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Rolhas

por José Meireles Graça, em 17.11.19

Dos outros países não sei, mas em Portugal as rolhas do regime são uma instituição. Já eram no tempo da Velha Senhora, mas menos e mais modestas, e são legião hoje.

Que são rolhas do regime? São aqueles indivíduos que gravitam à volta do Poder, do que está e do que pode vir a estar, passaram por lugares do aparelho de Estado político, incluindo a Europa desde que se descobriu que era um excelente viveiro de contactos úteis e com um passadio muito melhor do que o nacional (o cidadão quer estupidamente pagar mal aos seus políticos nacionais mas paga principescamente aos europeus por não saber quanto lhe custa) e dele saíram voluntariamente para aterrar em lugares invariavelmente bem pagos de empresas públicas, grandes empresas privadas, bancos, institutos ou outras instituições.

Há dois sítios em que nunca estão: um é a política activa – porque isso os obrigaria a definir claramente correligionários e adversários, e defender lugares com a faca nos dentes; e o outro são as pequenas empresas privadas, salvo as inventadas para servir encomendas do Estado, porque a taxa de mortalidade é grande, a competição assanhada, o Fisco opressivo e o espaço para tretas diminuto.

E costumam falar sobre o quê? Profundidades: a Europa, a Educação, os desígnios, a modernidade, o futuro, as desigualdades, os desafios tecnológicos, a pobreza – ai! que estes grandes temas, se os ouvirmos, ficarão para nós de luminosa transparência.

Carlos Moedas é um destes. E, fatalmente, disse muitas coisas a Maria João Avillez, uma especialista em entrevistas hagiográficas. A própria, ciente de que se eleva na mesma medida em que iça os convidados, nunca poupa nos elogios. E, com Moedas, esmerou-se:

“Carlos Moedas é uma mais valia. Provou-o em Portugal no governo da coligação PSD/CDS; tinha-o demonstrado, fora de portas, muito novo, na banca internacional; voltou a ter-se a certeza disso em Bruxelas, onde durante cinco anos fez o seu melhor. Estabelecendo pontes inovadoras entre o hoje e o amanhã, reteve-se o seu apport na energia e na criatividade usadas como Comissário para a Inovação e Ciência junto da EU”. 

Ahem, estabelecer pontes inovadoras entre o hoje e o amanhã parece realmente uma obra impressionante de construção civil retórica, mas talvez não fosse pior inteirar as pessoas do que realmente quer dizer o “apport” que terá trazido à energia, a não ser que o dedo engenheiral e subsidiesco do entrevistado tenha muito a ver com os corrupios no alto dos montes. Quanto à passagem pelo governo PàF não esteve mal, de facto: os camaleões têm, precisamente, a admirável capacidade de se fundirem com o ambiente.

Que diz então o miraculado? Muitas coisas, quase todas vagas, quase todas genéricas, quase todas vácuas – não vale a pena respigar a enxurrada de paleio, salvo nos extractos a seguir (haveria outros, mas o texto ficava demasiado extenso).

“Para isso [para a passagem do invisível para o visível] precisamos de duas grandes mudanças: uma institucional, outra de mentalidades. A mudança institucional é aceitar que é impossível estarmos todos de acordo e que a regra da unanimidade não funciona na maioria dos casos. Há que passar à regra da maioria em certas áreas da fiscalidade e dos assuntos externos. Se isso não mudar, a Europa não se afirmará. Foi isso que falhou na crise dos refugiados. Depois, é indispensável uma mudança de mentalidade: a Europa tem que ser mais assertiva na sua comunicação, sem medo de expor as nossas posições. Temos que comunicar como Europa e não apenas como países”.

Traduzindo: Há que eliminar a competição fiscal, nivelando todos os impostos por cima e reforçando as contribuições para o embrião do supergoverno europeu; e há que anular as diferenças entre Estados e os seus interesses permanentes, a benefício do eixo franco-alemão.

“Tenho muito orgulho em dizer que, na minha área, marquei a agenda da Inovação e Ciência na Europa. Ninguém falava destes temas há cinco anos. Nem nenhum chefe de Estado ou de governo abordava estes temas nos seus discursos políticos. Era uma área vista como um parente pobre das políticas europeias. Hoje não é assim, estes temas estão já ancorados na agenda dos líderes europeus e mundiais”.

