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Pontes sim, trincheiras não

por Pedro Correia, em 21.08.19

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Imagem do DELITO em Janeiro de 2009

 

Foi um prazer, confesso, estar à conversa com o Pedro Neves nas instalações do Sapo. O pretexto para este bate-papo, que se prolongou por cerca de uma hora, foi o décimo aniversário deste nosso DELITO DE OPINIÃO, já com merecido estatuto de veterano da blogosfera.

Do simpático convite do Pedro nasceu uma entrevista que me permitiu falar um pouco sobre este percurso trabalhoso mas muito gratificante em termos intelectuais e humanos. Desde logo porque me permitiu conhecer e estreitar relações com muitas pessoas de quem me fui tornando amigo a pretexto desta escrita em jeito de registo diário do que vai sucedendo no país, no mundo e um pouco também nas nossas vidas.

Se me permitem, destaco algumas frases:

«Conseguimos fazer uma coisa que é difícil interiorizarmos em Portugal: podemos ter opiniões muito diferentes, e até opostas, e isso não afectar a relação no plano pessoal»

«Temos uma base de conteúdo político, mas captámos leitores que detestam política e vêm ler outras coisas: uma crítica de livros, uma crítica de cinema, por exemplo»

«Devemos estender pontes. É muito mais fácil encontrarmos compromisso e entendimento a meio de uma ponte do que se estivermos no fundo de uma trincheira»

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«Essa»

por Pedro Correia, em 09.07.19

 

«Essa».

Foi nestes elegantíssimos termos que Rui Rio se referiu ontem à ex-ministra da Justiça e ex-dirigente social-democrata Paula Teixeira da Cruz, respondendo a uma pergunta de Miguel Sousa Tavares no Jornal das 8 da TVI.

Para não haver dúvidas, transcrevo a frase na íntegra: «Acho que essa até disse "tirano", salvo erro, ahahah...»

Há pormenores que definem uma pessoa. Às vezes basta uma palavra. Um simples pronome demonstrativo, como é o caso. Rio definiu-se nesta palavra com que brindou em directo, num dos principais telediários portugueses, uma senhora - sua companheira de partido.

Como se estivesse lá em casa. Ou no café.

 

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É este um líder da oposição?

por Pedro Correia, em 09.07.19

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1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

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A ler

por Pedro Correia, em 21.10.18

Sou de uma espécie em vias de extinção: todos os dias compro um jornal. Pelo menos um jornal. Hoje comprei o Público, só pela entrevista de Ana Sá Lopes e Manuel Carvalho a Vasco Pulido Valente. E valeu a pena, claro. Se não tivesse mais nada, já justificava o que paguei pelo meu exemplar.

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Imperdível

por Pedro Correia, em 25.07.18

 

A entrevista que o poeta António Barahona, sempre tão distante dos holofotes, concedeu ao jornal i. Insurgindo-se, nomeadamente, contra a «burrocracia» do desacordo ortográfico.

Bom jornalismo é fazer, editar e publicar entrevistas como esta.

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Cinquenta vezes o pronome "eu"

por Pedro Correia, em 12.05.18

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Bruno de Carvalho em extensa entrevista ao Expresso de hoje. Curioso: há três meses pediu aos adeptos para deixarem de ler os jornais, mas continua disponível para receber a imprensa.

Leio a entrevista, desrespeitando o tal pedido. Ao longo de seis páginas, o presidente do Sporting pronuncia cinquenta vezes o pronome eu e apenas três vezes o pronome nós. Esquecendo a dimensão colectiva, componente fundamental de modalidades como o futebol.

É todo um programa. Todo um modo de encarar o desporto. Toda uma forma de estar na vida.

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"A fama tira mais do que dá"

por Pedro Correia, em 27.03.18

 

A isto chamo eu uma excelente entrevista. Muito melhor do que aquelas que costumamos ver nos canais generalistas ou informativos da televisão.

