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Da contracultura ao mainstream

por Alexandre Guerra, em 12.06.19

Ainda a noite eleitoral das europeias não tinha terminado e, um pouco por toda a Europa, os vários staffs dos partidos percebiam, à luz dos resultados que começavam a surgir, que os temas da economia ou da migração não tinham sido os únicos vectores mobilizadores do eleitorado. De um momento para outro, como se de uma revelação tratasse, a maioria dos políticos e respectivos assessores foram confrontados com uma agenda de interesses que lhes passou completamente ao lado na campanha e que “rendeu” muitos votos para alguns partidos que começaram, finalmente, a capitalizar nas urnas a aposta feita numa área até aqui de nicho. Chegara a vez do ambientalismo e das questões climáticas, associadas à sustentabilidade do planeta Terra, ocuparem um espaço vital no sistema político da Europa. Mais do que um tema de “moda”, o ambiente consolidou-se como “agenda” e mobilizador das tão cobiçadas gerações mais novas de eleitores (mas não só).

À Associated Press, Anna Kretzschmar, uma jovem berlinense de 20 anos dizia o seguinte: “A eleição europeia foi uma eleição climática.” Esta simples frase consubstanciava um movimento efectivo na Europa, movimento esse que impulsionou os partidos “verdes” a tornarem-se no quarto maior bloco do novo Parlamento Europeu, com mais de 75 assentos em Estrasburgo, o que representa um aumento substancial face a 2014. Ironicamente, para a história destas eleições ficará a subida dos “verdes” e não o tão anunciado despontar dos populismos. Basta ver o exemplo português, onde um pequeno partido de matriz mais ambientalista e ecologista conquistou entusiasticamente um eurodeputado, obtendo comunicacionalmente ganhos evidentes, ao dominar a agenda mediática e política, obrigando mesmo, na própria noite eleitoral, alguns candidatos de outros partidos a alterarem os seus discursos para “encaixarem” à última da hora o tema ambiente. E quando aqui se menciona ambientalismo, recorrendo à definição do sociólogo Manuel Castells, falamos de “todas as formas de comportamento colectivo que, tanto nos discursos como na prática, visam corrigir formas destrutivas de relacionamento entre o homem e o seu ambiente natural, contrariando a lógica estrutural e institucional predominante nos nossos dias”.

Bastaram 169 mil votos e um eurodeputado eleito para que, literalmente de um dia para outro, o sistema político em Portugal passasse a contemplar a questão ambiental nas suas prioridades. Da esquerda à direita, todos os partidos se assumiram como eufóricos defensores do combate às alterações climáticas, quando durante décadas foram esses mesmos partidos que nunca mostraram qualquer sensibilidade ou interesse na protecção do riquíssimo e vasto património natural do nosso país. Pelo contrário, nalguns casos, foram responsáveis directos pela destruição de preciosos recursos e pela criação uma política de desresponsabilização ambiental.

O tema do ambiente entrou muito tarde no sistema político português e se a prestação do PAN nas eleições legislativas de 2014 podia ser vista como uma anomalia sistémica ou um epifenómeno, as europeias de 2019 vieram confirmar a existência de uma tendência, não só tendo em conta os resultados nacionais, mas a “onda verde” que assolou a Europa.

Na Alemanha, e embora não sendo uma novidade, o Die Grüne (Verdes) consolidou-se no sistema político, tendo duplicado o seu resultado face a 2014, tornando-se no segundo partido mais votado nestas eleições, com 20,5 por cento. Também em França, o Europe Écologie-Les Verts (EELV) surpreendeu, tendo sido o terceiro partido mais votado, com quase 13,5 por cento. Em 2014, tinham tido cerca de 9 por cento. Na Holanda, o GroenLinks teve um excelente resultado, quase 11 por cento, subindo cerca de quatro pontos percentuais em relação a 2014. Na Bélgica, os dois partidos verdes, o ECOLO e o Groen, somam mais de 15 por cento de votos, quando em 2014 não chegaram aos 11 por cento. Na Irlanda, o Green Party passou os 11 por cento. Em 2014, não chegaram aos 5 por cento. Na Finlândia, o VIHR (Liga Verde) teve uma subida abismal, passando de 9,30 por cento, em 2014, para 16 por cento. E mesmo na Áustria, onde não se registou uma grande variação, o Die Grüne manteve-se nuns robustos 14 por cento.

Embora em Portugal o protagonista dessa tendência tenha ficado muito distante dos resultados alcançados por congéneres ou similares europeus, assiste-se a uma confirmação do seu carácter mainstream e o reforço da vocação de partido de sistema, um dado particularmente relevante num país do Sul da Europa. E também por esta razão, a sua prestação teve uma amplificação sobredimensionada na imprensa internacional face ao peso efectivo do seu único eurodeputado.

A questão é que este e outros partidos trazem uma novidade ao corporizarem programas políticos centrados no relacionamento do Homem com o ambiente e natureza, em detrimento da concepção tradicional, onde a economia se assumia como o tema privilegiado de formatação para o programa de qualquer partido, fosse ele de esquerda ou de direita. Era a “submissão” da política à economia, tema, aliás, já com algum tempo e amplamente debatido. Mesmo a problemática da migração tem surgido quase sempre associada às questões económicas, tais como a usurpação de postos de trabalho ou a falta de mão-de-obra nos países desenvolvidos – mais recentemente, associada também aos temas da segurança, mas nunca numa óptica de enquadramento nas sociedades de origem, para a procura de modelos que permitam o desenvolvimento sustentável nessas zonas do globo e, assim, fixarem as suas populações.

Estes partidos que agora afirmam a sua força no espaço europeu representam novas tendências de pensamento, novos hábitos sociais, novas formas de cultura. Para muitas destas pessoas, sobretudo os mais jovens, há uma “desmaterialização” (pelo menos aparente) da sociedade, na qual o princípio da “submissão” da economia ao ambiente é naturalmente aceite. Ou seja, assiste-se a uma inversão da equação das escolhas individuais e de cidadania em função do ambiente e não da economia.

Estes partidos inspiram e pretendem alterar hábitos de consumo e tendências sociais, tendo, pela primeira vez, um considerável bloco político para poder produzir ou condicionar legislação europeia nesse sentido. Muitos dirão que esse processo potenciará ingerências no campo das liberdades individuais. Talvez tenham razão, mas esta “onda verde”, ou “quiet revolution”, como lhe chamou o The Guardian, vai muito além do activismo ambiental idealista e romântico que mobilizou vários grupos e associações nos anos 60 e 70, alguns deles de cariz mais radical e fundamentalista. Há uma sofisticação no modelo de pensamento destes partidos, nos seus programas, onde o social e a economia se enquadram numa arquitectura ambientalista.

Quando olhamos para movimentos como a Greenpeace, criada em 1971, mais conhecida pelas suas espectaculares acções, mas ainda durante a década de 60, onde muitos fenómenos ambientalistas e ecologistas surgiam com pendor de contracultura, percebemos essa evolução, que tem como base movimentos sociais (alguns com origens nos finais do século XIX), que viriam mais tarde a conquistar “uma posição de destaque no cenário da aventura humana”, como referiu o sociólogo Manuel Castells no volume II da sua imensa obra A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultural. Diz o mesmo Castells, numa posição já com alguns anos, mas perfeitamente válida, que “a política verde não parece ser um tipo de movimento por si só, mas sim uma estratégia específica, isto é, a entrada no universo da política em prol do ambientalismo”. Se em tempos, os movimentos ambientalistas eram “uma espécie de celebração”, como escreveu Petra Kelly, uma das primeiras políticas alemãs ambientalistas e fundadora dos Verdes, o primeiro partido ambientalista a ganhar relevância sistémica a nível nacional e internacional, hoje, e depois de um longo caminho, podemos afirmar que a política ambiental é mais do que uma prática “tribal” ou de consciencialização. É, sobretudo, uma manifestação de poder inserida no quadro legislativo da Política da Cidade.

