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Delito de Opinião

Contra o canto do sereio

jpt, 03.02.26

vital moreira.jpg

Há  mais de um mês aqui disse que na primeira volta das presidenciais iria votar Cotrim de Figueiredo. E que se Cotrim não conseguisse chegar à segunda volta, então - entre o lote dos previsíveis apurados -  votaria em Seguro, fosse qual fosse o outro oponente. Já agora, e então não o disse, caso outros tivessem sido os escolhidos teria optado por Gouveia e Melo. E abster-me-ia se tivessem ficado Marques Mendes e Ventura - ainda que suspeite que lá pelas 18.55 do próximo domingo iria até à C+S da vizinhança murmurar palavrões peludos e votar em MM. Uma dúvida que, felizmente, nunca terei de esclarecer...

Há coisas entre as hostes de Cotrim e da IL que me desagradam - e não apenas a omnipresença dos anglicismos, contra a qual já resmunguei. Que não é uma minudência, pois vejo-a como demonstrativa (muito mais do que apenas denotativa) de uma mundividência que se julga "empresarial" - e decerto que também, em muitos casos individuais, de inconsciência intelectual ou mesmo arrivismo, numa espécie de neo-yuppismo. Algo prejudicial dado que exsuda irreflexão, até "excitadinha". Pois se a política não pode estar afastada da economia ela não é a economia, e o rasteiro linguajar de aparência tecnocrática explicita a incapacidade de perceber isso. E também me incomodam alguns ocasionais devaneios mileinaristas - e se os milenarismos são sempre poluentes, pior ainda será um mileinarismo, tendente a esquecer que uma sociedade europeia e um Estado "mediterrânico" não se resolvem com uma motosserra importada de Buenos Aires. Independentemente dos resultados daquele destroncar austral. Mas mais do que tudo - e a última metáfora, aparecida ao correr do teclado, até me dá jeito - desagrada-me a insensibilidade ecológica na IL, discursos menos burilados do que as perspectivas presentes entre vários congéneres liberais europeus. Ou seja, menos informados, menos reflectidos, nisso menos modernos. Uma contradição face à imagem que a IL (e Cotrim) vêm fazendo vingar.

Enfim, há o voto identitário ("eu sou do partido X"), há o voto ideológico ("eu sou qualquercoisista"), e há o voto estratégico: eu venho votando IL pois julgo que o país - este rincão desde sempre imune ao liberalismo - precisa de um choque (um tratamento, se se quiser) económico e cultural liberal.  Estou crente que terá resultados positivos - europeízadores, por assim dizer, no sentido de desenvolvimentistas. E quero estar crente que até provocará serendipidades, minha "fezada". Em suma, muito lamentei, muito lamento, que Cotrim não tivesse sido votado o suficiente. Esteve perto, foi uma oportunidade até histórica.

Deixo este enquadramento, até de autojustificação, para concluir o que me é óbvio: ainda mais coisas me desagradam entre as hostes de Seguro e do PS. Não as elencarei - 22 anos de bloguismo não me foram suficientes para tal, quanto mais apenas um postal. Mais do que tudo repugna-me a prática ali vigente (a praxis, adornam os intelectuais). O PS é o herdeiro da gesta dos nossos egrégios avós, fiel à expectativa dos "fumos do Oriente" (Macau, entenda-se, e o nosso "oriente" setentrional actual). Mas Seguro não é, não o foi ao longo da vida, um Craxi, um Papandréou, um Guerra. Nem um dos seus correligionários compatriotas mais omnívoros. Assim, estrategicamente ele é agora o mais adequado ao regime democrático, virtuoso nos seus defeitos.

Por isso tanto é de saudar que um conjunto alargado e heterogéneo de apoios tenham logo surgido: se os provenientes das moles à esquerda do PS foram logo anunciados, é muito positivo que entretanto tenham também surgido os de políticos mais novos e à direita do PS, entre os quais exemplifico com Cecília Meireles, Carlos Guimarães Pinto, Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Duarte, para além de vários outros. E os dos verdadeiramente notáveis: Cavaco Silva e o nosso General Ramalho Eanes. Uma real abrangência democrática contra o canto do sereio...

Essa grande abrangência de apoio a Seguro dar-lhe-á um substrato qualitativo, capital político. Mas este também dependerá, e muito, de uma expressão quantitativa dessa abrangência. Será assim fundamental que ganhe as eleições com uma boa votação, a qual tem sempre uma delimitação algo subjectiva mas apreensível pelo bom senso.

A votação já começou, entre emigrantes e o voto antecipado no último domingo. Já recebi algumas mensagens de amigos, esclarecendo-me que votaram... em branco. Surpreendi-me, desses amigos sei serem democratas e sei, por os ter ouvido, que o que votam a Ventura não é apoio eleitoral mas sim injúrias (privadas). Ainda assim estão agora incapazes de votar em Seguro. Não tanto por ele próprio, mesmo que ele não os entusiasme. Mas sim incapazes de votar no PS. Em alguém do PS. Não é gente que diga "chega" disto. Mas diz "basta". 

