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Delito de Opinião

Lembrando outra campanha a duas voltas

Pedro Correia, 31.01.26

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Mário Soares e Freitas do Amaral, os finalistas da corrida para Belém há 40 anos

Vivi apaixonadamente os tempos da campanha eleitoral de 1985-1986, como é próprio de quem chegou aos 20 anos na década de 80. Mas ninguém me dirá sem desmentido que foram os melhores tempos de que há memória em Portugal seja sob que ângulo for. Começando, claro, pelo futebol - que funciona como espelho da sociedade muito mais do que alguns intelectuais da treta admitem.

Há quem jure que as pessoas então eram mais felizes. Duvido muito. 

 

A esquerda extremista anti-NATO e anti-CEE valia 20% nas urnas. Havia populismo em doses abundantes. Um partido político criado a partir de Belém com a esposa do Presidente "enviada especial" do marido para comícios desse partido. Um dos candidatos presidenciais anunciando a intenção de fundar uma "nova república" (!) com uma "nova democracia". Dez anos após o início do regime constitucional.

Tudo isto fazia as pessoas mais felizes? Não creio. 

 

O melhor em Portugal, naquela turbulenta década iniciada com a trágica morte de um primeiro-ministro, foi a nossa adesão em 1985 à Comunidade Europeia, ferozmente combatida pelo PCP, então ainda cheio de força, como vassalo da União Soviética. Quando a inflação no País subia aos 20%, o desemprego afectava 10% da população activa, proliferavam os salários em atraso e milhares de pessoas viviam na cintura de Lisboa em barracas imundas, sem água potável nem saneamento básico. A cólera era doença que ainda assombrava os portugueses em surtos ocasionais.

Em segundo lugar destaco a revisão constitucional de 1989, que nos pôs enfim na rota das democracias liberais europeias com algumas décadas de atraso - e que decorreu da nossa entrada na CEE. Só a partir daí fomos autorizados a ver canais privados de TV, pondo-se fim ao monopólio da RTP.

 

Saudades, todos temos. Sobretudo de sermos muito mais novos.

Mas basta pesquisar com atenção imagens dessa década para se perceber até que ponto hoje habitamos um país diferente. Para muito melhor.

Mais instruídos, mais dinâmicos, mais viajados, mais cosmopolitas, mais europeus.

Está de chuva

Pedro Correia, 30.01.26

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É absurdo as eleições presidenciais continuarem a realizar-se em meados de Janeiro, o mês mais frio, o mês mais chuvoso. Sei do que falo: andei na estrada em Janeiro de 2006, acompanhando como jornalista a caravana eleitoral de Manuel Alegre, que se viu impedida de se deslocar a certas regiões do País - a Bragança, por exemplo - devido a fortes nevões. Um deles deixou-nos bloqueados no Marão: lá tivemos de regressar imprevistamente ao Porto às tantas da noite, com a agenda por cumprir.

São absurdas estas corridas presidenciais com as festas de Natal e de Ano Novo de permeio. Que dispersam as atenções e distanciam os eleitores dos candidatos, contribuindo para fortes índices de abstenção.

O primeiro calendário eleitoral, em Junho de 1976, fazia bastante mais sentido. E até o segundo, no início de Dezembro, em 1980. Janeiro é que não faz sentido algum. Estranhamente, até agora não ouvi uma palavra sobre o assunto da parte dos candidatos ou de certos comentadores que gastam serões televisivos a debitar banalidades, incapazes de deixar transparecer uma ideia original ou esboçar um ângulo de análise digno de reflexão.

Para lembrar

Pedro Correia, 18.01.26

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Marisa Matias e Ana Gomes, duas das derrotadas em Janeiro de 2021

 

Aproveito para recordar a minha análise no DELITO DE OPINIÃO à anterior corrida presidencial, faz agora cinco anos.

Aqui analisei quem saiu por cima e quem ficou por baixo (sem pensamentos dúbios). 

Aqui destaquei a tendência, já evidente neste escrutínio, de mudança drástica na geometria política do eleitorado português: nunca a chamada esquerda havia encolhido tanto. 

Presidenciais*

José Meireles Graça, 07.11.25

Nas recentes eleições autárquicas quis-se ver um grande significado nacional. E como o Chega, a novidade, juntou a correr um ramalhete de personalidades que não tinham relevo, nem ligações locais, ou paraquedizou umas figuras nacionais que pareciam, e eram, depositárias de um palavreado ideológico que não falava em jardins, ou saneamento, ou recolha de lixos, ou habitação, ou IMI, o resultado foi relativamente medíocre.

Quando, como em Loures, o candidato do PS se cheguizou no discurso, num assunto que tinha importância local, ganhou. Mas como o PS não se vai, nacionalmente, cheguizar, nada verdadeiramente mudou em relação às últimas legislativas. A ideia de que regressamos ao bipartidarismo é assim wishful thinking e não mais do que isso. A menos que o PSD se dedique de alma e coração à tarefa de esvaziar o Chega comprando-lhe as bandeiras (coisa que evidentemente fez no problema da imigração), a tendência recente acentuar-se-á e em qualquer caso o PS vai fazer uma cura de águas duradoura para a Oposição, o que só lhe fará bem e a nós.

As presidenciais são vinho de outra pipa e põem às pessoas de senso um problema.