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É um tiro até às legislativas

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.19

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Há muitas formas de olhar para os resultados das eleições europeias de ontem, mas independentemente das leituras mais ou menos enviesadas que cada um faça consoante a cor da lente que utilize, há alguns factos que me parecem indesmentíveis.

Começando pela abstenção, que tanta celeuma tem provocado, dir-se-á que o que aconteceu confirma a tendência dos últimos anos, agora com a agravante de que se verificou um alargamento do universo eleitoral. Recorde-se que em 1999, 2004, 2009 e 2014 a percentagem de votantes por referência aos cadernos eleitorais foi, respectivamente, de 39,93%, 38,6%, 36,77% e 33,67%. Se este ano a taxa de votantes se tiver fixado nuns míseros 31,4%, isso só significa que o problema persiste sem solução à vista com os actuais partidos e actores, sendo manifestamente insuficientes os apelos do Presidente da República ou dos líderes políticos para que ocorra uma inversão da tendência.

A abstenção em Portugal é de há muito superior à média europeia, sem que os partidos se preocupem verdadeiramente com isso, e voltou a sê-lo. Os portugueses só querem saber da Europa se daí lhes vierem dividendos. Reflexo do espírito dos tempos e do mercantilismo político e moral.

E se há quem tenha ficado em casa para protestar contra o actual estado de coisas, fazendo campanha por uma abstenção ainda superior à verificada, não me parece que daí se retire, ou se tenha retirado, qualquer benefício. Esses vão continuar a falar sozinhos ainda que inundem as redes sociais de invectivas ao regime, aos políticos ou à macrocefalia urbana e litoral.  

Quanto aos resultados obtidos, embora houvesse quem quisesse que os portugueses mostrassem nas eleições europeias um cartão amarelo, laranja ou vermelho ao Governo, assim antecipando a formação de uma onda que culminaria nas legislativas de Outubro próximo, o certo é que são o Governo e António Costa que saem reforçados. 

Com uma abstenção maior ou menor, visto que com o seu aumento é a legitimidade de todos os partidos que fica penalizada, e não apenas a dos partidos no poder, a leitura que houver de ser feita tem de cingir-se aos números. E, quanto a estes, é incontestável que foi o PS o grande vencedor das eleições. Qualquer que seja o critério utilizado. Não vale a pena inventar. Se em 2014 a vitória do PS ainda tinha sido “poucochinho”, em 2019 mais do que duplicou a diferença em relação ao segundo mais votado (PSD). Se antes a diferença era de cerca de 4 pontos, ontem fixou-se em quase 11,5%. Será difícil transformar isto numa derrota, mas daqui até uma maioria absoluta vai um longo caminho. 

Por outro lado, se Pedro Marques era uma má escolha para cabeça-de-lista, e eu considero que não era a ideal por diversos motivos (políticos e de estilo do próprio candidato), então as dos partidos da oposição foram um desastre completo. A escolha de Paulo Rangel era natural que tivesse o resultado de ontem. Não mudei um milímetro de opinião sobre o que dele pensava em 2010. E o resultado voltou a ver-se nas urnas. Há coisas que não se disfarçam. A gente não é estúpida. Rui Rio pode, pois, começar a fazer as malas para largar o barco em Outubro, se não quiser ser atirado borda fora, mais a sua tralha, a que herdou e a que levou para lá, pois que ou me engano muito ou o banho vai ser ainda maior. 

Nuno Melo, um político empenhado e que deixara boa imagem no Parlamento nacional antes de rumar a Bruxelas, optou por mudar o registo. Sempre que possível cavalga a onda populista e hortícola, cometendo algumas gaffes pelo caminho para poder ir dando o braço à líder do CDS/PP, cujo discurso, cada vez mais histriónico, correndo ao sabor do que ouve nas feiras e desfasado da realidade, só podia dar bons resultados junto das velhinhas que saem da missa dominical ou frequentam os convívios da linha do Estoril. Os ataques ad hominem contra António Costa nos encontros quinzenais não lhe trouxeram quaisquer proveitos e deram-lhe cabo de uma imagem em tempos moderada e sensata. Se o CDS/PP ainda não consegue voltar a caber todo num táxi, pelo menos já pode dividir um Uber com o PAN. Isto é, enquanto este não precisar de mais espaço para acomodar todos os vadios e descontentes que legitimamente vai recolhendo. Ao contrário do PAN, cujo resultado se pode considerar espectacular (de 1,72 sobe para 5,08%), e que poderá vir a ser consolidado com a eleição em Outubro de pelo menos mais um deputado, ao CDS/PP não se vislumbra grande futuro com a actual direcção. Os sinais de exaustão são evidentes. A sua bancada parlamentar já pouco se distingue da do PCP em falta de imaginação e veterania.

Nas eleições de 2009, PSD e CDS somavam 40,07%. Em 2014, coligados na Aliança Portugal, os dois partidos atingiram 27,73%. Este ano, pese embora o aumento de quase um milhão e meio de eleitores e o desgaste dos partidos do governo, os dois partidos não passaram de 28,13%. Isto deve querer dizer alguma coisa.

Quanto ao BE duplicou a sua votação (de 4,56% para 9,82), aproximando-se dos valores de 2009 (10,72). Foi bom, duvidando eu que este valor possa de algum modo ter confirmação em Outubro. O mais provável é vir a ser penalizado nas legislativas pela diminuição da abstenção, pelo voto útil e pelo “caso Robles”. A memória ainda está fresca.

Em descida acelerada rumo ao abismo está a CDU. Passar de 12,69% para 6,88% é obra, constituindo mais um sinal do esclerosamento do discurso do partido (os tais de Verdes só existem para a fotografia), como que a provar que não é por lá porem uns “jovens” que se disfarça o “centralismo democrático”. Os vícios são incorrigíveis. O PCP continua a pensar que é possível mudar o povo em vez de mudar o seu discurso, as suas políticas e os seus rostos. Os vícios transportam-se de geração em geração. É indiferente ouvir Jerónimo, Bernardino ou João Ferreira. Com lentes embaciadas e riscadas, bem podem colocar umas armações tipo “Ray Ban”, mais modernaças e coloridas, que o resultado é o mesmo. Vêem o que viam antes, os resultados são medíocres, e atirar as culpas para os outros só serve para se enredarem ainda mais no discurso madurista. 

Os restantes partidos e forças políticas concorrentes continuam a ser quase inexistentes. Registe-se o desastre eleitoral do Aliança, cujo futuro poderá vir a ser decidido nas legislativas, talvez de todos os resultados o menos previsível atento o resultado obtido pelo PAN. 

Quanto aos restantes concorrentes mostraram a sua inexpressividade, admitindo-se que alguns figurões, entretanto, a esta hora já tenham descido à terra e regressem às suas vidas sem mais traumas.

Uma nota final: uma reedição dos resultados europeus do PS e do PAN, depois do Verão, pode baralhar as contas de uma nova “Geringonça”. Convém ter em atenção o que entretanto poderá acontecer.

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A escolha

por jpt, em 27.05.19

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1. As "europeias", tal como as autárquicas - estas particularmente nas grandes cidades -, costumam ser utilizadas pelo eleitorado como voto punitivo dos governos, contestação ou aviso. Em 2014 PSD e CDS conduziam o governo que tomou as medidas mais impopulares desde o início dos anos 1980s, devido aos espartilhos impostos pelo resgate financeiro. Nesse âmbito tiveram um resultado eleitoral fraco. Rio, e outras figuras do PSD, aligeiram o que aconteceu ontem, comparando os resultados e afirmando um crescimento eleitoral. É um mero aldrabismo que traduz duas coisas: cegueira política; desonestidade pessoal dos locutores. A primeira conduz a más estratégias políticas, a segunda enfastia os eleitores. Tudo junto? Leva a mais e maiores derrotas. Ou seja, não basta saber falar alemão para se ter sucesso na política nacional.