Desde o dia das eleições da primeira volta - e até antes, nas especulações sobre o que poderia vir a acontecer - que resmunguei que para uma vasta abrangência eleitoral em torno de Seguro seria importante que os socialistas - e em particular os mais arreigados socratistas - se volatizassem. Pois a sua sombra, o seu repugnante odor, espantaria, espanta mesmo, os votantes democráticos. Talvez mesmo alguns à esquerda do PS, decerto que muitos à direita do PS. Muitos deles o fazem, inexistem na campanha, não proliferam na imprensa clamando apoios - Seguro terá evitado convocá-los e decerto que alguns deles perceberão o quão infecciosos são (creio que muitos deles aguardam "na sombra", nas suas prateleiras actuais, em ânsias de regresso aos palanques e, mais do que tudo, aos "corredores").

Mas alguns são incapazes de perceberem isso. Vital Moreira é um deles, talvez acicatado pelo "respeito" pelos "professores de Coimbra" que tantos continuam a vocalizar - mesmo aqui no Delito de Opinião - como se tal não bastasse já... Após a primeira volta logo surgiu convocando os políticos de "direita" à expressão pública do apoio a Seguro. Agora, dias antes da segunda volta, surge a querer mudar a Constituição, numa evidente deriva contra André Ventura. Entre outras particularidades anuncia que é necessário impedir que os presidentes tenham vínculos partidários, uma realidade que, afiança com desplante, nunca ocorreu aos constitucionalistas originais - mas alguém acredita que Vital Moreira e outros deputados da Assembleia Constituinte tenham imaginado que Octávio Pato teria abandonado o PCP se tivesse sido eleito em 1976, apenas para exemplo inicial?

Esta intervenção do "lente de Coimbra" é extemporânea. E é estrategicamente incompetente. No seu evidente viés ad hominem alimenta a candidatura de Ventura, a sua vitimização diante do pacote a que ele chama "regime". Mas é também perniciosa à candidatura de Seguro, minora a tal necessária abrangência. Pois muitos de nós sabemos que Vital Moreira foi e é um socratista fervoroso. Em 2009 foi cabecilha da lista do PS candidata ao Parlamento Europeu - numa época em que já só havia três tipos de apoiantes de Sócrates: os cúmplices, os coniventes e os "idiotas úteis". E foi-o pelo menos até às últimas Europeias, quando veio lamentar que o PS não candidatasse Pedro Silva Pereira e outros antigos governantes de Sócrates, esses que, sem qualquer pudor, tinham servido de biombo à anterior eleição do antigo braço-direito de Sócrates...

Enfim, o fundamental é percebermos que é necessário que muitos votemos - repito-me - contra o tal canto do sereio. E para isso é importante que os socratistas, e suas sequelas costistas, estejam calados até domingo. Não atrapalhem, não espantem! E, secundariamente, também será aconselhável que de uma vez por todas nós, todos, nos deixemos do "respeitinho" para com estes vultos. Conimbricenses ou de alhures. Pois são indignos disso.

(Postal também no meu "O Pimentel")

O Debate

jpt, 28.01.26

Pode ser uma imagem de texto que diz "MCH+ DRIDINAL SERIES GODFATHER OF OFHARLEM MGM+"

Ontem vi o debate Seguro vs Ventura. Fiquei com uma dúvida: qual dos dois ali conseguiu atrair alguém que não estivesse já atraído? Coisa que talvez fosse o fundamental naquilo tudo. Ventura, fiel ao seu estilo intrépido, fustigou o adversário com swings repetidos mas nisso escorregou duas vezes (pelo menos). Ocasiões nas quais Seguro me lembrou o grande Sir Bobby Robson, o qual tanto exigia um "killer instinct" aos seus jogadores: pois, sim, Seguro colocou um forte uppercut (no assalto do "enriquecimento ilícito") e um directo - quando Ventura se desprotegeu naquilo do "procurador-geral", ocasião na qual foi salvo pelo gongo. Mas faltou-lhe o tal "killer instinct", tendo recuado para a pose defensiva junto às cordas. E exagerando nas reclamações com a arbitragem.
 
Quem ganhou o embate? Vi a seguir os dois primeiros episódios de uma série que desconhecia, "Godfather of Harlem" com o grande Forest Whitaker. Vitorioso!!!

Manifesto eleitoral de uma votante PSD

Cristina Torrão, 20.01.26

Não é segredo para ninguém que Ventura persegue um único objectivo: ser o líder da "direita" em Portugal. Para isso, ele tem de destruir o PSD!

Ao contrário do que muita gente (do PSD e CDS) diz, tentando justificar o seu voto em Ventura, António José Seguro será muito melhor Presidente para Luís Montenegro. Seguro é uma pessoa democrática, moderada e cumprirá a nossa Constituição, em qualquer circunstância.

Tal como Trump (o seu grande modelo inspirador), Ventura não respeita leis, nem regras. Como Presidente, tudo fará para destruir o governo de Montenegro, a fim de surgir, depois, como o "grande líder", apresentando o seu partido como a única alternativa para pessoas que não se reconheçam nos partidos da esquerda.

A campanha de Ventura, para esta 2ª volta, vai ser suja, falsa, sem escrúpulos. A propaganda chegana já começou, com a divulgação de um texto, supostamente de autoria de Miguel Esteves Cardoso, de apoio a Ventura. Um texto falso! E isto é só o começo.

