Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Final feliz

Pedro Correia, 20.11.21

20211120_152528.jpg

 

Andava há anos atrás de um romance de José Rodrigues Miguéis que não conseguia encontrar em lado algum: O Milagre Segundo Salomé. Houve quem me garantisse que era a obra-prima deste grande prosador injustamente esquecido.

Há escritores com sorte e escritores com azar. Miguéis figurou quase sempre entre os últimos. Nunca integrou o catálogo das mais prósperas editoras: ligado durante décadas à chancela Estúdios Cor, passou a figurar após a morte, em 1980, entre os autores da Estampa, desaparecida em 2017 por insolvência. Os seus livros eclipsaram-se do mercado, excepto em ocasionais bancas de revenda.

Em Agosto de 2019 cheguei a fazer aqui um apelo aos leitores do DELITO, na expectativa de que algum me pudesse fornecer uma pista de acesso ao romance oculto, publicado em 1975. Até nisso Miguéis teve pouca sorte: escrevera na década de 50 este livro que nem tentou editar então por imaginar que não passaria no crivo da censura salazarista. Supôs que a obra pudesse ser bem recebida naquele ano subsequente ao 25 de Abril. Acontece que passou despercebida: o processo revolucionário fervia a todo o vapor, só o imediatismo político prevalecia à época, ninguém quis saber de uma narrativa com cerca de 700 páginas situada no final da monarquia constitucional e nos primeiros lustros do regime republicano, várias décadas atrás.

 

Na Feira do Livro de Lisboa, em Agosto, percorrendo um pavilhão especializado em títulos antigos, encontrei enfim um exemplar d' O Milagre Segundo Salomé - em estado novo, passe a ironia. Mas era só o primeiro volume, que li em poucos dias com imenso prazer, comprovando que se trata de superlativa obra literária. Iniciei então pesquisa exclusiva pelo segundo volume, sempre esgotado, nos alfarrabistas digitais. Até que tropecei num velho exemplar disponível na Amazon, mas por 50 euros. Preço de usurário - de "onzeneiro", como diria mestre Gil Vicente.

Solucionei a questão de outra forma. Passei há dias pela biblioteca do Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, e perguntei se tinham algum exemplar deste volume. Resposta pronta, eficiente - e afirmativa. Em escassos minutos preenchi um formulário digital que me tornou portador de cartão de leitor, sem qualquer custo, e recebi de imediato o ansiado livrinho, trazendo-o para casa durante um mês.

 

Triplo motivo de satisfação. Por ver enfim a minha pesquisa bem-sucedida. Por voltar a mergulhar na bela prosa de Miguéis, um dos nossos melhores ficcionistas de sempre. E por fazer um manguito aos ladrões da Amazon

Eis o que se chama um final feliz.

Livros de corpo e alma

Pedro Correia, 19.09.21

Fernanda Castro.jpg

 

Quem costuma ler-me sabe que aprecio autógrafos. Se forem de escritores, tanto melhor. Recentemente, um pouco ao sabor do improviso, vieram parar-me às mãos livros com assinaturas de dois autores portugueses, ambos já falecidos: Augusto Abelaira (que ganhou fama como prosador) e António José Forte (mais conhecido como poeta). 

Também por estes dias, tentando pôr alguma ordem na minha biblioteca caseira, reencontrei este autógrafo personalizado que me dedicou Fernanda de Castro, notável romancista, poetisa, cronista e memorialista - conhecida sobretudo, algo injustamente, por ter sido mulher de António Ferro, mãe de António Quadros e avó de Rita Ferro.

Fernanda de Castro (1900-1994) deixou-nos vasta obra. Falando apenas de literatura, basta mencionar Ao Fim da Memória, saborosas evocações de uma época longínqua, centradas na Lisboa pessoana - sim, ela privou com Fernando Pessoa, entre tantos outros vultos intelectuais e políticos do século XX português. E também esta Maria da Lua, de óbvio cunho autobiográfico ambientado numa Almada ainda povoada de quintas, muito antes da construção da ponte.

Este autógrafo surge precisamente num exemplar desse romance, ao ser reeditado pela Verbo quatro décadas após a edição original, que valeu à autora o Prémio Ricardo Malheiros de 1945 - que no ano anterior distinguira Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, e viria a consagrar prosadores tão diversos como Fernando Namora, Alves Redol, David Mourão-Ferreira, Ruben A, Agustina Bessa-Luís e Lídia Jorge.

«Ao Pedro Correia, com simpatia e apreço, oferece a Fernanda de Castro», escreve a autora, com bela caligrafia - daquelas que já não se usam nesta época em que a letra tipográfica impera. É dos livros que guardo com mais carinho nas minhas estantes. Exemplar único, irrepetível. Prova viva - mais uma - de que existe algo de perene na literatura. E que nenhum prodígio digital substitui um livro enquanto objecto físico. Que não tem apenas corpo: também tem alma.

De S. João do Peso a S. João de Brito

Pedro Correia, 26.06.21

image.jpg

 

Em boa hora as biografias voltaram a ser aposta decisiva no nosso mercado editorial. Esta é uma forma de tirar do esquecimento figuras relevantes da cultura portuguesa - e também, através delas, de conhecermos melhor a época em que viveram.

Objectivos plenamente conseguidos no caso deste Integrado Marginal, extensa digressão pela vida e obra de José Cardoso Pires (1925-1998), que chegou a ser enaltecido como um dos melhores escritores portugueses do século XX pela qualidade do seu inconfundível fraseado e pela densidade dos temas que aborda - inscritos na legenda "geração falhada", como o biógrafo, Bruno Vieira Amaral, tão bem ressalta.

Falhada porquê? Por ter sonhado muito e concretizado pouco. Por integrar aqueles que tinham 20 anos quando terminou uma guerra que Portugal não ganhou nem perdeu - uma guerra que nos passou ao lado.

Aqui desenrolavam-se outros combates: contra a tirania, contra a censura, contra o atraso atávico do País, contra o fatalismo periférico que nos punha à margem do destino europeu. Este era o contexto em que Cardoso Pires viria a forjar uma obra edificada em prosa tensa, sólida, macerada pela insatisfação permanente de alguém que ia experimentando vários ofícios sem se fixar em nenhum.

Foi aprendiz de piloto da marinha mercante, tradutor, consultor literário, jornalista, professor. Avesso a prazos e horários, frequentador imoderado de bares, fiel às amizades, alérgico ao salazarismo e à sua base social burguesa e provinciana (da qual provinha a sua própria família), intransigente com princípios éticos, incoerente em facetas diversas da sua vida privada, fiel a ódios e desamores. Faltou-lhe método e disciplina para ampliar um legado de meio século de labor na escrita.