2. A trapalhada do CDS e do PSD no recente caso dos professores mostra dois partidos à deriva. Cristas auto-encantou-se com um relativo sucesso nas autárquicas de Lisboa, possibilitado pela efectiva desistência do PSD. E desapareceu desde então: alguém sabe o que o CDS pretende? E sobre a Europa, além de lugares-comuns, e da feira gastronómica do parque bruxelense Cinquantenaire, alguém sabe as concepções actualizadas e rumos do CDS? Alguém tem um "link" para um texto, programático ou de imprensa, produzido pelas actuais elites daquele partido - que teve dirigentes como Adriano Moreira, Lucas Pires, Ribeiro e Castro e Paulo Portas -, que valha algo? De facto, o CDS é sociologicamente um partido de elites mas não as tem. É um vácuo.

Do PSD de pouco valerá analisar: quem conhece o partido resmunga a teia de clientelismos na qual o partido se insere há décadas, e as formas perversas da sua organização interna - a antes célebre "distrital de Lisboa" é disso um caso paradigmático, como por vezes se alude na imprensa. É um partido depauperado, mostra-o a sua plastidade a presidentes como Luís Filipe Menezes, Marques Mendes e este Rui Rio. E um partido desnorteado - e disso exemplo escatológico é ver Carlos Moedas elogiar vigorosamente António Costa e seu governo, quinze dias antes das eleições. O PSD é sociologicamente um partido de massas mas começa a não as ter. Está a esvaziar-se.

Há uma coisa interessante para perguntar: os partidos representam interesses particulares na sociedade, enfatizam a defesa de interesses e vontades parciais (é por isso que são "partidos"). Isso é normal e salutar, ainda que a retórica habitual consagre o vínculo aos "interesses nacionais", como se não houvesse uma normal conflitualidade e até contraste entre os grupos constitutivos da sociedade. Ora, sendo assim, que interesses sociais representam o CDS e o PSD? E como o fazem? Melhor perguntando, até porque estão tão esvaziados intelectualmente que a questão se coloca: como é que os reconhecem?

3. O PS ganhou com esta lista de candidatos. Que é fraca, sem figuras relevantes e/ou reconhecíveis, populares, mas acima de tudo por uma razão: encimada por três governantes de Sócrates, com ele coniventes do pior período da II República. Um deles o braço-direito daquele perverso secretário-geral. Pedro Marques tem, pelo menos, uma grande qualidade pessoal: não tem jeito para campanhas políticas, não é um encantador (um "charmeur"), não tem "carisma" (essa qualidade inqualificável). Parte da oposição - e os humoristas do regime - utilizaram o engraçadismo, essa patetice pequeno-burguesa, para o gozar, aviltar. Que é feio, que parece o Noddy, que parece o Mr. Bean. São uns parvos. Ou, como está agora na moda, por via de um dos piadísticos do reino, "não sabem estar". 

O governo não é bom: não há reformas, não há efectivo desenvolvimento, não se aproveita eficazmente uma conjuntura internacional favorável. A carga fiscal é enorme, a austeridade continua, os serviços públicos engasgam-se. A gestão das problemáticas políticas é muito má: catastrófica no caso dos fogos, patética no caso dos roubos nas forças armadas, espantosa de preguiçosa no caso, verdadeiramente estrutural, da substituição da PGR. Enfim, um governo de cabotagem e uma má lista eleitoral: e uma grande vitória. 34% nestas europeias? E com os professores (e suas famílias) a resmungar? O PS vai beijar os 40% daqui a 4 meses, recuperando os tais habituais votos (ou abstenções) de protesto nas eleições europeias. 

4. O BE e o PAN sobem, e muito. O impacto das questões ecológicas marca a subida do PAN (o qual apoiei nas legislativas - pois Passos Coelho discursou aos jovens anunciando Dias Loureiro como exemplo, e isso para mim é crime lesa-majestade. Mas o qual me desiludiu com as leizinhas para os "pets", que me parecem mostra de um grupo burguesote com pouca densidade. Mas talvez me engane ...).

O BE sobe porque funciona. Tem uma candidata que cativa - pois é genuína (o que não é sinónimo de cândida). Tem aquela coisa do "carisma" (a tal qualidade inqualificável). E o BE consegue passar a imagem que representa interesses. Teve Robles, mas Robles há em todos os partidos que vão ao poder, é histórico. E a sua direcção (Catarina Martins et al) teve reacção estuporada, precocemente anquilosada, a esse caso. Mas ainda teve - e porventura porque é, de facto, uma coligação - a energia interna para se depurar. No dia seguinte ao conhecimento público da malandrice roblesiana, Luís Fazenda (a UDP) pontapeou a tese da "cabala da direita" e exigiu a auto-depuração. E não vemos isso, essa introspecção, em nenhum outro partido. Vale ouro.

5. Muita abstenção? Instalem-se outras formas de votar. O Estado serve-nos e não o contrário. Que abandone a posição hierática, essa que implica que nós temos que nos dirigir até ele, e sob tutela (como o mostra o anacrónico "dia de reflexão"). Que venha o Estado em busca dos votos. (Também) Voto electrónico - se se pode pagar impostos e contas qual a razão de não se poder votar?; assembleias de voto nos mercados; votações às sextas e sábados.

As instituições europeias são opacas. "Porreiro, pá" disse Sócrates a Barroso ou vice-versa, numa cimeira lisboeta que sublinhou essa opacidade - ainda que Barroso, que todos criticam, ter então feito um discurso extremamente crítico da deriva consagrada naquele rearranjo, o que parece que ninguém ouviu. Os partidos não combatem essa opacidade. O senhor presidente da república auto-retrata-se, em potlatch de narcisismo, e nisso despolitiza a sociedade, ou o intenta.

comunicação social - ela própria em crise - "comenta", com gente que há décadas perora sem particular viço ou capacidade analítica, o que ainda confunde mais e potencia o afastamento dos eleitores da vida política. Uns porque são avençados e disso dependem - vi no youtube, via fb, um excerto do "Eixo do Mal" onde Clara Ferreira Alves dizia, há algum tempo, "aqui no programa só nos enganámos numa coisa, não acreditámos no que se dizia sobre Sócrates, julgámos que era uma campanha da direita". Ou seja, um conjunto de fazedores de opinião política "não viram" o dado mais importante das últimas duas décadas nacionais. E continuam a fazer opinião, pagos para isso, a influenciarem a classe média. Ontem parece que Sousa Tavares, um já decano, tantas são as décadas em que "faz opinião", a dizer que os votantes do PAN são "urbano-depressivos". As pessoas percebem a incompetência analítica, a pura "cagança", que a utilização da velha expressão dos anos 1980s (Joy Division para a frente) mostra? E é este núcleo que ocupa a (decadente) televisão no comentário político.

Fazer regressar a população ao voto passa pela renovação dos quadros políticos - e não só por apear Cristas (e Melo) e o infausto Rio. Mas passa também por renovar a informação, os fazedores de opinião.

6. Não há extrema-direita em Portugal, tirando aquele núcleo do MIRN e seus descendentes, que nunca cresceu. Nisto sim, é caso para dizer "porreiro, pá".

7. António Costa é um grande vencedor, hábil na condução política como não há ninguém na política portuguesa. José Sócrates é passado. Mas não será julgado. Nem Ricardo Salgado. Como diz Marcelo Rebelo de Sousa, presidente e agente, "o país opta por não optar". 

Um dia isto melhorará. A gente já cá não vai estar para ver. 