Como o Sérgio de Almeida Correia já aqui disse, Luís Montenegro comete um grande erro, ao não aconselhar o voto em Seguro. Montenegro devia preocupar-se mais com a franja do eleitorado que oscila entre o PSD e o PS, do que piscar o olho aos radicais. Ele devia dizer claramente que Seguro dá mais garantias de cumprir a Constituição e salvaguardar a democracia. Montenegro devia, acima de tudo, demarcar-se de qualquer forma de extremismo.

Estou com eles:

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Imagens Observador/Instagram

Sérgio de Almeida Correia referiu ainda Rui Moreira, Carlos Carreiras, José Eduardo Martins, António Capucho e Pacheco Pereira terem revelado o seu apoio a Seguro.

Não votei na 1ª volta. Aliás, nunca votei nas presidenciais, desde que estas ficaram acessíveis aos emigrantes. Mas, no dia 8 de Fevereiro, vou fazer 100km (ida e volta) para votar no Consulado de Hamburgo!

Contra a "trumpização" de Portugal!

Pela democracia!

Por um PSD com futuro!

O fim das linhas vermelhas

jpt, 19.01.26

as linhas vermelhas abstraem o fundo futurista da tecnologia. bandeira de  arte digital vetorial 14636970 Vetor no Vecteezy

O meu rol dos vencedores e derrotados das eleições presidenciais - sem ordem, ascendente, descendente ou alfabética:

1. Empresas de sondagens: na generalidade acertaram na evolução das tendências de voto. A estas terão algo influenciado, talvez por isso as relativas mudanças nos dias finais. Mas esse efeito não é defeito mas sim característica das sondagens. Lamentável o uso de termos em inglês para denominar os trabalhos realizados - os anglicismos técnicos mostram ignorância linguística de quem trabalha e procuram incentivar a ignorância real de quem consome os serviços (são, literalmente falando, um embuste). "Fica bem" falar em inglês? "Tá bem", eu também poderia chamar a este postal "The Thin Red Line" e passaria por culto, até poliglota... Ou seja, deveria ser inadmissível bombardear a população portuguesa que se apresta a eleger o seu Presidente da República com "tracking polls" e quejandos termos.

Vencedoras são também aquelas empresas de sondagens que trabalharam por cardápio - aquelas que davam inicialmente Ventura como destacadíssimo, a outra final que punha Marques Mendes nos píncaros. Enfim, mariolices vencedoras pois decerto que lucrativas.

2. António José Seguro. No seu estilo modorrento e plácido deve rejubilar com a gélida vingança sobre a camarilha que dominou o seu  partido no primeiro quartel de XXI. Há quem diga que ele é "socialista" e como tal o associe sem particularismos àquilo tudo (Costa & Sócrates). É um fundamentalismo anti-PS. Proponho um termo de comparação: o PSD de Cavaco Silva também teve um percurso ... difícil. Mas no fim daquela era podia-se encontrar algumas diferenças entre as suas elites. Por exemplo, apartar Fernando Nogueira de Dias Loureiro. Goste-se ou não do PSD. Não trato de santificar Seguro, nem isso seria aconselhável - é um político.

Troco por miúdos: votarei Seguro na segunda volta. Se o candidato socialista presente na segunda volta fosse, por exemplo, Augusto Santos Silva (que, de modo tão canhestro, o tentou ser) eu votaria André Ventura. "Malgré tout..." - agora sou eu a usar um estrangeirismo, para não me fazer compreender totalmente.

3. André Ventura. Perdeu votos em relação às recentes legislativas? É normal, são eleições de cariz diferente, e o centro-direita recebia o apelo de várias candidaturas. Mas manteve a percentagem final, o que é relevante. Segue para a segunda volta içado como destacado líder da direita. Vê - mais uma vez - sufragados temas que são fundamentais para núcleos alargados da população e que os partidos tradicionais foram desprezando: a questão securitária (que a esquerda sempre menospreza), o descontrolo imigratório (promovido pelo neoliberalismo, de facto, do BE e pelo medíocre tacticismo de Costa), a degenerescência institucional (que a memória dos escândalos financeiros e a continuada impunidade de Sócrates demonstram). 

Mais importante ainda: ao que dizem as iniciais  análises na imprensa, foi o candidato mais votado nos núcleos mais pobres. Os (relativamente) "descamisados" votam Ventura. E é interessante perceber que se há algumas décadas o voto "popular" (nesse sentido dos mais pobres) era considerado legitimador, virtuoso, agora políticos e imprensa consideram-no desvalorizador de quem o recebe. Sintomático da falência analítica.

Ventura é vencedor também porque estas eleições trouxeram o fim do mito das "linhas vermelhas". Pois o presidente do PSD (e primeiro-ministro) renunciou a apelar ao voto dos seus militantes e simpatizantes no candidato que se lhe opõe. Ou seja, anunciou que se considera (e ao seu partido) equidistante de Seguro/PS e Ventura/CHEGA. Como  o PSD nunca teve "linhas vermelhas" com  o PS esta posição demonstra, inequivocamente, que não as tem com o CHEGA.