Depois de Marcelo de nenhum presidente se poderá imaginar que pode ser pior, donde até mesmo Marques Mendes, o mais marceléfilo de todos, pode ser incluído na lista de presidenciáveis. Nenhum, vírgula, que António Filipe ou Catarina Martins seriam piores, mas o primeiro é o simpático guardião de uma ideologia mumificada e a segunda enfermeira de um doente em coma irreversível. Recentemente o Livre, achando que de candidatos quanto mais melhor, também apresentou o seu, esquece-me agora o nome. Ignoro neste momento se o PAN também apresenta candidato, dúvida que o meu Cacau poderia esclarecer – mas não estou para lhe perguntar. Já Cotrim seria imensamente melhor que todos estes mas a função não casa com o perfil da personagem, nem com a sua imagem, nem com a sua carreira, nem a Presidência é o lugar para fazer avançar ideias liberais, mesmo que o país delas esteja muito carecido. O PS regressará um dia (longínquo, espero) porque a democracia faz-se, entre outras coisas, de alternância, mas o PS de Costa, ou Pedro Nuno, ficará bem no armário das velharias.

Quem desconfiar do europeísmo cego, do bem-pensismo de esquerda moderninha (vulgo social-democracia caseira), do wokismo larvar em questões como racismo, igualdade de “género”, discriminação positiva de minorias, defesa do folclore LGBTurbo, e toda a parafernália das causas, deve pesar bem o seu voto porque todos os candidatos (salvo Ventura, que todavia em cinco dos sete dias da semana é socialista na economia) sofrem em maior ou menor grau destas escaras no corpo são do recto pensar, mas nem todos têm a vontade de respeitarem os limites que a Constituição põe ao exercício dos seus poderes, e que os transforma em reis constitucionais a prazo.

Além de Marques, há três com potencial para ganharem, e são eles o Almirante, Ventura e António José Seguro.

Marques é apresentado como tendo uma vasta experiência política, implicitamente se querendo dizer que isso é uma grande vantagem. Tem, é inegável, mas de rodilhices, leva-e-trás politiqueiro, manobras, declarações e discursos, tudo pilotado pelo apalpar ansioso do pulso da opinião pública, tentando sempre agradar ao maior número e passar a mão pelo dorso do patrioteirismo. O Professor serviu-nos disso durante dez anos, seria desejável que, escarmentados, não fôssemos acabrunhados com mais dez do aluno.

Do Almirante ouvem-se declarações sobre tudo e um par de botas, e o tudo é um chorrilho de banalidades que se destinam a comprar o centrão eleitoral, para o que veste o seu activo para a corrida: uma farda e o seu brilhante desempenho como enfermeiro-mor da Nação. Porém: A farda não desqualifica ninguém para o exercício de funções mas também não qualifica; e a capacidade para liderar uma task-force para um programa que foi apresentado como um desígnio nacional que justificava o atropelo de várias liberdades constitucionalmente garantidas assegura que o Almirante tem condições para comandar um submarino por baixo do Ártico ou liderar uma missão humanitária no Sudão, mas só isso. Ser o pináculo do Estado e árbitro do jogo constitucional de poderes é outra coisa.

Ventura não é candidato à presidência da República mas à visibilidade que lhe dará a campanha. E, se ganhasse, seria uma grande desgraça para a crescente massa de apoiantes do Chega porque nem o Presidente pode liderar um partido nem este tem segundas figuras que se possam afirmar como primeiras. Poder-se-ia julgar que Ventura, na presidência, daria um suplemento de alma a algumas mudanças que o Chega encarna e que são necessárias. Mas quem tem poderes legislativos é sobretudo a AR, e quem os tem executivos é o Governo. E são portanto esses órgãos, e não a presidência, agentes da mudança. Depois, a função, por muito que Marcelo a tenha desvalorizado, tem uma componente de gravitas da qual Ventura não dispõe.

Resta António José Seguro. Deu sobejas provas de independência porque não hesitou em subordinar as suas possibilidades de êxito na carreira política às suas convicções, pelo que não foi um áulico de Sócrates; de soldado disciplinado porque tendo sido injustiçado não veio para a praça pública esbracejar contra os que (como Costa) o esfaquearam; e de modéstia porque nunca cultivou obsessivamente a presença na comunicação social. É inequivocamente um homem sério e talvez seja um homem bom, ainda que muitíssimo chato. Não faz mal, quando falar muda-se de canal na certeza de que enquanto vemos um filme ele está a cuidar de não fazer, nem dizer, asneiras.

É socialista e o PS vai apoiá-lo? Sim, a perfeição não é deste mundo, e ademais o apoio é pouco sincero. Mas não será um obstáculo às mudanças que maiorias e governos legítimos queiram operar; não acredito que seja no palco pessoa diferente da que é nos bastidores; não se toma por homem providencial; e, sobretudo, não acho que leve para Belém o seu PS de sempre.

Tem algumas companhias sulfurosas, como a pasionaria do asneirol Ana Gomes? Tem.  Mas não deixo de ir a um restaurante que serve bem lá porque na clientela há alguns indesejáveis.

Para mim, até mais ver, isto basta. E, se ainda aparecer outro melhor, cá estou.

* Publicado no Observador

É isto que nos espera?

Sérgio de Almeida Correia, 16.05.25

404734863182e39d2f25defaultlarge_1024.jpg(créditos: Rádio Renascença/Homem de Gouveia/LUSA)

O Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo não deixa a mais pequena margem para qualquer dúvida.