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A abstenção eleitoral

por jpt, em 26.05.19

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Ainda a tarde mal começou e já leio vários lamentos sobre a quantidade de abstencionistas, o alheamento e a ignorância dos eleitores face a estas (e outras) eleições. Quereis combater a abstenção? Depurai-vos de essencialismos, de purismos sobre a política. E que cada votante - após ter cumprido o seu direito cívico (e não dever cívico, como palram os estatistas) - receba um simpático (e parco) vale de compras oferecido pelas empresas das "grandes superfícies". Vereis como a abstenção cairá, e muito significativamente.

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A eleição dos desconhecidos.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.19

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O primeiro número do Expresso, saído em Janeiro de 1973, informava que 63% dos portugueses nunca tinham votado. Era a demonstração cabal de como os portugueses encaravam a farsa que eram as eleições no Estado Novo. Agora, nas vésperas de uma eleição para o Parlamento Europeu, o Expresso informa que 69% dos portugueses não sabem o nome de nenhum eurodeputado. É a demonstração cabal de como os nossos eurodeputados andam afastados dos eleitores. Na verdade, a esmagadora maioria limita-se a fazer campanha aqui no burgo de cinco em cinco anos, para depois rumarem a Bruxelas para um longo mandato, durante o qual não se ouve falar deles. Deve ser por isso que nesta campanha só se falou de política nacional. A política europeia está longe e, se ninguém sequer conhece as personagens, como é que pode perceber o enredo da história? Depois admirem-se com a abstenção.

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1.º A LIGAÇÃO AO PS DE SÓCRATES: Pedro Marques foi Secretário de Estado da Segurança Social dos governos de Sócrates. Como António Costa e outros que este recuperou para o executivo actual, Marques não viu nem indícios de conduta criminosa, nem sinais de que o caminho trilhado levaria à bancarrota. Num país decente, nenhum partido ousaria propor uma solução governativa com a galeria de caras velhas e comprometidas com o passado de que Pedro Marques faz parte. Da mesma forma, nenhum partido decente proporia para cabeça de lista um candidato com tal passado. É ocioso referir a conclusão que se tiraria sobre a natureza do PS se partíssemos desta premissa para construir um silogismo elementar.

2.º PEDRO SILVA PEREIRA: valem aqui todas as considerações do ponto anterior, sublinhadas por ainda mais veemente indignação. Não é por acaso que todos os candidatos da lista do PS em lugares elegíveis estiveram já em acções de campanha. Todavia, não há registo de um momento de participação de Pedro Silva Pereira numa arruada, numa reunião, num almoço. Nada. Compreende-se. Tal como o PS, eu próprio teria vergonha de pedir a alguém para votar numa lista em que Pedro Silva Pereira aparecesse em 3º lugar. Ao contrário do PS, eu teria igualmente vergonha de o incluir numa lista.

3.º A MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO COMO FORMA CORRENTE DE FAZER POLÍTICA: enquanto Marques foi Ministro do Planeamento e Infraestruturas, o Ministério utilizou uma forma de comunicação absolutamente desvinculada da realidade. Ficaram célebres as inaugurações não de obras, mas de concursos de lançamento de obras. Sistematicamente, o Ministério de Marques levantou poeira não para assentar fundações, mas para intrujar a opinião pública. Marques foi recentemente acusado de algum grau de cumplicidade com as operações de intoxicação protagonizadas, a soldo de Sócrates, pelo blogue Câmara Corporativa. Coincidência ou não, os métodos utilizados pelo Ministério de Marques foram os mesmos.

4.º AS CATIVAÇÕES E O INVESTIMENTO PÚBLICO: como nenhum outro, e contando com a permissividade dos parceiros da Geringonça, o governo de António Costa desrespeitou o Parlamento e as regras da democracia ao fazer do Orçamento de Estado um documento vazio e sem qualquer valor político, completamente subalternizado às cativações decididas pelo Ministro das Finanças. Pedro Marques, enquanto Ministro das Infraestruturas, foi o ponta de lança complacente desta abordagem, sendo o principal responsável pelos níveis absolutamente ridículos de investimento público registados desde que o governo entrou em funções.

5.º A DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS ESSENCIAIS: como consequência directa da situação descrita no ponto anterior, serviços fundamentais como o transporte ficaram absolutamente condicionados com a conivência de Pedro Marques. Os utentes da CP, apenas para falar dos mais sacrificados, foram brindados nos últimos anos com um calvário de atrasos, maus serviços e supressões. Não é por acaso que Pedro Marques realizou acções de campanha em composições da Fertagus, mas nunca pôs os pés num comboio da CP.

6.º O DESPREZO PELO PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE POLÍTICA: a tragédia dos incêndios, Tancos ou Borba como expoentes de uma visão em que o poder político desaparece de cena deixando os cidadãos entregues à sua própria sorte. No caso de Borba, Pedro Marques chegou a declarar que existia uma estrada alternativa. Não era de esperar outra coisa. Se virmos bem, a responsabilidade foi dos que morreram que podiam ter escolhido outra via e insistiram em utilizar a que ruiu.

7.º O NEPOTISMO: a lista de candidatos às Europeias, apesar da tentativa de passar entre os pingos da chuva nesta matéria, não foge à regra da endogamia que tem sido amplamente documentada no PS. Maria Manuel Leitão Marques, a nº 2 da lista, é casada com Vital Moreira. Margarida Marques, a nº 4, é casada com Porfírio Silva, uma das eminências pardacentas do partido. Não se trata de questionar individualmente nenhuma destas pessoas. Trata-se de constatar que também aqui há casos de família que se somam às dezenas de outros que vão desde os gabinetes do governo até à Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa.

8.º A CALÚNIA COMO INSTRUMENTO DE CAMPANHA: num tweet publicado há umas semanas, Marques acusou Paulo Rangel, em quem não votarei, de “não fazer o trabalho no Parlamento Europeu”. Concretamente, afirmava que o que se “conhece do seu trabalho é um relatório legislativo e um relatório não legislativo” e que Paulo Rangel estaria “num brilhante lugar 597 entre os mais de 760 (sic) deputados”. Existe realmente um ranking que avalia os Eurodeputados pela sua actividade no PE. O score global é calculado a partir de um algoritmo que tem em conta diversos itens (questões escritas, moções, relatórios, etc.). Ora, Rangel está, de facto, na posição 597 no item “relatórios”. Todavia, o score global de Rangel, que engloba toda a actividade relevante desenvolvida, coloca-o na posição 150. Rangel fica assim bem à frente, por exemplo, de Pedro Silva Pereira que não foi além do lugar 298. Mais, se consideramos o score global da totalidade dos Eurodeputados portugueses, Rangel está em 6º, à frente do melhor socialista (Maria João Rodrigues) que ocupa o 8º lugar. Marques sabia perfeitamente que tudo isto é assim, mas não se coibiu quer de publicar a informação de forma enviesada, quer de repeti-la posteriormente.

9.º A CHANTAGEM DE COSTA: independentemente da maior ou menor hipocrisia das posições de PSD e CDS a propósito da contagem do tempo de serviço dos professores, o certo é que António Costa quis promover uma crise artificial, baseada numa vitimização despropositada, visando condicionar a opinião pública e tendo também como objectivo as eleições Europeias. Votar em Pedro Marques é validar uma visão em que a golpada e a chico-espertice são um modo de relação admissível com os eleitores.

10.º OS OUTROS CANDIDATOS: nestas eleições não faltam alternativas políticas e, em geral, os candidatos apresentados pelos outros partidos são, ao contrário do que aconteceu com o PS, merecedores de crédito junto do respectivo eleitorado natural. João Ferreira, Marisa Matias, Paulo Rangel, Ricardo Arroja, Rui Tavares ou Paulo Sande constituem escolhas consistentes e viáveis. O próprio Nuno Melo, passando pouco tempo em trabalho parlamentar, tem a vantagem de não estragar muito. Neste contexto, o eleitor, colocado perante a possibilidade de votar na lista do PS, deve perguntar a si mesmo se merece o enxovalho de contribuir para eleger Pedro Marques e Pedro Silva Pereira.