Finalmente, Ventura é vencedor porque tem reais hipóteses de vir a ser presidente da República. Ficou a sete pontos percentuais de Seguro. Este recebeu já o apoio explícito dos três partidos à sua esquerda - que valeram 4% agora. Teoricamente terá 11% de vantagem sobre Ventura. E há, grosso modo, 40% de votos (Cotrim, Melo, Mendes) à mão de semear. Os comentadores, sempre demiurgos, afiançam que a maioria desses 40% de eleitores votará no candidato do PS. Será?

4. Cotrim de Figueiredo. Triplicou a percentagem do partido  de que é oriundo nas recentes legislativas. Captou (cativou?) o voto de largo espectro dos eleitores jovens. Enquadrou e divulgou outras propostas para o futuro do país. Ultrapassou um campanha empresarial (SIC/Expresso em particular) adversa - patético aquele episódio inicial onde era anunciado como tendo 3% de intenções de voto, desonestos os episódios sucessivos em que eram apresentados os resultados dos 4 mais votados, e a sua imagem não surgia, remetido para os "secundários". Nisso mostrou que as eleições já não se ganham através do controlo dos canais televisivos generalistas (e dos jornais "de referência").

Não lhe terá custado muitos votos mas meteu "a pata na poça" ao não ser cristalino quando anunciou aquilo que vários outros vieram dizer ontem: que não apelaria aos seus eleitores para um voto em qualquer outro candidato na segunda volta. Nem tem de o fazer, tal como os outros também não têm. Se as candidaturas são individuais - como reza a retórica presidencial - não  cabe aos candidatos apelar ao voto subsequente. Caberá, isso sim, aos cabecilhas dos partidos (e movimentos políticos).

*****

O rol dos derrotados

1. Marcelo Rebelo de Sousa: o seu epígono foi um desastre. Ainda assim li ontem alguns políticos referirem-se ao final do seu período presidencial em termos encomiásticos - normalmente escudados naquele perverso "conheço-o e etc.". Rebelo de Sousa foi um péssimo presidente. Nem vale a pena lembrar isso. E o  mandato terminou ontem. Sem legado.

2. Mendes: o tal desastre. Apoiado por Montenegro, seu colega de profissão, passou anos a pavimentar este destino. Julgo que o eleitorado, ao repudiar o comentador, deixou um recado tonitruante: já não há espaço para esta forma de fazer política. O PSD (e não só) que se depure desta gente.

3. Gouveia e Melo: para que me fui meter nisto?, pensará agora.

4. Catarina Martins: "o derrotado foi o PSD" ouvi-a ontem dizer, no seu discurso final após os 2%. O Bloco já morreu, está é mal enterrado.

5. Rui Tavares: o heterenónimo Katar Moreira correra-lhe mal. Depois mandou Sá Fernandes à televisão dizer que o LIVRE é o primeiro partido de esquerda que nada tem a ver com o marxismo. Alapou-se a Alexandra Leitão fazendo-se fotografar de punho direito no ar. Ontem o seu novo heterónimo saudou, eufórico, os militantes de... punho direito no ar. Tinha tido menos votos do que o Irmão Catita. Uma verdadeira catástrofe para este recentemente anunciado "bijou" da "esquerda".

6. PCP: uma votação menor do que a que obtiveram vários "grupelhos" naqueles idos de 1970 e 1980. Na reunião de hoje do Politburo celeste, Boris Ponomarev será fustigado por Brejnev e Andropov, que gritarão "onde está o Cunhal?". Cá em baixo Putin nem receberá um breve relatório (briefing) sobre isto. Pois, no pragmatismo de estar vivo, nem lhe interessa.

7. Montenegro. Julgo que nem vale a pena argumentar. Na bancada abundam os "lenços brancos".

Nada de ilusões, o povo é sereno

Sérgio de Almeida Correia, 19.01.26

António José Seguro(créditos: José Coelho/LUSA)

Está consumada a 1.ª volta das eleições presidenciais de 2026. As conclusões serão sempre provisórias e susceptíveis de serem desmentidas entre o próximo dia 8/2/2026, quando se realizar a 2.ª volta, e os meses que se seguem até à votação do próximo Orçamento de Estado. Apesar disso, há dados que de tão evidentes me parecem incontornáveis, e são estes que aqui quero trazer-vos em relação aos candidatos.

António José Seguro: não precisou de grandes voos, de tiradas gongóricas, de virar a casaca ou de prometer o impossível, como se fosse um candidato a primeiro-ministro. Venceu este turno de forma categórica. O resultado, sendo confirmado de forma ainda mais estrondosa em 8 de Fevereiro, ajudará a enterrar o que restava do nunismo, do costismo e as eventuais pretensões de Mariana Vieira da Silva ou Alexandra Leitão. Reforça a irrelevância de tipos como Augusto Santos Silva, Carlos César ou Francisco Assis(*) no panorama nacional. A liderança de José Luís Carneiro mostrou que fazia bem em apoiá-lo e ganhou um fôlego acrescido para os próximos meses. O campo do socialismo democrático é hoje dominado, e bem, pelos patinhos feios do partido. Depois de ignorado, insultado e ostracizado pelos caciques que enterraram o PS, que lhe fizeram a folha quando foi secretário-geral e deixaram o partido com uns vergonhosos 22,83% nas Legislativas de 2025, António José Seguro mostra que a discrição, a paciência e a moderação podem ser recompensadoras num país cuja democracia, apesar de Abril, ainda vive no passado acomodado, venerado e temente que herdou da Primeira República e interiorizou durante as mais de quatro décadas do antigo regime. Por agora recebeu sozinho, com o campo do socialismo democrático disperso,  mais 312 mil votos do que o PS obtivera nas últimas legislativas. Parte revigorado para conseguir um bom resultado na segunda volta. E como veremos num outro post, pode estar a caminho um terramoto político.