O modo como foi conduzido o caso dos militares que estavam em serviço no NRP Mondego, pelo então Chefe do Estado-Maior da Armada, hoje pré-candidato e – se as sondagens estiverem certas e não surgir um candidato decente da sociedade civil – futuro Presidente da República, Henrique Gouveia e Melo, com uma inacreditável sucessão de atropelos à legalidade, a múltipla violação de direitos fundamentais dos arguidos, o desrespeito por normas de cariz constitucional, numa questão que, em bom rigor, numa perspectiva jurídica, era de lana caprina, e a defesa que de todos esses atropelos se fez "com unhas e dentes" não augura nada de bom para o sossego dos portugueses e a garantia de futuro bom desempenho do mandato presidencial.

Os vícios procedimentais, a que o senhor almirante deu acolhimento enquanto Chefe do Estado-Maior da Armada, são tantos e tão graves que os senhores juízes concluíram escrevendo que "[a] nulidade da decisão sancionatória disciplinar por vícios do procedimento, obsta à apreciação e qualificação do comportamento dos militares da Marinha descrito nos autos e à (in)validade da subsunção normativa que lhe será inerente, bem como, consequentemente, prejudica a aferição da legalidade substancial das sanções aplicadas".

Uma perfeita borrada, não tenhamos medo da contundência de algumas palavras, imprópria de um Estado de direito, que alguns iludidos, outros desvirtuados e espúrios interesses, se preparam para apoiar fechando os olhos a tudo o mais.

Nem todos os que dizem viver com Deus no dia a dia chegam a santos. E alguns não são nada recomendáveis, em especial se se apresentarem de avental a rigor.

Vale por isso a pena ler na íntegra o acórdão do STA, de 30/04/2025, proferido no Processo 0121/24.4BCLSB, cuja ligação aqui fica.

Pelo menos ficamos todos a saber com o que iremos contar e não haverá razão para depois se queixarem das escolhas que fizerem. 

Posso ter simpatia por uma pessoa, até ver nela uma pessoa cordata, educada, discreta, competente para muitas funções.

Porém, para se ser Presidente da República, num Estado de direito democrático, não basta não ser corrupto, e dizer meia-dúzia de banalidades para a populaça, ter boa apresentação e saber alinhar a tropa na parada. Para os discursos ou as vacinas. Convém, e não apenas, interiorizar os valores constitucionais, legais e políticos e ser capaz de respeitá-los sempre, em todos e quaisquer momentos.

Ainda mais quando se é militar, se exercem as mais altas funções de comando e se tem de ser um exemplo para os outros perante circunstâncias adversas. 

É nestas, aparentemente pequenas, coisas, e não valerá a pena por agora falar de outras, mas que contendem com a vida de todos, que se distinguem os grandes líderes e se vê quem não serve para determinadas funções, independentemente das escolhas serem livres e do veredicto popular ter de ser sempre respeitado.

No erro também há que ter humildade. E assumir que se errou para se poder avançar. E sobre isto ainda não ouvi do senhor almirante uma única palavra.

 

Nota: O que aqui fica não quer dizer que qualquer um dos outros candidatos, conhecidos ou que andam a ameaçar vir a sê-lo, atirando moedas ao ar, mereça o mais pequeno crédito, ou benefício da dúvida, para a função. São todos demasiado maus para que se possa, sequer, imaginá-los em Belém.

Nota 2: Confirma-se. Mais um naufrágio a caminho, tal como aqui referido.

Porquê em Janeiro?

João Pedro Pimenta, 19.01.21

Admito que fosse difícil, ou mesmo legal e constitucionalmente impossível, alterar as datas das eleições presidenciais para mais tarde. A questão é: porquê em Janeiro? Por causa do prazo da tomada de posse do Presidente? Isso não é alterável? Recordo que as primeiras eleições presidenciais tiveram lugar em Junho (de 1976). E que há uns anos, as autárquicas, que eram tradicionalmente em Dezembro, passaram a ser em Outubro também com o argumento, se não estou em erro, do frio. Então porquê essa obstinação em manter estas eleições no mês mais gélido? Decididamente, a república e os seus actos de afirmação não ajudam nada.

Tenham juízo

José Meireles Graça, 11.09.20

Um amigo socialista pouco carregado (isto é, cor de rosa pastel e não choque), há dias ecoava uma colega de profissão que se queixava de que o PS, não obstante o cartaz de progressista, feminista e modernaço, não apoiava uma mulher para a Presidência. E dava-lhe razão, lembrando o descaso a que foi votada Maria de Belém nas últimas eleições, a benefício de uma completa nulidade palavrosa, qualificação minha, como Sampaio da Névoa (não, não grafei mal).

A queixa é sintomática. O mulherio anda nervoso e, se até há pouco se limitava a querer igualdade para níveis semelhantes de competência, agora reclama a obrigatoriedade de quotas em lugares de direcção, para já em empresas públicas e privadas cotadas, salvo erro, depois em grandes privadas e finalmente em todas, que não há cá ninhos. Se forem de esquerda, as queridas não precisam de desculpas, é imperioso impor justiça, igualdade e mais um par de botas até que as empresas fiquem de joelhos, altura em que devem ser salvas pelo Estado, pelo expediente de as nacionalizar. Se forem, ou se dizerem, de direita, há que rapar de um dos estudos – há dúzias – que demonstram, preto no branco, que em havendo mulheres na direcção, e não apenas homens, o desempenho da organização ganha com isso. Claro que, com interesse e recursos, se podem fazer estudos a demonstrar o contrário e até o contrário do contrário – pessoas ingénuas julgam que os estudos se fazem para entender o real, e não para o modificar, e que a distinção entre correlação e causalidade é fácil de estabelecer, ou que essa preocupação sequer existe; e que na escolha dos factores que influenciam um determinado fenómeno se selecionam os mais relevantes.