Rui Unas está em grande forma neste seu programa difundido no youtube. E Rui Veloso é... Rui Veloso.

O resultado deste encontro é um conversa longa, mas estimulante. E que, apesar de alguns excessos de linguagem que poderão não agradar a todos, recomendo vivamente.

Deu para falar de muitas coisas sérias, embora nenhum dos participantes se leve demasiado a sério, o que é ainda mais de saudar.

Aposto que gostarão tanto como eu gostei.

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O que diz Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 27.02.18

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Excelente entrevista de Mario Vargas Llosa à revista dominical do El País a propósito do seu mais recente livro, O Apelo da Tribo - ensaio sobre sete pensadores liberais: Adam Smith, Friedrich von Hayek, Isaiah Berlin, Jean-François Revel, José Ortega y Gasset, Karl Popper e Raymond Aron.

 

Alguns excertos:

«A democracia avançou e os direitos humanos passaram a ser reconhecidos fundamentalmente graças aos pensadores liberais.»

«O liberalismo não apenas admite mas estimula a divergência. Reconhece que uma sociedade está composta por seres humanos muito diferentes e que é importante preservá-la assim.»

«O nacionalismo é uma tendência retrógrada, arcaica, inimiga da democracia e da liberdade, e está sustentado em ficções históricas, em grandes mentiras, nisso a que agora chamamos pós-verdades históricas.»

«O liberalismo defende algumas ideias básicas: a liberdade, o individualismo, a rejeição do colectivismo e do nacionalismo; no fundo, de todas as ideologias ou doutrinas que limitam ou interditam a liberdade na vida social.»

«Ninguém medianamente lúcido quer para o seu país um modelo como o da Coreia do Norte, ou o de Cuba, ou o da Venezuela: o marxismo já é marginal na vida política, ao contrário do populismo, que ameaça corromper as democracias por dentro, é muito mais sinuoso do que uma ideologia.»

«A correcção política é inimiga da liberdade porque rejeita a honestidade e a autenticidade. Devemos combatê-la como um desvio da verdade.»

«Andamos sobrecarregados por uma tecnologia que se colocou ao serviço da mentira, da pós-verdade, e que pode chegar a ser, se não combatermos este fenómeno, profundamente destruidora e corruptora da civilização, do progresso, da verdadeira democracia.»

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Felipe González, ex-chefe do Governo e ex-líder socialista espanhol, deu pela primeira vez uma entrevista ao diário El Mundo, seu antigo inimigo de estimação a que noutros tempos não hesitava em chamar "Imundo".

Deste diálogo que acabou de quebrar um gelo de 29 anos, conduzido pelos jornalistas Antonio Lucas e Pedro Simón, destaco as seguintes frases:

 

«Puigdemont tem a obrigação de apresentar-se perante a justiça, porque é um foragido. Parece que não está disposto a assumir essa obrigação. Confunde a imunidade parlamentar com impunidade. Mas quem está acusado de cometer delitos graves não pode pretender que um processo eleitoral o torne imune e impune.»

 

«Receio que a irresponsabilidade de personalidades como Puigdemont ponha em risco o desafio da descentralização, que foi e é muito positivo para o funcionamento de Espanha.»

 

«O contributo de Espanha para a crise foram a precariedade laboral e a desvalorização salarial.»

 

«Somos um país de emigrantes. Durante dois séculos, só soubemos exportar exilados e emigrantes.»

 

«Tsipras [primeiro-ministro grego] perguntou-me se não me senti frustrado ao chegar ao Governo. Disse-lhe que não. Retorquiu: "Eu senti-me frustrado, porque em certas coisas fiz o contrário do que prometi (entre outras, cortou para metade as pensões de reforma). Respondi-lhe: "Isso foi porque tu chegaste ao poder como revolucionário e eu cheguei como reformista".»

 

«A tentação de Maduro é eleger quem se apresentará pela oposição [às eleições presidenciais]. O regime da Venezuela converteu-se numa tirania muito semelhante à do Tirano Banderas, de Valle-Inclán.»