André Ventura: conseguiu o seu grande objectivo de passar à segunda volta, mas o resultado é muito enganador. Para quem se quer reclamar o líder da direita, melhor seria dizer da extrema-direita, Ventura perdeu – não foi o Chega que perdeu – em relação às eleições de 2025, em que o partido conseguiu eleger 60 deputados, mais de 111 mil votos. Do 1.437.881 votos, Ventura só conseguiu recolher 1 326 644 votos. É preciso dizer isto. Para onde foram os outros votos? Por que razão não cresceu agora? Ele irá dizer que venceu, que o resultado foi magnífico, fazendo uma leitura à maneira do PCP, mas para quem quer ser Presidente da República e se reclama líder da oposição, se este é um bom resultado, imaginem o que seria mau. E uma coisa é certa: apesar disso Ventura irá à 2.ª volta com mérito. Ele não pode ser responsabilizado pela falta de visão e mediocridade da liderança do PSD e do seu acólitos fantasmas do CDS-PP.

Cotrim de Figueiredo: é inequívoco, não obstante alguns factos extra-eleições surgidos nos últimos dias, que conseguiu um bom resultado face àqueles que têm sido os números habituais do Iniciativa Liberal, alargando a área potencial de votação do seu campo político em quase 600 mil votos. Os resultados são lisonjeiros, o eleitorado foi amigo. Parece evidente que poderia ter chegado mais longe, mas os erros que cometeu foram suficientemente graves para não lhe recomendarem uma passagem à 2.ª volta. E obviamente que um candidato tem de valer por si. Não pode dizer a três dias das eleições que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ou estar a mendigar o apoio de terceiros, até porque, como se viu pelo resultado de Marques Mendes, Luís Montenegro e o PSD não eram garantia de coisa alguma e tais apoios só serviriam para afastar alguns dos eleitores que votaram nele. Tem agora todo o tempo do mundo para se dedicar à defesa das acusações de Inês Bichão. E pensar no rol de asneiras que disse.

Gouveia e Melo: o almirante, rodeado de uma pandilha de comensais, rouxinóis e apoiantes onde cabiam todos e mais alguns, nunca chegou a perceber o que é uma eleição presidencial numa democracia. Dando mostras de uma grande indigência política, sem qualquer estaleca para o papel que gostaria que lhe fosse atribuído, com um muito deficiente conhecimento dos poderes presidenciais, pensou que o seu papel em Belém seria o do comandante de um navio com gestão participada. O resultado só poderia ser o naufrágio que se viu. Tirando Portalegre, Beja e Castelo Branco, onde conseguiu ficar em terceiro lugar, nos restantes distritos os resultados foram sofríveis. Da sua aventura fica o registo, digno e sempre relevante numa sociedade cada vez mais alheada da política, da sua disponibilidade para a participação, do seu empenho na cidadania e no seu serviço desinteressado à causa pública. Antes e depois. E também a forma como contribuiu para escaqueirar a candidatura de Marques Mendes. Meteu dó.

Marques Mendes: conseguiu um resultado à sua altura. Refiro-me, evidentemente, à sua altura política. Que nunca teve. Foi o último do pelotão da frente. O primeiro dos últimos. Daqui para a frente não valerá a pena voltar a querer colocar-se em bicos de pés. Como dirigente político e comentador já tinha mostrado que lhe faltavam cerviz e atributos de liderança. Agora ficou liquidado até para a segunda função. A falta de credibilidade é total. Como candidato a presidente, com o apoio do maior partido e do primeiro-ministro em funções, que se empenhou pessoalmente na campanha eleitoral, e de Cavaco Silva, que resolveu sair do seu sarcófago algarvio para dar uma “ajuda”, vale pouco mais de 11%. Nota alta para o modo como assumiu sozinho uma derrota que por muito que o quisesse enfatizar não é, nunca será, apenas dele. O resultado será sempre indissociável do crânio de Espinho e dos seus inenarráveis ajudantes, Hugo Soares e Leitão Amaro. Que aproveite a reforma para estar em paz com a família e os amigos.

Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto podiam ter feito a diferença nesta 1.ª volta. Não fizeram. Se o último mostrou ser um quadro sério, honesto e relativamente bem preparado, cometendo um erro colossal ao predispor-se sair da contenda a meio da campanha eleitoral para depois a levar até ao fim e ir a votos, no que revelou muita ingenuidade e falta de maturidade política, os outros resolveram carregar nas teclas de sempre e passearem a sua irrelevância política e desfasamento da realidade social e eleitoral. No caso dela, o cansaço de que há anos dá mostras e a errada leitura que no seu partido continuam a fazer do país real só serviram para confirmar o óbito do Bloco de Esquerda, fazendo descer os cerca de 125 mil votos do seu partido em Março de 2025 para uns meros 116.303 votos. Ontem mesmo percebeu que ao BE não resta outra alternativa que não seja apoiar António José Seguro. Quanto a António José Filipe é difícil que alguma vez a sua honradez e convicções possam libertar-se da miopia política e do agrilhoamento à pesada herança estalinista. O PCP e os seus candidatos são hoje os fantasmas do regime.  Os 92 mil votos de António Filipe representam metade dos votos conseguidos pelo PCP em 2025. Os simpatizantes foram-se embora, ficou reduzido aos votos de alguns militantes e dos seus filhos que ainda não rumaram para outros sóis.