De tudo isto nos fala Integrado Marginal, estranho título, difícil de memorizar, mas que resume o percurso deste autor irregular que «punha o mesmo rigor obsessivo, quase doentio» em todos os textos, chegou a estar 14 anos sem publicar um romance e negava prosseguir uma «carreira literária» apesar de ter recebido alguns dos mais cobiçados prémios em Portugal (Camilo Castelo Branco por O Hóspede de Job, 1964: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores por Balada da Praia dos Cães, 1983; Prémio Pessoa, 1997) e alcançado pelo menos três grandes sucessos de vendas: O Delfim (1968), Balada da Praia dos Cães (1982) e o breve livro-testamento, de género indefinido, a que chamou De Profundis - Valsa Lenta (1997), com 25 mil exemplares vendidos em poucas semanas.

 

Antítese de Saramago

 

«Não tenho paciência para a vida literária, nunca tive», confessava o escritor (citado nesta biografia, p. 535). Incapaz de produzir romances a um ritmo pendular, antítese da espartana disciplina de confrades como António Lobo Antunes (de quem se tornou amigo), José Saramago (de quem nunca se sentiu próximo), Agustina Bessa-Luís (que detestava) ou Vergílio Ferreira. Já para não falar de mais antigos, mas igualmente seus contemporâneos, como Aquilino Ribeiro ou Alves Redol. «Precisava de uma grande anarquia para escrever e a anarquia requeria tempo.» (p.436) 

Legou-nos quatro romances, duas novelas e quatro livros de contos - além de duas peças teatrais e alguns volumes de crónicas e ensaios. Pouco para quem tanto prometia ao estrear-se como autor, tendo apenas 24 anos, com o magnífico Os Caminheiros e Outros Contos (1949), que cedo vincou a sua mais autêntica vocação - a de contista, muito por influência das leituras juvenis que lhe consolidaram o estilo e lhe moldaram uma voz muito própria no panorama literário português do pós-guerra, ainda marcado por rendilhados francófonos e heróis campesinos.

Assumia sem complexos a veia anglófila e o imaginário urbano povoado de rufias alfacinhas que tanto influenciaria obras como A Noite e o Riso (1969), de Nuno Bragança, e O Que Diz Molero (1977), de Dinis Machado. Mesmo tendo nascido, por acidente biográfico, em meio rural (na aldeia de S. João do Peso, concelho de Vila de Rei). 

 

Terra de ninguém

 

Ao centrar-se neste escritor, com minúcia que o desvenda como admirador do essencial da sua obra, Bruno Vieira Amaral fornece também ao leitor de 2021 um retrato de geração - a dos intelectuais da oposição que passaram grande parte da vida adulta em abortados combates a uma ditadura que parecia interminável. Para muitos, a democracia chegou tarde de mais: acabaram afinal por permanecer ancorados numa espécie de terra de ninguém. Sentindo-se estranhos num país que pouco lhes prestava atenção, encontrando refúgio afectivo em afinidades tribais propiciadas pela endogamia lisboeta, na retórica política e na turbação alcoólica. 

Se o homem é produto da sua circunstância, esta geração (que incluiu Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, Urbano Tavares Rodrigues, Luiz Pacheco, Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Dinis Machado e Baptista-Bastos) ficou a meio caminho também pelos horizontes em que se encerrou. Vários destes escritores poderiam ter rumado ao estrangeiro (e alguns fizeram-no, como Jorge de Sena), mas a grande maioria não ousou trilhar a aventura da emigração. Acabaram enclausurados num exílio interior.

Disto nos falam, em larga medida, os livros de Cardoso Pires, cuja obra está «intimamente ligada à atmosfera social do salazarismo» (p. 408). E disto nos fala também - com rara sensibilidade e notável argúcia - o seu biógrafo. Que não se limita a enunciar factos, a partir das mais diversas fontes orais e escritas: vai-nos traçando igualmente uma perspectiva crítica e analítica do autor de Jogos de Azar, cultor por excelência da ficção em formato curto - à semelhança de Ernest Hemingway, seu herói literário.

 

Luzes e sombras

 

Bruno Vieira Amaral - romancista, crítico e jornalista - assinala os traços de modernidade n' O Anjo Ancorado, a sábia caracterização das personagens d' O Hóspede de Job, a original construção romanesca d' O Delfim, o cruzamento da realidade com a ficção nas páginas da Balada da Praia dos Cães, o manifesto desequilibrio de Alexandra Alpha. Sem ceder à tentação tão portuguesa do elogio a metro, da louvaminha, da hagiografia.

Não nos narra uma história exemplar: elabora um retrato com luzes e sombras de um homem sociável mas solitário, generoso mas quezilento, pai distante mas avô meigo, cáustico demolidor do marialvismo mas machista funcional a tempo inteiro. Um homem que fazia vida de solteiro estando casado. Que militou no PCP clandestino (onde tinha o pseudónimo "Nunes") mas logo se desfiliou em 1974. Que alternava picos de criatividade com longos períodos em que se sentia incapaz de escrever uma linha. 

Eis-nos, portanto, perante uma verdadeira biografia. Que nuns pontos iguala e noutros até supera a que em 2007 Maria Antónia Oliveira dedicou a O'Neill.

Sente-se aqui a falta de fotografias que ilustrem o percurso de Cardoso Pires - com o pai marinheiro, a mãe beirã desterrada em Arroios, a escola primária no Largo do Leão, a infância feita de «janelas e solidão», o tio da América que o fascinou ao ponto de ter iniciado mais de uma vez um romance que o imortalizaria, a sua passagem pelos escritórios da Ulisseia, pela redacção do histórico Almanaque, pelo gabinete no Diário de Lisboa (onde foi director-adjunto nos febris anos revolucionários de 1974-1976 e era lentíssimo a escrever editoriais, ao ponto de lhe chamarem «a vírgula mais cara da imprensa»), as passagens pelo Brasil, as aulas que deu no King's College de Londres, os encontros com Elio Vittorini, Roger Vailland, Julio Cortázar, Norman Mailer, Vargas Llosa. No apartamento da Caparica, onde se refugiava para escrever. Na casa de Alvalade, onde morou nas últimas quatro décadas de vida, entre queixas reiteradas à atmosfera burguesa do bairro e à presença tutelar da igreja de S. João de Brito, a poucos metros da sua varanda: parecia punição divina a quem sempre se proclamou anticlerical.

Ao contrário do que sucede com outros escritores (José Rodrigues Miguéis, por exemplo), o espólio de Cardoso Pires tem sido bem preservado pelas herdeiras. No final de Integrado Marginal, Bruno Vieira Amaral exprime o desejo de trazer «novos leitores» para o autor de Lavagante. Acaba de dar um excelente contributo ao escrever esta biografia.

 

............................................................... 
 