Marcou sim senhor. E hoje ninguém em seu juízo, na Europa, faz investigação, inova ou cria sem apoios públicos. Admite-se mesmo a hipótese de as redes sociais do futuro, os telemóveis, o GPS, e a generalidade das inovações tecnológicas, deixarem de vir dos EUA, ou da Ásia, e mudarem-se para a Europa, desde que evidentemente os sucessores de Moedas lhe honrem a herança. No futuro. Porque, no passado, e este abrange o tempo em que moedas foi Comissário, isto é, desde fins de 2014, o que tem a dizer um senhor professor da London School of Economics, sobre a EU, avaliada pela sua quota no produto mundial, ou no volume do comércio, é o seguinte:

“There are various metrics for this. The size of the EU market is clearly one factor, at 16.9 percent (or 14.54 when the UK leaves) of world GDP, the EU weighs in as one of the heavyweights (China 17.1 percent, USA 15.8 percent), but its share is declining. In terms of the share of world trade in goods the EU accounts for 15 percent (excluding intra-EU trade) of world trade (15.7 percent of exports and 2016 and 14.8 percent of imports), but here the EU share has declined more rapidly over the past decade, as has that of the USA. This is an indicator of the shift in the focus of world trade from the Atlantic to Asia Pacific”.

Cabe dizer portanto que a EU tem sido o farol da inovação e ciência – mas o resto do mundo não se tem apercebido, senão a importância da UE pararia de decrescer.

A entrevista abunda em verdadeiros achados de retórica, língua de pau, gabarolice e disparates. Um último:

“Defendo um imposto digital europeu, o que não só seria a forma de impor maior justiça fiscal a empresas americanas que não pagam impostos em território europeu, como uma fonte de receita para o orçamento europeu. Só que para isso é necessária aquela união de que falei há pouco. Precisamos de uma unanimidade sobre este tema, o que é difícil, mas estou convencido de que lá chegaremos”.

Nunca nenhum imposto novo, ou aumento dos existentes, deixou de ser apresentado como um grande progresso em nome de um bem maior; e a engenharia de impostos sempre apresentou os prejudicados como poucos e os beneficiados como muitos, o que pode até no curto prazo ser verdade. Neste caso, o negócio é ainda mais sumarento: beneficiamos todos e os americanos pagam.

Claro que não pagam: ou os clientes europeus deixam de ter acesso ao que agora têm, ou pagarão por isso de uma forma ou de outra.

Enfim, Moedas é ainda muito novo e logo que acabe de ornar a Gulbenkian com as suas luzes pode bem ser que regresse à vida pública, através do seu partido de sempre. É de esperar que este tenha entretanto resolvido os seus problemas, de uma maneira ou de outra. Qualquer uma serve, aliás, porque Passos Coelho “foi o melhor primeiro-ministro desde o 25 de Abril” enquanto “há que reconhecer que o papel de Rui Rio também foi difícil. Estar na oposição em Portugal é dificílimo”.

O novo ópio do povo

por Pedro Correia, em 28.08.19

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A TVI, no seu canal informativo, prometia ontem conceder destaque a Assunção Cristas, entrevistada por um jornalista da casa e alguns especialistas em diversas áreas incluídos entre os participantes nesta emissão, transmitida em directo. Sob o título genérico «Tenho uma pergunta para si» (o abuso do redundante pronome "si", que me soa sempre a nota de música, reflecte o empobrecimento da nossa linguagem comunicacional).

Tentei fixar a atenção nesta entrevista, mas desisti a meio. Porque me pareceu desde o início que se destinava apenas a despachar agenda e aliviar um fardo. Decorria tudo num tom tão impaciente, como se houvesse urgência máxima em retirar a presidente do CDS do ar, que obrigou uns e outros a falar em ritmo anormalmente acelerado.

Assunção, pressionada pelo ponteiro dos segundos, parecia uma picareta falante, para usar a expressão que Vasco Pulido Valente colou noutros tempos a António Guterres. Os interrogadores de turno, quando demoravam um pouco mais a formular a pergunta, eram de imediato interrompidos pelo profissional da casa. O próprio Pedro Pinto, ao comando desta emissão tão frenética, parecia mais confinado à função de cronometrista do que de jornalista.