Manuel João Vieira, André Pestana e Humberto Correia: o primeiro assumiu na perfeição o seu papel de bobo nestas eleições. O apoio que obteve nas urnas, com mais de 60 mil votos, é sinal de que uma parte do eleitorado se revê nesta figura grotesca que prometia vinho canalizado e um Ferrari para cada português. Com a sua candidatura ridicularizou o regime. Ele, mas também Humberto Correia que conseguiu o feito de obter nas urnas menos votos do que as assinaturas que recolheu, mostrando como a legislação que rege as candidaturas está esclerosada e não serve a democracia nem os portugueses. Uma eleição para o primeiro representante da República, único eleito por sufrágio universal, directo e presencial, não pode ser um concurso de feira para palhaços. Quanto ao candidato contentinho André Pestana foi mais um que não percebeu para que serve uma eleição presidencial, o que não deixa de ser grave num professor e sindicalista.

Abstenção, votos brancos e votos nulos: a abstenção ainda assim foi significativa. Votou mais gente, o universo era superior, mas a percentagem de participação foi de apenas 52,35%. Seria bom que melhorasse na 2.ª volta, mas duvido face à posição de indiferença já assumida por Montenegro (voltarei a esta noutro post). Os nulos e os brancos também foram inferiores por comparação com as legislativas de 2025, apesar dos boletins de votos virem com nomes de candidatos que não podiam lá estar. Vamos ver como correrão as coisas na 2.ª volta.

 

(*) Alguns amigos chamaram-me a atenção para o apoio de Assis à candidatura de Seguro. É verdade, fê-lo desde o início, embora não me esqueça que em 2011 concorreu contra este nas eleições para secretário-geral. Aceitou de imediato a derrota, é certo, mas muita coisa poderia ter sido diferente.

Façam as apostas

Sérgio de Almeida Correia, 16.01.26

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Amanhã exercerei o meu direito de voto para a eleição presidencial de Domingo, 18 de Janeiro. Aqui não há período de reflexão. Nem aqui nem para ninguém que tenha antecipado o exercício desse direito. Só os que acompanham a campanha até ao fim e residem em Portugal continental e nas ilhas é que precisam da protecção legal da reflexão. Para isso têm o sábado garantido. Os outros podem voltar irreflectidamente, no que constitui mais um dos muitos anacronismos da nossa democracia e das nossas leis eleitorais. Adiante que sobre isso já o Pedro se pronunciou.

Os boletins de voto aparecerão com uma equipa de futebol de onze e três suplentes que garantirão mais uma resma de votos nulos. 

Neste espaço não vou apelar ao voto em ninguém. Cada um que decida sozinho para que lado dormirá melhor.

Apelo sim à participação, pois que também não poderia recomendar o voto em nenhum dos candidatos. Não tenho o jeito de uns para figurante, ou a lata de outros para catedráticos; muito menos o descaramento de alguns desventurosos. 

A opção, a bem dizer, não está em escolher aquele que está mais bem preparado em termos académicos, profissionais e políticos, com ideias mais arrumadas e enxutas, muito menos o mais capaz, o mais competente, o mais sensato, o mais sério ou o mais educado. Cada um terá as suas razões. Todos têm as suas razões. Pior que os Estados Unidos, a Venezuela, Israel ou o Irão não ficaremos.

O único exercício de reflexão possível neste momento, admitindo que vale a pena perder uns minutos neste ínterim, está em tentar descortinar qual dos bonecos colocados nas prateleiras da barraca dos brindes parece ser o menos horripilante no momento em que tirarmos a rifa e nos entrarem pelo ecrã da televisão, na noite de domingo, com o anúncio do prémio que nos foi atribuído para os próximos cinco anos.

É verdade que há sempre a hipótese de se oferecer o mono ao vizinho ou ao filho da padeira, como se fosse um dos coloridos sete anões, ou de guardá-lo na garagem entre a caixa de ferramentas do carro, as prendas de alguns natais e as lembranças de uns clientes mais exuberantes, mas será sempre difícil encaixá-lo no armário onde está aquele candeeiro de porcelana que me ofereceram com uma fonte, golfinhos azuis e brancos e luzes intermitentes.

O ridículo foi a marca destas eleições.

Foi ridículo ver o líder da oposição, que quer ser primeiro-ministro, primeiro a admitir apoiar um putativo candidato, depois a manifestar apoio a esse candidato declarado, vê-lo recusado, sondar o mercado enquanto apalpava os legumes, para acabar ele próprio candidato e a fazer promessas repescadas das legislativas. Como se o próximo Presidente da República se preparasse para ser o futuro substituto do primeiro-ministro durante os impedimentos e ausências deste. Ou uma espécie de Maduro europeu, de batina camuflada, subserviente à cartilha trumpista.