Integrado Marginal, de Bruno Vieira Amaral (Contraponto, 2021)
599 páginas.
Classificação: *****

Olá, leitura

Pedro Correia, 02.02.21

7856760_7PiYq.jpeg

 

Abro uma obra de literatura portuguesa contemporânea – um romance muito conceituado, coberto de elogios. Leio as primeiras cinco linhas: deparo com três palavras que me desmobilizam de imediato. Três peças de artilharia pesada: “adejando”, “ajoujado”, “ajaezada”. São indícios claros de indigestão vocabular. Fico por aqui. Fecho o livro, devolvo-o ao sossego da estante.

Pego noutro: uma edição portuguesa antiga de uma obra de William Faulkner, O Homem e o Rio. Com prefácio do tradutor, figura com reputação. Há muito que prometi a mim próprio deixar de ler prefácios: arrependo-me sempre que me esqueço desta promessa. Foi o caso: vou a meio quando percebo que o prefaciador, além de resumir o enredo da novela, apressa-se também a desvendar o seu desfecho.

Travo a fundo, salto páginas – adeus prefácio. Agrada-me bem mais este começo: «Era uma vez dois presidiários (passou-se isto no Mississípi, em Maio, no ano da cheia de 1927).»

Olá, leitura. Durante uns dias terei o Faulkner à cabeceira.

 

Imagem: Faulkner na época em que escreveu O Homem e o Rio

Elogio de Pérez-Reverte

Pedro Correia, 01.02.21

5lziy7gT_400x400.jpg

 

Arturo Pérez-Reverte é um dos meus escritores espanhóis preferidos, entre os contemporâneos - a par de Javier Marías e Antonio Muñoz Molina. Autor prolífico, com uma longa tarimba de repórter de guerra, não padece de angústias existenciais nem enfrenta o dilema da ausência de ideias ao ser colocado perante a folha em branco: boas ideias nunca lhe faltam. Por isso ele é também um dos meus cronistas de eleição. Desde logo por se demarcar em absoluto da cartilha politicamente correcta, por negar vénias e salamaleques às bempensâncias de aluguer, por escrever sem reticências aquilo que realmente pensa. E por nunca mandar recados por terceiros nem se refugiar em entrelinhas. Ao contrários de tantos outros, também por cá.

Não esconde a nostalgia de um tempo em que ainda era possível encontrar homens verdadeiramente livres - gente que não se circunscrevia às engrenagens da trituração & consumo nem se deixava manipular por algoritmos. O que não admira: se existe hoje alguém a quem possamos considerar um homem livre, é precisamente o autor d' A Tábua de Flandres. Que no próximo mês terá mais um livro seu lançado em português: o romance Cães Maus Não Dançam, publicado originalmente em 2018.

Acabo de ler uma excelente entrevista dele à revista do Expresso, muito bem conduzida pela jornalista Luciana Leiderfarb. Merece destaque, merece elogio. E merece ser citada. É o que farei nos parágrafos seguintes: eis Pérez Reverte em discurso directo. Com a devida vénia à autora da entrevista e àquele semanário que saía ao sábado mas passou a sair à sexta-feira.

 

«O ser humano é a soma daquilo que viveu e do que leu.»

«É impossível digerir bem o resultado da vida se não houver livros que o permitam.»

«A vida como repórter tirou-me ou diminuiu muitas palavras que antes eram importantes, como pátria, religião, Deus. Deixou-me poucas palavras, e entre elas está dignidade, respeito, honra, lealdade. Os cães são isso tudo, sobretudo leais. E a maior virtude do ser humano é a lealdade.»

«Numa luta entre cães, quando um deles se rende, oferece o pescoço ao vencedor e este deixa-o viver. Se o venceu, não o mata. O ser humano é o único que mata aquele que se rendeu. Isso vi-o com os meus olhos, ninguém me contou.»

«Houve um tempo em que havia homens livres. Havia desertos, estepes, bosques, campos, lugares onde o ser humano podia ser dono de si mesmo. Hoje, a televisão por satélite, o telemóvel, as telecomunicações, a internet, mataram o homem livre.»

«A tecnologia cria uma armadilha. Não mata o homem, mas encerra-o. Mete-o num campo de concentração tecnológico levando-o a acreditar que é livre quando não é. O homem perdeu a liberdade no momento em que o mundo se converteu num lugar controlável tecnologicamente.»

«O cão tem sentimentos extremamente refinados, elevados. É sensível ao amor, ao calor, à companhia, à bondade, à maldade. Não há cães maus, há homens maus.»

«O homem peca contra a natureza. Estamos continuamente a cometer pecados contra ela. Se existisse uma moral cósmica, estaríamos em pecado mortal, porque usamos a natureza e a abandonamos. Usamo-la como usamos os cães. A Humanidade vive em pecado mortal há muitos séculos.»

«O mundo é um lugar perigoso e hostil, onde o mal é frequente, onde a ambição, a luxúria e a crueldade são constantes e por vezes não são só características humanas, mas regras cósmicas - porque também o cosmos é cruel, aí estão os tsunâmis, os terramotos, as inundações.»

«Há uma frase que uso há muito tempo: se juntar um malvado com mil estúpidos, terá mil e um malvados. O mal é contagioso, mas, se não houvesse tantos estúpidos, os malvados não teriam tanto poder.»

«Hoje em dia todo o escritor, desde o maior génio da literatura ao medíocre junta-letras, tem sobre si a guilhotina terrível da estupidez.»

«Se tivesse que dividir o mundo em dois grandes núcleos de pessoas, não seria entre bons e maus. Seria entre os que sabem que vão morrer e os que não o sabem. As pessoas que sabem que vão morrer são melhores - são realmente humanas.»

«Vivi uma vida inteira a acumular possíveis "últimas vezes". Isso deu-me uma forma de olhar o mundo que não pode ser igual à de uma pessoa que não teve esse tipo de experiência. Não é uma queixa: gosto dessa espécie de melancolia, de me sentir incerto. Gosto de ter 70 anos (vou fazer este ano) e continuar a acreditar que no fim da madrugada cinzenta pode não haver nada, pode não haver outra noite. Desse modo vivo organizado, tenho tudo preparado.»

«A escrever ainda posso ser jovem, seduzir mulheres, lutar contra inimigos, bater-me em duelo, viver guerras. Acordo com a ilusão de ser capaz de contar bem aquilo que estou a contar. É um motivo excelente para viver e para envelhecer com dignidade.»

John Le Carré em sete citações

Pedro Correia, 21.12.20

imagens de skocky 039.jpg

 

«Todo o poder corrompe, mas alguém tem de governar.»

A Toupeira (1974)

 

 

558799_0.jpg

 

«Dos fortes sei eu proteger-me. Deus me livre dos fracos.»