 

* publicado na edição de Maio do Dia 15.

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O Homem Invisível

por Rui Rocha, em 22.05.19

A propósito da aparição de Passos Coelho em campanha, registe-se que o embaraço do PS não é só o de Sócrates ser um ex-líder inapresentável em público. Na própria lista de Pedro Marques há um homem invisível. Os outros candidatos socialistas aparecem em arruadas, em encontros, falam, existem. Já o nº 3 nunca se vê, tamanha é a vergonha.

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Zapping.

por Luís Menezes Leitão, em 21.05.19

Ontem estava a passar na RTP um debate entre os principais candidatos às eleições europeias. Achei esse debate tão maçador que mudei imediatamente de canal, passando a assistir a um filme sobre um comboio desgovernado. Fiquei a pensar que esse canal tinha decidido apresentar uma metáfora sobre a forma como estão a decorrer estas eleições em Portugal e na Europa.

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O PS e as criancinhas

por jpt, em 14.05.19

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Ricardo Arroja e outros membros do novo partido Iniciativa Liberal fizeram um passeata eleitoral acompanhados dos filhos, ainda crianças. Sujeitados a tais acções posso presumir que alguns dos infantes venham a crescer marxistas-leninistas, mas isso será questão das famílias ...

O deputado Porfírio Silva, tornado mais conhecido pelo afã com que declarou que Passos Coelho utilizava a gravíssima doença da sua mulher para ganhar simpatias eleitorais,  e militante de um PS que contrata estrangeiros recém-chegados para engrossarem as "massas" nas suas arruadas (como agora irritantemente se chamam a estas acções de propaganda), reagiu, viçoso, contra essa presença infantil. 

Pedro Marques, o antigo secretário de estado de Sócrates - e também fonte obscura de bloguismo anónimo remunerado, assim promotor da rede então ainda manufacturada de "fake news" lusa, germinada em torno do blog Jugular -, ministro deste actual governo, e agora alcandorado a "cabeça-de-lista" eleitoral,  logo se associou ao incómodo do atento Porfírio Silva. Pois, e contrariamente ao que se poderia deduzir, estas crianças não são filhos dele.

Tudo isto é muito giro (assim mesmo, sem aspas). 

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"Se não fossem Costa e Mário Centeno, o País estava destruído", diz este bispo na entrevista à Visão. Como se já não bastasse que o Presidente da República beije o anel do pescador, e também os cardinalícios - significando submissão, a da República que representa, claro -, vem agora um bispo botar faladura política ... Imagine-se o falatório que seria se um qualquer prelado viesse, a 15 dias de eleições ainda por cima, elogiar a Dra. Cristas, presidente de um partido democrata-cristão? Ou assim outro, também da malvada direita neo-liberal, populista, afascistada, como, por mero exemplo, o ex-presidente do Sporting Santana Lopes, que lançou um partido que não vai viçoso, ou mesmo aquele rapaz que não gosta de ciganos e que diz "basta" ou "chega" ou coisa parecida? 

E, claro, a revista Visão foi fazer o número habitual da campanha eleitoral. Cá se fazem, que serão pagos ...

* Adenda: vi esta entrevista partilhada no suporte FB, por um ex-confrade bloguístico, normalmente muito atento, certeiro e assertivo. Julguei-a de agora mesmo. Afinal é de 2018, decerto que se enganou o referido ex-confrade (e político no activo), incompetente distraído fui, segui-o e nem atentei na data da publicação. Na caixa de comentários chamam-me a atenção para o facto. Ou seja, comprova-se a percepção deste veterano bloguista: não se deve blogar à noite enquanto se convive com o Queen Margot (ou similar). Restam-me algumas hipóteses: apagar o postal, o que não seria aleivosia pois ele pertence-me; modificar ("editar" como dizem os anglicistas) o postal; ou deixá-lo assim, com adenda esclarecedora, pois o relevante é que um bispo não deve falar assim, nem um presidente andar a subjugar-se aos curas. Escolho a terceira posição, modificando-lhe apenas o título.

 

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Andam a brincar com a tropa

por jpt, em 06.05.19

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O tempo voa, a vida dilui-se. Sem que eu tenha verdadeiramente percebido como isto aconteceu, neste próximo Verão cumprir-se-ão 30 anos que me apresentei em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, chamado "às sortes" para o então vigente Serviço Militar Obrigatório ("às sortes" é como quem diz, de facto "aos azares" - no edital, consultado na junta de freguesia de São Jorge de Arroios, a folha onde constava o meu nome tinha um rol de dezenas de mancebos, 25 ou 50 não posso precisar. E dessa lista eu fora o único recrutado, o chamado "azar nítido").

Enfim, lembro-me disso por causa desta "crise política" antes das eleições europeias. Percebo, por ler apoiantes de vários partidos, que o que provocou tudo isto deve ser matéria bem difícil de perceber: as pessoas dizem coisas tão diferentes sobre o que aconteceu que não parecem partilhar a mesma visão do mundo, ou mesmo nem sequer viver na mesma dimensão. Ou então o fenómeno é mesmo complexo, não tão escorreito como aparenta ser. Na minha modesta (e distante) condição pouco mais me ocorre do que a velha expressão, que tanto ouvi durante o referido serviço  militar - já a conhecia mas tornou-se-me mais familiar desde que fui porta-de-armas adentro. Pois muito me cheira que esta rapaziada política (ou alguma dela) "anda a brincar com a tropa".

Como em breve são as eleições europeias e a(lguma)s pessoas tendem a votar, talvez seja interessante reflectir sobre o assunto. Muita gente vota com o coração, o conforto identitário, algo transcrito na habitual expressão "eu sou do partido ..." e explícito na ausência da formulação "o meu partido é o ...": as pessoas "são" dos partidos (ou das direitas/esquerdas), não "têm" ou "estão com" partidos. O uso da língua mostra bem o predomínio do tal conforto identitário, da  passividade acrítica, na política, em detrimento da acção política consciente, crítica e, como tal, algo volátil. E muita gente vota com a bolsa, na expectativa (ingénua) de que determinado partido facilite o percurso do seu grupo socioprofissional (grupos que em tempos foram ditos "corporativos").

Enfim, face a isso, e devido à efeméride que se me aproxima, lembro-me do que aprendi na tropa. Em primeiro lugar, que não há obediência cega ("sagrada", como pobremente perorou o dr. Varandas, quando se candidatou a presidente do Sporting): há obediência funcional, as ordens são para cumprir mesmo que não se concorde com elas. Mas nesse caso pede-se autorização ao superior que as está a comunicar para reportar essa discordância a um seu superior imediato, algo que ele está obrigado a conceder. Chama-se a isso, em linguagem civil, percebi-o na primeira noite de recruta quando disto fui informado, "Estado de Direito".

Em segundo lugar aprendi a superlativa importância da higiene e do relativo aprumo (e se a primeira me vinha "do berço" confesso que o segundo nunca me fora, nem depois me ficou, motivo de grande militância): e lembro o sacaninha do camarada de beliche, não só incapaz de fazer bem a cama (e lá estava o Teixeira para lhe acabar o trabalho) como também algo relapso ao uso de shampoo, deixando marcas na fronha, as quais faziam as iras do caricatural capitão e do exultante alferes, e que sobre mim logo recaíam pois imputando-me a incapacidade de obrigar o morcãozito a lavar-se com o arreganho devido. Em terceiro lugar não que a tenha aprendido, mas constatei a relevância máxima do item "rusticidade", a minha melhor nota no curso (entenda-se, não tinha jeito nenhum mas não fazia ronha).