Elas votam, são maioria, e as pessoas que andam na política, e não simplesmente a comentam, têm as orelhas arrebitadas e o olho arregalado para topar a tendência. E a tendência é essa – mulherio a bem ou a mal, e se o resultado for que apareçam umas cómicas a asneirar, como a querida Jo, nada de mais: cómicos a asneirar é o que nunca faltou.

Depois, já há países onde o apoio à mulher foi mais longe, e onde menos pesam os handicaps daquela condição (maternidade, sobretudo) e as adoradas, donas da liberdade de escolher sem excessiva penalização financeira, fogem de certas profissões tipicamente masculinas e escolhem outras, que não eram para ser, mas afinal são, tipicamente femininas.

Esclareci o meu amigo, ou melhor, a amiga dele, que com justiça não me ligou pevas, que o PS não é misógino, mas nem Maria de Belém nem agora a pasionaria Gomes, de Estremoz, davam garantias ao regedor do PS de não lhe tolherem as mãos. Elas não, mas Marcelo sim. Daí que o PS apoie Marcelo, não venham cá com teorias da conspiração. E, com o coração apertado por ter defendido o PS, fui rezar um Acto de Contrição, e julgo-me absolvido.

Bem bem, temos portanto duas mulheres candidatas, que se dá o caso de serem duas abominações:

Marisa é uma carta batida e rebatida do Bloco, uma agremiação que os comunistas justamente desprezam por ser de revolucionários de pacotilha, e o resto do país, salvo alguns jovens e outros eternamente, por lhe parecer que os dirigentes têm acne, nas trombas ocasionalmente bem giras e nas ideias;

E Ana Gomes, que tem banca montada no negócio do combate à corrupção, que quer combater a golpes de declarações bombásticas, sempre poupando o principal agente facilitador da corrupção no país, que é o Estado omnipresente, e os seus camaradas, que entende terem, como o seu admirado Sócrates, um par de asas nas costas. Isto e causas sortidas, incluindo internacionais, decerto por achar que como usa sapatos de salto não se nota que se está a pôr em bicos de pés.

Restaria, para gente com a cabeça em cima dos ombros, Marcelo e o candidato da IL. E corre por aí uma tese peregrina segundo a qual a vitória de Marcelo é uma vitória da direita porque este, no segundo mandato, vai mostrar as suas credenciais de PPD e pôr o PS em sentido.

Claro que não vai. Para isso seria preciso que não fosse, mas é, um socialista que vai à missa, como Guterres, que aliás diz admirar, Deus lhe perdoe, e que tivesse para o país alguma ideia que vá além do ar do tempo e da preservação da estabilidade, que confunde com a sua popularidade, julgando ambas valores a defender.

Lá popular é – Cristina Ferreira também. E estabilidade tem garantido – a estabilidade da mediocridade que tem feito Portugal deslizar com pertinácia para os últimos lugares do desenvolvimento na UE. Mas o caderno de encargos para um Presidente que fosse eleito pelo Parlamento, com a Geringonça, desenharia Marcelo. Porquê então a maçada de uma eleição directa, e ainda por cima com a possibilidade, mesmo que remota, de a duas voltas?

Sobra o candidato da IL, que ninguém conhece (nem eu, e mais talvez devesse, por ser do Porto e circular em meios que não me são alheios) e precisava, para vencer a falta de notoriedade, de ter uma personalidade espectacular e abrasiva, ou alguma espécie de auctoritas, que julgo não tem. E, voltando ao princípio do post, é homem, que o diabo o carregue.

Então, tiro algum coelho da cartola? Tiro sim senhor, embora dele ninguém se tivesse lembrado e, por razões várias, incluindo o ser tarde, ninguém se vá lembrar.

Assunção Cristas não deixou, como dirigente do CDS, grandes saudades: por falta de consistência em algumas posições, por uma direcção errática, por parte do eleitorado ter dado à sola para o Chega e a IL, e por não ter sabido calçar os sapatos de Portas, que de toda a maneira ficariam sempre apertados ou largos.

Nada que a desqualificasse para fazer uma boa candidatura à Presidência. Não se lembraram decerto, os que a apearam, porque se a achassem muito boa não a tinham apeado, e os outros porque entenderam talvez que a sua derrota era demasiado recente ꟷ e de toda a maneira muitos não a apreciariam excessivamente.

Porém, eles são eles e eu sou eu, que me estou bem nas tintas para uns e outros.

E talvez, senão com toda a certeza, Marcelo seja invencível, como um cantor reles que vende muitos discos.

Mas haverá alguém que, sem ter a alma ancorada à esquerda, ache que Assunção não seria mulher para se medir com uma bloquista com a cabeça cheia das caraminholas da seita, e uma socialista com modos, e opiniões, de justiceira de Freamunde? Tenham juízo.

France partout

João Pedro Pimenta, 23.04.17

Lá pelas 19:00, mais minuto menos minuto, teremos as primeiras projecções dos resultados da primeira volta das presidenciais francesas. Às 19:45 começa o superclássico Real Madrid-Barcelona, em que os "merengues", treinados pelo antigo craque francês Zinedine Zidane, tentarão dar a estocada final no rival da Catalunha, essa região vizinha de França. Não há por onde escapar: dê por onde der, hoje todas as atenções se centram em franceses ou aparentados.

