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Delito de Opinião

Emoções #5

Banda desenhada

Maria Dulce Fernandes, 01.05.21

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Tex Willer e o Signo da Serpente

Por volta dos meus quinze ou dezasseis anos, todas as sextas-feiras depois da escola eu ou o meu irmão íamos à CaJor e trazíamos emprestadas as novidades aos quadradinhos da semana.

Desde os fascículos do Tintin, com publicações como o Blueberry, o Michel Vaillant, o Olivier Rameau, o Cubitus,  Blake & Mortimer, etc, passando pelos Almanaques Disney, o Falcão com o Major Alvega e o Ene 3 e, naquela altura particular, os livros do Tex Willer.

Estranhamente, nunca fui fã de cowboiadas e dispensava westerns, porque partia do pressuposto errado de que quem viu um, viu todos, mas a história da Serpente Emplumada, passada na Mesoamérica com muito sobrenatural e o culto Quetzalcoatl à mistura, era por demais emocionante para pôr de parte por um capricho de julgamento.

Era uma festa à sexta-feira à tarde poder sentar-me nas almofadas encostada à cama, com um enorme prato de torradas com manteiga e geleia de marmelo caseira, garrafa do leite à mão e uns poucos de livrinhos para também devorar e actualizar a narrativa gráfica, que me iria deixar numa emocionante expectativa durante mais sete dias.

Ler sempre foi uma emoção. 

Ler BD ainda é uma emoção redobrada.

Acabámos por coleccionar todos os livros com as aventuras do Tex Willer, que muito mais tarde foram oferecidos a uma instituição quando a minha mãe mudou de casa. De algum modo, aprendi com a sua leitura a ver westerns sem ter em conta apenas o preconceito do enjoativo índio-bandido/cowboy-herói, mas sobretudo a arte da sua concepção.

Há pouco tempo um amigo emprestou-me o Signo da Serpente.

Eu ainda sei toda a história de trás para a frente, mas, como tantas outras histórias em tantos outros livros lidos e relidos, foi uma indescritível emoção voltar a ler.

Emoções  #4

Maria Dulce Fernandes, 21.04.21

Piadas com piada

Amanhã vou a Évora.

E como tantas vezes, em tantas circunstâncias idênticas ou díspares, a frase “mas a minha mãe foi a Évora" pinta-me um sorriso rasgado. Não só por me recordar de momentos familiares divertidos, de rever ou reouvir “A história da minha vida", mas também por me relembrar tempos mais negros, quando a necessidade aguçava o engenho, a piada não era apenas um triste e fácil palavrão, tinha conotações sociopolíticas e nos obrigava a pensar.

O meu pai adorava o teatro de revista. Compravam-se bilhetes de frisa  para o Maria Vitória e de vez em quando eu era contemplada com uma ida à revista.

Relembro com agrado os momentos deliciosos, plenos de hilariantes diálogos carregados de inteligentes subentendidos que satirizavam a sociedade portuguesa e o que se passava fora de portas, e principalmente a classe política. Em tempos de censura a criatividade era absolutamente fabulosa.

Do alto dos meus 14 anos, na primeira vez que fui à revista, não alcancei o motivo de tantas gargalhadas até às lágrimas, mas aprendi com o tempo.

É sempre uma emoção recordar a emoção que era repetir, sabendo que se estava a transgredir.

É sempre uma emoção rir do riso inteligente e franco que nos proporcionavam.

Nomes como os de Henrique Santana, Eugénio Salvador, Raul Solnado, Ivone Silva, Óscar Acúrcio, Vítor Mendes e tantos outros fazem parte do meu imaginário de adolescente no regime, em transição para a liberdade.

É verdade que rir é o melhor remédio mas há rir e rir. Piadas muito giras, cheias de vulgaridades obscenas, funcionam por meia dúzia de vezes. Depois é mais do mesmo e deixa de ter, ou ser, piada. Outras piadas há que pelo seu burilado se tornaram intemporais e essas é sempre emocionante recordar.

Entender a brejeirice dos diálogos, dos monólogos, das letras das músicas era uma emoção que me emociona até hoje.

Emoções  #3

Maria Dulce Fernandes, 10.04.21

Vencer

Vivemos uma época de incertezas. Tudo o que temos como certo agora, pode ser dúbio, impreciso ou indeterminado nos minutos seguintes.

