Contra o canto do sereio

Há mais de um mês aqui disse que na primeira volta das presidenciais iria votar Cotrim de Figueiredo. E que se Cotrim não conseguisse chegar à segunda volta, então - entre o lote dos previsíveis apurados - votaria em Seguro, fosse qual fosse o outro oponente. Já agora, e então não o disse, caso outros tivessem sido os escolhidos teria optado por Gouveia e Melo. E abster-me-ia se tivessem ficado Marques Mendes e Ventura - ainda que suspeite que lá pelas 18.55 do próximo domingo iria até à C+S da vizinhança murmurar palavrões peludos e votar em MM. Uma dúvida que, felizmente, nunca terei de esclarecer...
Há coisas entre as hostes de Cotrim e da IL que me desagradam - e não apenas a omnipresença dos anglicismos, contra a qual já resmunguei. Que não é uma minudência, pois vejo-a como demonstrativa (muito mais do que apenas denotativa) de uma mundividência que se julga "empresarial" - e decerto que também, em muitos casos individuais, de inconsciência intelectual ou mesmo arrivismo, numa espécie de neo-yuppismo. Algo prejudicial dado que exsuda irreflexão, até "excitadinha". Pois se a política não pode estar afastada da economia ela não é a economia, e o rasteiro linguajar de aparência tecnocrática explicita a incapacidade de perceber isso. E também me incomodam alguns ocasionais devaneios mileinaristas - e se os milenarismos são sempre poluentes, pior ainda será um mileinarismo, tendente a esquecer que uma sociedade europeia e um Estado "mediterrânico" não se resolvem com uma motosserra importada de Buenos Aires. Independentemente dos resultados daquele destroncar austral. Mas mais do que tudo - e a última metáfora, aparecida ao correr do teclado, até me dá jeito - desagrada-me a insensibilidade ecológica na IL, discursos menos burilados do que as perspectivas presentes entre vários congéneres liberais europeus. Ou seja, menos informados, menos reflectidos, nisso menos modernos. Uma contradição face à imagem que a IL (e Cotrim) vêm fazendo vingar.
Enfim, há o voto identitário ("eu sou do partido X"), há o voto ideológico ("eu sou qualquercoisista"), e há o voto estratégico: eu venho votando IL pois julgo que o país - este rincão desde sempre imune ao liberalismo - precisa de um choque (um tratamento, se se quiser) económico e cultural liberal. Estou crente que terá resultados positivos - europeízadores, por assim dizer, no sentido de desenvolvimentistas. E quero estar crente que até provocará serendipidades, minha "fezada". Em suma, muito lamentei, muito lamento, que Cotrim não tivesse sido votado o suficiente. Esteve perto, foi uma oportunidade até histórica.
Deixo este enquadramento, até de autojustificação, para concluir o que me é óbvio: ainda mais coisas me desagradam entre as hostes de Seguro e do PS. Não as elencarei - 22 anos de bloguismo não me foram suficientes para tal, quanto mais apenas um postal. Mais do que tudo repugna-me a prática ali vigente (a praxis, adornam os intelectuais). O PS é o herdeiro da gesta dos nossos egrégios avós, fiel à expectativa dos "fumos do Oriente" (Macau, entenda-se, e o nosso "oriente" setentrional actual). Mas Seguro não é, não o foi ao longo da vida, um Craxi, um Papandréou, um Guerra. Nem um dos seus correligionários compatriotas mais omnívoros. Assim, estrategicamente ele é agora o mais adequado ao regime democrático, virtuoso nos seus defeitos.
Por isso tanto é de saudar que um conjunto alargado e heterogéneo de apoios tenham logo surgido: se os provenientes das moles à esquerda do PS foram logo anunciados, é muito positivo que entretanto tenham também surgido os de políticos mais novos e à direita do PS, entre os quais exemplifico com Cecília Meireles, Carlos Guimarães Pinto, Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Duarte, para além de vários outros. E os dos verdadeiramente notáveis: Cavaco Silva e o nosso General Ramalho Eanes. Uma real abrangência democrática contra o canto do sereio...