Do «presidente de todos os portugueses» a Marcelo

José António Abreu, 22.01.16

1. Intróito com auto-citação

Permitam-me recuperar parte de um texto pré-histórico (bom, de Julho de 2009):

O conceito de «presidente de todos os portugueses» é, pelo menos na forma como habitualmente surge, um logro. Nenhum presidente representa «todos os portugueses» no sentido de ter que agir como cada um deles deseja. Seria, aliás, impossível. Não pode também pretender-se que represente os portugueses que elegeram o governo acima dos que o elegeram a ele. (Aconteceria se permanecesse em silêncio perante todas e quaisquer medidas do governo.) Também não é, como muitas vezes se defende, um «árbitro». Se o papel do presidente fosse apenas arbitral, bastar-lhe-ia conhecer as regras «do jogo» (definidas na Constituição) e a ideologia seria irrelevante, uma vez que não decidiria em função dela. Aliás, pura e simplesmente não decidiria e elegê-lo configuraria um contra-senso: poderia ser nomeado ou até sorteado entre os portugueses. Um presidente é eleito depois de apresentar um conjunto de posições e de convicções e deve presidir em função delas. Obviamente, não tendo poder executivo deverá procurar consensos com o governo e só o afrontar quando achar indispensável fazê-lo. Mas tem o direito de o fazer. Mais: tem o dever. Em função das suas próprias convicções, cada cidadão decidirá então se ele está ou não certo. Mas não o pode criticar por falar.

 

2. Candidatos de quase todos os portugueses

Mantenho a opinião: «presidente de todos os portugueses» é um conceito que só faz sentido como tentativa de impedir que os presidentes manifestem posições de centro-direita. Após observar a campanha nestas últimas semanas - com uma traumática excepção, de relance, que o meu sistema imunitário anda frágil - devo, no entanto, admitir a existência de «candidatos de quase todos os portugueses». Não por defenderem ideias claras mas altamente consensuais (seria impossível) mas por procurarem agradar a gregos e a troianos; por apresentarem platitudes com ar de quem apresenta soluções; por tentarem parecer assertivos enquanto evitam comprometer-se com medidas e cenários concretos. E, se quase todos os candidatos são culpados disto, é forçoso reconhecer que nenhum o fez com tanto denodo como Marcelo Rebelo de Sousa.

 

3. Os snobes de esquerda têm razão e o pessoal de direita é estúpido?

A esquerda, cosmopolita por inerência, tende a classificar os indivíduos que não concordam com as suas ideias (i.e., todos aqueles à direita do centro-esquerda) como retrógrados, trogloditas e/ou simplesmente estúpidos (mas como é que 38% dos portugueses ainda votaram na coligação PSD-CDS?). Olhando para a forma como Marcelo desprezou o eleitorado de centro-direita, considerando-o no bolso, dá vontade de admitir que, pelo menos no que concerne à parte da estupidez, a sobranceria da esquerda se justifica. À primeira vista, só a estupidez dos eleitores de centro-direita parece explicar que, após uma campanha decorrida inteiramente no terreno da esquerda, sem um único candidato a defender posições como o primado da liberdade de escolha dos cidadãos, a responsabilidade fiscal do Estado ou a necessidade de assentar a redistribuição numa economia capaz de a suportar, eles ainda se dêem ao trabalho de ir às urnas. Porém, embora lhes fosse certamente agradável poder um dia votar numa pessoa (ou num partido) com quem estivessem de acordo em todos os assuntos fundamentais, os eleitores de centro-direita são, acima de tudo, pragmáticos. Encontram-se habituados a escolher o mal menor - e ainda assim a perder quase sempre, nem que seja na secretaria.

 

4. O mal menor, portanto

Na era pós-4 de Outubro de 2015, ao centro-direita (e por conseguinte, na minha opinião, ao país) só interessam eleições quando existir uma razoável probabilidade de PSD e CDS conseguirem maioria absoluta. Sampaio da Nóvoa estaria disponível para as convocar na altura mais conveniente para António Costa. Maria de Belém estaria disponível para as convocar na altura mais conveniente para o PS (e, por conseguinte, para Costa). Marcelo deverá manter uma política de não-hostilidade em relação a Costa (porque se dá bem com ele e porque - inteligentemente - não desejará ser acusado de força de bloqueio) mas, não obstante toda a sua inconstância, tenderá menos a permitir-lhe manobrar os timings. Pagaremos uma factura elevada mas é necessário deixar António Costa governar - até ficar evidente que, com a ajuda dos parceiros de «geringonça», leva (de novo) o país na direcção do abismo.

 

5. Por exclusão de partes e por cansaço

Ponderei seriamente votar em Henrique Neto, o único candidato que assumiu algumas posições com as quais concordo. Não o farei por dois motivos:

a) O pesadelo que seria ter Belém ou - credo - Nóvoa na Presidência (as hipóteses de qualquer deles ganhar na segunda volta parecem reduzidas mas – pragmatismo acima de tudo – mais vale não arriscar);

b) O desejo de terminar com este circo deprimente tão depressa quanto possível.

Votarei pois em Marcelo Rebelo de Sousa.

Os debates presidenciais.