E afinal tanta pressa para quê? Para que o mesmo canal informativo da TVI desse lugar a três cavalheiros de calças de ganga a discorrer tranquilamente sobre os mais recentes rumores do chamado "mercado de transferências" da bola. Preopinavam em modo pausado, de perna traçada, como se estivessem no café e tivessem todo o tempo do mundo para perorarem sobre coisa nenhuma.

Foi a minha vez de recorrer ao cronómetro: cavaquearam das 22.36 às 23.57. Um dos membros deste trio já estivera em antena durante a tarde, entre as 17.58 e as 18.48, tagarelando sobre o mesmíssimo assunto.

Estranho critério jornalístico, estranho critério informativo - cada vez mais monotemático. Como se nada mais houvesse de relevante do que as tricas do futebol.

Alguém aí falou em ópio do povo? Se o fez, acertou em cheio.

Pontes sim, trincheiras não

por Pedro Correia, em 21.08.19

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Imagem do DELITO em Janeiro de 2009

 

Foi um prazer, confesso, estar à conversa com o Pedro Neves nas instalações do Sapo. O pretexto para este bate-papo, que se prolongou por cerca de uma hora, foi o décimo aniversário deste nosso DELITO DE OPINIÃO, já com merecido estatuto de veterano da blogosfera.

Do simpático convite do Pedro nasceu uma entrevista que me permitiu falar um pouco sobre este percurso trabalhoso mas muito gratificante em termos intelectuais e humanos. Desde logo porque me permitiu conhecer e estreitar relações com muitas pessoas de quem me fui tornando amigo a pretexto desta escrita em jeito de registo diário do que vai sucedendo no país, no mundo e um pouco também nas nossas vidas.

Se me permitem, destaco algumas frases:

«Conseguimos fazer uma coisa que é difícil interiorizarmos em Portugal: podemos ter opiniões muito diferentes, e até opostas, e isso não afectar a relação no plano pessoal»

«Temos uma base de conteúdo político, mas captámos leitores que detestam política e vêm ler outras coisas: uma crítica de livros, uma crítica de cinema, por exemplo»

«Devemos estender pontes. É muito mais fácil encontrarmos compromisso e entendimento a meio de uma ponte do que se estivermos no fundo de uma trincheira»

«Essa»

por Pedro Correia, em 09.07.19

 

«Essa».

Foi nestes elegantíssimos termos que Rui Rio se referiu ontem à ex-ministra da Justiça e ex-dirigente social-democrata Paula Teixeira da Cruz, respondendo a uma pergunta de Miguel Sousa Tavares no Jornal das 8 da TVI.

Para não haver dúvidas, transcrevo a frase na íntegra: «Acho que essa até disse "tirano", salvo erro, ahahah...»

Há pormenores que definem uma pessoa. Às vezes basta uma palavra. Um simples pronome demonstrativo, como é o caso. Rio definiu-se nesta palavra com que brindou em directo, num dos principais telediários portugueses, uma senhora - sua companheira de partido.

Como se estivesse lá em casa. Ou no café.

 

É este um líder da oposição?

por Pedro Correia, em 09.07.19

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1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

A ler

por Pedro Correia, em 21.10.18

Sou de uma espécie em vias de extinção: todos os dias compro um jornal. Pelo menos um jornal. Hoje comprei o Público, só pela entrevista de Ana Sá Lopes e Manuel Carvalho a Vasco Pulido Valente. E valeu a pena, claro. Se não tivesse mais nada, já justificava o que paguei pelo meu exemplar.

Imperdível

por Pedro Correia, em 25.07.18

 

A entrevista que o poeta António Barahona, sempre tão distante dos holofotes, concedeu ao jornal i. Insurgindo-se, nomeadamente, contra a «burrocracia» do desacordo ortográfico.

Bom jornalismo é fazer, editar e publicar entrevistas como esta.

Cinquenta vezes o pronome "eu"

por Pedro Correia, em 12.05.18

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Bruno de Carvalho em extensa entrevista ao Expresso de hoje. Curioso: há três meses pediu aos adeptos para deixarem de ler os jornais, mas continua disponível para receber a imprensa.