A Gente de Smiley (1979)

 

 

Casa-da-Rússia.jpg

 

«A lealdade em excesso pode ser uma terrível maldição. É que pode vir um dia em que não haja mais nada nem ninguém a quem servir.»

A Casa da Rússia (1989)

 

 

500x.jpg

 

«Nós, os seres humanos, somos umas armas muito perigosas. E mais perigosas ainda nas nossas fraquezas. Sabemos tanto sobre o poder dos outros. E tão pouco sobre o nosso.»

O Nosso Jogo (1995)

 

 

500x (1).jpg

 

«As mulheres fazem os lares, os homens fazem as guerras.»

O Fiel Jardineiro (2001)

 

 

250x.jpg

 

«É um dos grandes problemas do nosso mundo moderno, sabe? O esquecimento. A vítima nunca esquece. Pergunte a um irlandês o que os ingleses lhe fizeram em 1920 e ele dir-lhe-á o dia do mês, a hora e o nome de todos os homens que eles mataram. Pergunte a um iraniano o que os ingleses lhe fizeram em 1953 e ele dir-lhe-á. O filho dele dir-lhe-á. O neto dele dir-lhe-á. E quando ele tiver um bisneto, também lhe dirá. (...) Ignorar a história é ignorar o lobo à porta.»

Um Homem Muito Procurado (2008)

 

 

350_9789722061322_o_tunel_de_pombos.jpg

 

«O que é a memória? Devíamos encontrar outro nome para a maneira como vemos os acontecimentos passados que permanecem vivos dentro de nós.»

O Túnel de Pombos (2016)

José Luís Peixoto: «Tenho medo de mim»

Quem fala assim... (26)

Pedro Correia, 19.12.20

images[4].jpg

 

«É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós»

 

José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais celebrados nestas duas primeiras décadas do século XXI, fala um pouco como escreve. Com frases pausadas, que por vezes são verdadeiros aforismos, e um peculiar sentido de humor, talvez surpreendente para alguns. Tive ocasião de perceber isso quando o interroguei ao telefone. O resultado é este que podem (re)ler.

 

Tem medo de quê?

De mim.

Gostaria de viver num hotel?

Não, apesar de actualmente já costumar passar grande parte do meu tempo em hotéis. Caminhar à noite no corredor de um hotel pode ser uma experiência muito solitária. Ao fim de algum tempo, as miniaturas de sabonete acabam por perder o aroma. Pessoalmente, preferiria viver numa casa com jardim e netos.

A sua bebida preferida?

Prefiro sumo de laranja. Não entendo esse hábito muito divulgado entre nós de beber álcool socialmente.

Porquê?

Eu, nas raras vezes em que bebo álcool, é para me embebedar.

Tem alguma pedra no sapato?

Uso botas. As pedras têm muita dificuldade em entrar.

A propósito: que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, entre alguns outros.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre livros a rodear-me completamente. Por dentro e por fora.

A sua personagem de ficção favorita?

Lena Grove, de A Luz de Agosto, de William Faulkner.

Rir é sempre o melhor remédio?

Depende da maleita. Em casos de pedra nos rins, duvido que resulte.

A despropósito: lembra-se da última vez em que chorou?

Foi no fim de semana passado. Chorei de felicidade.

Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto de andar de mão dada, como namorados.

É bom transgredir os limites?

É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós.

Qual é o seu prato preferido?

Sushi.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado capital que pratico com mais frequência é a luxúria. Ainda assim, acho que não a pratico com a frequência desejável.

A sua cor preferida?

Fúcsia.

Porquê?

Por causa do nome.

Costuma cantar no duche?

Sim.

Onde mais?

Também no trânsito e, ao telefone, com as pessoas que costumam ligar com regularidade a oferecer promoções.

E a música da sua vida?

Here I go again, dos Whitesnake. E mais umas mil.

Há quem sugira que o hino nacional deve ser alterado. Qual é a sua opinião nesta matéria?

Preferia que o hino nacional me sugerisse uma alteração a mim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com Barack Obama, obviamente.

As aparências são capazes de nos iludir?

É o que me aparenta.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca responde a perguntas sobre o seu cavalheirismo, insinuando-se implicitamente como um verdadeiro cavalheiro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Piercing no mamilo.

Qual é o seu maior sonho?

É grande. Dura à volta de umas três horas.

E o maior pesadelo?

O pesadelo é ainda maior do que o sonho. Às vezes, depois de acordar, ainda continua.

O que consegue irritá-lo profundamente?

Irritam-me as pessoas que ficam a olhar no momento em que se está a pôr o pin do multibanco. Afinal, porque é que o fazem? Vão-nos assaltar a seguir ou é mera curiosidade? É algo que me ultrapassa.

Qual a melhor forma de relaxar?

Um abraço.

O que faria se fosse milionário?

Se fosse milionário pensava em coisas que não penso agora e teria, com certeza, muito mais preocupações do que tenho hoje.

Casamentos gay: de acordo?

É um pedido?

Olhe que não... Mudando de assunto: uma mulher bonita?

A minha.

Acredita no paraíso?

Sim. O paraíso é como uma lâmpada que tem mau contacto. Acende e apaga. Às vezes pode ficar acesa durante muito tempo. Outras vezes apaga-se e parece que nunca mais se vai acender.

Tem um lema?

Não tenho um lema, tenho vários.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Fevereiro de 2010)

Premiando sempre os mesmos

Pedro Correia, 17.07.20

1488293.png

Foto: Nuno Ferreira Santos / Público

 

Mário Cláudio acaba de vencer pela terceira vez o Grande Prémio de Romance e Novela instituído em 1982 pela Associação Portuguesa de Escritores. Pelo romance Tríptico da Salvação. Não discuto o mérito da obra, que desconheço. Interrogo-me apenas se faz sentido atribuir três vezes mais prémios a Mário Cláudio do que (por exemplo) a José Saramago, que só foi distinguido em 1991, com o Evangelho Segundo Jesus Cristo. E, em complemento, questiono se este passou a ser um prémio de consagração ou de carreira, de que os jovens romancistas ficam quase por sistema excluídos. Não era assim quando Mário Cláudio o venceu pela primeira vez, em 1984, com Amadeo. Mas já seria em 2014, quando voltou a receber o prémio, por Retrato de Rapaz

Entre os autores duas vezes contemplados com este Grande Prémio figuram Vergílio Ferreira (1987 e 1993), António Lobo Antunes (1985 e 1999), Agustina Bessa-Luís (1983 e 2001), Maria Gabriela Llansol (1990 e 2006) e Ana Margarida de Carvalho (2013 e 2016). Mas só Mário Cláudio mereceu até agora um terceiro tributo. Quer isto dizer que é ele o romancista mais digno de mérito em Portugal? Duvido muito. Dir-se-á antes que é o típico escritor que escreve para ser premiado - e neste campo tem alcançado assinalável sucesso, como se comprova pelo facto de também haver recebido o Prémio Pessoa, em 2004. Honra doméstica que Saramago - o nosso único Nobel da Literatura e o mais universal dos escritores portugueses desde Fernando Pessoa - nunca mereceu. 