 

«A ideologia perde força quando se usa como um escudo para esconder a ausência de ideias.»

 

«Na vida, não escolhemos os nossos amigos. Só estamos em condições de escolher com quem não tomamos café. Quer dizer, os nossos inimigos.»

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Rui Rio em público

por Pedro Correia, em 08.01.18

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«Aquilo que hoje está no Público, na primeira página, está mal. Porque induz as pessoas mal. Mas depois, se forem ver as respostas, está bem.»

 

«Isto não tem nada a ver com a pergunta que me fazem... A resposta está bem no Público. A primeira página é que está mal.»

 

«Quem ler a primeira página do Público, dá ideia que eu ganho as eleições no próximo sábado e estou a apoiar o Governo na semana seguinte. Não é nada disso. Isso não. Era o que faltava!»

 

Rui Rio, hoje, em entrevista ao Jornal da Noite da SIC

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Entrevista literária.

por Luís Menezes Leitão, em 24.11.17

Pode ver-se aqui uma entrevista sobre os livros de um autor consagrado e que tem tido um enorme sucesso de vendas em Portugal. A não perder.

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A entrevista de Felipe González

por Luís Menezes Leitão, em 04.11.17

 

Os jornais espanhóis, com o El País à cabeça, demonstram uma parcialidade e um ódio ao independentismo catalão, como eu nunca vi em jornal algum, nem sequer nos jornais portugueses de 1975. Não há um mínimo esforço de objectividade, tudo aquilo é propaganda, e a mesma parece ter contaminado todo o Estado espanhol, desde os políticos à magistratura, que se unem no ódio aos independentistas. Esta entrevista de Felipe González é um cabal exemplo disso. Por muito que eu concorde que a fuga de Puigdemont foi um acto de cobardia, acho que um político não deve chamar cobarde a um seu adversário, ainda mais quando esse adversário fugiu para não ser preso. Aliás, corre o risco de lhe devolverem essa acusação, sabendo-se que Felipe González também se exilou em França, depois de ter sido detido por participar em manifestações contra o regime franquista. E falar na independência de uma juíza que colocou todo o governo catalão na prisão é perfeitamente ridículo. Para sermos independentes, termos que estar distantes de ambas as partes em conflito. Não está a ser o caso.

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A entrevista de Passos Coelho.

por Luís Menezes Leitão, em 07.04.17

A entrevista de Passos Coelho à SIC foi um monumental vazio político. É perfeitamente espantoso que perante a desastrada governação do actual governo, o líder da oposição passe o tempo a justificar-se a si próprio, nada tendo para dizer de relevante ao país. A única mensagem efectiva desta entrevista foi para o interior do PSD, ao dizer que não se demite se tiver um mau resultado autárquico. Passos Coelho parece continuar convencido de que ainda é primeiro-ministro, onde de facto faz sentido que não abandone o governo por causa de eleições autárquicas. Só que Passos Coelho, apesar do pin da bandeira nacional que insiste em pôr na lapela, é neste momento apenas um líder partidário. E um líder partidário que não consegue ganhar eleições que utilidade tem para o seu partido?

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Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

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Que força é essa, camarada?

por Pedro Correia, em 02.09.16

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"Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer?"

 

O PCP fala sempre em nome da "classe trabalhadora". Mas muitos dos seus dirigentes não têm experiência do mundo laboral: a única entidade patronal que conheceram foi o próprio partido, de que são diligentes funcionários.

É o caso de Rita Rato, que em 2009 irrompeu no Parlamento como símbolo do "rejuvenescimento" do partido. A renovação foi apenas etária: nada do que a simpática deputada alentejana disse ou fez até hoje difere um milímetro do que disseram ou fizeram os comunistas de gerações precedentes.