Como foi ridículo ver um almirante a admitir tudo e o seu oposto, qual catavento sem a mais pequena noção do papel do Presidente da República, tão depressa se apresentando como alguém ungido com um óleo divino que o colocava em Fátima, como logo depois admitia vir a formar um partido se perder as eleições, ora pescando à direita, ora lançando a minhoca à esquerda, ao centro, em cima e em baixo, adaptando-se aos sucessivos solavancos da campanha eleitoral que o atiravam de bombordo para estibordo e da proa até à ré.

E não menos ridículo foi ver um outro candidato, enfarpelado da mais moderna cagança, dando ares de grande preparação para o cargo, dizer que se soubesse que uma lei viria a ser declarada inconstitucional a teria assinado na mesma, insistindo dias depois na tecla ao admitir em plena campanha que poderia vir a desistir a favor de outro candidato, para dizendo não saber o que lhe terá passado pela cabeça. Talvez não tenha passado nada, e seja mesmo esse o problema, dado o tamanho do umbigo, porque não é normal que um candidato a dias do sufrágio acabe a escrever ao primeiro-ministro e líder do maior partido, pedindo-lhe que desista do seu candidato para o apoiar a ele. Pior seria difícil antes de encostar às boxes para a corrida de domingo.

Os outros aspirantes a dois dígitos na primeira volta, em matéria de ridículo, não se podem rir dos anteriores.

Um foi completamente destroçado num debate televisivo, como se o facto de ser um simples portador de uma carteira profissional de uma profissão que não exerce fizesse dele um profissional sabedor, qualificado, competente e experiente sem ter necessidade de ir buscar uns saltos altos, meter umas cunhas, colocar-se em bicos de pés e defender a sua candidatura comparando a sua própria altura com a de outros que nem sequer são candidatos. Mais elevado seria difícil. Os homens não se medem aos palmos, e alguns sendo altos são maus bailarinos e tão trapalhões a jogar golfe como quando exercem qualquer cargo. O problema são os inseguros. Estes andam sempre de fita métrica e com as rábulas numa cábula. Poderá não vencer à primeira nem à segunda volta, admito. Terá sempre a oportunidade, quem sabe, de ir à terceira volta. De um corridinho. Aí a altura não será problema e até poderá voar entre voltas.

E para não ser menos ridículo houve um outro candidato, campeão dos direitos humanos e das garantias constitucionais, que sem nada dizer, falando redondo, como se estivesse numa homilia permanente, sem regatear apoios, conseguiu a proeza de se rodear de um punhado de "defuntos", cuja língua foi rosada. Hoje são mais conhecidos pela forma como se equilibram nos lamaçais e a sua compreensão para com a generosidade das autocracias, desde que lhes caia qualquer coisa na sopa ou no avental.

Há mais uns quantos no boletim de voto, sabemos isso, muito embora nada nos obrigue a fixar os seus nomes. Em comum têm uma arreigada obstinação pela teatralização, pelo drama, pelo desastre, que é outra forma de ridículo.

Não se preocupem com o resultado. Ide votar.

Escolham aquele que vos parecer menos mau para ficar na prateleira. O menos ridículo.

Uma campanha ridícula e um voto secreto, ainda que ridículo, não mancham a linhagem de ninguém. Nem acabam com a República ou com mais de oito séculos de história.

E daqui a cinco anos, com mais ou menos dissoluções da Assembleia da República, poderemos sempre escolher outro. Um que seja um pouco menos ridículo. Sem necessidade de reflexão.

Quem se mete com o PS(D) leva...

jpt, 15.01.26
Eleições Presidenciais 2026 | Edital
 
Em Abril de 2025 houve um festival de cinema em Lisboa. Dias antes surgiu uma carta anónima na imprensa denunciando as malevolências machistas de um realizador português, que ali apresentaria a sua obra. A organização de imediato retirou ("cancelou") a apresentação. A "denúncia" era volátil. Mas foi suficiente. Era anónima - mas gentes do ofício identificaram-na, em diversas versões. O realizador clamou inocência. De nada lhe serviu - nestes tempos d'agora uma "denúncia" de mulher, ou assim parecendo, em especial se em momento profissionalmente cirúrgico, é considerada suficiente por si mesma.
 
A apresentação fílmica foi cancelada. A mácula no acusado terá ficado. Busquei agora, nove meses depois, não houve qualquer seguimento do "caso". O contextual assassinato de carácter estava consumado.
 
(Sobre o assunto escrevi este postal)
 
Ensinamento a retirar da história para entender a actualidade? Quem se mete com o PS(D) leva...

Cotrim: um autogolo e o recurso ao VAR

jpt, 13.01.26

As presidenciais do próximo mês

jpt, 26.12.25

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Neste pré-Natal avivou-se a (pré)campanha presidencial, devido a alguma inflexão nos debates televisivos, esta ecoando entre o pouco prestigiado comentariado - o qual, ainda assim, será algo influente em estratos da "classe média" sénior. Um fervilhar opinativo potenciado por aquilo a que as atrapalhadas sondagens chamam "empate técnico" entre os candidatos do pelotão cimeiro.