Saramago devia ter um problema qualquer com os júris literários nacionais, que costumam ser atacados pelo vírus da endogamia. Só isso explicará que os seus melhores romances nunca tenham merecido o Grande Prémio da APE. Refiro-me logo ao da primeira edição, que distinguiu Balada da Praia dos Cães, título menor na obra de José Cardoso Pires, em vez do Memorial do Convento. E também à de 1984, que consagrou Mário Cláudio pela primeira vez, esquecendo O Ano da Morte de Ricardo Reis. E à de 1995, que entre o lapidar Ensaio Sobre a Cegueira e A Casa da Cabeça de Cavalo, de Teolinda Gersão, optou por este. 

Sinal de menoridade cultural num país tornado ainda mais diminuto pela irrelevância numérica das suas elites literárias? Se não é, parece. Mas também não é assim, premiando sempre os mesmos com tão cansativa redundância, que estas elites se alargarão.

Sete anos

Pedro Correia, 10.06.20

Mais logo publicarei a última nota inserida na rubrica "Sugestão: um livro por dia" . Faço-o após sete anos consecutivos, colocando assim um ponto final naquela que é, porventura, a mais antiga série ininterrupta de postais subordinada ao mesmo título e ao mesmo tema da blogosfera portuguesa. Desde Maio de 2013, trouxe aqui mais de 2500 pistas de leitura - dos mais diversos géneros, das mais diversas proveniências, dos mais diferentes autores. Tendo como fio condutor, salvo muito esporádicas excepções que só serviram para confirmar a regra, a recusa da escrita acordística, cheia de consoantes mutiladas, que continua a ser rejeitada pela larga maioria dos nossos escritores.

Termino por cansaço natural e porque tudo tem necessariamente de chegar ao fim. Assim farei, simbolicamente, neste 10 de Junho - um Dia de Portugal em formato minimal, outra experiência inédita deste ano que tem sido fértil em inovações. Fica desde já o aviso porque os leitores do DELITO - que durante tanto tempo me incentivaram a prosseguir - merecem esta atenção.

Falta acrescentar que, dos títulos que aqui fui destacando ao longo de todo este tempo, só menos de 5% me chegaram às mãos por ofertas espontâneas de autores ou editoras. Nem nunca solicitei o envio de obra alguma - para reforçar a minha independência de critério e a minha integral liberdade de escolha.

Espero que tenham gostado. Este extenso inventário aqui permanecerá, para memória futura. Agora é tempo de virar a página.

Lição de arte, lição de vida

Pedro Correia, 17.04.20

           Rubem Fonseca - 1 - 1987 - LÚCIA MCCARTNEY.jpg Luis+Sepulveda+Discussing+New+Book+La+Lampara+PFWQ

 

Um contraste gritante. Com horas de intervalo morreram dois grandes escritores, Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. O primeiro foi praticamente ignorado enquanto o segundo era merecidamente enaltecido. Uma chocante disparidade de tratamento jornalístico. Desmentindo aquela frase batida acerca da equivalência universal imposta pela morte. Existe uma hierarquia nos obituários que por vezes não entendo.

É certo que a morte de Sepúlveda veio embrulhada no registo monotemático do coronavírus. Tivesse Rubem falecido de Covid-19, e não de um banal enfarte aos 94 anos, certamente merecia mais espaço e maiores loas. Sem desprimor para Sepúlveda, que cheguei a conhecer numa Feira do Livro de Lisboa e me comoveu com o seu O Velho que Lia Romances de Amor, o autor de A Grande Arte teria merecido no mínimo igual destaque. Para mim, admirador confesso da sua escrita, inconfundível como poucas, este mineiro de nascimento e carioca de adopção era o maior contista vivo do nosso idioma.

Sepúlveda, sem dúvida, tinha uma relação afectiva com Portugal. E foi cá, infelizmente, que terá sido infectado, embora as dúvidas persistam pois nenhum dos outros participantes nas Correntes d' Escrita acusou positivo no teste ao vírus, que o malogrado escritor chileno poderia ter contraído antes. Mas o autor d' O Caso Morel trazia Portugal não apenas no coração mas também no sangue: era filho de imigrantes transmontanos e as alusões à pátria de origem abundavam na sua obra. Uma das maiores alegrias que recebeu foi a merecida consagração com o Prémio Camões, em 2003. Podia e devia ter recebido outros, de diferentes latitudes, pois o seu talento tinha expressão universal.

«Parecendo amoral, encerra uma profunda nostalgia por uma moralidade perdida ou por reencontrar», como justamente observou Jaime Nogueira Pinto.

 

Devo a Rubem Fonseca algumas das mais proveitosas horas que tenho vivido como leitor. Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas e raras vezes se deixava fotografar. O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado.

Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado. Fruto da inspiração? Não: produto de muito trabalho, invisível e persistente. «Escreva todo dia. Se estiver com preguiça, senta e escreve qualquer coisa, nem que seja uma vírgula», recomendava Rubem, agora invocado por Jô Soares.

Lição de arte, lição de vida.

 

Leitura complementar:

Um mar de lama. Sobre Agosto, romance de Rubem Fonseca.

Grandes contos (11). Sobre Passeio Nocturno, conto de Rubem Fonseca.

Luís Sepúlveda (1949-2020).

Luís Menezes Leitão, 16.04.20

Tenho imensa pena pelo falecimento do escritor Luís Sepúlveda, do qual li a maioria dos seus livros. Era um escritor que adorava Portugal, o que lhe ficou do facto de, ao contrário do que habitualmente lhe sucedia, não ter sido controlado na nossa fronteira, tendo antes o guarda do aeroporto lhe perguntado se não era o autor do livro O velho que lia romances de amor, e perante a resposta afirmativa, tê-lo mandado imediatamente passar.

A sua morte é um aviso para os que querem minimizar os riscos da doença Covid-19. A pessoa infectada pode adquirir uma insuficiência respiratória que, nos casos mais graves, o obriga a estar entubado com um ventilador durante semanas. Os doentes só conseguem suportar esse tratamento se forem colocados em coma induzido. Depois se vê quem recupera e quem infelizmente não sobrevive a esse inimigo insidioso e traiçoeiro.

Luís Sepúlveda perdeu infelizmente essa batalha. Ficamos com os seus livros para recordar a sua passagem pelo mundo.