Numa entrevista de quatro páginas concedida à jornalista Céu Neves e hoje publicada no Diário de Notícias - coincidindo com o início de mais uma Festa do Avante! -, Rita Rato, hoje com 33 anos, alude ao seu percurso profissional. Pouco depois de se ter licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais fez um estágio não remunerado no Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral e trabalhou "uns meses numa seguradora". Tirando isso, o mundo do trabalho para ela circunscreveu-se ao reduto partidário. Como acontece aliás com muitos deputados e membros do Comité Central do PCP, apresentados profissionalmente  como  "empregados", "intelectuais" (biombos eufemísticos) ou "licenciados em" , como se licenciatura fosse profissão.

 

Rita, sendo deputada, entrega parte do salário ao partido. Está há sete anos no Parlamento e confessa que nunca votou contra a orientação do partido, sequer em questões menores. Talvez até nem lhe tenha ocorrido questionar, através dos discretíssimos circuitos internos que filtram qualquer indício de discussão na Soeiro Pereira Gomes, por que motivo um partido que tanto apregoa a igualdade só teve homens nas funções de secretário-geral e líder parlamentar. Ou por que razão ainda hoje, dos 149 membros com assento no Comité Central comunista, menos de 25% são mulheres.

Até para conceder esta entrevista a jovem parlamentar informou previamente a estrutura dirigente do partido - gesto que justifica com estas cândidas palavras, sem um aparente sobressalto de dúvida metódica: "Sim, até porque não estou a dar esta entrevista a título individual. Sou deputada do PCP e é na ligação com o PCP que estas coisas se tratam."

 

Conclusão: a assalariada Rita Rato, defensora nominal dos direitos dos trabalhadores, é uma trabalhadora-modelo, daquelas que fariam os sonhos de qualquer patrão. Acata obedientemente as orientações superiores, não cria conflitos laborais, contenta-se com um salário modesto e não imagina sequer a vida fora da conspícua estabilidade que lhe é proporcionada pela entidade patronal, aparentemente alheada do real valor da sua "força de trabalho", para recorrer ao jargão do velho Marx.

Chego ao fim desta longa entrevista e vêm-me à memória aqueles versos do Sérgio Godinho: "Não me digas que nunca sentiste / uma força a crescer-te nos dedos / e uma raiva a nascer-te nos dentes / Não me digas que não me compreendes."

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Verdades simples de um homem às direitas

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.11.15

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"Foi indigitado na terça-feira o novo Primeiro-Ministro. Como olha para este Governo, resultante de uma maioria de esquerda no parlamento? Na ala direita houve quem falasse em golpe de estado...

