidas. Cada uma tem a sua cor. O segredo está em saber colocá-las todas nas páginas de um livro, sem cansar e enriquecendo-nos a memória.

VM1.jpg

O meu amigo Luís Alvarães acaba de partilhar estas declarações de Vitorino Nemésio, proferidas na época em que se preparava a sua nomeação para director de O Século, algo que acabou por abortar, talvez também por causa da entrevista em que as proferiu.

 

Hoje impera a informação. Informação moderna, caminhando mesmo no sentido da informática, ciência que, a partir da termodinâmica, abarcou o próprio boato como objecto. É uma informação quantificada.” (Vitorino Nemésio, entrevista à revista Flama, 1973).

 

O Luís, para além da pertinência da partilha - será interessante compará-la com as opiniões que defendem que Bolsonaro, Trump et al negam o preceito "Não há nada novo sob o Sol" - teve ainda a gentileza de me enviar a digitalização da entrevista. Quem tiver curiosidade em lê-la encontra-a aqui - preferi não a deixar neste blog pois as imagens ocupam algum espaço de ecrã e não quero aborrecer algum passante mais apressado.

Agustina

por Pedro Correia, em 15.10.18

agustina-no-golgota-1978.jpg

 

Agustina Bessa-Luís, romancista maior da língua portuguesa, nasceu faz hoje 96 anos. Será motivo para celebração na intimidade familiar a que se recolheu e é seguramente motivo para todos nós, seus leitores, lhe desejarmos votos de felicidade pessoal, certos como estamos de se tratar de alguém que ainda em vida já cruzou o portal da perenidade – algo que muitos ambicionam mas raros alcançam.

Carta para Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.18

Querido Eduardo
Sobrevivemos mais um ano e as histórias são múltiplas, impressas numa vertigem que te encantaria e, depois, seria pretexto para te sentires derrotado. Existem poucas pausas. Não te faria sentido esta velocidade e, embora possa perceber que tivesses a tua página aqui ou em outra rede social, serias mais voyeur do que participante, creio. Tu gostas de observar, bem sei, de ver como se vai de A para B e que atalhos puros ou conspurcados farão esse caminho. Darias muitas gargalhadas com as enormidades recheadas de pensamentos pequenos, pequeninos, minados de inveja - ah, esse sentimento tão português!. E pasmarias com a quantidade de imagens e comentários sobre a perfeição de uma vida para consumo alheio. A intimidade é aterrorizadora, arranjámos uma montra para disfarçar as pregas, os buracos, as bainhas descaídas de uma vida que se entende cada vez menos. O planeta tem gestos políticos cada vez mais fortes, cada vez mais, mas pasmamos e fazemos pouco, fazer implica um movimento de auto preservação que parece que só teremos na iminência de um ataque daqui a doze horas. Até lá empurramos com a barriga. Ficarias desgostoso com as politiquices e com a política fria e pouco humanista que parece crescer e multiplicar-se pelo mundo fora. Não é o Trumpo, é tudo, são todos. É assustador como a banalidade do mal de que falava Arendt não prescreveu, como não conseguimos melhorar. Sim, tenho de te dizer que não melhorámos em nada. De resto, querido Eduardo, a tua morte parece estar calada nas coisas da cultura, quem se lembra de quem? Seria bom estares aqui para explicar o conceito: cultura, o que é? Porquê a sua importância? Rumores e boatos temos em fartura, conquistas poucas, egos mexidos em excesso. Infelizmente, o tempo traz a idade e a idade as limitações - quantas vezes falámos sobre isto? - e, também por isso, a nossa mm escreve com a sua velocidade de cágado e protege-se numa cápsula protector que tem uma porta invisível, apenas reconhecida por ela. Não a vejo como gostaria. Não falamos ao telemóvel, bem sabes como odeia essa coisa de falar para dentro de uma pequena caixa que vai aquecendo na pequenez das mãos. Not even the rain has such small hands, não é assim? Das mãos da mm nasce uma rede de apoio e de afecto que se estende por mim, pelos meus. Embora longe não existe distância. E de ti, querido, mantemos a proximidade, em pensamento, em saudades. Já te disse que não deverias ter ido tão cedo? Sim, eu sei, é tarde. Beijo-te daqui


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D