Leio a entrevista, desrespeitando o tal pedido. Ao longo de seis páginas, o presidente do Sporting pronuncia cinquenta vezes o pronome eu e apenas três vezes o pronome nós. Esquecendo a dimensão colectiva, componente fundamental de modalidades como o futebol.

É todo um programa. Todo um modo de encarar o desporto. Toda uma forma de estar na vida.

"A fama tira mais do que dá"

por Pedro Correia, em 27.03.18

 

A isto chamo eu uma excelente entrevista. Muito melhor do que aquelas que costumamos ver nos canais generalistas ou informativos da televisão.

Rui Unas está em grande forma neste seu programa difundido no youtube. E Rui Veloso é... Rui Veloso.

O resultado deste encontro é um conversa longa, mas estimulante. E que, apesar de alguns excessos de linguagem que poderão não agradar a todos, recomendo vivamente.

Deu para falar de muitas coisas sérias, embora nenhum dos participantes se leve demasiado a sério, o que é ainda mais de saudar.

Aposto que gostarão tanto como eu gostei.

O que diz Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 27.02.18

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Excelente entrevista de Mario Vargas Llosa à revista dominical do El País a propósito do seu mais recente livro, O Apelo da Tribo - ensaio sobre sete pensadores liberais: Adam Smith, Friedrich von Hayek, Isaiah Berlin, Jean-François Revel, José Ortega y Gasset, Karl Popper e Raymond Aron.

 

Alguns excertos:

«A democracia avançou e os direitos humanos passaram a ser reconhecidos fundamentalmente graças aos pensadores liberais.»

«O liberalismo não apenas admite mas estimula a divergência. Reconhece que uma sociedade está composta por seres humanos muito diferentes e que é importante preservá-la assim.»

«O nacionalismo é uma tendência retrógrada, arcaica, inimiga da democracia e da liberdade, e está sustentado em ficções históricas, em grandes mentiras, nisso a que agora chamamos pós-verdades históricas.»

«O liberalismo defende algumas ideias básicas: a liberdade, o individualismo, a rejeição do colectivismo e do nacionalismo; no fundo, de todas as ideologias ou doutrinas que limitam ou interditam a liberdade na vida social.»

«Ninguém medianamente lúcido quer para o seu país um modelo como o da Coreia do Norte, ou o de Cuba, ou o da Venezuela: o marxismo já é marginal na vida política, ao contrário do populismo, que ameaça corromper as democracias por dentro, é muito mais sinuoso do que uma ideologia.»

«A correcção política é inimiga da liberdade porque rejeita a honestidade e a autenticidade. Devemos combatê-la como um desvio da verdade.»

«Andamos sobrecarregados por uma tecnologia que se colocou ao serviço da mentira, da pós-verdade, e que pode chegar a ser, se não combatermos este fenómeno, profundamente destruidora e corruptora da civilização, do progresso, da verdadeira democracia.»

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Felipe González, ex-chefe do Governo e ex-líder socialista espanhol, deu pela primeira vez uma entrevista ao diário El Mundo, seu antigo inimigo de estimação a que noutros tempos não hesitava em chamar "Imundo".

Deste diálogo que acabou de quebrar um gelo de 29 anos, conduzido pelos jornalistas Antonio Lucas e Pedro Simón, destaco as seguintes frases:

 

«Puigdemont tem a obrigação de apresentar-se perante a justiça, porque é um foragido. Parece que não está disposto a assumir essa obrigação. Confunde a imunidade parlamentar com impunidade. Mas quem está acusado de cometer delitos graves não pode pretender que um processo eleitoral o torne imune e impune.»

 

«Receio que a irresponsabilidade de personalidades como Puigdemont ponha em risco o desafio da descentralização, que foi e é muito positivo para o funcionamento de Espanha.»

 

«O contributo de Espanha para a crise foram a precariedade laboral e a desvalorização salarial.»

 

«Somos um país de emigrantes. Durante dois séculos, só soubemos exportar exilados e emigrantes.»

 

«Tsipras [primeiro-ministro grego] perguntou-me se não me senti frustrado ao chegar ao Governo. Disse-lhe que não. Retorquiu: "Eu senti-me frustrado, porque em certas coisas fiz o contrário do que prometi (entre outras, cortou para metade as pensões de reforma). Respondi-lhe: "Isso foi porque tu chegaste ao poder como revolucionário e eu cheguei como reformista".»