E em quarto lugar, e é isso que convoca esta memória castrense, aprendi a importância pragmática de estudar a documentação distribuída. Entenda-se, estudar o regulamento e o manual, compreender os valores fundamentais, perceber a lógica e decorar os detalhes, e saber utilizá-los: saber ler uma carta militar (não havia gps, claro), conhecer as insígnias (galões e divisas), etc. Um tipo vive melhor (na tropa) se aprender tudo isso. Pois não só o chateiam menos como o seu destino é melhor: "estudem, tirem boas notas, pois os piores classificados vão para as ilhas. E voltam de lá casados!", foi o pedagógico conselho gritado e perdigotado desde a primeira formatura na primeira noite, e bastas vezes repetido. E o medo de vir a cair nas teias e garras das pérfidas ilhoas acicatavam o esforço memorizador noite afora, apesar da exaustão provocada pela malícia do oficialato que nos empurava acima e abaixo por aquela malfadada Tapada de Mafra.

De tudo isto me lembro diante das eleições europeias. Não que tenha de tratar das fronhas de um qualquer camarada eleitor mais lerdo, ou de obedecer a um alguém que me obrigue a fazer jogging de modo abrasivo nos parques de Bruxelas para me por em forma antes de me apresentar diante da urna eleitoral, nem tenho que me aprumar em viçoso sentido quando ouço uma corneta "às horas" (um som e momento que é a maior - talvez única - nostalgia castrense que me ficou) para assegurar a condição de eleitor. Mas sim daquilo de estudar um pouco a documentação distribuída, para seguir em frente. Ainda que não haja o tal "regulamento" ou qualquer "manual".

Por isso, ainda que seja trabalho insuficiente, me dediquei a dois testes relativos ao posicionamento de cada um face às políticas na União Europeia, e que estão bastante interessantes, ainda que sejam, evidentemente, pouco mais que curiosidades: 

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Este EUandI (realizado pelo European University Institute e pela Universidade de Lucerne): são 22 perguntas, às quais quem responde atribui um grau de maior ou menor relevância, o qual possibilita que cada um se situe face às posições programáticas apresentadas  pelos partidos portugueses, bem como por todos os partidos europeus, e possibilita ainda situar-se face às posições globais apresentadas pelos partidos de cada país. Permitindo ainda situar os partidos (e o perfil das respostas) face a algumas áreas temáticas. Para exemplificar, os países onde as propostas dos colectivos partidários mais articulam com as minhas respostas, tendo em conta a ponderação da importância que atribuo a cada questão, são: 1º Checa, 2º Eslováquia, 3º Alemanha ...5º Bélgica-Flandres ... 10º Bélgica-Valónia ...12º Portugal. E o partido europeu que delas é mais próximo é o Partido Pirata Checo (belo nome) e a seguir o Spolu eslovaco. Na Bélgica são os Democratas-Cristãos Flamengos e o Movimento Reformador (valão). E em Portugal os programas partidários mais próximos são o do PSD e o do CDS, e os mais distantes o do MRPP e o do PCP.

E este You Vote EU, 25 perguntas, organizado num sítio patrocinado pelo European Union’s Rights, Equality and Citizenship Programme (2014-2020). Este também proporciona a articulação com os diferentes partidos europeus (e, é óbvio, os compatriotas). Mas tem ainda um atractivo, o de que a ponderação da relação se faz com os deputados em exercício, através da comparação com as votações que realizaram sobre os temas do questionário. O que se faz também para os concorrentes, mas nestes casos, claro que em função das declarações programáticas sobre os assuntos. Para ilustrar no meu caso o candidato português mais próximo das minhas respostas é Ricardo Arroja e o segundo é Marisa Matias - engraçado, há dias aqui disse que votaria ou no partido de confrade blogal João Gonçalves (Aliança) ou no da candidata Marisa Matias, pois esta me é simpática, e logo me vieram resmungar a falta de "coerência", essa moeda falsa vendida pela partidocracia. E quanto aos partidos portugueses o que me é mais próximo neste teste é o BE e o mais distante é o PSD. Mas em termos de coligações europeias o mais próximo é o "Reformistas e Conservadores Europeus" e o último os "Verdes".

Alongo-me nestes detalhes para salientar que não é em testes destes que um tipo encontra a "resposta" para quem é (politicamente), mas que são cartas para encontrar similitudes, obscurecidas pelo jogo retórico do "uns" contra os "outros". Similitudes a sopesar, particularmente porque namoram mal com as efectivas práticas políticas da tal rapaziada. Essa que "brinca com a tropa". E por isso assim fica o postal, na aparência desconexo mas que para mim faz sentido. Esse sentido de se ir votar sob uma atitude bem para além daquela do "sou do partido X".

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Eleições Europeias

por jpt, em 20.04.19

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Leio que "Tiago Moreira de Sá, o homem que Rui Rio escolheu para as Relações Internacionais, sugeriu que a França convidasse “todas as religiões a participarem na reconstrução da Catedral, fazendo dela um exemplo de tolerância e de diálogo inter-religioso”.  Nunca ouvira falar do homem em questão, mas fico pasmado - e nem me vou dar ao trabalho de teclar para explicitar o porquê e o quão. Apesar de esperar tudo da "classe política" indígena ainda duvido que tamanha atoarda tenha sido proferido por quem acampa naquele "camping", e vou confirmar. Confere, o homem patacoou mesmo isso.

A minha questão nem é sobre as declarações, sintomáticas de vera patologia. É apenas esta: é possível votar num partido que escolhe gente desta para os cargos de liderança? As pessoas minimamente equilibradas conseguem votar nisto?

(Declaração de interesses: eu ainda não decidi o sentido do meu voto, mas não é essa dúvida que conduz este postal. Ainda assim, para não se julgar que há "agenda" escondida neste postal, explicito que oscilo entre a lista da candidata Marisa Matias e a do candidato João Gonçalves. São razões intelectuais e sentimentais minhas, as pessoas são livres de as criticar. Mas não são livres, se sob alguma honestidade intelectual, de comparar esses candidatos a este Moreira de Sá e a quem o alcandora a postos partidários relevantes).

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Laços de Ternura

por jpt, em 06.04.19

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Em Portugal vejo que muitos discutem os vínculos de parentesco (consanguinidade, afinidade, afectividade sexual) do pessoal governativo. Sorrio. Pois as eleições europeias estão à porta e a lista PS repete este candidato, um tal de Silva Pereira, punho direito de Sócrates - haverá maior parentesco do que ser a dextra de alguém?

O problema será o da filha do ministro, a namorada do outro ou o capitão amante do rapazola dos direitos do consumidor? (Ou que "nos tempos" de Cavaco tudo fosse assim também?). É um problema, sim, mas não o problema. É muito mais estes silvaspereiras (e os marques e leitãomarques, outros governantes de Sócrates enfileirados para o parlamento europeu). É um partido de gente sem o mínimo ... apoiada por gente sem o mínimo.

Hoje mesmo inaugura a exposição "Para Além de Bruegel" (Pieter, o Velho), celebrando-o por ocasião dos 450 anos da sua morte. A uma "distância caminhante". Daqui onde estou a teclar. E do parlamento, secção Bruxelas, para onde serão enviados estes silvaspereiras. E os patrícios, lá no rincão? Discutem as namoradas alheias, as do tempo do Cavaco e as actuais. E votam no Silva Pereira.

Aqui Bruegel. Lá óbvio Bosch.

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As pessoas podem simpatizar ou não com Rui Tavares e/ou com o seu agrupamento político. Independentemente disso - eu, por modesto exemplo, fico sempre com "pele de galinha" diante desse MES new age -, vale ler este seu artigo sobre o can-can de Paulo Rangel,  candidato nº 1 do PSD nas listas para o Parlamento Europeu, como já o fora nas últimas eleições. 