Luís Menezes Leitão, 06.01.16

Dos debates presidenciais que até agora vi fiquei com uma conclusão óbvia. Estas eleições presidenciais são as mais tristes da história da democracia e a esmagadora maioria dos candidatos poderia seguramente fazer alguma coisa mais útil como, por exemplo, ir cultivar batatas em lugar de andar a recolher 7.500 assinaturas apenas pelo prazer de ocupar o espaço mediático numa candidatura presidencial completamente inútil.

 

Tem-se visto de tudo. Um candidato abandona um debate em directo, desrespeitando o compromisso com a televisão, apenas porque o tempo de antena que lhe deram não foi aquele que desejava. Outro candidato discursa sistematicamente contra a corrupção, parecendo que ainda não percebeu que o lugar em disputa não é o de procurador-geral da república. Outro candidato promete, imagine-se, alterar a constituição, competência que o presidente não tem, a qual é obrigado a jurar cumprir e fazer cumprir no acto de posse. E outro candidato passeia o seu habitual estilo gongórico, dizendo coisas de um absoluto vazio, como a de que é preciso "um tempo novo". E chegamos a assistir a debates em que os candidatos estão de acordo em tudo, sem que ninguém lhes pergunte se nunca pensaram em desistências recíprocas.

 

Os jornalistas moderadores assistem normalmente a este triste espectáculo com enfado e perplexidade, nada questionando a candidatos que manifestamente não têm nada de relevo para dizer. A excepção tem sido Rodrigues dos Santos que tem colocado aos candidatos algumas perguntas que devem ser feitas. No debate entre Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto, ficou claramente à vista, por mérito deste último, a vaguidade total e a absoluta ausência de ideias de Nóvoa. Rodrigues dos Santos fez-lhe apenas algumas perguntas concretas, como qualquer jornalista tem o dever de fazer. Parece que por isso uma apoiante de Nóvoa apresentou uma queixa na ERC, demonstrando assim que os apoiantes de Nóvoa acham que os jornalistas estão nos debates como figuras de corpo presente, e que questionar o seu candidato já passou a ser crime de lesa-majestade.

 

Eu só peço a Deus que esta eleição presidencial acabe já à primeira volta. É que não há santo que aguente aturar mais duas semanas disto.

O candidato menos mau.

Luís Menezes Leitão, 11.12.15

Não concordo nada com a análise que o Luís Naves faz da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, considerando-o uma "personalidade com indiscutível carisma e conhecimento do país". E muito menos acho que Marcelo seja "capaz da moderação e da equidistância", ou "alguém que dê garantias de confiança e firmeza, de um presidente colocado ao centro, capaz de negociar com as diferentes forças, proporcionando entendimentos entre elas".

 

Pelo contrário, acho que Manuel Maria Carrilho disse tudo quando o qualificou como "ex-líder partidário, ex-candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, ex-ministro, etc. (tudo funções em que, aliás, nunca se destacou especialmente), titular de uma homília pastoral dominical, no telejornal nacional de várias televisões, como se cada minuto lá passado não estivesse ao serviço de ambições políticas pessoais, óbvias para todos". Como ele bem diz, durante os últimos 15 anos a sua actividade limitou-se a um comentário televisivo, que constituiu "uma humilhação constante da mais elementar ética jornalista, com comentários combinados, exibição de cachecóis futebolísticos ou oferta de leitões bem temperados, à mistura com a mostra de livros nem sequer folheados, perante o silêncio e a impunidade gerais!". Mas o que interessa é aparecer na televisão, já que, como uma vez disse Emídio Rangel, a mesma tanto pode vender sabonetes como fazer eleger o presidente da república.

 

Que moderação e equidistância pode oferecer Marcelo aos outros líderes partidários? Passos Coelho já o qualificou como "um catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político". Com Paulo Portas são conhecidos os velhos litígios desde a história da vichyssoise. Agora o PSD e o CDS aparecem a recomendar o voto em Marcelo, mas como justificação apresentam apenas o "equilíbrio político". Importam-se de repetir? Para Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, Marcelo nada representa. Só António Costa parece ter alguma proximidade com Marcelo, o que, deve dizer-se, não o recomenda nada em termos de equilíbrio político. Aliás, com a conhecida habilidade de Marcelo em criar factos políticos, receio que o palácio de Belém se torne o maior foco de instabilidade de que há memória em Portugal. 

 

Apesar disso, eu vou votar em Marcelo Rebelo de Sousa. E a explicação é simples. Reside nos outros candidatos que se apresentaram. Perante um candidato folclórico, sem qualquer currículo político, e que todos os dias nos mimoseia com disparates, uma candidata lançada por uma ala do seu partido, sem mais nada que a recomende, e dois candidatos de partidos da extrema esquerda, que apenas pretendem cumprir os mínimos, é óbvio que eu só poderia votar em Marcelo. Mas não me venham dizer que ele é o melhor candidato. É apenas o candidato menos mau.

As presidenciais.

Luís Menezes Leitão, 13.08.15

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 Os dados parecem já estar claramente lançados para as presidenciais. À direita o despique vai ser entre Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio. Neste jogo Santana Lopes é apenas um entertainer e de Alberto João Jardim nem vale a pena falar. Mas esse despique está adiado para depois da legislativas. Marcelo aposta numa derrota da coligação que o possa fazer surgir como o candidato presidencial destinado a vingar essa derrota. Já Rui Rio espera, pelo contrário, que uma vitória o catapulte para a eleição como o candidato preferido de Passos Coelho. Neste último quadro, é possível que Marcelo nem sequer se apresente, uma vez que sempre pretendeu chegar num andor a Belém, em lugar de concorrer numa eleição disputada. Mas se as sondagens lhe continuarem a ser tão favoráveis, é possível que os seus próximos o convençam a não desperdiçar a oportunidade de uma vida. Não é por isso de excluir a existência de duas candidaturas à direita nas presidenciais.