Esses qualificativos são um disparate. Eu creio que que a PÀF [coligação Portugal à Frente] se bateu pela maioria absoluta, era indispensável ter a maioria absoluta. A coligação de listas conjuntas era um tiro de uma só bala. Ou se tinha a maioria absoluta, e se ganhava, ou não se tinha, e se perdia. E não se conseguiu e perdeu-se. Tem havido grandes discussões sobre o funcionamento da Constituição: "criou-se um precedente gravíssimo, a direita não poderá governar sem ter maioria absoluta". Sempre foi assim. Esta legislatura teve algumas coisas que são completamente novas e que não tinham acontecido. O PSD é o maior grupo parlamentar e a PÀF não tem maioria parlamentar. Nunca tinha acontecido que o partido mais votado não tivesse uma maioria no seu campo, ou à direita ou à esquerda, e isso aconteceu. E aconteceu existir uma maioria de esquerda e o partido líder de uma maioria de esquerda não ser o partido mais votado, também nunca tinha acontecido. É uma coisa que é frequente noutros países. Fartamo-nos de ver isso na Bélgica, na Dinamarca. Um Governo ser liderado não pelo partido mais votado, mas pelo segundo. Mas, de facto, era evidente na noite das eleições que, havendo uma maioria de esquerda, que havia uma possibilidade de se entenderem para formar Governo e foi isso que aconteceu. Eu acho que é perfeitamente normal que isto acontecesse, anda aí uma grande perturbação de ânimos quanto a isso. Acho, todavia, que tem uma legitimidade questionável. Eu não vou dizer que é ilegítimo. É um Governo perfeitamente legítimo, só que tem uma componente política que é nova e de que ninguém estava à espera. Sou completamente contra governos de gestão, o Governo de Passos Coelho caiu no Parlamento, acho que Cavaco Silva fez bem em designar Primeiro-Ministro o líder do segundo maior partido. Nem podia ter sido feito de outra maneira: nós temos um país democrático, temos um Parlamento a funcionar, o Parlamento exerceu as suas prerrogativas constitucionais. Concordemos ou não concordemos, rejeitou a investidura do Governo, há uma maioria parlamentar que oferece uma outra solução de Governo, tem que se seguir. Depois é uma questão da legislatura poder ser abreviada, e termos eleições antecipadas, que se realizariam em fim de Maio ou Junho, na melhor das hipóteses, e isso é que eu acho que um candidato presidencial devia dizer. Há aqui um fenómeno que cria instabilidade, que cria incerteza, que cria falta de cooperação parlamentar entre os partidos, porque a PÀF sente-se desrespeitada, diz que não colabora e está numa atitude de grande confrontação, e portanto devemos ouvir o soberano. O soberano é o povo. Se se mantiver a situação deteriorada, irmos para novas eleições. Essa é a solução que eu daria. Acho que este debate político que aqueceu o nosso dia-a-dia devia ser canalizado para as eleições presidenciais, porque é o Presidente que viermos a eleger que tem uma palavra a dizer sobre isso."

 

Não superando a falta que nos irá fazer no Parlamento, a excelente entrevista que José Ribeiro e Castro deu ao Ponto Final poderá, mais logo, ser lida (e relida) na íntegra aqui.   

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A entrevista de António Costa.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.15

Da entrevista de António Costa de hoje retira-se o seguinte:

1- Ainda não conseguiu qualquer acordo com o PCP, esperando, no entanto, vir a consegui-lo no fim-de-semana.

2- Não haverá qualquer acordo único, mas antes três acordos, com o PCP, o BE, e o PEV.

3- Os partidos celebrantes desses acordos não irão para o governo, limitando-se a viabilizar o governo do PS:

4- Para as questões da NATO e do Tratado Orçamental, António Costa está à espera de acordos pontuais com a PàF.

 

Eu, se fizesse parte da Comissão Política do PS, perguntaria se o líder tinha enlouquecido. Não há memória em Portugal de um "acordo" destes, nem sequer quando o PS fez um governo com personalidades do CDS, em que ao menos havia algum envolvimento do parceiro no governo. O que António Costa propõe é apenas trocar um governo minoritário da coligação por um governo ultra-minoritário do PS, que obviamente se estampará na primeira curva, se Cavaco Silva alinhar nisso. Em qualquer caso hoje ficou muito claro o amadorismo político e a irresponsabilidade de António Costa. Mas como os partidos políticos estão cheios de seguidores acéfalos, calcula-se que o PS o acompanhe neste caminho até ao desastre total. Para mal de todos nós.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 17.08.15

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Há entrevistas e entrevistas. A maioria serve apenas para preencher agenda política de circunstância. Mas algumas constituem preciosos documentos humanos. Porque são feitas com sensibilidade e genuína intenção em escutar o que o entrevistado tem para dizer. Mesmo que seja alguém que tenha perdido a voz, como infelizmente sucedeu com João Semedo. Numa entrevista à edição do jornal i deste fim de semana, muito bem conduzida por Ana Sá Lopes, o ex-coordenador do Bloco de Esquerda pronuncia-se (por escrito) sem complexos nem rodeios sobre a doença que o afecta e do combate sem tréguas que lhe vai dando com a lucidez do médico competente que sempre foi.