Se houvesse algum tino no prezado eleitorado (uma utopia, a gente sabe), um artigo destes, letal, faria mossa nas aspirações rangelianas e dos da sua igualha, hipócritas que vão. Entenda-se, um pontapé nas eleições. Mas como não há, esse tal utópico tino, lá será ele - e mais alguns da sua inestimável (sim, "inestimável") estirpe - eleitos para o vai-vem Estrasburgo- Bruxelas.

A mim não fará grande mossa: aqui só vejo "casacos azuis" - o inconfundível uniforme dos tugas doutores - no vizinho "Tiago's". E aproveito a desculpa da imperial ali custar o dobro do que custa no meu "Ponto de Encontro" - sítio aprazível que me faz sentir como se em ... Maputo ou nos Olivais - e nunca lá vou. Entenda-se, evito aquilo mesmo por causa dos "casacos azuis", raios partam os Rangéis e companhias ilimitadas.

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O bocejo das europeias.

por Luís Menezes Leitão, em 13.02.19

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A capacidade de renovação da nossa classe política é demonstrada pelas listas ao Parlamento Europeu.

O PSD apresenta novamente como cabeça-de-lista Paulo Rangel, repetindo o mesmo candidato de 2009 e 2014. Para que a lista tenha algum sangue novo é-lhe acrescentado Mota Amaral, um neófito nestas andanças, embora tenha tido a experiência de ter integrado o Parlamento nacional desde a ala liberal de Marcello Caetano. O CDS apresenta outra vez Nuno Melo, como já tinha apresentado em 2009 e 2014. Quanto ao PCP e ao Bloco reincidem respectivamente em João Ferreira e Marisa Matias, que já tinham sido cabeças-de-lista em 2014, mas que estão no Parlamento Europeu desde 2009. Como o cargo de deputado europeu não deve exigir muito tempo, ainda tiveram possibilidade de, durante este mandato, se candidatarem a outras eleições, Marisa Matias à Presidência da República, e João Ferreira à Câmara Municipal de Lisboa. Este último, aliás, consegue a proeza de acumular o cargo de deputado europeu em Bruxelas e Estraburgo com o de vereador em Lisboa, demonstrando a facilidade com que se podem exercer em simultâneo dois cargos públicos com 2000 km de distância entre eles.

O único partido a efectuar uma renovação das suas listas é o PS, mas bem se compreende porquê. António Costa não perdoa a qualquer desalinhado e Francisco Assis, por muito tímidas que tenham sido as suas divergências,  não se mostrou apoiante da geringonça montada pelo querido líder. É por isso o único a receber guia de marcha de volta à paróquia.

De qualquer forma o povo português já sabe para que é que servem as eleições europeias. Destinam-se a eleger 21 deputados, que irão regiamente pagos para um parlamento com poderes extremamente reduzidos e onde raramente estão. É natural por isso que as listas se mantenham imutáveis, pois deve haver muitos poucos candidatos para tão grande sacrifício. Daqui resulta que as europeias vão ser um bocejo monumental para os portugueses.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.06.14

 

«O número de eurocépticos, na Alemanha, cresce de dia para dia. Fora do euro! Fora da União Europeia! são os seus "gritos de guerra" e encontram muitos simpatizantes. O pior é que a Alternativa Pela Alemanha está muito conotada com a extrema-direita, embora se desmarque do NPD, o partido neo-nazi.

A CDU, ainda assim, venceu por causa da Merkel, ela é que foi figura de cartaz para as eleições europeias, abafando por completo o cabeça de lista do seu partido, David McAllister (sim, é alemão, mas com raízes escocesas).

É uma catástrofe que a extrema-direita tenha tido tantos votos, em certos países. Sempre me defini como sendo "de direita", mas sou franca: preferia que fossem os partidos da esquerda a face do protesto (quando digo de esquerda, não me refiro a socialistas à la Hollande -- essa anedota feita gente -- ou à la Seguro, mas aos ligados à ideologia comunista). Mal por mal, talvez fosse melhor uma modalidade moderna dos velhos comunistas, esses sim, fariam algo de diferente (penso eu).

A Alemanha, porém, nunca virará à esquerda, dando força à Die Linke (uma espécie de BE), pois está traumatizada com a experiência da RDA. Mas também não acredito que virem à direita como os franceses, porque, nesse aspeto, também estão ainda traumatizados. Muito europeus esquecem que os próprios alemães foram dos mais traumatizados com a era Hitler. Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma verdadeira expiação de pecados passados. Descendentes de nazis (alguns ligados ao extermínio dos judeus), filhos, mas principalmente netos, usam a sua profissão de jornalista ou realizador de cinema para expor as vergonhas nazis, mesmo que isso implique aceitar o passado horrendo dos seus pais/avós, passado esse mantido em silêncio pela família. É das tais coisas de que não se fala, que se atiram para debaixo do tapete. Mas há quem não pactue com essa política do silêncio. Desenterram a imúndicie, arejam os armários e sacodem os tapetes. À custa de muito sacrifício, não é fácil aceitar e expor tal passado. Quem consegue admitir: sim o meu pai/avô foi um assassino, dos piores que se pode imaginar?

E há muito quem seja contra essa maneira de denegrir a família. Mas os próprios dizem que não conseguem continuar a viver com tais segredos na alma. Pela verdade! E para que o horror não se repita!

Eu estou com eles e admiro a sua coragem!
Para quando algo do género, no nosso país, envolvendo descendentes dos pides? Quando se resolverão essas pessoas a contar o que passaram à altura da revolução, algumas ainda crianças? Não terá sido fácil. E o segredo mantém-se.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste meu post.

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Pós-eleitoral (8)

por Pedro Correia, em 31.05.14

Na semana em que o centro-direita sofre a maior derrota eleitoral de sempre, o PS celebra tal facto entrando em processo acelerado de desagregação interna.  Apesar de ter alcançado a segunda vitória nas urnas em oito meses.

Nas eleições locais, em 30 de Setembro, conquistou 150 câmaras municipais - a maior vitória autárquica de que há registo.

Nas europeias de domingo, mesmo em contraciclo com a dura penalização de que foram alvo os dois blocos políticos tradicionais à escala europeia, sobe cinco pontos percentuais em relação ao anterior escrutínio, realizado em 2009. Obtendo o terceiro melhor resultado para a família do socialismo democrático em países da zona euro.

O PS foi mesmo a única força política do centro-esquerda a registar progresso eleitoral nos países sujeitos a resgate financeiro. Contrariando o colapso dos trabalhistas irlandeses (5,3%), o quase desaparecimento do PASOK na Grécia (8% em coligação) e a derrota histórica do PSOE em Espanha (23%).

 

 

Logo, porém, se levantou um exaltado coro de notáveis. Porque entenderam que a vitória era "curta". Entre esses notáveis, estão João Cravinho, que encabeçou a lista do PS derrotada (com apenas 28,5%) nas europeias de 1989. E Vital Moreira, o cabeça-de-lista derrotado de 2009, agora amargurado com a "frustrante vitória eleitoral" socialista. E José Sócrates, que liderava o PS humilhado há cinco anos nas europeias contra o PSD de Manuela Ferreira Leite (sem coligação com o CDS). Sem então ter sentido necessidade de "clarificação" da situação interna através de um congresso extraordinário, como hoje sustenta.

O mais notável de todos é Mário Soares. Que recusou fazer campanha pelo PS, apareceu num cartaz de propaganda do Syriza (o Bloco de Esquerda grego) e surge agora a incentivar o BE, que "não deve desanimar". Depois de no Verão passado - a dois meses das autárquicas - ter ameaçado o líder socialista de enfrentar um processo de "cisão" no partido. Algo inimaginável no tempo em que ele próprio era secretário-geral e conduziu o partido a três derrotas consecutivas, nas legislativas de 1979, nas autárquicas de 1979 e nas legislativas de 1980.

Temos portanto o maior partido da oposição novamente virado para si próprio, e não para o País. Mergulhado num conflito fratricida que seguramente deixará profundas marcas internas.