 

Na esquerda, as coisas estão muito mais complicadas. Independentemente da vitória ou da derrota do PS, parece evidente que vai haver três candidatos socialistas às presidenciais: Sampaio da Nóvoa, Henrique Neto e Maria de Belém. António Costa parece que vai forçar o apoio do PS a Sampaio da Nóvoa, mas só tem para dizer dele que é um candidato próximo da família socialista, e que lhe merece muita estima, não se revendo na caricatura esquerdista com que tem sido apresentado. O que se passa é que uma caricatura acentua os traços mais visíveis da personagem e os traços de Sampaio de Nóvoa colocam-no muito mais à esquerda do que o discurso tradicional do PS. Apoiá-lo em 2016 é equivalente a se o PS tivesse apoiado Otelo em 1976 ou Pintasilgo em 1986. Espanta por isso esse apoio, perante dois candidatos do PS com muito mais currículo político e maiores hipóteses de vitória. Comparado com eles Sampaio da Nóvoa é apenas um candidato mais à esquerda, mas é sobretudo um zero à esquerda. 

 

O que pode levar então António Costa a querer apoiar esse candidato, por comparação com um senador respeitável e com provas dadas no mundo empresarial, como Henrique Neto, ou com uma antiga ministra e presidente do PS, com largo apoio na sociedade civil, como Maria de Belém? A resposta é simples. Nenhum desses dois candidatos é próximo de António Costa, pelo que não se deixaria manipular por ele em Belém, enquanto que Sampaio de Nóvoa não tem sequer peso político para exercer uma magistratura de influência. Por isso, António Costa prefere arriscar uma derrota nas presidenciais, a ter em Belém alguém do seu partido que lhe pudesse fazer sombra. Por outro lado, tem boas relações com Marcelo e com Rui Rio, pelo que julga preferível relacionar-se com eles em Belém.

 

O raciocínio de António Costa está a ser semelhante àquele que Sócrates teve com Cavaco, quando preferiu deixar eleger um presidente da área contrária, em lugar de alguém do seu próprio partido, mas que não fosse da sua confiança, como Manuel Alegre. Viu-se o que aconteceu depois.

O candidato.

Luís Menezes Leitão, 22.07.14

 

Depois de ter ouvido Passos Coelho dizer que um dos motivos da sua deslocação ao Sri Lanka foi reconhecer o trabalho extraordinário da AMI, tive a certeza que isso significava da sua parte uma manifestação de apoio para Fernando Nobre também se candidatar às presidenciais. Mais uma vez Passos Coelho insiste na estratégia TMMRS (Todos Menos Marcelo Rebelo de Sousa), e não pára de lançar sinais de abertura para todos os candidatos e mais alguns que o possam impedir de ver Marcelo em Belém. Só que escusava de se deslocar ao Sri Lanka para esse efeito, num gasto desnecessário para os contribuintes. Uma simples declaração pública de apoio em qualquer lugar do Portugal profundo, que depois do seu governo está hoje em dia tão necessitado da AMI como o Sri Lanka, chegaria.

 

Como não poderia deixar de ser, Fernando Nobre respondeu prontamente ao apoio de Passos Coelho. O homem que em tempos tinha dito que se não lhe dessem um tiro na cabeça iria para Belém, acaba de declarar que está vivo, não tem 100 anos, e portanto vai para Belém. Depois de Santana Lopes no sábado, agora com o avanço de Fernando Nobre, já temos assim dois candidatos presidenciais na mesma semana, ambos carinhosamente apoiados por Passos Coelho. Não há dúvida de que estas presidenciais prometem.

 

Entretanto, para aumentar a confusão, Passos Coelho acaba de declarar que espera que os candidatos se assumam, não exclui que possa surgir mais do que um à direita, e propõe que o PSD fique à espera um ano sem decidir quem apoia. A este ritmo, daqui a um ano já teremos perdido a conta aos inúmeros candidatos presidenciais do PSD. Será que a estratégia TMMRS também passa por deixar António Guterres chegar a presidente?

O candidato.

Luís Menezes Leitão, 19.07.14

 

Resulta claramente desta entrevista que Santana Lopes não pensa noutra coisa a não ser em candidatar-se a Belém, no que parece ter pelo menos o ámen de Passos Coelho, que continua a apostar teimosamente na estratégia TMMRS (Todos menos Marcelo Rebelo De Sousa). Neste enquadramento, o lugar de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que misericordiosamente foi atribuído a Santana, seria apenas um estágio para que ele pudesse adquirir uma imagem de simpatia social, após o que transitaria para Belém. Claro que Passos Coelho preferiria Durão Barroso, mas não estando este disponível, prefere naturalmente apostar em Santana do que deixar Marcelo avançar.

 

A questão é que esta estratégia foi claramente posta em causa pelo avanço de António Guterres. Efectivamente António Guterres secou completamente o espaço à esquerda, tanto assim que António Costa, mal soube desse avanço, mergulhou logo nas absurdas primárias do PS em vez de se guardar para Belém. Neste espaço apenas Marinho Pinto pode conservar algum eleitorado, se conseguir manter o seu discurso populista e contra a classe política, que tantos votos lhe trouxe nas europeias. Já os candidatos da esquerda tradicional cederão naturalmente o lugar a António Guterres.