Essa grande abrangência de apoio a Seguro dar-lhe-á um substrato qualitativo, capital político. Mas este também dependerá, e muito, de uma expressão quantitativa dessa abrangência. Será assim fundamental que ganhe as eleições com uma boa votação, a qual tem sempre uma delimitação algo subjectiva mas apreensível pelo bom senso.
A votação já começou, entre emigrantes e o voto antecipado no último domingo. Já recebi algumas mensagens de amigos, esclarecendo-me que votaram... em branco. Surpreendi-me, desses amigos sei serem democratas e sei, por os ter ouvido, que o que votam a Ventura não é apoio eleitoral mas sim injúrias (privadas). Ainda assim estão agora incapazes de votar em Seguro. Não tanto por ele próprio, mesmo que ele não os entusiasme. Mas sim incapazes de votar no PS. Em alguém do PS. Não é gente que diga "chega" disto. Mas diz "basta".
Desde o dia das eleições da primeira volta - e até antes, nas especulações sobre o que poderia vir a acontecer - que resmunguei que para uma vasta abrangência eleitoral em torno de Seguro seria importante que os socialistas - e em particular os mais arreigados socratistas - se volatizassem. Pois a sua sombra, o seu repugnante odor, espantaria, espanta mesmo, os votantes democráticos. Talvez mesmo alguns à esquerda do PS, decerto que muitos à direita do PS. Muitos deles o fazem, inexistem na campanha, não proliferam na imprensa clamando apoios - Seguro terá evitado convocá-los e decerto que alguns deles perceberão o quão infecciosos são (creio que muitos deles aguardam "na sombra", nas suas prateleiras actuais, em ânsias de regresso aos palanques e, mais do que tudo, aos "corredores").
Mas alguns são incapazes de perceberem isso. Vital Moreira é um deles, talvez acicatado pelo "respeito" pelos "professores de Coimbra" que tantos continuam a vocalizar - mesmo aqui no Delito de Opinião - como se tal não bastasse já... Após a primeira volta logo surgiu convocando os políticos de "direita" à expressão pública do apoio a Seguro. Agora, dias antes da segunda volta, surge a querer mudar a Constituição, numa evidente deriva contra André Ventura. Entre outras particularidades anuncia que é necessário impedir que os presidentes tenham vínculos partidários, uma realidade que, afiança com desplante, nunca ocorreu aos constitucionalistas originais - mas alguém acredita que Vital Moreira e outros deputados da Assembleia Constituinte tenham imaginado que Octávio Pato teria abandonado o PCP se tivesse sido eleito em 1976, apenas para exemplo inicial?
Esta intervenção do "lente de Coimbra" é extemporânea. E é estrategicamente incompetente. No seu evidente viés ad hominem alimenta a candidatura de Ventura, a sua vitimização diante do pacote a que ele chama "regime". Mas é também perniciosa à candidatura de Seguro, minora a tal necessária abrangência. Pois muitos de nós sabemos que Vital Moreira foi e é um socratista fervoroso. Em 2009 foi cabecilha da lista do PS candidata ao Parlamento Europeu - numa época em que já só havia três tipos de apoiantes de Sócrates: os cúmplices, os coniventes e os "idiotas úteis". E foi-o pelo menos até às últimas Europeias, quando veio lamentar que o PS não candidatasse Pedro Silva Pereira e outros antigos governantes de Sócrates, esses que, sem qualquer pudor, tinham servido de biombo à anterior eleição do antigo braço-direito de Sócrates...
Enfim, o fundamental é percebermos que é necessário que muitos votemos - repito-me - contra o tal canto do sereio. E para isso é importante que os socratistas, e suas sequelas costistas, estejam calados até domingo. Não atrapalhem, não espantem! E, secundariamente, também será aconselhável que de uma vez por todas nós, todos, nos deixemos do "respeitinho" para com estes vultos. Conimbricenses ou de alhures. Pois são indignos disso.
(Postal também no meu "O Pimentel")