 

Cinquenta livros de 39 autores

Pedro Correia, 15.02.20

               emigrantes[1].JPG  agustina[1].JPG

            quando_os_lobos_1[1].jpg  A-Escola-Paraíso[1].jpg

 

Já tinha falado disto aqui, venho só fazer uma actualização ao tema. Em Maio do ano passado, quando tentei elaborar a lista dos dez melhores romances e novelas portugueses do século XX, verifiquei que para esse efeito ainda me faltava conhecer muitas obras. Elaborei então um ambicioso plano de leituras que me permitisse colmatar tal falha.

E assim foi. Nestes nove meses, no estrito cumprimento desse plano, li (ou reli) cinquenta livros. Aproveitando todos os momentos disponíveis - de manhã, à noite, ao fim de semana, em férias, em viagens de trabalho, nas deslocações quotidianas de transportes públicos pela cidade.

Consegui. Ampliei os meus horizontes literários, conheci autores que nunca havia lido, elegi umas quantas obras-primas que passam a integrar o meu panteão pessoal.

 

Foram estes os escritores que me acompanharam desde Maio: Eça de Queiroz, Raul Brandão, Judith Teixeira, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Henrique Galvão, Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis, Tomaz de Figueiredo, Miguel Torga, Joaquim Paço d'Arcos, Manuel da Fonseca, Alves Redol, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Isabel da Nóbrega, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Orlando da Costa, Rentes de Carvalho, Helena Marques, Fernando Assis Pacheco, Teolinda Gersão, Vasco Graça Moura, Américo Guerreiro de Sousa, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Teresa Veiga, Eduarda Dionísio, Lídia Jorge e Rui Zink. Trinta e nove, no total: ficam aqui anotados pela ordem de nascimento. Entre 1845 e 1961.

Reparo agora que a lista inclui nove escritoras, algumas das quais desconhecia por completo enquanto leitor. E autores do Minho (Tomaz de Figueiredo) ao Algarve (Lídia Jorge), não faltando naturais dos nossos antigos territórios ultramarinos (Orlando da Costa, moçambicano de ascendência goesa; Almada, nascido em São Tomé).

Li ou reli quatro livros de Agustina, quatro de Lobo Antunes, três de Aquilino, três de Miguéis, três de Vergílio: foram os autores que mais frequentei ao longo destes meses.

 

Hei-de falar mais em pormenor destas leituras que me sensibilizaram não apenas no plano intelectual e estético mas também no plano histórico e social, enquanto retratos da sociedade portuguesa no século em que nasci.

Mas queria anotar desde já alguns dos melhores romances, por ordem de publicação: Emigrantes (Castro, 1928), Vindima (Torga, 1945), A Sibila (Agustina, 1954), A Casa Grande de Romarigães (Aquilino, 1957), Quando os Lobos Uivam (Aquilino, 1958), A Escola do Paraíso (Miguéis, 1960), Barranco de Cegos (Redol, 1961), Sinais de Fogo (Sena, 1979), Os Cus de Judas (Antunes, 1979), Para Sempre (Vergílio, 1983), Auto dos Danados (Antunes, 1985), O Último Cais (Helena Marques, 1992), Trabalhos e Paixões de Benito Prada (Assis, 1993) e O Vale da Paixão (Lídia, 1998).

Se quiserem, digam-me quais são os romances de que mais gostam, entre todos quantos foram publicados em Portugal durante o século XX. Pela minha parte, prometo publicar aqui a tal lista dos dez melhores que me serviu de mote a tão gratificante empreitada.

Confesso: só não o faço já porque ainda me restam alguns livros para ler.

 

Leitura complementar:

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

Do excelente ao execrável

Um mentor de génios

João Pedro Pimenta, 03.01.20

A Foz velha, em tempos separada do Porto, de tal forma que ainda há lá quem diga "vou ao Porto" quando pretende ir ao centro da cidade, é em boa parte atravessada por uma rua estreita, empedrada e de traçado ligeiramente curvado, que liga a ainda mais estreita Rua da Cerca e a Esplanada do Castelo (de S. João Baptista da Foz) até à mais movimentada Diogo Botelho, continuando ainda do outro lado. Nela se podem ver mercearias tradicionais, restaurantes premiados mas de fachada discreta, uma via sacra, a antiga casa da câmara, dos tempos em que S. João da Foz era município, e a velha discoteca Dona Urraca/Pop, que recebeu gerações seguidas de movida. Essa velha artéria, em tempos chamada de Rua Central da Foz, é hoje a Rua do Padre Luís Cabral.

O padre Luis Gonzaga Cabral, nascido na Foz em 1866 e ordenado padre da Companhia de Jesus em 1897, depois de ter estudado filosofia em Espanha e teologia em França, tornar-se-ia professor no Colégio de Campolide (então dos jesuítas - hoje Campus da Universidade Nova de Lisboa) e seu reitor em 1903, numa altura em que a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola era um dos alvos preferidos dos republicanos e da Carbonária. Exerceu essas funções precisamente quando um jovem aluno e o seu irmão mais novo, órfãos de mãe e deixados até então pelo pai em casa de tios de Lisboa depois da sua vinda de S. Tomé, ingressaram no colégio e lá permaneceram. O mais novo chamava-se António. O mais velho, que tomava conta do irmão, tinha como nome José Sobral de Almada Negreiros.

Como é sabido, Almada seria talvez o artista português mais genial e prolífico dos cem anos seguintes. E essa genialidade deu-se a descobrir em Campolide. Dotado para a escrita e para o desenho (mas também para o desporto, o que provavelmente lhe seria precioso para os anos vindouros de bailarino, e para a mecânica), com uma imaginação fértil e um espírito endiabrado, teve a felicidade de se encontrar numa instituição conhecida por apostar no talento dos seus instruendos. Reparando naquele imenso talento em bruto, os jesuítas e o seu director arranjaram-lhe um quarto/atelier para que pudesse desenvolver as suas pinturas e desenhos, permitindo-lhe aceder amiúde à biblioteca do colégio, chegando mesmo a dispensá-lo de aulas e de um conjunto de outras obrigações. A genialidade do jovem Almada Negreiros justificava-o. Certo dia, o director, presumivelmente Luís Cabral, apanhou-o em veloz corrida entre as salas do colégio e atirou-lhe a frase que se colaria a Almada a partir daí: "tenho 360 alunos e todos têm olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos"? Resta saber se teria dito isto pelo talento impressionante do aluno ou pelos seus enormes olhos, a que era impossível ficar indiferente e que seriam sempre a sua imagem de marca, a par da sua assinatura.