 

A questão é que António Guterres entra também muito no eleitorado da direita, com o seu catolicismo social e com o facto de ter sempre resistido a entrar nas questões fracturantes, em que o PS se fracturou logo após a sua saída. É por isso que na área da direita só alguém com o perfil de Marcelo Rebelo de Sousa lhe poderia dar alguma luta. Durão Barroso percebeu isso e afastou-se logo da corrida presidencial. Já Santana Lopes, pelo contrário, acha que Guterres "não é imbatível" e que até seria "altamente estimulante" enfrentá-lo.

 

Santana Lopes tem um problema com as eleições presidenciais, semelhante à percepção que ele tem do seu governo, e que ele próprio quis expor no seu livro de 2004, et pour cause chamado Percepções e Realidade, na altura objecto destes dois fabulosos sketches dos Gato Fedorento. Na sua percepção, o seu governo foi óptimo e foi uma grande injustiça ter sido derrubado por Jorge Sampaio. A realidade é que o seu governo foi o pior da história da democracia portuguesa, e se há alguma coisa a censurar a Sampaio — e a Durão Barroso — foi precisamente o terem permitido que ele tomasse posse. Já em relação às presidenciais, ele tem a percepção de que, passados dez anos do seu governo, e com o seu currículo na Santa Casa, tem condições de bater Guterres nas eleições. A realidade é, no entanto, que nem com mais cem anos na Santa Casa Santana conseguiria ultrapassar Guterres na área social, e que tem tantas hipóteses de ser eleito presidente como a torre Eiffel de dançar o samba. Mas, conhecendo a teimosia de Passos Coelho, é muito provável que venha a ser ele o candidato presidencial do PSD. 

Rumo à Presidência.

Luís Menezes Leitão, 12.04.14

 

Tudo o que tinha escrito aqui sobre a candidatura de Durão Barroso à Presidência da República com o apoio simultâneo do PSD e do PS acaba de ser confirmado por esta curiosa conferência promovida pela Comissão Europeia em Lisboa, intitulada "Portugal: Rumo ao Crescimento e Emprego", mas que melhor se poderia chamar: "Barroso: Rumo à Presidência". Depois da elucidativa entrevista ao Expresso, parece que Durão Barroso já arrumou definitivamente os papéis como Presidente da Comissão Europeia, cargo em que se destacou por uma total ausência de intervenção, e dedica-se agora com afã a promover a sua candidatura presidencial. De facto, é incompreensível que o Presidente da Comissão Europeia tenha feito o ataque que fez ao Vice-Presidente do Banco Central Europeu, sem que o seu Presidente e o próprio Banco tivessem dito a mais leve palavra sobre o assunto. E também é incompreensível que a Comissão Europeia organize uma conferência com claro significado político em Portugal nas vésperas das eleições europeias, com a presença do próprio Presidente da Comissão, que tem um claro dever de neutralidade sobre as questões políticas internas do seu país. Mas a conferência realizou-se e agora é preciso ver o seu significado político.

 

Este significado é claro. Já se sabia que o PSD de Passos Coelho iria apoiar Durão Barroso nas presidenciais, por muito que Marcelo Rebelo de Sousa proteste na TVI ou leve os militantes às lágrimas nos Congressos. Agora ficou a saber-se que há um claro endorsement de Cavaco Silva a Durão Barroso, que pretende ver como o seu sucessor no cargo. Foram especialmente comoventes estas palavras carinhosas de Cavaco: "Posso testemunhar, como poucos, a atenção que o doutor Durão Barroso sempre prestou aos problemas do país e a valiosa contribuição que deu para encontrar soluções, minorar custos, facilitar apoios e abrir oportunidades de desenvolvimento". Fica-se a saber que Cavaco já escolheu o seu Delfim. Só é pena que os portugueses também possam "testemunhar, como poucos", a forma como Durão Barroso tratou o país, deixando um Governo em colapso com a sua ida para Bruxelas, e ameaçando recentemente que estaria o caldo entornado se não cumprissem as suas determinações. Mas reconheço que Cavaco tem razão quando diz que "Portugal e os portugueses muito lhe devem". Não só devemos como estamos a pagar todos os dias os empréstimos que a troika nos concedeu, mesmo que isso nos deixe só com pele e osso.

 

Mas o que foi elucidativo na conferência foi a reacção do PS. Ao contrário da restante oposição, que não quis estar presente, "PS recebeu convite para assistir e deu liberdade a cada deputado para fazer o que entender". Conforme já tinha anunciado, parece claramente estar a desenhar-se a preparação de um governo de Bloco Central, para depois da queda de Passos Coelho, aparecendo, como contrapartida do apoio do PSD ao PS, o apoio deste a uma candidatura de Durão Barroso a Belém. Para isso o PS só tem que tirar António Costa do caminho, mas isso é fácil. Não é por acaso que o PS anda a reclamar nos últimos tempos o direito a nomear o próximo Comissário europeu. O PSD pode perfeitamente oferecer-lhe a nomeação de António Costa, o que permitiria tirar já do terreno alguém que poderia ameaçar simultaneamente a liderança de António José Seguro e a eleição de Durão Barroso. Parece que a estratégia de Cavaco de forçar um acordo entre Passos e Seguro vai agora cumprir-se sob a égide de Durão Barroso. Les beaux esprits se rencontrent.