 

«A tentação de Maduro é eleger quem se apresentará pela oposição [às eleições presidenciais]. O regime da Venezuela converteu-se numa tirania muito semelhante à do Tirano Banderas, de Valle-Inclán.»

 

«A ideologia perde força quando se usa como um escudo para esconder a ausência de ideias.»

 

«Na vida, não escolhemos os nossos amigos. Só estamos em condições de escolher com quem não tomamos café. Quer dizer, os nossos inimigos.»

Rui Rio em público

por Pedro Correia, em 08.01.18

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«Aquilo que hoje está no Público, na primeira página, está mal. Porque induz as pessoas mal. Mas depois, se forem ver as respostas, está bem.»

 

«Isto não tem nada a ver com a pergunta que me fazem... A resposta está bem no Público. A primeira página é que está mal.»

 

«Quem ler a primeira página do Público, dá ideia que eu ganho as eleições no próximo sábado e estou a apoiar o Governo na semana seguinte. Não é nada disso. Isso não. Era o que faltava!»

 

Rui Rio, hoje, em entrevista ao Jornal da Noite da SIC

Entrevista literária.

por Luís Menezes Leitão, em 24.11.17

Pode ver-se aqui uma entrevista sobre os livros de um autor consagrado e que tem tido um enorme sucesso de vendas em Portugal. A não perder.

A entrevista de Felipe González

por Luís Menezes Leitão, em 04.11.17

 

Os jornais espanhóis, com o El País à cabeça, demonstram uma parcialidade e um ódio ao independentismo catalão, como eu nunca vi em jornal algum, nem sequer nos jornais portugueses de 1975. Não há um mínimo esforço de objectividade, tudo aquilo é propaganda, e a mesma parece ter contaminado todo o Estado espanhol, desde os políticos à magistratura, que se unem no ódio aos independentistas. Esta entrevista de Felipe González é um cabal exemplo disso. Por muito que eu concorde que a fuga de Puigdemont foi um acto de cobardia, acho que um político não deve chamar cobarde a um seu adversário, ainda mais quando esse adversário fugiu para não ser preso. Aliás, corre o risco de lhe devolverem essa acusação, sabendo-se que Felipe González também se exilou em França, depois de ter sido detido por participar em manifestações contra o regime franquista. E falar na independência de uma juíza que colocou todo o governo catalão na prisão é perfeitamente ridículo. Para sermos independentes, termos que estar distantes de ambas as partes em conflito. Não está a ser o caso.

A entrevista de Passos Coelho.

por Luís Menezes Leitão, em 07.04.17

A entrevista de Passos Coelho à SIC foi um monumental vazio político. É perfeitamente espantoso que perante a desastrada governação do actual governo, o líder da oposição passe o tempo a justificar-se a si próprio, nada tendo para dizer de relevante ao país. A única mensagem efectiva desta entrevista foi para o interior do PSD, ao dizer que não se demite se tiver um mau resultado autárquico. Passos Coelho parece continuar convencido de que ainda é primeiro-ministro, onde de facto faz sentido que não abandone o governo por causa de eleições autárquicas. Só que Passos Coelho, apesar do pin da bandeira nacional que insiste em pôr na lapela, é neste momento apenas um líder partidário. E um líder partidário que não consegue ganhar eleições que utilidade tem para o seu partido?

Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

Que força é essa, camarada?

por Pedro Correia, em 02.09.16

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"Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer?"

 

O PCP fala sempre em nome da "classe trabalhadora". Mas muitos dos seus dirigentes não têm experiência do mundo laboral: a única entidade patronal que conheceram foi o próprio partido, de que são diligentes funcionários.

É o caso de Rita Rato, que em 2009 irrompeu no Parlamento como símbolo do "rejuvenescimento" do partido. A renovação foi apenas etária: nada do que a simpática deputada alentejana disse ou fez até hoje difere um milímetro do que disseram ou fizeram os comunistas de gerações precedentes.