Em 1910, com a implantação da república, os jesuítas seriam expulsos do país, não sem alguma dose de violência, e as suas instituições encerradas. Luís Cabral, que era então já Provincial da Companhia, teve de fugir apressadamente para Espanha, disfarçado de vendedor de máquinas de escrever. Ao contrário de outros não se instalou em La Guardia, mesmo em frente a Caminha, onde surgiria novo colégio dos jesuítas portugueses, mas seguiria para a Bélgica, onde continuou a dedicar-se ao ensino, até à Grande Guerra o expulsar de novo, desta feita para o Brasil.

Em 1916 começou a leccionar no Colégio António Vieira, em Salvador da Bahia, do qual se tornaria director em 1930. Em solo baiano, destacar-se-ia na fundação de várias instituições culturais. Mas teria novo papel decisivo na formação de alguns alunos.

Em Jorge Amado, Uma Biografia, obra escrita pela jornalista baiana Josélia Aguiar sobre a vida do conhecido escritor brasileiro, editada em Portugal há poucos meses, menciona-se logo a influência que "padre Cabral" teve em Amado, que frequentava o colégio. Aos dez anos, «obedecendo a um pedido do padre Cabral, para quem toda a classe devia preparar uma descrição do mar, colocou no papel a memória da praia verde do Pontal, nos arredores de Ilhéus, aquela em que brincava com a filha do canoeiro. Ao trazer os deveres corrigidos, o professor anunciou com ares de solenidade para todos escutarem:´"este vai ser escritor"». Noutro depoimento do próprio Jorge Amado, sobre o mesmo episódio, lemos o seguinte: "minha vocação literária foi despertada pelas aulas desse jesuíta, aplaudido orador sacro, grande estrela do colégio. A sociedade baiana vinha em peso ouvir seu sermão dominical”. Contou que “em determinado dia, em sala de aula, o mestre deu como atividade a escrita de um texto sobre o mar. O menino Jorge, em vez de tratar, como a maior parte dos seus colegas, dos “mares nunca dantes navegados” de Camões, preferiu escrever sobre o mar de Ilhéus, cidade da região cacaueira onde morou e da qual sentia saudades. O Padre Cabral levou os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela salade aula. Pediu que escutassem com atenção o que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios".

Luís Gonzaga Cabral, o "padre Cabral", ficaria na Bahia o resto da sua vida, embora ainda tenha voltado a Portugal. Esteve sempre ligado ao ensino e à escrita e a tentar encontrar, como bom jesuíta que era, o melhor que os seus alunos tinham e o talento que poderiam desenvolver. É possível que outros se tenham destacado graças ao seu empenho. Do que não há dúvida é que tanto Almada Negreiros como Jorge Amado lhe deveram a descoberta das suas vocações e o empurrão necessário para se tornarem nos artistas que a cultura lusófona reconhece e celebra.

 

PS: outra coisa em comum nos dois artistas poderá ser a inspiração do alto Minho. Almada, como é sabido, casou com a vianense Sarah Affonso e passou férias e a lua de mel em Moledo, e Amado era visita da célebre pastelaria Manuel Natário, de viana do Castelo.

Do excelente ao execrável

Pedro Correia, 02.01.20

20200101_131823-1-1.jpg

 

Em 2019 apostei comigo mesmo que manteria níveis de leitura semelhantes aos que tinha no final da adolescência, quando devorava livros atrás de livros. No ano em que fiz 18, li 72. Nessas idades, o tempo parece sempre que nos sobra - ao contrário do que sucede nas décadas posteriores. Mas no ano passado levei muito a sério a meta que me impus, a tal ponto que acabei até por superá-la: 74 livros completos - não contabilizo, portanto, os três ou quatro que deixei a meio.

Em Maio, como já confidenciei aqui, verifiquei que me faltavam leituras para fazer uma lista consciente e convincente dos 25 melhores romances portugueses do século XX. Ou até dos dez melhores. Tinha acabado então de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que funcionou como ignição para prosseguir nesse trilho. Seguiram-se outras 38 obras literárias só de autores nacionais do século passado, escritas entre as décadas de 10 e 90. Nesta sucessão de leituras e releituras, a mais antiga foi A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro (1914) e a mais recente O Vale da Paixão, de Lídia Jorge (1998).

Os escritores que mais li ou reli foram Agustina Bessa-Luís (quatro romances), António Lobo Antunes (quatro) e Vergílio Ferreira (três). E não li apenas romances: também visitei ou revisitei alguns livros de contos.

Além dos já mencionados, também frequentei estes - vários dos quais pela primeira vez: Almada Negreiros, Alves Redol, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, Aquilino Ribeiro, Eduarda Dionísio, Fernando Assis Pacheco, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Helena Marques, Joaquim Paço d' Arcos, José Cardoso Pires, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Manuel da Fonseca, Miguel Torga, Nuno Bragança, Raul Brandão, Rui Zink, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teolinda Gersão, Tomaz de Figueiredo e Urbano Tavares Rodrigues.

Li um pouco de tudo - do excelente ao execrável. Mas sinto-me agora capacitado para elaborar a tal lista dos dez melhores romances portugueses do século XX: irei divulgá-la aqui em breve, pondo-a em debate.  E eis-me também quase pronto a concluir a dos 25 melhores.

Hoje, primeiro dia deste promissor ano bissexto, quero destacar apenas alguns dos que mais gostei de ler ou reler em 2019, sem cuidar do lugar que lhes estará reservado no nosso cânone académico. Ei-los, por ordem cronológica de publicação: A Sibila, Barranco de Cegos, Montedor, Sinais de Fogo, Para Sempre, Auto dos Danados, O Último Cais e O Vale da Paixão. Cada um por seu motivo, foram dos que mais gostei.

Fica este breve balanço, na expectativa de fornecer boas pistas a quem visita o DELITO e funcionando como incentivo suplementar a mim próprio. Tenciono prosseguir em 2020 o meu plano de leitura: falta-me ainda conhecer cerca de duas dezenas de relevantes obras do século XX. Depois transitarei enfim para este século, mantendo-me ainda na ficção literária portuguesa. Nessa altura será a minha vez de vos pedir sugestões.

 

Leitura complementar:

Com olhos de ler

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

O sucesso é um fracasso adiado

Pedro Correia, 24.10.19

O que têm em comum livros como Guerra e Paz, Lolita, O Coração das Trevas, A Casa de Bernarda Alba, A Condição Humana, O Poder e a Glória, 1984, Admirável Mundo Novo, O Processo, Memórias de Adriano, Debaixo do Vulcão, Viagem ao Centro da Terra, Em Busca do Tempo Perdido, O Grande Gatsby, Servidão Humana, Música Para Camaleões, Longe da Multidão e A Oeste Nada de Novo? Foram todos escritos por autores que, podendo ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, se viram privados deste galardão, do qual os académicos de Estocolmo não os acharam merecedores.