Mais do que uma entrevista, é um notável testemunho que deve ser lido com atenção muito para além da espuma política que domina o quotidiano português. João Semedo justifica, mais que nunca, o cognome de João Sem Medo. Conheço-o há vários anos - ainda antes de ter ingressado no Bloco de Esquerda, onde se notabilizou como parlamentar respeitado por todos, aliados ou adversários - e não tenho a menor dúvida sobre a qualidade do seu contributo para a política portuguesa em geral e a Assembleia da República em particular.

Nesta fase difícil da sua vida, merece uma palavra de louvor pelo desassombro com que fala de uma doença que afecta tantos portugueses, conhecidos ou desconhecidos. Aqui lhe deixo essa palavra. E uma outra, tornada ainda mais obrigatória após ter lido esta entrevista, de incentivo pelo seu pronto e total restabelecimento.

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Recordando Medeiros Ferreira

por Pedro Correia, em 20.04.14

 

Há pessoas que partem cedo de mais. Aconteceu há um mês, com José Medeiros Ferreira. Neste Domingo de Páscoa apetece-me recordar a excelente entrevista que concedeu em Novembro ao jornal i, muito bem conduzida pelos jornalistas Rita Tavares e Luís Claro.

Nem entrevistado nem entrevistadores imaginavam, mas esta conversa acabaria por ter o valor de um testamento. Por ser a última entrevista do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, uma das vozes mais estimulantes das últimas quatro décadas da política portuguesa.

É um documento impressionante. Tenho-o arquivado na pasta dedicada às melhores entrevistas que já li. E hei-de citá-la com frequência nos tempos que hão-de vir. Porque Medeiros Ferreira, com a inteligência e a elevação intelectual que o caracterizavam, sabia falar para um tempo que já não seria o seu.

 

Deixo aqui alguns excertos. Todos de uma lucidez arrepiante:

«Em 1992 Portugal teve a primeira presidência da União Europeia e, por essa razão e não por qualquer raciocínio económico ou financeiro, resolveu aderir ao sistema monetário europeu, cujas negociações a Grã-Bretanha tinha declinado. Portugal avançou, mesmo aceitando uma taxa de câmbio que sobrevalorizava o escudo.»

«A primeira grande talhada na competitividade internacional da economia portuguesa foi dada pelos nossos negociadores financeiros: o ministro das Finanças e o governador do Banco de Portugal, no dia 4 de Abril de 1992.»

«O governo de Guterres até fez uma missa em Madrid e disse que sobre a pedra do euro - a literatura evangélica é muito poderosa, tal como a pedra onde Pedro assentou a Igreja - era aquela sobre a qual ia assentar a União Europeia. O euro foi uma âncora continental para a Alemanha, depois da unificação, ficar amarrada à União Europeia.»

«Tenho esperança na racionalidade do comportamento internacional dos Estados. Não tenho nenhuma esperança na capacidade de previsão programática ou na capacidade ideológica de uma social-democracia em frangalhos, desde que se tornou numa espécie de colónia do liberalismo. Quando os filhos dos sindicalistas passaram a ingressar nas boas universidades ocidentais perderam a liberdade de espírito.»

 

ADENDA: não celebro o título do Benfica, mas gostaria muito que José Medeiros Ferreira, benfiquista do coração, cá estivesse para celebrar a conquista do campeonato nacional de futebol.

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Uma entrevista exemplar

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.04.14

Quer queiramos quer não, a entrevista de José Manuel Barroso ao Expresso foi uma excelente entrevista.

Ao contrário de muitos fait divers, reportagens e artigos absolutamente inócuos que preenchem as páginas dos jornais e revistas nacionais, uma entrevista é uma peça jornalística de interesse inquestionável pelo que revela das ideias e personalidade do entrevistado e da argúcia e perspicácia do entrevistador. Dessa perspectiva, a entrevista de Barroso é um tratado que durante muitos e bons anos será objecto de estudo e análise.