Numa entrevista de quatro páginas concedida à jornalista Céu Neves e hoje publicada no Diário de Notícias - coincidindo com o início de mais uma Festa do Avante! -, Rita Rato, hoje com 33 anos, alude ao seu percurso profissional. Pouco depois de se ter licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais fez um estágio não remunerado no Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral e trabalhou "uns meses numa seguradora". Tirando isso, o mundo do trabalho para ela circunscreveu-se ao reduto partidário. Como acontece aliás com muitos deputados e membros do Comité Central do PCP, apresentados profissionalmente  como  "empregados", "intelectuais" (biombos eufemísticos) ou "licenciados em" , como se licenciatura fosse profissão.

 

Rita, sendo deputada, entrega parte do salário ao partido. Está há sete anos no Parlamento e confessa que nunca votou contra a orientação do partido, sequer em questões menores. Talvez até nem lhe tenha ocorrido questionar, através dos discretíssimos circuitos internos que filtram qualquer indício de discussão na Soeiro Pereira Gomes, por que motivo um partido que tanto apregoa a igualdade só teve homens nas funções de secretário-geral e líder parlamentar. Ou por que razão ainda hoje, dos 149 membros com assento no Comité Central comunista, menos de 25% são mulheres.

Até para conceder esta entrevista a jovem parlamentar informou previamente a estrutura dirigente do partido - gesto que justifica com estas cândidas palavras, sem um aparente sobressalto de dúvida metódica: "Sim, até porque não estou a dar esta entrevista a título individual. Sou deputada do PCP e é na ligação com o PCP que estas coisas se tratam."

 

Conclusão: a assalariada Rita Rato, defensora nominal dos direitos dos trabalhadores, é uma trabalhadora-modelo, daquelas que fariam os sonhos de qualquer patrão. Acata obedientemente as orientações superiores, não cria conflitos laborais, contenta-se com um salário modesto e não imagina sequer a vida fora da conspícua estabilidade que lhe é proporcionada pela entidade patronal, aparentemente alheada do real valor da sua "força de trabalho", para recorrer ao jargão do velho Marx.

Chego ao fim desta longa entrevista e vêm-me à memória aqueles versos do Sérgio Godinho: "Não me digas que nunca sentiste / uma força a crescer-te nos dedos / e uma raiva a nascer-te nos dentes / Não me digas que não me compreendes."

Verdades simples de um homem às direitas

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.11.15

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"Foi indigitado na terça-feira o novo Primeiro-Ministro. Como olha para este Governo, resultante de uma maioria de esquerda no parlamento? Na ala direita houve quem falasse em golpe de estado...

Esses qualificativos são um disparate. Eu creio que que a PÀF [coligação Portugal à Frente] se bateu pela maioria absoluta, era indispensável ter a maioria absoluta. A coligação de listas conjuntas era um tiro de uma só bala. Ou se tinha a maioria absoluta, e se ganhava, ou não se tinha, e se perdia. E não se conseguiu e perdeu-se. Tem havido grandes discussões sobre o funcionamento da Constituição: "criou-se um precedente gravíssimo, a direita não poderá governar sem ter maioria absoluta". Sempre foi assim. Esta legislatura teve algumas coisas que são completamente novas e que não tinham acontecido. O PSD é o maior grupo parlamentar e a PÀF não tem maioria parlamentar. Nunca tinha acontecido que o partido mais votado não tivesse uma maioria no seu campo, ou à direita ou à esquerda, e isso aconteceu. E aconteceu existir uma maioria de esquerda e o partido líder de uma maioria de esquerda não ser o partido mais votado, também nunca tinha acontecido. É uma coisa que é frequente noutros países. Fartamo-nos de ver isso na Bélgica, na Dinamarca. Um Governo ser liderado não pelo partido mais votado, mas pelo segundo. Mas, de facto, era evidente na noite das eleições que, havendo uma maioria de esquerda, que havia uma possibilidade de se entenderem para formar Governo e foi isso que aconteceu. Eu acho que é perfeitamente normal que isto acontecesse, anda aí uma grande perturbação de ânimos quanto a isso. Acho, todavia, que tem uma legitimidade questionável. Eu não vou dizer que é ilegítimo. É um Governo perfeitamente legítimo, só que tem uma componente política que é nova e de que ninguém estava à espera. Sou completamente contra governos de gestão, o Governo de Passos Coelho caiu no Parlamento, acho que Cavaco Silva fez bem em designar Primeiro-Ministro o líder do segundo maior partido. Nem podia ter sido feito de outra maneira: nós temos um país democrático, temos um Parlamento a funcionar, o Parlamento exerceu as suas prerrogativas constitucionais. Concordemos ou não concordemos, rejeitou a investidura do Governo, há uma maioria parlamentar que oferece uma outra solução de Governo, tem que se seguir. Depois é uma questão da legislatura poder ser abreviada, e termos eleições antecipadas, que se realizariam em fim de Maio ou Junho, na melhor das hipóteses, e isso é que eu acho que um candidato presidencial devia dizer. Há aqui um fenómeno que cria instabilidade, que cria incerteza, que cria falta de cooperação parlamentar entre os partidos, porque a PÀF sente-se desrespeitada, diz que não colabora e está numa atitude de grande confrontação, e portanto devemos ouvir o soberano. O soberano é o povo. Se se mantiver a situação deteriorada, irmos para novas eleições. Essa é a solução que eu daria. Acho que este debate político que aqueceu o nosso dia-a-dia devia ser canalizado para as eleições presidenciais, porque é o Presidente que viermos a eleger que tem uma palavra a dizer sobre isso."