A lista de galardoados com o Nobel, que no campo das letras se destina a premiar anualmente “a obra que mais se distinguir, numa perspectiva idealista”, conforme Alfred Nobel deixou escrito em testamento, é – salvo raras excepções – uma antologia da ilegibilidade. Que começou aliás logo em 1901, com um poeta francês pouco menos que obscuro: Sally Proudhomme.

É uma lista que ignora a grande maioria dos gigantes da literatura do século XX, e mesmo de escritores do século XIX que ainda viviam em 1901: esquece Lev Tolstoi, Émile Zola, Joseph Conrad, Marcel Proust, Pérez Galdós e Thomas Hardy. E se até nem admira que nomes imensamente populares – como Júlio Verne, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, Georges Simenon e Conan Doyle – tivessem sido esquecidos pela exigentíssima Academia Nobel, outros estão ausentes da lista de premiados de forma quase escandalosa, como Henryk Ibsen, Rainer Maria Rilke, Pio Baroja e Anton Tchekov. Enquanto autores como Wladyslaw Reymont, Carl Spitteler, Karl Gjellerup, Verner von Heidenstam, Gerhart Hauptmann, Rudolf Eucken, Grazia Deledda e Giosuè Carducci integram a lista de premiados. Ninguém hoje os lê, e provavelmente ninguém nunca os leu, mas também já ninguém lhes retira a distinção que foi negada a Marguerite Yourcenar, José Lezama Lima, Malcolm Lowry, Paul Bowles, Ernst Jünger, Katherine Mansfield, Evelyn Waugh, John dos Passos, Tolkien, Italo Calvino e Norman Mailer.

 

250px-Jorge_Luis_Borges_1951,_by_Grete_Stern[1].jp

As omissões são, pelo menos, democraticamente distribuídas por diversos idiomas. A começar na língua inglesa, que não viu conferir o Nobel a autores como Henry James, Scott Fitzgerald, G. K. Chesterton, Aldous Huxley, D. H. Lawrence - ou até Jack London, de quem Lenine, no leito de morte, pedia que lhe lessem alguns dos trechos que mais admirava.

Da língua francesa estão ausentes autores como André Malraux, Marguerite Duras e Saint-Exupéry.

Entre os italianos, nenhuma menção a Cesare Pavese ou Alberto Moravia. Dos russos, nada de Vladimir Nabokov (que até escreveu principalmente em inglês), Marina Tsvetaeva ou Maiakovski.

Escandalosa também a omissão de grandes figuras da literatura de expressão espanhola, como Federico García Lorca, Unamuno, Rubén Darío, Julio Cortázar, Cabrera Infante, Antonio Machado e Juan Carlos Onetti. Ou da literatura germânica, como Franz Kafka, Robert Musil e Stefan Zweig. Ou mesmo da japonesa, como Yukio Mishima.

A língua portuguesa, que até hoje viu apenas reconhecidos os méritos de José Saramago (em 1998), é das que tem mais razões de queixa: a Academia Nobel ignorou Fernando Pessoa - o que até pode desculpar-se pelo facto de o autor de Mensagem ter sido quase nada publicado em vida. Mas também Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Clarice Lispector. Havia que premiar, em alternativa, ilustres desconhecidos, como Erik Axel Karlfeldt, Harry Martinson e Eyvind Johnson, representantes das línguas nórdicas, as mais favorecidas por Estocolmo.

 

2533[1].jpg

A lista de omissões é interminável. Inclui Virginia Woolf, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Raymond Carver, John Updike e Arthur Miller, por exemplo. Em flagrante contraste com Winston Churchill, galardoado em 1953, quando exercia pela segunda vez as funções de primeiro-ministro do Reino Unido – menos por motivos de ordem estética do que de ordem política.

Não deixa de ser irónico, já que muitos autores ficaram à margem do Nobel por motivos políticos – uns de esquerda, como Bertolt Brecht, Arthur Koestler e George Orwell, outros de direita, como Ezra Pound, Céline e Jorge Luis Borges. Embora Churchill escrevesse inegavelmente bem e até tivesse deixado um dos mais sábios conselhos de escrita aos seus leitores: «Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor.»

Graham Greene, uma das ausências mais imperdoáveis na lista dos premiados, encolhia os ombros em cada ano que passava sem lhe atribuírem o Nobel. E costumava afirmar: «Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado.» De muitos que a Academia Nobel distinguiu não se pode dizer mais nada senão isto.

 

Imagens: Jorge Luis Borges e Graham Greene

Quem será o Nobel da Literatura?

Pedro Correia, 09.10.19

              s-l300[1].jpg 2019-09-time-atwood-mbj-murphy-cover-flip_800x600[

 

Quem serão os contemplados com o Nobel da Literatura? Este ano deverão ser anunciados dois - não apenas o de 2019 mas também o de 2018, que não chegou a ser atribuído.

Faltam 24 horas para sabermos. Gostaria de perguntar aos leitores do DELITO em quem apostam. Pela minha parte, reitero desejos antigos: ver Milan Kundera ou John Le Carré distinguidos pelo Comité Nobel. Mas talvez o Nobel, desta vez, premeie uma mulher. A canadiana Margaret Atwood ou a norte-americana Joyce Carol Oates, por exemplo.

Seria justo.

Outro livro fora do mercado

Pedro Correia, 31.08.19

13633026[1].jpg

 

Há pouco mais de um mês fiz um apelo público - aliás motivado por um inquérito sobre leituras de Verão promovido pelo Sapo, em que participei - à aquisição do romance Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco. Logo vários leitores, com inegável simpatia, me deram boas pistas para chegar ao livro, o que muito lhes agradeço. Li-o num instante e, como já esperava, é um romance que recomendo sem a menor dúvida - considero-o um dos melhores que se publicaram em Portugal nas últimas décadas do século XX. Julgo que terá sido editado inicialmente pela Asa, depois passou a integrar o catálogo da Assírio & Alvim. Estranhamente, encontra-se ausente das livrarias: nem na recente Feira do Livro de Lisboa consegui vislumbrá-lo.

Agora faço outro apelo, desta vez para encontrar outro romance que se encontra igualmente fora do mercado: Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis. Dizem-me na Bertrand que não dispõem sequer de um exemplar em fundo de armazém. Desde a declaração de insolvência da Editorial Estampa, em 2017, as obras deste escritor - um dos maiores prosadores portugueses do século XX - deixaram de estar disponíveis ao público fora das bibliotecas. Ao que me garantem, por supostas desavenças entre os seus herdeiros, algo infelizmente bastante mais comum do que muitos imaginam.

É um delito de lesa-cultura. E eis-me agora, por via disso, à procura dos dois volumes deste Milagre Segundo Salomé. Quem souber fornecer-me alguma pista, será bem-vinda. E declaro-me muito grato desde já.