E de um momento para o outro, aquela fortaleza de determinação e firmeza que se construiu a vida inteira é abalroada pela confusão obscura da ambivalência dos dias em que tudo o que é deixa de ser e tende a oscilar no desconsolo da negatividade que continuamente nos assalta e nos arroga.

É imperativo usar todas as armas disponíveis para combater o mal dos dias, os temores, as noites insones, a ansiedade.

É sempre uma emoção ouvir  “ Nessum dorma" pela voz do Luciano Pavarotti .

Remete-me para outros tempos, tempos de paz, em que a música era união, era ternura. Era emoção.

É o desfibrilador preciso e necessário à regulação dos batimentos cardíacos e à recuperação da tranquilidade.

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa,
Nella tua fredda stanza,
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me,
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(il nome suo nessun saprá!...
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
Vinceró, vinceró!

 

“ Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?”

“O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?”

"Qual é o gelo que te faz pegar fogo?"

As respostas estão dentro de cada um, porque a esperança não morre, o sangue é vida e o gelo derrete com a emoção da vitória.

Venceremos! Estou certa que sim.

Emoções  #2

Maria Dulce Fernandes, 03.04.21

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Amêndoas confeitadas - Amêndoas Moles

Todos os anos era a mesma dança.

Em começando as férias que antecediam o segundo período, entabulavam-se os preparativos para a Páscoa. Numa vertente mais religiosa, cabia-me a confissão, a missa e a comunhão, por isso lavava e engomava a mantilha branca que a Lena do Vitinha me tinha trazido de Badajoz, polia o terço de prata que estava guardado na caixinha de folha espelhada com a Rainha Santa Isabel em relevo, guardada junto ao pequeno missal e saía para ensaiar para a missa de Domingo e para a procissão que se lhe seguia.

Era por essa altura que, num pequeno intervalo de toda aquela roda viva, me escapulia com o meu irmão até ao Confeiteiro, para comprarmos amêndoas doces.

Ainda sonho com elas.

O meu irmão preferia as torradas e caramelizadas; eu adorava as amêndoas moles, que se desfaziam na boca com uma leve pressão. Ainda agora sonho com elas, mas nada se compara. Quando o Confeiteiro deixou de as fabricar, íamos comprá-las à Baixa, à Pastelaria Suiça. Eram menos boas, mas bastante satisfatórias.

Nunca gostei muito de confeitos de licor, amêndoas em chocolate, amêndoas verdes, ou das tradicionais duras e multicolores. A minha perdição eram as moles, um veneno para os dentes, mas quem se ralava com pormenores na pré-história da existência?

Era um martírio fazê-las render até ao Festival Eurovisão da Canção,  acontecimento socio-familiar, em que se juntava uma data de gente, velhos e novos com snacks no colo à volta de uma TV e se vivia aquela que,  na altura, era uma verdadeira festa da música.

Comer amêndoas moles era uma emoção.

As lembranças são emocionantes, doces e quentes, com aroma a incenso e caramelo e melodiosos e desafinados Lá Lá Lás.

A amêndoas moles também. 

Ainda sonho com elas.

 

Quero desejar a toda a família do Delito uma Santa Páscoa. 

 

 

Foto do Google

 

Emoções #1

Maria Dulce Fernandes, 29.03.21

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Gin tónico

As pequenas transgressões são sempre emocionantes.

A idade trouxe-me alguma sabedoria, mais calma, ponderação e a capacidade de apreciar a beleza das pequenas coisas e de me emocionar com elas. Trouxe-me também uma alergia às bebidas com gás e – oh suplício – às bebidas com álcool.

Não sendo a anafilaxia algo que dê gozo repetir, quedo-me pela abstinência, o que faz com que transgredir as normas seja sempre uma emoção.

Depois de vencer de sortes o que o bom senso e a precaução me vêm continuamente a recordar num importuno matraquear, entrego-me indulgentemente ao prazer de saborear a minha bebida favorita, fazendo ouvidos moucos à vozinha aborrecida que massacra “não bebas, olha a alergia".

E se sabe bem.

Nada daquelas modernices com ervas, bagas ou  frutas. Simples, com gin, água tónica, gelo e limão, ao fim do dia, à falta de melhor sentada à janela a perscrutar a linha do horizonte.

É uma emoção.

 

 

Imagem do Google