Depois de duas vitórias, repito. Não de duas derrotas.

 

Entretanto, o que se passa no país real? O Tribunal Constitucional chumbou três medidas fundamentais do Orçamento do Estado já em vigor - o sétimo chumbo em pouco mais de dois anos.

Algo que, noutro contexto, faria tremer o Governo. Mas com a guerra pelo poder no PS em primeiro plano da actualidade noticiosa, o Executivo continua a passar pelos pingos da chuva.

Disse António José Seguro que a moção de censura do PCP foi um "frete ao Governo". O que não dirá ele do processo de convulsão interna em que mergulharam os socialistas?

Espero que ao menos Passos Coelho tenha a delicadeza de lhes enviar um cartãozinho a agradecer...

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Pós-eleitoral (6)

por Pedro Correia, em 29.05.14

 

Olhar para os 31,5% do PS contra a direita unida (PSD+CDS) no escrutínio para o Parlamento Europeu e ver neles um sinal imperioso para fazer rolar cabeças no partido vencedor é passar ao lado do essencial. Além de injusto para António José Seguro: ele foi um dos dirigentes socialistas que mais se aguentaram em toda a Europa, obtendo o terceiro melhor resultado para a sua família política nos Estados da eurozona.

Encaremos os factos: a esquerda socialista venceu eleições em apenas sete dos 28 países que integram a União Europeia: Eslováquia, Itália, Lituânia, Malta, Portugal, Roménia e Suécia.

Só em Malta, Itália e Roménia a votação nos socialistas foi superior à do PS.

 

Vejamos os resultados:

Alemanha - Partido Social Democrata: 27,3%

Áustria - Partido Socialista Austríaco: 24%

Bélgica - Dois partidos socialistas (francófono e flamengo): 19%

Bulgária - Partido socialista KB: 18,5%

Chipre - Partido Democrático: 10,8%

Croácia - Partido Social Democrata: 30%

Dinamarca - Partido Social Democrata: 19,1%

Eslováquia - Partido social-democrata SMER: 24%

Eslovénia - Partido Social Democrata: 8%

Espanha - Partido Socialista Operário Espanhol: 23%

Estónia - Partido Social-Democrata: 13,6%

Finlândia - Partido Social Democrata: 12,5%

França - Partido Socialista: 14%

Grécia - Oliveira (coligação de PASOK e aliados): 8%

Holanda - Partido Trabalhista: 9,4%

Hungria - Partido Socialista Húngaro (MSZP): 10,9%

Irlanda - Partido Trabalhista: 5,3%

Itália - Partido Democrático: 40,8%

Letónia - Partido Social Democrata: 13%

Lituânia - Partido Social Democrático da Lituânia: 17,3%

Luxemburgo - Partido Operário Socialista Luxemburguês: 21,6%

Malta - Partido Trabalhista: 53%

Polónia - Aliança Democrática de Esquerda: 9,4%

Portugal - Partido Socialista: 31,5%

Reino Unido - Partido Trabalhista: 25,4%

República Checa - Partido Social Democrata Checo: 14,2%

Roménia - Partido Social Democrata: 37,6%

Suécia - Partido Social Democrata: 24,5%

 

 

Em pano de fundo, bem expresso nestes números, está um modelo político em profunda crise: a social-democracia europeia. O PS de François Hollande fica reduzido a quase metade da percentagem da Frente Nacional. Milleband, o wonder boy do trabalhismo pós-Blair, queda-se pelos 25% no Reino Unido. O outrora poderoso PSOE afunda-se no pior resultado de sempre em Espanha, sem nada capitalizar de dois anos de feroz oposição ao Governo conservador de Rajoy. Até o SPD alemão não ultrapassa uns exíguos 27%.

Como escreveu Ana Sá Lopes no jornal i, numa excelente análise às europeias, "a social-democracia não serviu para nada durante a grande recessão, não se constituiu como alternativa a nada e o falhanço de Hollande é só o mais espectacular de todos".

 

Poderia a lista encabeçada por Francisco Assis ter feito melhor num cenário de dispersão de votos, potenciador das candidaturas que se esgotam no protesto?

Dificilmente.
É certo que Ferro Rodrigues alcançou 44% nas europeias de 2004. Mas os tempos eram outros, à esquerda e à direita. Alguém imagina um Marinho Pinto emergir então com a força que agora obteve? Alguém supunha que um grupo inorgânico como o Podemos, fenómeno emanado das redes sociais, surgisse como quarta força mais votada em Espanha e terceira em Madrid, como agora aconteceu? E em qualquer outro contexto Beppe Grillo chegaria a obter um quarto dos votos em Itália?


Somos sebastianistas: pensamos sempre que um indivíduo faz a diferença. Mas neste caso não faz. O problema é mais grave e mais fundo: as duas principais famílias políticas europeias estão gravemente feridas, talvez de forma irremediável, enquanto os egoísmos nacionais regressam em força com a sua oratória guerreira.

As forças extremistas e eurófobas ganham passo à medida que as áreas políticas centrais vêem o seu espaço diminuir drasticamente. Em Espanha, pela primeira vez, os dois principais partidos somados já totalizam menos de 50% dos votos expressos.

A cura, se existir, não virá de nenhum homem providencial e "carismático", de toga messiânica, dançando um De Profundis em valsa lenta.

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Pós-eleitoral (5)

por Pedro Correia, em 28.05.14

1. Domingo, falaram as urnas: Passos derrotado. Segunda, falaram os "analistas": houve empate. Terça, falaram as pulsões autofágicas no PS: Passos venceu. Razão tinha o outro: o mundo muda muito em 48 horas.

 

2. 32% será resultado "frouxo". Mas o que diremos dos escassos 14% obtidos pelo Partido Socialista francês, de François Hollande, outrora proclamado por Soares e tutti quanti como um dos faróis da esquerda europeia?

 

3. A um ano das legislativas, e após ter andado a carregar o piano desde 2011, ninguém imagina Seguro a ceder um milímetro a solistas de violino. Mesmo que venham ungidos do Vau e aspergidos de Nafarros. Óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues.

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A noite em que todos perderam

por José Gomes André, em 27.05.14

Com excepção da CDU e de Marinho Pinto, todos perderam. O PS obtém uma vitória curta, face às expectativas de congregar o voto de protesto contra a coligação PSD/CDS. A Direita sofre uma derrota histórica, que poderá abalar os alicerces do Governo (vem a caminho uma remodelação ministerial?). O Bloco continua a via da implosão. Perdeu as causas fracturantes para o PS e ao rejeitar ser hipotético parceiro dos socialistas tornou-se politicamente irrelevante. A abstenção atingiu valores elevadíssimos, resultado de um crescente (e preocupante) desânimo popular com a política (e com a Europa!) e do desgaste dos partidos tradicionais. O Governo sai fragilizado, mas a oposição não recolheu combustível suficiente para apelar de forma convincente a eleições antecipadas. A “força da rua” mostra-se nos “media” e nas redes sociais, mas o país real parece sobretudo amorfo e indiferente.

A CDU obtém um resultado notável, mas o seu discurso ideológico continua demasiado radicalizado para poder figurar como eventual parceiro de governação para o PS (e o facto de os comunistas terem feito campanha agressivamente contra os socialistas só adensou o abismo entre ambos). Marinho Pinto consegue a proeza de ser eleito para o Parlamento Europeu sem que se lhe conheça uma ideia sobre a Europa. Os eurocépticos ainda são irrelevantes em Portugal, mas o poder mediático do populismo já se faz sentir. 

[publicado ontem no Diário Económico].

 

P.S. A euforia de Seguro e Assis não passou de uma encenação para tentar vender a imagem de uma Direcção ganhadora. Correspondeu na verdade a um autêntico "canto do cisne". A vitória foi curta (como qualquer pessoa notou desde logo). Segue-se pois uma guerra civil no PS...

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