Pouco tenho assistido - para além de breves resumos. Nem disso preciso para decidir as minhas opções. Votarei Cotrim no play-off. Na final, caso ele não seja "apurado", votarei Seguro, se este lá chegar.

Quanto ao resto? Angustia-me este país estagnado economicamente, pois pouco diferenciado - abençoadas praias soalheiras, viva o vinho e a cerveja baratos, motores da chamada "indústria" turística, que nos vão safando as contas -, desprovido de verdadeiras estratégias de desenvolvimento, rumos para a tal diferenciação.

E mais me angustia a ideia de que os cidadãos deste país, por resmungões que sigam, venham a associar um primeiro-ministro cidadão mero jurista facilitador de negócios a um presidente de república, também ele mero jurista facilitador de negócios.

Todos os outros assomados têm defeitos, insuficiências, até desarrumos? Decerto. Mas caramba, não é com "facilitismos", as mundividências e deontologias típicas dos facilitadores, que isto lá vai. Não mesmo.

Os debates televisivos

jpt, 10.12.25

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Fui docente durante 18 anos (um no então ensino secundário, os outros no ensino universitário). Gostei. Bastante. A única coisa que me desagradava era aquilo de proceder às avaliações (”dar notas”, como se diz no dialecto ideológico dos professores - não se “dá” nada, nem aulas nem notas, note-se bem isso).

Nessa tarefa de avaliador sempre me cingi a um valor fundamental: ser justo, o que decerto cumpri com imperfeições. Mas sem malícia. Para isso procurei seguir apenas dois mandamentos: 1) sopesar apenas a refracção alheia dos saberes que eu havia disponibilizado na disciplina em causa; 2) nunca privilegiar alguém - entenda-se, os “alunos preferidos”, que os há quase sempre, por razões múltiplas.

Dito isto, vejo nas redes sociais que há bastante gente com vertigem avaliadora, presumo que confundindo-a com qualquer estrado professoral. Pois pululam tipos que adoram “dar notas” aos contendores da corrida presidencial. A cada debate lá vêm eles, X a um, Y a outro. Mimetizando a mediocridade comentadora das emissões radiofónicas com que as estações televisivas vêm “enchendo chouriços” horas a fio (cenários pobres, duas ou três câmaras, uns gajos quaisquer a perorem sobre “debates”). E nisso, tal como os da tv, (quase) sempre privilegiando o seu “aluno preferido”.

Para o vulgar de Lineu é uma pobre forma de se imaginar participando na campanha, de “colar cartazes” como dantes se fazia militância. Mas assim maliciosa, pois quase nunca assumida. E, pior, é a reprodução de uma pobre percepção do que é a política (e neste caso a presidência), como se esta assente nas capacidades para um debate televisivo. Sim, eu sei que há 60 anos o NIxon muito transpirou no debate com o Kennedy e que dizem ter isso causado a sua derrota. Mas isso não justifica este generalizado disparate.

Ainda só vi 3 debates. Há pouco vi (em diferido) o de Cotrim - em quem votarei - com Marques Mendes. Este é um veterano da política e dos seus bastidores, e um experimentado especialista televisivo. Abriu investindo contra Cotrim - que não é um tosco, mas que se tinha posto a jeito, com a rábula das “pressões” sofridas -, em registo de “pressão alta” (em futebolês), tamanho que o adversário “foi às cordas” e até teve uma “contagem de protecção” (em boxês), quando balbuciou um atarantado “bom dia”...

Depois o debate lá se equilibrou um pouco, Cotrim evitou o KO mas perdeu aos pontos, claramente. Saiu amachucado. Há uma coisa que me irrita imenso entre as gentes da IL (e não só): é o hábito de usarem anglicismos - nas últimas eleições autárquicas quando vi anunciado um “Sunset” com Carlos Moedas estive quase a inflectir o meu voto para a CDU...

Mas agora, diante deste debate em que Cotrim foi menos hábil e ágil do que Marques Mendes, só me ocorre um “So what?...”.

Um debate

jpt, 25.11.25
Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, televisão, sala de imprensa e a texto que diz "RTP JORGE JORGEPINTO PINTO 04:55 03:15 JOÃO COTRIM FIGUEIREDO Presidenciais ELEIÇOES2026 2026 ELEIÇOES"
 
É só para dizer isto: ontem vi um bocado deste debate entre os candidatos Pinto e Cotrim. Às tantas - como era previsível, dado o contendor do LIVRE - chegou-se às temáticas ambientais. Cotrim (no qual votarei) falou sobre o assunto, com pose "presidencial" como convém ao momento.
 
E lembrei-me do que me disse, há uns anos, uma jovem muito informada que me é muito querida: "o programa ambiental da IL é muito pior do que os dos outros liberais europeus".
 
Secundariamente, pois falando em termos estritamente eleitorais? Se há oportunidade para perder o voto da juventude informada, de a insensibilizar para uma candidatura (para que "convençam os pais e os avós", como o candidato apelou há dias), Cotrim teve-a. E não a desaproveitou!!!
 
Raisparta, que até a mim - velhote - me apeteceu ir votar noutro qualquer.

Os aldrabões

jpt, 24.11.25