Confesso que graças a essa entrevista, pela primeira vez, pude compreender o verdadeiro alcance do pensamento barrosista e a forma como a cartilha maoísta se entranhou no espírito do ainda presidente da Comissão Europeia. Repare-se que a clareza, tantas vezes ausente do discurso de Durão Barroso, esteve agora insofismavelmente presente.

Clareza na forma como fazendo apelo ao interesse nacional - o mesmo que o levou a negociar a sua ida para Bruxelas depois de dias antes ter desmentido com toda a convicção que estivesse de partida ou interessado no lugar, manifestando inclusivamente na ocasião a sua intenção de levar o mandato em que fora investido até ao fim -, afirma a necessidade do próximo Presidente da República ser mais um fruto da trapalhada ideológica e da vacuidade em que medram os partidos do centrão. Estão lá tudo e todos, incluindo o apelo a essa desgraça chamada consenso, espécie de mistura de águas e detritos de variadas origens que conduziu a democracia portuguesa, formalmente inquestionável, à substantiva podridão actual.

Clareza também na afirmação de que não tem qualquer intenção de ser candidato às presidenciais, o que deve merecer tanta credibilidade quanto as declarações de Passos Coelho em campanha eleitoral sobre os cortes dos subsídios de férias e de Natal, a defesa do Serviço Nacional de Saúde, a reforma do Estado ou a redução défice pelo lado da despesa. Ou, se quiserem, colocando as coisas no seu devido lugar, dou-lhe o mesmo valor que às prédicas semanais de putativos candidatos presidenciais e ex-primeiros-ministros em final de sabática.

Clareza igualmente na forma como se predispôs a atacar Vítor Constâncio mais de dez anos depois dos factos que relatou na entrevista e de ter estado calado todo este tempo relativamente aos pornográficos negócios do BPN/SLN, fazendo de conta que o silêncio e a passividade não teriam consequências. A deficiente supervisão de Constâncio e do Banco de Portugal, sobre esse e outros assuntos, embora coloque em causa o seu desempenho e a eficácia da instituição no cumprimento das suas atribuições, em nada belisca a sua seriedade. Daí que não tenha podido deixar de registar, à semelhança de Silva Lopes, Beleza, Vilar, Santos Silva e Teodora Cardoso, o ataque doloso, que alguns diriam canalha, que foi feito ao ex-governador. Tendo sido o próprio Barroso, a fazer fé no relato, quem se quis chegar à frente, querendo substituir-se ao entrevistador na escolha e oportunidade do tema, atirando voluntariamente para a fogueira as achas com as quais pretendia continuar a imolação do infeliz Constâncio, a intenção letal do ataque foi manifesta, colocando-o ao nível de um qualquer desses deputados saídos das "jotas" que se apressam a dar lustro à voz de quem lhes garante o emprego. Atitude que, convenhamos, está ao nível de quem se afadigou em chegar às Lajes a tempo de se acocorar perante um dos mais vis - pelas consequências - ataques à verdade e ao direito internacional de que há memória. 

A entrevista de Barroso ao Expresso, sendo ele um ex-primeiro ministro e ex-titular dos Negócios Estrangeiros, por tudo aquilo que põe a nu, é o espelho da ambiguidade europeia, do permanente desencontro em que vive a União, da ausência de um líder e de um pensamento ideológico estruturado e coerente. Incapazes de encontrarem um líder que a una e prestigie, os burocratas eunucos que mandam na União preferem figuras menores, inconstantes, de pensamento proteiforme e com uma visão enviesada e ajustável à medida dos seus interesses.

Percebe-se, por isso mesmo, que a recente anexação da Crimeia pela Rússia não foi fruto de um acaso. Putin sabia que o barrosismo, digno sucessor do blairismo, tomou conta da Europa e se assume como uma espécie de wilsonianismo tardio e à deriva. Os resultados das municipais francesas são a melhor prova do triunfo da estupidez e do esgotamento da paciência dos eleitores.                                                                                  

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