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Delito de Opinião

Adeus, Princesa

Pedro Correia, 13.12.25

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Tínhamos quase a mesma idade e começámos ao mesmo tempo no jornalismo. Ambos em semanários, embora concorrentes: um saía à quinta, outro à sexta. Quando era frequente um jornal ter tiragens superiores a cem mil exemplares. Conheci-a num dia de Verão, parecia cena de filme. Na Rua do Jasmim. Descia eu do Príncipe Real, vinha ela em sentido oposto, da Praça das Flores, também solitária. Muito bronzeada, vestida de branco - o Tejo escoltando-a à distância.

Era uma das mulheres mais belas da nossa geração, uma das mais belas que até hoje conheci. A Clara Pinto Correia - tínhamos o mesmo apelido, mas nenhum parentesco nos ligava - não se limitava a ser bonita e a escrever num estilo muito próprio, com linguagem solta, ousada, que parecia brotar-lhe de geração espontânea, à maneira da escrita automática de um Jack Kerouac. Testando os limites ditados pelas convenções, o que irritava alguns bonzos do nosso ofício.

Parecia não fazer caso do que pensavam dela. Sempre pareceu. 

Pouco depois, publicou um romance arrebatador, que permanece como marco daqueles anos fugidios - a turbulenta década de 80, na ressaca do frenesim revolucionário, ainda antes da adesão do País à Comunidade Europeia. Documenta esse tempo de transição, naquela terra-de-ninguém que nos marcou para sempre. Tinha apenas 24 anos quando o escreveu. Abandonaria o jornalismo cedo de mais, fragmentou-se por actividades várias, talvez excessivas.

Outras obras passaram sem deixar rasto. Esta ficou. Como retrato de um Alentejo onde a esperança era escassa. Como signo de uma época irrepetível. Adeus, Princesa é também um dos melhores romances portugueses de sempre centrados no jornalismo - como havia sido, duas décadas antes, O Secreto Adeus, de Baptista-Bastos.

 

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Guardo um exemplar que ela me ofereceu, com dedicatória. É da 9.ª edição, da Relógio d'Água, com magnífica capa de Jorge Colombo - daquelas que quase já não há. Um exemplar que a partir de agora, infelizmente, se torna um pouco mais valioso. 

Há três anos, revisitando o livro, escrevi de rajada um pequeno ensaio sobre a principal personagem feminina, Bárbara Emília. É, para mim, uma das mais marcantes figuras da ficção portuguesa do último meio século. Ponderei enviar-lhe esse texto, ainda hoje inédito: dar-me-ia imenso gosto que ela o lesse em primeira mão. Só não o fiz porque perdera os seus contactos e não encontrei quem os tivesse: ela atravessara anos muito turbulentos e acabava de se ocultar algures no Alentejo, onde vivia como eremita, longe dos holofotes que chegaram a ofuscá-la. 

Seria ali o último refúgio da Clara, agora tristemente desaparecida. Lamentarei para sempre nunca lhe ter mostrado o que escrevi, confirmando uma convicção enraizada: só nos arrependemos do que deixamos por fazer.

Mas continuarei a revê-la, inundada de beleza, subindo de branco integral a calçada oitocentista da Rua do Jasmim. Com a prata do Tejo a refulgir em fundo como se a emoldurasse para a eternidade.

A minha preferência: o Nobel para Atwood

Pedro Correia, 08.10.25

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Dizem-me que o Nobel da Literatura adoptou na última década "quotas de género": passou a premiar, alternadamente, escritores de ambos os sexos. Não sei se já vigoram também quotas étnicas - como nos Óscares de Hollywood - ou geográficas. Pouco me surpreenderia se assim fosse.

Quero lá saber. Como leitor, escolheria sem hesitar Margaret Atwood - autora de extraordinários romances, como Ressurgir ou O Assassino Cego. O primeiro, incluído por Harold Bloom no seu imprescindível Cânone Ocidental; o segundo justamente galardoado com o Pulitzer de 2000.

No ano passado o Nobel coube à coreana Han Kang: isto indicia que desta vez o galardoado será do sexo masculino, segundo determina a severa lei das quotas. Mas laurear duas mulheres em anos consecutivos seria verdadeira inovação: nunca o mais cobiçado prémio das letras mundiais se atreveu a tanto.

Deixo, portanto, a minha preferência - repetindo um voto já aqui feito em 2019: o Nobel para Atwood, que nesse ano recebeu o Booker, em jeito de compensação. Falecidos Rubem Fonseca, John Le Carré, Javier Marías e Milan Kundera, que também o mereciam, seria hoje um dos mais justos.

Preferência, não prognóstico. Porque Atwood estará excluída, in limine, por ousar dizer aquilo que realmente pensa. Contra os torquemadas do momento e as novas censuras. Tal como Salman Rushdie, neste caso por veto explícito do islamismo radical perante a cobarde complacência dos profissionais da indignação selectiva.

Pouco importa. Tanto a escritora canadiana como o romancista anglo-americano nascido na Índia já receberam o melhor dos prémios: a admiração e o respeito de milhões de leitores. De todos os cantos do planeta, sem anátemas nem exclusões.

 

Leitura complementar:

Os meus 50 livros preferidos escritos por mulheres (2 de Setembro de 2023)

A última das três Marias

Teresa Ribeiro, 04.02.25

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Entrevistei-a o ano passado para o Público, a propósito do relançamento da obra de Maria Lamas "As Mulheres do Meu País". Então com 86 anos, a última das 3 Marias conservava no olhar a fibra da rebeldia, algo que contrastava em absoluto com a sua evidente fragilidade física. Esse desconcerto enterneceu-me, expôs de forma explícita o que ela era, o que sempre fora. Na altura estava a ser requisitada para várias coisas ao mesmo tempo. Entrevistas na televisão, noutros jornais, coisas que tinham a ver com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Não escondia o cansaço nem a felicidade de ter de ser obrigada a andar numa roda-viva. Se nunca ninguém a impedira de fazer da sua vida o que queria, não seria a idade a dobrá-la.

Falámos de feminismo, perguntei-lhe o que pensava das mulheres – tantas – que fazem questão de se declarar “femininas e não feministas”. Respondeu-me: “Sinto que há muitas mulheres que não têm consciência de tudo o que foi conquistado. Durante anos e anos andaram mulheres a lutar pelos seus direitos e sofreram muito. Foram presas, espancadas, humilhadas. Eu fui insultada e espancada na rua. Enquanto me batiam disseram-me ‘Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves’.”

 Ela e as outras duas marias (Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa) tiveram a ousadia de escrever um livro, “As Novas Cartas Portuguesas”, onde se falava das necessidades afectivas das mulheres e do seu desejo de emancipação. Lançado em 1972, foi considerado pornográfico pelo anterior regime e imediatamente apreendido. Estas recordações ainda lhe incendiavam o olhar. Era um orgulho. O seu e o das mulheres que sentia representar.

Na hora da despedida, agradeço-lhe tudo o que ajudou a conquistar para mim, para a minha filha e, quem sabe, para uma futura neta. E fica a promessa: pela parte que me toca, sempre honrarei a memória das feministas do meu país.