 

Não superando a falta que nos irá fazer no Parlamento, a excelente entrevista que José Ribeiro e Castro deu ao Ponto Final poderá, mais logo, ser lida (e relida) na íntegra aqui.   

A entrevista de António Costa.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.15

Da entrevista de António Costa de hoje retira-se o seguinte:

1- Ainda não conseguiu qualquer acordo com o PCP, esperando, no entanto, vir a consegui-lo no fim-de-semana.

2- Não haverá qualquer acordo único, mas antes três acordos, com o PCP, o BE, e o PEV.

3- Os partidos celebrantes desses acordos não irão para o governo, limitando-se a viabilizar o governo do PS:

4- Para as questões da NATO e do Tratado Orçamental, António Costa está à espera de acordos pontuais com a PàF.

 

Eu, se fizesse parte da Comissão Política do PS, perguntaria se o líder tinha enlouquecido. Não há memória em Portugal de um "acordo" destes, nem sequer quando o PS fez um governo com personalidades do CDS, em que ao menos havia algum envolvimento do parceiro no governo. O que António Costa propõe é apenas trocar um governo minoritário da coligação por um governo ultra-minoritário do PS, que obviamente se estampará na primeira curva, se Cavaco Silva alinhar nisso. Em qualquer caso hoje ficou muito claro o amadorismo político e a irresponsabilidade de António Costa. Mas como os partidos políticos estão cheios de seguidores acéfalos, calcula-se que o PS o acompanhe neste caminho até ao desastre total. Para mal de todos nós.

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 17.08.15

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Há entrevistas e entrevistas. A maioria serve apenas para preencher agenda política de circunstância. Mas algumas constituem preciosos documentos humanos. Porque são feitas com sensibilidade e genuína intenção em escutar o que o entrevistado tem para dizer. Mesmo que seja alguém que tenha perdido a voz, como infelizmente sucedeu com João Semedo. Numa entrevista à edição do jornal i deste fim de semana, muito bem conduzida por Ana Sá Lopes, o ex-coordenador do Bloco de Esquerda pronuncia-se (por escrito) sem complexos nem rodeios sobre a doença que o afecta e do combate sem tréguas que lhe vai dando com a lucidez do médico competente que sempre foi.

Mais do que uma entrevista, é um notável testemunho que deve ser lido com atenção muito para além da espuma política que domina o quotidiano português. João Semedo justifica, mais que nunca, o cognome de João Sem Medo. Conheço-o há vários anos - ainda antes de ter ingressado no Bloco de Esquerda, onde se notabilizou como parlamentar respeitado por todos, aliados ou adversários - e não tenho a menor dúvida sobre a qualidade do seu contributo para a política portuguesa em geral e a Assembleia da República em particular.

Nesta fase difícil da sua vida, merece uma palavra de louvor pelo desassombro com que fala de uma doença que afecta tantos portugueses, conhecidos ou desconhecidos. Aqui lhe deixo essa palavra. E uma outra, tornada ainda mais obrigatória após ter lido esta entrevista, de incentivo pelo seu pronto e total restabelecimento.


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